PLANTÃO PSICOLÓGICO NA ESCOLA: O ALUNO COMO CENTRO

 

 

Ivânia F. C. Moura*;

Érica L. Oliveira*;

Tatiana M. Brilhante*;

Dener L. Silva**

 

 

INTRODUÇÃO

O procedimento psicoterapêutico denominado Plantão Psicológico visa trabalhar as demandas urgentes e imediatas levantadas pelo cliente no momento de tomada de consciência de seu sofrimento psíquico. Trata-se de um atendimento em nível emergencial, distinguindo-se, portanto, de uma psicoterapia tradicional cujas bases e procedimentos caracterizam-se pelo estabelecimento de um “setting” específico: atendimento sistemático e de longo prazo com vistas à uma integração profunda e permanente na pessoa atendida.

Carl Rogers, psicoterapeuta americano que juntamente com outros profissionais e teóricos da Psicologia Contemporânea (Maslow, Frankel, Erickson) acabaram por revolucionar a postura e o entendimento do fazer Psicoterápico, foi um dos fundadores da Psicologia Humanista que dá base ao trabalho no Plantão Psicológico.

A Psicologia Humanista surgiu como resposta à uma “crise” estabelecida entre os paradigmas do Comportamentalismo de um lado e os da Psicanálise do outro. Dividida entre o entendimento do Homem como comportamento resultante das contingências as quais ele é exposto (Comportamentalismo) ou um entendimento pautado nas emoções, desejos e um aparelho psíquico autônomo – inconsciente (Psicanálise), a Psicologia procurava  um entendimento do Homem que incorporassem as noções de liberdade, busca de sentido e positividade. O Humanismo surge como resposta a estes anseios, como afirmação de uma positividade na Natureza Humana, não no sentido Russeauliano ( de uma origem boa e pacífica) mas no sentido de uma busca e de uma necessidade de estar se aperfeiçoando, buscando graus cada vez mais elevados de auto-integração e realização. A teoria Humanista, e mais precisamente o trabalho de Rogers, acabaram por influenciar inúmeros campos do fazer humano como a educação, o relacionamento familiar, o trabalho etc.

No que concerne ao encontro terapêutico, Rogers afirmou que este deve ser pautado no tripé Empatia, Congruência e Aceitação Incondicional. Empatia entendida como o movimento afetivo-cognitivo do terapeuta em direção a perspectiva fenomenológica do cliente, ou seja, ao modo como este último percebe e sente o mundo. Por sua vez, Congruência exige do terapeuta que este esteja consciente de seu universo fenomenológico (percepções, sentimentos, juízos etc.) e expresse tal universo na medida em que isto possa auxiliar o cliente a tomar contato com seu próprio campo, focando o processo no relacionamento presente entre terapeuta e cliente. Finalmente, Aceitação Incondicional diz respeito à postura do terapeuta em criar um “clima” de acolhimento, em que o sujeito possa sentir-se à vontade para expressar-se livremente, sem que tenha que recorrer à papeis ou posturas estereotipadas.

Uma vez que assim se estabeleça o relacionamento entre Psicoterapeuta e Cliente, tal “encontro” resultará na promoção da saúde. Saúde aqui entendida não apenas como ausência de doenças mas como bem-estar advindo do equilíbrio entre os fatores físicos, psicológicos/afetivos e sociais.

 Durante o ano de 2000 uma equipe de psicologia, composta por professor e estagiários, desenvolveu uma experiência de Plantão Psicológico em uma escola de 1º e 2º Grau de São João del Rei. A referida escola contava, naquele momento, com um contingente de aproximadamente 1300 alunos e 90 funcionários distribuídos entre os três turnos de funcionamento. A equipe de Psicologia já havia, durante o ano anterior, efetivado trabalhos de Psicologia Educacional na escola.

