A AÇÃO NO MEIO AMBIENTE COMO UMA PRÁTICA CONSTITUTIVA DO INDIVÍDUO CONTEMPORÂNEO: ALGUMAS REFLEXÕES

 

Juliana de Sousa Lima[1]

Ana Maria Cambruzzi[2]

 

1.      INTRODUÇÃO

 

O presente texto constitui-se de um recorte de um estudo[3] que define, a partir das leituras de Sobre o Tempo (Elias, 1998); O Nascimento do Tempo (Prigogine, 1991); A Natureza do Espaço: técnica e tempo, razão e emoção (Santos, 1997), alguns fundamentos da constituição do indivíduo da contemporaneidade, quais sejam: a) o ser humano se torna indivíduo por meio de um longo processo de relação entre o social e a natureza; b) o ser humano constitui-se em sua individualidade por meio de um longo processo de aprendizagem.

Para efetivar este estudo, selecionamos artigos, ensaios, resultados de pesquisas, ou seja, produções acadêmicas da última década que tratam de educação ambiental e de movimentos ecologistas. Entre estas destacamos: A sociedade global e a questão ecológica (Libâneo, 1993); A questão ambiental e a educação: um diálogo necessário (Barcelos, 1996); Educação ambiental: uma proposta pedagógica (Meyer, 1991); Um olhar sobre os ideais educativos constituídos pelos movimentos ecologistas nos anos setenta (Guimarães, Noal, 2000).

Para analisar as produções acadêmicas selecionadas, reportam-nos aos fundamentos da constituição do indivíduo da contemporaneidade ou princípios orientadores, anteriormente estabelecidos. Essa análise nos conduz a algumas reflexões: em sua trajetória humana, nas relações sociais e com a natureza, o ser foi, aos poucos, constituindo-se sujeito de ação. Na ação, enquanto lida com a natureza e com o social, ao criar, por exemplo, a categoria “tempo”, desenvolve uma síntese mental de nível altíssimo. Chegar à síntese mental permite ao ser humano tornar-se indivíduo, ou seja, insere-se num processo de aprendizagem em que se percebe “unidade” de um todo constituído de sociedade e natureza. Assim sendo, essa elaboração nos aponta uma visão de interdependência entre sociedade, indivíduo e natureza.

 

 

2.      FUNDAMENTOS DA CONSTITUIÇÃO DO INDIVÍDUO DA CONTEMPORANEIDADE

2. 1 – O ser humano se torna indivíduo por meio de um longo processo de relação entre o social e a natureza

Considerando o título deste texto, as perguntas iniciais que nos colocamos são: como se caracteriza uma ação? Os seres humanos são seres de ação?

Santos (1997) caracteriza a ação como um ato ou uma prática que altera e modifica uma situação do meio ou do espaço geográfico. A ação é subordinada, em princípio, a um propósito ou um projeto. Nesse sentido, os objetivos da ação são sempre estabelecidos a priori. No entanto, no decorrer do desenvolvimento do projeto, as ações podem-se efetuar sem uma clareza anteriormente projetada. Em função das relações sociais das sociedades modernas, “... muitas das ações que se exercem num lugar são o produto de necessidades alheias, de funções cuja geração é distante e das quais apenas a resposta é localizada naquele ponto preciso da superfície da terra.” (Santos, 1997, p. 65)

Simultaneamente ao agir projetado ou pouco claro dos indivíduos, também se faz presente uma característica simbólica da ação. Santos (1997) diz existir “um agir simbólico, que não é regulado por cálculo e compreende formas afetivas, emotivas, rituais, determinadas pelos modelos gerais de significação e de representação.” (p. 66)

Portanto, a ação humana caracteriza-se por um amálgama de intenções, às vezes claras e objetivas, outras vezes nem tanto, todavia decorrentes de um pensar fundado na razão e de um agir simbólico que é fundado na afetividade, na significação e na representação. Nesse processo, enquanto o agente muda alguma coisa no mundo físico, muda a si mesmo, na sua natureza íntima, na sua individualidade.

Feitas essas primeiras considerações, vamos a algumas reflexões sobre a relação entre o social e a natureza e a formação do indivíduo.

