(DES)CAMINHOS DA FORMAÇÃO DOCENTE NA CIDADE DE UBERLÃNDIA
DURANTE 1990-2001
Alaurinda Cristiani de Carvalho Barros1;
Damaris Naim Marquez2
RESUMO: Este estudo se justifica por propiciar
um espaço para se discutir a questão da inclusão, oferecendo, pois, ao
profissional da educação, um auxílio, que venha instrumentalizá-los em termos
teóricos e práticos, levando-os a refletir sobre sua prática docente. Esta
proposta de pesquisa enquadra-se no campo do conhecimento da formação docente e
da educação especial. A partir destas descrições, a temática insere-se na linha
de pesquisa Saberes e Práticas Escolares, do programa de pós-graduação em
Educação, da Universidade Federal de Uberlândia. Trata-se de uma pesquisa que
visa realizar um estudo sistemático sobre a relação existente entre formação e
atuação do professor, que trabalha junto aos alunos portadores de necessidades
educacionais especiais. Esta investigação tem por objetivo compreender as
relações visíveis e não visíveis que ocorrem dentro do contexto escolar
referentes a prática docente, junto aos alunos portadores de necessidades
educacionais especiais. Para concretização dessa pesquisa faz-se necessários
alguns procedimentos metodológicos. Optaremos pela pesquisa experimental, onde
aplicar-se-á alguns instrumentos para apreender a percepção dos
sujeitos-problema dentro da temática investigada que se dará na seguinte
instituição de ensino: Escola Municipal
Professor Ladário, pois possui um atendimento especializado para atender
alunos com necessidades especiais dentro do ensino regular.
Endereço: Rua Pedro Quirino da Silva, 300
Bairro: Nossa Senhora das Graças
Cep: 38.402 - 026
Email:
alaurind@bol.com.br
A
educação é, inequivocadamente, fundamental para a socialização do conhecimento.
Compete à escola dar condições para que o processo de socialização do saber
assistemático torne-se mais elaborado. Todavia, também é um espaço que
possibilita a ocorrência de relações anti-democráticas, uma vez que está ancorada em uma sociedade dissimuladora,
que produz a desigualdade, resultante
de uma ordem econômica capitalista, representada pelo Estado, e que nela a
educação tem o poder de superar as condições dos indivíduos, tirando, pois,
toda a responsabilidade quanto a não equalização de oportunidades.
Assim sendo, a educação encontra-se em um universo de
desigualdade e exclusão, conseqüência de um processo sócio-histórico,
revelando, na verdade, uma violência que “parece negar a própria razão do homem
viver em sociedade” (Odália: 1991). Perpetua-se, assim, a discriminação social, já que valoriza mais o “ter” do que o “ser”, ou seja,
o mercado está cada vez mais “coisificando” o ser humano.
Se hoje vivemos em um mundo mediatizado pela mercadoria, a escola, o ensino, e o conhecimento também se tornam mercadoria. Assim sendo, o professor tem uma mercadoria para oferecer: o capital cultural, pois é na escola que há uma grande oportunidade de se concretizar o mesmo.
Nas escolas, o currículo que não é
visível, mas sim oculto, e objetiva valorizar as idéias dos alunos, favorecer o
desenvolvimento de suas potencialidades.
Embora
a escola contemple as desigualdades, pode haver dentro da mesma um espaço de
formação e criação, onde haja “uma perspectiva
omnilateral e dentro de uma concepção
de que as pessoas vêm em primeiro lugar, pressupõe tornar senso comum a visão
de que as relações capitalistas são incapazes, por sua natureza intrínseca, de
prover minimamente, o conjunto de direitos fundamentais a todos os seres...”
(Frigotto, 1996). Podemos afirmar que o capitalismo dificulta assim, o progresso para a grande maioria, pois o mesmo, constrói uma sociedade excludente e desigual.
