AS TVES, AS
TEORIAS DA COMUNICAÇÃO E O DILEMA DA ESCOLA
Cláudio Márcio
Magalhães
Vera Regina
França Veiga
A história de confronto
entre teorias e modelos não é nova. Ela acompanha a própria história da
televisão e de outros tantos meios de comunicação. O mais clássico é o do
pensamento pragmático americano versus a sociologia européia, que tanto já
rendeu pesquisas e literaturcientífica. O confronto parece até natural.
MATTELART cita Robert K. MERTON, sociólogo americano, que colocou lado a lado a
sociologia européia do conhecimento com a sociologia da comunicação em voga nos
Estados Unidos. Conforme Matellart, Merton “viu a expressão de duas
mentalidades, de duas visões de mundo, de duas culturas diferentes: a européia
tem tradição filosófica, a americana tem orientação empírica”. Mattelart
destaca as próprias palavras de Merton. “O norte-americano sabe do que fala e é
pouco. O europeu não sabe do que fala e é enorme... O europeu imagina onde o
americano observa. O norte-americano investiga a curto prazo. O europeu
especula a longo prazo” (MERTON apub
MATTELART, 1986: 1).
As TVs educativas (TVEs), talvez por sua especificidade,
refletiram diretamente as mudanças e os conflitos teóricos e tornaram-se
exemplos concretos da contextualização histórica, da trajetória e do convívio
da comunicação e educação, esta outra prática social indissociável no cotidiano
das emissoras educativas. As TVEs podem servir de um pano de fundo em qualquer
discussão que envolva comunicação e educação na TV, já que está instalada nela
a origem de qualquer produção neste sentido.
TVE e Teoria
norte-americana
Nos
Estados Unidos, lar da Teoria Hipodérmica, Teoria da Informação, Teoria
Funcionalista, os estudos, apesar de suas diferenciações, mantiveram uma linha
fundada na perspectiva do “estímulo-resposta”. As teorias americanas têm,
basicamente,
“a preocupação com os efeitos da comunicação; o estabelecimento
de suas funções, e uma vertente de estudos operacionais, que vão buscar dar
conta da natureza do processo comunicativo através da identificação de seus
elementos internos” (ARAÚJO, 1996:75)(grifo nosso)
Adriano RODRIGUES sintetiza
este pensamento dizendo que
“o contexto teórico em que, nessa altura, os estudos acerca de efeitos
que a comunicação social, em geral, a imprensa escrita, a radiodifusão, a
televisão, a propaganda ou a publicidade, em particular, exerceriam sobre as
atitudes e os comportamentos dos indivíduos era o da perspectiva behaviorista
ou comportamentalista então dominante nos Estados Unidos da América” (RODRIGUES,
1994:42)
A linearidade dos modelos
americanos mais difundidos, apontado por Mattelart, é presente nas ‘fórmulas’
de comunicação elaboradas em 1948 tanto por LASSWELL como por SHANNON (COHN,
1978). Conforme o pensamento destes modelos (que sintetizam o paradigma da
teoria americana), a iniciativa e o controle partiriam, sempre, do transmissor,
objetivando um resultado específico, no final do processo. Sua estrutura linear
era tão próxima da estrutura de fórmulas matemáticas, onde se busca a solução
de uma questão (“fonte”, “quem?”), passando por um processo racional, lógico e
por etapas, até uma solução definitiva (“destino”, “efeito”) que se encaixava
perfeitamente em todas as ciências que buscavam respostas concretas. Conforme
Mattelart “a teoria matemática da informação se revelará um ponto de reunião
para disciplinas tão diversas como a física, as matemáticas, a sociologia, a
psicologia, a biologia molecular e a lingüística” (MATTELART, 1986: 3).
Os
elementos que compõem estas fórmulas ocuparam pensadores. Como em uma linha de
produção, se conseguir entender todos os elementos que produzem um produto
determinado, a possibilidade de desenvolvê-lo, e conseqüentemente, dominá-lo, é
ainda maior. Uma linha teórica sintonizada com o momento histórico vivido pela
cultura americana, voltada fervorosamente para a manutenção e fortalecimento do
sistema capitalista. Um sistema que, não por coincidência, tem a divisão como
principal suporte de sua estrutura.
