EDU 01-02
AVALIAÇÃO E AUTONOMIA: UM ESTUDO DE CASO
Estudo Diagnóstico da Graduação em Veterinária - UFV1
Fernando Tavares Júnior2
Apresentação
Este trabalho estudou a relação do ensino de graduação (rendimento, currículo e atividades acadêmicas de ensino, pesquisa e extensão) com a estrutura de administração universitária. Como fruto de uma monografia sobre Estrutura e Funcionamento do Ensino Superior, os pressupostos teóricos foram as principais correntes teóricas dedicadas à análise da autonomia universitária e avaliação institucional. Pesquisou-se, através de um estudo de caso, a graduação em Veterinária da Universidade Federal de Viçosa (UFV). A metodologia envolveu duas etapas: a primeira, quantitativa, teve como objetivo a elaboração e construção de um banco de dados sobre o rendimento acadêmico de todos os estudantes, tendo como parâmetros as informações gerais produzidas pela instituição. Além de traçar o perfil geral do desempenho acadêmico do corpo discente, também proporcionou o contraste de desempenho por nível econômico (“bolsas carência”), por “entrada” (classificação obtida no vestibular: “1ªchamada” - primeiros convocados para matrícula - ou “2ª chamada”- outras convocações) e por sexo. Na segunda etapa, qualitativa, utilizaram-se entrevistas semi estruturadas com estudantes (10%), professores e coordenadores, tendo como objetivo diagnosticar as principais lacunas e falhas no currículo problemas de gestão e anacronia do currículo e avaliar o trabalho docente. Detectou-se um recrutamento elitizado, o amplo relato de stress durante o curso, diferenças de rendimento numa mesma disciplina em função do professor e dificuldade de o currículo acompanhar as inovações na sociedade e lentidão burocrática para implantar mudanças. Isso sinalizou para um grave problema na organização do processo de gestão curricular, envolvendo desde a rigidez da estrutura acadêmica até o processo de trabalho docente, apontando para a necessidade de ampliar a autonomia universitária, para torná-la real.
Autonomia e avaliação têm sido foco de atenção das políticas educacionais se relacionam diretamente com a forma como é gerida a Universidade. A melhoria da formação superior passa pela reformulação do processo de construção do conhecimento (currículo), exigindo planejamento estratégico das ações mais eficazes para concretizar as decisões tomadas a partir da avaliação e reelaboração da gestão acadêmica. A contemporaneidade traz consigo agentes novos na reestruturação social, impulsionados por avanços significativos das forças produtivas. Configura-se então uma conjuntura econômico-cultural que agrava o anacronismo da estrutura e do funcionamento do ensino superior, especialmente no caso brasileiro.
Dentro das atuais políticas públicas que buscam oferecer respostas para atenuar tal problemática, as discussões acerca da AUTONOMIA e AVALIAÇÃO universitárias tomam lugar central, em grande parte por serem vistas como caminhos importantes para a solução da “crise universitária contemporânea”.
Embora muitas vezes discutidas de forma estanque, tanto a autonomia quanto a avaliação, da forma como tem sido postas pelo Governo, tem na administração universitária um espectro comum e fundamental de formulação de políticas e da definição do modo como serão implementadas as mudanças e por conseqüência qual será a “qualidade das respostas” que a Universidade dará às demandas da população.
Por outro lado, esse processo tem se mostrado fortemente vertical - dos Órgãos Superiores (MEC, Sesu, SEE) para as Universidades e Faculdades - sem que estas, em sua maioria, tenham amadurecido, dentro de suas comunidades acadêmicas os pontos norteadores para a efetivação das alterações propostas, principalmente no que tange aos problemas cotidianos do ensino de graduação. Esse quadro revela traços do ranço autoritário que marcou a história das Reformas Universitárias Brasileiras.
