A Educação Especial no Pensamento de Paulo Freire
Ao propormos este tema – A Educação Especial no Pensamento de Paulo Freire, partimos primeiramente do nosso interesse pessoal por tal assunto, uma vez que atuo na área da Educação Especial.
Além disso, está o fato também, de percebermos, em nossas leituras, uma
estreita relação entre a situação dos portadores de deficiência e os escritos
de Paulo Freire.
Procuramos em nosso trabalho situar a Educação Especial e mais
especificamente os portadores de deficiência dentro do pensamento de Paulo
Freire, utilizando para tal, algumas categorias por ele trabalhadas em suas
obras.
O presente trabalho é uma reflexão a respeito da visão que a sociedade historicamente tem construído acerca das pessoas deficientes, focalizando as incapacidades e não as potencialidades destas pessoas. Contrapondo-se a esta visão, este trabalho procura analisar o paradigma inclusivo à luz do pensamento de Paulo Freire. Elegendo como eixo a diversidade humana e numa perspectiva inclusiva, este trabalho demonstra que a diversidade deve ser a base da organização e estruturação de todo o sistema educacional.
Este trabalho é fruto de uma pesquisa bibliográfica sobre algumas obras de Paulo Freire. São elas: Pedagogia do oprimido, Pedagogia da esperança, Pedagogia da autonomia, Educação e mudança e Política e educação.
É um trabalho teórico-reflexivo sobre a Educação Especial, no pensamento de Paulo Freire, tendo como enfoque a posição do portador de deficiência na sociedade e na escola, dentro de algumas categorias por ele trabalhadas nessas obras citadas.
As categorias escolhidas para situar o deficiente foram: comunhão – “ninguém educa ninguém, mas
devemos buscar com outros seres que também procuram ser mais e em comunhão com
outras consciências” Freire (1981:18); diálogo
–“o homem não é uma ilha. É comunicação. Logo, há uma estreita relação entre
comunhão e busca. Não há diálogo se não há uma intensa fé nos homens. Fé no seu
poder de fazer e de refazer. De criar e recriar. Fé na sua vocação de ser mais,
que não é privilégio de alguns eleitos, mas direito dos homens” Freire (1981:20);
historicidade – “somente quando o homem entender com consciência a sua
temporalidade, é que ele chegará também ao entendimento de sua historicidade,
ou seja, o homem vai se perceber como sujeito social nos processos de mudanças”
Freire (1979:35) ; oprimido – “o
homem deve ser o sujeito de sua própria educação. Não pode ser objeto dela. A
prática da liberdade só encontrará adequada expressão numa pedagogia em que o
oprimido tenha condições de, reflexivamente, descobrir-se e conquistar-se como
sujeito de sua própria destinação histórica” Freire (1966:23) e inconclusão – “o homem se sabe inacabado
e por isso se educa. Não haveria educação se o homem fosse um ser acabado. É um
ser na busca constante de ser mais” Freire (1981:17).
Como podemos perceber, o papel do
homem, no pensamento e na obra de Paulo
Freire, é o de sujeito do processo histórico. Isso porque, para ele, o homem
não nasceu para ser objeto.
De acordo com seu pensamento,
essa situação de dominação e opressão em que os homens se encontram é fruto de
uma cultura tecida na trama da dominação em certas sociedades.
São sociedades governadas por
interesses de grupos e classes dominantes que acabam por conduzir à dominação
de consciências.
É no sentido oposto a este que
encontramos o pensamento e obra de Paulo Freire, onde ele procura uma nova
pedagogia, calcada na vida e cultura do proletariado, como forma de libertação.
Por isso, em sua proposta
educativa, Paulo Freire não ensina a repetir palavras, mas faz com que o
educando tenha condições de poder re-existenciar criticamente as palavras de
seu mundo, sendo levado dessa forma a criar
a consciência de si mesmo e de seu papel transformador no mundo em que
vive.
Nessa perspectiva do pensamento
de Paulo Freire, é que pretendemos situar,
dentro da Educação Especial, o grupo dos portadores de deficiência, como
um grupo de pessoas oprimidas, dominadas e, conseqüentemente, um grupo excluído
dos processos sócio-históricos e educacionais.
O portador de deficiência na
História da Humanidade, nunca foi visto, nem tratado como sujeito de sua
própria história, que dirá como sujeito da História dos Homens.
Nesse sentido, o pensamento de
Freire é bem claro, sem que para tal, tivesse escrito. Isto não se fez
necessário na sua obra simplesmente, porque a exclusão não faz parte de seu
pensamento, uma vez que ele concebia a educação como um processo permanente, no
qual estamos nos educando continuamente. Dessa maneira, não é válido para Paulo
Freire, falar de educados e não educados.
