EDU 01-01

O ENSINO MÉDIO E O PROGRAMA DE AVALIAÇÃO SERIADA PARA INGRESSO NO ENSINO SUPERIOR1

Angela Maria de Carvalho Maffia2
Fernanda Ribeiro Pinto3

Introdução

Um dos problemas da educação brasileira diz respeito ao vestibular, inicialmente porque o modelo adotado pouco favorece os candidatos provenientes das escolas públicas, havendo assim seletividade social. Outra questão diz respeito à sua influência negativa no ensino médio, que direciona uma prática docente caracterizada por planejamentos centralizados em conteúdos prescritos por estes exames, ou seja, por aulas desenvolvidas quase que exclusivamente através de exposições do professor, resoluções de exercícios e estímulo a memorização. Em relação ao ensino de ciências; Química, Física, Matemática e Biologia, KRASILCHIK (1987), aponta que estas disciplinas têm sido ensinadas como uma coleção de fatos, descrição de fenômenos, enunciados de teorias a decorar. Fazendo uma análise dos principais problemas de química no ensino médio, BELTRAM e CISCATO (1991), apontam como um fator complicador para esse ensino o seu atrelamento ao vestibular. Segundo os autores,

"a pressão para 'dar a matéria' e 'terminar' o programa, tem resultado na superficialidade da análise dos fenômenos, na má construção dos conceitos e na ausência do relacionamento do assunto com o saber todo da química. Nessas condições este estudo desliza para o seu grau mais baixo e mais inútil: a simples memorização de conceitos e de 'regrinhas' para resolver problemas e testes visando passar no vestibular".(p 13)

Ressaltando, CANTIELLO E TRIVELATO (2000), apontam que

"o currículo do ensino médio é profundamente influenciado pelo vestibular que leva ao ingresso no curso superior. Desde seu programa, elaboração de questões e análise destas, o vestibular torna-se um importante instrumento para a discussão sobre, no caso, o currículo de biologia no ensino médio e para a verificação do perfil dos alunos em relação a aprendizagem".

Todavia o que se propõe hoje é educar os alunos para entender melhor o mundo em que vivem, criando nestes um pensamento democrático, humanístico e científico. Não comportando aí o ensino tradicional e propedêutico como é ministrado em muitas escolas. Como afirma ÁLVARES (1992), a proposta do ensino das ciências hoje é atuar diretamente na construção e no exercício da cidadania.

Algumas Universidades como a de Santa Maria, Brasília, Uberlândia, Viçosa e outras implantaram uma proposta alternativa de vestibular que consiste basicamente em avaliar ao longo de três anos o desempenho dos alunos do ensino médio. Em Viçosa, implantou-se o PASES (Programa de Avaliação Seriada Para o Ingresso no Ensino superior) para o triênio 1998-2000 que se propõe ao final da 3ª avaliação, classificar os alunos para ocupar 30% das vagas oferecidas para cada curso, da Universidade Federal de Viçosa (UFV). Esta avaliação distribuirá 100 pontos, sendo 20 deles na primeira série, 30 na segunda e 50 na terceira. Nesta última série as provas serão as mesmas do vestibular convencional, porém, será considerada a maior nota proporcionando aos candidatos duas oportunidades de avaliação.

De acordo com o Manual de Participante do PASES, os principais objetivos, em relação aos alunos são: realizar um processo de seleção menos tenso que o vestibular, valorizar o conhecimento adquirido pelo estudante tão logo tenha sido assimilado; oferecer oportunidade de, no transcorrer do ensino médio, comparar-se com candidatos de diferentes escolas, corrigindo falhas, redirecionando seus estudos. Também prescreve objetivos em relação às escolas que se baseiam em promover uma relação destas com a UFV, maior interação entre as coordenações das licenciaturas e escolas do ensino médio, corrigindo suas falhas e reduzindo suas deficiências, bem como compatibilizar seus programas com as novas propostas das Diretrizes Curriculares Nacionais do Ensino Médio. O PASES também visa subsidiar o professor do ensino médio com informações tais como: relatórios estatísticos dos rendimentos dos participantes do programa e soluções comentadas das provas realizadas. Ainda, oferecer a esses professores programas de treinamento e reciclagens.

