DESVELANDO
OS SENTIDOS DO PROCESSO DE INCLUSÃO
Fernanda
Miranda Cardoso[1]
Heloísa Helena
Rodrigues Valle[2]
Leonardo Gomes
Panza[3]
Luciana Pacheco
Marques[4]
Mylene Cristina
Santiago[5]
Silvana Sousa
de Mello[6]
Entendida como
um fenômeno historicamente construído, a cultura constitui a expressão máxima
de um povo - se tomada do ponto de vista do seu regionalismo - ou da própria
humanidade - se vista sob o prisma das manifestações de domínio planetário.
Nas palavras de
Rezende (1978, p. 163), os valores e o sentido das coisas resultam da trama de
relações que caracteriza a cultura como a manifestação maior da existência
humana. Diz ele que “na cultura, como num discurso historicamente estruturado,
aparece ou se esconde o sentido da existência tal como os seres humanos o estão
vivendo num determinado contexto histórico de mundo”.
Dependendo do
ângulo que se aborde uma determinada questão, o fator cultural assume um
caráter estratégico em sua compreensão. Daí a importância e a necessidade de se
entender a própria existência humana como o conjunto maior das manifestações
éticas, estéticas, artísticas, econômicas, sociais e políticas, dentre outras,
o que constitui, de fato, a cultura em seu sentido pleno.
Também a forma
como a sociedade trata seus membros desviantes pode ser analisada como um dado
cultural, uma vez que é na trama das relações sociais que se manifestam as mais
diversas formas de discriminação, controle e opressão em relação àqueles
indivíduos considerados anormais. No contexto social é que ocorre a rejeição
e/ou a aceitação das pessoas que se apresentam como "diferentes" ou
"indesejáveis". Segundo Silva (1988, p. 10), as atitudes
empreendidas, no sentido de se minimizar a problemática vivida pelos grupos
socialmente menos favorecidos, representam um critério de avaliação do nível de
desenvolvimento e de maturidade cultural de um povo. Diz ele que “mede-se o
nível de desenvolvimento e o grau de cultura de um povo pelo tipo e pela
quantidade de preocupação que demonstra para com os seus grupos minoritários e
marginalizados, ou para com os pobres”.
No caso
específico das pessoas com deficiência, Fonseca (1995) segue a mesma linha de
raciocínio. Para ele, a diversidade de tratamentos observada entre as várias
sociedades decorre justamente da relatividade cultural. Nesse sentido, os povos
culturalmente mais desenvolvidos seriam aqueles que demonstram uma maior
preocupação para com as pessoas com deficiência.
A dificuldade
enfrentada por tais pessoas no dia-a-dia decorre basicamente da dificuldade que
as pessoas sem deficiência têm para lidar com a diferença do outro. Segundo
Marques (1994, p. 33) "Numa cultura onde a absolutização do desempenho, do
belo e dos valores morais se constitui num fato concreto, a diferença
representa um distanciamento dos padrões de normalidade estabelecidos”.
Ao se
veicularem como absolutos tais valores, atrela-se ao conceito de normal a noção
de adaptação. Tendenciosamente difunde-se a idéia de que o indivíduo
considerado desviante é necessariamente um inadaptado. Isso decorre, em grande
parte, do fato de se conceber o desvio a partir do referencial biológico. Ao
evidenciar as características orgânicas do indivíduo, fica estabelecida uma
margem de manipulação em relação ao aspecto social, sobre o qual recai, por
conseguinte, uma dose maior de subjetividade e de arbitrariedade.
Ao se conceber
a adaptação como o corolário das relações recíprocas entre o indivíduo e o
meio, necessita-se destacar que o ser humano coexiste em dois tipos de meios
simultâneos e estreitamente influenciáveis e interdependentes: o geofísico e o
social. No meio geofísico, o indivíduo relaciona-se em termos de assimilação e
acomodação sensório-perceptivo-motora, ou seja, no plano das relações com os
objetos concretos da realidade. Já no meio social, a relação indivíduo/meio
passa pela apropriação sócio-histórica da linguagem própria da espécie humana e
concretiza-se em termos de assimilação e acomodação simbólica, o que implica os
processos de recepção, integração e expressão do universo simbólico. No
entendimento de Mead, apud Barros
(1990), o inadaptado é aquele cujo temperamento não se ajusta aos modelos e
padrões culturais de uma dada sociedade.
