V CONGRESSO DE CIÊN CIAS HUMANAS, LETRAS E ARTES

V MOSTRA DE ARTES DAS UNIVERSIDADES FEDERAIS DE MINAS GERAIS

HUMANIDADES, UNIVERSIDADE E DEMOCRACIA

 

ÁREA TEMÁTICA: Organização, Gestão e Trabalho

 

O docente nos novos ritmos, tempos e espaços das novas tecnologias da informação e comunicação.

 

 

Maria de Lourdes Coelho[1]

 

1. INTRODUÇÃO

 

O presente trabalho analisa a relação do docente universitário com os novos ritmos, tempos e espaços experimentados no exercício do seu trabalho e na sua formação continuada, com o emprego das novas tecnologias da informação e da comunicação presentes no meio acadêmico. O estudo apresenta alguns resultados de pesquisa de dissertação de mestrado, em andamento, que se constitui em um estudo de caso sobre as causas da evasão e os fatores que contribuem para a permanência de participantes em cursos ofertados na modalidade de Educação a Distância (EAD). Focaliza um curso, via Internet, oferecido a professores de escolas de engenharia de Minas Gerais, na categoria de curso de formação continuada de docentes universitários. Tendo sido a “falta de tempo” uma das causas mais indicadas para justificar o abandono por aproximadamente 50% dos inscritos do curso, passamos a investigar as novas relações espaço-temporais experimentadas pelos docentes universitários, tanto no trabalho quanto nos cursos que visam prepará-los. Partindo do pressuposto de que tempos e espaços estão sendo redimensionados com o uso das novas tecnologias e de que estão ocorrendo mudanças significativas no trabalho docente, assim como no papel social da educação, de um modo geral, verificamos a necessidade de ampliar as pesquisas nessa área do conhecimento, ou seja, analisando as interferências e a organização do tempo e do espaço no trabalho e na formação continuada do professor universitário.

 

 

2. OS NOVOS RITMOS, TEMPOS E ESPAÇOS NO CONTEXTO DAS NOVAS TECNOLOGIAS

 

O cenário atual de acelerado avanço tecno-informacional provoca mudanças substanciais no modo de produção e do trabalho. Na era industrial, as economias eram dirigidas segundo princípio de produção de escala ou de massa e eram submetidas a uma rotina de métodos repetitivos e padrões de produção restritos a determinados  tempo e lugar. Ao contrário, na era da informação, não há a limitação de tempo e espaço, apesar de prevalecer a preocupação com a economia de escala. A produção de bens e serviços pode ser desenvolvida em qualquer momento e em lugares diferentes, ou seja, onde se encontrarem os recursos computacionais (Dourado e Oliveira, 1999). 

 

De forma semelhante, o sistema de ensino vem acompanhando o modo de produção de bens e serviços, em ambas as eras – industrial e da informação –, com as transformações tecno-científicas, econômicas, políticas e culturais, o papel da educação é redefinido, devido a vários fatores como “o desemprego estrutural e tecnológico; a redefinição do papel do Estado e das políticas públicas; as exigências do novo perfil do trabalhador e, por conseguinte, de novo modelo de formação profissional.” (Dourado e Oliveira, 1999: 07)           

Tais mudanças aliadas às políticas de educação superior no Brasil, nos anos 90, influenciaram substancialmente as alterações na natureza do trabalho do professor tanto das instituições educacionais públicas quanto das particulares. Os professores das instituições particulares de ensino superior, uniram-se aos do ensino básico para reivindicar reposição de perdas que vieram sofrendo nos últimos anos, como redução no pagamento de adicional por aluno, de atividades extra classe e das férias integrais (Estado de Minas, 2001).

 

Os professores das Instituições Federais de Ensino Superior (IFES), assim como os demais servidores dessas também vêm sofrendo significativas perdas salariais e de prestígio na sociedade. Em 3 de julho de 1998, foi instituída nas IFES a Gratificação de Estímulo à Docência (GED[2]), que está causando grande impacto no padrão de gestão das mesmas, transformando o comportamento docente e a natureza do trabalho acadêmico (Catani e Oliveira, 1999). Através da GED, são contabilizadas as horas-aula de trabalho do professor e estas são convertidas em pontos[3]. “Houve uma corrida dos docentes rumo às atividades de ensino, uma vez que estas permitem alcançar 85% do máximo pontuado”, conforme constatação feita por SAAR (2001).