Historicamente, têm-se registros de que o ser humano, devido à sua intrínseca relação com a natureza e com os fenômenos físicos, ao longo do desenvolvimento das sociedades, sempre se colocou perguntas a respeito de sua estada no universo. Existir no mundo físico, enfrentar-se com os fenômenos naturais, como, por exemplo, ter um sol que se mostra e que se esconde, ter períodos de chuvas, de secas, de tempestades, de frio, de calor, determina que o ser humano desenvolva suas atividades de construção de sua existência orientado por esses fenômenos.

No entanto, se por um lado, existem esses fenômenos que determinam, orientam, desafiam os humanos a inventarem e construírem instrumentos e artefatos para adequarem sua vida a essa natureza, por outro lado o próprio homem se percebe no mundo natural com possibilidades, mas também com limites. Limites no sentido de que, em determinados momentos, os fenômenos do mundo físico contraem ou cerceiam as ações humanas. Possibilidades, no campo das invenções, quando os humanos percebem que podem controlar determinados fenômenos físicos. Assim, mesmo nos limites da determinação da natureza, há brechas para as construções, tanto em nível material, por exemplo, a feitura da casa como um espaço para habitar, quanto em nível simbólico, por exemplo, a representação mental do significado do sol que aparece e desaparece.

Elias (1998) vai nos mostrar que o ser humano se constitui e se forma um ser de ação, um ser de relações sociais e um indivíduo por meio de um longo processo de evolução de sua estada no mundo. Estar no mundo implica considerar que esse mundo foi constituído, em parte, pela própria evolução da natureza e, em parte, pelo fato de o ser humano situar-se e evoluir nesta natureza. Ao fazer a leitura dos fenômenos físicos, ao criar artefatos (por exemplo, o relógio) e símbolos representativos desses fenômenos (por exemplo, a representação do tempo por meio de calendários), o ser humano vai tendo possibilidades de elaborar uma abstração mental.

Para tanto, a fim de que o desenvolvimento das ações que possibilitam a existência no mundo ocorra, colocou-se como fundante para o ser humano observar a regularidade dos fenômenos naturais para elaborar uma síntese de orientação.

“... seqüências recorrentes, como o ritmo das marés, os batimentos do pulso ou o nascer e o pôr-do-sol ou da lua, foram utilizadas para harmonizar as atividades dos homens e para adaptá-las a processos que lhes eram externos, da mesma maneira que foram adaptadas, em estágios posteriores, aos símbolos que se repetem no mostrador de nossos relógios.” (Elias, 1998, p. 8)

Ao evoluir para uma compreensão das possibilidades ativas, criadoras do mundo social e humano, “os grupos humanos”, por meio de um longo processo evolutivo, vão percebendo, tomando consciência de que “estão situados no interior de um conjunto mais vasto que o formado por eles mesmos; no universo natural os homens são implicados com seu meio ambiente, ou seja, com processos físicos e sociais” (Elias, 1998, p. 13)

 

 

2. 2 – O ser humano constitui-se em sua individualidade por meio de um longo processo de aprendizagem

À medida que os humanos vão constituindo um saber, uma mentalidade, um conhecimento, uma síntese de orientação a respeito dos fenômenos naturais, na convivência com seus pares e com a própria natureza, estabelecem relações sociais que decorrem dessa orientação para firmarem-se enquanto sociedades e enquanto indivíduos. Ao desenvolver seus estudos sobre o tempo, Elias nos remete a uma compreensão de que, embora hodiernamente, em nível conceitual, há um fio ou um limiar que separa as dimensões física, social e individual, estas três categorias conceituais estão integradamente interligadas numa noção que representa uma síntese mental de nível altíssimo. A ilustração que se segue exemplifica essa noção:

“Ao constatar, por exemplo, que é meio-dia do décimo segundo dia do décimo segundo mês do ano de 1212, fixamos, simultaneamente, um marco temporal no fluxo de uma vida individual, na evolução de uma sociedade e no devir da natureza. Em seu atual estágio de desenvolvimento, a noção de tempo representa uma síntese de nível altíssimo, uma vez que relaciona posições que se situam, respectivamente, na sucessão dos eventos físicos, no movimento da sociedade e no curso de uma vida individual”. (Elias, 1998, p. 8)

Há nesse exemplo da noção de tempo uma evidência que relaciona posições em nível de “sucessão de eventos físicos”, em nível de “movimento da sociedade” e em nível do “curso de uma vida individual”.