Cumpre
ressaltar, todavia, que os parâmetros sociais de adaptação geralmente são
fixados em função de critérios particulares de rendimento e eficácia, o que os
tornam sujeitos às circunstâncias espaciais e temporais de sua elaboração e
vigência.
Nessa
perspectiva, Velho (1985) afirma que o desvio é criado pela sociedade na medida
em que esta estabelece regras cuja infração constitui desvio e que, ao serem
aplicadas às pessoas e grupos particulares, marca-os como desviantes.
Reforçando a
tese da relatividade cultural como fator determinante do tratamento dispensado
às pessoas com deficiência, Omote (1990, p. 11) também remete a origem do
estigma e do preconceito à trama de relações sociais. Nas suas palavras,
não é algum atributo ou comportamento que
tem inerente nele esse caráter algo especial. Depende de como esse atributo ou
comportamento é interpretado pelo grupo social. Em função dessa interpretação é
que um atributo ou um comportamento adquire o sentido de desvio ou de
deficiência.
Essa maneira de
se entender o fenômeno da rotulação das pessoas com deficiência como anormais e
sua conseqüente marginalização social caracteriza também o pensamento de Becker
(1977, p. 60). Para esse autor, “os grupos sociais criam o desvio ao fazer as
regras cuja infração constitui desvio e ao aplicar essas regras a pessoas
particulares e rotulá-las como marginais e desviantes”.
A opressão
moral a que estão comumente submetidas as pessoas com deficiência retrata a
forte dominação dos considerados não desviantes sobre os considerados
desviantes. Rezende (1978, p. 170) ressalta que, de modo geral, a dominação se
dá, principalmente, com a imposição de valores dos dominantes sobre os
dominados: “A dominação de um grupo por outros tem, como uma de suas
manifestações mais significativas, a manipulação do sentido através dos
diversos instrumentos criados pela própria situação de dominação”.
Cumpre
ressaltar, no entanto, que essa dominação se faz tanto mais eficiente na medida
em que consegue atingir o pensamento e a linguagem das pessoas, ou seja, torna
o discurso do dominado o discurso do dominante. Isso representa, segundo
Servan, apud Foucault (1989, p.93), a
mais poderosa de todas as dominações; mais forte, inclusive, do que qualquer
dominação feita através da força física. Nas suas palavras,
Quando
tiverdes conseguido formar assim a cadeia das idéias na cabeça de vossos
cidadãos, podereis então vos gabar de conduzi-los e de ser seus senhores. Um
déspota imbecil pode coagir escravos com correntes de ferro; mas um verdadeiro
político os amarra bem mais fortemente com a corrente de suas próprias idéias;
é no plano fixo da razão que ele ata a primeira ponta; laço tanto mais forte
quanto ignoramos sua tecitura e pensamos que é obra nossa; o desespero e o
tempo roem os laços de ferro e de aço, mas são impotentes contra a união
habitual das idéias, apenas conseguem estreitá-la ainda mais; e sobre as fibras
moles do cérebro, funda-se a base inabalável dos mais 'sólidos impérios`.
Mais do que
incorporar como normais certos fatos à sua rotina de vida, os grupos e os povos
dominados incorporam idéias, as quais passam a compor o conjunto das peças da mais
eficiente engrenagem social: a condição de resignação e de passividade dos
dominados em relação aos valores dos dominantes.
Historicamente
está demonstrado que as colonizações mais bem sucedidas foram aquelas que se
fizeram através de mudanças nos hábitos e nos costumes dos povos colonizados.
Nesse sentido, a ação exercida pelos colonizadores esteve sempre fundada nos
mesmos valores que caracterizam a dominação existente entre as pessoas e/ou
grupos numa mesma sociedade.
Segundo Garaudy
(1988), a marginalização social e cultural constitui um problema afeto não só à
cultura de um determinado povo, estando, presente também na relação entre as
nações. O autor cita, como exemplo, o caso da expansão imperialista que apagou
valores e costumes, sempre nutrida de "justificações morais", em nome
da chamada "missão civilizadora". Em função da difusão das luzes da
fé, o que se promoveu foi a imersão dos povos nas trevas da escravatura.
