EDU 01-04

AVALIAÇÃO: O QUE O ALUNO ESPERA DO PROFESSOR?

Antônio Wilson Pagotti1

A educação escolar brasileira tem passado pelo processo avaliativo em dois grandes aspectos: o institucional e o ensino - aprendizagem. No campo institucional duas são as principais avaliações que vêm sendo implementadas pelo Estado: a primeira é o ENEM, Exame Nacional do Ensino Médio, a segunda é o Exame Nacional de Cursos, o Provão. O ENEM, tem como objetivo avaliar no aluno, competências, mais do que a capacidade de acumular informações. São avaliadas: a redação, conhecimentos gerais, domínio da linguagem, compreensão de fenômenos, construção de argumentações consistentes e elaboração de propostas de intervenção na realidade. Os resultados a partir de 1998, têm indicado que a maior dificuldade dos estudantes é construir argumentações consistentes, e, na maioria das competências avaliadas, o desempenho tem sido insuficiente ou regular. O Exame Nacional de Cursos do Ministério da Educação, mais conhecido como Provão, procura avaliar a qualidade do ensino da graduação universitária por meio de provas respondidas por todos os alunos que estão no último ano do curso. Entre as principais conclusões apresentadas sobre os resultados, numa escala de zero a dez, nove dos dez cursos avaliados tiveram nota média inferior a cinco. No exame do ano de 1999 foram avaliados 2.049 instituições, e aproximadamente 173.612 alunos de 13 cursos. No ano 2000 foram mais de 200.000 alunos avaliados. Com base no desempenho dos alunos e das condições de ensino oferecido, o MEC classifica as escolas e, pela legislação vigente, pode decidir pela manutenção ou fechamento da instituição. No estágio atual, a ação do MEC, é orienta para a verificação e renovação de reconhecimento dos cursos. O discurso oficial é que estão sendo acompanhados de maneira mais próxima os cursos que tiveram avaliação negativa, e os que obtiveram três menções negativas correm o risco de fechamento, porém, de fato, isto não tem acontecido.

Estes exames, que refletem procedimentos que estavam ocorrendo de forma assistemática nas escolas, parece ter acelerado, em muitas instituições, providências a que começassem a rever seus processos avaliativos. Assim as avaliações de currículo, cursos, programas, do aluno e do professor ganharam destaque. A bibliografia sobre o tema foi ampliada e trabalhos mais antigos ganharam novas edições. As revistas e os congressos educacionais têm destacado a área de avaliação, ampliando os debates.

Se por um lado a avaliação institucional passou a ser a forma de qualificar a escola, a avaliação de ensino - aprendizagem ganhou nova dinâmica, pois há interdependência entre os dois níveis avaliativos. É impensável uma boa avaliação sem a existência de uma boa avaliação de ensino-aprendizagem.

Nesta reflexão tem-se revigorado o sentido do avaliar para educar, mas é fundamental entender o contexto onde isto ocorre. Souza (1997) destaca que a avaliação que o professor faz define seus valores, sua visão de futuro e da sociedade que pretende construir com os alunos que está formando. em sentido amplo pode-se dizer que o educar implica na ação docente que procura contribuir para que o aluno busque sua autonomia intelectual e moral e que possa atuar produtivamente na sociedade. Nesse sentido, é necessário ao professor estar atento as formas de pensar do aluno e da maneira de solucionar os problemas de participar das aulas. Só é possível uma boa avaliação de ensino-aprendizagem na medida em que o professor acompanha diretamente o desenvolvimento do aluno dando a ele a oportunidade de se manifestar, de questionar, de opinar. O ambiente democrático coordenado na autoridade do professor é que propicia a construção adequada do conhecimento. Esse caminho implica no conhecimento de si e no relacionamento com o outro. Para tanto é necessário verificar: as condições educacionais prévias dos alunos, o acompanhamento dos seus desempenhos e de sua evolução escolar. Esta não é uma tarefa tranqüila, Depresbitéris e Taurino (1997) ressaltam o difícil percurso do educador para avaliar, pois avaliar é julgar. Assim, para julgar é necessário definir critérios e, para se ter critérios é preciso levantar indicadores. Avaliar deve pressupor abrangência para abordar: o conhecimento já adquirido, o saber fazer, identificado pelas habilidades, pela aplicação e o saber ser, identificado nas atitudes diante das situações problemas e na tomada de decisões. Nestes casos dois aspectos são evidentes: o da qualidade formal que se reveste do aspecto técnico, da competência para produzir e aplicar conhecimentos, e da qualidade política, que se refere à construção da identidade individual e cultural.