Nessa perspectiva, a primeira parte deste trabalho foi uma monografia direcionada no intuito de pesquisar, através de um estudo de caso, a graduação em Veterinária da Universidade Federal de Viçosa (UFV), tendo como objetivo diagnosticar e avaliar a formação acadêmica tomando como parâmetros índices e informações normalmente não utilizadas pelos processos de avaliação institucional hoje em curso em boa parte das IFES (Programa de Avaliação Institucional das Universidades Brasileiras, Exame Nacional de Cursos, Comissão Interna de Avaliação Institucional, Programas de Avaliação Docente, etc).
A partir desse diagnóstico inicial, enfatizando os principais problemas e potencialidades, estudou-se a relação do ensino de graduação com a estrutura de administração universitária, na ótica advento da autonomia didático-científico-financeira.
Metodologia
Devido às limitações de tempo e recurso, optou-se pelo estudo de caso de um curso (Veterinária), priorizando a análise de desempenho de seu corpo discente. A opção por este curso se deu principalmente por causa do interesse institucional em diagnosticá-lo e reformular seu currículo, além de uma melhor acolhida da proposta de pesquisa por parte tanto da Pró-Reitoria de Ensino quanto da Coordenação de Curso.
Para estruturação do diagnóstico, foram elaboradas duas etapas concomitantes, embora distintas em seus métodos. A primeira, de caráter mais quantitativo, teve como objetivo a elaboração e construção de um banco de dados sobre o rendimento acadêmico de todos os estudantes matriculados no curso, reunidos por turmas (a partir do ano de ingresso: de 90 a 96). Esses dados foram obtidos através da aglutinação de registros da Pró-Reitoria de Ensino, Comissão Permanente de Vestibular, Assistência Estudantil e Registro Escolar.
Esse banco de dados, além de traçar o perfil geral do desempenho acadêmico do corpo discente, também proporciona o contraste de desempenho por nível econômico (concessão de “bolsas carência”), por “entrada” (classificação obtida no vestibular: “1ªchamada” - primeiros convocados para matrícula - ou “2ª chamada”- outras convocações), por sexo e por origem (geográfica, familiar, escolar). A classificação por origem não pôde ser concluída de forma adequada, devendo ser completada e analisada posteriormente a partir do material já preparado.
O quadro geral de desempenho é dividido em dois blocos. O primeiro bloco diz respeito a dados gerais, constando da identificação e classificação do estudante e seu rendimento geral atualizado. O segundo bloco busca a análise de pontos específicos do rendimento, quais sejam: análise histórica do coeficiente, estudo dos casos de reprovação por período e por disciplina, análise comparativa de rendimento.
Na segunda etapa, de metodologia qualitativa, utilizaram-se entrevistas semi estruturadas com estudantes, tendo como objetivo diagnosticar as principais lacunas e falhas no currículo problemas de gestão e anacronia do currículo e avaliar o trabalho docente. A amostragem utilizada foi de 20 (em relação ao total de matriculados) - tomando como critério para escolha da entrevista estudantes próximo da formatura 9turmas 91 e 92), estudantes envolvidos no processo de discussão curricular (Centro acadêmico, Câmara Curricular e Comissão de Avaliação), estudantes no meio do curso (turmas 93 e 94), e cujo perfil de rendimento seja heterogêneo em relação aos demais entrevistados.
Ocorreu ainda uma terceira etapa de checagem e complementação de dados em que foram priorizadas aquelas informações da elite mais importantes para a elaboração das conclusões do diagnóstico. Nessa etapa recorreu-se novamente aos registros da UFV e foram realizadas outras entrevistas com estudantes e professores.
Organização e Análise dos Dados
O curso de Veterinária apresenta características marcantes na afirmação de sua qualidade. No diagnóstico do corpo discente, o recrutamento extremo e o alto rendimento no Vestibular são demonstrativos dessa excelência, figurando entre os 3 cursos (juntamente com Engenharia de Alimentos e Informática) que obtém nota de corte mais elevada e apresentam alto recrutamento externo.
Outro fator que elabora para essa caracterização é o baixo índice de reprovação, onde, mesmo ao final do curso, cerca de 80% dos alunos apresentam no máximo 2 reprovações. O perfil do “estudante problema” típico - alta reprovação, duração do curso extensa, freqüentes semestres sem rendimento mínimo - é pouco presente ficando restrita a 1 ou 2 casos por turma (1 em 90. 2 em 91, 1 em 92).
