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O ATLAS COROGRÁFICO MUNICIPAL E O CENTENÁRIO DA INDEPENDÊNCIA: A REPRESENTAÇÃO CARTOGRÁFICA COMO IMAGEM-MONUMENTO

Maria do Carmo Andrade Gomes1

Introdução

A presente comunicação tem como objetivo divulgar os primeiros resultados da pesquisa de um projeto de doutoramento ora iniciado. Nosso principal objeto de análise neste texto é o Atlas Corográfico Municipal, uma publicação oficial, datada de 1926, constituída pelo conjunto de mapas municipais do estado de Minas Gerais. Buscaremos apresentar uma discussão inicial sobre o caráter marcadamente simbólico desses mapas e da sua publicação, compreendidos como uma produção exemplar do programa oficial planejado para consagrar a memória e a identidade da nação, no ensejo do centenário da independência do Brasil.

Pretendemos discutir a natureza das cartas geográficas como imagens-símbolos, construídas para dar visualidade e divulgar uma dada representação da região entendida como Minas Gerais. Pretende-discutir a “eficácia simbólica” dos mapas enquanto representações visuais carregadas de sentido e historicidade. No caso do nosso objeto de estudo, o Atlas Corográfico, demonstrar como as imagens correspondem e fazem valer, pelo sentido de autoridade técnica discutida por Pierre Bordieu (BORDIEU, 1998) as grandes linhas programáticas da afirmação da nacionalidade e da identidade regional, como elas surgiram no contexto das comemorações do centenário da independência.

Para se discutir o poder simbólico dos mapas, é preciso retomar as abordagens teóricas que tratam do imaginário social, especialmente na sua relação com o poder político e na sua capacidade enunciativa enquanto discurso científico. A função simbólica dos mapas, esses objetos tão comuns e triviais, ao contrário do que se poderia acreditar, não se atenua por serem eles (ou parecerem ser) cada vez mais utilitários, pragmáticos ou objetivos. Como coloca o historiador B. Baczko, “os mais estáveis dos símbolos estão ancorados em necessidades profundas” (BACZKO, 1985, p 311) e sua legitimidade funda-se no que o autor denomina de comunidade de sentido.

Para Baczko, o avanço dos estudos dedicados ao imaginário social deu-se no confronto com a tradição intelectual do século XIX que reduzia o imaginário a um real deformado, ao qual deveria se opor a operação científica da história, entendida como atividade de desvendamento da realidade, de separação entre o ilusório e o real, de reconhecimento da verdade por detrás das representações. Toda essa corrente de pensamento encontra-se hoje em questão pelo conjunto das ciências humanas que estudam e valorizam o imaginário como uma dimensão central do mundo social e do exercício da dominação política, ao por

“em destaque o fato de qualquer poder, designadamente o poder político, se rodear de representações coletivas. Para tal poder, o domínio do imaginário e do simbólico é um importante lugar estratégico”. (BACZKO, 1985, p 297)

Entendemos, partindo ainda de Bazko, que o imaginário social compõe-se das representações construídas pela sociedade em torno de sua ordem social, de seus atores e instituições, gerando as noções de pertencimento, identidade e legitimidade política, noções essas reguladoras e transformadoras da vida coletiva. Essas representações sociais são tecidas com os dispositivos do imaginário de cada sociedade, mas o repertório simbólico não é ilimitado e muito da dinâmica da vida social e especialmente política vem da luta pela apropriação e uso dos símbolos.

Dentre as discussões teóricas e epistemológicas sobre o estatuto do documento cartográfico, os trabalhos do geógrafo americano Brian Harley vêm ao encontro das abordagens teóricas acima referidas ao considerar os mapas como “imagens carregadas de juízo de valor” (HARLEY, 1995, p 20), um modo de imaginar, articular e estruturar o mundo dos homens e, como tal, passíveis de manipulação pelo poder dentro das sociedades. Harley aponta para as diferentes formas de traduzir as imagens cartográficas como representações culturais carregadas de mensagens políticas, seja nos seus conteúdos explícitos, nas distorções e ausências, nos signos convencionais ou no claro simbolismo das decorações de suas margens, cartuchos e vinhetas. O estudioso conclui pela especificidade da produção cartográfica no universo dos símbolos e dos discursos do saber: sua quase exclusiva vinculação aos poderes instituídos, sejam elites econômicas, grupos políticos e mais propriamente o Estado-nação.