Este
entendimento é reforçado por Rezende (1978, p. 165):
É
verdade que a própria noção de cultura, no contexto do colonialismo, acha-se,
de uma forma ou de outra, na dependência de uma concepção evolucionista da
cultura, dentro da qual os povos colonizados eram necessariamente considerados
como subdesenvolvidos, bárbaros ou primitivos, incapazes de decidir a respeito
de suas próprias vidas.
Tanto
para o colonialismo do passado como para as diversas formas de
neo-colonialismo, o que ocorre é a imposição de uma certa imagem do homem e do
mundo, sendo que os colonizados não são propriamente consultados sobre os
sentidos ali veiculados, devendo, entretanto, a eles conformar-se.
Os principais
agentes do processo de colonização sempre foram os mercadores, os missionários
e os militares - estes últimos encarregados do domínio pela força, mas com
grande influência também na transmissão de valores e costumes. As ações dos
colonizadores, de modo geral, desrespeitaram as culturas autóctones assim como
os próprios povos, não os considerando soberanos e civilizados.
Esse
imperialismo cultural tem, na opinião de Garaudy (1988), como determinantes, os
imperialismos econômico e político. Segundo esse autor, são esses fatores que
definem, em última instância, o que serve e o que não serve, o que pode e o que
não pode para os povos dominados.
Desse modo,
produzindo e veiculando valores, torna-se mais eficiente o controle ideológico
exercido pela classe dominante sobre os demais segmentos da sociedade. Dentre
as estratégias utilizadas para esse fim, está a alimentação da confusão
existente entre os conceitos de normal e comum.
Carmo (1988)
chama a atenção para a forma como são empregados, no senso comum, os conceitos
de normalidade e anormalidade. Para ele, poucas são as pessoas que têm clareza
dos limites do que é normal ou anormal, numa mesma cultura ou em culturas
diferentes. Da mesma forma, as pessoas têm dificuldades para distinguir o que é
normal do que é comum. Isso obscurece e distorce o sentido da natureza humana,
uma vez que o comum, numa determinada região ou época, não é necessariamente o
inerente à espécie humana, como são os casos da miséria, da fome, dentre
outros.
O poder
exercido sobre o dado da deficiência passa pelo estabelecimento de critérios de
normalidade e de anormalidade, o que representa, em termos práticos, o
estabelecimento de valores construídos histórica e culturalmente por uma dada
sociedade: o bom e o ruim, o desejável e o indesejável.
O tratamento
dispensado às pessoas com deficiência põe em evidência o aspecto moral presente
em todas as manifestações humanas. A toda adjetivação aplicada a uma pessoa ou
ao seu comportamento corresponde um julgamento moral, que representa, de fato,
a hierarquização de valores na definição do melhor e do pior, do certo e do
errado, do bom e do ruim.
O que se pode
afirmar é que, por detrás de cada manifestação de aceitação ou de rejeição da
diferença de outrem, subjazem determinadas concepções de mundo, de sociedade e
de homem, as quais caracterizam, muitas das vezes, o discurso hegemônico de uma
sociedade, num determinado momento de sua história.
Esta pesquisa tem como objetivo desvelar os múltiplos sentidos que estão sendo veiculados sobre o processo de inclusão, no que se refere ao atendimento dado às pessoas com deficiência.
Temos como referência para a análise dos discursos o trabalho de Orlandi (1987, 1990, 1992, 1993, 1995, 1996, 1998), que se orienta pela perspectiva européia, Escola Francesa de Análise de Discurso (AD). Essa perspectiva se iniciou, na década de 1970, com Michel Pêcheux. Compreender, de acordo com Orlandi (1993, 1996), é explicitar o modo como o discurso produz sentidos, ou seja, considerar o funcionamento do discurso na produção de sentidos, explicitando o mecanismo ideológico que o sustenta. O caminho para a compreensão do texto é se relacionar com os diferentes processos de significação que nele ocorrem, sendo estes processos função da historicidade, ou seja, história do sujeito e do sentido. Para Orlandi (1996, p. 56), “o objetivo da AD é compreender como um texto funciona, como ele produz sentidos, sendo ele concebido enquanto objeto lingüístico-histórico”.
