EDU 01-10

TRABALHANDO AUTO-AVALIAÇÃO NA UNIVERSIDADE

Regina Coeli Moraes Kopke1

INTRODUÇÃO

Um sistema de auto-avaliação foi por nós desenvolvido há 14 anos e adotado nas turmas da disciplina Desenho Técnico Básico, do então Departamento de Desenho Técnico e Projetivo, UFJF. Quando a proposta foi colocada em discussão, a princípio os colegas de Departamento puseram-se a comentar e a achar que este tipo de proposta teria mais repercussão na Faculdade de Educação, pois afinal ‘estávamos num Instituto de Ciências Exatas e atendíamos as Engenharias’.

A experiência logo depois foi estendida aos alunos de bacharelado em Desenho, dentro do Curso de Educação Artística, nas disciplinas Perspectiva e Sombra I e II, atualmente ministrada em um único semestre, para o curso de Arquitetura.

O SDA – Sistema Dirigido de Avaliação - consiste numa oportunidade para o aluno refletir sobre o estudar e o aprender e sobre o fato de fazer provas e testes, tendo sempre uma postura passiva e o professor por outro lado uma postura quase que chantagista. Neste sistema, o aluno realiza sua prova, corrige e opina sobre seu processo de aprendizagem. O professor a partir daí a corrige também, mas comenta em cada questão, os erros e os acertos, e valida o conceito escolhido pelo aluno, de uma tabela predeterminada, sendo a nota final, numérica, significativa e representativa de um processo consciente e maduro.

METODOLOGIA

Quando do início do semestre letivo e já nas primeiras aulas, busca-se fazer uma interação com alunos2, a respeito do curso, da disciplina, da vocação para essa escolha, do conhecimento pessoal de cada aluno (vide Fig. 5) e do próprio sistema escolar, inevitavelmente chega-se ao tema da avaliação.

A grande maioria dos alunos concorda que foi por demais exigida durante toda a fase escolar, quanto às provas e testes. Estes por sua vez, parece que sempre tiveram a intenção de cobrar muito mais o que não se sabia do que verificar, em clima de descontração e com prazer, a construção do saber, processo esse inclusive pessoal.

Assim, logo que se abre a possibilidade para relatos, têm sempre os alunos que se lembram traumaticamente de provas e professores, e em geral esse episódio está diretamente relacionado pelo afastamento da disciplina ou por uma opinião de que ela seja difícil ou até intolerável. E tudo isso devido à prova, e iniciado na segunda metade do ensino fundamental.

O ensino médio parece ser todo ele voltado para o vestibular- a prova magna – e a competição desenfreada por conseguir mais e mais pontos em questões cada vez mais desafiadoras, supõe muito mais um jogo de perdas e ganhos, do que propriamente, um processo sadio de aprendizagem e aquisição de conhecimentos.

Portanto ao se apresentar uma proposta, não nova, mas diferente, os alunos se sentem a princípio, inseguros e despreparados, mas logo estímulos são dados para que todos se esforcem para emitir suas opiniões sobre si próprios, como num exercício de maturidade.

APLICANDO O SDA

No início do curso, ou melhor, da disciplina3, e após o momento de reflexão, são transmitidos os conteúdos, de acordo com o Plano de Curso divulgado, e como de praxe, são divulgadas as datas das avaliações, que em geral, somam duas, por semestre.

O SDA é apresentado aos alunos, junto à prova convencional, onde o que será cobrado, versará sobre o tema estudado, com valor na pontuação, explicitado ao lado de cada questão. No momento da avaliação, as questões são preparadas de forma reflexiva e ampla, no sentido de se pedir à cada aluno, que exponha o conteúdo em sua totalidade, fazendo à sua maneira, realizando possibilidades, resolvendo e indicando soluções4 (Fig. 1).

Fig. 1 – Modelo de prova aplicada pelo sistema de SDA.5

Após realizar esta prova – dividida em duas partes - os alunos na 2ª parte, pontuam suas próprias questões, e escrevem sobre a disciplina, este modelo de avaliação e sobre seu processo de aprendizagem, as dificuldades e as facilidades que encontraram (vide Fig. 4). A seguir, numa tabela6 (Fig. 2), onde as notas de 0 a 100 são relacionadas a conceitos cujo tema central é a compreensão, os alunos escolhem um, que consideram coerente com a resolução e a auto-correção que acabam de fazer. As provas são corrigidas e cada questão recebe um comentário do professor referendando ou não a nota dada pelos alunos.

Fig. 2 – Tabela de auto-avaliação, cujo tema é a ‘compreensão’.

