LEMBRO QUE... – Reminiscências da infância construindo a história da educação.

 

As lembranças se gravam na minha memória com traços cujo encanto e força aumentam dia a dia; como sentindo que a vida me escapa, eu procurasse aquecê-la pelos seus começos. (ROUSSEAU apud BOSI, 1994: 34)

A história começou assim...

 

O presente trabalho é resultado de uma pesquisa encaminhada durante o ano de 2000 envolvendo a formação de profissionais para a educação infantil. Desenvolvemos durante seis meses um curso com essas profissionais[1]. Em uma das oficinas tivemos oportunidade de discutir a questão da criança como sujeito histórico e como participante da história do seu grupo social e do seu tempo.

Procuramos trabalhar, na oficina “a criança construindo a história”, conceitos históricos relacionados a uma prática pedagógica que envolvesse a criança. Para tanto iniciamos o curso com uma proposta de resgate da história de vida das pessoas que participavam do mesmo. Assim, trabalhamos com conceitos da história oral, especialmente no que se refere às possibilidades de contribuirmos com as nossas referências pessoais e a partir delas escrevermos a história.

Nesta perspectiva, encaminhamos uma entrevista com as participantes do curso, totalizando 150 mulheres. Algumas questões estavam presentes, relacionando diversos períodos de suas vidas, mas para este trabalho o que nos interessa refere-se à infância de cada uma.

Foi pedido que cada pessoa escrevesse algumas lembranças de infância vividas no período de 5 a 10 anos[2], material que selecionamos para discutir durante o curso e que posteriormente estamos utilizando.

O grupo poderia ser caracterizado da seguinte maneira: ele é formado por 150 mulheres envolvidas no mesmo objetivo. O objetivo era a formação profissional em serviço pois todas atuam junto às instituições de educação infantil, ou seja, com crianças de 0 a 6 anos de idade. Esse grupo dividiu-se em 4 turmas, todas residentes na região centro-oeste do Paraná, em municípios pequenos (média de 50 mil habitantes, apenas um município tem mais de 100 mil habitantes), ligados à área rural. As idades das pessoas variam entre 20 e 50 anos de idade, a maioria não concluiu o ensino fundamental ou médio.

Alguns elementos imprimem unidade ao grupo, como o fato de serem pessoas envolvidas com o trabalho na educação infantil e, é claro, também terem passado por uma infância que foi marcada pelas lembranças que a memória selecionou, nas experiências vividas.

 A opção pelo trabalho com a história oral e as lembranças de infância se dá pela possibilidade de dar voz a pessoas anônimas, excluídas muitas vezes do processo histórico e também por concordar com Thompson, quando diz que:

A história oral é uma história construída em torno de pessoas. Ela lança a vida para dentro da própria vida e isso alarga seu campo de ação. Admite heróis vindos não só dentre os líderes, mas dentre a maioria desconhecida do povo (...)Traz a história para dentro da comunidade e extrai a história de dentro da comunidade (THOMPSON, 1992: 44).

Além da possibilidade de dar voz a essas pessoas, valorizando suas experiências, procuramos estimular o trabalho a ser desenvolvido com as crianças, no sentido de torná-las sujeito da sua própria história.

A história oral possibilita o trabalho com relatos em que está presente a diversidade, a riqueza, a beleza de momentos que foram vivenciados, sentidos e construídos por cada pessoa em um determinado período de suas vidas. Assim, estimulou-se a memória no sentido de trazer experiências e situações para reflexão também na atualidade, mesmo porque todas trabalham com a infância, período que foi evocado nas lembranças.

Acreditamos que mais uma justificativa com relação à metodologia utilizada se faz necessária por concebermos a infância como um período marcante na formação do indivíduo, de seus valores, suas concepções e sua forma de relacionar-se com o mundo. Neste período as situações são envoltas em dúvida, medos, descobertas, alegrias, muitos motivos para brincadeiras e também para lágrimas. Considerando a infância esse momento diverso e instigante, compactuo com MAKARENKO, quando numa de suas conferências para pais a respeito da educação de crianças, diz:

Na tarefa educativa não existe mesquinharia. Uma fita que se amarra aos cabelos de uma menina, um chapeuzinho, um brinquedo, são coisas que podem ter uma grande importância em sua vida. Uma organização correta consiste precisamente em não omitir detalhes e circunstâncias. As minúcias atuam com regularidade, diariamente, em todas as horas, e são as componentes da vida (1981:24).

