DESENVOLVIMENTO E INSERÇÕES SOCIAIS DA LINGUAGEM AUTO-REGULADORA EM DEFICIENTE MENTAIS

 

 

Esther Giacomini Silva1
Cenira Peres da Silva2
Geina Severino Botelho3

 

INTRODUÇÃO

 

Ao desenvolvermos uma atividade com um grupo de jovens portadores de deficiência mental, no período de setembro de 1999 a agosto de 2000, com o objetivo de promover a linguagem auto-reguladora e ampliar sua capacidade reflexiva, favorecendo sua autonomia, notamos que estes jovens tinham grande interesse de participar de outras atividades, eventos  que os seus familiares desenvolviam, como obter um emprego.

Foi a partir de então, que resolvemos ampliar a nossa ação, paralelamente a continuidade desta atividade. Neste sentido, propusemos verificar alguma repercussão desta ação durante o início de uma formação pré-profissionalizante em ação na APAE Rural.

A educação profissional dos Portadores de Necessidades Especiais, assim como a de qualquer pessoa considerada “normal”, deve ter como finalidade promover o desenvolvimento das potencialidades de todos os alunos e satisfazer as necessidades pessoais e profissionais com o objetivo de favorecer o exercício pleno da cidadania.

Segundo Demo, citado por SASSAKI (1999):

 

“O caráter educativo do processo profissionalizante precisa predominar sobre todos os outros aspectos, porque não se trata apenas de inserir se no mercado, mas de envolver o todo no contexto da cidadania, saber pensar e aprender a pensar denotam não só habilidades propedêuticas de estilo formal e inovador, mas, sobretudo, a qualidade política de quem, ao mesmo tempo, maneja bem o conhecimento e o humaniza (...)” (SASSAKI; 1999:85).

 

Esta pesquisa teve como objetivo verificar se os portadores de necessidades especiais, que freqüentaram uma atividade extra-curricular com discussões temáticas, para o desenvolvimento da linguagem auto-reguladora e da capacidade reflexiva, conseguiriam transpor esta dinâmica participativa para um ambiente de educação formal. Todas estas ações foram inter-relacionadas, buscando-se compreender o desenvolvimento das funções psicológicas superiores das pessoas portadoras de deficiência e alcançar estratégias para a melhoria da sua inserção social.

 

1 - REVISÃO DE LITERATURA

 

1.1 – O deficiente mental e os fatores facilitadores para a sua inserção social

 

Dentre as pessoas portadoras de necessidades especiais sabe-se, que aproximadamente mais de 750.000 são portadoras de deficiência mental no Brasil. Esta cifra corresponde a 5% do total de pessoas com deficiência no país (SEESP,1995:31), o que representa um contigente significativo de pessoas que necessitam ter suas especificidades atendidas.

A Secretaria de Educação Especial (SEESP) do MEC utiliza a proposta da Associação Americana de Retardo Mental – AAMR para diagnóstico e caracterização da deficiência mental, onde são considerados os seguintes aspectos:

 

“(...) funcionamento intelectual geral significativamente abaixo da média, oriundo do período de desenvolvimento, concomitante com limitações associadas a duas ou mais áreas da conduta adaptativa ou da capacidade do indivíduo em responder adequadamente às demandas da sociedade, nos seguintes aspectos: comunicação, cuidados pessoais, habilidades sociais, desempenho na família e comunidade, independência na locomoção, saúde e segurança, desempenho escolar, lazer e trabalho” (MEC/SEESP, 1995:18).

 

   Muito embora a pessoa com deficiência mental possa exercer uma vida com aproveitamento de todas as condições sociais, a idéia da sua incapacidade (ainda que seja em alguns itens, conforme a definição da AAMR) costuma ser generalizada, e torna mais limitante a sua ação, do que de fato se constitui (SILVA, 1998). A falta de perspectiva quanto às realizações da pessoa com deficiência mental, não contribui para que a inclusão desta, na escola e sociedade ocorra de forma a promovê-la como agente de sua ação, sendo necessário que a pessoa portadora de necessidades especiais reivindique este direito, como aponta DE PAULA (1996), e não que outras pessoas o queiram.                 

Cabe ressaltar, que quando nos referimos a inclusão estamos falando, no sentido de que, esta deve estar presente em todas as instâncias: família, escola e sociedade e que incluir significa estas instâncias adaptarem-se e criarem condições necessárias para que os portadores de necessidades especiais tenham oportunidades de participar efetivamente delas. “A inclusão da pessoa portadora de deficiência na sociedade requer, portanto, a adoção de mecanismos que propiciem a igualdade de oportunidades e a preparação para a vida” (VIÉGAS 2000).

Outros fatores importantes nesta ação inclusiva são: a ação comunicativa, reflexiva, a expressão artística e o acesso ao trabalho.

A ação comunicativa é necessária para que as relações interpessoais aconteçam. Hoje os estudos sobre o desenvolvimento intelectual mostram como a aquisição da linguagem é condição essencial para o chamado desenvolvimento intelectual, isto é, “(...)ser capaz de generalizações, abstrações, figuração. Superar o aqui e agora: planejando, prevendo, lembrando simbolizando e idealizando” (LANE,1986).