Após a correção7, é feita a média aritmética entre as ‘três’ notas e o curioso é que em muitos casos, a nota do professor é maior que a dos alunos. Na verdade eles sabem e ‘acham’ que não sabem; portanto acabam por desenvolver uma auto-estima baixa em relação a seu próprio saber.

Quando há erros, em alguma questão, estes são evidenciados e explicados na própria prova (com a famosa caneta vermelha que aqui tem outra função...) que é devolvida para observação. Quando da entrega dos resultados e provas, para que todos observem pelo prazo de uma semana todo o processo ocorrido, desencadeia-se uma discussão relacionada com a auto-estima de cada aluno: se ele próprio não sabe que sabe, como poderá após formado, ter segurança do que aprendeu e atuar como um bom profissional?

A evidência fica pela reflexão feita com relação à nota 70, média de aprovação na instituição. É pedido aos alunos para que vejam o conceito correspondente: compreensão regular e sobre isso travam-se mais reflexões sobre esse limite, pobre e longe de ser algo representativo de um qualidade desejável, para o ingresso no mundo do trabalho (Figs. 3, 4, 5, 6).

Fig. 3 – Exemplo de resultado de SDA desenvolvido, no 1º semestre/2001.

Disciplina Perspectiva, 3º período, curso de Arquitetura/UFJF.

Fig. 4 – Exemplo de SDA desenvolvido, no 1º semestre/1993.

Disciplina Desenho Técnico Básico, 4º período, curso de Ed. Artística/UFJF.

Registro das facilidades e dificuldades na disciplina, com intervenção por escrito da professora.

Fig. 5 – Lista de presença com curiosidades sobre os alunos, aproximando-os já na primeira aula do professor.

Fig. 6 – Exemplo de SDA desenvolvido, no 2º semestre/1999.

Disciplina Geometria Descritiva8, 2º período, curso de Arquitetura/UFJF.

REFERENCIAL TEÓRICO

Numa discussão mais ampla, em torno do prazer de se estudar e da responsabilidade que um profissional deva ter, quando de seu ingresso no mundo do trabalho, alguns autores chamam a atenção e tecem reflexões sobre a questão de se estar apaixonado pelo que faz e ter todo um comprometimento que traz como conseqüência a própria eficiência traduzida simbolicamente numa nota máxima, ou seja 100.

Segundo Freire (1992)9 um educador deve educar a fome do desejo, pois um dos sintomas de se estar vivo é a fome do desejo de crescer, de querer, de aprender e, para os educadores, também de ensinar. Educadores devem olhar, observar, estar atentos ao outro – o aluno – e procurar buscar o significado de seu desejo, em seu ritmo próprio. Em outras palavras é isso o que se quer dizer quando se apontam para as diferenças individuais e tempo de aprendizagem. A autora radicaliza ao enfatizar que ‘a concepção autoritária, ao contrário da atenção, quando nega somente, castra a expressão do desejo do aluno; quando defende a passividade, a homogeneidade, quando doa mecanicamente o conhecimento, fazendo do aluno um mero repetidor de conhecimentos e de desejos alheios ao que seu coração e inteligência sonham; educa para a morte, pois desejo e criação foram soterrados.’

A partir desta análise pode-se comparar tudo isso com um sistema escolar repetitivo e pouco criativo e que conseqüentemente tem como modelo de avaliação aquele, que só cobra e exige o máximo, de forma implacável, não considerando o aluno como uma unidade complexa.

Eizirik (1992)10 ressalta que ‘a escola – leia-se também a universidade - é um lugar de produção do saber, por excelência, mas é importante que se atente para outros saberes também, não tão palpáveis, como os conteúdos das disciplinas ou matérias, os resultados das avaliações, cujo foco está na relação professor que ensina / aluno que aprende. A atenção tem mesmo que se voltar para os micropoderes que permeiam essa relação entre professores, alunos, coordenadores, supervisores etc. É um tecido social trespassado por diferente fios e tramas. Ao se falar de poder na escola, medo e prazer, desejo e liberdade é importante se lembrar da vida, da criatividade, de um sistema perverso11 e da própria morte12.

Silveira (1998) afirma que considerando as responsabilidades de ensino, é importante apontar que cada vez mais a sociedade coloca a urgência da formação pluridisciplinar, multifacetada, que capacite alunos a examinarem temas ou problemas sob vários ângulos, estabelecendo relações variadas, levando-os a evitar a rigidez de definições estáticas esterelizadoras da capacidade de pensar.