Em estudo recente, MAFFIA e outros (1999), avaliaram o impacto do PASES em uma escola pública de Viçosa, e seus desdobramentos no ensino de Biologia, na prática do professor, e na organização curricular deste estabelecimento. Dentre outros, tal estudo evidenciou que o PASES pode estar antecipando a seletividade dos alunos do já excludente sistema de ensino ,uma vez que constatou baixo número de inscrições ao PASES. Também verificou que devido as alterações curriculares, este programa gerou desorientação no professor que não sabe qual programa seguir; se o da Secretaria do Estado de Minas Gerais, àquele da escola ou PASES. Todavia, por este estudo ter sido realizado em uma única escola pública, necessita de parâmetros de comparação, em relação à escola particular e mesmo, reforçar os dados obtidos previamente para se chegar a dados mais conclusivos.

Portanto, este estudo teve por objetivo:

1. Investigar quanto a realização pelo PASES, de programas de formação continuada para professores, e quanto à contribuição das provas corrigidas e enviadas.

2. Verificar a demanda de estudantes da 3ª série do Ensino Médio de uma escola pública e outra particular, que se submeteram a última etapa do PASES (triênio 1998-2000).

3. Levantar o número de alunos que fazem curso preparatório nessas escolas;

4. Verificar se trouxe contribuições para os cursos de Licenciaturas (Química, Física, Matemática e Biologia) da Universidade Federal de Viçosa;

Metodologia

Como os objetivos propostos para esta investigação foram de investigar quanto a realização pelo PASES, de programas de formação continuada para os professores, e quanto à contribuição das provas corrigidas e enviadas; verificar a demanda de estudantes da 3ª série do Ensino Médio de uma escola pública e outra particular, que se submeteram a última etapa do PASES (triênio 1998-2000); levantar o número de alunos que fazem curso preparatório nessas escolas; verificar se trouxe contribuições para os cursos de Licenciaturas (Química, Física, Matemática e Biologia) da Universidade Federal de Viçosa; optamos por continuar com a perspectiva da metodologia qualitativa. O caráter primordial desta, segundo Bogdan e Biklen, citados por LÜDKE e ANDRÉ (1988), é que

"esse tipo de pesquisa envolve a obtenção de dados descritivos, obtidos no contato direto do pesquisador com a situação estudada, enfatiza mais o processo que o produto e se preocupa em retratar a perspectiva dos participantes".

Desta forma, utilizamos os seguintes instrumentos:

1. Questionário para levantar o número de alunos que se submeteriam a última etapa do PASES (triênio 1998-2000);

2. Entrevistas

ð Aos diretores das escolas para verificar se houve melhoria no ensino a partir da implementação do PASES, através de melhor desempenho dos alunos e, oferecimento de programas de capacitação aos professores;

ð Aos professores para levantar as implicações do PASES na sua prática em sala de aula e se tem tido acesso às provas com as questões resolvidas e comentadas subsidiadas pelo PASES;

ð Aos Coordenadores dos Cursos de Licenciatura em Ciências da UFV e Professores de Prática de Ensino, para verificar como tem sido a relação entre PASES e a formação do professor, como os objetivos propostos pelo PASES tem interferido no curso.

3. Análise Documental: análise do Manual do PASES, para conhecer os objetivos deste para os alunos, escolas, professores do Ensino Médio e comparar ao que está sendo realizado nas escolas. Além de documentos pertinentes ao vestibulares ocorridos e ao próprio PASES, em relação a demanda de inscritos, relatório sócio-cultural, resultados de aprovação e matrículas.

Os sujeitos centrais deste estudo foram alunos da 3a. Série do Ensino Médio de uma escola pública e de outra particular da região de Viçosa, diretores e professores destas escolas e Coordenadores dos Cursos de Licenciaturas e Professores de Prática de Ensino da Universidade Federal de Viçosa.

Resultados e discussão

Antes de iniciarmos a discussão sobre os resultados obtidos nesta etapa do trabalho, faremos um resumo dos resultados obtidos no primeiro momento.

Retomando, o objetivo geral deste estudo foi verificar a influência do Programa de Avaliação Seriada para Ingresso no Ensino Superior (PASES) no ensino de Química, Física, Matemática e Biologia, de uma escola pública e outra particular da cidade de Viçosa, MG.