1922, antes e depois: o contexto e o campo da produção dos mapas

A presente pesquisa concentra-se na escala regional, Minas Gerais, contexto no qual são produzidas as cartas e do qual buscam ser uma síntese visual, mas toma como referencial a escala das comemorações nacionais, onde são formuladas as grandes linhas programáticas dos festejos e para onde terminam por desaguar as produções simbólicas de maior significado da efeméride.

A comemoração dos cem anos de vida política independente apresentou-se como momento privilegiado para afirmação da nacionalidade por uma elite que começava a vivenciar os sinais de instabilidade do regime federativo nos moldes implantados na Primeira República. Se, como colocou José Murilo de Carvalho, a proclamação da República não logrou formar um imaginário coletivo que legitimasse o regime e, a um só tempo, fosse por ele legitimado, outros mecanismos e estratégias políticas para forjar esse patrimônio simbólico já vinham sendo implementadas desde o Império (CARVALHO, 1990). A ausência da “comunidade de sentido”, conceito apropriado por Carvalho de B. Baczko, em relação ao arsenal simbólico da República brasileira, poderia ser e de fato era resgatada em certo sentido pela crença no progresso e na civilização. Progresso e civilização como processos a ligar Império e República em sua marcha inexorável, deixando para trás o atraso herdado da situação colonial. As comemorações do centenário da independência parecem querer diluir as fissuras políticas e frustrações coletivas da mudança de regime no movimento maior de construção da nação independente e de sua inserção no mundo moderno, revalorizando o advento da república como etapa necessária nesta marcha.

Segundo Margarida de Souza Neves (NEVES, 1986), a exposição de 1922 representou a culminância de um processo de promoção oficial no país de grandes exposições que buscavam a celebração do progresso e da civilização inauguradas com a república. A efeméride do centenário ensejou a produção deste espaço de teatralização da nação independente, entendida e festejada como uma nação moderna. A Exposição Internacional configurou-se em uma “vitrine do progresso”, arena pública na qual foram reificadas as idéias e imagens de nacionalidade e identidade nacional e tornadas tangíveis as esperanças e a ilusão de um progresso perseguido desde a superação da condição colonial e finalmente alcançado com o advento da república.

Com a comemoração do centenário da independência forja-se a ocasião propícia para o poder constituído (no caso, o governo federal) promover uma “pedagogia da nacionalidade” (BABHA, 1998), utilizando-se da história como arsenal de imagens e símbolos na construção deste discurso celebrativo. Como expressa claramente o texto do Guia Oficial da Exposição, buscava-se construir a “imagem resumida do progresso que o país tem realizado nestes cem anos de vida livre, em todos os ramos de sua atividade”2. Esta “imagem resumida” consistia, na verdade, em um monumental espaço onde 6013 expositores brasileiros, representantes de todos os estados da federação, compunham o espetáculo orquestrado pelo poder oficial, fundado na premissa da inesgotável riqueza natural do país e direcionado no sentido inexorável do progresso da civilização.

Na perspectiva das produções comemorativas do Centenário ao nível das unidades da federação, o sentido simbólico desdobrava-se para, ao mesmo tempo, conferir e evocar sentido a uma dada representação regional que concorresse para o reforço do sentido de nacionalidade. Como colocou John Wirth, após a primeira guerra mundial, a maior integração entre os estados tornou-se um objetivo político para as elites. Um dos mecanismos dessa integração foram os constantes encontros e congressos municipais, estaduais, nacionais e internacionais que ocorreram no período, oportunidades nas quais os “grupos de elite compartilhavam informações e símbolos, demonstravam suas intenções, e faziam contatos sociais” (WIRTH, 1982, p 264-5).

Wirth denomina esses encontros estratégicos de “fenômeno de congressos”, acentuando o seu papel marcadamente simbólico, nos quais “os resultados práticos eram mínimos” (WIRTH, 1982, p.265). Tal conclusão do autor, entretanto, deve ser entendida com reservas, pois o autor parece compartilhar da antiga idéia de que o caráter simbólico dos eventos citados não constituíam uma estratégia política que conferia plenos resultados práticos sobre a realidade, como nos ensina Pierre Bordieu quando discute e reforça a noção de poder simbólico, presente na capacidade de grupos sociais de construir e impor visões de mundo, de nomear e classificar a realidade. Para ele, essas representações coletivas têm o poder de transformar a realidade, pois são partes constitutivas do real e agem sobre ele:

“enquanto instrumentos estruturados e estruturantes de comunicação e conhecimento (...) os sistemas simbólicos cumprem a sua função política de instrumentos de imposição ou de legitimação da dominação” (BORDIEU, 1998, p 10).