 E porque a vida é feita de um inventário de aparentes miudezas, especialmente para as crianças, que buscam transformar tudo em algo significativo, é que optamos por construir uma história de crianças a partir da memória de quem passou pela infância e sobreviveu.

 

E a história continua...

 

Lembrando dos detalhes e do que muitas vezes, como adultos, consideramos “mesquinharia” de criança, procuramos nas lembranças os indícios, as miudezas e o cotidiano, caracterizando-os de acordo com as reincidências nas histórias de vida. Essa tarefa possibilitou pensar em como foi a infância vivida por esse grupo de mulheres, que atualmente também marcam e se relacionam com crianças no seu trabalho diário.

Buscando pistas para responder a esse questionamento, iniciaremos procurando caracterizar a infância. Esta seria um período da vida humana marcada não somente por uma cronologia específica, mas também por ser um momento de iniciação do indivíduo no seu grupo social. O grupo está organizado a partir da família, do contexto cultural, político, histórico, enfim por se envolver em espaços em que uma quantidade de experiências vai constituindo e formando a pessoa.

Entretanto, sabemos que essa referência moderna à infância e a importância dada à criança é recente e nem sempre se constituiu desta maneira. Por diversos períodos temos a exclusão da criança como sujeito importante para a sociedade. E aqui poderia falar de determinados períodos históricos e suas formas de tratamento destinado à infância. Desde o abandono de bebês na Antigüidade, até a figura do adulto em miniatura representado pela arte medieval, bem como o surgimento do “sentimento de infância”[3]. Nesse contexto, um marco importante seria o século XVII, quando, segundo ARIÈS, a criança passa a ter existência social.

Essa existência se dá a partir do momento em que adultos começaram a ver a infância como período marcado por características e particularidades próprias, ou seja, a criança passa a ter importância para a sociedade, ser parte da família e ser capaz de provocar sentimentos nos adultos.

No entanto, essas referências à afetividade entre adultos e crianças também podem ser determinadas pela organização social, cultural que começa a se configurar a partir do período moderno e acaba por construir uma concepção de criança até a atualidade.

Atualmente a criança é legalmente considerada um sujeito de direitos e temos uma legislação que garante pelo menos teoricamente essa condição. Mas não queremos aqui entrar nos meandros da legalidade, nem do discurso que está posto sobre a condição da criança hoje. O interesse maior diz respeito às histórias ouvidas de diversas pessoas que foram crianças e que hoje, adultas, trabalham com crianças, tendo um cotidiano marcado por situações que muitas vezes os caminhos da teoria não conseguem entender.

Afinal, quem foi a criança que esteve vivendo as histórias deste período? Quais as lembranças mais marcantes? Tenho claro que estou falando de adultos que tiveram a oportunidade de rememorar, “trazer de volta”, lembrar de situações e descrevê-las a partir de uma visão da atualidade. Entretanto, falando em lembranças, a memória selecionou alguns aspectos com maior clareza que outros. Nesse sentido, optei por colocar os cinco pontos que mais reincidem nas histórias.

 

Nesta história nos lembramos que...

 

Em primeiro lugar aparecem as lembranças da escola, a grande maioria lembrou de fatos relacionados à escola, à primeira professora, às atividades escolares, ao espaço físico, enfim, ao universo e à organização escolar.

Em segundo lugar, vieram as lembranças com relação às perdas sofridas na infância. Quase todas as pessoas relacionam a morte de pessoas queridas, familiares, pessoas próximas à família. Também foram lembradas as perdas com relação a objetos e situações vividas (brinquedos não ganhos ou retirados, negação da participação em festas, viagens, brincadeiras, etc.)

Em terceiro lugar, vieram as lembranças das brincadeiras. Estas realizavam-se em companhia de amigos, familiares, vizinhos. Os espaços utilizados eram a escola, a família, a casa, o quintal, a rua, etc.

Em quarto lugar, vieram as lembranças de violência na família e na escola. Esta violência era exercida na escola por professores e professoras, colegas de classe, e os motivos envolviam disciplina, conteúdos de ensino, brigas com colegas, objetos uns dos outros, brinquedos e brincadeiras.

Na família a violência era exercida pelos pais, avós, tios. Os motivos relacionavam-se a um comportamento indesejável, ao trabalho não realizado, ao desacato aos mais velhos, ao cuidado excessivo dos adultos pela criança. Muitas vezes a violência acontecia em decorrência do alcoolismo paterno ou da separação dos pais.

Em quinto lugar vieram as lembranças associadas ao trabalho. As crianças trabalhavam desde a mais tenra idade, na agricultura, nos afazeres de casa, cuidando de irmãos menores, além de cumprirem o período escolar. Um dos motivos está associado à pobreza da família.