Para a autora é impossível separarmos agir-pensar-falar. A contra arma do poder da palavra se encontra na própria natureza do significado: deve-se ampliá-lo, questioná-lo, e pensar sobre ele e, não simplesmente agir em resposta a uma palavra. Entre a palavra e a ação deverá sempre existir o pensamento e a reflexão.

Assim, tanto os pressupostos de Lane, quanto a teoria sócio-histórica de Vygotsky, podem auxiliar na busca de uma inclusão social participativa das pessoas portadoras de necessidades especiais.

VYGOTSKY (1991a) elaborou uma teoria do desenvolvimento intelectual, sustentando que o conhecimento é construído socialmente no âmbito das relações humanas. Para ele a vivência em sociedade é essencial para a transformação do homem de ser biológico em ser humano. É na convivência com os outros, que construímos os conhecimentos, os quais, permitem nosso desenvolvimento mental. Com o aprendizado cultural, as funções psicológicas elementares, como os reflexos e a atenção involuntária, transformam-se em funções psicológicas superiores como a consciência, o planejamento e a deliberação, características exclusivas do homem.

Segundo MOLL (1996) a teoria de Vygotsky sugere que funções psicológicas mais elevadas, podem ser distinguidas de processos básicos de quatro maneiras diferentes. As funções superiores são:

* auto-reguladas, em vez de limitadas ao campo de estímulo imediato;

* sociais ou culturais, em lugar de biológicas na origem;

* objeto de uma atenção consciente, em lugar de automáticas e inconscientes;

* mediadas através do uso de instrumentos e símbolos culturais.

Para este autor a capacidade para a auto–regulação é, na verdade, o principal resultado do desenvolvimento que colabora para uma transformação radical das habilidades cognitivas e sociais do sujeito. O desenvolvimento auto-regulador não apenas se origina nas interações específicas do cuidado social com as pessoas, mas deve ser por ele encorajado e facilitado.

A partir das interações sociais que visam favorecer o desenvolvimento cognitivo, a arte encontra-se como um potencializador nesta ação, já que a arte representa um conjunto do patrimônio histórico-cultural acumulado. Tanto quanto a linguagem oral e escrita, a expressão artística revela uma comunicação interpessoal e intrapessoal, mas com a vantagem de “ser uma expressão mais  indefinida” (REILLY, 1993), isto porque não prevê uma única forma ou técnica de realização. Esta característica é um facilitador, tanto na promoção da linguagem oral, quanto na participação de uma atividade artística por parte da pessoa portadora de necessidades especiais.

A arte permite a discussão de vários temas. Os Parâmetros Curriculares Nacionais consideram esta área como “privilegiada para o tratamento de temas transversais” (1997), ou seja, ética, saúde, meio ambiente, orientação sexual e pluralidade cultural. Estes temas devem ser discutidos com as pessoas portadoras de necessidades especiais, uma vez que podem servir como amplificadores de sua capacidade de inserção social.

Uma outra esfera considerada de muita importância para a inserção social é o trabalho. É pelo trabalho que o homem transforma o seu meio, modifica a sua realidade e, vai criando a sua dignidade e construindo as relações sociais.

 

“É graças ao trabalho, enquanto cria, que o homem se produz a si mesmo, ou seja, o trabalho, a atividade prática material produtiva é um processo através do qual o sujeito vai se elevando até atingir sua plena autoconsciência” (ALBORNOZ, 1986: 66).

 

A inserção do portador de necessidades especiais no mercado de trabalho é de suma importância para a vida deste, pois, o trabalho, é uma forma de integração social que pode “(...)ajudar no desenvolvimento das funções mentais superiores” (VYGOTSKY 1991a). As funções mentais superiores são interligadas a partir de um processo que tem origem social: primeiro no nível interpessoal (entre sujeitos) e depois no nível intrapessoal (reflexão interna do sujeito). O trabalho, pode ser promotor da autonomia destas pessoas.

Entendemos que o trabalho possibilita ter mais autonomia sobre nossa vida e também uma maior integração com as outras pessoas. Portanto, quando é negada a uma pessoa a participação no mercado de trabalho, na maioria das vezes, esta sente-se fracassada, principalmente, quando se trata de um sistema capitalista, como o da realidade brasileira, onde geralmente o indivíduo é responsabilizado pelo seu “fracasso” e obrigado a viver em um competitivo mundo de trabalho, onde nem todas as pessoas têm lugar.

BATISTA et alli (1997) afirma que, para o portador de deficiência ser considerado merecedor de um trabalho é necessário mostrar a sua capacidade e romper um mito social, que o coloca como um ser improdutivo, e outro, familiar, que o vê sempre, como um eterno dependente que necessita de cuidados especiais e incapaz de adquirir a autonomia, portanto sem condições de desenvolver um trabalho que represente realização ou satisfação do seu desejo.

  Para o autor, o trabalho contribui para elevar a auto-estima e a confiança do ser humano. Proporciona aprendizagem, transformação de conceitos, aprimoramento e remuneração. Devemos considerar as atitudes pessoais e a vontade de trabalhar da pessoa deficiente.