Contudo, é freqüente a queda temporária do rendimento, caracterizada pela queda do coeficiente, trancamentos sucessivos ou evasão. Nas estudantes do sexo feminino, os trancamentos são explicitados genericamente pela ocorrência de gravidez ou casamento, uma vez que não foram pesquisados todos os casos. Mas o principal fator da ocorrência dessa etapa “crítico” é o “stress”provocado no decorrer do curso, tendo como produto ou a evasão ou o retorno ao “rendimento normal”, verificado antes dessa etapa.
O problema de stress também foi detectado na gestão do currículo e nas entrevistas com discentes e docentes . As disciplinas que apresentam mais índice de reprovação estão concentradas em outros departamentos que não Veterinária (Biologia e Química). Além de serem freqüentes as disciplinas que apresentam expansão da carga horária além do programado pelo regime didático. Os períodos pares iniciais, 2º/4º/6º também concentram essas disciplinas, e logicamente são as mais difíceis; além de serem prejudicadas em todos os anos em que ocorre um período de “greve”.
Na análise do cotidiano de sala de aula, através das entrevistas, alguns outros problemas somaram-se à sobrecarga do curso. Além do estresse os principais, que apareceram na maioria das entrevistas e os mais freqüentes também no relatório de avaliação do curso, tangem aos seguintes aspectos:
a) Falta de atualização dos conteúdos em relação às demandas da sociedade: As disciplinas e a grade curricular são avaliadas como atrasadas e defasadas, o que se agrava devido à falta de canais de diálogo e intercâmbio mais freqüentes entre o curso, o departamento e o mercado de trabalho. Questões então atuais como ecologia e manejo de animais, a incipiente biotecnologia e administração e agro-negócios, bem como outros temas, eram reclamados em várias disciplinas, como Biologia Ambiental, Economia Rural e outras. Havia também grande preocupação com os parâmetros para que essa atualização fosse feita, uma vez que atualizar simplesmente adotando novos livros não seria uma adequação correta com as complexas mudanças sociais.
b) Relação professor X aluno e relações de poder em sala de aula (“marcação”, privilégios): foi comum nas entrevistas a reclamação da postura dos professores e da concentração de poder nas mãos de um docente que controla uma cadeira e influencia sua área. Não foi construído a tempo um instrumento de investigação adequado para pesquisar esse tipo de relação, entretanto, dado o conjunto de reclamações, esse é um tema que deve ser levantado como problemático, somando-se a ele a dificuldade em identificá-lo, analisá-lo e tratá-lo. Um dado relevante nos relatos foi a correlação entre desempenho acadêmico e a subjetividade da relação entre professor e o aluno. Isso deslocaria o foco da aprendizagem e domínio de conteúdos e habilidades para as relações em sala de aula e a afinidade pessoal com o professor. Agrava-se o problema se considerarmos, dentre todos os elementos do processo de ensino, o mais criticado foi a metodologia de avaliação – tema que se segue. Uma medida que foi levantada como importante para atacar esses problemas foi a avaliação externa dos professores pelos alunos, que deveria ser de responsabilidade de um equipe ou órgão externo ao departamento e ao curso, mas que tivesse poderes de intervir de maneira dialógica no projeto pedagógico do curso, na qualificação e treinamento de professores e na correção de comportamentos desviantes do eixo epistemológico escolhido para o Curso de Veterinária, bem como para outros cursos. Sem avaliação externa do curso e dos professores, faltam informações adequadas para uma correta reforma ou atualização, e principalmente as ações de replanejamento são feitas às escuras, o que prejudica muito sua qualidade.