Darsier (1996) ressalta a importância da educação numa visão libertadora, cujas ações devem ser coletivas e consensuais, investigativa, cooperativa, que privilegia a compreensão e ajuda a formar a consciência crítica. Nesse caso a avaliação em sua função diagnóstica, deve propiciar a auto-compreensão e tomada de consciência sobre o "para onde ir educacional", destaca que o aluno deve se perceber no processo , analisando e compreendendo o seu desempenho. Destaca também que a função da avaliação é motivar o crescimento, deve ser auxiliar e consolidar a aprendizagem.

Neste processo, reflexivo sobre a avaliação houve o aprofundamento da discussão de alguns pontos: qualidade ou quantidade, objetivismo - subjetivismo, sujeito - objeto, procedimento formativo - somativo, ... o que tem ampliado a sua compreensão geral. Isto também permitiu que o destaque avaliativo, que historicamente esteve centrado no aluno, passasse a ter também como elemento chave o professor. Este, como intermediário da relação ensino - aprendizagem, percebeu que foram redobradas as atenções ao seu fazer educativo e assim procedimentos para avalia-lo ganharam espaço. Para Moreira (1998) o professor é obviamente o fator mais crítico na eficácia de qualquer programa objetivando a melhoria no ensino. No texto de Pena Firme (1998), avaliando o docente e o ensino, destaca vários objetivos para que melhor se avalie a relação ensino aprendizagem, entre eles: examinar os pontos fortes e fracos das práticas mais comuns da avaliação do corpo docente; incluir o maior número de docentes ao decidir os critérios que devem ser usados na avaliação do desempenho para o seu crescimento e desenvolvimento.

É neste contexto que a avaliação do docente feita pelo aluno tem destaque. Afinal o aluno é o sujeito terminal da ação educativa docente e o conhecimento construído é o reflexo de uma práxis.

Neste sentido muitas tentativas têm sido feitas para o desenvolvimento de instrumentos para a avaliação docente pelos alunos. Pena Firme (1998) ressalta que a avaliação do docente pelo aluno deve ser analisada com precauções, e que o docente tem razões fundamentadas para teme-la, uma vez que é freqüente o seu uso como meio de coerção.

Ao pensar-se a avaliação docente deve-se ter não só o ideal, no ponto de vista da instituição e dos próprios docentes. A principal avaliação do docente é feita pelo aluno, e isto tem um peso duplo, que se revela no exercício da educação e também na ligação afetiva, elementos de grande importância no ensino - aprendizagem. Nesse sentido o aluno também deve estar preparado para avaliar o professor, mais ainda, o aluno deve se questionar sobre o seu próprio desempenho acadêmico, a importância da busca do conhecimento, os seus objetivos pessoais e seu desenvolvimento educacional.

A avaliação do docente feita pelo aluno passa necessariamente pela sua história escolar e nisso se inclui a falta de clareza na avaliação e sua utilização como mecanismo histórico de controle. Comumente o professor é visto como elemento de repressão, ao utilizar-se de provas e notas, aprovação e reprovação. Em contra-partida, aluno tende a se ver como esperto quando consegue "colar" ou enganar o professor. Esses desvios nos objetivos educacionais acabam dificultando a construção moral e ética, e negando a gênese da educação. Este reflexo pode ser identificado no estudo de (Oliveira 2000) com estudantes de graduação em Pedagogia, no trabalho com o tema mitos e desafios. Foi solicitado aos alunos que indicassem as imagens que formam quando se fala em avaliação no contexto educacional. Entre 42 imagens apresentadas, apenas duas (4,8%) destacam aspectos positivos, a primeira se refere à coruja e justificada como "observação de todos os lados e sabedoria", a segunda se refere à Dona Benta (personagem de Monteiro Lobato) que vê a criança como um ser total, único e que possui diferenças dos outros". As demais imagens (95,2%) destacam a avaliação pelos aspectos negativos em vários níveis, levando a incerteza pois a avaliação é uma "caixa de surpresas , não se sabe o que poderá acontecer", a desconfiança a avaliação é como "camaleão, com a cabeça diz que sim com o rabinho diz que não", revelam a incompetência "plano econômico, procuram acertar e no final...", a necessidade da esperteza do aluno" raposa, tem que ser astuto para descobrir o que o professor irá avaliar", pela " perseguição " caçador e caça, o professor armado, o aluno não escapa", instabilidade " casa velha, pode despencar a qualquer hora em cima de nós", traição " cobra, dá o bote quando menos se espera", ameaça " fantasma, dá medo, é misterioso e não conhecemos", ditadura " Hitler, dominador, mandão, não ouve o povo". O que se nota é uma visão negativa, persecutória da avaliação. Só que a avaliação não se faz sozinha. O professor é quem a planeja e a aplica. O professor é quem a corrige e a qualifica. Nesse sentido, a imagem da avaliação está intimamente relacionada ao professor e conseqüentemente interfere na relação ensino aprendizagem.