‘Uma das razões do fracasso escolar, tem origem na redução simplificante, introduzida pelos behavioristas e aproveitada pelos tecnicistas, desde as décadas de 60 e 70, visando as facilidades de avaliação (...); a revitalização das instituições de ensino depende da competência que se desenvolva no ‘ensinar a pensar’. Isso pressupõe trabalhos e avaliações que evitem e repetição e a objetividade, e busquem o desenvolvimento da capacidade de análise, de interpretações variadas, de levantamento de hipóteses (...); em grande parte, essa mudança metodológica se configura quando se encontram educadores que buscam novos mecanismos de avaliação’. (Silveira, 1998, p 10).

Também Frigotto (1998) e Kopke & Ésther (1999) ao se referirem ao mundo do trabalho fazem referências a esta mudança de atitude dentro da escola para que pessoas cada vez mais possam se adaptar facilmente às regras do mundo do trabalho e da competição, considerando a manutenção de uma auto-estima elevada e a capacidade de se aprender com os próprios erros.

‘Por que o olhar sobre o trabalho, nos remete à educação? Porque as formas de viver e de trabalhar estão diretamente vinculadas às formas como nos percebemos a nós mesmos como sujeitos de direito ao saber, à cultura. As formas de conhecer, de aprender algo estão centradas na vida escolar que tivemos. Nossos alunos não são isolados do desenvolvimento enquanto aprendem e como aprendem...é no trabalho que aprendemos a superar a visão estática do aluno...é sobre tudo isso que a teoria pedagógica deveria refletir.’ (Frigotto, 1998, p 145)

A formação e o desenvolvimento integral do indivíduo é o objetivo da educação. No entanto, o sistema educacional tem apresentado deficiências principalmente quando considerada a questão do trabalho. Procurou-se demonstrar o papel que educação e trabalho vem desempenhando para a formação da sociedade atual. A conclusão básica é que a educação não pode prescindir de seu papel de formação integral do indivíduo mas, por outro lado, outras organizações também podem assumir parte desta responsabilidade, na busca da construção de uma sociedade mais justa e desenvolvida socialmente. Para isto, não pode mais haver o distanciamento entre educação e trabalho, pois as interseções abrangem as mais variadas instâncias da vida humana. Nesse contexto, a criatividade emerge como elemento facilitador de um processo de aprendizagem mais efetivo para o trabalho e para a vida. (Kopke & Esther, 1999)

Assim percebe-se pela viagem de autores que citam a avaliação ou se referem ao fazer pedagógico, que se torna necessário ao sistema escolar, conhecer essas variações que envolvem o saber e as pessoas relacionadas com ele, seja da parte de quem o transmite ou de quem o recebe.

E parece ser que o cerne de todo o problema está nesta interseção, neste momento rápido em que se vai justamente aferir o que se ensinou e o que se aprendeu. De amigos e interagidos parece que as pessoas se transformam rapidamente em gladiadores; a sala-de-aula parece uma arena, o instrumento da prova, parece se transformar num instrumento tipo ‘espada afiada’, donde é comum se ouvir a expressão: ‘o professor está com a faca e o queijo na mão...’, então ‘se o aluno não fizer o que ele manda ou não realizar o que ele pede, ele pode se vingar e reprovar ou dar um zero(...)’.

Parafraseando Freire (1995) pode-se afirmar que ‘quando se tira da pessoa a possibilidade de conhecer este ou aquele aspecto da realidade, na verdade se está alienando-a da sua capacidade de construir seu conhecimento.’

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Ao se trabalhar com uma postura diferente em relação a um sistema de avaliação, se abandona a idéia tradicional e reducionista de que o mínimo que se espera de um aluno é que ele consiga um rendimento regular e que isto ‘dê para ele passar de ano’.

Para muitos alunos ainda se vê e se observa também, um modo passivo e retrógrado de pensar, definido pela busca de um limite ou um objetivo a ser alcançado: ‘vou fazer tudo para passar: se eu conseguir um 70 e passar direto, está ótimo...’. De fato, esse pobre ideal, igualmente, dá um certo conforto ao professor que interpreta os prejuízos do final do semestre, como alunos aprovados com médias próximas à regularidade ou mesmo os reprovados, como algo normal, previsível e conseqüente e confirma: ‘se este ou aquele aluno foi mal na prova, se ficou com média baixa ou se não foi aprovado, é porque não estudou o suficiente...’.

Vê-se portanto, que o ponto-chave da discussão é sempre a nota: conforme foi visto, o mercado de trabalho não tolera hoje alguém que não valha 100 ou mais que isso, como símbolo de qualidade máxima e diferencial a ser colocado em destaque numa competição ou seleção.

