Rejeitos e Manejo sustentável na etnia Krahö[1]

 

RENATA OLIVEIRA COSTA[2]

VÂNIA RÚBIA FARIAS VLACH[3]

 

1-      Introdução

 

A sociedade indígena Krahö vive atualmente em uma área de aproximadamente 320.000 hectares, dentro do Bioma Cerrado. Esta área foi demarcada pelo Governo Federal, através do decreto-lei número 102, datado de 05 de agosto de 1944, localizando-se no nordeste do estado de Tocantins, entre as latitudes 8º S e 9º S e longitudes 46º54' W e 51º18' W. A Terra Indígena Krahö abriga uma população de aproximadamente 2000 pessoas, agrupadas em cerca de 17 aldeias.

Esta etnia é uma das ramificações do Tronco Lingüístico Macro-Jê, que sobrevivem a inúmeras investidas colonizadoras, formando juntamente com os Ramkokamekrá e Apaniekrá, mais conhecidos como grupo Canela, Krinkati, Apinayé, Gavião (do Pará) e Pökobyê, a família Timbira. Antes do contato com as frentes colonizadoras no interior do país, esta família era formada por inúmeros subgrupos. Alguns não resistiram à violência do contato e acabaram por se extinguir, outros se uniram, formando grandes grupos que foram classificados posteriormente por pesquisadores e tiveram suas terras demarcadas, sem que percebessem suas delicadas diferenças. Os Krahö fazem parte deste segundo exemplo, sendo a união de dois subgrupos: Kenpokateyê e Mãnkraré.

A cultura Krahö baseia-se em uma intrincada rede de parentescos. Sua sociedade se divide em duas metades, denominadas Katam'jê e Wakm'jê. Estas duas metades se revezam no "governo" das aldeias, sendo que a primeira está ligada à estação chuvosa, e, a segunda, à estação seca.

Os subgrupos desta família foram contactados por volta do final do século XVIII, no sul do estado de Maranhão; tardiamente, se compararmos aos povos que se localizavam no litoral brasileiro, mas a violência do contato foi praticamente a mesma, considerando-se o antagonismo cultural.

No caso dos subgrupos formadores da etnia Krahö, este primeiro contato se deu na região do rio das Balsas, neste mesmo estado. Diz-se que esta etnia tem aproximadamente duzentos anos de aculturação, processo em que há uma degeneração de sua cultura milenar, por influência de sociedades não-indígenas.

Os Krahö e a maioria dos subgrupos da família Timbira são caçadores e coletores, sendo que, nas épocas mais propícias, permaneciam em uma região que lhes pudesse oferecer caça e coleta suficientes, além de boa terra para plantar alguns tipos de alimentos, como milho e mandioca. Quando esta terra já não satisfazia suas necessidades básicas, saíam à procura de outra.

Com os programas de incentivo à ocupação do interior do país, terras que eram consideradas como "terra de índio", ou seja, onde os brancos ainda não haviam chegado, foram ocupadas lenta e violentamente por, principalmente, criadores de gado à procura de terras mais férteis e ricas em água, onde seus rebanhos se veriam livres dos longos meses de estiagem. Esta expansão levou dois séculos para atingir os subgrupos Timbira, sendo que a primeira onda foi a mais violenta. Neste contexto, o subgrupo Kenpokateyê, formador da etnia Krahö, sofreu um violento massacre por volta de 1940, desfechado por estes criadores de gado, reduzindo sua população à oitenta indivíduos, dentre os quais muitas mulheres, crianças e idosos.

Diante desta violência que culminou em um massacre, o Governo Federal se viu pressionado a demarcar a Terra Indígena Krahö, aglutinando os dois subgrupos na mesma área, o que foi feito a contragosto dos criadores de gado. Hoje, com quase dois mil indígenas, percebe-se o nítido crescimento populacional desta etnia, o que representa um ponto positivo, pois a sua representação e preservação cultural para o "mundo lá fora" se faz determinante para sua sobrevivência nos dias de hoje. Mas, por outro lado, este alto nível de crescimento populacional pode se tornar ponto negativo, se não houver um manejo sustentável de seu território.

A ocupação das áreas de cerrado intensificou-se na década de 70, com o incentivo do Governo Federal para implantar na região um sistema agroalimentar considerado moderno, com alto grau de mecanização do trabalho e altamente dependente do uso de insumos químicos. Tais métodos vieram a acelerar problemas de desestruturação dos solos, compactação e erosão, de maneira que o bioma natural passa a sofrer uma violenta devastação.

Espécies milenarmente utilizadas pelos indígenas e absorvidas pelos pequenos agricultores, praticamente desapareceram, dando lugar às sementes híbridas e inadaptadas às condições naturais de solo e clima dos cerrados, gerando miséria e dependência tecnológica destes lavradores.

Esta situação obrigou os órgãos governamentais a intervirem mais uma vez na área indígena, desta vez implantando um Posto Indígena do antigo SPI (Serviço de Proteção aos Índios), que posteriormente foi absorvido pela FUNAI (Fundação Nacional do Índio), onde funcionários do governo moravam e conviviam com os indígenas que, nesta ocasião, já não tinham as mesmas condições de vida e de trabalho de alguns anos atrás. A FUNAI, através de seus funcionários, tentava implantar roças coletivas para resolver o problema da fome, mas não adiantava, já que os Krahö tinham a tradição de fazer roças familiares. O resultado eram brigas e o problema continuava.

Inúmeras tentativas foram feitas, mas os indígenas acabavam por conhecer e cobiçar os produtos dos brancos, agravando o processo de sedentarização pelo qual passavam, adquirindo outros traços culturais advindos deste processo.

Uma das características marcantes desta mudança de hábitos culturais que podemos verificar em uma aldeia Krahö, e que passa a ser objetivo de estudo desta pesquisa, é a produção de rejeitos orgânicos e inorgânicos, característica esta que encontramos em todos os lugares do mundo e que ataca todos os tipos de população.

A pressão da sociedade de consumo faz com que pessoas que não têm o costume de consumir, procurem este tipo de prática, criando outras necessidades, além daquelas a que estavam acostumadas há milhares de anos. Estas novas necessidades geram rejeitos que, em sua maioria, não são biodegradáveis e, muitas vezes, até tóxicos, como é o caso das pilhas. Atualmente, os Krahö também passam por isto, já que não estão mais isolados da sociedade urbano-industrial em que vivemos.

A falta de técnicas de manejo do lixo está ligada a esta recente mudança de hábitos na produção residual do grupo. Esta mudança consiste no fato de que tudo o que era utilizado e descartado pelo grupo tinha origem orgânica, mas há alguma décadas, alguns bens de consumo de nossa sociedade começaram a ser introduzidas na área indígena, acarretando a produção de resíduos de difícil absorção pela natureza.