c) Sistema e Metodologia de avaliação: embora poucas vezes sejam questionados a competência e o conhecimento dos professores, sua estratégia de ensino e principalmente sua metodologia de avaliação são muito criticadas. São relatadas reclamações ao coordenador e inclusive às chefias de departamento, entretanto isso parece não ter surtido efeito à época. Há disciplinas em que o rendimento médio varia muito a cada semestre, o que não se justifica se pensados o conteúdo, o nível médio dos alunos e as condições de ensino. Não havia parâmetros claros que definissem os critérios que organizar a metodologia de avaliação e isso deixava os alunos à mercê do bom humor de alguns professores que organizavam o sistema de avaliação das disciplinas de acordo com seus critérios pessoais, ou, de acordo com relatos, de acordo com sua relação com a turma, principalmente nas avaliações orais e práticas (por exemplo, VET 145 e 342). Como é a avaliação das disciplinas que define o fluxo curricular e as competências que são exigidas dos alunos, é fundamental que a avaliação também seja avaliada, para que sejam fornecidas informações que a construção de indicadores necessários para a tomada de decisões.
d) Rigidez da estrutura curricular (conteúdo, ementas, pré-requisitos, fluxo curricular): a grade curricular – ou rede – deve ser dinâmica e adequar-se de forma ágil às mudanças na sociedade e no mercado de trabalho. Para isso sua estrutura deve ser flexível e permeável a mudanças. A estrutura do curso não apresentou essas características. O sistema de créditos fragmentou de tal forma a organização curricular que por fim acabou por engessar o fluxo de matrículas e o andamento do curso. O volume alto de disciplinas obrigatórias, ligada ao número pouco articulado de disciplinas optativas acabou por criar um grupo misto de disciplinas, denominadas arbitrariamente de “optatórias”, que pouco contribuem para a dinâmica do currículo. A organização curricular pareceu mitificada, como se não coubessem questionamentos. A fraca discussão sobre o currículo e sua dinâmica em sala de aula construiu um curso desarticulado em muitas áreas, sendo o aluno e o coordenador (ajudados por alguns professores de exceção) os artífices dessa articulação. O que pareceu mais grave é que mesmo com AUTONOMIA, a instituição não sabia o que fazer nessa área. Faltavam informações, faltavam dados, faltavam análises. Faltava AVALIAÇÃO. O currículo é uma das áreas em que se percebe a articulação fundamental entre autonomia e avaliação. A linha norteadora da LDB descreve uma liberdade nos processos (autonomia) e uma rigidez nos resultados (avaliação). A lei nem os órgãos superiores expõem estratégias de trabalho que organizem de modo eficaz essas duas esferas, mas cobram seus resultados! Por isso é fundamental a análise na própria instituição de sua organização e de suas atividades para que essas esferas possibilitem de um lado a produção de informações relevantes e claras, que possam instruir, de outro lado, a tomada de decisões.
e) Relação teoria X prática e relação com o mercado de trabalho:
1. Profissionalização: nesse aspecto, os fatores mais enfatizados em relação à reavaliação e replanejamento foram:
- Importância de estágios: implantação de espaços no currículo que possibilitem a experiência da atividade profissional.
- Familiarização com o processo de trabalho cotidiano: de forma semelhante ao estágio, mas inerente às disciplinas, é fundamental que os professores estejam em contato com instituições que ultrapassam os muros, ou, no caso da UFV, das quatro pilastras, como sindicatos, órgãos de classe, conselhos, empresas, ONGs, governos municipais, estaduais e federal. São essas atividades que cumpririam a função de uma Avaliação Externa e Social do curso e nutririam de informações os responsáveis pela formação de novos profissionais.
2. Parte prática das disciplinas:
- Novas tecnologias: Embora a Universidade produza muitas tecnologias, pareceu o curso impermeável à velocidade do progresso científico. Somente as áreas muito próximas da pesquisa, ou os alunos que estivessem engajados em programas de iniciação científica, conseguiam chegar às novas tecnologias.
- Aulas mais instrumentais: Em muitas disciplinas, o conhecimento era muito teórico, literato, prejudicando a formação do futuro médico veterinário por conta de negligenciar habilidades e atividades instrumentais que dele seriam cobradas quando de sua inserção no mercado de trabalho.
A ênfase, tanto nas estruturas quanto no relatório, recaiu sobre os 3 últimos itens: Sistema de avaliação, rigidez do currículos e relação teoria X prática. Esse quadro repete-se, genericamente, em outros cursos de graduação; conforme apurado junto à Reitoria, Pró Reitoria de Ensino , e outros órgãos da UFV responsáveis pela avaliação das disciplinas.