Outro aspecto importante além da imagem, é ter dados sobre como o aluno "vê" o professor? O estudo de Pearmann e Mc Cann, apresentado em Murray (2000) avalia a atividade de ensino docente pela ótica dos alunos e com isto levanta os "hábitos desagradáveis do professor". Os autores solicitaram a 700 alunos, no primeiro dia de aula, que relacionassem as principais queixas sobre os professores. Os resultados mostram que o que mais desagrada os alunos são professores que não organizam e não planejam adequadamente as aulas, que tenham como estilo de ensino aulas monótonas, uso pobre dos recursos visuais e professores que dão provas sobre materiais não incluídos nos textos ou leituras. Esses dados mostram do que os alunos não gostam, porém é importante verificar também o que os alunos esperam do professor.

É evidente que avaliar plenamente o docente implica abordar várias facetas. É preciso, na ótica analítica, questionar (1) o que a instituição espera do docente e conseqüentemente perguntar por que solicitar aos alunos que o avaliem? (2) o que o professor espera de um docente? Assim, em que aspectos o professor de uma dada instituição deve ser avaliado? (3) o que um aluno de uma dada instituição espera do professor e que aspectos da atividade docente devem ser avaliados? Sem dúvida, neste processo tem-se muito de idealizado, porém busca-se uma aproximação mais realista da avaliação docente.

A presente análise procura delimitar o campo da avaliação docente privilegiando um aspecto, o levantamento e análise das expectativas do aluno sobre o professor. Que posições o aluno revela no tocante a qualidade do ensino, na objetividade e subjetividade implicadas nas aulas, o que ele espera do docente quanto ao seu processo formativo, na construção do estudante enquanto sujeito e na construção do técnico? Quando o aluno explicita suas expectativas em relação ao professor, está também, de forma implícita, colocando as expectativas sobre a sua formação pessoal - profissional. Como o aluno é durante todo o período letivo é observado e avaliado pelo professor, como processo da interação, o aluno observa e avalia o professor. A avaliação do docente interfere na vida do aluno pois o julgamento implica em aprovação ou reprovação, sucesso ou fracasso. assim é importante saber, através da ótica de quem está sendo avaliado, o que espera do avaliador. O estudo de Pearmen e Mc Cann, apresentado em Murray (2000) mostra que os professores esperam que os alunos sejam organizados e estes esperam o mesmo dos professores. Porém organizado é um conceito amplo que precisa ser detalhado. Este estudo caminhou um pouco nesta direção.

Procurando levantar dados referentes às expectativas dos alunos sobre os professores, foi feita a 432 universitários das três grandes áreas do conhecimento: (117) biológicas, (138) exatas e (177) humanas uma pergunta a "o que você espera de um bom professor?" Os alunos foram orientados a responder de maneira descritiva salientando as qualidades. No conjunto foram coletadas 2.332 menções que foram organizadas em 20 categorias sendo posteriormente organizadas em três domínios: domínio de conhecimentos, domínio de sala de aula e domínio da relação sócio-psicológica.