Considerando-se que o acúmulo deste lixo pode gerar vários problemas de saúde, bem como comprometer os recursos naturais locais, é de fundamental importância pesquisar estes impactos, a partir do conhecimento e da relação intrínseca que este povo tem com a natureza.

Os métodos utilizados para o desenvolvimento desta pesquisa consistem basicamente em trabalhos de campo, observações, entrevistas, coleta de dados e levantamento de bibliografia útil ao embasamento conceitual.

Trabalhar com a questão da produção residual entre os Krahö é algo complexo, pois eles  têm uma relação intrínseca com a natureza e com tudo aquilo que produzem, inclusive o lixo que, em todas as casas que visitamos até hoje, é jogado nos quintais, onde as crianças brincam, as parcas criações vivem e onde se planta algum alimento. Sendo assim, o lixo também é produção, assim como as roças, as festas, os ritos, as crianças, as plantas, os animais e tudo aquilo que possam produzir para sobreviver.

Vários trabalhos de campo já foram realizados na área, contando com relações de amizade e parentesco que trocamos com os indígenas, que sempre são muito abertos e sinceros para responder a questionamentos pertinentes à nossa cultura. Muitas vezes nos vimos em situações que causam estranhamento a eles, como as vezes que passamos horas nos quintais tentando reconhecer os tipos de materiais depositados, e seu grau de decomposição. Para eles, isto é muito estranho, e aqueles que fazem uma idéia do que estamos fazendo, se sentem envergonhados, já que na maioria das grandes cidades por onde já passaram não vêm lixo acumulado nos quintais das casas.

Os trabalhos de campo são essenciais ao bom andamento desta pesquisa, pois o objeto de estudo é uma etnia com traços culturais antagônicos aos nossos. Percebe-se que há inúmeros estudos sobre a produção de lixo no meio urbano e menos no meio rural, porém, na maioria das vezes, estes não se adequam à relação dos seres humanos e sua produção residual em diferentes culturas.

As observações estão sendo feitas de forma mais pertinente em uma aldeia em específico, a Pedra Branca. Esta era conhecida como a aldeia do posto, portanto, tem uma história de construção e ocupação diferenciado das outras, já que sempre esteve muito próxima a um dos maiores fatores de aculturação dos Krahö. Sendo assim, a Pedra Branca teve suas tradições prejudicadas por este fator. Como exemplo, podemos usar a produção alimentar que não é tão significativa como deveria ser, e, se não há produção de alimentos, os moradores têm que recorrer à cidade de Itacajá, que se localiza a vinte quilômetros, distância que, para eles, é facilmente vencida à pé.

Portanto, as observações são feitas de modo a perceber a gravidade do problema e a relação que os moradores têm com o mesmo. Através de entrevistas em cada casa, cujo quintal se observa, pergunta-se o que eles procuram fazer para diminuir a poluição visual, e o que eles acham que ocasionou a produção de todo aquele lixo. Muitas vezes, o resultado são horas de conversa, sempre trocando informações sobre diversos assuntos relacionados às diferenças culturais.

As mulheres são um ponto chave para o andamento da pesquisa, já que são elas que fazem a comida e cuidam da casa, ou seja, na maioria das vezes, elas jogam o lixo fora. Mas nem sempre é fácil manter um contato com elas, mesmo sendo mulher também. Em sua maioria, são arredias e não falam o português (ou fingem que não compreendem o que estamos dizendo). Algumas já são amigas, e conseguimos informações com elas, mas as outras nem sempre nos recebem com disposição para conversar e responder às perguntas; então, conversamos com os maridos ou com um filho mais velho. A tentativa de se aproximar se faz na compreensão de sua cultura e no aprendizado da língua Krahö.

 Deste modo, coleta-se os dados sobre a dinâmica da produção residual do grupo de forma simples e agradável, na tentativa de absorver o máximo de informações da mesma forma em que eles sempre passaram suas tradições, através da transmissão oral de geração em geração.

Procuramos também, para a viabilização desta pesquisa, bibliografias referentes tanto à etnia Krahö, à família lingüística a qual pertence e à situação atual dos indígenas brasileiros; quanto à produção de lixo e a relação desta com os seres humanos. Estas bibliografias também são essenciais à compreensão da realidade destes povos, para que haja a precisão conceitual que tanto almejamos na academia.

O retorno ao povo Krahö é indispensável. Quando se faz uma pesquisa envolvendo uma comunidade, é compromisso do pesquisador levar os resultados à esta, mas nem sempre isto acontece, principalmente quando a comunidade envolvida é indígena. O acesso (físico e intelectual) à estas comunidades nem sempre é fácil; por isso muitos pesquisadores não retornam mais às aldeias para apresentar (e/ou discutir) os resultados. Desta forma, tentamos manter o compromisso com a etnia, através de reuniões com as lideranças que, na maioria das aldeias, são realizadas todos os dias pela manhã e, também, coletivas, em um espaço que está sendo construído na reserva.

Portanto, este retorno será feito através de palestras, atividades artístico-culturais, no sentido da conscientização do problema e também práticas, no sentido de reaproveitar o máximo de resíduos produzidos. Estes trabalhos serão feitos após estudos preliminares, necessários à compreensão da complexidade da questão dos resíduos na comunidade indígena Krahö.

 

2- Contextualização histórico-espacial da família Timbira

 

"Antigamente não havia civilizados, mas apenas índios. Uma mulher indígena ficou grávida. Toda vez que ela ia tomar banho no ribeirão próximo da aldeia, seu filho, que ainda não havia nascido, saía de seu ventre e se transformava em animais, brincando à beira d'água. Depois voltava outra vez ao ventre materno. A mãe não dizia nada a ninguém. Um dia o menino nasceu. Era Auquê. Ainda recém nascido, transformava-se em rapaz, em homem adulto, em velho. Os habitantes da aldeia temiam os poderes sobrenaturais de Auquê e, de acordo com seu avô materno resolveram matá-lo. As primeiras tentativas de liquidá-lo não tiveram sucesso. Uma vez, por exemplo, o avô o levou ao alto de um morro e empurrou-o de lá no abismo. O menino, porém, virou folha seca e foi caindo devagarinho, voltando são e salvo para a aldeia. Até que o avô resolveu fazer uma grande fogueira e nela atirá-lo. Dias depois, quando foi ao local do assassinato para recolher as cinzas do menino, achou lá uma casa grande de fazenda, com bois e outros animais domésticos: Auquê não havia morrido, mas sim transformara-se no primeiro homem civilizado. Auquê ordenou, então, ao avô, que fosse buscar os outros habitantes da aldeia. E eles vieram. Quando Auquê os fez escolher entre a espingarda e o arco, os índios ficaram com medo de usar a primeira, preferindo o segundo. Por terem preferido o arco, os índios permaneceram como índios. Se tivessem escolhido a espingarda, teriam se transformado em civilizados. Auquê chorou com pena dos índios não terem escolhido a civilização." (MELATTI, 1970:27/8).