Assim,
a televisão norte-americana, na qual se baseia o modelo brasileiro em grande
parte, já nasceu com um propósito dentro desta perspectiva linear: auxiliar um
sistema econômico em expansão em busca da demanda reprimida com o pós-guerra.
Os empresários (transmissores com a iniciativa e a busca pelo controle)
precisavam motivar os milhões de americanos para a compra de seus produtos, de
uma maneira rápida, geral e massiva. Para George GORDON, um dos principais
pesquisadores da televisão educativa nos EUA.
“O ano de 1948 assinalou o começo da ascendência da televisão na
América: as transmissões em cadeia tiveram início no fim da II Guerra Mundial,
a produção de receptores elevou-se, e o apoio da propaganda - tão vital para a
transmissão comercial - começou a preferir a televisão a outros veículos”
(GORDON, 1967: 17).
Não
é de se estranhar tamanha correria dos empresários em fornecer à televisão os
recursos necessários para a sua expansão. A sociedade científica americana e
seus patrocinadores buscavam o efeito ‘estímulo-resposta’, teorizado e
praticado em meios de comunicação menos abrangentes, como os jornais e os
rádios. E, neste ponto, entra-se em um círculo vicioso e de crescimento
geométrico: com a penetração da televisão, um veículo surpreendentemente mais
poderoso do que quaisquer dos outros veículos até então, o cotidiano foi
alterado e o consumo dos produtos da TV incorporado à vida social, em uma
proporção espantosa para a época. Comprovava-se, assim, a ‘verdade’ das teorias
do ‘estímulo-resposta’ como se, em poucos anos, os experimentos de laboratórios
fossem realizados em milhões de pessoas. Com isso, nada mais natural do que,
então, realizar mais pesquisas para aprofundar e dissecar todos os elementos
desta teoria já ‘comprovada’. E a cada novo resultado, que, pela linha seguida
(e pelos objetivos perseguidos), demonstravam outras ‘respostas’ ao ‘estímulo’
televisão, reforçava o meio como principal aplicação prática das teorias
lineares e, consequentemente, mais atrativa para os empresários, criador de
‘estímulos’ e produtos para o consumo, a resposta ‘adequada’.
Este
anseio do homem de explicar sua sociedade e seu estilo de vida por uma base
teórica refletia na popularização das teorias, confirmando que, também elas,
são frutos de um contexto social.
Desta maneira, não é de se
estranhar que um projeto de televisão que não visasse o incentivo ao consumo e
o lucro ficasse à margem do processo. Assim, a TV educativa americana ficou
restrita às instituições de ensino, e de uso limitado, basicamente em circuitos
fechados de ambientes acadêmicos. A rede PBS (Public Broadcasting Service), que
agrega as emissoras públicas com fins educativos e culturais, somente foi
surgir em 1967 e, ainda hoje, é limitada em abrangência e atuação. É mantida
por doação dos telespectadores com pouca participação do Estado e da iniciativa
privada.
TVE e o modelo
europeu
Já
na Europa, a história transcorre em outra direção. Há uma apropriação da Teoria
Crítica, perspectiva em grande discussão na época do surgimento da TV. A
‘manipulação das massas pelos detentores do poder’, tanto do poder político
como o econômico, inspirada em interpretações da Teoria Crítica, encontrou nos
meios de comunicação modernos, em especial os eletrônicos de massa (rádio e
TV), a eminência de sua comprovação. Do outro lado do oceano, nos EUA, a TV já
emitia sinais que fortaleciam a preocupação dos pensadores europeus com a sua
utilização comercial. A Teoria Crítica, desta maneira, gerou um desdobramento
importante na estruturação das TVs européias, que se desenvolveram preocupadas
em não cumprir as premonições da Escola de Frankfurt e, muito menos, repetir o
mesmo vínculo comercial do modelo norte-americano.
Aliás, a falta do diálogo
entre a sociologia funcionalista americana e o pensamento sociológico europeu
era importante fator para que os pioneiros europeus em televisão buscassem
ampliar ainda mais esta distinção. A Europa tinha uma tradição fortemente
humanista em contraposição ao funcionalismo e as práticas laboratoriais
americanas. Neste sentido, a cultura, tanto na sua preservação quanto na sua
divulgação, dentro do seu papel de formação do homem, nunca poderia ser, para a
tradição européia, parte de uma indústria com fins capitalistas.