Inicialmente, por meio de análise de documentos e entrevistas, realizamos um levantamento histórico da implantação deste programa e situamos que a Universidade Federal de Viçosa, foi a 5a a implantar este tipo de vestibular.

Também traçamos o perfil sócio-econômico dos grupos envolvidos, tanto daqueles que se submeteram ao PASES de 1998 como dos demais que o fariam pela 1ª vez em 1999. Encontramos que na Escola Particular 84,2% dos alunos de 1ª série e 81,4% de 2ª série se inscreveram no programa. Em contraste, a percentagem de inscritos da Escola Pública que foi de 50% e 52,1% para as 1ª e 2ª séries respectivamente. Verificamos também que nos cursinhos pagos, preparatório para o PASES, os alunos são provenientes das escolas particulares. Estes dados apontaram que as chances de ingresso à Universidade podem ser maiores para os alunos cujas famílias têm maior poder aquisitivo.

Em relação aos alunos da 2ª série, foi verificado que houve 5,4% e 21,9% de desistência para submissão à 2ª etapa do programa para aqueles da escola particular e pública respectivamente. A maioria destes, principalmente os alunos da rede pública, decepcionou-se com os resultados da primeira etapa.

No que diz respeito a influência do PASES no ensino de ciências, os professores das escolas têm utilizado como referência para o ensino, o vestibular e o PASES. Tal fato evidenciou uma tendência ao ensino propedêutico.

De acordo com alguns professores, um dado positivo diz respeito ao maior entusiasmo dos alunos em estudar mais para passar no PASES.

Os conteúdos de ensino foram alterados em relação as séries escolares mostrando que tal programa alterou o currículo das escolas.

1. Quanto aos relatórios, provas comentadas e programas de formação continuada para professores do Ensino Médio

O PASES que tem como principal objetivo a melhoria do ensino, e como meta para isto:

"subsidiar o professor com informações tais como relatórios estatísticos dos rendimentos dos participantes do programa e soluções comentadas das provas já realizadas; e , intensificar os programas de extensão relativos a Treinamento e/ou Reciclagem de Professores do Ensino Médio". (Manual do Participante, 1999:10)

Em relação às informações dos resultados das provas e comentários, perguntamos a dois diretores e a 11 professores, sete da Escola Particular e 4 da Escola Pública, se estavam tendo acesso a este material e se as provas corrigidas eram utilizadas em suas aulas. Verificamos que apenas 36% dos professores têm recebido a prova corrigida regularmente, após a sua realização anual. Dezoito por cento receberam apenas a prova correspondente a primeira etapa. Destacamos que uma grande maioria (46%) nunca as recebeu. (Vide figura 1).

Na tentativa de buscar respostas ao porquê do não recebimento deste material fomos nos informar junto a Comissão Permanente de Vestibular (COPEVE). Verificamos que estas provas corrigidas não são enviadas à escola, mas, sim, disponibilizadas na UFV, mediante pagamento de uma taxa, por parte do professor ou da escola interessada.

Quanto à contribuição das provas corrigidas para melhoria do ensino, os poucos professores que as possuem ressaltaram que são de grande importância, porque as utilizam para a resolução de questões, auxiliam na preparação da aula e de provas ou outros exercícios. Um professor mencionou que estas provas têm contribuído para a melhoria de sua prática "posso ter certeza de que não estou preparando meus alunos fora da realidade" . Cabe-nos aqui ressaltar que essa realidade é o vestibular, o que o aluno busca é o ingresso no Ensino Superior e, as aulas e as questões resolvidas pelos alunos mais a ajuda do professor servem apenas de base para novas questões.

Sabemos que a função da escola não pode se limitar apenas a preparar para o vestibular. De acordo com os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) (1999), o qual busca direcionar e organizar o aprendizado, o Ensino Médio deve ter como objetivo "produzir um conhecimento efetivo, de significado próprio, não somente propedêutico". Se tais exercícios estão sendo realizados de forma descontextualizadas, podem estar levando os alunos a uma aprendizagem memorística. Relativo a isto, Ausubel, citado por MOREIRA (1983), ressalta que:

"aprendizagem mecânica (ou automática) é aquela em que novas informações são aprendidas praticamente sem interagir com conceitos relevantes existentes na estrutura cognitiva, sem ligar-se a conceitos subsunçores. Isto é, a nova informação é armazenada de maneira arbitrária e literal, não interagindo com aquela já existente na estrutura cognitiva e pouco ou nada contribuindo para sua elaboração e diferenciação" (p 22).