Temos ainda separação da família, quando a criança teve que morar com outras pessoas (avós, padrinhos, madrasta, padrasto...), o nascimento de irmãos menores tornando-se responsabilidade do mais velho e ainda o casamento dos pais, que mudou a configuração da família, provocando problemas de relacionamento.

Finalmente, as lembranças falam num percentual bem pequeno do bom relacionamento e das situações vivenciadas na família, especialmente com os avós. E também de presentes ou brinquedos ganhados na infância, participação em festas de natal, aniversário, momentos quando a criança foi o centro das atenções, rituais religiosos, atividades da comunidade, porém tudo isso em menor número de reincidências. 

O material recolhido dá possibilidades de empreender diversas discussões sobre diferentes aspectos e percepções. No entanto, procuraremos nos ater aos cinco primeiros temas que são freqüentes e que marcam a história de cada uma das pessoas envolvidas.

 

A histórias podem nos indicar que...

 

A princípio temos uma concepção da infância como um período idílico, com imagens que nos remetem a brincadeiras, despreocupação, tranqüilidade, falta de responsabilidade, onde as cores, a imaginação, a criatividade, a alegria estão sempre presentes. Não é difícil encontrar adultos que falam de sua infância com saudosismo, considerando-a um bom momento de suas vidas. Diante dessas considerações, podemos nos perguntar: a que se deve essa lembrança? Será que a infância para a criança é um período tão bom assim? Por que nas histórias de vida as pessoas lembraram-se mais dos fatos desagradáveis ou lembranças tristes?

Poderemos ter algumas pistas a partir das próprias histórias, que são fruto do relacionamento estabelecido entre adultos e crianças. Nesse sentido, a discussão passa por essa relação tensa e conflitante. O adulto como responsável pela criança estabelece normas e comportamentos para sua educação, muitas vezes sem considerá-la como pessoa participante e presente no processo. Todavia a relação de poder é equilibrada, pois a criança também se posiciona, ainda que o controle pareça do adulto e ela tenha que sofrer as sanções pertinentes.

Assim, podemos dizer que todas as dificuldades existentes no relacionamento derivam das imposições e das regras estabelecidas que precisam ser cumpridas e acabam por ser infringidas por uma das partes. Geralmente a criança é que não cumpre os acordos, na ótica do adulto. Mas são as lembranças de cada um que darão os sinais para compreendermos esses relacionamentos. Nesse sentido privilegiaremos os espaços da família e da escola.

Lembrar da escola, de alguma forma, foi reportar-se a um espaço que não significava apenas novidade e desejo de descobertas, mas possibilidades de fazer novas amizades, de aprender a ler e escrever, da primeira professora; enfim, as lembranças correm por diversas sensações e sentimentos com relação a essa primeira experiência fora do espaço familiar tão presente na vida de cada uma.

As histórias se misturam e se envolvem em vários aspectos, constituindo-se assim num inventário de situações em que as repetições expõem relacionamentos conflituosos:

 

“Lembro da primeira vez que fui para a escola, eu tinha medo, ficava sentada num cantinho, com vontade de ir para casa. Não conversava com ninguém”.

 

“Lembro da briga que a professora fez porque eu não sabia os números na escola”.

 

“Lembro do meu primeiro dia de aula, foi um horror”.

 

“Lembro da minha primeira professora pois gostava muito dela”.

 

“Lembro da minha primeira professora, que eu levava morangos para ela”.

 

As lembranças se estendem por muitas histórias. A predominância são as experiências difíceis, sempre envolvendo a professora e o primeiro momento da ida para a escola. A escola, naturalmente, como uma obrigação social inerente a todos os indivíduos da nossa sociedade, provocará na criança repúdio por um espaço que ela não conhece. Muitas vezes é não somente a dificuldade e o medo em enfrentar uma situação nova, mas as fantasias criadas em torno do espaço escolar, que envolvem o imaginário da criança e dificultam a aceitação.

Ela não sabe o que vai encontrar, como será a professora, como são os colegas. A organização escolar é um mistério para a criança, No entanto, a imagem criada é de um local ruim, controlador, espaço de obediência e submissão. Em todas as histórias, além do silêncio com relação a essa lembrança, foram pouquíssimas as referências agradáveis que tenham provocado um desejo de freqüenta-la.