Os Estados europeus, com o
desenvolvimento da TV, assumem sua direção, utilizando, para isso, o monopólio
das transmissões e estabelecendo programação valorizando o conteúdo em
detrimento da forma. Cabe à ‘sociedade’ (leia-se Estado) gerenciar a TV em
benefício do cidadão, utilizando o meio sem distinção de classe, sem qualquer
fim comercial e voltado para a formação social do indivíduo.
Sua programação,
preferencialmente, formada por programas com contexto educacional, valorização
da produção local e a busca de uma forma e um conteúdo mais reflexivo e
consistente, abrindo mão de uma transmissão mais dinâmica, veloz e fragmentada
como a americana. A TV deveria cumprir sua função de formar um cidadão crítico
de sua sociedade, com informações suficientes para tomar decisões em seu
benefício e do coletivo e sem fins lucrativos e comercias.
Desta maneira, em tese, as emissoras
européias já nasceram educativas.
Este modelo não resistiu à
era dos satélites que levou a televisão americana para as casas européias. Em
pouco tempo, as TVs estatais e monopolistas se viram obrigadas a se adaptarem,
estética e ideologicamente, comprando programas americanos e, recentemente,
abrirem seu espaço para a comercialização, incluindo vários processos de
privatização e aberturas de canais privados.
TVE, Educação
e Comunicação: uma trajetória.
A história das TVs
educativas no mundo e no Brasil não está à margem da história da televisão como
um todo. Tanto no modelo americano quanto no europeu, as TVEs foram
conseqüência imediata do surgimento do novo meio de comunicação.
No entanto, algumas
características da trajetória das TVEs são singulares. É uma história que
carrega em si paradoxos e dilemas que extrapolam as TVs comerciais, quanto à
amplitude da análise e complexidade do seu contexto. Não é uma história
autônoma, e o seu desenvolvimento é marcado por influências interdisciplinares.
Pode-se dizer que a televisão comercial (independente do modelo) em pouco tempo
começou a andar por suas próprias pernas, recursos e conquistas. A TVE, por
outro lado, dependeu de tantos fatores que sua história é um emaranhado de
outras histórias. A trajetória das TVEs permeia a relação entre comunicação e
educação, os movimentos teóricos de ambas as áreas, os períodos
histórico/sociais, o desenvolvimento dos modelos americano, europeu e estatal
de se fazer televisão. Não é a cada momento uma influência. É, no mesmo tempo,
todas as tramas sociais se movimentando.
O contexto
histórico e a ‘virada’ das TVEs
A
discussão das teorias de comunicação marcaram definitivamente a trajetória das
TVEs. Se as televisões educativas surgiram atreladas a cada um dos seus
modelos, americano ou europeu, mais atreladas estavam com as discussões
teóricas do momento. Um dos exemplos ilustrativos pode ser apreciado nas
recentes mudanças porque passaram as TVEs.
Aparentemente, presenciamos,
de alguns poucos anos para cá, uma espécie de ‘virada’ nas TVEs, com aumento em
seus índices de audiências e o surgimento de várias emissoras e canais a cabo
especializados: TV Senac, Canal Futura, Discovery Channel. Em conjunto, a
qualidade técnica de sua programação melhorou e diversificou os formatos e
conteúdos dos projetos educacionais que iam ao ar.
Afinal,
mudaram as TVs Educativas? Nos EUA, o que faz os telespectadores bancarem,
através de doações, mais de 60% dos custos das TVs ligadas a PBS - Public
Broadcasting Service, rede de emissoras públicas regionais, e que veiculam os
principais programas educativos, mesmo com baixos índices de audiência? Por
que, na Inglaterra, não existe um movimento significativo contra uma possível
‘exploração’ do Estado ao cobrar U$135 anuais por TV domiciliar destinado à
manutenção da BBC?[1]
A resposta é uma só: a
sociedade quer assim, e trabalha para isso, indicando a impossibilidade da
desvinculação entre a teoria e a prática, entre os meios e os contextos onde
atuam, as TVEs mostram que as ‘novas’ linhas de estudo teórico da comunicação
não são frutos de pensadores e pesquisadores que se encarregam de repensar, por
exemplo, as teorias tradicionais ‘revelando’ uma ‘nova verdade’, através de uma
‘grande virada’ ou algo semelhante, mas resultados de toda uma complexidade
histórica envolvendo seus aspectos sociais, culturais, econômicos e
antropológicos. Embora possam existir momentos com relativa facilidade de
delineação histórica, a ponto de marcarmos com datas ou expressões como
‘virada’[2],
ainda assim as teorias acompanham a prática social e o movimento das
sociedades, entendidas dentro de todo o seu contexto humano, econômico,
cultural e histórico.