Como
criar, então, um espaço onde o
processo formativo seja de qualidade, tendo em vista que ela está inserida
em uma sociedade que faz da exclusão uma regra?
A dinâmica que ocorre dentro da
escola deve ser percebida e refletida, uma vez que tem um grande papel - a de ter competência para
se tornar em um lugar de resistência à ordem dominante, ou seja, a não reprodução
dos interesses
dirigentes, criando um espaço
para combater essa violência, a dominação, contribuindo, assim, com o
seu papel pedagógico e também político, pois trabalhará com as diferenças e as desigualdades sociais.
Enfatiza-se, então, a relevante participação do educador,
contra o processo alienador, desde que, o mesmo tenha consciência deste quadro
de alienação. Ele deve ter competência
para estar atuando neste processo. Porém, na maioria das vezes, podemos
constatar em suas práticas educativas uma “perspectiva adaptativa”, elas também
são uma violência às condições de trabalho do docente e seus desejos,
tornando-os alvo de má formação.
A deficiência na formação dos professores, faz com que atuem de forma precária, sem
qualquer preparação para enfrentar os desafios e
dilemas impostos pelo cotidiano escolar,apresentam limitações para lidarem e atuarem com os alunos classificados como “normais”. Tais limitações
agravam-se quando desenvolvem um trabalho com
algum tipo de “deficiência” , não havendo
programas que realmente possam suprir esta formação precária do
educador, além da falta de infra-estrutura adequada
às escolas, ocasionada pela ausência de
política e de consciência dos representantes do Estado e da sociedade como um
todo. Em muitos casos, percebe-se mais uma política assistencialista do que a
de formação. Assim, como não sabem trabalhar com alunos portadores de
necessidades especiais, assumem uma postura paternalista em detrimento de uma
capacitação técnica e profissional[1]
(onde as especificidades desta prática exigem, constituindo um dos maiores
problemas enfrentado pela Educação Especial.)
O
educador deve entender a questão da inclusão. Não se trata, simplesmente,
permitir a entrada dos alunos portadores
de necessidades especiais no ensino regular. Vai muito
além, por abarcar questões ligadas, por exemplo, à inclusão de indivíduos, já
inseridos em uma sociedade que não os reconhece. Vale lembrar as normas
impostas
pela classe dominante por esta mesma sociedade e quem não se adequar à
elas é naturalmente excluído.
A
inclusão de alunos portadores de necessidades especiais talvez tenha sido uma
das questões mais discutidas nas últimas décadas pela literatura especializada, pois muitos são favoráveis,
enquanto outros a consideram utopia. No entanto, na realidade brasileira
da década de 90, este tema está candente dado a legitimidade que assumiu
após a promulgação da nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação (Lei 9394 de
20-12-96: estabelece as Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Brasília:
[s.n], 1996.
Analistas que
discutem a política de integração afirmam que a mesma
não é satisfatória até que se prepare devidamente o professor para receber este
aluno. Esta preparação está ligada não somente aos “currículos, métodos,
técnicas, recursos educativos específicos” (Lei 9394/96 artigo 59 § I), mas
também, ou até mais, à questão da própria aceitação, pois existem barreiras,
tanto no aspecto arquitetônico, referente a acessibilidade, quanto psicológico
no tocante as atitudes para com portadores.
A
defesa da inclusão dos "deficientes" à sociedade, não vem de pouco
tempo se considerarmos os denominados ”deficientes” excluídos desde a época da
Antigüidade, pois eram vistos como uma maldição. Já no século XIX criaram-se
instituições para acolher os deficientes, acreditando que poderiam ser produtivos. Até
então, como não existia nenhuma instituição que atendesse às necessidades das pessoas portadoras de
deficiência, que eram entregues totalmente aos cuidados do Estado.