Essa visão da escola como espaço coercitivo, frio e autoritário também povoou a infância de pessoas que atualmente, não estão no “anonimato”, como as minhas entrevistadas. Cito entre elas o escritor GRACILIANO RAMOS, que descreve a escola da sua infância:

A notícia veio de supetão: iam meter-me na escola. Já me haviam falado nisso, em horas de zanga, mas nunca me convencera que realizassem a ameaça. A escola, segundo informações dignas de crédito, era um lugar para onde se enviavam as crianças rebeldes. (...) A escola era horrível – eu não podia negá-la, como negara o inferno. Considerei a resolução de meus pais uma injustiça. Procurei na consciência, desesperado, ato que determinasse a prisão, o exílio entre paredes escuras. (...) Lembrei do professor público, austero e cabeludo, arrepiei-se calculando o vigor daqueles braços (1986:113-114).

 De quem é a responsabilidade quando uma criança faz uma imagem da escola dessa forma? Acredito que somos nós, adultos, que criamos a instituição e a organização escolar nesses moldes. Certamente encaminharemos por outra discussão que aqui não teríamos tempo para empreender, mas que nos estimula a pensar em qual tem sido a representação da escola para as crianças. Nesse caso, seria interessante ouvi-las. A escola é um espaço interessante, criativo, motivador, que desperta na criança o desejo de passar por ela? O que, como educadores, provocamos nas nossas crianças? Porque tanto choro e desejo de voltar para casa quando a criança se depara com a obrigatoriedade de freqüentá-la? Mas não é somente de lembranças da escola que a vida é feita. Crianças tiveram marcas que nos estimulam a continuar nessa caminhada, pensando sobre sua história.

 

As lembranças das perdas e das tristezas sofridas poderiam ser encaminhadas pelas seguintes histórias:

 

“Lembro que perdi minha mãe num acidente quando tinha três anos”.

 

“Lembro quando eu estava com 6 anos de idade meu pai faleceu, como minha mãe não tinha condições de trabalhar e cuidar de mim e minhas irmãs nós fomos para um colégio interno. Só vínhamos passar as férias com ela”.

 

“Lembro da morte de meu pai, foi uma coisa que gostaria de poder entender naquela época”.  

 

“Lembro que quando íamos na escola éramos muito pobres e no inverno eu ia de chinelinho havaiana. Um dia meu pai me deu um sapatinho e fomos passear na casa de uma amiga. Lá a avó dela estava torrando farinha e ela jogou meu sapato no fogo e eu não esqueci até hoje”.

 

“Lembro quando ganhei uma sombrinha da minha avó no natal e no mesmo dia o papagaio furou todinha”.

 

As situações vividas pela família são circunstâncias alheias à vontade individual e de difícil compreensão para as crianças. O interessante é perguntar porque essas experiências se gravam na memória, tornando-se marcos de um determinado período da vida. Ao pedir que as pessoas se referissem a infância, em nenhum momento foi definido o tipo de lembrança que poderia ser registrada. Qual não foi a surpresa ao perceber como essas situações são as mais marcantes.

A criança como o adulto está exposta a situações de perdas, a diferença é que para ela são situações incompreensíveis. Por que morre o pai, a mãe, os avós, as pessoas próximas? E aí, explicar o fenômeno da morte como algo paralelo à vida se torna uma tarefa complicada, da qual o adulto, muitas vezes, não consegue convencer. Nesses casos ele acaba provocando possíveis soluções criadas pela própria criança. Lembro aqui de um texto de PEDRO BLOCH que passou a vida compilando concepções da criança sobre o mundo e suas relações e que nos conta:

Clarissa acha que certas pessoas são uma espécie de reserva da humanidade e não deviam morrer. E exemplifica com Leonardo da Vinci, Honoré de Balzac, Monteiro Lobato...nomes que ela aprendeu na TV, no ‘Sítio’. E ainda diz, pra encurtar: – Se eu, por exemplo, fosse rainha dos Estados Unidos não deixava ninguém morrer (BLOCH, 1984:28).

As impressões que as crianças têm sobre a vida e a morte são criativas, originais e baseadas em sua concepção de mundo. Na maioria das vezes entram em conflito com as inúmeras idéias que temos pré-concebidas e que ela acabará entendendo com o passar do tempo e com a educação imposta.

No entanto, são situações, fatalidades, acontecimentos que mudam a continuidade da organização familiar e das relações da criança, impondo outra ordem nas coisas e fazendo com que ela siga por outras experiências, que posteriormente definem sua relação com o mundo.

