A INSERÇÃO DE CRIANÇAS E ADOLESCENTES COM DEFICIÊNCIAS INSERIDAS NO ENSINO REGULAR EM JUIZ DE FORA

 

 

 Prof. Ms. Maria Elisa Caputo Ferreira[1]

Prof. Maria Ângela Moreira Vieira[2]

 

 

 

                A discussão sobre a inserção escolar de alunos com deficiências tem se intensificado nestas duas últimas décadas no Brasil e no mundo. Nessa pesquisa, meu esforço é no sentido de tentar apreender e descrever o que  venho verificando em meu trabalho de campo em uma “Escola de Atenção Integral à Criança” – CAIC  – da cidade de Juiz de Fora-MG., que se propõe a trabalhar com alunos que apresentam deficiências  em ambiente não restritivo. Procuro abordar várias questões, dentre as quais: 

A inclusão, em nosso meio, tem se tornado realidade? Como se dá o processo de aprendizagem do aluno com deficiência em ambiente não restritivo? Como  os alunos ditos “normais”  têm se relacionado com os pares com deficiência, ao freqüentarem os mesmos ambientes escolares? Quais as alternativas técnico-pedagógicas, psico-pedagógicas e sociais criadas no Sistema Regular de Ensino,  conseqüentes do processo de inserção de crianças com deficiência no ambiente escolar? Quais os motivos  do “sucesso” ou do  “insucesso” dos alunos com deficiência dentro da sala de aula?  Optei pelo estudo do tipo etnográfico em educação porque, além do trabalho de campo, estudos desse tipo exigem um envolvimento intenso e interação constante entre pesquisador e objeto pesquisado, o que me permitiu conhecer a escola mais de perto. À medida que as práticas educacionais excludentes do passado vão dando espaço e oportunidade à unificação da educação regular e especial em um sistema único, caminhamos em direção a uma reforma educacional mais ampla, onde todos os alunos começam a ter suas necessidades educacionais satisfeitas dentro da educação regular. Esta sim, é a realidade da qual queremos fazer parte contribuindo e participando enquanto educadora e cidadã.

 

 

 

Maria Elisa Caputo Ferreira

Rua Padre Frederico, 180

Bairro Santa Catarina

36 036-150  Juiz de Fora – MG

Tele-fax – (32) 3211-3655

E-mail: caputo@faefid.ufjf.br

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A INSERÇÃO DE CRIANÇAS E ADOLESCENTES COM DEFICIÊNCIAS INSERIDAS NO ENSINO REGULAR EM JUIZ DE FORA

 

Prof. Ms. Maria Elisa Caputo Ferreira[3]

Prof. Maria Ângela Moreira Vieira[4]

 

Novo tempo...  Nova Educação?...

 

Os temas principais que inspiraram essa investigação em andamento, surgiram de observações e reflexões ao longo de minha experiência acadêmica e profissional. Tenho constatado que nos últimos anos a sociedade vem sofrendo inúmeras mudanças. Os valores são outros, o mundo é outro, as pessoas são diferentes. Estamos no século XXI. Fala-se muito em 3º milênio, new age, nova consciência, globalização, qualidade de vida, ecologia, cibernética. Paralelamente, associamos aos costumes cunhados pela cultura, as diferentes e novas vivências no campo  da sexualidade, da religião, da moral, da educação, da vida social em geral.

Vivemos, é certo, um outro momento. PRIGOGINE (1996a, p. 25) crê que, de certo modo, estamos chegando "ao fim da ciência", porque não é possível continuar falando unicamente de "leis universais extra-históricas".  É preciso acrescentar "o temporal e o local", o que implica em afastar-se dos  ideais da ciência tradicional. Faz-se necessário  revisar conceitos sobre as leis da natureza, sobre a Sociedade, sobre a Educação, sobre a Escola, sobre o Indivíduo, sobre a noção de igualdade e de diferença.

Venho me confrontando com ramificações relativamente inesperadas do que significa conceber a educação a partir de um ponto de vista inclusivo. Esse confronto tem me obrigado a refletir e tentar repensar a deficiência como eu a percebo e como ela é encarada e vivenciada no contexto escolar. Esta incursão exploratória no mundo da “escola que procura ser inclusiva” tem sido inspirada na necessidade de nova avaliação do Ensino  sob a influência de transformações paradigmáticas que defendem a Educação de qualidade para todos, e analisar os  reflexos dessa visão no Sistema Educacional que temos.