Os portadores de deficiência
situam-se na categoria dos oprimidos, uma vez que a dominação e o exercício de
poder se dão pelo que poucos acham e não pelo que a maioria aspira.
Paulo Freire propõe uma
Pedagogia fundada na ética, no respeito à dignidade e à própria autonomia do
educando.
De acordo com as palavras de
Gadotti (1983:10):
A mudança de uma sociedade
de oprimidos para uma sociedade de iguais e o papel da educação – da
conscientização – nesse processo de mudança é a preocupação básica da pedagogia
de Paulo Freire.
Como vemos, então, a questão da luta dos portadores de deficiência por seu reconhecimento e lugar na sociedade, passa, sutilmente, pela obra de Freire, sem que isto esteja expresso, porque como já dissemos, isto não se faz necessário.
Como falar em mudança de sociedade de oprimidos para uma sociedade de iguais se esquecemos de tantos grupos de pessoas que estão alijados em nosso meio? Entre eles destaco os portadores de deficiência que são, dentro dessa categoria, talvez os mais segregados, pois são colocados em ambientes restritivos e excluídos do convívio com os demais, o que os leva a um profundo isolamento.
O projeto de sociedade da modernidade não aceita o diferente, então criou-se o conceito de anormalidade, ou seja, aquele que “desvia”, “foge” dos padrões de normalidade.
Tal pensamento é muito claro nas palavras de Marques (2001), quando diz que:
A
necessidade de se trabalhar o desvio não se justifica, todavia, pela simples
constatação do anormal. Justifica-se, sim, pela necessidade de se tornar
hegemônico o modelo ideologicamente estabelecido como normal.
Essa é uma estratégia de dominação. E Paulo Freire é também muito claro com relação à dominação de uns sobre os outros.
Em seu pensamento, quando trabalha o conceito de inconclusão do ser humano, ele resgata a humanidade do homem, referindo-se ao ser humano, inclusive ao portador de deficiência como um ser inacabado, pois se somos, segundo ele, todos seres humanos em evolução e em constante busca da transformação, os portadores de deficiência neste momento, encontram o maior respaldo na sua obra e pensamento.
Ora, se tudo está por ser concluído, está em processo de mudança, numa busca constante, então, por quê seria diferente com o portador de deficiência?
Percebo que na sua obra- A Pedagogia do Oprimido, Paulo Freire pensou em fazê-la com o oprimido e não para ele, ou seja, o projeto de democratização da escola e da sociedade, deve ser feito por todos os interessados, e não apenas por um grupo – elite - que está no poder.
Daí a importância da inserção dos grupos minoritários nas decisões da sociedade como um todo, porque a sua visão de mundo só será respeitada e entendida num contexto sócio-histórico mais amplo. É nesse sentido que encontramos também a categoria da comunhão, que está em sua obra Pedagogia do Oprimido , escrita por Freire (1981:18): “ Ninguém educa ninguém, como tampouco ninguém se educa a si mesmo: os homens se educam em comunhão, mediatizados pelo mundo”, o que vem dar suporte, mais uma vez, à questão da deficiência. Portanto, não é possível pensarmos mais em duas educações: a dos “ditos normais” e a dos “deficientes” ou “desviantes”.
O que podemos abstrair do pensamento de Paulo Freire, é que não se trata de criar uma pedagogia para o oprimido, mas sim de incorporá-la à sua visão de mundo, criando, com ele, e dessa forma libertando a todos – opressores e oprimidos – em busca de uma escola e sociedade mais justas, onde a diversidade e a pluralidade sejam uma realidade cada vez mais constante e o pensamento absolutizante, fundador do padrão de normalidade, que acaba por levar à exclusão, seja apenas uma exceção e não mais regra como ainda vemos.
Impõe-se, então, a
necessidade de se repensar toda a prática social e educacional com os
portadores de deficiência. Porque, o que a escola e a sociedade têm feito com
eles, é uma cruel manipulação de direitos e de segregação.
Parece-nos que este modelo dos movimentos sociais vêm sendo reproduzidos
pela ideologia dominante, quando se trata dos portadores de deficiência e de
tantos outros grupos de pessoas que foram excluídos da sociedade.
A responsabilidade por estar inserido nos
processos sócio-históricos e educacionais recai sempre no portador de
deficiência, ou seja, é ele quem tem que fazer o movimento de inserção, é ele
que deve adaptar-se.