Para uma maior credibilidade destas pessoas, é necessário que a escola lhe ofereça uma preparação que possa ajudá-las a construir a sua própria identidade pessoal, exercendo sua opção em vários setores que deseja atuar, dentro da sua realidade e possibilidades. Vygotsky lembra que:

 

“A tarefa da escola (...) consiste em não adaptar-se à deficiência, mas sim em vencê-la. A criança com retardo mental necessita mais que a normal que a escola desenvolva nela os processos mentais, pois, entregue à sua própria sorte, ela não chega a dominá-los” (VYGOTSKY, In Monteiro, 1998 :109).

 

Se a pessoa deficiente tiver acesso a uma educação profissional, for estimulada e preparada adequadamente, terá condições de escolher uma atividade e desempenhá-la com consciência e participação ativa. Existe sempre um tipo de trabalho que a pessoa com deficiência pode realizar com competência e que lhe possibilite o alcance da realização profissional.

Devemos colocar os educandos em situação de reflexão, fazer com que eles sempre pensem antes de realizar uma ação, para que realmente saibam o que estão fazendo, e não só que executem uma tarefa, afinal, o sentido pleno de assumir a humanização se reflete na construção das funções psicológicas superiores, como a consciência, o planejamento e a deliberação(VYGOTYSKY 1991a). Então porque não trabalharmos no sentido de desenvolvê-las, ao invés de transformar os homens em meros reprodutores de tarefas?

Diante do desafio de proporcionar aos portadores de deficiência, uma educação profissional de qualidade, para que os mesmos possam competir no mercado de trabalho, ações de vários órgãos estão ocorrendo. A Federação Nacional das APAEs (FENAPAEs) está dando assistência às instituições (APAEs) no processo de educação profissional e colocação no trabalho (PECT), através de produção de material bibliográfico, preparação dos professores que irão trabalhar com a educação profissional e recursos de outros órgãos governamentais.

Os programas de qualificação profissional do portador de deficiência seguem as sugestões do Plano nacional de qualificação do trabalhador – PLANFOR. De acordo com SILVA (2000) esse programa inclui conteúdos para desenvolvimento de habilidades básicas, específicas e de gestão, tendo em vista a demanda do mercado de trabalho  e o perfil da população a ser atendida.

As habilidades básicas são essenciais para o mercado de trabalho (ler, escrever, interpretar e calcular).Já as habilidades específicas estão relacionadas ao conhecimento e a competência para o trabalho, de acordo com a profissão escolhida. Enquanto as habilidades de gestão estão relacionadas, a competência e conhecimento relativos às atividades de gestão, de auto-gestão, de melhoria da produtividade e do trabalho em equipe.

 

2– CARACTERIZAÇÃO DO PROBLEMA

 

Durante o período de um ano  (1999 à 2000) foi desenvolvido uma pesquisa, com um grupo de jovens portadores de deficiência mental, que obteve avanços na promoção da linguagem oral auto-reguladora destes jovens, ampliando a sua capacidade reflexiva. Através desta pesquisa identificou-se que estes jovens tinham grande interesse e vontade de ter uma profissão. Percebeu-se então, a importância de que fosse desenvolvido cursos de qualificação profissional para pessoas portadoras de deficiência.

Desenvolver um curso de profissionalização não é uma tarefa fácil, principalmente, quando se trata de um grupo de pessoas portadoras de deficiência, que em sua maioria não são alfabetizadas e ainda é sujeito de preconceitos, sendo geralmente consideradas pela sociedade, como incapazes de realizar um trabalho. Mas com uma melhora das funções superiores pode auxiliar a superar as outras dificuldades da aprendizagem:

Isto nos suscitou a seguinte questão:

·        A atividade desenvolvida com os jovens, na promoção da linguagem auto-reguladora vai ajudá-los a ter um melhor aproveitamento em um  ambiente de Educação formal ?

 

3 – METODOLOGIA

 

A proposta do presente trabalho foi fazer um estudo de caso dentro da abordagem qualitativa. De acordo com GOLDENBERG (1998) O estudo de caso tem como objetivo apreender a totalidade de uma situação e descrever a complexidade de um fato concreto.

 

3.1 – Instrumentos

 

Foram utilizados os seguintes Instrumentos de coleta de informação:

·        Levantamento bibliográfico.;

·        Discussões temáticas;

·        Observação;

·        Análise qualitativa dos dados obtidos.

 

3.2– Sujeitos

 

Foram quatro os sujeitos participantes das atividades extra-curriculares na Casa da Cultura e que também participaram do curso de pré-profissionalização na APAE/RURAL. Os jovens eram portadores de deficiência mental com idades entre 19 e 25 anos, sendo todos  do sexo masculino.

 

3.3 - Local da experiência

 

Esta pesquisa teve como locais, a APAE Rural e a Casa da Cultura, sendo que em cada uma foram realizadas atividades distintas.

 

3.3.1 – Casa da Cultura

 

As atividades semanais foram realizadas na Casa da Cultura que é vinculada a Prefeitura Municipal de Viçosa/MG. A Casa da Cultura de Viçosa tem um papel de destaque na difusão de eventos artísticos e culturais do Município. Aproveitar este espaço, teve como propósito iniciar/ampliar a participação destes jovens em outros espaços comunitários.