Inclui-se em nível da “sucessão de eventos físicos” toda a aprendizagem que foi possível desenvolver a respeito das posições e dos movimentos dos astros, constituindo-se as teorias que foram elaboradas a respeito da compreensão do movimento do universo. No nível de “movimento da sociedade”, reporta-se às aprendizagens que foram possíveis adquiri-las no que se refere ao avanço dos grupos, das comunidades e das sociedades em termos de convivência (ou não), elaborando-se teorias compreensivas a respeito da vida dos seres humanos entre seus pares. No nível de “curso de uma vida individual” remete-se às aprendizagens que, ao longo da história da humanidade, foi possibilitado ao ser humano situar-se enquanto ser de relação e enquanto indivíduo que nasce, desenvolve-se, envelhece e morre.

Esse entendimento da interligação entre sociedade, indivíduo e natureza remete ao processo do conhecimento que se manifesta num alto nível de abstração mental e que possibilita a apropriação de um saber para as sociedades e para os indivíduos orientarem-se nas suas ações e nas suas relações com a natureza e seus fenômenos físicos.

 

2.3 - O ser humano se constitui em sua individualidade inserindo-se em movimentos ecologistas e na educação ambiental

Partindo, de um lado, do referencial acima explicitado, e, por outro, de uma certa produção acadêmica da última década do século XX, referente a movimentos ecologistas e a educação ambiental, no que se refere a relação entre ações humanas e natureza, é que nos propusemos refletir sobre a formação do indivíduo da contemporaneidade.

Em seu texto A Sociedade Global e a Questão Ecológica, Maria Lucia Leonardi Libâneo (1993), analisa o desenvolvimento da sociedade global e suas conseqüências sobre a questão ecológica. Com o processo de globalização, ocorreram grandes mudanças nas sociedades, como, por exemplo, a alteração da ciência, o deslocamento de pessoas dos seus espaços geográficos, a transformação da cultura e a mudança de ritmos de vida voltados para a relação mantida com a natureza. Esse movimento promoveu a desunião, "o deslocamento de pessoas, centros, idéias, espaços e tempo num processo de desterritorialização generalizada". ( Libâneo, 1993, p.81)

Em decorrência da globalização, a questão ecológica ligou-se aos avanços da ciência para tentar compreender as relações existentes entre o homem e a natureza. Tendências da ciência moderna trouxeram novas concepções em relação ao homem e a natureza. Com o surgimento de questões colocadas pelos movimentos ecologistas e pela educação ambiental, ampliaram-se os estudos. Buscou-se compreender "não só aquilo que permanece, mas também o que se transforma. E o conceito de natureza passou a incluir os seres humanos também, que são mais que isso, seres sociais por essência." (Libâneo, 1993, p.83)

De acordo com a autora, "a questão ambiental, também chamada questão ecológica, é um traço componente dessa sociedade global. É uma problemática comum a todas elas, embora as formas de conceituá-la e tratá-la sejam bastante diferentes". Para o encaminhamento das soluções, entre os muitos componentes necessários, “a participação da sociedade civil internacional” é de fundamental importância. (Libâneo, 1993, p.84)

Segundo a autora, os encontros internacionais, já ocorridos, para tratar das questões do meio ambiente e desenvolvimento, permitiram perceber ações como, por exemplo, uma maior participação para se encontrarem soluções de sustentabilidade da vida no planeta; aumento de assinaturas de vários tratados pelas ONGs que ainda expressam utopias, contudo, rumam pelo destaque da construção da democracia direta e participativa, da liberdade de expressão, da desconcentração de poder, da participação das minorias e do respeito às diferenças.

A globalização e a questão ecológica estão abertas a muitas reflexões e análises. O que se percebe, ainda de acordo com Libâneo, é que estamos vivenciando atualmente uma maior sensibilidade ecológica que significa um sentimento e um interesse pela questão ambiental.