Quanto ao primeiro domínio foram incluídas expectativas que revelam que o professor deve ter conhecimentos no campo que pretende ensinar, que valorize a profissão, que passe por atualização constante, que mostre a importância da sua disciplina dentro do campo profissional, que perceba que a disciplina faz parte de um todo, que tenha boa formação cultural. Nas respostas os alunos comentaram experiências desgastantes e improdutivas baseadas na "falta de conhecimentos do professor". Nesse ponto não era o saber ensinar, mas sim o não ter informações e formação suficientes para trabalhar com a classe. Alguns relatos salientavam que diante do questionamento dos alunos sobre o conhecimento dos conteúdos, o professor apresentava atitudes autoritárias e arrogantes.

Quanto ao domínio de sala de aula, os alunos apontaram que o bom professor deve estabelecer as regras de funcionamento com a classe (avaliação, conteúdos, apresentação de trabalhos, ...) ser capaz de avaliar os conhecimentos transmitidos, ser capaz de perceber o que não foi aprendido pelos alunos, ser capaz de sensibilizar o aluno que mostre desinteresse pela matéria. Que não fique preso aos conteúdos do programa e mostre aplicações na vida real. Que busque alternativas de conteúdo da disciplina para despertar o interesse dos alunos ou para superar dúvidas. Que torne as aulas dinâmicas, permitindo que o aluno participe. Que seja sensível aos estilos de aprendizagem dos alunos. Que tenha autoridade em sala.

Nesse domínio, ao lado das expectativas apareceram queixas de autoritarismo docente, citaram a falta de preparo do professor para enfrentar situações como: dificuldades na aprendizagem, a falta de interesse, cola nas avaliações, desentendimento com alunos, a monotonia das aulas, a mera repetição, a "embromação", a falta de compromisso do professor com o ensino.

Quanto ao domínio das relações sócio-psicológicas, fica claro que o aluno não quer no professor apenas a pessoa que lhe traga informações sobre uma área de conhecimento. Espera em algumas situações um modelo a seguir, um orientador que lhe indique caminhos, alguém que lhe dê apoio. Os alunos esperam que o professor seja capaz de ouvir dúvidas e queixas, que seja capaz de verificar o desenvolvimento do aluno independentemente de provas. Que seja capaz de superar situações conflituosas vividas em sala de aula e que busque sempre, saídas refletidas e democráticas. Que estimule o desenvolvimento científico. Que incentive o aluno a buscar novas informações que o ajudem na construção da própria identidade. Que seja capaz de estimular o desenvolvimento ético profissional e da construção da cidadania.

Nesse campo, da mesma forma que se percebe a expectativa dos alunos quanto a um professor "ideal" por ser conhecedor da área profissional, solidário, incentivador e crítico, também se percebe no aluno, suas inseguranças, suas necessidades de amparo e de quem lhe ofereça direções. O professor universitário nesse contexto é mais do que formador de um profissional é também formador de uma pessoa de um cidadão.

Para reduzir as distorções no processo avaliativo feito pelos alunos, a coordenação do curso onde atua o professor, tem a oportunidade de acompanhar o seu trabalho e pode avaliar a partir das expectativas expressas na ementa, no programa da disciplina, a partir das reclamações ou elogios dos alunos, através das notas que geram aprovações e reprovações, na atualização bibliográfica, na pesquisa, na organização de textos, na extensão... Pode inclusive criar condições para que os docentes façam auto-avaliação e mais ainda que os pares se avaliem tanto na construção dos programas como nos desempenhos.

É importante ressaltar que os alunos, avaliando os professores, colocaram focos na competência pelo domínio de conhecimentos; pela capacidade didático-pedagógica e pelo domínio nas relações sócio-psicológicas.

Este estudo procurou trazer uma visão panorâmica sobre as expectativas do aluno sobre o professor e perceber o sentido e o impacto de um "professor necessário". Este tipo de avaliação, que têm caráter anônimo, permite que os professores se espelhem nas expectativas dos alunos e reflitam sobre sua ação educativa; que comentem com seus colegas os resultados e repensem suas atitudes, seus conceitos de educação, o processo de formação profissional do aluno, seus procedimentos de ensino, seus planejamentos e a organização de suas atividades.

Notas

1 Professor, Doutor - UNIT Centro Universitário. voltar

Referências Bibliográficas

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