 

3.3.2 - APAE Rural

 

A APAE Rural é uma extensão da APAE de Viçosa cujo objetivo é trabalhar a profissionalização de pessoas portadoras de necessidades especiais, acima dos 14 anos de idade cronológica. Nesta área, há espaço suficiente para o desenvolvimento de atividades tais como: cultivo de hortaliças, plantas ornamentais, criação de animais, em pouca quantidade e de pequeno porte.

 

 

3.4. – Procedimentos metodológicos

 

Levantamento bibliográfico - A revisão de literatura constou de literatura na perspectiva sócio-histórica, trabalhos de alguns autores que discutem a questão da profissionalização, documentos da FENAPAEs e a profissionalização para portadores de necessidades especiais.

Discussão Temática – Inicialmente, nos primeiros 30 minutos as pesquisadoras desenvolviam um diálogo com os jovens procurando promover a integração e participação dos mesmos, usando de perguntas conceituais para a promoção da conversa. Este diálogo baseava-se em um tema gerador. O tema gerador. foi utilizado para a promoção do pensamento e da linguagem, favorecendo o planejamento de uma ação auto-reguladora, a qual deveria ser possível visualizar-se na atividade gráfica feita pelos jovens, enquanto síntese da fala apresentada na discussão em grupo.

Em relação a atividade desenvolvida no ano anterior, esta pesquisa alterou a dinâmica no desenvolvimento do diálogo com os jovens. Foi proposto à eles, que ficassem encarregados de escolher a temática, “pesquisassem” sobre o assunto escolhido, e iniciassem o diálogo. Sendo assim, em cada encontro os jovens escolhiam uma temática. O jovem que sugeria o tema, ficava responsável por pesquisar e iniciar o diálogo no encontro seguinte, e os outros ficavam com a responsabilidade de pesquisarem, durante a semana, sobre o mesmo assunto, para poderem ajudar o colega no desenvolvimento da temática no próximo encontro.

Durante a discussão e a execução da atividade artística a pesquisadora organizava o diálogo usando o roteiro parcial de MOLL (1996):

v     Formulação de perguntas conceituais (requerem uma representação mental das regras ou objetivos da tarefa);

v     Elogios(promoção da auto - estima) ;

v     Renúncia direta do pesquisador em realizar a tarefa pelo jovem ou de um jovem realizar para outro.

O objetivo deste roteiro foi avaliar a produção da linguagem auto-reguladora, nas expressões dialogadas.

Após cada diálogo desenvolvido, os jovens eram divididos em dois grupos. Cada grupo recebia o material escolhido pelo professor de artes, para confeccionar a sua interpretação da discussão. Os materiais utilizados foram: cartolinas, tintas, canetas hidrográficas, cola, massa de modelar, giz de cera, lápis de cor, lápis preto e borracha.

Observações A observação constou de dois momentos: Discussão temática, durante a atividade a pesquisadora observava e registrava por gravações e anotações a participação dos jovens no diálogo, a integração do grupo e analisava as atividades gráficas, observando se eles estavam conseguindo planejar e executar a sua ação e se a atividade estava de acordo com a temática desenvolvida. Durante o curso de pré-profissionalização, observamos a participação dos jovens que freqüentavam as atividades extra-curriculares, nas aulas práticas e teóricas ministradas na APAE Rural.

As observações foram feitas de uma forma sistemática e constaram de um registro cursivo sobre as ações dos jovens durante as aulas. Mereceu atenção a coerência e qualidade das perguntas feitas pelos jovens aos professores e aos colegas.

 

 

 

4– ANÁLISE E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS

 

4.1 – Discussões temáticas

 

No período de um ano, as atividades com 4 jovens que participaram desta dinâmica no ano anterior tiveram prosseguimento. Neste espaço de tempo foi possível o acompanhamento de 15 encontros, visto que seguimos o calendário da instituição da qual os jovens estavam matriculados. Durante estes encontros procuramos estar sempre estimulando a sua participação para que estes tivessem condições de desenvolver a linguagem auto- reguladora.

Após cada discussão dos temas, cada jovem, fazia uma síntese gráfica da atividade, ilustrando a discussão. É importante esclarecer que os critérios artísticos não foram considerados para avaliação desta síntese gráfica, ou seja, foi dada prioridade à enunciação da atividade que o jovem realizou como síntese da discussão feita em grupo, e a manutenção da sua proposta de execução gráfica, em relação ao executado por ele. Assim, mesmo que o jovem tivesse feito um traço indefinido, mas, nomeado de acordo com a sua intenção inicial, este objetivo de ação auto-reguladora era alcançado.

Segundo MOLL (1991) O uso de expressões de elogio, formulação de perguntas conceituais e declaração de renúncias são estratégias que podem promover a participação ativa das pessoas em uma tarefa de ensino e a tomada gradual do papel regulador.