Nosso procedimento tem sido o de compreender tudo o que compõe o nosso corpus
discursivo, que é constituído de livros; artigos de revistas; matérias de
jornais; dissertações de mestrado e teses de doutorado, que versam sobre o
processo de inclusão, dos Programas de Pós-Graduação que têm dentro de suas
linhas de pesquisa discussão sobre as questões referentes às pessoas com
deficiência (UFJF, UERJ, UFSCar, UFRGS, UNICAMP, USP, UNIMEP e PUC-SP), tendo
como marco a realização da Conferência Mundial sobre Necessidades Educativas
Especiais, realizada em Salamanca/Espanha, em 1994. No levantamento que
fizemos, até o presente momento, encontramos 335 referências sobre a questão em
estudo, sendo que os termos que têm sido utilizados para se referir a tal
processo são: inserção, integração e inclusão.
No cenário do Mundo Moderno, a exclusão social se constituiu como a formação ideológica dominante, onde o sujeito com deficiência era o principal personagem, já que o modo de se pensar o mundo e as relações entre os seres humanos era calcado na dicotomia do certo e errado, bom e ruim, normal e anormal. O isolamento constituía uma prática bastante utilizada no tratamento do desvio da normalidade.
Nas palavras de Vaz (s.d., p. 4):
A
experiência de si moderna era moldada pelo temor do anormal e pelo prazer
ressentido da normalidade. A diferenciação hierárquica dos atos e sua
correlação com o ser dos indivíduos permitia a visibilidade. Havia um pulular
de estranhos seres; contudo, as figuras maiores da anormalidade eram o
perverso, o louco e o delinqüente.
Sant`Anna (1988, p. 88) define o normal como "aquilo que é reto, perpendicular". Caracteriza a anormalidade pelo desvio, ou inclinação, tanto para a direita como para a esquerda da linha definida como normal.
Estabelecidos
critérios de pertencimento e de não-pertencimento à faixa de normalidade, a
sociedade passa a avaliar seus membros conforme os parâmetros por ela própria
definidos.
Observa-se uma
forte tendência em se avaliar a deficiência do outro sob o prisma biológico,
passando seu portador a ser tratado como um "doente", ou seja, uma
pessoa fragilizada, sempre necessitada de assistência, por isso, digna de pena.
Assim procedendo, as pessoas ditas normais reduzem os significados da
normalidade e da adaptação para os padrões estéticos e os de produtividade do
corpo. Santin (1990, p. 137) ressalta: “O caminho para encontrarmos os aspectos
filosóficos da corporeidade, sem dúvida, não conduz diretamente ao corpo do
homem, mas às diferentes compreensões que, ao longo da história das culturas, a
humanidade desenvolveu”.
Ao analisar o
processo de controle e discriminação do desvio, Sant`Anna (1988) identifica
duas maneiras de se detectar o anormal: os critérios ontológico e estatístico.
Do ponto de vista ontológico, a identificação se dá quando o indivíduo
desviante se afasta do modelo ideal, enquanto que, no segundo caso, o desviante
não se enquadra estatisticamente nos padrões majoritários de uma determinada
cultura.
Da mesma forma, a Modernidade caracterizou-se pela delimitação do espaço passível de ocupação por cada indivíduo na sociedade, fenômeno este denominado por Foucault (1989) de quadriculamento. Assim, a posição de cada um estaria definida conforme o espaço a ele destinado em um determinado ambiente sociocultural.
A deficiência, entendida como desvio da normalidade, constituiu, como se pôde perceber, um objeto permanente de práticas de vigilância e de isolamento sociais. Tais atitudes se manifestariam no cotidiano das pessoas nas formas do preconceito e da discriminação. O isolamento das pessoas com deficiência em asilos, internatos e hospitais representa a materialização do que ora é discutido.
Marques (1994) chama a atenção para a dualidade de sentidos existente na organização e na manutenção de tais instituições assistencialistas, ou, como queiram, especializadas: de um lado, a imagem difundida de que elas existiriam para proteger e preparar as pessoas com deficiência para uma futura integração no ambiente social; de outro, a ideologia camuflada de atendimento aos interesses da sociedade dos normais de identificação e isolamento dos desviantes. No primeiro caso, o sentido do discurso é explícito, enquanto que no segundo caso o sentido não está aparente, mas escamoteado por uma prática difundida como boa e necessária principalmente para as pessoas com deficiência ali atendidas.
Advém daí um outro fenômeno bastante interessante: a
incorporação da dinâmica institucional pelos indivíduos por ela assistidos.