Na experiência do estágio, aqui parcialmente relatada, a Equipe de Psicologia optou por uma intervenção que compreendesse a escola como um todo. Em decorrência disto foram escolhidos métodos de trabalho que correspondessem a este modelo de atuação,  como análise institucional, do cotidiano escolar e das pessoas que dele participavam. Deste modo, a equipe realizou diferentes atividades – que eram modificadas de acordo com as necessidades da escola e também com a capacidade da equipe - ao longo da intervenção. O dispositivo do Plantão Psicológico veio de encontro com a postura tomada pela equipe, que era de fortalecer  os pontos positivos de seus clientes, desenvolver novos meios de solucionar seus problemas acreditando que o cliente já possuía recursos próprios para solucioná-los. Nota-se aqui, a coerência da postura tomada pela equipe com a proposta Humanista de Rogers.

A proposta de se implantar o Plantão Psicológico surgiu da própria equipe, como forma alternativa de atendimento para se oferecer aos alunos. Durante as primeiras reuniões da Equipe de Psicologia com os professores e dirigentes da escola naquele ano falou-se da possibilidade de oferecer este novo serviço, fato que de imediato foi aceito e aclamado como de fundamental importância. Este rápido e “explosivo” acolhimento da nova proposta deve-se a alguns fatores: a) tradicionalmente a escola se exime de participar das discussões sobre as causas do fracasso e indisciplina escolares. A “culpa” recai, geralmente, sobre a figura do aluno e seus familiares; b) o serviço de Plantão Psicológico seria oferecido para todos os turnos da escola criando um “clima” de segurança psicológica; c) a escola precisaria disponibilizar apenas uma sala para que o serviço pudesse ser estabelecido; d) o serviço seria gratuito tanto para a escola quanto para a clientela atendida, uma vez que seria realizado por alunos voluntários. Tais fatores, no nosso entender, acabam por concretizar um quadro de baixo comprometimento por parte da escola em relação ao Serviço de Psicologia oferecido na escola.

O dispositivo Plantão Psicológico vem sendo utilizado com sucesso no contexto escolar (Mahfoud, 1999), tradicionalmente no atendimento dos alunos e com resultados que justificam sua continuidade (Mahfoud, 1999; Bellas, 1999). Apesar de só agora estar sendo discutido e de ganhar uma maior visibilidade, o Plantão Psicológico teve sua implantação, no Brasil, na década de 70 em diferentes contextos, dentre eles o educacional (Rosenberg, 1987).

 

 

METODOLOGIA

 

As atividades iniciaram-se pela seleção dos plantonistas. Os critérios adotados foram interesse, disponibilidade e/ou que estivessem exercendo outras atividades naquela escola.

A equipe era composta por 7 plantonistas e um supervisor que também atendia no Plantão. Reunia-se duas vezes por semana para supervisão e grupo de estudo. Este foi organizado com o objetivo de aprofundar-se teoricamente, dando um suporte técnico para o estagiários; esse grupo orientava as etapas a serem seguidas e o material a ser estudado.  Tais atividades ocorreram durante todo o estágio.

Promoveu-se um mini-curso de capacitação para atendimento em Plantão Psicológico para a Equipe de Psicologia, ministrado pelo professor Dr. Miguel Mahfoud (UFMG), que juntamente com seus estagiários desenvolviam uma experiência de Plantão em escolas públicas e particulares da grande BH.

Iniciou-se o trabalho através de uma intensa propaganda na escola. Efetuou-se visita a todas as salas de aula, em todos os turnos, explicando-se o que seria o Plantão Psicológico e respondendo às perguntas dos alunos. Perguntas do tipo “o que faz o psicólogo?”, “qual a diferença entre o psicólogo e o padre?”, “eu não sou louco, porque eu preciso ir ao Plantão?”, foram as mais freqüentes. Ainda nesta etapa de divulgação, pedimos para a direção da escola que as músicas do CD que acompanha o livro “Plantão Psicológico: novos horizontes”, organizado pelo professor Miguel Mahfoud, fossem tocadas nos intervalos de recreio durante três semanas nos três turnos. Nosso intuito era o de tornar o tema e as questões do Plantão familiares e próximas das realidades dos alunos, uma vez que as músicas eram voltadas para o público jovem, com ritmos variados entre o Rap e o Rock. Foram afixados cartazes pelo pátio da escola e distribuídos bilhetes informativos convidando e explicando sobre o Plantão Psicológico. Neste período pôde-se conhecer mais a instituição, compartilhar expectativas e aprofundar na teoria existente do Plantão Psicológico. A divulgação precisou ser retomada em função dos adventos da greve e da diminuição da procura pelo atendimento.