A primeira, criada em 1837, foi a escola para
cegos nos Estados Unidos, tornando este “fato bastante importante, pois
despertou a sociedade para a obrigação do Estado para com a educação dos
portadores de deficiência” (MAZZOTTA, 1996 p.23). Ainda
seguindo o
autor, diversas expressões eram utilizadas para referir-se ao atendimento
educacional aos portadores de deficiência: "Pedagogia de
Anormais","Pedagogia Teratológica", "Pedagogia Curativa ou
Terapêutica", "Pedagogia da Assistência Social", "Pedagogia
Ementativa” (Idem) Tomando como
referência os ideais da Europa e dos Estados Unidos,
criou-se em 1854, na cidade do Rio de Janeiro, o Instituto dos Meninos Cegos,
que foi inaugurada por D. Pedro II, no dia 12 de setembro e, três anos depois,
fundou-se o Instituto dos Surdos-Mudos.
Na época, o império queria efetuar
ações que fizessem crescer o conhecimento sobre esta área. Assim, o I Congresso de Instrução Pública,
acontecido em 1883, mereceu atenção especial, pois um dos pontos mais
discutidos foi à sugestão de um currículo e a
formação de professores para cegos e surdos.
A longa
trajetória para a inserção do aluno portador de necessidades especiais no
contexto escolar ofereceu as condições para que se discutisse uma expressão que
melhor os caracterizasse. Assim, observa-se que a cada momento surge uma nova expressão para denominar os alunos da Educação
especial: portadores de deficiência, alunos com deficiência, com necessidades
educacionais especiais ou alunos com necessidades educacionais especiais.
Segundo Mazzotta (1996), não seria muito adequado o termo “alunos portadores
de necessidades educativas especiais” mas sim, “alunos que apresentam necessidades educativas especiais. Com base nesta
argumentação, o autor acredita que “alunos
portadores” sustenta o significado “portar, que subtende, para outro
perceber e somente considerar. É relevante explicar que tais expressões vieram
com o objetivo de se modificar a percepção social sobre estas pessoas.
Todavia, o
esforço lingüístico se torna uma máscara, que
procura esconder, de fato, questões ligadas ao acesso
de possibilidades dos portadores e sua própria inserção na vida social.
Hoje,
a integração dos portadores de necessidades especiais é algo explicitamente
reconhecido através da Lei de Diretrizes e Bases de Educação, defensora desta inclusão, esta
lei apresenta-se mais significativa, se comparada
às leis anteriores.
Da Educação de Excepcionais
Na Lei 4024/61 podia se ler:
Art. 88º – A educação de
excepcionais deve, no que for possível, enquadrar-se no sistema geral de ensino
de educação, a fim de integrá-los na comunidade.
Art. 89º _ Toda
iniciativa privada considerada eficiente pelos Conselhos Estaduais de Educação,
e relativa à educação de excepcionais, receberá dos poderes públicos tratamento
especial mediante bolsas de estudo, empréstimos e subvenções.
Na Lei 5692/51 podia se ler:
Art. 9º _ Os alunos que
apresentem deficiência físicas ou mentais, os que se encontram em atraso
considerável quanto à idade regular de matrícula e os superdotados deverão
receber tratamento especial, de acordo com as normas fixadas pelos competentes Conselhos de Educação.
Na Lei 9394/96 pode-se ler:
Art. 58º_ "(...) a
modalidade de educação escolar, oferecida preferencialmente na rede regular de
ensino, para educandos portadores de necessidades especiais". (Lei
9394/96)
Constata-se que apesar de a lei ser hoje mais abrangente, ainda assegura a preparação prévia do corpo docente responsável pelo trabalho com o aluno. Embora discussões tenham sido realizadas, no âmbito nacional e em outros países, uma das mais significativas foi a Conferência Mundial de Salamanca, na Espanha, entre 07 e 10 de junho de 1994. Nela foi apontado o “alarmante número de educandos fora da escola, do grande número que freqüentam escolas e não aprendem, dos que apresentam necessidades educacionais especiais e que não são aceitos na “escola de todos” ou que não recebem atendimentos adequados às suas necessidades de aprendizagem” (Pinto, 1999 )
É forçoso registrar literaturas que elucidam algumas
experiências a respeito da inserção do portador. Em alguns países, como na
Itália, “há um movimento de fechamento de escolas e classes especiais com a
inserção de todos em salas de aula regulares” (Santos, 1992). Na
Inglaterra, conforme salienta Hagarty, Pocklington e Lucas, citados por
Mazzotta , (1996) os “pais de crianças com necessidades especiais usualmente
manifestam preferência por recursos integrados na escola comum” e, a Espanha,
“também prevê a integração dos alunos portadores de deficiência no sistema
educacional regular, mas também criou Centros Educacionais para aqueles que não
puderem ser integrados a esse sistema” (Carneiro, 1996) e apesar das classes serem
integradas, as mesmas “têm menos alunos” (Gil, 1999).