Ao recorrer aos conhecimentos de ARENDT (1992); ARROYO (1999); CARONE (1998); CAVALIÉRI (1999); FERRÉ (1998); FIGA (1998); GARCIA (1994); GUIRADO (1998); KARAGIANNIS e STAINBACK (1999); LARROSA (1998);   MANTOAN (1989, 1994, 1995, 1996, 1997); MARCONDES (1994); MORAES (1997); MORIN ( 1987a, 1987b, 1990, 1996; 2000); O'BRIEN (1999); PIERUCCI  (1999); PLASTINO (1994); PRIGOGINE (1996a; 1996b); SILVA (1999);  STAINBACK e STAINBACK (1999); TOURAINE (1998, 1999) e  outros, este trabalho procura fornecer tanto a pesquisadores quanto a professores, visões fugazes das transformações paradigmáticas da  vida cotidiana da escola, em especial, daquelas que se propõem a inserir na Escola  crianças com deficiência. Apoiando-me nas pesquisas e nos  estudos dos autores citados acima, apresento reflexões que podem oferecer subsídios para que educadores sejam capazes de desenvolver e refinar maneiras novas e úteis com as quais possam repensar o terreno da Sala de Aula, a Escola, o Ensino e a Educação.

A escola é, na teoria tradicional, uma instituição ou um aparelho do Estado, tanto na visão positivista de DURKHEIM (1978), como nas versões críticas de ALTHUSSER (s/d) e BOURDIEU (1983, 1990). Segundo ROCKWELL & EZPELETA (1986, p. 12), “a escola tem uma história documentada, geralmente escrita a partir do poder estatal, que  destaca sua existência homogênea”.  A escola é, de acordo com esta interpretação, “difusora de um sistema de valores universais ou dominantes que transmite sem modificações”.

Este quadro de referências pode ser potencialmente delineado e refinado, caso pesquisadores e planejadores educacionais queiram trazer o referencial da pesquisa tradicional  para confrontação com as concepções atuais de educação, de organização e aquisição do conhecimento. Se a escola tradicional tem pautado sua atuação nas certezas e estabilidades de um projeto fechado, a escola da "modernidade crítica", como destaca CAVALIÉRI (1999 p. 128),  precisará pautar sua atuação na construção de uma concepção curricular capaz de possibilitar a permanente relativização das certezas, conseqüência natural de uma racionalidade não transcendente, fundada na comunicação.

Nossa tradição pedagógica tem centrado a inovação educacional na reforma de conteúdos e programas, deixando intocadas as práticas, a estrutura, as relações escolares, os tempos e espaços, os rituais que dão concretude aos conteúdos intelectuais e formativos da escola. Mudar essa tradição, para ARROYO (1999,  p. 161), "é colocar o foco onde acontece a educação".  “É preciso educar para um futuro viável” (MORIN,  2000,  p. 9).

A Educação se dá em múltiplos e diversos locais e deve, segundo GARCIA (1994, p.  63),  ser disseminada no campo social, “a fim de que as experiências possam ser trocadas em um processo criativo de mútua realimentação".  O autor aposta no caráter libertador deste momento histórico, em que a ausência de amarras ideológicas imprime um sentido de aventura à permanente necessidade de descobrir e redescobrir os significados do mundo que nos cerca. Desvela a face ética do projeto humano de construir alternativas para uma sobrevivência necessariamente fraterna e ressalta a pluralidade dos caminhos, indicando o significado político da negociação ao reafirmar um dos desafios da Educação: "construir através de processos educativos, e neles mesmos, formas solidárias, igualitárias e plurais de convivência entre os homens".   Ter essa postura é se opor, mas se opor na defensiva de quem deseja construir.

Um exame da escola como locus fornece uma base fecunda para se entender o modus operandi, a dinâmica do encontro pedagógico. Esse argumento propõe ao  educador que quer falar de maneira inteligível e reveladora a respeito do comportamento humano no meio escolar, examinar o conceito de “cotidiano” em toda a sua complexidade e multiplicidade. Além disso, esse conceito deve ser reconsiderado e reexaminado a partir do ponto de vista teórico que una a história documentada a uma história não documentada da escola.

