EDUCAÇÃO AMBIENTAL: FORMAÇÃO E PRÁTICA PEDAGÓGICA

 

 

TEIXEIRA, Maria do Carmo Couto

                                                                                 SANTOS, Elaine C. Faria dos

                                                                             BARBOSA, Fátima Araujo

                                                                           BARBOSA, Willer Araujo

                                                                         FARIA, Fernanda Pereira

                                                                                 BOUZADA, Maria A. Morcef

 

 

1. INTRODUÇÃO

 

Embora a preocupação com a degradação ambiental remeta à Antigüidade, é a partir da década de 60 marcada pela fúria dos movimentos sociais, que esta se intensifica. No Brasil, em particular, vivíamos uma época de regime militar, censura, Al-5. Enquanto isso, ocorriam mobilizações estudantis, guerrilhas, greves, efervescência acadêmica e movimentos culturais, uma espécie de “guerra contra a cultura oficial, de consumo fácil” (CASCINO, 1999:32). Em todo mundo, as questões em relação ao Meio Ambiente ganhavam notoriedade, cada vez mais pessoas se preocupavam com os alarmantes índices de destruição de nosso planeta, principalmente das nossas próprias reservas florestais. É nesta época de grandeza cultural que surgiram os movimentos ecológicos cujos protagonistas eram os ambientalistas organizados em defesa da natureza.

 

“O movimento ambientalista foi um produto de forças tanto internas quanto externas a seus objetivos imediatos. Os elementos de mudanças vinham emergindo muito antes dos anos 60; quando finalmente se entre cruzaram uns com os outros e com fatores sócio políticos mais amplos, o resultado foi uma nova força em prol da mudança social e política. Seis fatores particulares parecem ter desempenhado um papel de mudança: os efeitos da afluência, a era dos testes atômicos, o livro Silent Spring, uma série de desastres ambientais bastante divulgados, avanços nos conhecimentos científicos e a influência de outros movimentos sociais” (McCORMICK,1992:65).

 

A questão ecológica toma proporções muito significativas e os diversos movimentos passam a desenvolver uma estratégia para uma transformação ambiental em caráter global. O principal objetivo é que a humanidade seja capaz de se manter indefinidamente, num sistema de equilíbrio dinâmico com a Terra e seus recursos. Se tal equilíbrio for atingido, todos os povos do mundo serão capazes de se manter em níveis razoáveis de conforto e dignidade.

 

“Acompanhando o movimento mundial acerca da questão ambiental passa-se a pensar na contribuição do processo educativo (...) a partir daí o termo Educação Ambiental tem sido usado e parece ter substituído os chamados estudos naturais, educação para a conservação ou trabalhos de campo” (CARVALHO et alii IN: TRAJBER et alii: 1996, p.78).

 

Seguindo este enfoque é que buscamos uma nova perspectiva de educação voltada à ecopedagogia e à escola cidadã que faz com que os sujeitos escolares - aluno, professor e comunidade - se transformem em indivíduos solidários.

 

“O professor deve estabelecer uma nova relação com quem está aprendendo, passar do papel de ‘solista’ ao de ‘acompanhante’, tornando-se não mais alguém que transmite conhecimentos, mas aquele que ajuda os seus alunos a encontrar, organizar e gerir saber” (DELORS,1999:155).

 

A transdisciplinaridade passa a ser parte fundamental para o desenvolvimento do processo educativo onde o objetivo é atingir uma percepção mais humana e sensível em relação ao meio ambiente e à qualidade de vida.

Como diz Paulo Freire (1997:49):

 

 “se estivesse claro para nós que foi aprendendo que percebemos ser possível ensinar, teríamos entendido com facilidade a importância das experiências informais nas ruas, nas praças, no trabalho, nas salas de aula das escolas, nos pátios dos recreios, em que variados gestos de alunos, de pessoal administrativo, de pessoal docente se cruzam cheios de significação”.