Este é uma lenda contada pela maioria das tribos Timbira, na tentativa de explicar a origem do mundo "civilizado". Auquê, neste mito, representa o novo, o que eles não sabem como lidar, por isso tentaram matá-lo. O fato de os índios desta família contarem este mito aos seus descendentes, e às pessoas que se interessam, é uma das maneiras de resistência à nova identidade que tentaram, e tentam, colocar-lhes até hoje.

 Desta forma, alguns, posteriormente, acabaram por escolher a espingarda, outros continuaram com o arco em punho. Tragicamente, os que escolheram fugir das frentes de expansão, foram massacrados isoladamente ou em chacinas, os outros, que resolveram juntar-se aos "civilizados", igualmente foram massacrados, desta vez, em suas tradições e meios de vivência, ou seja, passaram a sobreviver apenas.

As campinas do sul do Maranhão, banhadas por rios permanentes, protegidas por florestas ciliares e permeadas de tufos de matas e de palmais, serviam de morada aos povos Timbira, até o final do século XIX. Estas tribos eram altamente especializadas à esta região que combinava características das caatingas áridas do Nordeste e das florestas úmidas da Amazônia. Originalmente eram 15 tribos, relativamente populosas, mas apenas quatro alcançaram o século XX, principalmente porque o modo de vida Timbira não tinha nada de comum com a dos criadores de gado que vieram a ocupar sua região.

A ocupação das terras, até então exploradas apenas pelos Timbira, teve início no primeiro quartel do século XIX, prolongando-se por quarenta anos de lutas ininterruptas e sangrentas, seguidas de uma vida precária.

A pecuária, considerada atividade subsidiária à plantação açucareira, encontrava na região Centro-Oeste do país as condições mais favoráveis à criação de gado, uma vez que a cobertura vegetal e o clima forneciam elementos que fomentavam as incursões destes criadores.

Os sertanejos nada podiam sozinhos contra os milhares de indígenas. Então, com o aval do governo imperial, se organizaram em bandeiras, compostas de cem a duzentos homens, aliciados entre os sertanejos. As autoridades locais forneciam documentos, legalizando as invasões e a escravização dos índios. A garantia de que estavam fazendo o certo era confirmada pelo pensamento comum da recente sociedade brasileira de que estes "selvagens" não tinham alma.

Sem saber que os "selvagens", em sua maioria, eram guerreiros, as bandeiras esperavam obter rápida vitória sobre eles, enfrentando-os em grandes batalhas campais, cobiçando suas terras que, para os sertanejos eram inúteis nas mãos de pessoas que não as capitalizavam. Mas, os índios, que já haviam conhecido o fogo dos trabucos "civilizados", sempre fugiam, escalando os morros vizinhos, esperando que a bandeira se pusesse em retirada para, então, atacar-lhes a retaguarda.

Como a maioria dos contatos interétnicos, índios e brancos acabaram por se conhecer. Os índios cobiçavam as armas e ferramentas dos brancos, aprenderam a usá-las, facilitando o estabelecimento de relações; enquanto estes achavam bom dinheiro por aqueles, vendidos como escravos na vila de Caxias para o trabalho nos algodoais maranhenses.

Tanto índios quanto brancos eram escravizados quando perdiam as batalhas. O interessante é que, quando os índios capturados conseguiam escapar depois de anos de cativeiro, assim como os vaqueiros aprisionados pelos Timbira também conseguiam escapar, uns e outros fugiam sabendo de seus costumes e entendendo a língua, servindo como parlamentares da paz. Mas, segundo Ribeiro:

"Uma paz de engodo porque quando os índios abandonavam seus redutos, confiantes nos protestos de amizade ditados em sua língua e nos oferecimentos de ferramentas e outros brindes, eram ali mesmo atacados e subjugados para serem levados aos leilões de Caxias. Era já o valor do índio como mercadoria que não permitia o estabelecimento da paz." (RIBEIRO, 1982:59).

As bandeiras encontraram um fim em si mesmas, pois quando o governo imperial se interessou pela pacificação, destinando até recursos para atender às despesas de aldeamento, os criadores de gado procuraram livrar-se delas, pois serviam apenas para agravar os conflitos e fazer escravos, que já não eram tão interessantes assim. Então os Timbira começaram a ter paz novamente.

O primeiro grupo Timbira a procurar espontaneamente os "civilizados", havia sido derrotado em uma guerra interna por outro ramo de sua própria tribo. Verifica-se, então que os conflitos também aconteciam entre as tribos, talvez por determinações de espaço, que já não era tão vasto quanto anos atrás.

Estes grupos que se "rendiam" aos brancos, pleiteavam alianças, apresentando-se moribundos e em massa ao povoado sertanejo mais próximo. Mas eles, mais uma vez, se enganaram com as intenções civilizatórias, logo, tiveram de fugir novamente, pois a paz com o invasor foi tão fatal quanto a guerra.

Os que conseguiram viver na falsa paz sofreram com a fome e a perda de suas tradições, pois abandonaram suas roças e seus campos de caça; fixando-se junto aos civilizados que prometeram sustentá-los com a ajuda do governo. Mas esta faltou, foi mal aplicada ou insuficiente. Os fazendeiros se recusavam a fornecer-lhes alimentos com seus próprios recursos, apesar do receio que tinham dos "selvagens". Estes, passaram a vagar pelas fazendas à procura de alimentos nas rezes e nas plantações de seus falsos aliados.

A solução para os fazendeiros veio junto à mais uma desgraça para os índios. A pretexto de mais uma guerra contra uma tribo Timbira, os fazendeiros atraíram os índios para a vila de Caxias, então atacada por uma epidemia de bexiga. A peste, então daria conta deles. Os índios atenderam ao chamado, na esperança de solucionar seus sofrimentos, mas nada lhes foi dado de alimento durante dias e, quando quiseram colher legumes nas roças vizinhas, caiu sobre eles todo o peso de uma punição premeditada. Foram presos e espancados, inclusive mulheres e crianças.

Os que tentaram fugir foram espingardeados e os que conseguiram, levaram consigo a peste, contaminando os sertões, atingindo até as populações indígenas da margem esquerda do Tocantins, mil e oitocentos quilômetros a oeste.