Dessa forma, situações de perda não estão relacionadas somente a pessoas mas a objetos que são caros e importantes à criança. Na história da sombrinha que o animal furou, ou ainda do sapato que se queimou, está claramente exposta essa situação. Ficaram marcas pois se perdeu algo significativo e especial naquele momento. Provavelmente para a criança seria como perder uma pessoa próxima. O valor não está no objeto ou na pessoa mas no que aquilo representa para a criança. Porém, outras situações estiveram presentes nas lembranças e continuamos a caminhar por elas.

 

As lembranças das brincadeiras é o caminho que cruzaremos a seguir. Imaginar que a infância é um período de jogos, brincadeiras e alegrias nem sempre pode ser visto assim, na ótica da criança. Às vezes, quando crescemos, nos lembramos que passamos a infância fazendo muitas outras coisas e não brincamos o suficiente.

 

“Lembro que eu adorava brincar de fazer comida com minhas amigas”

 

“Lembro dos brinquedos que nós brincava, as bonecas eram de espiga de milho e outros mais, tudo era imaginário”

 

“Lembro que nesse tempo eu brincava com uma vizinha da mesma idade de casinha e que eram os tijolos da casa, os vidros de remédios, panos eram os que viviam nela”

 

“Lembro de brincar de água, andar descalço no barro, brincar de casinha subir em árvore, andar a cavalo”

 

“Lembro de brincar com as amigas de casinha, roda cutia, andar de bicicleta, jogar bola”

 

As brincadeiras são, na maioria delas, relacionadas à casa ou aos afazeres domésticos. O fato de serem todas meninas na infância restringiu os espaços e os tipos de brincadeiras. Assim, podemos pensar que existia uma forma para as meninas e outra para os meninos. Mesmo as que tinham irmãos se lembram de brincar sempre com mulheres, uma amiga, uma vizinha, sempre uma presença feminina. A brincadeira vai definindo e impondo os papéis sociais de homens e mulheres, como podemos perceber nas histórias.

Outra questão é o tempo para as brincadeiras. Apesar do brinquedo estar presente em várias ocasiões, as pessoas dizem que só podiam brincar depois da escola, ou dos afazeres domésticos. Reportam-se ainda ao fato de realizarem atividades consideradas hoje perigosas, como brincar próximo a rios, poços de água e animais.

Além disso, outra questão interessante é que o espaço e o tempo para a brincadeira só poderiam ser definidos pelo adulto. No entanto, a brincadeira está presente nos quintais, nas áreas verdes, nas ruas de cidades pequenas, nas casas, enfim, uma experiência marcante que ainda emociona aquelas que se referem a ela.

 

As lembranças da violência sofrida por crianças no espaço da família e da escola, certamente seriam aquelas que gostaríamos de esquecer, mas elas estão presentes, são fortes, e povoam nossos sonhos e pesadelos. É interessante nos lembrarmos que é melhor cuidarmos para que o passado não se repita. Assim, infelizmente lembramos:

 

“Lembro quando entrei na escola para estudar, meu primeiro dia de aula. Olhe o que aconteceu: passou um trator no asfalto e eu saí correndo da sala achando que era meu pai que tinha ido me buscar. Mas eu saí tão feliz que quando fui abrir a porta da sala a professora gritou comigo e eu voltei chorando pro meu lugar”

 

“Lembro que eu estava brincando e minha mãe ficou brava comigo e me jogou um pedaço de ferro, quase acertou minha cabeça e ainda me disse: quase te matei, praga”

 

 “Lembro que eu tomei uma surra tão grande. Eu nunca esqueço, foi minha avó (porque foi ela que me criou). Eu fui na catequese e na missa e não voltei ao meio dia, com os amigos que eram maiores do que eu, eles foram em uma festa e eu não sabia voltar para casa sozinha pois tinha 5 anos”

 

“Lembro do segundo casamento da minha mãe, eu fiquei feliz achando que ia ter um pai. No primeiro dia já proibiu de brincar com os primos, daí em diante foi um inferno até os 10 anos”

 

“Lembro da violência do pai alcoólatra em casa. Depois ele foi embora, ficou até o ano passado sem dar notícias nem ajuda alguma”

 

“Lembro de meu pai bêbado, batendo na minha mãe. Eu e meus irmãos fugimos, somos 12 irmãos. Depois ele chamou nós para casa e perguntou com quem a gente queria ficar, minha mãe chorava muito. Eles são casados até hoje, sinto calafrio quando me lembro!”

 

As primeiras instituições das quais a criança faz parte são família e escola. Sendo assim, são elas que marcam as primeiras experiências, as primeiras descobertas mas também as primeiras decepções, que também fazem parte do aprendizado dessa criança. Entretanto, muitas vezes a infância acaba sendo terreno onde a incompreensão, o autoritarismo e os problemas dos adultos se impõem, fazendo com que a criança tenha que conviver com situações prejudiciais ao seu desenvolvimento.