 

Desta forma, Catani e Oliveira (1999) explicam que, com a GED, a aula tornou-se o objeto mais significativo dessa mudança e estão sacrificadas as atividades de pesquisa, de extensão e administrativas e houve um desestímulo às atividades fora da sala de aula e que não sejam consideradas horas-aula. Os autores também criticam a grande perda de liberdade acadêmica e institucional, geradas pela GED, esclarecendo que

 

“Essa gratificação é fruto de uma intervenção consciente e deliberada do Estado. Ela impõe às universidades públicas uma organização acadêmica baseada em finalidades econômicas, impulsionando a lógica da reforma da educação superior que procura, dentre outros aspectos, diminuir o controle do trabalhador docente sobre seu próprio trabalho”.(Catani e Oliveira, 1999: 69)

 

Em relação às modificações do trabalho acadêmico Catani e Oliveira (1999) destacaram e comentam cinco aspectos que estão se modificando intensamente no trabalho docente, que são: o controle sobre o horário de trabalho, a disciplina no trabalho, o grau de desorganização, a motivação e responsabilidade pessoal e as determinações e finalidades do trabalho.  O controle sobre o tempo de trabalho do docente está ganhando novos contornos. Para os autores, está se instalando “um sistema de vigilância internalizado, que oferece a sensação de controle pleno do horário de trabalho, mas que no fundo, controla o comportamento profissional, constituindo-se na instalação de uma nova autodisciplina.” (Dourado e Oliveira, 1999: 73).

 

De fato, os professores das instituições universitárias estão tendo seu tempo de trabalho controlado e dividido entre a docência e os diversos encargos administrativos e de gerenciamento, como coordenação de departamento, chefia de setor e direção. Além disso, alguns ficam sobrecarregados de trabalho ao assumir atividades de professores licenciados para a capacitação, prejudicando a formação continuada e em serviço daqueles que se mantêm na instituição.

 

Muitos professores das Instituições Federais de Ensino (IFES) ficam presos às atividades que angariaram maior pontuação para a GED, como as atividades de ensino, que permitem alcançar até 85% do total da pontuação, pela qual é definida a remuneração do professor. De acordo com Saar (2001), a GED desencadeou o surgimento de uma nova cultura entre os professores, que, numa corrida produtivista, buscam maior pontuação adquirida pela quantidade de trabalho, sem uma reflexão crítica, até mesmo em torno do significado político de suas ações.

 

Os professores das instituições particulares de ensino, como a classe trabalhadora brasileira em geral, no contexto da política neoliberal vigente, também sofrem com a ameaça de desemprego e diminuição do valor aquisitivo de seus salários, levando-os a se manterem cada vez mais ocupados com o trabalho, sem tempo e sem condições econômicas para investir em sua formação continuada e no trabalho reflexivo.

 

Não ignoramos a quantidade de tempo demandada pelo trabalho exercido pelo professor universitário e não duvidamos do seu empenho em manter alta a qualidade, mesmo em condições desfavoráveis para tal. Mas, parece-nos que ‘manter-se sempre ocupado’ e ‘não ter tempo’ tornaram-se medidas para elevar o status do professor, no atual contexto social, de desemprego, arrocho salarial e perda de prestígios sociais.

 

Com a crescente introdução das novas tecnologias nos setores de produção e nos ambientes escolares, notamos que o tempo de dedicação ao trabalho não foi reduzido. As mudanças que atingem o mundo do trabalho não poupam o trabalho docente. Este perde a sua hegemonia como provedor de informação para assumir o papel de mediador e orientador. Seu trabalho é intensificado e redimensionado. No entanto, na atual organização política, o trabalho docente é, na maioria das vezes, reconhecido pelo número de aulas dadas, o que dificulta a contagem e remuneração do tempo do trabalho demandado pelo espaço virtual.