Muitos
que defendem a idéia da inserção acreditam também que somente a educação
regular para estes deficientes não basta. Há necessidade de algumas
modificações, já que os alunos são deficientes e possuem “limitações” (Gil, Idem).
As
estatísticas mostram um número inexato sobre a freqüência das deficiências
sejam elas adquiridas ou congênitas. Segundo a Organização das Nações Unidas
(ONU), acredita-se que em países em desenvolvimento, a incidência seja de 10%.
Então tendo o Brasil, possui cerca de 147 milhões de habitantes, pode-se
concluir que aproximadamente 14,7 milhões são portadores de alguma deficiência,
conforme mostra o quadro:
|
|
POPULAÇÃO
ESTIMADA |
|
|
TIPO DE
DEFICIÊNCIA |
PERCENTUAL |
NÚMERO |
|
MENTAL |
5% |
7.350.000 |
|
FÍSICA |
2% |
2.940.000 |
|
AUDITIVA |
1,5% |
2.205.000 |
|
MÚLTIPLA |
1% |
1.470.000 |
|
VISUAL |
0,5% |
735.000 |
|
TOTAL |
10% |
14.700.000 |
FONTE: Artigo ONU -
Revista APAE Ano 1997
Os governos necessitam formular projetos que estabeleçam a
inclusão do portador, seja dentro da escola, ou no mercado de trabalho e, por
conseguinte, na sociedade, haja vista que “... ainda hoje, no Brasil, apenas
cerca de 3% da população de crianças e adolescentes portadores de necessidades
educativas especiais têm acesso e permanência na escola”. (Goffredo, 1999).
A escola deve entender
que em seu contexto, as diferenças existem, porém são elas que enriquecem
nossa sociedade. Contudo, as crianças
possuidoras de carência social são vistas como incapazes de aprender dentro de
uma escola onde o trabalho é baseado no
cotidiano, negando, o direito à cidadania, pois nega a existência da heterogeneidade, assim “buscando a homogeneidade, é escamoteado que
crianças diferentes criadas em contextos diferentes, expostas a realidades
diferentes, desenvolvem conseqüentemente, habilidades e conhecimentos
diferentes. Embora a diferença não signifique a capacidade de uns para
aprender e a incapacidade de outros
para, sua existência aponta a necessidade de que o trabalho escolar possa
incorporar a heterogeneidade que constitui o real, sendo construído a partir
dessas diferenças, que o tornam mais rico e dinâmico” (Esteban,
in Goffredo, 1999).
É necessário clarificar que a questão da inclusão como elementos
subtendidos no fracasso escolar,
abrangendo aspectos ligados ao econômico, social, cultural, biológico e
psicológico. Se os alunos, que geralmente se enquadram no processo do fracasso
escolar, encontram barreiras, a escola estaria corroborando, para a sua negação
no mercado de trabalho. Remetamos para
analisar esta realidade da
seguinte lógica do capitalismo: o portador de deficiência é considerado,
no mercado, um ser que não consegue acumular “produtividade” e que não consegue
competir, sendo, pois compelido à exclusão do mercado, bem como o fato de não
ter direitos garantidos, por não oferecer um retorno ao sistema capitalista.