Quando ouvimos histórias de pessoas e percebemos que essas situações se repetem procuramos indícios de como está a formação das crianças. Não queremos uma postura de defender a criança como ser ingênuo, indefeso, “coitadinho”, mas certamente acreditamos que não contribui em nada a criança ter que passar por situações de violência, vexame e constrangimento,  nos espaços mais próximos como a casa e a escola.

Há de se pensar: quais motivos levam os pais, que deveriam ser as pessoas mais próximas à criança, aqueles a responsabilizar-se pelo seu cuidado, proteção e garantia de condições de sobrevivência, a impor determinadas formas de violência? Aqui, pelos relatos, poderíamos inferir sobre a questão da pobreza, do abandono, do alcoolismo, do excesso de cuidado, da preocupação com a criança, motivos que levam a tomada de posturas prejudiciais.

Entretanto, ainda que diferentes problemas estejam presentes na vida do adulto, ele precisa ter claro que a criança não pode ser utilizada como “escape” ou “bode expiatório” para descarregar suas rebeliões com relação ao mundo. A criança sempre é vítima, provavelmente por ser menor, frágil fisicamente, dependente do adulto, alvo da visão de dominação, de posse: “se o filho é meu, posso fazer com ele o que quiser”.

A violência doméstica quase sempre está associada à pobreza, aos problemas sociais, problemas de relacionamento, e pode ser percebida nas relações adulto-criança independentemente de classe social. No âmbito deste trabalho, vários casos estão associados a uma violência que pode ser intencional, inconsciente e até mesmo acidental, mas isso não retira o fator gravidade e exposição da criança a esse tipo de situação.

Os adultos geralmente usam da violência física ou psicológica pois precisam manter a relação de poder, na qual eles são os detentores da ordem. Nessa relação, geralmente a obediência e a submissão são o centro do relacionamento. Ao menor sinal de rebeldia as punições são efetuadas e as crianças sofrem as conseqüências. Em estudos sobre a violência doméstica, VIVIANE GUERRA nos traz estatísticas de que 70% dos agressores são os próprios pais biológicos, e ainda:

Nas famílias nas quais existe violência física as relações do agressor com os filhos vítimas se caracterizam por ser uma relação sujeito-objeto: os filhos devem satisfazer as necessidades dos pais, pesa sobre eles uma expectativa de desempenho superior às suas capacidades, são vistos como causadores de problemas (GUERRA, 1998:43).

Neste contexto, podemos perceber que a problemática está na concepção que temos da criança e provavelmente implica na forma de nos relacionarmos com ela. Como percebemos a infância? Qual a importância da criança nos relacionamentos que estabelecemos com ela, seja como família ou como educadores(as)? Ainda nessa história de relacionamentos temos um último tema que são as lembranças do trabalho.

 

As lembranças do trabalho na infância, associadas geralmente a pobreza, são recorrentes nas histórias de vida e vão se constituir num ponto interessante, com o qual caminhamos para o encerramento desta discussão:

 

“Lembro que com 6 anos minha mãe saía para trabalhar e eu tinha de ficar em casa, fechada, cuidando dos meus irmãos menores. Se não fizesse as coisas como a mãe queria era surra na certa”.

 

“Lembro que trabalhava com meu pai na roça porque eu tinha que ajudar, minha mãe era muito doente”.

 

“Lembro que meus pais iam para a roça e eu ficava cuidando dos meus irmãos e cuidando dos afazeres da casa, isso eu tinha apenas 5 anos mas eu lembro como se fosse hoje”.

 

“Lembro que eu apanhava muito da minha mãe porque fazia o serviço devagar. Principalmente no sábado que era dia da faxina na casa, eu não gosto de sábado”.

 

“Lembro que meus pais me puxavam pro serviço braçal e em serviço de casa. Brinquedo nem conhecia, nunca brincava”

 

 

A presença de uma infância de trabalho está associado à pobreza e às dificuldades da família. As crianças tinham sua iniciação cedo no trabalho, não somente como um valor de aprendizado na comunidade, mas eram obrigadas a assumir responsabilidade ajudando nas tarefas da casa.

Essas histórias reforçam a questão das famílias que tinham um grande número de filhos e todos eram utilizados na produção e na sobrevivência da mesma. O trabalho aparece não somente como um valor social a ser aprendido mas como imposição e responsabilidade. Quando a criança, muitas vezes, com 5 ou 6 anos cuidava das menores e tinha que organizar a casa enquanto os adultos trabalhavam em outros lugares, ela acaba por assumir uma tarefa que é do adulto.