 

A Educação Ambiental (EA) passa a ser enfocada num sentido de transversalidade, não sendo objeto de preocupação de uma única disciplina mas, numa perspectiva inter e multidisciplinar, busca desenvolver o ser humano por meio de estratégias que instiguem sua percepção, raciocínio e expressão produzindo comparações, análises e sínteses, novos conhecimentos a partir de sua realidade, da sua vivência. De acordo com os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs),

 

“a transversalidade promove uma compreensão abrangente dos diferentes objetos de conhecimento, bem como a percepção da implicação do sujeito de conhecimento na sua produção, superando a dicotomia entre ambos. Por essa mesma via, a transversalidade abre espaços para a inclusão de saberes extra-escolares, possibilitando a referência a sistemas de significados construídos na realidade dos alunos”. (SEF-MEC:1997:vol.8:40)

 

A escola é um local imprescindível de se promover a consciência ambiental a partir da conjugação das questões ambientais com as questões sócio-culturais. As disciplinas são os recursos didáticos através dos quais os conhecimentos científicos de que a sociedade já dispõem são colocados ao alcance dos alunos. As aulas são o espaço ideal de trabalho com os conhecimentos dos alunos e onde se desencadeiam experiências e vivências formadoras de consciências mais vigorosas porque alimentadas no saber. (PENTEADO, 1994)

Nesse sentido, iniciou-se um processo de investigação que buscou desvendar as possibilidades da aplicação da EA em escolas circunvizinhas a uma Unidade de Conservação da Zona da Mata de Minas Gerais, na perspectiva da transversalidade, a fim de promover a formação e práticas educativas inserindo a escola na problemática ambiental regional.

 

1.1. Definição e delimitação do objeto de estudo

 

1.1.1. Fatores ecológicos

 

O Parque Estadual da Serra do Brigadeiro - PESB foi criado por decreto governamental em 26 de outubro de 1996. Este parque, com 13210 ha de área e 156 Km de perímetro, localiza-se na Zona da Mata, no Sudeste de Minas Gerais, abrangendo uma área de 8 municípios, Araponga, Sericita, Pedra Bonita, Divino, Fervedouro, Miradouro, Muriaé e Ervália. Tem como objetivo proteger a fauna e a flora regional, as nascentes dos rios e córregos, além de criar condições para o desenvolvimento da pesquisa científica e a ampliação do turismo ecológico na região (DECRETO Nº38310, 1996).

A Zona da Mata integra a Mata Atlântica e até meados do século passado encontrava-se na região uma extensa cobertura vegetal. Estima-se que existam hoje apenas 288.177 ha cobertos com florestas naturais, cerca de 7,66 % da região. A maior área contínua de floresta natural primária está situada na Serra do Brigadeiro.

 

1.1.2. Fatores Sócio- econômicos

 

A ocupação desta região data do século 19, intensificando-se com o surgimento das primeiras lavouras de café, a partir do vale do Paraíba e chegada de migrantes das minas de ouro, de Ouro Preto, em fase de declínio. O cultivo do café substituiu a mata quebrando a eficiente reciclagem do eco-sistema florestal e promovendo uma redução da fertilidade do solo após poucas décadas, devido à erosão e exportação de nutrientes pela cultura. Como resultado do desmatamento, novas áreas eram ocupadas à procura de solos mais férteis. Na medida em que os cafezais avançavam à busca de novas terras, cediam lugar para a pastagem, feijão, cana de açúcar, milho, dentre outras, destinadas ao consumo na própria região (VALVERDE, 1954)

Com o tempo as grandes fazendas de café do início do século foram se dividindo num processo de herança dando origem à maior concentração de pequenas propriedades de Minas Gerais, com 90% das terras entre 0-100 ha, ocupando 46,11% da área total da região. Além disto, a introdução das tecnologias da “Revolução Verde” na economia camponesa contribuiu para uma significante degradação ambiental e debilitamento da economia familiar. A respeito disso, a agricultura familiar tem mantido importância vital para a região e, como em todo o país, possui importância estratégica seja por contribuição na oferta de alimentos, seja pelo papel que desempenha na absorção de mão de obra.(FERRARI, 1996;FAO, 1994).

 

1.1.3. Movimentos Sociais e Universidade

 

Durante a década de 80, desenvolveu-se um forte movimento de agricultores familiares e trabalhadores rurais, o que levou não somente à criação de novos sindicatos mas também à organização de pequenos agricultores e trabalhadores assalariados em diversos níveis e entidades. O Centro de Tecnologias Alternativas da Zona da Mata - CTA-ZM, emerge neste contexto.