O Plantão funcionava nos três turnos da escola, com 2 horas por turno. A princípio 2 dias por semana (3ª e 5ª feiras), após as duas greves (dos Funcionários Públicos Estaduais e Federais) passou-se para 3 dias ( 2ª, 4ª e 6ª feiras). Cada plantonista atendia uma vez por semana, em um turno somente.

Uma das características do serviço foi a exigência do não encaminhamento dos alunos pela direção ou pelos professores. Tal solicitação que, no início criou impasse entre a Equipe e a Escola, foi melhor explicitada e aceita a partir das reuniões  entre as mesmas. Também pediu-se para a escola que permitisse ao aluno uma maior liberdade em decidir quando ir ao Plantão. Assim, este poderia se ausentar da sala de aula quando achasse necessário. No decorrer dos trabalhos, tal permissão foi questionada por muitos professores, uma vez que começaram a ocorrer, por parte de alguns alunos, a saída para o Plantão com o intuito de “cabular” aula.

A duração de uma sessão variou de acordo com a disponibilidade interna do cliente para entrar em contato com suas questões e chegar a uma tomada de decisão. A instituição disponibilizou duas salas para atendimento, uma para tarde e noite, e outra para manhã.

            Os atendimentos aconteceram de março a novembro de 2000, interrompidos por dois meses devido às greves  do funcionalismo estadual e federal. Cada estagiário registrava seus atendimentos em relatórios individuais para posterior análise.

            Nos atendimentos o aluno pôde tratar de quaisquer questões que achasse relevantes e estivessem interferindo de alguma forma em sua vida pessoal/escolar sendo ouvido e ajudado pelo plantonista a sentir-se sujeito de sua existência.

 

RESULTADOS

 

            No período compreendido entre março e novembro de 2000 foram realizados um total de 90 sessões de atendimentos individuais e grupais, nos 3 turnos.

            Os relatórios elaborados pelos plantonistas de cada atendimento foram analisados e, a posteriori, categorizados.

            Em 90 sessões, foram atendidas 108 pessoas, a diferença, entre o número de sessões e de pessoas atendidas se deve  ao fato de 22% dos atendimentos serem em grupo, e 78 % individuais. De acordo com os dados a forma de atendimento individual predominou.

            As pessoas do sexo feminino procuraram mais o plantão psicológico, perfazendo 70% dos atendidos, do que as pessoas do sexo masculino, com 30% . Um dado importante a ser considerado é que 5 dos 8 plantonistas eram do sexo feminino.

            No que se refere a idade das pessoas atendidas, as que mais procuraram o Plantão Psicológico foram as que possuíam 12 anos, perfazendo 16,4% dos atendimentos, enquanto as de 16 e 17 anos, com 13% cada, as de 14 anos com 11,7% e as de 13 anos com 10,5%. As pessoas com 21, 22, 24 e 32 anos, apareceram com porcentagens iguais, 2,3% dos atendimentos, e as de 20 e 23 anos aparecem com 1,2% cada. Não houve procura na faixa etária entre 25 anos e 31 anos. Os dados demonstraram que os pré-adolescentes e adolescentes procuraram com maior freqüência o Plantão Psicológico do que os adultos.


 



            Os atendimentos categorizados por série apontam o Ensino Médio (2º grau) com 55% dos atendimentos, sendo que os 1º anos perfizeram 30,6% do total. O Ensino Fundamental foi apontado com 45% dos atendimentos, sendo que a 5ª série perfez 21%. Os dados demonstram uma pequena diferença (5%) entre o Ensino Médio e Fundamental, mas com predomínio do primeiro na procura do Plantão Psicológico.

 

 


            No que se refere a duração da sessão, o atendimento de 40 min. perfez 24,5% do total dos mesmos. A duração de 30 min. foi a segunda mais freqüente correspondendo a 17% e a de 60 min. a 11%. Apesar da duração das sessões serem variadas e obedecerem a escolha/disposição do atendido, os dados apontam que mais da metade dos atendimentos tiveram duração de sessão semelhante à convencional da área clínica.