Procurar entender a representação sobre a “deficiência” na escola exige muita compreensão de certos axiomas que, nesse estudo, pertencem aos atributos labirínticos do símbolo. Transferem a análise do comportamento dentro da sala de aula, que constitui o terreno teórico da pesquisa tradicional dominante na educação para o da interpretação semiótica, dramatúrgica e fenomenológica.  O eixo desta investigação consiste em demonstrar as representações do cotidiano de alunos com deficiência na escola e examinar as relações implícitas dentro do sistema cultural mais amplo.  Uma análise da escola, a partir das perspectivas do aluno com deficiência, sugere explicações e explicitações importantes para uma larga variedade de comportamentos e transações padronizadas que existem dentro da escola pública, urbana e “dita inclusiva”.

Examinadas no contexto da ação simbólica, as escolas que trabalham com propostas inclusivas  podem ser estudadas como transmissoras de códigos culturais que representam as percepções e maneiras de compreensão das pessoas sobre a deficiência em nosso sistema cultural. Tais construções amplas no que diz respeito às representações sobre a deficiência podem, na minha opinião, ser entrelaçadas para fornecer ao pesquisador educacional um modelo teoricamente salutar para examinar como aqueles  que representam a escola (diretores, professores, técnico-administrativos, orientadores, funcionários, pais e alunos) codificam suas imagens do “eu”, as imagens do “outro”, as imagens  de “igualdade e de diferença”.

Esse estudo  pode  ser visto, como uma tentativa de trazer a pesquisa educacional para uma relação com alguns dos insights obtidos, tanto teóricos quanto metodológicos, no campo dos estudos sobre a educação de crianças com deficiências. A fim de ajudar a discernir e apreender os signos e  símbolos no ambiente escolar, tenho procurado adotar o papel de um cartógrafo cultural, nomenclatura utilizada por McLAREN, (1991, p. 35) e tenho igualmente tentado delinear significados que existam, tanto na superfície, como submersos nos manifestos do encontro pedagógico.

A essência deste estudo reside no fato inelutável de que, só a partir de uma nova visão paradigmática de Educação, de Escola, de currículo, de sujeito, somos capazes de  estabelecer um debate sobre a “educação de qualidade para todos” nas escolas regulares.

            Assim, este estudo procura sugerir, ao invés de delinear; ilustrar ao invés de afirmar. Deveria portanto, ser visto como uma teorização prévia e um convite ao desenvolvimento de trabalhos posteriores que dêem continuidade aos estudos sobre a educação de crianças com deficiência em ambiente não restritivo.

 

 

O cenário da pesquisa

Atualmente, nessa pesquisa, meu esforço é no sentido de tentar apreender e descrever o que  venho verificando em meu trabalho de campo em uma “Escola de Atenção Integral à Criança” – CAIC  – da cidade de Juiz de Fora-MG., que se propõe a trabalhar com alunos que apresentam deficiências  em ambiente não restritivo, e, simultaneamente, pesquisar o que eu havia negligenciado durante meus anos de experiência  como educadora e pesquisadora, em Instituições de Ensino Especial. Venho descobrindo aspectos diferentes e situações familiares que se tornam estranhas nesse ambiente que se propõe a trabalhar com a “inclusão”  de crianças com deficiência na Escola: valores sobre a “deficiência”, adaptações curriculares, posturas pedagógicas dos professores, das psicólogos, das orientadoras educacionais, das supervisoras, das secretárias, dos técnicos administrativos e  dos demais profissionais responsáveis pelo atendimento à criança com deficiência na Escola.

Venho procurando extrair, apreender e relatar alguns elementos qualitativos da cultura da Escola, onde  permaneci durante o ano de 2000, o tempo suficiente para examiná-los do ponto de vista da educação de crianças com deficiência em ambiente não restritivo. Isso tem me  permitido postular uma análise crítica do cotidiano escolar, através do questionamento de seus sistemas simbólicos, costumes, mitos e paradigmas subjacentes.