O CTA-ZM é uma organização Não- Governamental (ONG) cuja base social são os Sindicatos de Trabalhadores Rurais (STR’s) da região, com atuação em 21 municípios correspondendo a área de influência de 14 sindicatos. O CTA-ZM integra a rede PTA (Rede em Projetos de Tecnologias Alternativas), que agrega 22 ONG’s distribuídas nas regiões Nordeste, Sudeste e Sul do Brasil.

A UFV em parceria com o CTA-ZM, STR’s, Associação de Agricultores Familiares, entre outras organizações governamentais, vem intensificando uma série de atividades na região, incluindo a participação na elaboração do Plano de Manejo e Gestão do Parque e seu entorno e a realização dos Programas de Conservação da Mata Atlântica e de Desenvolvimento Local Sustentável e Solidário. (PDL)

 A Educação Ambiental (EA) enquanto pesquisa e prática educativa se insere nesse contexto. Pensando nisso, buscou-se estudar as possibilidades do envolvimento das escolas do entorno do PESB em um trabalho de EA com o intuito de sensibilizar as crianças e suas famílias para a importância da preservação do parque e do seu entorno, a partir, inclusive, de uma demanda das próprias comunidades.

Desse modo, diante da possibilidade de promover uma EA que contemple a qualidade de vida da população e promova relações socioambientais mais harmônicas, preocupou-se em responder as seguintes questões:

ü      Quais os níveis de percepção ambiental que alunos e professores das escolas do entorno do PESB têm sobre o PESB e o ambiente vivido?

ü      ambiente vivido e os problemas locais constituem objeto de estudo pelas referidas escolas?

ü      Como promover a prática de EA nas escolas do entorno do PESB, de modo a promover a consciência ecológica e a inserção nos movimentos do seu tempo?

 

2. METODOLOGIA

 

Para a realização desta pesquisa buscou-se os fundamentos teórico-práticos da pesquisa qualitativa. Optou-se pela pesquisa ação, participante ou participativa. Os seus traços essenciais são: análise, coleta de dados e conceituação dos problemas; planejamento da ação, execução e nova coleta de dados para avaliá-la; repetição desse ciclo de atividades. Os pesquisadores “objetivam estudar cientificamente seus problemas de modo a orientar, corrigir e avaliar suas ações e decisões”. (ANDRÉ, 1995).

“A pesquisa ação envolve o estabelecimento de uma série de ações que devem ser planejadas e executadas pelos participantes e devem ser sistematicamente submetidas a observação, reflexão e mudança” (...) “a pesquisa visa sempre implementar alguma ação que resulte em uma melhoria para o grupo de participantes, geralmente pertencentes às classes economicamente desfavorecidas”. (IDEM)

Pode-se dizer que “a pesquisa ação envolve sempre um plano de ação, plano esse que se baseia em objetivos, em um processo de acompanhamento e controle da ação planejada e no relato concomitante desse processo”. (IDEM)

A pesquisa ação como uma pesquisa qualitativa apresenta cinco características básicas, ou seja,

 

“o ambiente natural como uma fonte direta dos dados; o pesquisador como principal instrumento; descrição dos dados incluindo transcrições de entrevistas e de depoimentos; preocupação maior com o processo e menos com o produto; ênfase no significado que os participantes atribuem aos temas sugeridos e procedimento indutivo de análise, sem procurar evidências para comprovar hipóteses previamente determinadas” (Bogdan e Biklen citados por LUDKE E ANDRÉ. 1986:11-13)

 

 

 

 

2.1. Caminhos percorridos na pesquisa

 

O trabalho com EA na região da Serra do Brigadeiro, iniciou-se em 1999, juntamente com uma pesquisa de Iniciação Científica financiada pelo CNPQ, na região de Bom Jesus do Madeira, em Fervedouro. Aliando pesquisa e intervenção, buscou-se desenvolver um estudo, em parceria com o IEF, EMATER, STR, CTA, DPE-UFV, sobre a relação das escolas com a problemática ambiental regional. Nesse sentido, algumas ações foram implementadas como:

 

ü      conversas com professores e educadores sobre o PESB e os trabalhos em EA;

ü      levantamento de temas para projetos escolares sobre o meio ambiente e o PESB;

ü      excursão ecológica com professores à área do PESB;

ü      levantamento folclórico envolvendo as escolas daquela região;

ü      confecção de maquete do PESB e feira cultural;

ü      apresentação teatral e musical, envolvendo temas ecológicos e da cultura local;

ü      visitas aos moradores utilizando técnicas participativas como: entrevista, travessia, mapa etc;

 

A partir de agosto de 2000, o trabalho continuou em Araponga, em três escolas de comunidades do entorno do PESB, Serra das Cabeças, Lanas e Estouro, com onze professores, sete funcionárias, serventes e secretária e 247 crianças na faixa etária de sete a onze anos.