Assim, as TVEs, como as
teorias da comunicação, não sofreram ‘viradas’, mas acompanharam a evolução de
seu campo de estudo e atuação, sendo, também, partes do jogo complexo e
dinâmico que forma a realidade.
Um dos exemplos desta
interligação entre teoria e prática, passado e presente, apreensão e evolução,
está na história das TVs públicas européias. Conforme citado por LEAL FILHO, em
um estudo sobre a BBC da Inglaterra,
“com as pressões liberalizantes dos anos 80, essas idéias (sobre TVs
públicas) sofreram críticas que abalaram muitos dos serviços públicos
existentes. Mas “passado o dilúvio”, como alguns autores chamam esse período,
houve uma retomada da defesa do serviço público. As emissoras européias
voltaram a se rearticular na defesa do espaço aberto na segunda década do
século XX e que foi fortemente reduzido em sua penúltima década. Ainda assim
ele permanece vivo, tendo como referência os modelos pioneiros.” (LEAL FILHO,
1997:, 27)
Mas como conciliar o ato de
educar, que é um processo que, para ser eficiente, deve ser inteiramente
interativo e valorizar o indivíduo, com um meio que tem como principal
característica a potencialidade de massificação da mensagem e a separação
física entre transmissor e receptor?
A
circularidade, a complexidade, a interatividade, temas caros estudados por
nossos cientistas de comunicação na atualidade, na realidade unem pesquisadores
através de gerações e comprovam três aspectos defendidos aqui: a) não há sobreposição de teorias e práticas, em detrimento
uma das outras, como se uma nova linha de estudo ultrapassasse as demais, mas
sim sua utilização, ou não, como embasamento de novos pensamentos. Uma teoria
que se pretende ampla, demanda outras complementares, específicas e com
possibilidades de abertura de diálogos com outras linhas de pensamento; b) não há nada de tão novo assim nas ‘novas’
teorias da comunicação que já não tenha sido apontado anteriormente e que,
c) por estarem dentro de um contexto
social distinto, não foram destacadas no meio científico naquele momento
por uma série de fatores na sociedade onde estavam inscritas.
Dentro
do panorama social americano dos primeiros anos da televisão, a idéia de uma TV
que não estivesse voltada para o comercial era bem aceita. Já em 1943, a
poderosa Federal Comunication Comission
(FCC), que regia e administrava a concessão de rádios, recebia pressões contra
a liberação de canais para a educação. No entanto, segundo o Sr. Willian S.
Paley, então presidente do Colombia Broadcasting System, acreditava-se que tal
serviço seria desnecessário, já que as atuais emissoras cumpriam o papel de
educadores e prestadores de utilidade pública. Conforme sua opinião - dentro de
seus critérios pessoais, 69% dos seus programas já tinha este caráter, contra
apenas 31% de programas comerciais. E acreditava que os donos das redes
continuariam benevolentes e cumprindo o seu papel social e educador: “Este fato
funciona como uma garantia importante de que os longos períodos que, agora,
geralmente dedicamos a programas educacionais, culturais e informativos, não
serão reduzidos”[3], embora seja
óbvio a comercialização através do uso do entretenimento o principal objetivo.