O então deputado federal por Minas Gerais, Nelson de Senna, em seu discurso na Câmara Federal em setembro de 1922, enfatizava os objetivos dos festejos e das iniciativas em torno do centenário:

”Nestes dias memoráveis de Setembro, urge que procedamos a um balanço rigoroso do que temos feito, do que somos e valemos como nação, do papel que representamos em face do mundo e do que havemos conquistado, no campo da civilização, no espaço de tempo decorrido de 1822 a 1922.”3

O discurso de Senna é uma peça laudatória dos “grandes vultos”, dos “progressos materiais”, da crescente exploração das riquezas naturais do território, enfim, dos aparelhamentos civilizatórios que teriam assegurado, naquele primeiro século de independência, a afirmação de uma nacionalidade brasileira que se apresentava ao mundo por ocasião da efeméride. Senna enumera “títulos e serviços” com os quais o país poderia pleitear seu lugar “em face da Civilização”: a unidade lingüística, política e religiosa do vasto território “coberto pela mesma auriverde e sagrada bandeira da Pátria”, o maior rio do mundo, a primeira catarata, a maior reserva de ferro do globo...4 Por fim, Senna anuncia o sentido simbólico do evento mais importante das comemorações, a Exposição Internacional, ocorrida no Rio de Janeiro, em setembro de 1922:

“As naves pacíficas, que ora trazem tantas embaixadas de nações amigas, aqui vão assistir a um certame internacional das Artes e Indústrias, melhor forma comemorativa das Festas Pátrias, em uma terra nova e fértil como a nossa...E nós, os Brasileiros, gratos à cativante homenagem de tantas potências mundiais e de tantos países irmãos, conservaremos, para a memória das futuras gerações, o rumor festivo desta comemoração de Setembro de 1922...”.5

Na emblemática obra francesa Les lieux de mémoire (NORA, 1997), ela própria produto das “comemorações” do bicentenário da Revolução Francesa, há uma parte reservada às comemorações, entendidas como lugares da memória. Pascal Ory, no artigo Le centenaire de la Révolution Française, na referida obra, discute o sentido e o conteúdo da “comemoração historiográfica” articulada em torno daquela data, com a criação de comitês, sociedades e revistas dedicadas ao avanço da pesquisa histórica (com artigos e edições de documentos) e à vulgarização do evento (abertura de museus locais, difusão de brochuras e estampas).

Essa comemoração historiográfica também foi parte das comemorações brasileiras em torno do centenário da independência, em 1922. Todo um conjunto de obras, eventos e mesmo instituições, particularmente voltadas para a geografia e a história, foram produzidas naquele momento em todo o país, algumas iniciativas de agremiações civis mas, sobretudo, orquestrações do poder federal e dos estados.

Entre os muitos eventos de natureza historiográfica ocorridos especialmente no Rio de Janeiro, cita-se o a inauguração do Museu Histórico Nacional, em agosto de 1922 e a realização do Congresso Internacional de História da América, aberto no dia sete de setembro com representantes de todos os países da América. Ainda que apresentando um programa bastante amplo e regimentalmente aberto a todos, é pertinente observar o caráter essencialmente oficial do encontro, com comissões nomeadas pelos governos e uma grande ênfase aos temas próprios de uma historiografia celebrativa dos grandes feitos das nações6. Uma instituição que marcou a efeméride com uma obra de caráter celebrativo e monumental foi o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, com o Dicionário Histórico, Geográfico e Etnográfico do Brasil.