Enquanto isso, nós que somos a sociedade, ficamos como meros
espectadores do seu sucesso ou fracasso.
No caso
do sucesso, a sociedade os reconhece por seus esforços e méritos na conquista
de seus limites. Mas, no caso do fracasso, tais pessoas estariam condenadas à
segregação social, devendo portanto, viver sob os cuidados das famílias e/ou
entregues às instituições especializadas ( escolas especiais, internatos,
clínicas, etc).
Segundo
Freire (1983:37), as massas querem participar mais na sociedade. As elites acham que isso é um absurdo e criam
instituições de assistência social para domesticá-las. Não prestam serviços,
atuam paternalísticamente, o que é uma forma de colonialismo. Procura-se
tratá-las como crianças para que continuem sendo crianças.
Hoje, a inclusão – novo paradigma
social e educacional, defende uma sociedade mais justa e mais democrática,
livre das práticas discriminatórias e segregacionistas que marcaram
negativamente a história da humanidade.
O pano
de fundo de tal paradigma é a diversidade e não mais o universal.
Nas
palavras de Silva (2000:44), citado em Marques (2001:67):
No
contexto da chamada “política de identidade”, o termo está associado ao
movimento do multiculturalismo. Nessa perspectiva, considera-se que a sociedade
contemporânea é caracterizada por sua diversidade cultural, isto é, pela
coexistência de diferentes e variadas formas (étnicas, raciais, de gênero,
sexuais) de manifestação da existência humana, as quais não podem ser
hierarquizadas por nenhum critério absoluto ou essencial.
Portanto, ser diferente não significa mais ser “anormal”, significa ser
apenas diferente.
E Paulo
Freire, há muito tempo nos fala que uma sociedade justa dá oportunidade às
massas para que tenham opções e não a opção que a elite tem, mas a própria
opção das massas. A consciência criadora e comunicativa é democrática.
Nas
palavras de Sassaki (1997:16), a sociedade, em todas as culturas, atravessou
diversas fases no que se refere às práticas sociais. Ela começou praticando a
exclusão social de pessoas que – por causa das condições atípicas – não lhe
pareciam pertencer à maioria da população. Em seguida, desenvolveu o
atendimento segregado dentro de instituições, passou para a prática da
integração social e, recentemente, adotou a filosofia da inclusão social para
modificar os sistemas sociais gerais.
Concordo com Marques (2001:225) quando fala que optar pelo paradigma da
inclusão neste novo cenário mundial significa assumir politicamente uma posição
perante a vida.
Posição
esta que reconheça de fato, a cidadania e os direitos de todos, não apenas dos
portadores de deficiência, mas dos pobres, dos velhos, das mulheres, das
crianças, dos negros, dos índios e de tantos outros que vivem na exclusão em
nossa sociedade.
Nessa
perspectiva, a educação, implica uma busca realizada por um sujeito que é o
homem. O homem, de acordo com Freire (1979), “deve ser sujeito de sua própria
educação. Não pode ser o objeto dela. Por isso, ninguém educa ninguém. Mas
devemos buscar com outros seres que também procuram ser mais e em comunhão com
outras consciências”.
Dessa
forma, então a educação assume uma dimensão muito grande e importante. Vimos
que a escola através dos tempos tem se constituído como um
importante aparelho reprodutor dos valores e aspirações da
sociedade, sob a sua aparente posição neutral.
Segundo Luckesi (1983:11) o fato é
que ninguém ausenta-se do mundo dos valores. Eles tanto marcam a vida de um
povo em geral quanto a vida dos indivíduos em particular. Todos nós vivemos a
serviço de determinados valores, com maior ou com menor consciência da
situação.
Todos
vivemos, então, sob a égide de
determinados valores, porém o que nos diferencia é que uns sabem para onde
querem ir ( os conscientes), outros são levados para não sabem onde ( os
“inocentes”) e outros enganam-se sobre o fim para o qual caminham ( os
inconscientes).
Vivemos
em uma época marcada por forte contradições, de um lado ainda existe a luta
desenfreada pelo capital, pela estética perfeita, pelas novas tecnologias de
ponta e pelo conhecimento que leva ao poder.
Do
outro lado está o homem, procurando resgatar-se a si próprio, tentando
encontrar novamente a sua humanização que parece ter ficado perdida nesse
processo.
Hoje
vemos as pessoas novamente voltando a falar em valores do ser humano, como a
ética, a solidariedade e o diálogo.
Mas
esse ainda é um movimento de poucos, que precisa ser mais difundido para que
novas concepções possam emergir na nossa sociedade.