2.1- DELIMITANDO O PROBLEMA
Hoje, no Brasil, existem instituições especializadas,
esforçando-se para dar um atendimento às escolas ou aos alunos freqüentadores
do ensino regular. Uma delas, situa-se na cidade de Uberlândia - M.G e recebe o
nome de Núcleo de Assessoria e Pesquisa sobre a Educação da Pessoa Portadora de
Deficiência. Segundo o discurso oficial do município (Lei nº 157 de 07 de
novembro de 1996), o programa foi
reconhecido nacionalmente pela Coordenadoria Nacional para Integração da Pessoa
Portadora de Deficiência (CORDE), pelo Ministério da Educação e Cultura (MEC);
e, internacionalmente, pelo Programa Íbero Americano, cadastrado na Organização
das Nações Unidas para a Educação (UNESCO) que tem, por objetivo, prestar
assistência, principalmente, às escolas municipais. Este programa foi iniciado em
1991 e foi legalmente reconhecido e instituído no ano de 1996 pela Prefeitura
Municipal de Uberlândia.
Atualmente,
o programa atende um total de 510 alunos, distribuídos em 12 escolas como
mostra quadro, a seguir:
|
|
ESCOLAS
|
ALUNOS
|
PROFISSIONAIS |
||||||||
Nº
|
1ª a 4ª |
5ª a 8ª |
2º GRAU |
TOTAL |
DIRETOR OU VICE |
ESPECIALISTA |
PROFESSORES |
TOTAL GERAL |
|||
|
|
MENSALISTA |
HORISTA |
TOTAL |
||||||||
|
1 |
E.M.Prof. Leôncio do C. Chaves |
46 |
8 |
- |
54 |
1 |
1 |
4 |
3 |
7 |
9 |
|
2 |
E.M.Prof. Luís R. e Silva |
35 |
- |
- |
35 |
1 |
- |
4 |
- |
4 |
5 |
|
3 |
E.M. Prof. Mário Godoy Castanho |
24 |
5 |
- |
29 |
1 |
1 |
3 |
- |
3 |
5 |
|
4 |
E.M.Hilda Leão Carneiro |
30 |
- |
- |
30 |
1 |
1 |
2 |
1 |
3 |
5 |
|
5 |
E.M. Ladário Teixeira |
36 |
- |
- |
36 |
1 |
1 |
3 |
- |
3 |
5 |
|
6 |
E.M. Afrânio Rodrigues da Cunha |
36 |
2 |
- |
38 |
1 |
1 |
3 |
1 |
4 |
6 |
|
7 |
E.M. Profª. Olga Del' Fávero |
53 |
- |
- |
53 |
1 |
1 |
4 |
- |
4 |
6 |
|
8 |
E.M. Profª. Gláucia S. Monteiro |
48 |
- |
- |
48 |
1 |
1 |
4 |
- |
4 |
6 |
|
9 |
E.M. Joel Cupertino |
20 |
2 |
- |
22 |
1 |
1 |
2 |
1 |
3 |
5 |
|
10 |
E.M. Profª Cecy Cardoso Porfírio |
44 |
3 |
- |
47 |
1 |
1 |
5 |
5 |
10 |
12 |
|
11 |
E.M. Prof. Otávio Batista C. Filho |
35 |
23 |
7 |
65 |
1 |
1 |
5 |
10 |
15 |
17 |
|
12 |
E.M. Prof. Sérgio de O. Marques |
34 |
16 |
- |
50 |
1 |
1 |
3 |
4 |
7 |
9 |
|
TOTAL GERAL |
441 |
62 |
7 |
510 |
12 |
11 |
42 |
25 |
67 |
90 |
|
FONTE: Secretaria de Educação 1999.