Em relação a Programas de Treinamentos e Reciclagem, na visão de um dos professores entrevistados, tais provas contribuem para a capacitação do professor, pois através de novas questões propostas, este pode estudar e elaborar outras, mudar conteúdos e a forma de aplicá-los.

Em contrapartida, dois professores afirmaram não ver nenhuma contribuição neste material, porque estes têm outros meios de prepararem as aulas, "o meu ensino não é baseado em provas corrigidas e, sim, em livros, apostilas e artigos científicos".

Em relação aos Programas de Treinamento e Reciclagem de professores, proposto no Manual do PASES, os dois diretores entrevistados ressaltaram que até a presente data (02/2001) nada foi oferecido.

2. Demanda de alunos inscritos ao PASES

Aplicamos um questionário aos alunos de 3ª série do Ensino Médio de duas Escolas Públicas e uma Particular para levantarmos a demanda daqueles que iriam se submeter à terceira etapa do PASES.

Na Escola Particular, dos 168 alunos matriculados, 141 participaram do questionário e, destes, 73% (104 estudantes) se inscreveram ao processo seletivo.

Quando perguntamos o que os levou a participar do PASES, apenas 27% dos 104 responderam. O quadro-1, nos resume as alternativas assinaladas pelos alunos.

Quadro 1 - Razões que levaram os alunos da Escola Particular a participarem do PASES

NÚMERO DE ALUNOS

PORCENTAGEM DE ALUNOS

JUSTIFICATIVAS

33

89,2%

Maior possibilidade de ser aprovado

3

8,1%

Para dar continuidade

1

2,7%

Inscrição mais barata

Assim, temos que a maioria dos alunos acredita que através do PASES a chance de ser aprovado para o Ensino Superior é maior, principalmente porque este terá duas chances. A primeira através do PASES e a Segunda através do Vestibular tradicional. Segundo os entrevistados: "achamos que aumentam as nossas chances para o Ingresso na UFV".

Dos 37 alunos da Escola Particular que não se inscreveram ao PASES, 26 deles apresentaram diferentes razões, que se encontram explicitadas no quadro 2.

Quadro 2 - Razões que levaram os alunos da Escola Particular a não se inscreverem ao PASES

NÚMERO DE ALUNOS

PORCENTAGEM DE ALUNOS

JUSTIFICATIVAS

15

57,7%

Não teve interesse

4

15,4%

Prefere fazer o vestibular

4

15,4%

A UFV não oferece o curso desejado

2

7,7%

Não obteve bons resultados

1

3,8%

Participa de Processo Similar

Verificamos que alguns alunos não se inscreveram por não serem de Viçosa, outros porque não estavam levando a sério o vestibular deste ano, principalmente por não estarem se sentindo preparados. Para estes, o melhor seria a inscrição direta ao vestibular tradicional no próximo ano. Outros 7,7% não se inscreveram porque ficaram desanimados com os resultados das primeiras etapas do PASES. Estes dados são confirmados na primeira parte do trabalho, quando constatou-se uma desistência de 5,4% para a realização da segunda etapa nesta Escola. Vale ressaltar que a desistência ao PASES não eqüivale a desistir de ingressar no Ensino Superior. De acordo com um dos alunos "acho que minhas notas não foram boas, então achei que não era necessário (a inscrição ao Programa), mas fiz minha inscrição para o vestibular".

Os dados do mesmo questionário aplicados às duas Escolas Públicas serão discutidos a seguir. Neste contamos com a participação de 115 alunos dos quais 87 inscreveram-se ao PASES e 28, não.

Dentre os 87 alunos inscritos, 74% justificaram o porquê de o terem feito. O quadro 3 nos resume tais dados.