A escolha das escolas se deu no contexto da articulação entre as entidades parceiras  incluindo a EPAMIG, Prefeitura (Órgão Municipal de Educação, Agricultura e Saúde e Bem Estar Social) e Associação dos Agricultores Familiares,  para a realização de EA formal e não-formal integrada aos Programas de Conservação da Mata Atlântica e de Desenvolvimento Rural Sustentável e Solidário em caráter participativo.

A coordenação desta pesquisa ficou sob a responsabilidade do grupo de pesquisa Ecopedagogia que integra estudantes e professores de diferentes departamentos e um técnico administrativo da Divisão de Assuntos Culturais da UFV (DAC). 

Metodologicamente, foram utilizados os seguintes procedimentos:

 

ü      Observação Participante acompanhada de registro para se obter um conhecimento da estrutura da escola, espaço físico, número de professores, de funcionários, de alunos, organização espaço-temporal, atividades, recursos didáticos disponíveis, bem como relações pedagógicas e sociais.

ü       Reuniões mensais com as professoras, supervisora, técnicas do Órgão Municipal de Educação, técnico do CTA, IEF e EMATER para acompanhamento da pesquisa.

ü      Atividades pedagógicas semanais com alunos das escolas pesquisadas buscando relacionar os conteúdos programáticos das primeiras séries do ensino fundamental. com os temas ambientais. Estas atividades foram programadas em encontros realizados com as professoras e com as instituições parceiras. O número de alunos participantes foi 172 alunos.

 

 

As atividades foram as seguintes:

v     Passeio ecológico a uma pousada localizada ao lado de uma das escolas, que possui canais d’água e trilhas, com posterior registro através de desenhos.

v     Elaboração de cartazes sobre o tema água: ciclo da água, preservação, cuidados, usos e importância. Esta foi uma atividade seqüencial, realizada em mais de uma visita à escola. Produziu-se cartazes comparativos: água limpa e água poluída discutindo sobre a qualidade da água. A atividade também foi acompanhada por textos e exercícios. Em torno desta temática puderam ser articuladas diversas disciplinas;

v     Elaboração de frases sobre meio ambiente;

v     Visita a uma mina d’água localizada próxima à escola. O objetivo foi instigar a percepção ambiental e a identificação dos aspectos observados para posterior debate em sala, relacionando a água da mina com a água utilizada em casa;

v     Pesquisa feita pelos alunos sobre a água que utilizam em casa. Visita ao lugar de origem da água que abastece a casa, produção de texto, socialização dos trabalhos,

v     registro e exposição dos resultados em forma de cartazes;

v     Redações e poemas sobre natureza e lixo;

v     cantos e coreografias sobre o tema reciclagem;

v     Conto de histórias infantis. Esta atividade foi realizada com a 1ª série, a partir do tema: cigarra. Foram observadas as características e hábitos deste inseto explorando-se o conhecimento e a percepção das crianças; trabalhou-se a  imaginação e a criatividade no reconto da história e nos desenhos. Aproveitou-se para trabalhar também um conteúdo específico que é o processo de aletramento a partir da palavra ci-gar-ra.

 

ü      Oficinas pedagógicas com professores e alunos. O foco central foi a vivência e o debate sobre as questões vividas e os problemas ambientais mais freqüentes na região. Nas oficinas com as crianças foram priorizadas a oralidade, corporeidade, musicalidade, expressão plástica, artística, confecção de painéis, brinquedos e produção de textos. Visando um estudo do meio, foram realizadas excursões com os alunos e professores seguido de exibição de filmes e debates. Nas oficinas com as professoras, foram realizadas algumas técnicas de Diagnóstico Rural Participativo (DRP) para levantamento e discussão dos problemas ambientais, potenciais detonadores de projetos pedagógicos.

 

As oficinas cumpriram o duplo papel de pesquisa e intervenção: em primeiro lugar forneceram conhecimentos, por meio da observação das atividades e dos diferentes materiais produzidos, sobre a percepção dos alunos e professores sobre o meio ambiente e o PESB; em segundo plano, representaram uma oportunidade de formação e capacitação de alunos e professores em EA.