Desta forma o estudo da educação de crianças com deficiência tem me auxiliado a  explorar  o campo cultural de uma escola: como funciona, tanto de forma latente como manifesta, na transmissão de mensagens ideológicas. Esse estudo também tem fornecido a  base para uma incursão teórico-crítica no domínio do conhecimento da proposta inclusiva.

Dentro dos parâmetros dessa investigação, procuro abordar várias questões, dentre as quais: 

·        A inclusão, em nosso meio, tem se tornado realidade?

·        Como se dá o processo de aprendizagem do aluno com deficiência em ambiente não restritivo?

·        Como  os alunos ditos “normais”  têm se relacionado com os pares com deficiência, ao freqüentarem os mesmos ambientes escolares?

·        Quais as alternativas técnico-pedagógicas, psico-pedagógicas e sociais criadas no Sistema Regular de Ensino,  conseqüentes do processo de inserção de crianças com deficiência no ambiente escolar?

·        Quais os motivos  do “sucesso” ou do  “insucesso” dos alunos com deficiência dentro da sala de aula? 

 

A grande ênfase desta pesquisa reside no estudo da educação do aluno com deficiência em ambiente não restritivo,  mas  as reflexões sobre os paradigmas da escola analisados através da perspectiva etnográfica da prática escolar cotidiana também têm lugar no desenvolvimento desse trabalho; ao mesmo tempo, enfatizo os aspectos culturais ou socialmente construídos a respeito da representação sobre a “deficiência”  no contexto escolar.

Em qualquer trabalho que apresenta como objetivo  a investigação e interpretação da realidade escolar, parece adequado e prudente, que o pesquisador reconheça sua “agenda oculta”. Tal termo foi utilizado por  McLAREN, em Rituais na Escola (1991, p. 43).  SILVA (1999 p. 80), em  Documentos de Identidade (1999, p. 80)  utilizou outro termo, currículo oculto,  onde a idéia é a de que uma análise baseada nesses conceitos permite “tornarmos conscientes de alguma coisa que até então estava oculta para nossa consciência”.

Tenho me preocupado não apenas com o modo pelo qual as crianças com deficiência adquirem conhecimentos ou se educam através das tentativas das escolas de satisfazer as demandas de suas estruturas corporativas e hegemônicas, mas também desejo explorar a maneira pela qual as escolas que educam crianças com deficiência em ambiente não restritivo  servem como sementeiras para a mudança social.

Ao longo deste estudo, os conceitos de “igualdade e de diferença” foram  transformados em  ícones para a finalidade de repensar criticamente a educação e a escola como um sistema cultural, o locus para nos tornarmos mais humanos. A  escola como difusora de um sistema de valores universais ou dominantes, está intimamente ligada à transmissão ideológica. Além de enfatizar a escola como um sistema cultural, eu a focalizo e a analiso como história acumulada e busco no presente, os elementos com os quais a escola se construiu. Uma parte substancial  da investigação é dedicada à compreensão da educação da criança com deficiência no ambiente não restritivo, com o desafio de apreender analiticamente o que o cotidiano escolar reúne.

Nessa pesquisa o cotidiano da escola tem-se constituído como o  “território”  da investigação, enquanto a teoria da educação  inclusiva tem  servido como  o “mapa”,   ou seja, o modelo interpretativo.

Ao estudar a escola, a primeira consideração que se evidencia é que ela  apresenta-se como uma instituição sólida no contexto da sociedade moderna, apesar de questionada sobre vários aspectos.

Partindo do pressuposto de que o atual momento de pesquisa sobre a escola carece de explicações microssociais para avançar no conhecimento das questões concretas e teóricas que sobre ela se colocam, optei pela pesquisa que tem como foco de interesse questões da prática escolar cotidiana.

 

 

 A pesquisa do tipo etnográfico como opção metodológica

Ao buscar  reconstruir processos e relações que envolviam a experiência escolar do dia a dia optei pelo estudo do tipo etnográfico em educação porque, além do trabalho de campo, estudos desse tipo exigem um envolvimento intenso e interação constante entre pesquisador e objeto pesquisado, o que me permitiu conhecer a escola mais de perto. Foi   possível dessa forma, registrar os encontros e desencontros habituais dos atores sociais da escola, apreendendo e retratando a visão pessoal de cada participante desse processo. 