Outra questão é o fato de serem somente mulheres. Elas vão desempenhar atividades que reafirmam papéis e as funções impostas pela sociedade. Ou seja, a mulher como representante do trabalho doméstico. Assim, a menina aprendia a cuidar da casa, dos afazeres domésticos, das crianças, costurar, cozinhar, como se ela fosse a “mamãezinha”, o adulto em miniatura, da qual era cobrada a atividade e que sofreria as sanções por não desempenhá-la de acordo. Além disso, muitas mulheres tinham uma jornada duplicada, pois também trabalhavam na agricultura.

 

E o fim desta história?

Qual a razão de um levantamento de aparentes “desgraças”? A princípio é a discussão da visão equivocada de que a infância é o melhor período das nossas vidas. É possível que ele seja um dos mais importantes por ser o momento de iniciação, de formação, de descobertas, de aprendizado, mas pode não ser o melhor. Penso que nesse momento começam os nossos problemas, ou seja, dependendo dos adultos com os quais convivemos.

Possivelmente essa não é a história de todo mundo. Diversas pessoas podem ter ótimas lembranças da sua infância, mas no caso deste grupo não foi o que ocorreu. Procurando indícios para responder aos motivos de se terem somente lembranças associadas a experiências negativas, porém a resposta ainda é uma incógnita. Poderia ser um sonoro “não sei”. Poderíamos levantar algumas propostas.

O fato de tratar-se de um grupo de mulheres advindas de regiões mais pobres não pode determinar uma resposta, pois temos casos de violência contra a infância também em meios mais abastados. Provavelmente a razão está na falta de informação do adulto com relação à importância de alguns pressupostos orientando a sua relação com a criança. Dentre esses pressupostos apontaremos a visão que se tem da criança. Qual a visão que eu tenho sobre a infância? Qual importância têm as crianças nas nossas relações?

A partir desse olhar é possível estabelecer um relacionamento. Podemos identificá-lo por diferentes visões no decorrer da vida e da história.

A visão utilitária da criança imporá um tratamento enfatizando a questão de que ela seria “um objeto”, portanto algo que se pode fazer uso e que está à disposição na casa.

A visão da criança como alguém a ser moldado, a “cera mole, virgem”, da qual nos falava o padre MANUEL DA NÓBREGA, imprimirá um tratamento no qual a criança pode ser modelada a partir daquilo que eu adulto considero importante.

A visão mística estará associando a criança a um ser etéreo, assexuado, anjo ou demônio, dependendo da forma como ele se comporta na organização social ou da família.

A visão de “vir a ser” um projeto para o futuro, a esperança de mudanças posteriores pode levar o relacionamento a um período de “gestação futura”, sem considerar a criança e suas necessidades na atualidade.

Há ainda, e ela é muito recorrente, a visão de redentor de todas os projetos que eu, adulto, não realizei, ou seja, na criança projetam-se todas as nossas frustrações, desejos e planos.

Nenhuma dessas visões contempla ou considera o fato de que a criança é uma pessoa única com características próprias, sujeito pensante, produtor e produzido pela história e pela cultura de seu tempo. Essa criança estabelece com os adultos uma relação equilibrada de poder e, naturalmente,  gera uma série de conflitos e tensões por se tratar de um outro indivíduo, que por mais que tenha características dadas pelos pais, se constitui em outra pessoa. É o outro com quem eu preciso me relacionar. Um outro possuidor de uma diversidade de razões, desejos, particularidades, que são marcadas pela sociedade, pela cultura, mas o qual eu não posso dominar, no sentido de ser dono.

Iniciando uma discussão de que a infância seria um enigma a ser decifrado pelo adulto JORGE LAROSSA diz: “as crianças, esses seres estranhos dos quais nada se sabe, esses seres selvagens que não entendem a nossa língua” (2000:183). E são com essas pessoas que somos desafiados a nos relacionar a cada dia.

O motivo de tantos conflitos talvez esteja no fato de não compreendermos que as crianças são responsabilidade de adulto. Pois crianças são opções, às vezes não, de adultos.

Não quero desconsiderar o grande  percentual de crianças com história de abandono e situação de miséria. Mas considerando o grupo entrevistado, ou de adultos que optaram por crianças. È necessário pensar no que as histórias trouxeram à tona.