Embora o Curso de Veterinária apresenta peculiaridades, foram diagnosticados nele problemas comum à graduação, configurando-o como uma amostra (ainda que restrita) da situação geral da formação superior.
Cabe, contudo isolar para análise, nesse caso, os problemas freqüentes em outros cursos que dizem respeito ao baixo rendimento acadêmico, alta evasão, extenso prazo de duração do curso, enfim os problemas relativos à qualidade do corpo discente - que nesse caso foi caracterizado como de alto nível.
Também o corpo docente pode ser assim classificado, tanto por sua qualificação acadêmica quanto pelo fato de problemas relativos ao conteúdo das disciplinas terem apresentado baixa incidência, não sendo destacados nas entrevistas e citados em apenas 8 disciplinas (em 48) analisadas no relatório de avaliação do curso. Mesmo assim em 6 casos citados em áreas que necessitavam de mais professores, ou reclamações relativas a docentes de qualificação incipiente.
Análise das disciplinas:
1) Disciplinas e áreas elogiadas:
- Processamento e Produtos Lácteos Fermentados, Desidratados e Concentrados, Processamento de mel e ovos e Processamento de Carne e Derivados.
- Citologia.
- Anatomia Veterinária.
- Técnica Operatória, Patologia e Clínica Cirúrgica e Obstetrícia e Ginecologia Veterinária.
2) Disciplinas e áreas criticadas:
- Introdução à Estatística.
- Bioquímica Fundamental.
- Química Fisiológica.
- Histologia Veterinária.
- Farmacologia Veterinária.
- Semiologia Veterinária.
- Epidemiologia e Saneamento.
- Inspeção de Produtos de Origem Animal.
- Zootecnia Geral.
3) Disciplinas e áreas que deveriam ser reformadas:
- Biologia Ambiental.
- Princípios de Biofísica.
- Economia Rural.
- Planejamento e Administração da Empresa Rural.
- Fisiologia Veterinária.
- Microbiologia Veterinária, Doenças Bacterianas, Doenças Virais.
- Parasitologia e Doenças Parasitárias.
- Histopatologia e Anatomia Patológica.
- Laboratório Clínico.
- Fisiopatologia da reprodução.
- Clínicas Geral e Específicas.
4) Disciplinas e áreas que deveriam ser replanejadas ou colocadas como optativas:
- Histologia e Embriologia Geral.
- Filosofia da Ciência.
- Química Orgânica.
- Bovinos e Eqüinos.
- Suínos e Aves.
- Nutrição Animal.
- Alimentos e Alimentação.
Corpo Discente
A análise do rendimento do corpo discente se deu basicamente em torno dos seguintes aspectos:
1) Periodização: rendimento (aprovações médias por período. Normal: 5);
2) Coeficiente: rendimento;
3) Ano de ingresso: turmas;
4) Sexo;
5) Bolsa (benefício de):indicador indireto de Nível Sócio Econômico.
Para análise de turmas completas, foram selecionadas turmas entre o 5º e o 9º período. Para análise de rendimento, foi dada ênfase ao número de créditos cursados e aprovados por período. O coeficiente, embora uma medida importante, foi utilizada apenas para comparação entre sexos e bolsistas, mas não entre turmas. O programa utilizado foi o SPSS e a apresentação segue os padrões originais.
Em relação ao primeiro aspecto, o volume de estudantes desperiodizados é baixo e, no caso de estudantes do sexo feminino, a incidência se deu na maioria das vezes em função de gravidez ou casamento. Percebe-se, no gráfico 1 em anexo, como a desperiodização é um fenômeno não característico da população em estudo. A média é de 5,12, o primeiro percentil, ou seja, para menos de um quarto dos casos a média é de 4,88.