Sr. Paley estava tão preocupado com o perigo por quê passava a comunidade, caso
fossem concedidos canais específicos para educação, que acreditava ser um
grande prejuízo à Nação. “Isso não constituiria uma duplicação desnecessária de
serviços e um ônus desnecessário para os contribuintes?”.[4]
Era
um temor natural de quem só tinha colhido benefícios da fórmula
‘estímulo-resposta’, mas acreditava que, uma vez mudado o estímulo, a resposta
poderia não ser tão benéfica. Esta preocupação se refletiu em uma mobilização
empresarial contra as concessões educativas, muitas vezes recorrendo a uma
argumentação alarmante, com uma visão neurótica do fascismo, utilizando uma
incoerência risível, mas que demonstrava, com exatidão, o verdadeiro papel
exercido pela TV nas mãos dos empresários. “Queremos nós uma gigantesca máquina
de propaganda de televisão, de propriedade e sob o controle dos educadores na
nação?”, dizia um panfleto distribuído pela associação estadual de emissoras de
Ilinóis dentro do processo para evitar que a universidade do Estado tivesse a
sua própria estação de TVE.[5]
Graças,
no entanto, a uma grande mobilização dos educadores americanos, as pressões não
surtiram todos os efeitos desejados pelos empresários e, após um período em que
o FCC congelou as distribuições de concessões, para apurar uma série de
irregularidades e minimizar as pressões, de ambos os lados, em 1952 foram
reservados 242 canais de rede de televisão para uso não-comercial e,
exclusivamente para fins educativos. Em 12 de maio de 1953, a Universidade de
Houston, em conjunto com o Conselho de Educação de Houston, colocou a primeira
estação educativa dos Estados Unidos no ar.
Mas, afinal, o que seria uma
TVE?
No princípio, o conceito de
televisão educativa não dizia respeito às emissoras voltadas para fins
educacionais, mas a toda forma de veiculação, via TV, de programas e projetos
que objetivavam o ensinamento. “O uso popular permitiu ao termo televisão
educativa compreender quase todo tipo de programa educacional de televisão,
apresentado para qualquer finalidade séria ou que tente ensinar alguma coisa”
(GORDON, 1967: 14).
O conceito abrangia várias
ações: a) transmissões de circuito fechado, b) emissoras de sinal aberto, tanto
de pequeno alcance como as grandes redes, c) utilização de vídeo em aula, d) as
TVIs, a televisão instrutiva, de transmissão aberta mas limitada a um público
específico, com programas específicos semelhantes aos sistemas adotados para os
seminários a distância, via satélite, realizados atualmente.
Somente em 1963 que o
Serviço Fixo de Televisão Educativa, pertencente a FCC, declarou: “A finalidade
primordial do novo serviço é transmitir matéria educativa visual e sonora a
determinados locais receptores, em escolas públicas e particulares, faculdades
e universidades e outros centros de instrução para a educação formal dos
alunos” (BURKE, 1974:151). Embora com grandes limitações de alcance e de
programação, era o embrião para o surgimento do atual conceito de TVEs,
descolando as emissoras dedicadas à educação das com finalidades comerciais.
Esta
demora na definição do conceito de TV Educativa deve-se, também, à valorização
do meio como principal enfoque no
processo comunicativo. Em resumo, onde houvesse um aparelho de TV, e nele
fossem veiculados imagens e sons com o objetivo educacional, ali haveria uma
televisão educativa. Não importa se em circuito fechado, em rede nacional, via
TVI ou até mesmo a utilização de vídeos em sala de aula. Afinal, do ponto de
vista da Teoria da Informação, o que acontecia, quando um cidadão se colocava à
frente do aparelho de TV era a finalização de um processo comunicativo,
esperando-se que a instrução se constituísse no efeito do programa. Não é a toa que KOENIG e HILL (1970: 9)
conceituam a TVE como “um meio que
difunde programas dedicados a informação, a instrução, a temas culturais e de
interesse geral, e de entretenimento”(grifo nosso).
Na
Europa, a história fora totalmente diferente, assim como foram, também, os
caminhos dos teóricos que formularam a Teoria Crítica.
“O rádio e a televisão são veículos da produção cultural de um povo ou
de uma nação e, para exercerem essa tarefa não podem ser contaminados por
interferências políticas ou comerciais. Ainda que marcada por uma forte dose de
purismo, foi essa a concepção que sustentou durante quase sessenta anos o
modelo de rádio e de televisão adotado na Europa ocidental”(LEAL FILHO,
1997:17)
Esta descrição de Leal Filho
sobre o modelo europeu de televisão demonstra que, na intenção, todas as
televisões dos países europeus começaram educativas, no sentido mais amplo da
palavra. E, por sua vez, mais próxima de um conceito de TV educativa elaborada.