Durante os 15 encontros com os jovens, foi desenvolvido em cada um, uma temática diferenciada: Férias, Frutas, Música, Mel, Passarinho, Cachorro, Carnaval, APAE-Rural, Chuva, Rodeio, Índio, Alimentação Humana, Esporte, Energia Elétrica e Festa Junina. No decorrer destas discussões visualizamos um total de  20 formulações de perguntas conceituais, 38 declarações de renúncias e 10 expressões de elogio . A formulação de perguntas conceituais e elogios foram feitas em uma proporção menor que as renúncias. Diante destes dados supõem-se, que devido termos mudado a forma de desenvolvimento das atividades, colocando os jovens para levantar a temática que gostariam de discutir, as perguntas conceituais, com exceção do tema férias, inicialmente não apareceram. Acreditamos que esta ocorrência possa ter sido, pelo fato dos jovens a priore, não terem muito o que perguntar sobre a temática (férias) e sim a falar, pois estavam iniciando a atividade e queriam manifestar o que sabiam ou viveram. Esta foi a oportunidade que tiveram para mostrarem o que tinham aprendido. Posteriormente, a partir da temática Carnaval, estas expressões tornaram-se, um pouco mais freqüentes, e na temática Energia Elétrica onde houve o maior índice de perguntas conceituais, acreditamos que foi devido a este tema não ter sido muito bem compreendido pelos jovens - pois trouxeram informações divulgadas na TV e rádio sobre o “apagão” – ou pelas pessoas que o ajudaram na “pesquisa”. Os jovens  não sabiam como era o processo de gerar energia,  portanto, mesmo que tivessem feito uma “pesquisa” prévia, não conseguiram satisfazer as suas curiosidades, recorrendo assim, a perguntas conceituais durante todo o desenvolvimento da atividade.

A “pesquisa” de informações sobre a temática, estimulou os jovens a formular perguntas conceituais. Antes eles só faziam questões durante o desenvolvimento da atividade extra-curricular. Agora, a dinâmica foi transferida para outras situações e/ou quando buscavam informações em casa ou com algumas outras pessoas na comunidade. Desta forma,  estavam procurando satisfazer ampliar as suas informações e curiosidade no meio social e, quando chegavam para a atividade, queriam muito mais falar sobre as descobertas do que perguntar sobre o assunto que escolheram.

Para MOLL, (1991) “perguntas conceituais forçam a pessoa a funcionar no nível de planos e regras mentalmente representadas, promovendo um deslocamento simbólico do campo perceptivo imediato”. A formulação de perguntas conceituais é uma forma dos jovens participarem ativamente do diálogo que está sendo desenvolvido com o grupo e de ampliarem a estrutura de pensamento reflexivo.

Já em relação às expressões de elogios, considerando o total de discussões temáticas (15), apareceu em uma freqüência também pequena (10). Esta ocorrência deve-se provavelmente, ao fato dos elogios não serem muito usados no cotidiano destes jovens.

 

 “Geralmente, atribuímos uma série de qualidades negativas à pessoa portadora de deficiência e falamos muito sobre as dificuldades de seus desempenhos, por pouco conhecermos das suas particularidades positivas” (MONTEIRO,1998 :75).

 

Acreditamos, que muitas pessoas não param para pensar nas qualidades das pessoas portadoras de deficiência e, não se preocupam, em fazer um elogio quando elas mostram algo com entusiasmo, talvez por não julgarem que são capazes de desenvolver algo adequado. Este tipo de atitude faz com que a pessoa sinta-se incompetente. “Elogios e encorajamento transmitem à criança (e outras pessoas) um sentido prazeroso de competência efetiva e domínio sobre seu ambiente” (MOLL, 1996).

Em relação às declarações de renúncia, que apareceram em maior quantidade (38), vemos que nas primeiras atividades, até o tema Carnaval, houve uma maior freqüência, mas depois foram diminuindo.

Supomos que a renúncia ocorreu em maior quantidade em função dos jovens quererem realizar um determinado desenho e não terem habilidades necessárias ou sentirem-se incapazes para desenvolvê-lo sozinhos, “a pessoa com deficiência mental encontra na sociedade geralmente um ‘espelho’ que lhe dá uma imagem de insuficiência e incapacidade” (MEC, 1997). Pressupõe-se que há um sentimento de incapacidade pelos jovens, para a realização da atividade. Sendo assim, solicitavam ajuda às pessoas próximas.

Observamos ainda, que as declarações de renúncia ocorreram em dois momentos distintos, na discussão da temática e na realização da atividade gráfica. Neste primeiro momento devido, a nova proposta de terem que escolher uma temática para o encontro posterior e, os jovens não estarem acostumados, sentiam-se inibidos com este processo que para eles era inovador. Foi neste momento onde mais apareceram as renúncias, mas depois de algumas semanas, os jovens foram se acostumando com a nova dinâmica e, a renúncia foi diminuindo. No segundo momento da atividade, quando havia a solicitação de ajuda dos jovens, a ação das pesquisadoras consistia em demonstrar como realizar a tarefa, passando em seguida, para eles continuarem desenvolvendo segundo suas possibilidades. Ao receberem a ajuda das pesquisadoras, entendendo como participantes do seu processo de construção gráfica, os jovens sentiam-se motivados e capazes de fazer outros desenhos sozinhos. Isto evidencia o nível de desenvolvimento potencial onde a resolução de um problema é alcançada com a orientação de uma pessoa mais capaz (VYGOTSKY,1991a).