 

3. O exercício da docência nos ambientes virtuais de aprendizagem

 

O trabalho do professor, no processo de aprendizagem a distância, viabilizado pelas novas tecnologias da informação e comunicação, continua imprescindível. Enquanto mediador pedagógico, caberá a ele estabelecer limites temporais, pois enquanto não tivermos alunos preparados para uma aprendizagem autônoma, necessitaremos da limitação de tempo, como a marcação de prazo para conclusão de determinadas tarefas. A nossa experiência enquanto discente e docente em cursos na modalidade de EAD permitiu verificar que, mesmo sendo flexível e negociado, respeitando os ritmos individuais dos alunos, o limite de tempo possibilita uma maior organização e o controle do mesmo continua sendo indispensável para o desenvolvimento do processo educativo.

 

O limite atinge também o espaço virtual a ser explorado, pois, com a Internet, estamos vivendo um verdadeiro “dilúvio da informação” (Lévy, 1999: 13). A esse respeito, Eco (2001) argumentou que, pela primeira vez, a humanidade dispõe de uma enorme quantidade de informação e o acesso à mesma exige maior preparo e orientação para que o jovem inexperiente possa distinguir entre a informação verdadeira e a falsa.

 

De acordo com Eco (2001), o espaço de busca virtual proporcionado pela Internet pode ser previamente demarcado pelo professor ou por auxiliares de pesquisa, através da apresentação de endereços selecionados. Estes são organizados em listas anexadas em cursos ou indicações de pesquisas com o nome de “sites interessantes”. O objetivo dessa seleção é auxiliar os alunos a não se perderem nas buscas de determinado assunto, e isso, deverá ser ensinado pelas escolas do futuro.

 

Num ambiente em rede, o professor regente, dependendo dos recursos que vier a usar, poderá tornar públicas as suas aulas em um determinado site. Desta forma, poderá ficar mais exposto à avaliação de outros como também, buscar colaboradores para umaa produção coletiva dos ambientes de aprendizagem. Nas instituições de ensino tradicionais, os professores exercem uma prática solitária, e, quando não estão nas salas de aula convencionais ou nas reuniões para as quais são convocados, ficam, na maioria das vezes, confinados em seus gabinetes. Percebe-se que não é de praxe um “docente aplaudir o trabalho do outro, ou seja, do colega que fisicamente trabalha a seu lado”.[4]  Estar aberto a críticas e ao trabalho colaborativo poderá trazer benefícios ao professor que estiver aberto à reflexão sobre suas ações e adotar outras mais críticas e reflexivas, pois, para Mercado (1999: 79),

 

“A transformação na prática do professor exige que ele vivencie situações em que possa analisar a sua prática e a de outros professores, participar de reflexões coletivas sobre a prática, buscar novas orientações visando uma inovação em aula. O professor crítico-reflexivo de sua prática trabalha em cooperação com os alunos na construção do conhecimento, assumindo atitude de pesquisador, levantando hipóteses, realizando experimentações, reflexões, buscando validar suas experiências”.

 

Devemos reconhecer que o ciberespaço oferece oportunidades variadas para o professor diversificar sua prática e estão sendo feitos diferentes usos desse meio. Alguns professores substituem as fotocópias de textos disponibilizando os mesmos para seus alunos através do ciberespaço, seja em ambientes de rede especialmente programados para assessorar o trabalho docente, seja nos sites criados especialmente para a disciplina ou para a divulgação de outros trabalhos e informações de interesse ao grupo de aluno, em particular.  Nesses sites os professores poderão disponibilizar, além dos textos, o programa do curso, o esquema das aulas ou ilustrações, muitas vezes apresentadas nas transparências, através do retroprojetor.

 

Outros ampliam o uso das redes de computadores quando utilizam os recursos apropriados para criar fóruns de discussão possibilitando a sua interlocução com os alunos e destes entre si, promovendo debates, trocas de informações e construção de conhecimento. Além dos fóruns on e off-line, o correio eletrônico é usado para comunicações individuais ou coletivas, enviando mensagens para um ou para vários alunos ao mesmo tempo.

 

O uso da Internet com coincidência do tempo mas que acontece em espaços diferenciados é feito através dos chats ou salas virtuais, onde docentes e discentes podem se encontrar para a discussão de determinado tema, previamente estabelecido. Normalmente combina-se também o tempo de início e prazo de duração da discussão ou ‘tempestade de idéias’[5] sobre determinado assunto anteriormente proposto.