Especial ênfase foi concedida aos trabalhos geográficos e entre aqueles publicados na ocasião do Centenário da Independência, destaca-se a Geografia do Brasil7, iniciativa da Sociedade de Geografia do Rio de Janeiro que reuniu diversos colaboradores de todos os estados. No programa da obra, a Comissão criada para sua edição enfatiza seu caráter didático, visando divulgar um conhecimento sintético e totalizante sobre a realidade brasileira, “todo ele subordinado a um só ponto de vista doutrinário8. O fio condutor dessa clara estratégia de disseminar elementos para composição de um imaginário social a respeito de nossa condição como nação - “a feição do livro deve ser essencialmente brasileira”9 - é explicitada nos pontos do programa: a valorização dos aspectos regionais, a conservação das tradições toponímicas locais, as especificidades da relação do homem com o meio natural. Conclui, afinal, pela afirmação do “tipo brasileiro”, ainda em formação, mas suficientemente individualizado, no “caldeamento das raças que se amalgamaram dentre de nossas fronteiras10.

Especificamente quanto à representação cartográfica do território nacional, outro trabalho monumental produzido na ocasião foi a Carta Geográfica Comemorativa do Centenário, empreendimento do Clube de Engenharia do Rio de Janeiro e considerada então a “melhor carta geográfica do Brasil”11. Este e outros trabalhos cartográficos são devedores da grande iniciativa governamental de 1920, também voltado para a comemoração do Centenário, o projeto do Recenseamento do Brasil.

As comemorações nacionais do centenário foram desdobradas nos diversos estados, que buscavam afirmar sua identidade regional como um contraponto ao discurso nacionalista, não como uma contradição mas como um reforço ao pacto federalista do regime republicano. Tratava-se em verdade de um duplo reforço, no sentido em que os concebia os eventos e personagens regionais como significativos e portadores de uma identidade nacional.

Caso exemplar é o paulista, onde as iniciativas comandadas pelo historiador Affonso E. de Taunay na direção do Museu Paulista buscavam celebrar personagens e fatos associados à história paulista, em especial o bandeirismo, dando-lhes o estatuto histórico de uma epopéia nacional. O projeto de remodelação física e conceitual do Museu direcionou esforços para as comemorações do centenário e a reinauguração das salas e galerias deu-se exatamente no sete de setembro de 22. Escultura e pintura foram conjugados para a encenação celebrativa, destacando-se as estátuas monumentais de bandeirantes e d. Pedro I e os quadros históricos retratando cenas relativas ao processo de independência, em especial a tela de Pedro Américo, “Independência ou Morte”. A museografia celebrativa reservou ainda uma sala para a cartografia colonial e para a exposição do grande mapa concebido por Taunay “Ensaio da carta geral das bandeiras paulistas”.

O programa mineiro para as comemorações do Centenário da Independência

Se a Exposição Internacional anunciou-se como o evento de maior significado simbólico nas comemorações do Centenário, enfatiza-se a importância da participação mineira e especialmente da premiação concedida no evento ao conjunto de mapas de Minas Gerais, entre os quais os mapas municipais que enfocamos nesse estudo.

Segundo John Wirth, com o êxito da mudança da capital para Belo Horizonte, o sentimento separatista perdeu força em Minas Gerais que, balanceando seus interesses e peculiaridades regionais, evoluiu durante a república velha para um “mini-sistema federal”, fundado no “patriotismo mineiro”, representação oriunda do século XVIII, e que se caracterizava pela tendência unificadora e pelo sentimento de perda ou de resistência a um papel neocolonial em relação ao Rio de Janeiro e São Paulo, unidades da federação que exerciam uma hegemonia pelo controle da exportação e importação de produtos.

O programa oficial das comemorações em Minas foi entregue à Comissão Mineira do Centenário e recebeu do governo créditos especiais, destinados especialmente à representação do Estado na Exposição Internacional, o que significou inclusive a construção de pavilhão próprio.

Ainda segundo Wirth,

“...Mantendo o espírito do centenário de autodescoberta, Minas apresentou uma corografia, um mapa topográfico detalhado e o primeiro anuário estatístico do estado. O novo Departamento de Estatísticas do estado foi organizado por Mario Augusto Teixeira de Freitas, que chefiou o censo de 1920 em Minas e agora dirigia a agência de estatística nacional. Teixeira usou Minas como teste para realizar técnicas de coleta de dados coordenada em nível municipal. Os dois departamentos estavam estreitamente ligados, uma conexão que a Exposição do Centenário bem demonstrou.” (WIRTH, 1982, p 267-8)

A Comissão Mineira do Centenário buscou promover o programa cartográfico e estatístico do estado,

“em escala e plano tais, que pudesse representar não só o estado atual da nossa cartografia, mas ainda a organização administrativa, as condições de progresso e a situação econômica de cada circunscrição municipal”.12