“Portanto, pode-se falar que há uma nova aliança em reconstrução entre natureza e cultura. A ciência, que tem por objeto o estudo da natureza, constrói, inventa e altera-se no interior de movimentos culturais das sociedades, grupos, classes, indivíduos. E nesse processo a natureza encontra o homem. (Libâneo, 1993, p. 83)

Ao retornarmos aos fundamentos que nos orientaram nas leituras, podemos perceber que o sujeito social, participando de movimentos ecologistas, estará constituindo sua individualidade para desenvolver suas ações, a fim de buscar uma harmonia com o ambiente que está sendo reconsiderado.

Barcelos (1996), em seu texto A questão ambiental e a educação: um diálogo necessário, traz uma reflexão sobre o desenvolvimento científico, tecnológico e cultural no Brasil e suas implicações sobre o ambiente. O que ocorre nas sociedades globalizadas é uma valorização e cumprimento de leis e normas impostas pela ciência e tecnologia. Há ênfase em se obterem lucros na utilização da natureza, intensificando, dessa forma, a destruição do meio ambiente. Santos (1998) corrobora essa análise mostrando que a natureza passa a ser um objeto a ser dominado, apropriado, transformado, comercializado, consumido e, por fim, descartado.

Cristóvam Buarque (apud Barcelos, 1996), comenta sobre esta visão da sociedade diante do desenvolvimento:

"Os riscos que se apresentam à humanidade, criados pela civilização, restituem ao homem a aventura de retomar seu destino e controlá-lo. O que ele antes fazia temendo aos deuses aos quais já não teme, com medo das pragas, que já controla, submetido ao desconhecido, que já conhece, agora o homem terá que fazer diante dos riscos que criou. Terá que enfrentar um deus maluco chamado HOMEM, uma praga chamada poder científico e tecnológico e tentar desvendar um desconhecido chamado ele mesmo, seu sistema econômico, sua relação com a Natureza, a essência de seu processo civilizatório". (Barcelos, 1996, p.7-8)

No seu processo de evolução a sociedade torna-se exacerbadamente consumista, passando a desperdiçar recursos importantes para a qualidade de vida, sem que haja qualquer preocupação com a harmonia e o equilíbrio do meio ambiente. Com o avanço tecnológico, o incentivo ao consumismo é impulsionado, causando o desequilíbrio ecológico e, como conseqüência, a crise ambiental que ameaça a continuidade da vida no planeta.

Ao nos reportamos aos princípios orientadores da formação do indivíduo da contemporaneidade e levarmos em conta as reflexões feitas por Barcelos, podemos inferir que o ser humano da atualidade, na sua relação com a natureza, quando orientado pelo mercado de consumo, pode constituir-se por meio de ações que levam à destruição da natureza. Nesse caso, caminha-se para a formação de um indivíduo competitivo e individualista. Contudo, essas ações, também, conduzem os indivíduos a refletirem a respeito dessa relação com a natureza, possibilitando-lhes a reverem essa relação. A citação de Michel Serres, que se segue, resume, essa outra visão:

"Não é mais possível que o homem continue agindo como se da natureza não fizesse mais parte, como se da mesma fosse apenas um ator, cuja ação tivesse apenas repercussão e quando muito, até onde alcança sua curta visão. Nossas ações, mesmo aquelas aparentemente menores e menos abrangentes, podem ser ações locais, porém suas repercussões podem vir a ser globais". (Serres, apud Barcelos, 1996, p.8)

Essa visão se insere num processo de aprendizagem de formação de uma consciência ambiental forjada nos movimentos ecologistas e na educação ambiental, possibilitando a frações da sociedade e indivíduos constituírem-se para desenvolverem ações de cuidado com o meio ambiente.

De acordo com Mônica Angela de Azevedo Meyer (1991), em seu texto Educação ambiental: uma proposta pedagógica, podemos perceber que há um grande trabalho a ser desenvolvido a fim de que os indivíduos e a sociedade se insiram numa aprendizagem contínua para o cuidado com o meio ambiente.