A importância da capacitação docente segundo CASCINO, é que:

 

“Os professores saltam da condição de contratados para ‘treinar’, para a condição de parceiros que, munidos de uma sistematização competente, assumem a cumplicidade de contribuir com a temporalidade – os ritmos- preexistente no ambiente local, reconstruindo os campos relacionais, recriando percepções e perspectivas. Saltam, portanto, de uma condição de pressuposição de amarras disciplinares, de passividade, de fragmentação, de estabilidade, de não movimento, para a vigorosa e prazerosa dança do movimento constante, do rodopio permitido pelo entrecruzar de saberes que nunca param de crescer – a maior das conquistas, a maior das satisfações”. (1999:94)

 

A importância da formação e capacitação das crianças em EA é que os primeiros anos de vida são fundamentais para a construção de valores, hábitos, atitudes e conhecimentos, constituindo a base para a vida futura.

A programação das oficinas era feita em conjunto com as professoras e representantes das entidades parceiras. Os temas geradores eram definidos em reuniões mensais. A partir desta programação geral, o grupo de pesquisa elaborava as atividades que envolviam dança, música conto de histórias e lendas, discussões e trabalhos artísticos. Em alguns momentos as crianças eram divididas em grupo menores e, em outros, reuniam-se as crianças para atividades coletivas no pátio da escola.

No último mês, foi realizado um encontro envolvendo as três escolas, na praça do centro da cidade. A organização deste esteve a cargo das entidades parceiras. Contou-se também com o apoio da prefeitura quanto à segurança, transporte e alimentação. O evento assemelhou-se a uma rua de  lazer, com várias oficinas pedagógicas divididas em estações: oficina de pintura com solos, construção de brinquedos, jogos de trilha, brincadeiras e esportes, apresentação de números artísticos e exposição de fotos e dos trabalhos realizados pelas crianças durante o semestre.

 

 

 

3. ANÁLISE E INTERPRETAÇÃO DOS DADOS

 

As análises foram feitas a partir de observações das atividades realizadas e dos materiais produzidos: textos, desenhos, cartões e painéis. Estas análises evidenciaram alguns elementos vivenciados no cotidiano das crianças e professoras, bem como a sua interpretação sobre o ambiente vivido. A metodologia utilizada permitiu visualizar as carências das escolas, assim como as principais demandas para a melhoria do processo ensino aprendizagem e, consequentemente para a EA contextualizada.

Em relação às condições de moradia, identificou-se que muitas casas não possuem fossas, os esgotos são jogados nos rios. A água é consumida sem tratamento, embora vindo direto da mina, o que indica uma água de boa qualidade, não impede a contaminação de alguma forma durante o seu percurso até chegar nas casas. Falta energia elétrica na maioria das casas, consequentemente não há televisão. Este fato, aliado ao baixo nível de escolaridade que ocasiona a falta de leitura, de contato com jornais, revistas, livros, materiais impressos, dificulta o acesso a informações, tornando-se um problema para a escola, que fica inteiramente responsável pela alfabetização dos alunos em situações adversas.

São raras as crianças que não ajudam a família na roça. Segundo depoimento destas, ao chegarem da escola preparam seu almoço e vão para a roça ajudar seus pais em todos os tipos de trabalho agrícola. Na época da safra de café as crianças deixam de ir à escola para ajudarem seus pais na colheita[1].

As crianças valorizam a escola, pensam que através dela aprendem coisas novas e podem ter melhores oportunidades na vida. Reproduzem a expectativa dos pais que enxergam na escolaridade um mecanismo de ascenção social. Ressalta-se o depoimento de um pai de aluno, no qual revela a preocupação com o estudo do filho. Ele faz para o filho o que não teve oportunidade de viver quando criança e hoje sente falta.

Relacionando a concepção de representação social proposta por AZEVEDO (1999), ou seja, a forma como o indivíduo ou a coletividade interpretam os fenômenos sociais, evidenciou-se que a representação que as professoras e alunos fazem do meio ambiente é estabelecida a partir do que vivenciam no cotidiano.

Uma outra questão identificada é que tanto as crianças como as professoras possuem uma visão idealizada de meio ambiente. Desse modo, valorizam mais um ambiente que está distante, do que a própria região onde moram. 