A resistência das Tribos Timbira, assim, se quebrou. Segundo Ribeiro (1982), estes foram os processos usados na conquista dos campos do Maranhão e do norte de Goiás. Em fins do século XIX, quase todas as terras aproveitáveis já estavam controladas pelos criadores de gado. Os grupos Timbira que não se submeteram, tiveram de abandonar os campos, fugindo para as matas, provocando mudanças estruturais em seu modo tradicional de sobrevivência.

Nos primeiros anos do século XX, onde quer que os grupos Timbira se estabelecessem, eram alcançados pelos criadores. Então, renovavam-se os conflitos, as acusações de roubo de gado e nas hortas e, por fim, o choque, o massacre.

 

3- Contextualização histórico-espacial da sociedade indígena Krahö

 

Em todo este histórico de ocupação das terras que eram inicialmente Timbira, os Krahö representaram um papel da maior importância nessas lutas contra sua própria gente, ao lado dos invasores. Conta-se até que existiram grandes guerreiros que se empenhavam em submeter os seus aos desígnios dos "civilizados".

Os primeiros contatos entre os Krahö e os civilizados ocorreram na região do referido rio das Balsas e seus afluentes, no sul do Maranhão, por volta do início do século XIX, época em que as frentes de expansão da pecuária se deslocavam no sentido norte-sul, em busca de novas pastagens para o gado.

Após sucessivos conflitos com os brancos que se instalaram em suas terras, os Krahö foram obrigados a migrar para oeste, até se instalarem nas margens do rio Tocantins, em 1809. Um dos conflitos mais marcantes, que os fizeram migrar para esta região, foi um ataque do brancos a uma de suas aldeias por 150 paisanos e 20 soldados de linha que, além de mortos, fizeram entre eles setenta prisioneiros.

A partir dos anos 40, do século XIX, foi designado aos índios do interior do país, um missionário da ordem dos capuchinhos italianos, Frei Rafael de Taggia, para tentar catequizá-los, onde se localiza, atualmente, a cidade de Pedro Afonso (TO). Esse missionário mandou construir diversas barracas para si e seus soldados, além de uma capela, dando início a uma povoação, na embocadura do Rio do Sono, para atrai-los à catequese.

Assim, em um lugar chamado São João, a 24 Km do acampamento inicial que havia dado início, Frei Rafael de Taggia aldeou os índios e mandou construir um colégio, destinado à educação de seus filhos.

Em seguida, este Frei mandou buscar todos os índios Krahö que se encontravam aldeados nas proximidades de Carolina, que já estava totalmente ocupada pelos criadores de gado e fazendeiros, onde não havia mais espaço para o estabelecimento de relações pacíficas.

Os Krahö transferiram-se rapidamente, já que viam no religioso um fator de proteção. Mas Frei Rafael não lhes deu ao menos a oportunidade de escolher o lugar que se instalariam, ficando a cargo do próprio missionário estabelecer este local segundo seus próprios critérios.

Em 1855, Frei Rafael denunciou que os Krahö quase foram dizimados por completo por uma epidemia de sarampo. Originalmente com aproximadamente quatro mil índios, sua população foi reduzida a 620 pessoas, distribuídas em 270 homens e 350 mulheres.

Segundo Melatti (1974), os Krahö formavam três aldeias em 1890, sendo uma delas com 500 habitantes, a uma distância de três a quatro dias de viagem de Pedro Afonso, provavelmente, já na região de Itacajá, onde hoje se localizam; a segunda, mais próxima a Pedro Afonso, do outro lado do rio Tocantins e a terceira, distante 18 horas de canoa e a pé, segundo Eurípedes Monteiro de Oliveira Junior (2001), provavelmente não era Krahö.

Ainda em 1890, anos depois da morte de Frei Rafael, outro missionário foi procurá-los, agora um dominicano, Frei Gil Vilanova. Este percebeu, então, que estes índios permaneciam pagãos e, agora, escaldados pela catequese, porém, mais pobres, posto que foram despojados de suas terras.

Não bastasse viverem uma sobrevida, começaram a migrar de volta à região de origem, até que chegaram aonde no século XX, por fatores ligados à estes mesmo indígenas, seria instalada a cidade de Itacajá (TO), nas cabeceiras do rio Manoel Alves Pequeno, próximo à fronteira com o Maranhão. Neste local, fizeram acampamentos e iniciaram pequenas roças, principalmente, de mandioca, um dos componentes base de sua alimentação.

Foi uma fase de adaptação a uma nova realidade espacial e histórica, posto que, os brancos tinham seu próprio tempo histórico e obrigavam os índios a obedecê-los, fazendo-os esquecer de muitas tradições e de uma época de fartura que ainda não voltou. Tiveram que reelaborar, mais uma vez, suas relações com o mundo; principalmente seu modo de ser e de viver.

Mas as relações interétnicas não têm apenas uma mão de direção. Os Krahö trouxeram consigo uma cultura totalmente diferente da local, um modo de viver único, que os “invasores” não chegaram a entender, muito menos a respeitar. Ou seja, a chegada desta nação à região, não representou apenas um reforço populacional. Estas novas relações estabelecidas com o mundo e, principalmente, com a terra, trariam consequências trágicas, tanto para os índios, quanto para a sociedade envolvente.

Já a partir de 1940, começaram a surgir as primeiras aldeias desta fase do povo Krahö. Foram chamadas de São Vidal (antiga) e Bacaba, localizadas nas margens dos córregos de mesmo nome; ambas resultantes de uma recente fusão da aldeia Kenpokateyê de Pedra Furada. Também resultante desta divisão, havia a Cabeceira Grossa, bem ao norte de Itacajá, porém, além dos limites da atual reserva. Esta foi uma das aldeias que sofreu o referido massacre nesta mesma década.

Nesta região, os componentes da frente pioneira se instalavam, pois já haviam expulsado todos os indígenas que ali habitavam. Estas frentes se caracterizavam por grandes fazendas, latifúndios onde era evidente o processo de reprodução do capital.

A vertente Kenpokateyê se encontrava mais à frente dos Makraré, avançando de volta ao Maranhão, alcançando esta região ao norte de Itacajá. Mais uma vez, o encontro da vertente migratória com a frente pioneira, resultaria em graves conflitos, trazendo inúmeras mudanças.

Cançados dos constantes roubos de gado, praticados pelos Krahö, dois fazendeiros resolveram por fim às relações já estabelecidas com este povo da forma mais perversa e covarde.

 Elaboraram um plano: iriam atacar duas aldeias no mesmo dia, a antiga Pedra Branca e a de Cabeceira Grossa, localizadas a norte de Itacajá. Para tanto, elaboraram diferentes táticas.