O projeto previa a elaboração conjunta de trabalhos estatísticos, dentro da concepção, própria do período, da convergência de objetivos entre estatística e cartografia. A carta geral do estado comemorativa do centenário foi concebida como a expressão regional da Carta Geral do Centenário, realizada pelo Clube de Engenharia no Rio de Janeiro, da qual seria um desdobramento e um complemento, a ser exposta na grande Exposição do Centenário. Para sua execução, foi acertado o trabalho comum das duas Comissões das respectivas cartas (geral e mineira), e a cooperação entre os governos federal, estadual e municipal, através do Escritório de Representação da Diretoria Geral de Estatística (órgão do Ministério da Agricultura sediado em Belo Horizonte) e da Secretaria de Agricultura. Os trabalhos deveriam resultar em um mapa de Minas na escala 1:500.000 e na publicação de um anuário estatístico e um boletim estatístico-corográfico com mapas de todos os municípios mineiros.

Na introdução do Atlas os responsáveis pela sua publicação se preocupam em apresentar a publicação como um subproduto da primeira etapa de um trabalho mais amplo e ambicioso que seria a efetiva implantação de um programa estatístico e cartográfico no Estado. Nas palavras de Daniel de Carvalho, então secretário da Agricultura, à qual estava subordinado o Serviço de Estatística, o Atlas Municipal era “a talagarça sobre a qual se tecerá a fina urdidura da Corografia Mineira”, iniciativa pioneira entre os estados do país que anunciaria o “advento da futura Geografia do Brasil, calcada em observações e estudos verdadeiramente científicos13. A introdução de Teixeira de Freitas, coordenador técnico do trabalho, embora denote um relativo desconforto com a publicação, pelo seu caráter parcial e pelas dificuldades que deixa transparecer na consecução do programa como planejado, confirma o seu caráter de síntese descritiva e visual do estado:

“Mas (...) não obstante todos os defeitos cuja possibilidade era de prever (...), o conjunto orgânico das informações gráfica e numericamente resumidas nesta obra define, de modo bastante aproximado, a situação do Estado, e não apenas em indicações de ordem geral e por meio de cifras globais, mas particularizadamente às condições de constituição e de vida de cada uma das unidades celulares do seu organismo político”.14

Se o projeto mineiro parecer ter encontrado dificuldades para se implementar por inteiro e no prazo previsto, tais condições não impediram que a comitiva mineira alcançasse grande êxito com seus mapas municipais, merecedores do Grande Prêmio da mostra cartográfica da Exposição Internacional do Centenário. Em setembro de 1923, a mostra mineira foi remontada em Belo Horizonte, no edifício do antigo Conselho Deliberativo15. A exposição compunha-se então do original da Carta Geral de estado e de 72 originais de mapas municipais e 60 impressos dos mesmos mapas.

O trabalho cartográfico prosseguiu após os festejos do centenário mas, frente às mudanças territoriais ocorridas no período e dificuldades financeiras, o grande plano de pesquisas estatístico-cartográficas e de produtos editoriais proposto pela Comissão do Centenário foi revisto em sua maior parte. A publicação da Carta Geral do Estado foi adiada, e o Atlas Corográfico Municipal só veio a ser publicado em 1926, contendo a coletânea dos mapas e as respectivas tabelas estatísticas, mas as minuciosas monografias municipais, previstas no plano original, jamais foram terminadas.

Ainda que o programa cartográfico celebrativo da efeméride tenha sido interrompido e fragmentado, ou talvez por isso mesmo, os mapas municipais e as tabelas estatísticas publicados restaram como fontes preciosas para a compreensão do sentido dado e compartilhado pelas comemorações do centenário.

Os mapas municipais: crônicas locais da civilização e do progresso

Os 178 mapas do Atlas são reproduções impressas de quadros aquarelados, em sua maioria com grande número de ilustrações a bico de pena que retratam cenas urbanas, paisagens naturais e outros marcos identificadores da localidade cartografada.16

Na concepção do Atlas Corográfico Municipal, é interessante observar que o programa de imagens a ser seguido será basicamente o mesmo preconizado pelos editores da obra Geografia do Brasil, qual já nos referimos, quando se apropriam do potencial didático e persuasivo das imagens e preconizam o seu uso: “a obra deve ser ilustrada, trazendo plantas de detalhe, cartas das regiões de maior interesse corográfico e fotografias de aspectos dos principais centros povoados ou das regiões mais características da natureza da país”.17