Esse tipo de estudo me permitiu compreender "in loco”,  as situações de "dominação e resistência" que envolvem  o contexto escolar de crianças com deficiências inseridas no ensino regular e as mudanças dessas crianças em relação aos conhecimentos, atitudes,   crenças, visão de mundo delas e de todos os que fazem                                                                                                                                                            parte desse processo (alunos, professores, diretores  etc...).

Entrar em contato com a realidade escolar me permitiu compreender, com mais clareza, o papel e a atuação de cada componente do processo educacional, percebendo as forças que estimulam ou impedem o relacionamento e a interação desses sujeitos entre si, assim como reconhecer as estruturas de poder e a maneira como se organiza a escola e como esta discute e  trabalha a inserção de crianças com deficiência no contexto escolar.

A intenção de investigar o cotidiano  me levou a procurar um arcabouço conceitual que orientasse a análise crítico-dialética a ser efetivada. Nessa procura encontrei conceitos valiosos nas obras de autores que discutiram e analisaram o cotidiano, inaugurada por LUKÁKS (1979) e continuada por  (GOFFMAN, 1985;  GOLDMANN, 1967; HELLER, 1972, 1985;  KOSIK, 1976; LEFEBVRE, 1991) e a  escola a partir do cotidiano (ROCKWELL e EXPELETA, 1985; PENIN, 1989).

Atendendo à característica fundamental deste tipo de pesquisa, utilizei  técnicas tais como a observação participante, a entrevista intensiva e a análise documental.

 

 

Fotografando a prática...

A discussão sobre a inserção escolar de alunos com deficiências no Ensino regular tem se intensificado nestas duas últimas décadas no Brasil e no mundo. Essa discussão envolve questões como a referente a diferentes concepções de deficiência, e, com ela, todo o problema de avaliação, diagnóstico e prognóstico. Quem pode ser considerada “uma pessoa com deficiência”? Até que ponto se pode determinar um prognóstico de desenvolvimento? Qual o melhor sistema de ensino para a educação de indivíduos considerados portadores de necessidades educacionais especiais?

            A situação atual do atendimento às necessidades escolares é cunhada pelo paradigma vigente de atendimento especializado e segregativo, extremamente forte e enraizado no ideário das instituições e na prática dos profissionais que atuam no ensino especial. A indiferenciação entre os significados específicos dos processos de integração e inclusão escolar reforça ainda mais a vigência do paradigma tradicional de serviços, e muitos continuam a mantê-lo, embora  defendam a integração.

            O movimento da inclusão de crianças com deficiência no ensino regular foi impulsionado após a reforma geral da educação, visando a reestruturação da escola para todos os alunos. O impulso do movimento certamente, segundo STAINBACK e STAINBACK (1999, p. 22), tem condições de expandir as práticas da inclusão para um número cada vez maior e crescente de escolas.

A inclusão é um processo pelo qual a sociedade se adapta para poder incluir, em seus sistemas sociais gerais, pessoas com necessidades especiais e, simultaneamente, estas se preparam para assumir seus papéis na sociedade. A inclusão social constitui então, um processo bilateral no qual as pessoas, ainda excluídas, e a sociedade buscam, em parceria, equacionar problemas, decidir sobre soluções e efetivar a equiparação de oportunidades para todos. Para isso pressupõe a modificação da sociedade como pré-requisito para a pessoa com necessidades especiais buscar seu desenvolvimento e exercer a cidadania. 

Esse modelo enfatiza a relação sujeito/meio e busca dados significativos que contribuam para o planejamento e implementação de programas educativos eficazes.

Renomados autores internacionais como BIRCH (1974), CHAFLIN (1975), HOUCK E SHERMAN (1979), TOLEDO (1984), RENAU (1984), FIERRO (1987) E GARCIA (1989)  apresentam  argumentos para a mudança a favor da educação dita “inclusiva”.  Da mesma forma, autores conhecidos nacionalmente como: CARMO, 1988, 1991 a, 1991b;                                                                                                                                                                          CARVALHO,1997;  FERREIRA,1993; IDE (1994 a; 1994b; 1997 a; 1997b; 1998; ); MANTOAN,1995, 1996, 1997; MAZZOTA,1997; SASSAKI,1997, entre outros, também defendem muitos argumentos a favor de  uma educação mais humanitária e mais justa, objetivando um pedagogia centrada na criança, baseada em suas habilidades e não em suas deficiências e que incorpore conceitos como interdisciplinaridade, individualização, colaboração e conscientização/sensibilização, facilitando assim a inserção dos alunos que apresentam limitações e necessidades especiais na escola, fazendo desta “inclusão” uma experiência positiva para todos.