Primeiro, mandaram uma autoridade policial, aliada à causa dos fazendeiros, telefonar à capital, informando que os índios haviam feito um cerco nas aldeias e ameaçavam matar todos os moradores; claro que isto era mentira, pois eles permaneciam tranquilos em suas aldeias sem saber da tragédia que os esperava.

Não bastasse preparar a impunidade, os fazendeiros mandaram rezes para os índios como presente para que sua carne fosse distribuída entre eles. Esta ação tinha o objetivo de reunir todos para que nenhum escapasse do massacre.

Dito e feito. Na madrugada do dia 25 de agosto de 1940, um domingo, o fazendeiro José Santiago, comandando um grupo de 22 jagunços, atacou a aldeia de Cabeceira Grossa, enquanto outros comparsas atacaram a de Pedra Branca. Nos dias seguintes prosseguiam em caçadas de índios que conseguiram fugir pelas matas. A crueldade era tanta, que os matadores se entregaram ao esporte de matar as mulheres e crianças apenas a facão, economizando as balas de rifle 44 para os homens.

O resultado na Cabeceira Grossa foi a extinção desta aldeia e 23 habitantes mortos, enquanto os que conseguiram sobreviver se refugiaram na aldeia Cachoeira, que se localizava do outro lado do córrego, já dentro da reserva demarcada posteriormente.

Os habitantes da antiga Pedra Branca; tiveram mais sorte, pois presentiram a chegada dos agressores e fugiram para o mato, abandonando a aldeia e indo também se juntar aos moradores da Cachoeira.

Este episódio marcou profundamente as relações de contato dos Krahö com a sociedade envolvente. Inicialmente, por romper definitivamente os laços destes índios com os criadores de gado e fazendeiros da região. Mas também, a repercussão destes acontecimentos, obrigou outro segmento da sociedade brasileira a se aproximar deles, demarcando 320.000 hectares de terras para usufruto deste povo e criando nesta reserva um primeiro Posto Indígena do então Serviço de Proteção aos Índios, estabelecendo, assim, a presença do Governo Federal na região.

Foi uma mudança radical na vida deste povo, pois, pela primeira vez, viu-se irremediavelmente cercado e submetido à condição de “tutelado” do governo, que sempre teve uma política extremamente protecionista para com os indígenas brasileiros.

Os mais velhos Krahö contam que os funcionários do SPI e, posteriormente, da FUNAI, diziam a eles que não precisariam mais trabalhar, pois, agora, o governo iria sustentar-lhes, posto que eram “filhos do governo”. Sendo assim,  poderiam só ficar cuidando de suas festas e tradições. De fato, contam estes velhos que, no início desta relação, chegavam caminhões de tecidos, ferramentas e comida para as aldeias.

Mal sabiam, estes funcionários, que trabalhar na roça, caçar e coletar também fazia parte de suas tradições. Tanto que, até esta época, os Krahö eram autônomos, política e economicamente, apesar de manterem constantes relações com os fazendeiros e outros. Sua agricultura era bem variada de produtos, que sustentavam suas festas e, os excedentes eram comercializados no mercado regional, onde conseguiam produtos industrializados dos quais já eram necessitados.

Na tentativa de salvar os Krahö da fome e da miséria, os técnicos e funcionários iniciaram uma fase de grandes projetos agrícolas, influenciados pelas mudanças pelas quais a agricultura mundial passava. Estes projetos se baseavam na monocultura, principalmente, de arroz, em grandes lavouras coletivas, quando o modelo tradicional era o de lavouras familiares feitas em regime solidário, com o plantio de várias espécies.

O resultado foi apenas fome e miséria, ocasionando a desestruturação de uma prática agrícola milenar, além do desmoronamento de uma organização social também milenar.

No início da década de 1970, a FUNAI já havia desistido dos Krahö, considerando-os irrecuperáveis e inviável sua integração à sociedade nacional, uma vez que nenhum dos programas que haviam tentado dera certo. Então, este órgão passou apenas a manter a dependência que havia criado, continuando a fornecer-lhes as ferramentas e as sementes, que, em sua maioria, eram híbridas e inadaptáveis às condições edafo-climáticas da região. Ou seja, os indígenas trocavam as ferramentas por outros produtos com os sertanejos e comiam as sementes que lhes chegavam.

Mais uma vez, este povo experimentou um período de miséria, com a fome e a morte rondando constantemente as aldeias. As doenças e os óbitos aumentavam, a auto-estima fazia o caminho reverso, chegando a níveis baixíssimos, fazendo aumentar o alcoolismo, as desavenças entre as aldeias e famílias e a desesperança. Os jovens passaram a não mais acreditar na própria capacidade de aprender e produzir, negando-se, em sua maioria, a exercer as atividades produtivas, gerando assim o problema da ociosidade e da marginalização.

Como outras diversas sociedades indígenas da América como um todo, a nutrição e saúde Krahö apresentam características de genocídio cultural, por causa do contato com a sociedade urbano-industrial, que, em sua maioria, não está preocupada com a diversidade cultural existente no planeta.

A carência de vitaminas, proteínas e sais minerais, além do alto consumo de fumo, açúcar, álcool e café, junto à falta de higiene pessoal e, de forma geral, nos quintais das casas; tem levado a uma péssima condição de saúde Krahö. Observa-se o ciclo de várias verminoses nas aldeias e uma irritabilidade muito grande nas pessoas, além de serem bastante comuns gripes, inflamações nos olhos, problemas pulmonares, péssimas condições dentárias, casos de câncer e crianças que nascem com deficiências físicas.

Visitando as aldeias Krahö, observa-se que a base alimentar, em determinadas épocas, se restringe exclusivamente ao arroz e a produtos conseguidos de várias formas na cidade. A caça é cada vez mais rara e o valor culinário que se dá a outras fontes alimentares é difuso e pouco praticado.

 

4- Contextualização histórico-política da associação “União das Aldeias Krahö – Kapey”

 

Em 1993, os Krahö fundaram oficialmente a “União das Aldeias KrahöKapey”, após um processo de organização iniciado em 1990, quando algumas lideranças, contando com o apoio de aliados externos, realizaram um persistente e consistente trabalho de conscientização da necessidade de se auto-organizar, no intuito de lutar pela sobrevivência.

Com a fundação da Kapey, inicia-se a discussão de problemas que eram comuns a toda população Krahö, que, até então, não havia tido oportunidade de socializar seus problemas com as outras aldeias. Foi então que, em 1994, surgiu a idéia que resolveria, parcialmente, o problema da fome, da miséria e da perda de tradições milenares, pelas quais passavam; fazendo-se um esforço para recuperar as sementes antigas, das quais os mais velhos tinham lembrança.