Na visão que esses adultos tiveram por suas crianças, há outro pressuposto perceptível baseado no que poderíamos chamar de ausência da afetividade nas relações. Qual o motivo de tanto choro? Tantas lembranças tristes? Podemos dizer que quem não recebeu um referencial afetivo na infância, não pode retribuir às gerações posteriores? Acredito que entraríamos em outra discussão. Porém, no caso dessas pessoas, a afetividade ou a ausência dela é um marco em suas lembranças.

Como essa pesquisa não se encerra por aqui, poderíamos investigar quais as conseqüências de suas lembranças no trabalho que elas desenvolvem atualmente com crianças. 

Assim, longe de traçar receituários teóricos sobre a educação das crianças pois já dizem que “quem melhor educa filhos é quem não os tem”, a proposta é lançar elementos para a discussão dessa questão. Ela nos faz refletir sobre o que a memória tem trazido das nossas experiências e o que ela possibilita como resgate dos nossos relacionamentos, contribuindo assim com os relacionamentos posteriores.

Como profissionais envolvidas com a educação infantil e a infância, acreditamos que as marcas trazidas pela memória de cada uma permitiram um mergulho em sua própria história e a reflexão sobre as outras histórias em cuja construção elas estão contribuindo. Assim, o estímulo e a valorização da sua própria história, a partir da história oral de vida, resgatou elementos para como adultos pensarmos a concepção de criança que temos construída.

Acreditamos que as pessoas não estejam prontas e estão em permanente processo de aprendizagem. Nesse contexto, é possível imaginar que falar de sua própria infância contribuiu para pensar nas infâncias de outras crianças e no relacionamento mantido com as mesmas, especialmente em se tratando do cotidiano do atendimento à infância brasileira.

Além disso, há sempre a possibilidade de viver a proximidade com situações que nos permitam ser mais coerentes com nossos posicionamentos e com um desejo de admitir mudanças sempre que necessárias. E mudanças podem ocorrer na maneira como percebemos a criança e seus processos de desenvolvimento.

O desafio do grupo está na superação de suas concepções, arraigadas num determinado modelo de criança e na possibilidade de reverter um processo. Segundo FREUD, “a educação representa um processo, cuja intenção coletiva é “modelar” as crianças de acordo com os valores dos que vão morrer”(FREUD apud GADOTTI, 1997:173), mesmo porque há muita vida para as crianças que estão sendo iniciadas nesse processo e hoje estão entre 0 e 6 anos na educação infantil. 

Terminando por enquanto essa história, gostaríamos de refletir sobre um texto dos antigos escritos de um profeta judeu, Jeremias, que diz: “quero trazer à memória o que me pode dar esperança”. Se conseguíssemos ter um domínio sobre as nossas memórias poderíamos trazer somente aquilo que fosse agradável, mas estaríamos negando o caráter seletivo da memória que traz o que marcou das nossas experiências da nossa infância. Sendo assim, propomos que com relação às crianças com as quais convivemos, possamos deixar marcas tão significativas que elas desejem lembrar para ter esperança. Esperança na vida, nas pessoas, no mundo e nas gerações posteriores.

Além disso, gostaríamos de caminhar, como nas histórias infantis, pela possibilidade de um final e “foram felizes para sempre”, mas esse desfecho só é possível nas histórias criadas e contadas pela nossa imaginação e pelo nosso desejo. O que tivemos foi a história de vida possível, contada, escrita, lembrada, sentida e vivida por cada uma de nós. Em muitos momentos desejamos ser felizes para sempre, mas o que podemos é permitir que as crianças com as quais nos relacionamos no presente, vivam uma infância com momentos e possibilidades de felicidade hoje, no seu dia-a-dia. Enfim, a nossa infância passou e o que nos resta é a esperança de possibilitar às outras lembranças significativas. Entrou por uma porta, saiu pela outra, quem quiser que conte outra!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Referências Bibliográficas

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[1] Utilizarei o termo no feminino por tratar-se somente de mulheres envolvidas com o curso e com a educação infantil nessas localidades.

[2] Considerei o período de 5 a 10 por ser duas razões: primeiro, a partir dos cinco anos conseguimos nos lembrar com mais clareza das situações; segundo, mesmo que nossa referência à infância sejam os primeiros 12 anos, optei por trabalhar com períodos de 10 em 10 anos. 

[3] Segundo ARIÈS (1981), este sentimento caracterizava-se pela percepção da particularidade infantil. A sociedade começa a perceber que a criança era uma pessoa com características próprias, diferentes do adulto, por isso precisaria ser tratada diferente. E esse sentimento desenvolve-se a partir do século XVII, iniciando o que ele chama de inserção social da criança.