Não foi possível identificar a representação que as professoras e as crianças fazem do PESB, pois constatou-se que a existência e a importância de uma Unidade de Conservação na região, ainda não foi incorporada por estes moradores sejam das comunidades próximas ao PESB ou da cidade. Soma-se a isto, o fato de não terem sido desenvolvidas atividades que proporcionassem um conhecimento deste lugar. Logo no início da pesquisa, detectou-se alguns problemas nas escolas que dificultaram a relação maior com a Unidade de Conservação em questão: uma certa resistência por parte do grupo de professores, a timidez das crianças aliada à baixa auto-estima. Estes, entre outros fatores, mostraram a necessidade de desenvolver ações educativas mais amplas, o que contribuiu também, para a certeza de que a EA é parte da própria vida escolar (ecopedagogia). Assim, foi necessário desenvolver ações que pudessem contribuir para a reflexão sobre estes problemas, possibilitando a aproximação entre os pesquisadores e os sujeitos envolvidos e a confiança mútua.  

Nesta pesquisa buscou-se instigar a curiosidade dos alunos e professores para a percepção e reflexão sobre os temas relacionados ao entorno do PESB, ou seja, temas extraídos do ambiente vivido pelos sujeitos da pesquisa.

Observando os trabalhos desenvolvidos pelas professoras nas escolas, identificou-se que a temática ambiental em sala de aula é conduzida sem considerar o contexto mais próximo. Os temas são expostos quando surgem brechas dentro dos conteúdos curriculares, mas sem a preocupação com o ambiente vivido.

 

 

 

 

 

4. CONSIDERAÇÕES FINAIS

 

Como considerações finais, são apontadas algumas carências identificadas nas escolas que refletem os problemas na educação do município como um todo. Através de um diagnóstico participativo realizado durante esta pesquisa com moradores das comunidades rurais de  Araponga, no contexto do Programa de Desenvolvimento Local Sustentável e Solidário referido anteriormente, estas carências foram percebidas e discutidas. Em função deste diagnóstico, foram apontadas algumas demandas, transformadas em propostas para a educação neste município.

A ausência da supervisora nas escolas foi apontado como um problema e a proposta é que o Órgão de Educação Municipal disponibilize supervisoras para acompanharem mais de perto os trabalhos nas escolas.

Constatou-se a necessidade de treinamento e atualização dos professores. Observou-se alguns problemas de relação professor-aluno, tratamento ríspido com os que têm mais dificuldades e com os mais agitados. Há também preocupação excessiva com exercícios de coordenação motora mecânicos e repetitivos como forma de preparação para a leitura e escrita, impedindo o desenvolvimento  da criatividade e autonomia. Ausência de trabalhos fora de sala de aula, pouca utilização de material alternativo ao Livro Didático, sendo que, algumas turmas ainda não tinham tido contato com material didático em algumas disciplinas.

A implantação de Educação Infantil na zona rural está sendo proposta, pelo fato de que  a criança chega na 1ª série sem experiência anterior com a escola. A maioria não tem contato com escrita e leitura, não conhece e não utiliza esta forma de expressão no dia a dia. Daí a dificuldade da criança em aprender a ler e a escrever no ritmo que as professoras impõem.

O problema da falta de leitura pode ser superado com um programa de incentivo à leitura nas escolas. 

As crianças encontram várias dificuldades para estudar: distância de suas casas até a escola, necessidade de trabalhar na roça e descontinuidade das séries no meio rural, ou seja, a partir da 5ª série, é preciso ir estudar na cidade. Em função disto, deve-se implantar a extensão de série na Zona Rural onde houver número de alunos suficiente. De forma geral, propõe-se que o transporte escolar supra a demanda de todas as comunidades. 

Outra questão levantada foi a ausência de horta nas escolas. A merenda das crianças consiste basicamente em carboidratos, uma alimentação pesada e pouco nutritiva. Considera-se a possibilidade e viabilidade de fazer horta nas escolas. Para além disto, propõe-se que, nas compras de produtos agropecuários para a merenda escolar, deve ser dada a preferência aos produzidos nas comunidades de Araponga, incentivando a produção no município e evitando produtos industrializados.  Isto contribuiria para o aumento da renda das famílias, para uma alimentação saudável e mais natural, favorecendo também o aumento da auto-estima dos alunos que se sentiriam importantes para a escola, contribuindo para a coletividade.