 

As possibilidades oferecidas pela Internet são muitas e desconhecemos todo o seu potencial e suas influências na cultura da sociedade contemporânea. Notamos que a mesma é versátil e torna-se um excelente instrumento no processo educativo, se usada com inteligência. A maneira com que os professores a utilizam, depende não só dos recursos disponíveis mas, também do seu conhecimento, do potencial das tecnologias e da sua filosofia de educação. Para que os recursos tecnológicos sejam bem utilizados é preciso que os professores saibam o que pode ser feito melhor com o auxílio deles e o que pode ser feito, pois é preciso que os educadores tenham as novas tecnologias servindo aos seus objetivos educacionais (Mercado, 1999). 

 

Portanto, o professor poderá usar a Internet para criar e participar, juntamente com seus alunos, dos fóruns ou grupos de discussão, complementando as atividades das disciplinas dos cursos presenciais ou com exclusividade nos cursos a distância. Poderá, também, fazer uso do correio eletrônico para trocas de mensagens com um aluno, individualmente ou para grupos de alunos, através de listas de endereços eletrônicos. Mas, tanto participar dos fóruns quanto usar a comunicação através de e-mails requer maior dedicação de tempo de trabalho do que o preparo e a elaboração das respostas faladas no tempo presente e no mesmo espaço físico.

 

Apesar das variadas possibilidades de inovações pedagógicas através do uso apropriado das novas tecnologias educacionais, tanto como complemento da educação presencial quanto para cursos exclusivamente a distância, é exigida uma disponibilidade maior de tempo do professor, seja para dedicar-se à sua formação continuada, seja para o uso das novas tecnologias em seu trabalho docente. O preparo das aulas e do material multimídia e a assistência aos alunos requerem atenções específicas.

 

No ensino presencial, as respostas às questões apresentadas pelos alunos são dadas imediatamente e, às vezes, nem se usa a fala, pois um gesto, uma expressão de concordância ou de discordância, como o balançar de cabeça ou de ombros, o franzir da testa, o sorriso e tantos outros, são formas interpessoais e eficazes de comunicação.

 

Por outro lado, o  feedback aos alunos, através das mensagens escritas e enviadas por e-mails ou disponibilizadas nos fóruns ou lista de discussão, requer um tempo muito maior e é muito mais trabalhoso, além do professor correr o risco de ser mal entendido ou mal interpretado, consumindo, às vezes, até suas horas de descanso e de sua dedicação para desfazer os possíveis equívocos. A elaboração mental e a escrita da resposta, a pesquisa para indicar sites interessantes a respeito de determinadas questões apresentadas, ou indicar referências bibliográficas consomem um tempo demasiadamente superior que aquele gasto na atividade docente exercida presencialmente. Por exemplo, na sala de aula convencional, para o professor indicar ou fazer referência a determinado livro que esteja em sua posse, bastaria apresentá-lo e deixar que o mesmo circule de mão em mão entre os alunos presentes para as devidas apreciações, enquanto que, na Web, dependerá do uso de aparelhos e da escrita, além do tempo extra ao trabalho na classe.

 

O professor na Web quase sempre é o autor do material didático na necessária reescrita e adaptações do conteúdo à comunicação visual via rede. Em alguns momentos este professor exerce o papel de ator, quando a sua imagem necessita ser gravada e esta gravação usada em vídeos, transmissões televisivas ou acopladas ao site do curso, visto que a tendência é de usar mídias variadas ou de reuni-las no mesmo equipamento. Numa teleconferência ou videoconferência já é comum o professor exercer o papel de ator, e além do preparo do conteúdo, o material se tornará mais apropriado se o professor-ator tiver um prévio preparo de postura e entonação de voz, devendo estar atento ao melhor figurino que contraste adequadamente ao contexto da imagem projetada, proporcionando um visual atrativo do material. O conteúdo é trabalhado para determinado tempo de exposição e, para otimização do mesmo, é aconselhável que a fala seja clara e objetiva.