           

 


A demanda que mais solicitou atendimento durante o trabalho foi a relacionada aos problema familiares, estando presente em 21,5% deles. Os problemas relacionados a namoro apareceram em 19% dos casos, a ansiedade, pensamentos negativos e angústia em 13%.

 

 

Através da análise dos dados e interpretação dos resultados, chegou-se a conclusão que, aproximadamente, 80% destes atendimentos mostraram-se eficientes e deliberativos, resultando na tomada de decisão e ou atitude positiva por parte do cliente, meta final do Plantão Psicológico.

 

CONCLUSÃO

 

Ao término da intervenção, verificou-se que o Plantão Psicológico é uma possibilidade de atuação eficaz no contexto escolar, cujo sucesso depende não só da habilidade dos plantonistas (os pilares do encontro terapêutico), mas também do esclarecimento do que este tipo de serviço oferece e de suas regras características. Portanto, é necessário a criação de um espaço que seja reconhecido como um lugar para elaborações de experiências, percebidas pelo cliente como um sofrimento ou como algo de grande significado, culminando na compreensão ampla dessas e em uma conseqüente tomada de decisão ou posicionamento frente à situação. Esse esclarecimento deverá ser feito primeiramente através da clareza do projeto de intervenção apresentado à direção da escola. Uma vez aceito, a escola estará comprometida a manter as condições básicas do Plantão Psicológico, citadas anteriormente. Outra forma de esclarecimento deverá ser direcionado aos alunos. Essa etapa será executada anterior a implantação do Plantão Psicológico.

Percebeu-se que esse trabalho inicial de esclarecimento e divulgação foi de fundamental importância  para um melhor aproveitamento do Plantão Psicológico, como para sua diferenciação da Psicologia Clínica, e  para o entendimento da Psicologia Educacional/ Escolar de uma forma geral. Embora, não seja a proposta deste texto a diferenciação da Psicologia Escolar de uma Psicologia Clínica aplicada à escola, torna-se necessário citá-la, uma vez que esta, influenciou diretamente na participação da escola e consequentemente nos resultados do trabalho.

 O Plantão Psicológico avaliado isoladamente, não considerando as outras intervenções presentes na escola, demonstrou o quanto pode ser eficaz para a promoção da saúde das pessoas que o procuram, independente do contexto em que elas estão inseridas, uma vez que este dispositivo foca exclusivamente o bem estar destas. Porém, uma vez atendendo a clientela  pertencente ao contexto específico estará beneficiando este local como um todo.

Além disso, os dados obtidos após a análise dos atendimentos permitiu a elaboração de um perfil do cliente atendido, de suas principais demandas e o alcance do Plantão, como também forneceu uma noção sobre os seus próprios limites. Foi possível perceber, como demonstrado acima, que há uma predominância de certas queixas. Enfim, o cruzamento dos dados abre um novo leque de possibilidades para se trabalhar na escola, o Plantão Psicológico além de ser um dispositivo eficiente de intervenção no contexto escolar, pode ser utilizado  como um instrumento  de diagnóstico.

 

 

* Acadêmicos de Psicologia, FUNREI

** Professor Assistente III, FUNREI

E-mail: densilva@funrei.br

 

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA:

 

 

AMATUZZI, M.M. O que é Ouvir. Estudos de Psicologia, Campinas, v.7, n° 2, p. 86-97, ago/dez., 1990.

BELAS, J.I. Plantão Psicológico. Abril/1998.

DAYRELL, J.T.A. A Escola como Espaço Sócio-cultural. In: Educação e Cultura: Múltiplos Olhares. Belo Horizonte: UFMG, 1996, p. 1-30.

 

 

LUKAS, E. Como a Família pode lidar com Pessoas Psiquicamente Doentes. In: Mentalização e Saúde. Petrópolis: Vozes, 1990, p. 105-18.

MAHFOUD, M. (org.). Plantão Psicológico: Novos Horizontes. São Paulo: Companhia Ilimitada, 1999.

ROSENBERG, R.L. Aconselhamento Psicológico Centrado na Pessoa. São Paulo: EPU, 1987 (Temas Básicos de Psicologia, v.21), 2a ed.

ROGERS, C.R. Um Jeito de Ser. São Paulo: EPU, 1983, 5a ed.