Quadro 3 - Razões que levaram os alunos da Escola Pública a participarem do PASES

NÚMERO DE ALUNOS

PORCENTAGEM DE ALUNOS

JUSTIFICATIVAS

52

82,5%

Maior possibilidade de ser aprovado

9

14,3%

Para dar continuidade

1

1,6%

Inscrição mais barata

1

1,6%

Boa atuação nas outras etapas

Assim como na Escola Particular, a maioria dos alunos da Escola Pública acredita que o PASES é uma outra possibilidade de ingressar na Universidade. Isto está explícito no Manual do Participante, 1998-2000, "o PASES permitirá aos participantes concorrer, também, no vestibular".

Quanto aos que não se inscreveram ao PASES, 28 alunos, 64% destes apontaram diferentes razões que se encontram expostas no quadro 4.

Quadro 4 - Razões pelas quais os alunos da Escola Pública não fizeram o PASES

NÚMERO DE ALUNOS

PORCENTAGEM DE ALUNOS

JUSTIFICATIVAS

15

62,5%

Não se inscreveu para o PASES ou para última etapa

3

12,5%

Prefere fazer o vestibular

2

8,3%

Não obteve bons resultados

2

8,3%

Não pretende fazer vestibular

1

4,2%

Dúvida sobre aprovação na escola

1

4,2%

Programa do PASES não vencido pela escola

Encontramos no questionário aplicado aos alunos das Escolas Públicas três justificativas para as não inscrições ao PASES, que não foram explicitadas na Escola Particular: incerteza de aprovação, não vencimento dos conteúdos recomendados no Programa do PASES, falte de interesse em prestar o vestibular, pois queriam ingressar em outra carreira.

3. Quanto aos cursos pagos preparatórios para o vestibular

Uma outra questão levantada em nosso estudo, diz respeito aos cursinhos pagos preparatórios para o PASES.

Entretanto, cabe ressaltar que, como na terceira etapa do PASES todo o conteúdo de 1ª, 2ª e 3ª séries são incluídos, não existe na cidade de Viçosa, cursos preparatórios pagos voltados para o terceiro ano do PASES. Existem vários cursos preparatórios para o vestibular, como: Exitus, Anglo, Pitágoras, Gama, Equipe, dentre outros. Assim, o que procuramos verificar referiu-se ao número de alunos da Escola Pública e da Particular que procuraram por tais cursinhos.

Na Escola Particular, dos 104 alunos participantes do PASES, 27% estão matriculados em cursos preparatórios pagos, e 73%, não.

Segundo os alunos que estão matriculados em cursinhos

"através do curso se é possível revisar a matéria, podendo, assim, ter uma melhor preparação para a prova, pois alguns conteúdos são esquecidos. Além disso, há também, um maior debruçar sobre questões correspondentes ao próprio vestibular. É um estudo mais detido na memorização de exercícios do que na ligação do conteúdo com o cotidiano".

Dos 76 alunos que não estão matriculados nos cursos preparatórios, 67% justificaram porque não sentiram necessidade de cursá-los. As diversas razões se encontram explicitadas no quadro 5.

Quadro 5 - Razões pelas quais os alunos da Escola Particular não estão matriculados em cursinhos

NÚMERO DE ALUNOS

PORCENTAGEM DE ALUNOS

JUSTIFICATIVAS

15

31,2%

A escola prepara muito bem

15

31,2%

Vai fazer "Intensivão"

11

23%

Não tem tempo, a escola toma muito tempo

3

6,2%

Estuda em casa

2

4,2%

Não está interessado/faz vestibular por experiência

1

2,1%

Falta de condições financeiras

1

2,1%

Não é da cidade

Por outro lado, vamos encontrar que na Escola Pública, dos 87 alunos que estão inscritos ao PASES, 36%, ou seja, 37 estudantes, fazem curso preparatório, e, destes, 25 explicitaram porque os cursam. (Vide quadro 6).

Quadro 6 - Razões pelas quais os alunos da Escola Pública fazem cursinho

NÚMERO DE ALUNOS

PORCENTAGEM DE ALUNOS

JUSTIFICATIVAS

12

48%

Relembrar a matéria e preparar-se melhor

11

44%

A escola não preparar

2

8%

Ganhou o curso

Em relação aos 56 alunos que não fazem cursinos pagos, 82% destes justificaram de maneiras diversas esta não participação. (Vide quadro 7).