Professores têm sim, que ir aos poucos, gritando e mudando, fazendo e dando exemplos, conversando tudo isso dentro das salas-de-aula com os alunos, ouvindo-os, deixando-os falar e expressando-se livremente. Quem sabe estes não se sentem engasgados e carentes de uma pequena oportunidade, para que se deixem desabrochar e mais numa conversa e interação amistosa, do que no cenário de uma aula e sala-de-aula tradicionais, ambos possam se conhecer e descobrir os caminhos – simples – onde consigam construir juntos um saber vivo, ansioso por uma constante atualização, e que essa interação se transforme na busca por novidades, despertando a curiosidade, apontando para novas possibilidades da memorização do que deve de fato ficar como construção maciça de um conhecimento amplo, pautado no prazer?

Notas

1 Profª Adjunto IV, Universidade Federal de Juiz de Fora/MG, Instituto de Ciências Exatas, Departamento de Fundamentos de Projeto, Mestre em Comunicação, UFRJ. rekopke@pro.ufjf.br. voltar

2 O próprio fato do professor, nas primeiras alunas, aprender o nome dos alunos, já demonstra para eles atenção e se sentem reconhecidos. Somado a isso quando se procura saber mais sobre eles, como cor predileta, hobby etc. essa valorização se amplia. voltar

3 Em geral as disciplinas teórico-práticas referidas e que experimentam o SDA – Sistema de Auto-Avaliação têm carga horária total de 64 horas (17 semanas, 4 aulas geminadas/semana). voltar

4 O SDA, pode a ser aplicado, em quaisquer disciplinas, dependendo exclusivamente da interação professor/alunos e da adaptação ao tema e à especificidade de cada disciplina ou área. voltar

5 Avaliação da disciplina Perspectiva, para o 3º período de Arquitetura e Urbanismo, UFJF/1º/2001. voltar

6 Tabela do SDA – desenvolvida para o sistema. voltar

7 Em geral, cada prova como a apresentada na Fig. 1, é ‘corrigida’, no SDA, em torno de 40 minutos em média, tamanha a interação e especificidade de cada caso. voltar

8 Esta disciplina – Geometria Descritiva, presente na maioria dos cursos técnicos, nos das Ciências Exatas, no curso de Arquitetura, Desenho Industrial é considerada uma das disciplinas mais difíceis e uma das que mais reprova. Seu campo é teórico e abrange a capacidade de visão espacial das pessoas, habilidade essa, pouco ou nada desenvolvida pelos sistemas escolares anteriores. voltar

9 FREIRE, Madalena. O sentido da Aprendizagem. In: Paixão de Aprender, apud Grossi. Petrópolis: Vozes, 1992. voltar

10 EIZIRIK, Marisa F. As relações entre saber e poder nas diversas dimensões da escola. In: Paixão de Aprender, apud Grossi. Petrópolis: Vozes, 1992. voltar

11 A autora cita o caso de Flávio, aluno de escola particular, 13 anos que após ter sido reprovado e ser tirado da escola que gostava, escreveu este bilhete e o mandou para a escola: ‘Sou um desgraçado...não valho nada...sou do futebol...mas meu pai só valoriza a nota...é da nota que sai a mesada, o Natal, a bicicleta...Maldita nota!’. voltar

12 A autora cita outro caso verídico de um garoto de 14 anos, o ‘Netinho’ que em 1990, no Rio de Janeiro, suicidou-se com um tiro na cabeça, quando estava de castigo devido a um bilhete vindo da escola. Deixou outro bilhete para sua mãe, dizendo que se matou, pois cometeu um erro e para isso não existiria outra punição: nervoso, na hora da prova, pegou o livro, mas nem conseguiu colar e foi punido pela professora, que implacável, humilhou-o na frente dos colegas. voltar

Referências Bibliográficas

FREIRE, Madalena. A paixão de conhecer o mundo. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1995.

FRIGOTTO, Gaudêncio (Org.). Educação e Crise no Trabalho: perspectivas de final de século. Petrópolis: Vozes, 1998.

GROSSI, Esther P., BORDIN, Jussara (Orgs.). Paixão de Aprender. Petrópolis: Vozes, 1992.

KOPKE, Regina C. M., ÉSTHER, Angelo B. Educação e Trabalho. Anais do IV Congresso das Ifes Mineiras: Viçosa, 1999.

SILVEIRA, Mª Helena. Salto para o Futuro / Educação para o olhar. In: Introdução. SEED/MEC: Brasília, 1998.