 

Sabemos que várias tecnologias foram criadas pensando-se em aumentar o lucro e diminuir o tempo de produção, conforme as idéias capitalistas que conjugam tempo com dinheiro. Mas, no caso do uso do computador e da Internet na educação, em especial, os professores e os alunos ainda despendem enormes quantidades de tempo e de esforço para obter um resultado satisfatório, tanto para o planejamento ou participação em cursos, como para elaboração de pesquisa na rede. Neste último caso, constatamos que o número de páginas de informação na Internet cresce a cada dia, tornando grande e conturbado o percurso para a obtenção de informações relevantes.

 

Para Drucker (2000: 33), “em todo o mundo, salas de bate-papo ou grupos de estudo podem ser formados sem dificuldades para discutir as melhores maneiras de aplicar idéias globais em empresas locais, sistemas de saúde ou outras organizações”. Para ele, temos à mão os meios necessários para aumentar a produtividade da educação. Mas, isso ainda não é totalmente viável devido à velocidade das redes de computadores e implica a questão do gerenciamento do tempo, que por sua vez está comprometido pela instabilidade das conexão na rede.

 

Os problemas comumente encontrados em relação à quantidade imprevisível de conexão serão amenizados com a efetivação da Internet 2, uma rede de computadores com muito mais velocidade para construir uma infra-estrutura apropriada a EAD via Web (Oilo, 1999).    

 

Tudo indica que o espaço virtual traz grandes possibilidades para a expansão das universidades, tanto públicas quanto privadas, e esta expansão será feita preferencialmente via Internet. A ampliação apropriada dos programas educacionais, proporcionando a educação permanente, será uma das principais formas de diminuir o deficit educacional e o desemprego estrutural, que, para Shaff (1994), foi intensificado pela introdução da robótica e automação proveniente do desenvolvimento tecnológico aplicado no modo de produção de bens, exigindo uma constante aprendizagem.

 

A exemplo de outros países, o Brasil vem investindo no sentido de ampliar o acesso da população às universidades a fim de acompanhar o desenvolvimento científico e tecnológico e de atender às necessidades da sociedade contemporânea. O tamanho do país, a escassez de professores qualificados, a falta de tempo devida às condições de trabalho da vida contemporânea e a necessidade crescente de ampliar e reciclar conhecimentos justificam sobremaneira os investimentos para a implantação da EAD, principalmente nas nossas universidades.

 

Nesse contexto, estão surgindo, a cada dia, novas experiências de EAD em um espaço virtual, especialmente com cursos de educação continuada de professores para capacitá-los a trabalhar com as novas tecnologias da informação e comunicação presencialmente ou a distância. No entanto, cursos nesta modalidade de educação apresentam um considerável índice de evasão, como o constatado no Curso de “Tecnologia de Ensino a Distância Via Internet” que estamos analisando na dissertação de mestrado, em andamento, e que passaremos a apresentar os resultados parciais, neste trabalho.

 

 

4. O PROFESSOR UNIVERSITÁRIO E A SUA FORMAÇÃO CONTINUADA POR MEIO DOS ESPAÇOS VIRTUAIS DE APRENDIZAGEM

 

O Curso de “Tecnologia de Ensino a Distância Via Internet”, oferecido pela Escola de Engenharia da Universidade Federal de Minas Gerais (EE / UFMG), que se constituiu em um curso de formação continuada de docentes universitários, tornou-se o foco de análise deste trabalho, devido ao índice de aproximadamente 50% de evasão apresentado. Partindo de algumas suposições sobre as causas de evasão e tentando desvendar os fatores que contribuem para a permanência dos alunos em cursos a distância, chegamos a uma reflexão sobre a questão da falta tempo ou do sentido do mesmo na vida dos professores.

 

 De cunho qualitativo, a pesquisa desenvolveu-se através de um estudo de caso, e foram utilizados questionários on-line, entrevistas e consultas ao material didático utilizado, à lista de discussão e às mensagens eletrônicas trocadas durante a realização do Curso, para a coleta dos dados. Os dados estão sendo tratados quantitativa e qualitativamente, à luz da bibliografia consultada.