Se entendermos a educação como "um processo contínuo de aprendizagem de conhecimento e exercício da cidadania, capacitando o indivíduo para uma visão crítica da realidade e uma atuação consciente no espaço social", há todo um conjunto de ações a ser desenvolvido. Por isso, a educação ambiental precisa estar inserida num contexto histórico, social, político e cultural, a fim de se manterem relações sociais no tempo e no espaço da atualidade. (Meyer, 1991, p.41)

Portanto, para se adquirir uma consciência crítica sobre as questões ambientais, é preciso que todos se envolvam em um aprendizado constante, pois as transformações naturais também se dão de maneira continuada. Esse processo de aprendizagem, envolvendo ações humanas, exige que cada indivíduo e a sociedade construam um outro saber para uma compreensão do ambiente, a qual Meyer define da seguinte forma:

"O ambiente considerado como espaço construído inclui o mundo natural, mas não como realidade autônoma, independente, sem sujeito social. O ser humano vive e realiza sua existência num espaço e tempo que ele define e redefine como produção de sua intervenção através do trabalho, da construção da moradia, do lúdico, das relações sociais produzidas, da convivência, do consumo, da transformação e destruição da natureza. Espaço da vida real onde nos tornamos homo sapiens, homo faber, homo ludens." (Meyer, 1991, p.42)

Dessa forma, a proposta pedagógica de Meyer permite a compreensão do mundo, promovendo a participação, a construção própria do conhecimento, favorecendo a construção da individualidade e uma nova aprendizagem em relação à natureza, ou seja, ao meio ambiente.

O  texto Um olhar sobre os Ideais Educativos constituídos pelos movimentos ecologistas nos anos setenta de Leandro B. Guimarães e Fernando O. Noal (2000) analisa os movimentos ecologistas no Rio Grande do Sul. Através desses movimentos, os autores procuraram entender os ideais educativos que foram constituídos pelos diversos movimentos existentes na década de setenta, procurando examinar o educativo-ambiental ligado ao consumo.

De acordo com esses autores, no Rio Grande do Sul surgiram movimentos ecologistas, entre os quais se destacam: AGAPAN (Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural - A vida sempre em primeiro lugar); ADFG - Amigos da Terra (Consciência e ação); ANAI (A salvação do índio está na consciência do branco); Associação Ecologista em Nome do Amor à Natureza; Cooperativa Colméia (Ecologismo no dia-a-dia); Grupo Ecológico Deite na Grama; Grupo Ecológico Kaa-Eté (Não deprede a mata virgem); MEI (Seja ativo na defesa da vida) e o Movimento Ecológico Pró-Vida.

Os autores mostram que os movimentos ecologistas eram representados por palavras que causavam impacto, ou seja, Guimarães e Noal as define em quatro conceitos principais : "natureza, vida, consciência e ação". Através desse entendimento, os autores elaboram "uma caracterização sobre o que constitui o educativo-ambiental neste período: um conjunto de ações que levaria as pessoas à conscientização sobre as melhores formas de se relacionarem com o ambiente natural e, dessa forma, protegerem a própria continuidade da vida". (Guimarães; Noal, 2000, p.7)

Dessa forma, o principal objetivo dos movimentos ecologistas era de conscientizar a população, sendo realizadas "nas ruas - vistas como espaços privilegiados para promover o 'despertar das consciências' - e dar visibilidade às reivindicações, no intuito de pressionar as decisões governamentais em relação à tomada de providências a respeito das várias reivindicações que eram feitas". (Guimarães; Noal, 2000, p.7)

Esses movimentos ecologistas elegeram o consumo como o principal causador do desequilíbrio ambiental. Em todos os textos criados pelas entidades ecologistas existentes, a idéia sempre era a mesma: o ato de consumir precisava ser controlado pela sociedade, pois estava pondo em risco a natureza e a sobrevivência humana.

Entre os defensores ambientais foi criada uma ética para conscientizar a sociedade de valores não-consumistas, que foi a ecológica. A partir de então foi necessário articular ações que transmitem esses valores para ocorrer uma mudança nas atitudes e nas posturas dos indivíduos.

Ao retornamos os princípios que nos orientaram na análise dos movimentos ecologistas e observamos as conclusões que chegaram Guimarães e Noal (2000), podemos dizer que os grupos que se organizaram nesses movimentos adquiriram uma aprendizagem por meio do convívio social e na busca de uma interação com a natureza. Através de suas palavras de ordem e de outras ações realizadas, os indivíduos inseridos nos movimentos ecologistas permitiram-se perceber com possibilidades de mudanças, enquanto sujeito sociais e enquanto indivíduos.