Foi então que uma comissão da Kapey, assessorada pela FUNAI, representada pelo indigenista Fernando Schiavini, procurou o CENARGEN (Centro Nacional de Recursos Genéticos e Biotecnologia), da EMBRAPA (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária), que matém em seus Bancos de Germoplasma, uma grande quantidade de sementes, inclusive algumas que foram coletadas em Terras Indígenas, em décadas passadas.

Inicialmente, o CENARGEN forneceu pequenas quantidades de algumas variedades de milho “pré-colombiano”. O impacto do retorno deste milho às aldeias foi muito positivo, pois suscitou a volta de histórias e mitos antigos que estavam caindo no esquecimento e, sobretudo, reacendeu a esperança no povo Krahö.

Apesar de ter permanecido em câmaras frias por quase trinta anos, o milho reproduziu muito bem e todos ficaram muito animados, causando uma verdadeira “febre” entre os Krahö, dando início ao resgate de outras variedades de suas alimentação tradicional.

 Com o retorno da diversidade, voltou também com muita força a vontade de plantar, observar, experimentar, consorciar, comparar, trocar, tudo, enfim, que motiva verdadeiramente a alma do agricultor, e que havia sido sepultado com a prática da monocultura do arroz.

Com a redução do espaço para a prática da caça e coleta, a associação viu também a necessidade de trabalhar algumas roças experimentais, onde são utilizadas técnicas agroecológicas. Estas funcionam como um banco genético das sementes que estão sendo recuperadas e introduzidas, procurando reproduzir um sistema antigo de consorciamento de várias espécies.

Em 1997, a associação realizou a “I Feira de Intercâmbio de Sementes”. Esta feira foi realizada no intuito de possibilitar, de forma mais rápida, a disseminação das sementes que estavam sendo resgatadas entre as famílias Krahö. O sucesso foi tanto que os líderes resolveram realizá-la todos os anos, sempre no mês de setembro, e integrando outras populações indígenas que passam pelo mesmo problema de perda das sementes tradicionais e, por conseqüencia, da auto estima.

Sendo assim, em 1998 foi realizada a II Feira, tendo grande repercusão em todo o país. Esta mereceu um prêmio em dinheiro da Fundação Getúlio Vargas, que a Kapey usou para comprar uma casa em Itacajá (TO), e equipá-la para servir de sede.

Atualmente, a associação está construindo uma aldeia na Terra Indígena, que servirá também como sede para os acontecimentos ligados à Kapey. Nesta sede será realizada a terceira edição da Feira de Sementes, no mês de setembro deste ano de 2001, da qual participaremos através da realização de palestras e oficinas sobre nossos estudos sobre a etnia.

Desde o início, decidiu-se que cada aldeia enviaria um casal, para realizarem os trabalhos previstos junto à esta sede. Surgiu, então a idéia da criação de uma escola que foi chamada de “Catxêkwyj”, que é um ser mitológico, representado por uma “estrela mulher”, que ensinou a agricultura aos Krahö.

A escola não tem trabalhado apenas a produção de alimentos, através da agricultura e criação de animais. Em várias palestras e oficinas realizadas, foram abordados temas como o controle de fogo nos cerrados, proteção de mananciais, transformação e uso de alimentos, na tentativa de envolver vários aspectos da vida tradicional e cotidiana desta etnia.

Aos poucos, está sendo feito um trabalho de resgate da alimentação para a saúde do povo Krahö, através da recuperação de sementes perdidas e introdução de outras adaptáveis ao meio e complementares à dieta, que somam-se à diversidade. Junto, vem se trabalhando a produção de mudas de plantas nativas e adaptadas em viveiro com a finalidade de adensar e enriquecer os ambientes de mata, cerrado e quintais existentes no entorno das casas nas aldeias, tanto para a alimentação como para a produção de excedentes.

Os Krahö reconhecem que não conseguem mais repassar os conhecimentos ancestrais como no passado, e que necessitam hoje de novos conhecimentos e técnicas para suprirem as necessidades presentes.

Para isso, é necessário transformar métodos e paradigmas, desenvolvidos para a nossa cultura formal, pouco oral e muito gráfica e áudio visual, para a oralidade e temporalidade próprias a esta cultura, inicialmente ágrafa.

Os Krahö, ligados a estes projetos, têm plena consciência do que é uma escola, e de qual é a escola para o que eles querem aprender: a escola da vida. Para confirmar esta afirmação, podemos citar a fala de uma professora Krahö, transcrita em um dos projetos da “Escola Agroambiental Catxêkwyj”:

“A escola que a gente quer, é a escola do prazer, aquela que a gente pode vir todos os dias. E nunca sinta vontade de ir embora. Não queremos uma escola que só tenha mais cadeiras, quadro-negro e giz, mas sim uma escola da experiência, da convivência e da clareza. Se um dia alguém trouxer um peixe que foi pescado no riacho perto da nossa casa, ele seria nosso objeto de estudo.”(Creuza Prumkwyj, professora Krahö)

O grande objetivo de todos estes projetos é a auto-sustentação Krahö, através dos recursos naturais da reserva indígena. Sendo assim, esta possibilitará, não só a manutenção da biodiversidade no território, como também a sobrevivência sócio cultural desse povo, que ainda mantém uma forte integração com as forças que regem a natureza e o homem.

 

5- Contextualização histórico-espacial da Aldeia Pedra Branca

 

A aldeia Pedra Branca faz parte da vertente Kenpokateyê que deu origem ao povo Krahö, e é uma das mais antigas, apesar de já ter se localizado em vários locais da reserva. Atualmente, é a segunda aldeia mais próxima à cidade de Itacajá (TO), localizando-se a, aproximadamente, vinte quilômetros desta.

Em entrevista realizada com o atual cacique da aldeia, Oscar Krahö, e com o indigenista Fernando Schiavini, que tem contato com esta etnia desde 1974, pudemos entender melhor o processo de degradação que passa.

Na década de 1970, havia apenas um Posto Indígena da FUNAI na reserva Krahö, que representava uma verdadeira fortificação, localizando-se no alto de um morro. No sopé deste, havia uma vila de funcionários, com aproximadamente 40 pessoas, existindo, inclusive uma pensão para alimentá-los. Estes funcionários tentavam implantar um projeto que foi chamado de “Projeto Krahö”, consistindo em uma nova concepção de antropologia.

Nesta época, existiam apenas cinco aldeias: Pedra Branca, Pedra Furada, Galheiro, Cachoeira e Santa Cruz. A Pedra Branca se localizava a cinco quilômetros do Posto Indígena, sendo a que sofreu maior influência deste.