O primeiro diretor da BBC, John Reith, afirmava que um dos objetivos do novo
veículo era “proporcionar a criação de um eleitorado mais inteligente e
iluminado tornando-se um fator de integração para a democracia”.[6]
Leal Filho aponta três
razões para explicar a adoção de um modelo público na Europa: a) técnico, pelo
avanço das pesquisas de radiodifusão e do controle estatal do espectro de
freqüências; b) culturais, onde a TV vinha se juntar “aos empreendimentos
culturais responsáveis por gerar e disseminar a riqueza lingüística,
espiritual, estética e ética dos povos e nações”, estando no mesmo nível das
bibliotecas, universidades e museus, sendo reconhecidos pela população como tal
“distante da esfera dos negócios ou da política de partidos e grupos”; c)
política, uma vez que vivia-se os movimentos revolucionários e nacionalistas,
como o fascismo, nazismo, comunismo e até o separatismo da Irlanda.
Estas mesmas razões poderiam
ser ilustrações do porquê do desenvolvimento da Teoria Crítica na Europa: a) técnica, com um grande número de
pesquisadores e de instituições tradicionalmente ligadas a linhas de estudo
humanistas; b) culturais, onde a
própria história milenar do continente aponta exemplos de movimentos voltados
para a valorização do homem como indivíduo e moldou os valores e tradições
européias, c) política, com exemplos
mais do que recentes de manipulação, submissão das classes trabalhadoras e
controle estatal, além dos nacionalismos exacerbados das diferentes nações que
se apertavam em um único e pequeno continente. Outra vez o contexto complexo
onde mergulhava a sociedade era quem forçava a aproximação entre a teoria e a
prática, Teoria Crítica e TV européia.
Não
cabe aqui discutir com detalhes a realização das pretensões das TVs européias.
Mas, o que ficou foi o controle e a submissão das emissoras ao poder estatal,
tendo como objetivo final o controle social. A TV já não era vista como um
meio, mas sim como mais um participante de um projeto de controle da sociedade.
Viria se juntar os fenômenos sociais observados pelos teóricos de Frankfurt das
décadas de 30 e 40 em que “filmes, rádios e semanários constituem um sistema
harmônico no qual os produtos culturais são adaptados ao consumo de massa e
para a manipulação dessas mesmas massas” (ARAÚJO: 1996, 82).
Assim, na Europa, não havia
uma divisão conceitual entre TVEs e TVs comerciais, uma história de TVEs
européias (assim como não existe uma teoria da comunicação européia).
“Nesse ponto é importante ressaltar as palavras que formam o conceito
de “serviço
público”. Elas são a chave para entender
toda a concepção do modelo de broadcasting adotado na Europa ocidental.
Trata-se, em primeiro lugar, de um serviço, o que indica a existência de
uma necessidade da população que precisa ser atendida. E público porque,
segundo os idealizadores do modelo, é um atendimento especial que não pode ser
feito por empresas comerciais ou órgãos estatais. Os veículos prestadores desse
serviço devem ser públicos e por isso mantidos total ou parcialmente pelo
próprio público. Só assim seriam capazes de dar conta de sua vocação cultural”
(LEAL FILHO, 1997: 18)
É importante ressaltar que, diferente
dos EUA, as emissoras eram, também, as produtoras dos programas educacionais,
sem estarem diretamente ligadas às instituições de ensino. Ao contrário dos
americanos, onde as universidades e escolas detinham as concessões de canais e
produziam para o seu público, segmentado e estritamente limitado, na Europa,
tendo o Estado também como dono e produtor, transmitia-se para todo o público
que dispunha de uma TV, com ligações parciais com as instituições de ensino,
com o Estado se sobrepondo.
Um
outro modelo de TV surgiu do europeu: o modelo estatal. Parecido com o europeu,
se destaca, no entanto, pelo seu caráter ideológico e teve início no bloco
comunista pós-guerra, onde o processo foi mais lento. Somente em 1960, a
Iugoslávia e a Polônia começaram a veicular programas educativos. Em 62, foi a
vez da televisão soviética e chinesa, voltados para as escolas e universidades.