A educação de alunos com deficiência inseridos no Ensino Regular apresenta-se portanto, como proposta de mudança de paradigma, na perspectiva social. Trata-se de um processo que contribui para a construção de um novo tipo de sociedade através de transformações nos ambientes físicos (espaço internos e externos, equipamentos, aparelhos e utensílios, mobiliário e meios de transporte) e na mentalidade das pessoas, com ou sem deficiência. Esse processo refere-se a diversidade de sistemas sociais, possibilitando que a pessoa deficiente se prepare para assumir seus papéis na sociedade. É também um processo bilateral no qual a pessoa deficiente e a sociedade buscam, em parceria, equacionar problemas, decidir sobre soluções e efetivar a equiparação de oportunidades para todos, expressando que, um modelo social da deficiência pauta-se em princípios até então considerados incomuns como:

·        aceitação e celebração das diferenças individuais;

·        valorização de cada pessoa - direito de pertencer;

·        convivência dentro da diversidade humana representada por origem nacional, sexual, religioso, de gênero, cor, idade, raça e deficiência;

·        aprendizagem através da cooperação - solidariedade humanitária;

·        cidadania com qualidade de vida.

 

A inclusão de todos na escola, independente do seu talento ou deficiência,  reverte-se em benefícios para os alunos, para os professores e para a sociedade em geral.

O contato das crianças entre si, reforçam atitudes positivas. Ajudam-nas a aprenderem  a ser sensíveis, a compreender, a respeitar e a crescer confortavelmente com as diferenças e as semelhanças individuais entre seus pares. Embora uma criança com deficiência possa não ser capaz de absorver todo o currículo da educação regular, ela pode beneficiar-se das experiências não acadêmicas no ambiente educacional regular. Em geral, quanto mais tempo os alunos com deficiências passam em ambientes inclusivos, melhor é seu desempenho nos âmbitos educacional, social e ocupacional. Os alunos com deficiência aprendem como atuar e interagir com seus pares no mundo "real". Igualmente importante, seu pares e professores aprendem como agir e interagir com eles.

Do mesmo modo, o benefício maior para os professores é a co-participação na transformação da escola. Através dos apoio cooperativo e melhoria das habilidades profissionais os próprios professores têm oportunidade de planejar e conduzir a educação como parte de uma equipe, assim, desenvolvem suas habilidades profissionais em uma atmosfera de coleguismo, de colaboração e de apoio dos colegas. Através de participação e capacitação, os professores tomam conhecimento dos progressos na educação, conseguem antecipar mudanças e participam do planejamento da vida escolar diária.

Os benefícios para todos os alunos podem ser percebidos através do enriquecimento de todas as crianças por terem a oportunidade de aprender umas com as outras, desenvolvendo-se para cuidar umas das outras e conquistar as atitudes, as habilidades e os valores necessários para nossas comunidades apoiarem a inclusão de todos os cidadãos.

À medida que as práticas educacionais excludentes do passado vão dando espaço e oportunidade à unificação da educação regular e especial em um sistema único, caminhamos em direção a uma reforma educacional mais ampla, onde todos os alunos começam a ter suas necessidades educacionais satisfeitas dentro da educação regular.

Esta sim, é a realidade da qual queremos fazer parte contribuindo e participando enquanto educadora e cidadã.

 

 

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[1] Prof. da Faculdade de Educação Física da UFJF

Doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Educação USP

Bolsista CAPES/PICDT

 

[2] Prof. da Rede Municipal e Estadual de Juiz de Fora

[3] Prof. da Faculdade de Educação Física da UFJF

Doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Educação USP

Bolsista CAPES/PICDT

 

[4] Prof. da Rede Municipal e Estadual de Juiz de Fora