 

A análise dos dados de caracterização dos sujeitos desta pesquisa, concluintes e desistentes do Curso de “Tecnologia de Ensino a Distância Via Internet” indicou a existência de algumas relações dos mesmos com as causas da evasão e os fatores que contribuíram para a permanência dos participantes, conforme descrevemos a seguir.

 

Agrupados por faixa etária, constatamos que, entre os participantes dos grupos I (31 a 40 anos) e II (41 a 50 anos), houve uma inversão: enquanto no grupo I, 10 professores concluíram o curso e 6 desistiram, no grupo II, 6 concluíram e 11 desistiram. Daí, poderíamos suspeitar que a questão da idade tivesse influência na permanência ou na desistência dos participantes no Curso, considerando que os que pertencem à faixa etária menor apresentaram resultados satisfatórios para a certificação, ou seja, o maior percentual de aprovados encontra-se na faixa de 30 a 40 anos de idade. No entanto, o grupo III (participantes com mais de 50 anos de idade), embora seja uma pequena amostra (4 sujeitos), não trouxe esse indicativo, pois apresentou um equilíbrio entre os desistentes e concluintes do Curso, ou seja, a metade dos participantes do grupo com mais de 50 anos de idade concluiu o curso, e a outra metade, não.

 

De um modo geral, os participantes que concluíram o Curso pertencem ao sexo masculino, sendo que a maioria está na faixa etária de 31 a 40 anos, é casada, trabalha mais de 40 horas semanais, tem doutorado, 10 a 20 anos de experiência em docência no ensino superior e pertence ao quadro de docentes da Escola de Engenharia da UFMG.

 

Por outro lado, os que não concluíram apresentaram características mais heterogêneas: estão praticamente equiparados os números de homens e mulheres, podendo ser estes casados ou não; trabalham de 30 a 40 horas semanais ou mais; têm de 41 a 50 anos de idade; possuem como graduação máxima desde cursos de especialização, até mestrado ou doutorado; têm de 10 a 20 anos de tempo de magistério no ensino superior; e trabalham em instituições diversificadas como públicas ou particulares, do interior ou da capital do Estado de Minas Gerais.

 

Portanto, as características dos concluintes e os evadidos do Curso não são uniformes, principalmente no que diz respeito a gênero, faixa etária, formação acadêmica e instituição onde lecionam; existem, porém, algumas semelhanças, quanto ao tempo de docência no ensino superior e à carga horária semanal de trabalho.

 

A investigação ocorreu a partir de  algumas suposições quanto à evasão em cursos a distância, via Internet como: um dos grandes empecilhos para o acompanhamento dos cursos a distância é a falta da tradicional relação face a face entre professor e alunos; a  inabilidade em lidar com as novas tecnologias cria dificuldades em acompanhar as atividades propostas pelos cursos a distância; a ausência de reciprocidade da comunicação, inviabilizando a interatividade, contribui para o alto índice de evasão; e a falta de um agrupamento de pessoas numa instituição física faz com que o aluno de EAD não se sinta incluído num sistema educacional.

 

Apesar do desenrolar do trabalho não ter caminhado no sentido de confirmar totalmente as suposições levantadas, obtivemos pistas plausíveis de serem investigadas, como a questão de gênero e o uso das novas tecnologias, considerando que todas as mulheres participantes dessa pesquisa não o concluíram, e algumas alegaram dificuldades em lidar com a Internet; a faixa etária e as habilidades em desenvolver trabalhos ou estudos via Internet; e principalmente, a questão da falta de tempo ou do tempo do professor universitário para investir em sua própria formação continuada.

 

A falta de tempo foi unanimemente citada pela maioria dos participantes desistentes e  concluintes, de ambos os sexos, como fator dificultador da realização das tarefas, causando-nos demasiada surpresa. Vários usaram, explicitamente, tal expressão em primeiro lugar, seguida de falta de condições de estudo em casa, falta de ambiente no local de trabalho, desorganização pessoal, problemas técnicos e não atendimento às expectativas.

 

Vários homens entenderam a falta de tempo como uma questão de prioridade; alguns disseram que essa serviu de justificativa para a não superação dos obstáculos no uso do meio utilizado e também foi alegada a questão da ‘novidade’ do ambiente. Tais causas podem ser classificadas como sendo de caráter  psicológico e motivacional.