Ocorre, de forma muito eficiente, uma forte vigilância do discurso e do
comportamento de uns em relação aos outros indivíduos. As manifestações de
descontentamento e as críticas advindas de alguma divergência em relação às
normas que regem a instituição são quase que imediatamente evidenciadas e
delatadas pelos próprios assistidos aos detentores do poder institucional.
Marques (1994, p. 85) destaca:
o quanto os indivíduos deficientes internos
nas instituições assistencialistas introjetam e reproduzem o modelo
institucional no qual vivem. Com raríssimas exceções, o deficiente interno
quase sempre se identifica inteiramente com as normas que regem a dinâmica da
instituição. A rotina passa a ser o certo, e o novo amedronta tanto quanto a
possibilidade de perder o amparo institucional. Em conseqüência, estabelece-se
uma forte trama de controle disciplinar entre os próprios internos, que passam
a vigiar uns aos outros , perpetuando a disciplina e fazendo com que somente as
decisões maiores sejam atribuídas à autoridade constituída. Neste cenário, a
figura do alcagüete, ou “dedo duro”, assume um importante papel no controle
disciplinar, fazendo com que as infrações, ou mesmo as tentativas de infração,
cheguem ao conhecimento da autoridade constituída, e as punições sejam
oficializadas.
Isso remete a presente análise ao fenômeno descrito por Foucault (1989) como microfísica do poder, ou seja, o controle social é exercido de forma extremamente eficiente pelos próprios indivíduos que compõem o grupo social. Muito mais do que a estrutura de vigilância e de controle representada pela macrofísica do poder (leis, decretos e instituições), os indivíduos estão rendidos ao controle e à vigilância exercidos pelo olhar sancionador do outro. Nessa trama de poder todos exercem o duplo papel de vigilante e de vigiado, o que garante a sua eficiência prática.
Pode-se concluir que o discurso da Modernidade sobre as pessoas com deficiência esteve sempre calcado no entendimento da deficiência como desvio da norma, ou, em outras palavras, como não ajustamento aos padrões ideologicamente estabelecidos como normais. Como conseqüência, instalam-se os sentimentos de pena e de dependência permanentes, além das atitudes de caridade e de proteção, camufladoras do sentido maior da exclusão social.
O cenário do Mundo Atual evidencia um movimento em direção a um sentido de inclusão social: o sujeito com deficiência passa a dividir a cena com os sujeitos sem deficiência, coabitando os diversos espaços sociais. Nota-se, pois, um grande dinamismo experimentado pelos sujeitos e, em particular, pelos sujeitos com deficiência num mundo onde conceitos e práticas assumem cada vez mais um caráter efêmero e de possibilidades múltiplas.
O discurso construído na Modernidade sobre os sujeitos com deficiência, começa, gradativa mas significativamente, a dar lugar a um novo entendimento do que venha a ser tal condição existencial e, por conseqüência, a novas formas de se tratar tal condição. Assim, as circunstâncias, hoje, experimentadas diferem substancialmente daquelas de alguns poucos anos atrás.
A compreensão desse fenômeno requer o conhecimento das principais características desse novo tempo e, por conseguinte, das novas concepções de mundo, de sociedade, de vida e de homem nele presentes.
O mundo não é mais constituído de fronteiras territoriais, econômicas e culturais rígidas. Os países vêm se organizando em blocos e o planeta se depara com o chamado fenômeno da globalização. Fonseca, apud Rossi (1997, p. 2), avalia que “A globalização não é apenas palavra da moda, mas a síntese das transformações radicais pelas quais vem passando a economia mundial desde o início dos anos 80”. Aprofundando um pouco mais a sua reflexão sobre o fenômeno da globalização, o autor estabelece três pilares para o referido fenômeno:
O
fenômeno da globalização resulta da conjunção de três forças poderosas:
1
a terceira revolução tecnológica (tecnologias ligadas à busca, processamento,
difusão e transmissão de informações; inteligência artificial; engenharia
genética);
2
a formação de áreas de livre comércio e blocos econômicos integrados (como o
Mercosul, a União Européia e o Nafta);
3 a crescente interligação e interdependência dos mercados físicos e financeiros, em escala planetária.
A sociedade passa a se caracterizar pelo grande volume e pela alucinante velocidade com que as informações são processadas e difundidas. Importa mais a capacidade das pessoas de acessarem as informações do que o esforço intelectual do acúmulo do conhecimento.