A
constatação de que existe um grande número de escolas, que oferece apoio especializado
denominado “Ensino Alternativo” para alunos com deficiência, evidenciou a
urgente necessidade de se realizar esta pesquisa, com o objetivo de investigar
se de fato este apoio acontece, estendendo também aos professores regentes,
protagonistas diretos do trabalho escolar. Em conversas prévias, com
profissionais que participam deste programa, algumas respostas constituíram-se
como guia para que se chegasse a algumas reflexões.
O
trabalho de investigação teve como referência uma destas escolas, denominada
Escola Municipal Professor Ladário Teixeira. As entrevistas, realizadas com
profissionais ligados ao Programa, permitiram que algumas questões emergissem.
Assim a pergunta a respeito do que As entrevistas, realizadas com profissionais
ligados ao Programa, permitiram que algumas questões emergissem. Assim, à
pergunta a respeito do termo “apoio especializado”, cerca de 77,78% dos
entrevistados o definiram como um apoio maior, mais especializado para
trabalhar com alunos que possuem deficiência, bem como de uma ajuda aos professores menos experientes, ao lidarem diretamente
com estes alunos.
É importante explicar
que, apesar dos entrevistados saberem
do significado Programa Ensino Alternativo, a grande maioria dos profissionais,
75% dos entrevistados, não vê no mesmo
uma funcionabilidade real. Acreditam ter
falhas, como o despreparo docente
do ensino regular. Com esta
observação, a pergunta que se faz é: por que não estender o trabalho de
recapacitação aos professores do ensino regular, tal qual se fez com os
professores do apoio especializado? Por que não preparar, com antecedência,
estes professores para o
desenvolvimento de um trabalho melhor junto aos alunos com necessidades
especiais, pois são estes que estão a maior parte do tempo, junto ao corpo discente? Outro ponto que
merece questionamento: Os alunos portadores de deficiência estão se
desenvolvendo dentro do ensino regular?
É
fundamental pensarmos nestes aspectos, para averiguarmos quando a lei deseja
oferecer ensino digno e não preconceituoso
a todos, pois recomenda que “todos os
indivíduos portadores de necessidades educativas especiais sejam matriculados
em turma regular, o que se baseia no princípio de educação para todos” (Goffredo, 1999).
Uma
análise mais profunda aponta para a inutilidade de um capítulo que propiciasse
ensino aos portadores de deficiência, pois os mesmos já se enquadram nas
exigências da lei, que visa propiciar a todos o acesso e a permanência na
escola. Segundo Odália (1991), esse
reforço da lei, aparentemente beneficia o portador, todavia, oculta, na
verdade, uma forma implícita de violência, pois tenta moldar-se a uma
realidade, justificando aquilo que a sociedade não conseguira resolver.
Portanto, ela “institucionaliza, estabelecendo limites, situações que deveriam
ser abolidas”.
Embora
este trabalho esteja em uma fase de investigação inicial, a análise mostrou que
dos doze entrevistados, cerca de 88,89% afirmaram, nos relatos, uma certa
insegurança, ou seja, é um dos empecilhos no trabalho com a criança portadora
de necessidades especiais. Tal insegurança ocorre pelo fato de não receberem,
com antecedência um apoio, um trabalho dos órgãos competentes. Na realidade,
são obrigados a aceitar os alunos, embora estejam totalmente despreparados.
Isso talvez explicaria alguns dos depoimentos coletados no tocante a
questão de como eles desenvolvem
trabalhos com os alunos ditos normais e os que possuem deficiência. Alguns
profissionais afirmaram que o trabalho não é fácil, tomando um certo tempo,
outras defendem a necessidade de existir a presença de dois profissionais em
sala, um para o atendimento dos alunos
ditos normais e outro para aqueles que possuem alguma deficiência. Alguns
professores afirmaram, não oferecer ao aluno portador de deficiência um
atendimento diferenciado, por não vê-lo como deficiente.