No mesmo diagnóstico, surgiu a proposta de que o ensino deve ser voltado para a realidade local e incluir a questão ambiental. Deve-se articular os trabalhos nas escolas aos trabalhos nas comunidades a fim de fortalecer ambos os espaços e reforçar os conhecimentos adquiridos pelas crianças.

Em relação ao PESB, propõe-se que este deva ser  usado para o ensino. Para que isto aconteça é necessário proporcionar encontros, excursões e debates relacionados a este, com participação de professores e alunos.  Além de excursões ao PESB considera-se importante a realização de visitas a museus, bibliotecas e a outros espaços públicos, como Prefeitura e outros órgãos da repartição pública do próprio município que muitas crianças não conhecem.

Para a EA propriamente dita constatou-se a necessidade de implementar a coleta seletiva de lixo nas escolas em consonância com a proposta do município de construir uma Usina de Reciclagem de Lixo.

A discussão sobre o turismo na região ainda é fato recente. A proposta é que se promova maior participação dos jovens e que se incorpore a discussão do ecoturismo entre professores e crianças.

Espera-se que estas propostas possam ser implementadas à médio prazo; embora várias delas dependam de mudanças sociais mais demoradas, imagina-se que a continuidade e o fortalecimento desta  pesquisa e destes trabalhos interdisciplinares, possa contribuir nesse processo.

Para o segundo semestre de 2001, propõe-se que estejam incluídas outras três escolas do Ensino Fundamental das comunidades circunvizinhas ao PESB, no município de Araponga. Acredita-se que este trabalho educativo potencialize, para uma ou duas gerações, um manancial de questões a serem superadas, nem que seja em 20 ou 30 anos, para que aquela bela Serra e sua Mata estejam cada vez mais saudáveis, isto é, com as pessoas à sua volta em melhores condições de vida.

 

5. BIBLIOGRAFIA

 

AZEVEDO, Genoveva Chagas de. Uso de jornais e revistas na perspectiva da representação social de meio ambiente em sala de aula. In: REIGOTA, Marcos (org.). Verde Cotidiano: O meio ambiente em discussão. Rio de Janeiro: DP&A, 1999.

CASCINO, Fábio. Educação Ambiental: princípios, história e formação de professores.- Sâo Paulo: Editora SENAC São Paulo, 1999.

 

FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários “A prática educativa. São Paulo:Paz da Terra, 1996.

 

GADOTTI, Moacir. Pedagogia da Terra; prefácio Ângela Antunes; apresentação José Eustáquio Romão, Leituras e Questões para aprofundamento Gustavo Querubine e Natalia Bernal.- São Paulo: Peirópolis, 2000.- (série Brasil- cidadão)

 

GUTÉRREZ,F.; PRADO C. Ecopedagogia e Cidadania Planetária .- São Paulo: Cortez: Instituto Paulo Freire, 1999. – (Guia da escola cidadã)

 

LUDKE, M., ANDRÉ, D. Pesquisa em Educação; Abordagens Qualitativas. São Paulo, SP: EPU, 1986.

 

MARVILHA, Sheila Magda. Bahiense: A construção da Prática Interdisciplinar na Escola. Bolsista do PIBIC/CNPQ; Relatório Parcial Orientadora: Professora Marisa Barletto- Viçosa 1999

 

MEC/SEF: Parâmetros Curriculares Nacionais. Apresentação dos Temas Transversais e Ética Secretaria de Educação Fundamental, Brasília, 1997. Volume 8.

 

PENTEADO, H. Dupas. Meio Ambiente e Formação de professores. (coleção questões de nossa época). São Paulo: Cortêz, 1994.

 

REIGOTA, Marcos. A floresta e a escola: por uma educação ambiental pós-moderna.- São Paulo: Cortez, 1999.

___ Meio Ambiente e Representação Social. (coleção questões de nossa época). São Paulo. ED. Cortez, 1995.



[1] Visualizamos este fato em nossas idas às escolas para desenvolvermos as oficinas pedagógicas. Nos meses da safra, o número de alunos era reduzido em média de 30%. Ressalta-se ainda que, segundo as professoras, nesta época, o dia em que aparecia mais aluno na escola, era o dia em que íamos às escolas.