 

Por outro lado, na opinião das representantes do grupo feminino, os problemas de abandono estão relacionados mais com a tecnologia usada, do que com o entendimento do conteúdo ou a realização das atividades. Elas insistiram ainda na questão da falta de tempo, justificada pela sobrecarga de trabalho e não concordaram que o Curso não tenha atendido aos interesses específicos delas, como havia sugerido o professor-organizador entrevistado. Na opinião de algumas, o assunto tratado é de interesse de todos os envolvidos com a educação e não podemos relacionar o interesse pelo Curso com o perfil específico das mulheres.

 

Notamos que as opiniões dos homens e das mulheres apresentam dados relevantes, plausíveis de reflexões sobre cursos a distância, principalmente mediado pela Internet, como as implicações do ambiente escolhido para veicular a comunicação interativa dos programas de EAD, os pré-requisitos e os recursos tecnológicos necessários ao acompanhamento dos mesmos. Caso necessário, os candidatos a cursos a distância deveriam ser preparados anteriormente para a organização do tempo, pois, a partir dos dados fornecidos pelos sujeitos desta pesquisa e pelas contribuições dos autores consultados, em especial Azevêdo (1998), verificamos que este é um pré-requisito essencial para os cursistas a distância, principalmente nos ambientes virtuais.

 

É de consenso popular, e também foi apontado pelos sujeitos de nossa pesquisa, que “tempo é uma questão de prioridade”, portanto, atrás dessa justificativa dada pelos professores ao abandonarem o Curso, podem estar outras causas não reveladas. Ora, se o Curso havia sido criado atendendo às suas solicitações, ou seja, aos seus desejos e às suas necessidades, não estaria esta falta de tempo revelando uma certa resistência a um “novo”, desconhecido e indefinido mundo virtual, acessado pela Internet?

 

Por outro lado, seria falho atribuir as causas da evasão e os fatores que contribuem para a permanência em curso de EAD como sendo de responsabilidade exclusiva dos cursistas. Numa proposta construtivista, compatível com as atuais condições tecnológicas, compete aos organizadores de programas de EAD a criação de um ambiente favorável à comunicação interativa. A avaliação sobre os cursos deve ser uma prática constante, através da reflexão sobre as ações desenvolvidas, para que ocorram as alterações durante o processo, sempre que necessárias, no sentido de incluir o outro e evitar a evasão do mesmo (Corrêa, 2001).

 

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS

 

Consideramos que o uso das novas tecnologias na educação, tanto presencial quanto a distância – para Lévy (1999), torna-se cada vez menos pertinente a distinção entre ambas – possibilita ultrapassar os limites de tempo e espaço através da comunicação interativa. No entanto, deparamo-nos com o problema do aumento do tempo de trabalho letivo do professor, acrescido do volume de trabalho demandado para o preparo de materiais, pelo atendimento aos alunos e pela participação no espaço virtual, agravado ainda pela pouca velocidade e falhas na conexão em redes. Estes últimos serão abrandados através dos avanços tecnológicos que garantirão maior velocidade e estabilidade nas conexões. Mas, quanto aos primeiros, deverão ser pauta de reivindicações da classe docente, pois ainda não está definida a forma de remunerar e computar este trabalho, que ultrapassa o tempo e esforço do professor tradicional.

 

A resolução dos problemas relacionados aos equipamentos tecnológicos em si não garante a superação dos obstáculos à permanência dos participantes de cursos a distância. Aprender a lidar com a informática e usá-la na preparação e transmissão de materiais são domínios adquiridos com menor dificuldade se compararmos com o processo cognitivo, social e cultural que envolve o processo de aprendizagem colaborativa em rede. O espaço da Internet é polifônico e plural; a qualidade da educação que se pretende mediar através dele dependerá da qualidade da relação dos sujeitos envolvidos no processo (Corrêa, 2001).