Parece evidente, nestas
respostas, a dificuldade dos profissionais para lidar com estes alunos, o que
denuncia o quanto há por trás destas
dificuldades uma violência para com o
aluno portador, pois deixa de ser “um
sujeito do processo” para se tornar um “dificultador” do mesmo.
Há
necessidade de se fazer algumas reflexões, tomando como referência suas
respostas, pois se constatou, ainda, um desconhecimento da lei ou de um estudo
mais sistematizado por parte desses profissionais, ao serem feitos os seguintes
questionamentos: Como se dá a inserção, que
violenta os alunos, ao se lhes ser negado o direito de ter, à sua
disposição, profissionais preparados para os auxiliar de forma sistemática? Por
que colocar em sala outro profissional somente pelo aluno ser um deficiente, se
o mesmo poderia estar somente dentro do Ensino Alternativo?
Observa-se
que outra forma de violentar o aluno é não aceitá-lo enquanto deficiente, sendo
comumente “postos a margem da condição humana” (Mazzotta, 1996)
pelo fato de apresentarem diferenças, como afirma Carmo (1998) “É interessante
ressaltar que a necessidade especial que defendem, têm como referência a
diferenciação concreta e a limitação perceptível do indivíduo, manifestas no
estado de “deficiência” Esquecem, entretanto que entre homens o que existe é
somente desigualdades e diferenciações, sendo portanto, a diferença uma
realidade de todos os homens e não apenas dos
deficientes.” O autor ainda declara que, ao se falar em educação
especial, muitos a tratam como se ela não fizesse parte da Educação. Para ele,
as escolas de ensino regular lutam para não receber os alunos deficientes,
deixando-os sob a responsabilidade das escolas especiais e estas “por sua vez, faz o discurso da diferença,
mas na prática, luta para que o produto de seu trabalho, isto é, seus egressos,
tenham acesso ao ensino regular . Essa forma de pensar a situação do
deficiente é esclarecedora, pois permite refletir sobre a aceitação ou não dos
deficientes nas instituições de ensino.
Na
verdade, o que se observa é que as práticas dos profissionais camuflam a
ideologia mantida por uma minoria sobre a maioria, pois cria e incentiva
condições para manipulação, fazendo com que os serviços do Estado através do
sistema educacional, lhes dêem condições de perpetuarem a sua ideologia,
inibindo o direito verdadeiro das pessoas portadoras de necessidades especiais,
de estarem realmente inseridas no contexto escolar. Quando este fato ocorre,
estas práticas educacionais são também excludentes e alicerça assim a violência
contra esta classe. Por sua vez, quando os profissionais não têm condições de
se perceberem facilitador dessa exclusão, não se pode negar que eles também
estão sendo vítimas de uma violência.
Nossa
pretensão com este estudo foi a de encontrar algumas estratégias iniciais para
se repensar a inserção do portador de necessidades especiais no ensino regular
de ensino com a ajuda do Programa Ensino Alternativo. Concluímos que deverão
acontecer alguns procedimentos:
·
Estudo sistematizado sobre o processo de inserção: cursos,
palestras e trocas de experiência;
·
Desconstrução e reconstrução das práticas pedagógicas;
·
Reestruturação do Programa Ensino Alternativo.
Daí
a relevância deste trabalho, por permitir
repensar o Programa Ensino Alternativo, com o objetivo de minimizar
qualquer violência praticada, que se instaure de forma não visível, mas se
enquadre em um espaço histórico revelador das imperfeições de nossa sociedade.
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para o Futuro: Educação especial: tendências atuais. Secretaria de Educação a
Distância. Brasília: Ministério da Educação, SEED,1999.
1 Mestranda em Educação pela Universidade Federal de Uberlândia - UFU
2 Doutora em Linguística Aplicada pela UNESP e Professora da Universidade Federal de Uberlândia
[1]
Cf: GOFFREDO, Vera Lúcia Flor
Sénéchal de. A Escola com Espaço Inclusivo in: Educação especial: tendências atuais, p. 45-57, 1999.