A composição de cada mapa mostra um enquadramento retangular definido pelas coordenadas (latitude e longitude), dispondo os contornos coloridos do município ao centro, circundado por diferentes quadros: estatísticas de população, posição do município no estado, planta da cidade-sede distrital, legenda, posições geográficas conhecidas e reproduções a bico de pena de fotografias. As escalas dos mapas variam consideravelmente de município para município, pois o que está em jogo é a centralidade e a singularidade do município em um quadro emoldurado e de tamanho relativamente fixo. A escala submete-se ao projeto estético do mapa.

Embora apresente um padrão geral, o tratamento estético dispensado aos mapas é bastante desigual, assim como o volume de informações. Como explicou o coordenador do trabalho Teixeira de Freitas, todas as ilustrações foram feitas a partir de fotos fornecidas pelos próprios municípios, que forneceram também as plantas urbanas de suas sedes. Esse procedimento explica a desigualdade no tratamento informativo e mesmo ilustrativo dos mapas, mas ao mesmo tempo confere um sentido ainda mais simbólico a este conteúdo, uma vez que, sendo as próprias localidades que escolhem suas fotos, certamente estas guardam maior identificação com a imagem com quais se identificam.

Mas o principal fator de diferenciação estética é sem dúvida a autoria, pela qualidade dos trabalhos assinados pelo alemão Afonso de Guaira Heberle. O cartógrafo é o responsável por 80 mapas, além de ser o autor de todas as ilustrações dos mapas assinados pelos dois outros cartógrafos do conjunto, Odilon Loureiro e Joaquim Moreira Barbosa. Em síntese, cabe a Guaira Heberle o forte apelo artístico do Atlas, não fosse ele o responsável pelas reproduções em bico de pena das fotografias encaminhadas por cada município ao Serviço de Estatística e que compõem a maioria dos mapas, o próprio desenho do mapa já assegura a superioridade do seu traço.

Quanto aos elementos da paisagem representada, objetos de uma seleção consciente, como apontou Brian Harley, o destaque é certamente para as linhas de caminhos, sejam estradas de ferro, construídas ou “em construção”18, de automóveis ou de carroças tecidas sobre a superfície do município, e superpostas às linhas dos rios, dos telefones e dos telégrafos. Dois outros ícones se distribuem pelas cartas e guardam estreita relação com a rede de caminhos: aqueles relativos aos correios e à navegação. A imagem do território municipal assim estruturada enfatiza a existência de uma rede de transportes e de comunicações que traduz e generaliza a idéia, ainda que desigual entre os diversos municípios, de uma região unificada, coesa, acessível. Transportes e comunicações certamente significavam o progresso a caminho.

Outra rede superposta a esta é a da toponímia, que por sua vez parece expressar o sentido descritivo dos mapas, valorizando os núcleos urbanos e hierarquizando-os pelos tamanhos e espessura dos nomes19. Além da rede hidrográfica os únicos elementos da paisagem natural que surgem nas imagens são algumas serras e os números indicativos de altitudes.

Quanto às ilustrações, cumpre observar que os elementos retratados em sua maioria são cenas urbanas, onde se destacam as fachadas dos edifícios mais importantes, ou seja, aqueles ocupados como centros de poder político ou jurídico – Fóruns e Câmaras Municipais – e especialmente as igrejas matrizes e capelas, denunciando a força e permanência desses espaços religiosos no cenário e na vida das localidades. São significativas as imagens de equipamentos relativos ao conforto, ao progresso e à modernidade urbana como captação de água, iluminação elétrica, praças e jardins. São enfatizados sobretudo as imagens das escolas, verdadeiros símbolos da um processo de civilização em curso, e os diferentes meios de transportes e comunicação, como os rios e a navegação, bondes, pontes e estradas. Alguns exemplos dessas crônicas locais encontram-se em anexo.