 

Portanto, a apropriação dos processos tecnológicos será mais adequada se ocorrer juntamente com a formação pedagógica, para que o professor esteja capacitado a manter uma postura reflexiva no processo educativo. Iniciativas como a realizada por meio do Curso de “Tecnologia de Ensino a Distância” são importantes neste momento de mudanças, de adaptação a novas formas de ensinar e aprender e de avanço tecnológico. Mas, é desejável que o preparo do professor para o exercício da docência, no atual contexto, comece na formação inicial e continue ao longo de sua carreira. Isto será favorecido se este profissional estiver conectado em rede, socializando experiências e com prontidão para   rever antigos conceitos e práticas.  

 

Tendo em vista que tempos e espaços estão sendo redimensionados com o uso das novas tecnologias e que estão ocorrendo mudanças significativas no trabalho docente, assim como no papel social da educação, de um modo geral, constatamos, mais uma vez, a necessidade de ampliar as pesquisas nessa área do conhecimento, ou seja, as interferências e a organização do tempo e do espaço no trabalho docente, comprometendo a formação continuada do professor universitário.

 

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA

 

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CATANI, A. M. & OLIVEIRA, J. F. A Gratificação de Estímulo a Docência (GED): Alterações no Trabalho Acadêmico e no Padrão de Gestão das Instituições Federais de Ensino Superior. In DOURADO, L. F. & CATANI, ª M. (orgs.) Universidade Pública: política e identidade institucional. Campinas: Autores Associados, 1999. (Coleção Polêmicas do Nosso Tempo, vol. 70) p. 65 - 74.

 

CORRÊA, Juliane. Educação a distância democratiza o ensino no Brasil. Informativo da Educação. Belo Horizonte, Fumarc, janeiro de 2001. p. 3 - 4.

 

DOURADO L. F. & OLIVEIRA J. F. Políticas Educacionais e Reconfiguração da Educação Superior no Brasil In DOURADO, L. F. & CATANI, ª M. (orgs.) Universidade Pública: política e identidade institucional. Campinas, SP, Autores Associados, 1999. (Coleção Polêmicas do Nosso Tempo, vol. 70) p. 5 - 20.

 

DRUCKER, Peter. E-Educação. Exame Digital 14.06.2000. http://www.exame.pt/, (Acessado em 30/06/2000)

 

ECO, H. O dilúvio da informação. Veja, Vida Digital, Suplemento especial, 17.01.2001.

ESTADO DE MINAS, Professores prometem novas paralisações. Estado de Minas,  Belo Horizonte, 28 de Março de 2001. Caderno Gerais, p. 20.

 

LÉVY, Pierre. Cibercultura. São Paulo, Ed. 34, 1999.

MERCADO, Luiz Paulo Leopoldo. Formação continuada de professores e novas tecnologias. Maceió: EDUFAL, 1999.

 

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SAAR, Sandra R. C. Gratificação ao Estímulo à docência e prática docente no cotidiano da Escola de Enfermagem da UFMG.  2001. Faculdade de Educação, Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte.

 

SHAFF, Adam. As conseqüências sociais da atual revolução tecnico-cientíca. In: Sociedade informática (1ª parte) São Paulo, Brasiliense, 4ª edição, 1994.

 



[1] Mestranda do Programa de Pós-Graduação da Faculdade de Educação / UFMG e Pedagoga lotada na Cátedra da UNESCO de Formação Docente na Modalidade de Ensino a Distância /FaE / UFMG.

[2] Catani e Oliveira (1999: 64) informaram que “Os valores da gratificação correspondem à pontuação obtida pelos docentes, de acordo com o regime de trabalho (20 horas, 40 horas ou dedicação exclusiva), a categoria (auxiliar, assistente, adjunto ou titular), e a titulação (graduação, aperfeiçoamento, especialização, mestrado ou doutorado).”

 

[3] Por exemplo, a cada hora-aula somam-se 10 pontos e, desta forma, é possível somar até 140 pontos por semana. Totalizando esta pontuação, acrescentam-se mais 120 pontos.

 

[4] Conforme anotações a partir da observação feita pela professora Juliane Corrêa, durante o Seminário “Prática Educativa do Olhar”, realizado na Faculdade de Educação / UFMG, no período de 09 e 10/11/2000.

 

[5] “Tempestade de idéias”, também chamada de brainstorm, é uma das técnicas de dinâmica de grupo, normalmente usadas em salas de aula convencionais, que estão sendo aplicadas nos ambientes virtuais de aprendizagem.