Os funcionários não podiam viver nas aldeias, dentro desta concepção de não interferir na vida dos índios, mas teriam que fiscalizá-las e também acompanhar qualquer pessoa que ali entrasse. Ou seja, ninguém poderia ficar na aldeia sem tomar as devidas vacinas e sem a autorização e o acompanhamento de um funcionário do posto.

Schiavini, nesta entrevista, nos contou que, nesta época, a Pedra Branca, assim como as outras aldeias da vertente Kenpokateyê que sofreram o massacre de 1940 (Pedra Furada e Cachoeira), já se encontravam totalmente desestruturadas e passando por dificuldades, que a proximidade do Posto Indígena só agravava. Contou-nos que havia muitos indígenas, principalmente da Pedra Branca, que ficavam rondando o posto em busca de comida. Sendo assim, nas horas das refeições, vários deles permaneciam olhando os funcionários comerem, na esperança de receber alguma sobra e, aqueles que tinham coragem de pedir, recebiam em uma represália, para que realizassem algum serviço em troca de farinha.

Quando Schiavini voltou, na década de oitenta, a situação só havia agravado. Os índios já não aceitavam os Chefes de Posto que, a seu ver não serviam para nada, somente criavam confusões. Em um episódio acontecido na Aldeia Galheiro com a Polícia Federal, os índios expulsaram todos os chefes da área e só aceitaram Schiavini para assumi-lo, pois este tinha uma relação maior de amizade com eles. Já nesta época, a população Krahö havia aumentado e haviam sido criadas outras duas aldeias: Rio Vermelho (vertente Mãnkraré) e São Vidal (antiga Manoel Alves, da vertente Kenpokateyê).

Com esta nova chefia, tentou-se implantar uma política de auto-gestão na Terra Indígena. Os recursos que vinham da FUNAI, o chefe de posto entregava diretamente aos gerentes Katam'jê e Wakm'jê de cada aldeia. Mas, esta tentativa não deu certo, mais uma vez pela diferença cultural desta etnia, gerando muita confusão e brigas entre os próprios indígenas. Os gerentes pegavam o dinheiro e saíam para comprar as necessidades das aldeias, voltando com inúmeros produtos para si e para sua própria família, dentro da concepção de que, se está comigo é meu e eu conquistei.

Ou seja, tudo que a FUNAI tentou realizar na concepção do coletivo com os Krahö, não deu certo. Na Pedra Branca, por exemplo, onde incentivavam a plantação de arroz, mandioca e outras culturas em grandes áreas coletivas, as relações foram se desgastando. Não conseguiam resolver mais nada em suas tradicionais reuniões matinais, posto que o coletivo é contra sua concepção cultural. O problema principal estava nas culturas, que não eram sazonais, como a banana e a mandioca, que ficavam na roça até ser decidido, com todos, quando era a hora de colhê-la. Os índios, que tinham fome, passaram a roubar a própria roça que haviam plantado. Nesta ocasião, tanto os índios, quanto os funcionários da FUNAI, já não conseguiam questionar o modelo de agricultura que estava sendo vendido, e acabavam perdendo os conhecimentos da agricultura tradicional.

Houve, então, um recuo por parte das aldeias, inclusive a Pedra Branca, onde abriram mão das responsabilidades e chegaram à conclusão de que as “coisas de branco”, teriam que ser resolvidas por estes mesmos. O resultado foi o aumento da dependência.

No momento histórico da passagem do governo dos militares de volta aos civis, na década de 1980, conhecido como a Nova República, a situação dos índios brasileiros piorou muito, pois estes despediram inúmeros funcionários da FUNAI que já tinham relações de amizade com os índios (inclusive o Fernando Schiavini), e que lutavam junto a eles, colocando em seus lugares pessoas estranhas e totalmente alheias à causa indígena, no intuito de desestruturar as alianças indígenas.

A partir de 1986, a Pedra Branca caiu em estado de degradação cultural e de suas tradições. Estes novos funcionários não tinham o mínimo de respeito pelo povo Krahö, o isolamento era total, ninguém entrava nem saía da reserva. É como se quisessem cobri-los com uma bolha de vidro, mas desta vez, sem oxigênio. Alguns indígenas, inclusive da Pedra Branca, insistiam em sair das aldeias, posto que eram donos de suas pernas. Estes, a FUNAI logo conseguiu uma maneira de “prendê-los”, transformando-os em funcionários, professores, ou mesmo chefes de posto.

Schiavini conta que, mesmo desempregado e proibido de entrar na reserva, conseguia manter contato com os Krahö. Quando, entre os anos de 88 a 90, ia escondido à Pedra Branca, encontrava seus amigos com pira (escabiose) da cabeça aos pés. Todos, desde crianças, mulheres, homens e velhos, estavam entregues à doença, à miséria e à apatia. Ninguém tinha nada para comer, as fogueiras das casas estavam sempre apagadas e a grande maioria consumia álcool durante todo o dia.

Foi quando, andando pela aldeia, teve a idéia de procurar as sementes tradicionais e começou a perguntar a todos os velhos e adultos sobre aquela época de fartura, quando os Krahö subiam o rio para vender o excedente da produção nas feiras da região. Haviam sido três gerações sem as sementes tradicionais, por isso tornou-se difícil de lembrar o que foi feito delas.

Nesta época, já não existia apenas o Posto Indígena da Pedra Branca, ele foi dividido e foram instalados mais três postos: Cachoeira, Santa Cruz e Rio Vermelho, que eram aldeias maiores. Iniciou-se, então, um processo de tentativa de demolir os postos indígenas.  Colocaram um indígena para ser o Chefe de Posto da Pedra Branca, representando um ponto positivo, pois, desta forma o chefe entenderia melhor os anseios da população, e esta teria mais autonomia de decisão. Atualmente, os chefes de posto não precisam mais fazer o curso de indigenismo.

O Posto Indígena funciona como uma espécie de cabide de empregos, pois, quando um consegue entrar, tem três ou quatro almejando o mesmo cargo, e estes fazem tudo para derrubar o que entrou, que, por sua vez, precisa “mostrar serviço”. Desta forma, tem que agradar de qualquer forma os indígenas, dando presentes, e até fazendo roças com motoserra, o que é proibido pelo IBAMA.

A análise que podemos fazer sobre a FUNAI e os Postos Indígenas é a de que, aquela é muito importante, posto que é o único órgão federal que trabalha com as questões indígenas profundamente e tem relativa competência para isto, necessitando, apenas, ser reformulada em seu corpo de funcionários, oferecendo cursos e concursos, e também em sua estrutura de funcionamento. Mas o Posto Indígena já mostrou que não é a melhor maneira de realizar a atuação deste órgão nas áreas indígenas, e a própria FUNAI reconhece este fato. Há um movimento com o intuito de acabar com os postos, mas, atualmente, inúmeros indígenas ocupam o cargo de chefe de posto e o receio é, justamente, deixar estas pessoas desempregadas, pois o salário que recebem sustenta a família e, muitas vezes, socorre a aldeia inteira, nas épocas de seca.