Conclusões

O Atlas Corográfico Municipal, da forma como terminou por ser publicado, caracteriza-se pelo seu caráter marcadamente monumental, no sentido dado ao termo por Jacques Le Goff (LE GOFF, 1984), ou seja, como construções gráficas concebidas para revelar ou perpetuar uma determinada imagem da cidade ou do território. Isto se deu em detrimento da funcionalidade com que foi concebido no conjunto do programa cartográfico da Comissão Mineira do Centenário. O contexto comemorativo prevalece sobre a função objetiva de controle do território cartografado. Embora se perceba uma busca de equilíbrio entre o registro científico da totalidade física (grades de coordenadas, altitudes, toponímia, rede hidrográfica detalhada), há prevalência do sentido estético e comemorativo, como exemplificam as ilustrações e estilemas que emolduram cada um dos mapas municipais. A predominância dos motivos estéticos e ilustrativos sobre os elementos técnicos da descrição cartográfica também evidenciam o seu conteúdo de representação simbólica.

Entendendo, como aponta Annie Jourdan (JOURDAN, 1998), a representação como um meio de demonstrar, intensificar ou redobrar uma presença, que se efetua por meio de imagens, símbolos ou signos, podemos concluir que o Atlas, em seu conjunto, traduz uma representação dos municípios e do estado de Minas Gerais, na qual são enfatizados, através desses mecanismos citados, os elementos do progresso técnico, da civilização, da construção de uma rede regional de transportes e comunicações que assegura a ocupação e coesão do território.

A participação exitosa dos mapas no certame do Centenário no Rio de Janeiro sugere um rito de celebração maior que seu caráter pretensamente informativo e simplesmente estético. Os mapas participam e vencem o concurso nacional, porque os elementos do imaginário social nele inscritos dão conta,com a chamada eficácia simbólica, de disseminar e perpetuar as idéias veiculadas por todo o programa oficial das Comemorações: as idéias de um país unido, de um território coeso, de um sociedade no rumo do progresso e da civilização.

Os testemunhos cartográficos situam-se em trânsito numa fronteira entre o discurso científico pretensamente isento, o instrumento de poder do Estado na afirmação do território, a composição artística de uma dada visão do mundo, como exemplifica o Atlas Corográfico Municipal. Em todas as instâncias, entretanto, está presente o caráter e a função simbólica desta família de imagens.

Notas

1 Guia Oficial da Exposição Internacional do Centenário. Citado por: NEVES, M. de S. Op. cit. p 63. voltar

2 SENNA, Nelson de. Primeiro centenário da Independência do Brasil. Discurso comemorativo proferido na Câmara Federal. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1922. p 5. voltar

3 Temas destacados no discurso: vultos da História, desenvolvimento de linhas férreas, principais produtos comerciais agrícolas, minerais e animais, serviço postal e telégrafos, crescimento populacional e contribuição de diferentes etnias e procedências, fusão de raças, saneamento urbano, laicização do Estado, definição de fronteiras, contribuição de estrangeiros, vitória na guerra do Paraguai. voltar

4 SENNA, N. de. Op. cit. p 33. voltar

5 CONGRESSO Internacional de História da América. Diário Oficial, 19 maio 1922. voltar

6 GEOGRAFIA do Brasil comemorativa do 1o. Centenário da Independência: 1822-1922. Rio de Janeiro: Lit. Tip. Pimenta de Mello, [1923]. voltar

7 SOCIEDADE de Geografia do Rio de Janeiro. Indicações Gerais sobre a confecção da Geografia do Brasil Comemorativa do Centenário da Independência. 1919. Rio de Janeiro: Tip. Lit. Rohe, 1920. p 9. voltar

8 Idem. p 22. voltar

9 Idem. p 22-3. voltar

10 AZEVEDO, Fernando de. As ciências do Brasil. [Rio de Janeiro]: Melhoramentos, s/d. p 389. voltar

11 Mensagem dirigida pelo presidente do Estado dr. Arthur da Silva Bernardes, ao Congresso Mineiro, em sua 4a. sessão ordinária da 8a. legislatura no ano de 1922. s.n.t. p 54. voltar

12 SECRETARIA DA AGRICULTURA. Serviço de Estatística Geral. Atlas Corográfico Municipal. Belo Horizonte: Imprensa Oficial, 1926. v. 1. p VI. voltar

13 SECRETARIA DA AGRICULTURA. Op. cit. p VIII. voltar

14 Com a extinção da Comissão do Centenário, a sua Seção de Estatística e Cartografia foi transformada, ainda em 1922, no Serviço de Estatística Geral do Estado, órgão subordinado à Secretaria de Agricultura, cuja chefia foi entregue ao antigo responsável pela Diretoria Geral de Estatística, Manoel A. Teixeira de Freitas. voltar