Quadro 7 - Razões que levaram alunos da Escola Publica a não se matricularem em cursos preparatórios pagos

NÚMERO DE ALUNOS

PORCENTAGEM DE ALUNOS

JUSTIFICATIVAS

21

42,8%

Não têm condições financeiras

9

18,4%

Não têm tempo ou trabalham

12

24,5%

Não estão preparados/a escola não deu base

6

12,2%

Estudam em casa

1

2,1%

Crê que há escolas favorecidas

Um dado que nos surpreendeu foi a alta porcentagem de alunos provenientes de Escolas Públicas que se inscreveram nos cursinhos preparatórios para o vestibular. Chamamos atenção que são 36% de alunos da Escola Pública e 27%, de Escolas Particulares que se matricularam em tais cursinhos. Isto pode ser justificado pelo fato dos alunos da Escola Particular terem a 3ª série integrada ao pré-vestibular. O que não justifica um curso preparatório. E, verificando os dados do perfil sócio-econômico dos alunos da escola pública, encontramos que 47,8% destes pertencem a famílias com renda entre 4 e 7 salários mínimos. Este pode ser um fator que permite a estes alunos fazer um curso preparatório.

Entretanto, do outro lado está a maioria que corresponde a 64% dos estudantes da Escola pública, não matriculados em cursinhos, sendo que 21 destes, não o fazem por falta de condições financeiras, ficando a margem da preparação para o ingresso à Universidade. E, além deste fator, ainda se inclui a má preparação oferecida pela escola, que conforme o quadro-6, levou 44% dos alunos a fazerem um curso preparatório, e, no quadro-7, 24% a não o fazerem. Em relação a isto, GUIMARÃES (1984), ressalta que a seleção sócio-econômica precede a seleção intelectual, pois o ingresso ao Ensino Superior está pautado no modelo da estratificação da sociedade brasileira. O que é reforçado por RIBEIRO (1987), quando propõe que a seletividade escolar é caracterizada como uma questão de seletividade social.

Entretanto, mesmo com as diferenças traçadas, de um aluno da Escola Particular ter maior chance de ingresso ao Ensino Superior do que um aluno da Escola Pública, por ter uma preparação mais voltada para tal, neste estudo observamos que o número de alunos da rede pública ao processo é representativo (75,65%). Neste sentido, GUIMARÃES aponta que:

"é compreensível que o acesso ao ensino superior permaneça uma aspiração tão generalizada, mesmo diante das evidências de que as chances de satisfazer essa aspiração sejam reduzidas e monopólio, quase exclusivo, de uma elite sócio-econômica. A ação da estrutura social no campo da educação pode provocar a reação dos indivíduos que, movidos por uma espécie de "instintos de sobrevivência social", busca via escolarização, superar suas próprias origens sociais" (p 36).

4 - COORDENADORES DE CURSOS DE LICENCIATURAS E PROFESSORES DE PRÁTICA DE ENSINO

O manual do participante do PASES (1998:10) apresenta dentre os objetivos do programa para com as escolas de Ensino Médio:

"Promover uma relação entre a UFV e as Escolas de Ensino Médio... promover uma maior interação entre as Coordenações das Licenciaturas oferecidas pela UFV e as Escolas de Ensino Médio, corrigindo falhas e reduzindo deficiências...

Em entrevista aos coordenadores e professores das licenciaturas, buscamos conhecer como a interação UFV/Licenciatura e escolas estavam ocorrendo. Verificamos que tal ainda é desconhecida. Para alguns dos entrevistados, a interação ocorre, mas não de forma direta, pois acreditam que a partir de que foi traçado o programa dos conteúdos a Universidade e a escola estão tendo algum tipo de relação, cabendo assim a escola se apropriar daquilo que lhe convier.

Segundo alguns professores o que tem sido realizado, talvez condizente a interação, diz respeito aos relatórios sobre as questões propostas nas provas e seus índices de acertos e erros e, alguns questionários de professores das escolas da região, criticando algumas questões ou o programa. Tais afirmações são equivocadas uma vez que já discutimos que as provas não estão sendo mais enviadas aos professores.

Para alguns professores as interações que são realizadas com as escolas em nada se ligam ao PASES, principalmente pelo fato de não haver uma estrutura de informação e de planejamento para quais as atividades deveriam ser levadas.