Esses autores (Libâneo, Barcelos, Meyer, Guimarães e Noal), através de seus estudos, ao retomarmos os princípios que fundamentaram nossa leitura, nos permitem apontar algumas considerações.

Com o passar do tempo e com o avanço das sociedades, por um lado, as relações sociais se complexificaram e, por outro, os sujeitos sociais, ao intervirem na natureza, transformaram-na. Em alguns casos, para uma deteriorização da vida; em outros casos, como, por exemplo, através da intervenção da educação ambiental e dos movimentos ecologistas, há uma tentativa de se priorizar o cuidado com o meio ambiente, no sentido de dar qualidade à vida. Nessa ação, percebemos que os indivíduos são instigados a terem mais consciência para agirem coletivamente em busca de soluções para uma problemática que é comum aos seres humanos da contemporaneidade: estabelecer uma relação sustentável entre sociedade, indivíduo e natureza.

Na interação com outras pessoas, no convívio social, na relação com o meio ambiente e com o mundo que o cerca, o ser humano vai construindo sua natureza de sujeito social de ação e, nessa ação, constitui-se na sua própria individualidade. Nos movimentos ecologistas e no processo de educação ambiental, as relações sociais se transformam, e, nessa trasnformação, os seres humanos se formam e aprendem, se constituem enquanto indivíduos.

Na continuidade deste estudo, prosseguimos com as questões: os relatos de ações e intervenções no meio ambiente e os resultados de pesquisas ou ensaios relacionados à educação ambiental e aos movimentos ecologistas, elaborados nos últimos dez anos, que reflexões apresentam a respeito da relação sociedade, indivíduo e natureza? Essas produções acadêmicas, voltadas para as questões do meio ambiente, que compreensão elaboram a respeito da relação homem versus natureza?

 

3. RELAÇÃO DE INTERDEPENDÊNCIA ENTRE NATUREZA, INDIVÍDUO E SOCIEDADE

Os estudos dos autores acima elencados nos conduzem a inferir que a relação ser humano e natureza sempre foi fundante para a existência humana. Embora em determinados momentos da história as sociedades e os indivíduos distanciem-se dessa percepção, sustentam essa compreensão. A relação sociedade, indivíduo e natureza possibilita a vida, tanto na produção da existência material quanto na produção da existência simbólica.

Na produção da existência simbólica, ou seja, na elaboração de um alto nível de abstração mental, nas sociedades altamente complexificadas, sistematizaram-se em alguns campos de conhecimentos, teorizações unidirecionais ou especializadas, desvinculando-se da interdependência de uma totalidade que abarca natureza com seus fenômenos físicos e ser humano.

Por exemplo, Prigogine (1991), na sua fala a respeito de “o nascimento do tempo”, reporta-se à elaboração da cultura humana, que separa, por um lado, “as ciências humanísticas e as letras” e, por outro lado, “as ciências ditas exactas” (p. 29).

Sua investigação permite-lhe perceber um “divórcio entre a situação essencial do homem, em que o tempo desempenha um papel essencial e a visão atemporal, vazia, da física clássica”. Ou seja, na elaboração sistemática da ciência física, por meio das questões que se coloca a respeito do tempo, Prigogine percebe a dualidade das elaborações mentais e propõe uma revisão teórico-metodológica das investigações científicas. Os seus estudos ligados à compreensão do tempo permitem-lhe dizer:

“... quando pude fazer progressos na compreensão do tempo, no interior das ciências, convenci-me de que tinha a possibilidade de superar esta dicotomia das duas culturas. Não atacando a ciência como um instrumento positivista, nem atacando a arte e a literatura como se fossem artifícios sem um alcance real; mas antes pondo em evidência como se criou uma unidade cultural que provém do interior da ciência, pondo em evidência uma nouvelle vague crescida no interior da ciência e capaz de superar esta dicotomia clássica.” (Prigogine, 1991, p. 29-30)

Elias (1998), ao desenvolver seus estudos referentes “a relação indissolúvel entre os planos físicos e social do universo”, diz-nos que, se separarmos as dimensões física e social a respeito do “tempo”, não chegaremos a uma compreensão conceitual real e verdadeira. Coloca-nos o autor:

“A contínua ampliação das sociedades humanas no interior do universo ‘físico’, alheio ao homem, contribui para estimular um modo de falar que sugere que ‘sociedade’ e ‘natureza’ ocupariam compartimentos separados, impressão esta que foi reforçada pelo desenvolvimento divergente das ciências naturais e das ciências sociais.” (Elias, 1998, p. 38)

Portanto, com a seqüência dos estágios evolutivos da humanidade, atingindo-se as sociedades altamente industrializadas, chega-se a elaborar um “continuum padronizado” de medidas de tempo (dias, meses, anos, séculos, milênios, ...) e de instrumentos dessas medidas (calendários, relógios, ...) que orientam e determinam as atividades individuais e sociais.

Nesse estágio evolutivo de sistematização de saberes, elaborados academicamente, tornou-se recorrente que “a natureza externa ao homem e a realidade humana constituem dois universos separados, independentes”. Terminologias como “natureza e sociedade”, “tempo físico e tempo vivido” são estudados como conceitos opostos, sendo a “natureza” objeto de estudo associado ao campo de pesquisa das ciências exatas, “enquanto a realidade humana, em suas manifestações – sociedade, cultura, experiência etc. –, tem sido estudado como algo que, justamente, não pertenceria à natureza”. (Elias, 1998, p. 70)

Ao retroceder-se na história para averiguar como os grupos, as comunidades e as sociedades foram elaborando os conceitos e instituindo os saberes, perceber-se-á que

“Na realidade, a humanidade, e, portanto, também a ‘sociedade’, a “cultura” etc., não são menos ‘naturais’ nem menos integrantes de um único e mesmo universo do que os átomos ou as moléculas. De fato, a humanidade e a natureza não diferem existencialmente uma da outra, no sentido como levaria a crer nossa maneira contemporânea de falar e pensar.” (Elias, 1998, p. 71)

As ações desenvolvidas pelos humanos desde suas primeiras providências para a existência no universo, “situaram-se no ‘interior’ do universo físico e se portaram como um elemento desse universo”. Os conceitos utilizados pela divisão das disciplinas científicas afastam-nos da compreensão de se perceber uma “unidade na diversidade. Mas, de acordo com o autor que estamos citando, ao rever a elaboração dos conceitos científicos, existe a possibilidade de se “restabelecer uma certa consciência da interdependência entre ‘natureza’ e ‘sociedade’”. (Elias, 1998, p. 72)

 

4 – ALGUMAS CONSIDERAÇÕES

Desde o início de sua estada no mundo físico, na natureza com a manifestação dos fenômenos que lhe são pertinentes,  até o presente, com a atual organização do espaço geográfico,o ser humano se transformou e tornou-se eminentemente um ser de ação, enquanto interage com o meio social e com a natureza transforma-se a si mesmo.

Ao interagir no mundo físico e no meio social, o ser humano vai elaborando sínteses mentais de altos níveis de abstrações. Isso lhe permite criar categorias mentais como, por exemplo, “tempo”. De acordo com os autores aqui citados (Elias, Prigogine, Santos, ...), as primeiras representações da relação entre as atividades humanas e os fenômenos físicos traziam uma caracterização mostrando a inter-relação ou imbricação entre experiência humana vivida e fenômenos físicos ou natureza.

Com a evolução do mundo, as sociedades se complexificaram, e suas produções mentais passaram a separar as abstrações mentais referentes à natureza das abstrações mentais referentes ao meio social. Portanto, considerar as experiências dos humanos quando não havia uma representação mental cindindo natureza e ser humano é retomar uma base fundante para a ação social no cuidado com o meio ambiente e na constituição do indivíduo.

 

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[1] Graduanda do Curso de Pedagogia - FUNREI; Bolsista de Iniciação Científica - PIBIC/CNPq/FUNREI.

[2] Doutora em Educação - FAE/UFMG; Professora do Departamento das Ciências da Educação - FUNREI.

[3] Projeto de Iniciação Científica intitulado: A Relação Indivíduo, Sociedade e Natureza na Educação Ambiental e nos Movimentos Ecologistas: Algumas Reflexões.