Quanto à adequação da atividade gráfica de acordo com a temática discutida, em 13 temáticas, esta síntese gráfica foi realizada por todos os jovens. Com estes dados, acreditamos que os jovens compreenderam o objetivo da atividade e conseguiram fazer uma relação da discussão da temática com sua ação.

Na temática, “Passarinho” todos os jovens não conseguiram realizar a atividade gráfica de acordo com a temática discutida. A outra temática onde um jovem não conseguiu realizar a atividade gráfica de acordo com a temática foi “Rodeio”. Observamos que, na primeira, o fato destes jovens não terem conseguido fazer a atividade gráfica de acordo com a temática, estava relacionado com o material utilizado, massa de modelar. Este material foi pouco utilizado e com a mudança de estruturação física de plano para tridimensional houve maior dificuldade na ação dos jovens. Um outro fator, que pode ter influenciado nesta dificuldade dos jovens,  talvez tenha sido, eles exigirem maior adequação das estruturas, por terem mais noção das formas; assim, tentavam reproduzir a sua idéia o mais próximo da imagem real do objeto, quando não conseguiam dar forma ao que desejavam, tomavam a iniciativa de fazer outra coisa. Isto ficou mais claro, quando perguntamos aos jovens o porquê de não terem feito algo relacionado com o tema trabalhado. Eles manifestaram ter dificuldade em modelar passarinho, ou algo relacionado. Já na temática “Rodeio” o jovem que não realizou a proposta segundo seu planejamento, também declarou que teve dificuldades de fazer um desenho relacionado ao assunto, dizendo que “não sabia fazer rodeio”. Então podemos dizer que os jovens conseguiram compreender a dinâmica da atividade, mas houve momentos em que, por falta de habilidades artísticas, não conseguiram adequar a atividade gráfica com a temática discutida.

Ainda nesta análise, podemos relatar que em 12 encontros, todos os jovens conseguiram executar a atividade gráfica segundo o planejamento verbalizado antes da ação. Isto nos indica a possibilidade de que estes jovens conseguiram fazer uso da linguagem auto-reguladora e conseguiram entender a dinâmica proposta, de adequar a atividade gráfica de acordo com a temática.  A atividade foi um suporte para que eles conseguissem fazer uso das funções psicológicas superiores, que VYGOTSKY (1991a) coloca como uma fase de evolução na vida humana, importante para a busca de sua autonomia.

Nas outras 3 temáticas onde os jovens não conseguiram realizar a atividade de acordo com o planejado, em duas, “Carnaval e Férias”, acreditamos que este fato aconteceu devido estes temas possibilitarem várias representações, o que poderia dificultar a escolha de uma única figura representativa. Por exemplo, na temática “Carnaval” falaram da festa de carnaval com fantasias, do feriado que possibilitou alguns jovens viajarem com a família etc. Com a temática “Passarinho” acreditamos que houve o mesmo, com a diferença de que esta temática, como já foi colocado anteriormente, foi trabalhada com massa de modelar, o que acreditamos ter dificultado ainda mais a adequação do planejado ao que foi realizado pelos jovens.

Um fato que nos chamou atenção foi que, os jovens não se  propuseram discutir sobre a profissionalização, mesmo estando em um programa de pré-profissionalização, este assunto não foi mencionado. Supomos que este fato ocorreu devido os jovens ainda se sentirem inseguros e/ou incapazes de exercerem uma profissão devido à sua deficiência. Como coloca a FENAPAEs, os PNEs geralmente são excluídos pela sociedade, principalmente quando se fala na inserção no mercado de trabalho. Esta exclusão dificulta o desenvolvimento da autonomia e responsabilidades e faz com que estes sintam-se incapacitados de desempenhar uma função que exija responsabilidade do mesmo.

O jovem J, foi o que mais mostrou interesse pelas temáticas levadas para pesquisar em casa. Este jovem, no início da atividade desenvolvida no ano anterior, não conseguia permanecer no mesmo assunto para conclui-lo, falava de várias coisas no decorrer das atividades, o que acabava fazendo com que ele fugisse do tema proposto. Diante deste fato, supomos que este jovem, está conseguindo fazer uso da linguagem auto-reguladora, o que pode estar favorecendo o desenvolvimento da sua autonomia. O aumento das relações interpessoais e o favorecimento do uso da linguagem oral do deficiente mental pode “(...) ter um efeito significativo sobre o desenvolvimento da auto-regulação (...)”, como afirma MOLL (1996), mostrando um aumento gradativo na responsabilidade e no controle do seu próprio comportamento. Neste processo o sujeito deve planejar sua ação antes de executá-la e consequentemente ir construindo sua autonomia, para conquistar melhor o seu espaço dentro da sociedade.

 

De acordo com a visão sócio–histórica de VYGOTSKY (1991b), é possível mesmo a pessoa com deficiência mental aumentar a sua capacidade reflexiva com o uso da linguagem auto–reguladora, promovida nas suas relações interpessoais.

Neste ano, durante os encontros, o jovem em questão conseguiu participar adequando a sua fala à temática discutida. O interessante foi que ele estava conseguindo transpor este aprendizado para outros ambientes. Pois, além do fato de estar no programa de pré-profissionalização, citado acima, constatamos também, que o jovem mostrou melhoras significativas em casa, conforme relatado por seu pai.