A China chegou a montar uma rede de ‘universidades televisivas’, com estações
em Shangai, Pequim, Tientsin, Canton e Harbin, como integrante da campanha
nacional educativa para os trabalhadores. Os demais países da Europa Oriental
iniciaram a partir de 1965, tendo como exemplo as experiências da União
Soviética, dentro da sua característica de Nação satélite. Uma vez mais, a
aplicação do meio dentro de um contexto histórico, regido pelo ideológico, onde
a TV era parte integrante de um processo planejado para toda uma sociedade,
como uma peça de um mosaico. Uma peça sem transmissores, mensagem ou receptores
definidos (embora existentes), mas como suporte e instrumento de uma ação
social e política com princípio, meio e fim no próprio Estado que a mantinha.
A América Latina tem a sua
própria história da televisão, um híbrido da história americana e da européia,
com um toque do modelo estatal. O controle é do Estado, que fornece as
diretrizes ideológicas e de manipulação, mas quem mantêm (e lucra) é a
iniciativa privada. As concessões são diversificadas, porém utilizadas como
barganha política entre o poder estatal e as forças políticas mantenedoras do status quo. O objetivo comercial esconde
a ideologia de controle social, em busca do indivíduo e dentro de uma formação
da massa homogênea, com a finalidade de aperfeiçoar o controle do coletivo em
geral e do cidadão em particular.
Um argumento bastante usado
pelos críticos de TV brasileira é o de considerá-la cópia do modelo americano.
Embora haja características importantes em comum, isso não é inteiramente
verdade. E uma das principais distinções entre os modelos de TV americano e
europeu em comparação com o brasileiro está justamente nas TVEs. No Brasil, as
emissoras educativas ficaram à margem das TVs comerciais, como o modelo
americano e em oposição ao modelo europeu. No entanto, nos EUA, as TVEs, embora
igualmente separadas, estavam ligadas a instituições de ensino ou de interesse
social. Aqui, a opção foi o atrelamento ao Estado, em todas as formas
possíveis. Os empregados são funcionários públicos, as diretorias indicadas
conforme arranjos políticos, a programação definida dentro dos padrões de
controle social e políticas governamentais, a legislação proibindo qualquer
tipo de financiamento por parte de qualquer segmento da sociedade, tornando as
TVEs dependentes eternas do Estado. Um modelo basicamente estatal.
Com
a abertura política, nos anos 80, resultado de um movimento mundial de
revitalização da democracia, as coisas começam a mudar. Este momento histórico
afetou diversas áreas e, naturalmente, as TVEs. Agora, era preciso resgatar a
utilidade das TVEs e fazer com que elas cumprissem sua vocação. Havia, no
entanto, uma série de dilemas a serem resolvidos. Não coincidentemente, neste
mesmo período ‘novas’ formas de se encarar a comunicação começaram a ganhar
mais destaque e é aí que a história das TVEs definitivamente se engaja com as
teorias da comunicação.
A trajetória
das TVEs e as interações comunicativas
É preciso tomar cuidado para
não analisar a comunicação a partir de uma demanda e um modelo mais ou menos
ideal de uma comunicação social. Ao contrário dos paradigmas clássicos da
comunicação – emissor-mensagem-receptor -, uma relação rígida descrita como uma
fórmula que se desencadeia e restringe seus elementos, a comunicação deve ser
vista não propriamente como uma relação linear entre emissor e o receptor. É,
sim, uma trama de relações e dinâmicas entre emissor e receptor, mas também com
a mensagem, com o meio, com o contexto social, com a história dos sujeitos, e
todos os demais fatores que, de uma forma ou outra, interagem naquela situação
de comunicação única, já que todos esses fatores não se repetirão, nas mesmas
proporções, em uma nova situação.
Não são pensamentos
exclusivamente modernos. Há sessenta anos atrás, o crítico alemão de cinema e
rádio, Rudolph ARNHEIM, em um trabalho de 1935, já falava em interatividade
relacional e social como fator fundamental para a realização da comunicação,
antes mesmo das teorias americanas. Embora o crítico alemão também tenha pontos
em comum com a Teoria Crítica, ele não se deixou levar, nesta visão da
comunicação, pela idéia da pseudo-individualidade do indivíduo onde “o sujeito
encontra-se vinculado a uma identidade sem reservas com a sociedade” (WOLF:
1995, 77). Até a linguagem perde espaço para o social. O autor escreveu que a
televisão iria provocar uma extensão direta e literal da experiência humana,
conceituando com uma expressão muito utilizada atualmente, a ‘experiência
descarnada’. Assim, a TV, segundo Arnheim, seria uma pura extensão da visão e
prescindiria quase totalmente de linguagem, daí a ‘descarnação’ da experiência:
“O estudo das descrições da linguagem se faz desnecessário e as barreiras
impostas pelos idiomas estrangeiros perdem importância. O mundo, mesmo em sua
amplitude, penetra em nossa habitação” (ARNHEIM apub KOENIG e HILL: 1970, 28).