Conclui-se que, embora não sejam dados suficientes apontar uma correlação significativa no nível de 99,9%, nem para uma análise que busque a generalização, o que aliás não era intento desse estudo de caso, observou-se:
a) Uma relativa constância entre as turmas em relação ao rendimento médio – que é alto. As tabelas 2 a 4 apontam esse traço de continuidade, observando sempre que normalmente se espera com o tempo o desgaste da aprovação média uma vez que o aluno está mais tempo submetido ao curso e ao estresse típico da metade do curso, bem como a disciplinas variadas.
b) Uma pequena diferença entre os sexos, que não deve ser tomada por si só como indicadora de melhor rendimento isoladamente uma vez que outras variáveis (como gravidez) podem estar incidindo sobre a correlação e seria espúrio afirmar categoricamente que os estudantes homens têm rendimento melhor que as mulheres.As tabelas 5, 6, 7, 11, 12, 13 tratam dessa relação.
c) Em relação aos bolsistas, embora ocorra caso semelhante ao sexo, parece haver uma proximidade maior, indicando indiretamente que estudantes com nível sócio econômico mais baixo, contemplados com bolsas, tendem a ter rendimento um pouco superior ao restante do grupo, conforme tabelas 8 a 10 e 14 a 16. Entretanto cabem novos estudos. Como o realizado por Iolanda Sampaio FONSECA (2000) e Walmer FARONI (2000), bem como o trabalho de Maria Neli Ribeiro CUNHA (CUNHA, 1998).
Conclusão
Conclui-se que o foco do problema está na organização do processo de gestão curricular, envolvendo desde a rigidez da estrutura acadêmica até o processo de trabalho docente. Dentre os problemas detectados podem ser listados o excesso de burocracias, a deficiência das condições de trabalho, a divisão por áreas estanques (inibindo e dificultando a interdisciplinaridade), o modo como é gerido o sistema de departamento, a falta de intercâmbio com o mundo do trabalho e a sociedade em geral, etc.
A configuração do processo de produção do currículo, relacionado à estrutura universitária encontrada e á sua gestão apresenta-se, no caso estudado, como sendo o principal elemento mantenedor dos problemas estruturais encontrados.
Para superação desses entraves, é fundamental avançar na discussão da autonomia e na reformulação do processo de gestão universitária. Enquanto propostas assinalamos primeiramente a opção de um curso para estudo aprofundado e execução de um plano piloto.
No que tange à reformulação da estrutura curricular, primeiramente deve ser pensada a alteração do processo de trabalho docente na ótica da relação currículo X gestão. A organização curricular deve ter como pontos centrais a flexibilidade e agilidade demandadas pelos rápidos avanços da contemporaneidade.. Deve haver uma permuta entre a noção de “conhecimento estanque” (literário) pela construção coletiva de “habilidades”. Deve ainda estudar caminhos pela implementação de trabalhos em comum, na ótica da interdisciplinaridade.
A organização departamental exige principalmente a instrumentalização da coordenadoria de curso - e sua tomada de posição à frente da gestão curricular ; - e também a reorganização interna - priorizando a ação coletiva, à formação de grupos e núcleos (pesquisa, estudo, extensão), etc.
Quanto à administração, cabe criar condições mínimas de avanço através de planejamento estratégico. Para tanto, é necessário que se cumpram satisfatoriamente as etapas de pesquisa (diagnóstico apontando problemas e pontencialidades), política (traçar as metas e objetivos), planejamento (ações e processos a serem implementados) e administração (controle e efetivação dos programas, bem como seu direcionamento quando necessário).
Contudo, essas medidas só tem como surtir efeito se construídas implementadas a partir de um processo coletivo e emancipatório, onde seus participantes se concentram em seus principais agentes construtores.
Notas
1 Excertos da Monografia “Estudo Diagnóstico da Graduação em Veterinária” orientada pelo Prof. José Henrique, quando da conclusão do curso de Pedagogia - UFV, constando da disciplina Estrutura e Funcionamento do Ensino Superior (agosto/96 a fevereiro/97). voltar
2 Mestre em Educação, eixo Gestão Administrativa e Pedagógica da Educação, pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Pedagogo, pela Universidade Federal de Viçosa. Graduando em Psicologia, UFJF. voltar
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