Muitas são as tentativas que se fazem de estar promovendo um ensino melhor, entretanto, essas iniciativas não decorrem do programa, mas sim da tentativa de melhor formação do graduando, com futuro professor, sendo estas tentativas realizadas por professores de disciplinas como instrumentação para o ensino, que já faz parte da Grade dos cursos de Química, Física, Biologia e Matemática (este ainda está para implementar a disciplina), e das matérias pedagógicas ministradas pelo Departamento de Educação. Mas os professores salientaram que em nada tem se relacionado com o PASES, uma vez que não há meios propostos pelo programa que aproxime Licenciaturas e escolas de Ensino Médio.

De acordo com um dos professores entrevistados "poderia ser criado um núcleo que viesse a auxiliar, promover a integração proposta pelo programa, uma vez que é difícil tanto para o professor e o aluno das Licenciaturas quanto para o professor e aluno do Ensino Médio se encontrarem. Assim seria possível trabalhar as dificuldades que são percebidas através da realização das provas pelos alunos sem um conhecimento".

Verificamos também que nem todos os professores dos cursos de licenciaturas têm conhecimento do PASES.

O PASES, mesmo que informando aos professores das licenciaturas não poderia melhorá-las, o caminho tem que ser inverso.

Tal situação é reforçada pela idéia de que as avaliações, de forma geral, "sempre foi uma atividade de controle que visava a selecionar e, portanto, incluir alguns e excluir outros". (GARCIA, 2001:1). Entretanto apresenta-se sob um novo nome, uma vez que GARCIA traz as concepções de Barriga, que diz " ser recente a denominação Avaliação a uma prática por muito tempo chamada de Exame". Sendo este, segundo Foucault, um espaço onde as relações de conhecimento, saber, são transformadas em relações de poder, hierarquizando e normatizando as relações.

Dentro desta perspectiva, RESENDE (2001), ao fazer um estudo sobre o Programa Alternativo de Ingresso ao Ensino Superior (PAIES-UFU) , expõe o papel e a razão da avaliação dizendo que:

"A avaliação é algo que se processa no espaço social e por isso mesmo é histórica, é cultural e está implicada em relações de poder. Desse modo, a avaliação traduz visões sociais particulares e interessadas, ao mesmo tempo em que contribui para a produção de identidades individuais e sociais. As práticas avaliativas sempre vão se vincular as formas específicas e contigentes de se organizarem tanto a educação como a própria sociedade".

Conclusão:

Neste segundo momento de nosso estudo, verificamos que atualmente poucos professores têm tido acesso às provas corrigidas do PASES, uma vez que estas não estão sendo enviadas às escolas e, sim, disponibilizadas mediante pagamento de taxa. Desta forma, a contribuição deste material parece estar sendo irrisória no que diz respeito à possível melhoria do ensino por meio deste instrumento.

Constatamos também, que no caso das duas escolas estudadas, não estão sendo oferecidos aos professores Programas de Treinamento e Reciclagem, conforme previsto no Manual do Participante do PASES. Ao levantarmos a demanda dos estudantes da 3a. série de duas Escolas Públicas e uma Escola Particular, que se submeteram a última etapa do PASES, verificamos que o percentual de alunos inscritos foi semelhante. Para estes, o PASES é uma chance a mais para se ingressar na Universidade (UFV). A principal razão que os levou a participar deste vestibular seriado está ma maior oportunidade.

A maioria dos alunos das duas escolas investigadas não fez cursinho para preparatório para o Vestibular. Todavia, verificamos que um maior percentual de alunos da Escola Pública (36%) estavam matriculados nestes cursinhos. Aprofundando nesta questão, encontramos que na Escola Particular investigada, a 3ª série trabalha seus conteúdos convencionais e recorda aqueles das 1ª e 2ª séries. Desta forma, não há necessidade de se cursar paralelamente um pré-vestibular pago.

A desistência dos alunos ao PASES, também em percentagem semelhantes na rede pública e particular, pode ser atribuída principalmente à decepção que tiveram quando receberam os resultados das provas anteriores.

Notas

1 Pesquisa financiada pelo PIBIC/CNPq. voltar

2 Departamento de Educação/UFV. voltar

3 Graduanda em Pedagogia/UFV. voltar

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