Nesta entrevista, Schiavini, quando perguntado se os moradores da Pedra Branca não fazem roças por não terem sementes, respondeu que, segundo sua análise, este não é o único motivo. Os jovens da Pedra Branca não sabem mais fazer roças, posto que os pais os obrigavam a ficar nas aldeias para fazerem parte da escola, o que foi um grande erro. Os Krahö da Pedra Branca justificam este fato, dizendo que querem que seus filhos trabalhem na sombra, e ganhem muito dinheiro. Mas, isto é um discurso que foi colocado na cabeça deles, pois o ensino dos brancos é para fora da aldeia, na escola, eles não aprendem a fazer roças, a manter a sua tradição, a caçar, a pescar, a respeitar as falas dos mais velhos, etc.

O resultado deste discurso é visível no cotidiano da aldeia. Apenas os velhos trabalham, os jovens, que já têm filhos, não gostam de sair da aldeia, de ir para o mato. Aparece uma inversão de valores, posto que, segundo Clastres (cf. anexo p. ....), o lugar dos homens, na cultura nômade e semi-nômade, é a mata, onde eles buscam o alimento para suas mulheres, que ficam no acampamento (ou na aldeia) e o preparam.

Agora, os velhos estão morrendo. Os jovens estão começando a se conscientizar de que eles têm que voltar a produzir. Mas, enfrentam, novamente, o problema das sementes, posto que a grande maioria não as guarda de forma adequada; continuam esperando que a FUNAI as traga, e acabam por comer as sementes que serviriam para o próximo plantio. Depois de tantos anos de dependência e miséria, não é da noite para o dia que eles irão voltar à forma tradicional de viver.

Há, aproximadamente, dez anos, os Krahö ainda saíam das aldeias, geralmente, no verão, para em julho derrubar a mata, e plantar em outubro e/ou novembro. Os jovens e adultos iam para a mata e só ficavam os velhos na aldeia. Este hábito auxiliava até mesmo o combate de vermes, pois quebrava seu ciclo. Costumavam sair, inclusive, para fora da reserva, o que representou, muitas vezes, a diminuição dos animais silvestres, pois se alimentavam deles e, no caso dos animais predadores, até mesmo ajudou os criadores de gado locais. Nestes acampamentos, os Krahö trocavam, com os sertanistas, os produtos industrializados que conseguiam, nos lugares onde passavam, por comida, realizando verdadeiras feiras. Atualmente, estas trocas acontecem apenas nas Festas de São João, realizadas na Pedra Branca, quando os moradores, locais e da cidade, vão à aldeia dançar forró com os índios.

Em março de 1999, depois de sucessivas reuniões dos moradores da Pedra Branca, foi criada nesta aldeia, a Escola Koiré. Esta escola, tem o intuito de realizar aulas diferentes, levando os mais velhos para contar os mitos e lendas antigas dos Krahö, para que os jovens relembrem sua cultura tradicional; e de trabalhos de campo, para que conheçam o espaço onde vivem.

 

6- Considerações parciais

 

A partir das observações, entrevistas e pesquisas realizadas até agora, podemos considerar que ainda há muito trabalho a ser feito, principalmente, sobre a preocupação que os Krahö têm sobre o quê fazer com todo o lixo.

O problema maior não está no lixo em si, mas, sim, no tipo de consumo praticado por eles, desordenado e mal orientado, posto que não têm uma idéia formada sobre este problema.

Segundo Martinho Krahö, da aldeia Pedra Branca, o que eles mais compram na cidade, são alimentos do tipo açúcar, café, alguma carne, óleo de cozinha e querosene para as lamparinas, cebola, ou algum outro tipo de tempero, sal, sabão, farinha (quando falta), macarrão e bolacha para as crianças. Destes produtos, é que surgem os principais rejeitos inorgânicos.

Outro grande problema que podemos verificar nesta aldeia, é a apatia geral por parte das pessoas, por determinação de todo este processo, pouco diferente das outras aldeias, principalmente, o fato de esta sempre ter sido considerada a Aldeia do Posto, sendo determinada por esta dependência ainda hoje.

Em algumas aldeias, podemos verificar uma iniciativa sobre o lixo. Na Santa Cruz, por exemplo, uma das maiores, há um buraco no qual depositam o lixo produzido pela aldeia. Geralmente, são as crianças que recolhem o lixo, através de um trabalho que um índio, o Batista, realiza com elas. Mas este trabalho já causou muitas brigas entre os indígenas desta aldeia, posto que, nem todos concordam com estas ações. Quando o buraco fica cheio, Batista diz que coloca fogo para queimar o lixo. Porém, apesar de ser uma iniciativa nobre, não é a melhor solução para o problema, pois nem todo material queima facilmente, e muitos contaminam o solo.

Na aldeia Pedra Branca, assim como em toda a reserva, o solo é muito arenoso e, na época das chuvas, o lixo se mistura com a areia, realizando juntos o caminho das águas, indo parar nas nascentes que, geralmente, localizam-se no entorno das aldeias.

Estas nascentes também sofrem um outro tipo de agressão. Os Krahö, antes do contato constante com nossa sociedade, defecavam nas chapadas e debaixo do sol, onde as fezes de deteriorariam rapidamente. Atualmente, inclusive na Pedra Branca, encontra-se fezes ao lado das nascentes, contaminando as águas. Este hábito foi adquirido com o branco, já que também defecamos na água.

Há muito lixo jogado atrás das casas e nos caminhos da aldeia. Mas este problema não será resolvido de um dia para outro. Há a necessidade de realizar um trabalho de conscientização geral dos moradores das aldeias Krahö. Estes podem ser realizados através de parcerias com a Kapey, as escolas das aldeias e a Escola Agroambiental Catxêkwyj, no intuito de tratar o problema como um todo, desde a origem à decomposição.

Para isto, é necessário concluir este estudo, complementando-o com mais trabalhos de campo e observações pertinentes nas aldeias Krahö.

 

7- Referências Bibliográficas

 

 

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[1] Convênio de Cooperação geral entre a Embraba e a UFU no âmbito do contrato de Cooperação Técnica Embrapa/Kapey

[2] Graduanda do curso de Geografia e bolsista Pibic/FAPEMIG/UFU

[3] Profa. Dra do Instituto de Geografia da UFU