A nossa
prática educacional é reprodutivista, por isso a reflexão e a revisão
permanentes de nossa prática são de vital importância se quisermos considerar a
diversidade humana de fato dentro das nossas escolas.
Quando
falamos em diversidade humana estamos nos referindo aos portadores de
deficiência, aos pobres, aos velhos, às mulheres, às crianças, aos negros, aos
índios, aos presidiários, aos homossexuais, aos seguidores de determinadas
religiões e a tantos outros grupos de pessoas que vivenciam a exclusão na nossa
sociedade e, conseqüentemente, na nossa escola.
De
acordo com Sant’Anna (1988:95) se ao ingressar na escola, o aluno reúne as
pré-condições necessárias, poderá delas tirar proveito; caso contrário,
esbarrará provavelmente, nos caminhos que levam ao estigma, à consolidação de
uma auto-imagem comprometida e à marginalidade.
Concordo com Freire (1983:35-6) quando diz que:
Pensar a
História como possibilidade é reconhecer a educação também como possibilidade.
É reconhecer que se ela, a educação não pode tudo, pode alguma coisa. Uma de
nossas tarefas, como educadores e educadoras é descobrir o que historicamente
pode ser feito no sentido de contribuir para a transformação do mundo, de que
resulte um mundo mais “redondo”, menos arestoso, mais humano, e em que se
prepare a materialização da grande Utopia: Unidade na Diversidade.
Em sua
fala vemos que o todo é único. O que nos remete à relação dialética: o todo só
é em função das partes e as partes só se justificam com a relação com o todo.
Daí o
problema de quando isolamos o deficiente – quebra-se a relação dialética e
cria-se o discurso preconceituoso que leva à exclusão.
De
acordo com Nóvoa (2001), todo professor deve ver a escola não somente como o
lugar onde ele ensina, mas onde aprende.
A
diversidade proporciona não só ao professor, mas também aos alunos esse
aprendizado participativo, cooperativo. Todas as pessoas devem ser respeitadas,
não importando as diferenças que possuem.
A
escola precisa constituir-se nesse espaço de troca, de interação dos seres
humanos, num local onde a comunhão de que Paulo Freire fala seja uma
experiência viva e não apenas uma posição teórica de alguns.
Paulo
Freire (1978), analisando e admitindo que a educação não é neutra e está
constituída a serviço do modelo da sociedade dentro da qual está inserida, nunca
negou a possibilidade de um trabalho para a transformação na intimidade do
próprio sistema.
A
educação institucionalizada surgiu para servir ao sistema, temos clareza quanto
a isto, mas ainda assim, sabemos ser possível a realização de atividades
conscientes que ultrapassam o “estar a serviço da reprodução”, como diz Luckesi
(1983).
Para
que isto de fato ocorra, acreditamos ser de suma importância a questão da
formação de professores, para trabalhar com a diversidade, com uma prática que
não esteja a serviço da ideologia dominante, que inevitavelmente leva à
dominação e à opressão.
A luta
pela valorização da diversidade está consubstanciada hoje no movimento de
inclusão, que tem como princípios: a celebração das diferenças, direito de
pertencer, valorização da diversidade humana, solidariedade humanitária, igual
importância das minorias e cidadania com qualidade de vida. E que visa, dessa
forma, então, restituir verdadeiramente os direitos de todos aqueles que por
qualquer motivo encontram-se alijados dos processos sócio-educacionais.
Concordo com Werneck (1999), quando diz que na sociedade inclusiva
ninguém vai precisar ser bonzinho, simplesmente porque todos terão os seus
direitos, isto se quisermos de fato caminhar para uma sociedade justa e
democrática.
É
impossível pensar, pois, na superação da opressão, das discriminação, da
passividade sem uma compreensão crítica da história e sem projetos de natureza
político-pedagógica no sentido da transformação ou da re-invenção do mundo.
Como
disse Paulo Freire ( 1993:32):
Tudo isso
é fundamental no sentido de superação das ideologias discriminatórias, de modo
a que possamos viver a Utopia: não mais discriminação, não mais rebelião ou
adaptação, mas Unidade na Diversidade.
Nóvoa
(2001:13) diz que “precisamos reconhecer que há muitos dilemas para os quais as
respostas do passado já não servem e as do presente ainda não existem”.
Portanto, acreditamos que a questão da escola e diversidade, passam
fundamentalmente por uma nova postura do professor, que precisa reinventar um
sentido para a escola, tanto do ponto de vista ético quanto cultural.
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[1] Mestranda em Educação pelo Centro de Ensino Superior de Juiz de Fora e Professora da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Juiz de Fora