As chamadas culturas regionais dão lugar a uma cultura
global. À medida que os costumes e os valores são internacionalizados, diminui
cada vez mais o comportamento endógeno de preservação cultural. Nas palavras de
Gonçalves (1997, p.10):
Seja
qual for a perspectiva que se adote, o fato é que está em curso uma nova etapa
da internacionalização, embora seu futuro permaneça em aberto. Não há dúvida de
que o mundo, finito e cognoscível, é cada vez mais percebido, ele mesmo, como
um lugar; não há dúvida de que, paralelamente às culturas nacionais, gera-se uma
cultura “global”, na qual indivíduos dos quatro cantos do planeta podem
minimamente se reconhecer; não há dúvida de que essa cultura global deriva da
intensificação dos contatos entre povos e civilizações, por sua vez vinculada à
expansão econômica e técnica.
Dos textos analisados, o de Glat (1997) é o que melhor evidencia essa formação discursiva. Glat (1997, p. 200) diz:
O ponto que
quero enfatizar, e que os planos de integração freqüentemente deixam de levar
em consideração, é que integração é um projeto individual. “Não se pode
integrar outro! Cada um que se integre da maneira que puder e que quiser!“
(Glat, 1995)
Nós,
educadores, que acreditamos que pessoas portadoras de deficiências terão uma
vida mais significativa e produtiva se saírem do círculo fechado de suas casas
e escolas protegidas para participar da vida da comunidade, temos um papel
importante, e eu diria até essencial, em detonar e desenvolver esse processo.
Mas a opção de tentar “se integrar” (ou não) é delas, e não nossa! Isso não
podemos esquecer.
“[...]
a educação especial que podemos oferecer a essa clientela é a conscientização
de sua condição psicossocial e a instrumentalização para lutar por condições de
vida as mais amplas possíveis”. (Glat, 1995)
Reforçando esta idéia, Lorenzo apud Carvalho (1994, p. 9) afirma que:
Integração é processo de incorporar física e socialmente dentro da sociedade as pessoas que estão segregadas e separadas de nós. Significa ser membro ativo da comunidade, vivendo onde outros vivem, vivendo com os outros e tendo os mesmos privilégios e direitos que os cidadãos não deficientes.
O cenário do Mundo Atual evidencia ainda um deslocamento para uma formação ideológica inclusiva, onde todos os sujeitos são personagens. Nessa perspectiva, o desafio a ser vencido é este: que essa formação ideológica se torne preponderante na sociedade.
Deste modo, a apreensão
dos sentidos dados na Atualidade à problemática vivida pelos sujeitos com
deficiência evidencia a coexistência de três formações discursivas no
tratamento da diferença imposta pela deficiência. A formação discursiva que coloca o sujeito com deficiência como
“desviante”, tendo como referencial a dicotomia normalidade X anormalidade,
constitui a formação ideológica da exclusão. A outra, que o considera como
“diferente”, tendo como referencial um determinado padrão social, constitui um
movimento dessa formação ideológica da exclusão em direção a uma formação
ideológica inclusiva. Deslocar esse sentido para uma perspectiva ideológica
inclusiva implica pensar uma sociedade sem referenciais determinados, em pensar
os sujeitos na sua “diversidade”, dentro de uma formação discursiva que tenha
como pressuposto o fato de que os dados se constituem num determinado momento,
são históricos, sociais, culturais, não existindo um referencial único, mas uma
disposição para lidarmos com o dado e para considerarmos todas as
possibilidades da vida.
Essa
movimentação de sentidos da absolutização do normal para a diversidade não
constitui uma simples superação do princípio da igualdade entre os homens como
valor absoluto pelo princípio de que somos todos diferentes em características
e em direitos. A diversidade implica, é claro, o reconhecimento e o respeito
pelo que faz de uma pessoa um ser diferente de todos os demais, como apregoa
Pierucci (1999). Todavia, pressupõe, também, a preservação do dado de que todas
as pessoas são iguais no que se refere ao valor máximo da existência: a
humanidade do homem. A diferença não deve, pois, se constituir num critério de
hierarquização da qualidade humana. Independente da condição existencial de
cada um, todos são igualmente homens, com o mesmo valor existencial. Assim, o
que se deve considerar é a diferença na totalidade e a totalidade na diferença,
sem se prender à prejudicial polarização do normal (igual), de um lado, e do
diferente (desigual), do outro.