Percebemos também, que os outros três jovens (H,G,E), que participaram da atividade extra-curricular,  também estão conseguindo transpor seu aprendizado em outros ambientes. Ao observarmos os jovens no curso de horticultura, notamos que estes, participaram através de formulação de perguntas conceituais., instrumento utilizado com os jovens na casa da Cultura;

 

Jovem G - “Porque tem que fazer o canteiro? Observamos também que estavam conseguindo planejar a sua ação antes de executar.

 

Pesq. - O que você vai fazer H?

Jovem H -  fazer cantelo pra depois prantar aface.

 

Durante o Curso de Horticultura, houve uma palestra sobre a importância dos alimentos e os cuidados que tem que ter com os mesmos. Ao observarmos a participação dos alunos nesta palestra notamos que um dos jovens conseguiu fazer uma ligação entre o assunto discutido, com a atividade que participou na Casa da Cultura.

 

Palestrante - : O que devemos fazer com as frutas para podermos comê-las?

Jovem H -  tem que lavar tudinha, pra num ficar com verme e fazer ficar duente.

Palestrante:-  muito bem! Com quem você aprendeu isso?

Jovem H – Com ela (apontou para a pesquisadora) lá na casa da cutula.

 

Nota-se então que os jovens estão conseguindo aplicar em outro ambiente o conhecimento adquirido na Casa da Cultura, o que até este momento não era visível.

A ampliação da capacidade reflexiva deve ser vista como uma ação da pessoa em todas as suas inserções sociais, modificando as relações interpessoais e causando uma modificação no desenvolvimento da estrutura das funções superiores.

 

4.2 – Observações realizadas na APAE Rural

 

Após a oferta dos cursos de Horticultura e Jardinagem realizamos observações quinzenais das aulas teóricas e práticas dadas pelas professoras da APAE Rural. Elas foram feitas em dois dias seguidos, perfazendo um total de 8 observações. Nestas observações tivemos como objetivo ver a participação dos jovens que freqüentavam a Casa da Cultura e também se as professoras faziam uma retomada dos conteúdos trabalhados nos cursos e se havia uma ligação entre a aula prática e a aula teórica. Para isto foram feitos registros cursivos.

No decorrer das observações notamos que as professoras sempre iniciavam a aula teórica passando um cabeçalho no quadro e pediam para que os alunos copiassem. Geralmente, enquanto não acabavam de copiá-lo ela não passava outra atividade. Como alguns jovens têm grande dificuldade de copiar, demoravam muito a concluir, em 2 das aulas que assistimos os alunos fizeram apenas esta atividade, pois, quando terminavam de copiar já havia terminado o horário (100 minutos), e mesmo os alunos que terminavam antes ficavam sem fazer outra atividade, pois, a professora esperava que todos terminassem para passar adiante.

Diante deste fato, questionamos a importância desta atividade: Será que compensa insistir tanto em apenas uma atividade? Os alunos vêem um sentido nesta ação, ou fazem apenas uma cópia devido a ordem da professora? A nosso ver seria mais interessante realizar outras atividades que despertassem o interesse e possibilitasse uma maior participação dos alunos. De acordo com MONTEIRO (1991), Vygotsky sugere atividades que tenham sentido para a vida do aluno, relacionados a jogos, ao trabalho, ao desejo, enfim, ao ato de aprender e de ensinar com significado e sentido. Acreditamos que apenas copiar cabeçalho não desperta o interesse por parte dos alunos, estes fazem apenas uma cópia mecânica do mesmo sem refletir sobre o que estão fazendo. Esta situação não contribui para a sua reflexão mais crítica.

Percebemos também, que a maioria das atividades propostas em sala não dava oportunidade de todos jovens participarem. Geralmente as professoras propunham tarefas para serem realizadas individualmente (completar palavras, recortar letras de revistas e formar palavras sugeridas por ela, colorir desenhos etc.) Não havia uma discussão sobre a atividade, só a proposição da tarefa o que tornava inviável a participação do grupo. Percebemos que havia uma certa descrença, por parte das professoras no que dizia respeito ao desenvolvimento e aprendizado dos jovens. Não havia uma preocupação em dar oportunidades para os alunos expressarem sua opinião. Romper com o mito de que a pessoa portadora de deficiência mental é incapaz de realizar qualquer atividade sozinha, parece a grande tarefa a ser assumida pela escola, pais e comunidade.

 

“Ao deficiente raramente é dada a apalavra e suas reações, na maioria das vezes são entendidas circunscritas ao seu quadro de anormalidade, o que nos fecha a possibilidade de perceber comportamentos significativos que superem tais limites. De uma certa forma ampliam se os recursos, mudam-se as estratégias e os métodos, mas não muda a forma como nos relacionamos com esse grupo de indivíduos, pois, nós determinamos e eles obedecem, numa relação de absoluta desigualdade (TOMASINI, 1996: 130).