15 A CARTA de Minas Comemorativa do Centenário. Revista Agrícola, Industrial e Comercial Mineira. Belo Horizonte, v. 1, fascículo 3, set. 1923. p 239. voltar

16 Enquanto a autoria dos mapas foi dividida com os cartógrafos Odilon Loureiro e Joaquim Moreira Barbosa, todos os desenhos e ilustrações podem ser atribuídos a Affonso de Guaíra Heberle, cartógrafo e paisagista alemão naturalizado brasileiro. voltar

17 SOCIEDADE de Geografia do Rio de Janeiro. Op. cit. p 8. voltar

18 Pesquisa mais aprofundada poderia comprovar a veracidade destas indicações de ferrovias em construção, que nos parecem marcadas pela intenção de veicular uma imagem de progresso ou uma reivindicação em andamento. A não comprovação destas iniciativas seria mais um elemento a comprovar o caráter propagandístico dos mapas. voltar

19 Segundo uma leitura semiótica, o tamanho relativo das letras dos topônimos tem uma natureza icônica, por reproduzir por similaridade o tamanho dos municípios: letras maiores para municípios maiores. Não se pretende aqui aprofundar tais análises semióticas, mas é importante sublinhar que tal abordagem permite efetuar uma leitura das imagens que leve em conta os recursos visuais que concorrem para a produção de uma mensagem propriamente cartográfica. voltar

Referências Documentais

A CARTA de Minas Comemorativa do Centenário. Revista Agrícola, Industrial e Comercial Mineira. Belo Horizonte, v.1, fascículo 3, set. 1923.

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Mensagem dirigida pelo presidente do Estado dr. Arthur da Silva Bernardes, ao Congresso Mineiro, em sua 4a. sessão ordinária da 8a. legislatura no ano de 1922. s.n.t.

MINAS GERAIS. Presidente, 1918-1922 (Arthur da Silva Bernardes). Mensagem dirigida pelo presidente do Estado dr. Arthur da Silva Bernardes, ao Congresso Mineiro, em sua 4a. sessão ordinária da 8a. legislatura no ano de 1922. [Belo Horizonte, 192-].

Minas Gerais. Secretaria de Agricultura. Relatório apresentado ao Exmo Sr. Dr. Fernando de Mello Vianna, Presidente do Estado de Minas Gerais, pelo Dr. Daniel de Carvalho, Secretário da Agricultura, Indústria, Terras, Viação e Obras Públicas, referente aos anos de 1922 a 1926. Belo Horizonte, 1927.

MINAS GERAIS. Secretaria da Agricultura. Relatório apresentado ao Exmo Sr. Dr. Antônio Carlos Ribeiro de Andrada, Presidente do Estado de Minas Gerais, pelo Sr. Dr. Djalma Pinheiro Chagas, Secretário da Agricultura, Indústria, Terras, Viação e Obras Públicas, e referente ao período de 1o. de janeiro de 1927 a 15 de junho de 1928. Belo Horizonte: 1928.

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SOCIEDADE DE GEOGRAFIA DO RIO DE JANEIRO. Geografia do Brasil: comemorativa do 1° Centenário da Independência: 1822-1922. Rio de Janeiro: Pimenta de Mello, [1923].

Livros, periódicos e outros

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Figura 1: Município de Araxá

O mapa de Araxá traz ilustrações de dois serviços urbanos diretamente relacionados às idéias de progresso e civilização: a eletricidade (representações da sub-estação de energia e da usina hidrelétrica) e a salubridade da água (representação do sistema de captação de água potável). O detalhe abaixo permite observar que mesmo os motivos ornamentais que emolduram a imagem são sugestivos da idéia de iluminação elétrica, por simularem postes ou lustres acesos, numa composição que joga criativamente com os postes representados no desenho da cena urbana.

Figura 2: Município de Botelhos

Uma representação bastante recorrente entre os mapas do Atlas Corográfico são as fachadas das escolas, especialmente do ensino fundamental, os chamados grupos escolares. A existência de escolas, da instrução pública, mesmo em um pequeno e obscuro município, era condição primeira de ingresso do lugar na civilização. No detalhe a reprodução da fachada da escola é emoldurada por símbolos do saber e da ciência (globo, livro, mapa, régua e compasso e uma chama).