Sendo a escola
parte constitutiva do todo social, ela refletirá os desdobramentos de todas as
mudanças ocorridas nas concepções que significam a vida, transformando-se internamente
e promovendo mudanças na ilimitada realidade do extramuro escolar.
Marques (1997, p. 22) utiliza o termo integração dentro da formação discursiva da inclusão. Nas suas palavras:
O grande problema da integração
não está nem nas diferentes concepções existentes sobre este processo, nem nas
iniciativas tomadas para sua vibialização; encontra-se sim, no fato de os
portadores de deficiência não serem entendidos e assumidos como sujeitos
históricos e culturalmente contextualizados. O problema está, de fato, na
concepção de homem e de mundo que delineiam as ações e orientam as formas de se
pensar a própria integração.
O
caminho para a superação desta questão está na busca e no encontro de um
sentido para a existência humana, cujo objeto, o homem, não está determinado
pela sua condição física, mental ou sensorial, mas principalmente por seu modo
de ser, autêntico e único. Superar a visão passiva e negativa da deficiência,
entendê-la como mais uma possibilidade no universo da pluralidade de
possibilidades e tratar seus portadores como membros ativos da cultura são
medidas de garantia para a integração.
Mantoan
(1997, p. 145), por sua vez, mostra o sentido tanto da integração quanto da
inclusão:
A
outra opção de inserção é a inclusão, que questiona não somente as políticas e
a organização da educação especial e regular, mas também o conceito de
mainstreaming. A noção de inclusão institui a inserção de uma forma mais
radical, completa e sistemática. O vocábulo integração é abandonado, uma vez
que o objetivo é incluir um aluno ou um grupo de alunos que já foram
anteriormente excluídos; a meta primordial da inclusão é a de não deixar
ninguém no exterior do ensino regular, desde o começo. As escolas inclusivas
propõem um modo de se constituir o sistema educacional que considera as
necessidades de todos os alunos e que é estruturada em virtude dessas
necessidades. A inclusão causa uma mudança de perspectiva educacional, pois não
se limita a ajudar somente os alunos que apresentam dificuldades na escola, mas
apóia a todos: professores, alunos, pessoal administrativo, para que obtenham
sucesso na corrente educativa geral.
Nas
palavras de Forest e Pearpoint (1997, p. 138-41),
Inclusão
NÃO trata apenas de colocar uma criança deficiente em uma sala de aula ou em
uma escola. esta é apenas a menor peça do quebra-cabeça.
Inclusão trata, sim, de como nós
lidamos com a diversidade, como lidamos com a diferença, como lidamos (ou como
evitamos lidar) com a nossa moralidade. [...]
Inclusão não quer absolutamente dizer
que somos todos iguais. inclusão celebra, sim, nossa diversidade e diferenças
com respeito e gratidão. Quanto maior a nossa diversidade, mais rica a nossa
capacidade de criar novas formas de ver o mundo. [...]
Inclusão é reconstruir nossos corações
e nos dar as ferramentas que permitam a sobrevivência da humanidade como uma
família global.
A passagem de uma concepção excludente de sociedade e de escola para uma outra, fundada na diversidade humana, deve significar uma profunda mudança em toda a dinâmica educacional, refletindo, principalmente, na construção de novos sentidos éticos e morais para a vida em sociedade. Ao se adotar a diversidade como um primado da existência humana, as relações interpessoais tomarão um outro significado para todas as pessoas: não mais se considerarão os alunos com deficiência como os únicos beneficiários de sua inserção escolar. Com certeza, a construção dos aspectos éticos e morais de todos os sujeitos envolvidos numa prática educacional inclusivista será profunda e positivamente afetada.
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Luciana Pacheco Marques e outros
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[1] Aluna do Curso de Pedagogia da UFJF.
[2] Aluna do Curso de Serviço Social da UFJF, bolsista do CRE/PRORH/UFJF.
[3] Aluno do Curso de Educação Física e Desportos da UFJF, bolsista do CRE/PRORH/UFJF.
[4] Professora Doutora da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Juiz de Fora.
[5] Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Educação da UFJF.
[6] Aluna do Curso de Pedagogia, bolsista do BIC/PROPP/UFJF.