 

Nas aulas que observamos não teve uma retomada dos conteúdos trabalhados nos cursos de horticultura e jardinagem, as aulas teóricas eram totalmente desvinculadas da prática. Em momento algum de nossas observações, vimos as professoras fazerem uma ligação entre o que os jovens fizeram ou iriam fazer na aula prática com o conteúdo que estavam estudando em sala de aula. As aulas práticas constavam de atividades relacionadas a horticultura e jardinagem ( fazer canteiros, fazer mudas, plantar, regar, retirar ervas daninhas etc.) mas não havia um cronograma de ações seqüenciais. Isto ocasionava uma tarefa mecânica dos alunos sem o acompanhamento dos professores. Das atividades práticas que acompanhamos, apenas uma vez, uma das professoras acompanhou a atividade. Nesta oportunidade foi possível notar uma participação diferenciada do jovem J que participava da atividades extra-curriculares. Este fez várias perguntas conceituais no decorrer da atividade:

Jovem J – porque tem que lavar e cortar a muda de cebola antes de plantar?

Profª - tem que lavar porque as mudas estão com pulgão e tem que cortar para plantar.

Jovem J – Se não cortar o que acontece?

Profª - Ela morre

 

Foi possível notar também, uma participação diferenciada dos outros três jovens, que participavam na atividade extra-curricular em duas atividades que observamos. Estes, tiveram iniciativa própria e começaram o “trabalho prático” antes da professora propor a tarefa, enquanto os outros ficaram esperando a iniciativa da mesma.

Percebemos então que os jovens estão conseguindo transpor a dinâmica do pensamento reflexivo que aprenderam na Casa da Cultura, apesar das ações utilizadas nas aulas práticas e teóricas não contribuírem para a participação dos jovens. A formação que está sendo oferecida para estes jovens deve ser repensada, apesar de um grande interesse e vontade, por parte dos profissionais em colaborar para a inclusão dos jovens no mercado de trabalho, deve-se ter o cuidado de não proporcionar uma formação apenas mecânica.

“ Acreditamos que o trabalho é um instrumento de integração do indivíduo portador de deficiência na sociedade, mas a forma como se desenvolve o processo de preparação há que ser re-discutida, sob pena de estarmos, apenas, oferecendo ao sistema capitalista uma ‘peça’ a mais para suas engrenagens” (TOMASINI, 1996: 129).

 

Proporcionar apenas uma formação descontextualizada, visando unicamente aquisição de habilidades para a execução de determinada tarefa, elimina a possibilidade de uma formação integral deste indivíduo. Para o resgate da cidadania da pessoa portadora de necessidades especiais o incentivo a participação engajada deve ser incluída na proposta pedagógica das instituições que desenvolvem esta capacitação tanto das habilidades acadêmicas formais, quanto da formação profissionalizante.

 

5 - CONCLUSÃO

 

O desenvolvimento desta pesquisa indicou, que a mudança na dinâmica da atividade extra-curricular, na qual os jovens tinham que escolher a temática que seria discutida e, pesquisar sobre o tema proposto, antes de iniciar a discussão, foi importante, pois proporcionou aos jovens trabalhar mais a linguagem oral e, aumentar, a possibilidade de participação na família e na educação formal. Esta dinâmica de “pesquisa” sobre o tema do próximo encontro favoreceu o  contato com outras pessoas, ao mesmo tempo em que obtiveram as informações. Ao exporem para o grupo as informações coletadas, os jovens, primeiro tinham que fazer um exercício de organização das idéias que iam expor ao grupo, exingindo deles um planejamento da linguagem auto-reguladora e   aprimoramento das funções psicológicas superiores.

Durante as observações no curso pré-profissionalizante, de todos os jovens acompanhados na atividade extra-curricular, pudemos constatar na sua participação a formulação de perguntas conceituais, planejamento da ação e atenção no assunto discutido, indicando uma maior autonomia dos jovens. Esta característica foi percebida também pelos seus familiares em relatos espontâneos às pesquisadoras, onde eles notaram um desenvolvimento da linguagem dos jovens, enfatizando a coerência de idéias, a seqüência na fala e a espera para falar e ouvir.

A atividade extra-curricular desenvolvida, foi importante para facilitar, que os jovens portadores de deficiência mental conseguissem ter uma participação significativa em outros ambientes como na família e no curso de pré-profissionalização da APAE Rural. Todavia, para um melhor aproveitamento desta capacidade apresentada pelos jovens, a forma de condução didática  e os conteúdos trabalhados no oferecimento do curso deveriam ser revistos.

Entendemos, que a inserção social dos portadores de necessidades educativas especiais necessita de várias ações conjugadas. A dinâmica das discussões temáticas mostrou-se capaz de favorecer a linguagem auto-reguladora e promover uma autonomia reflexiva e efetiva. O uso desta prática nas ações educativas escolares e em outros locais poderá ser uma estratégia de ampliação de espaços sociais, visando um planejamento de ações integradas: família-escola para a inclusão destas pessoas, e facilitando uma inserção profissional, como uma das formas mais valorizadas socialmente como reveladoras de competência e autonomia.  

 

6 - REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

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VYGOTSKY, L.S. (1991a) A formação social da mente. São Paulo: Martins Fontes.



1 Profª. Depto. de Educação UFV – MS Psicologia da Educação

2 Bolsista PIBIC/CNPq – Graduanda de Pedagogia UFV

3 Estagiária de pesquisa - Graduanda de Pedagogia UFV