Quase trinta anos depois, uma
nova conjunção de pensamentos. Arnheim e MCLUHAN(1974) partem da mesma
perspectiva, embora tenham conclusões diferenciadas. Arheim sustenta que a
‘experiência descarnada’ é própria da televisão e o meio nada mais é do que uma
“lente extra para o olho”[7],
assim como McLuhan afirma que a noção de conteúdo é irrelevante para o estudo
dos meios e que a extensão sensível proporcionada pela televisão é mais tátil
do que visual. “A imagem da TV, visualmente, apresenta baixo teor de
informação. Ela não é uma tomada parada. Não é fotografia em nenhum sentido - e
sim o incessante contorno das coisas em formação delineado pelo dedo
perscrutador” (MCLUHAN, 1974:351). Mas McLuhan afirma que a TV proporciona uma
experiência altamente ativa e participativa: o observador é sempre, de um modo
real, um produtor associado à televisão. Louis QUÉRÉ, quase mais 30 anos
depois, acrescenta
“A comunicação não é um processo no qual os estados intencionais são
previamente providos de suas determinações, onde os fatos e as hipóteses (representações
de um mundo real pré-definido) tornam-se mutuamente manifestos, mas uma
atividade conjunta de construção de uma perspectiva comum, de um ponto de vista
compartilhado, como base de inferência e de ação. (...) A comunicação é
essencialmente um processo de organização de perspectivas compartilhadas, sem o
que nenhuma interação é possível”(QUÉRÉ, 1991:7).
Estudar a comunicação, como
definido por FRANÇA, é buscar o domínio e o entendimento das interações sociais
e das ações recíprocas que regem na vida da sociedade e a inserção dos seus
indivíduos. “A comunicação é indissociável da socialidade – ser com, ser junto,
solidariedade de base”. (FRANÇA, 1998:55)
A contradição
da escola
Como todo processo social, o engajamento das TVEs nos novos tempos está sendo marcado por dilemas próprios. O primeiro, que Joan FERRÉS chama de “contradição da escola”, nos fala de dados estatísticos. Conforme pesquisa qualitativa feita pela McCann-Erickson no segundo semestre de 95, com crianças da classe média de São Paulo, elas costumam ficar entre 3 a 4 horas em frente da TV, sendo que 63% tem TV dentro do seu próprio quarto (QUADRADO e SOUZA, 1996:43). Desta maneira, a maioria das crianças fica mais à frente da TV do que de um quadro negro e um professor. Na mesma medida, sabe-se que não há escola que tenha uma disciplina em seu currículo escolar do tipo ‘educação para a televisão’. Esta situação é a verdadeira contradição da escola, resultado de outro dilema, onde comunicadores e educadores se digladiavam em torno de um meio que, querendo ou não, faz parte do cotidiano.
Joan
Ferrés acrescenta mais uma pergunta:
“se uma escola não ensina a assistir à televisão, para que mundo está
educando?(...)Quais os símbolos que a escola ajuda a interpretar hoje? Os
símbolos de que cultura? Se educar exige a preparação dos cidadãos para uma
integração reflexiva e crítica na sociedade, como serão integrados cidadãos que
não estiverem preparados para realizar de forma crítica aquela atividade à qual
dedicam a maioria do seu tempo?”
FERRÉS mostra que vivemos um
período crucial para a educação, mas, nem por isso, inédito.
“Quando no Ocidente a letra impressa era a forma de comunicação
cultural hegemônica, havia milhões de analfabetos. Hoje em dia, quando a forma
de comunicação cultural hegemônica é a imagem, solucionou-se quase totalmente o
problema do analfabetismo, mas há grandes massas de analfabetos na imagem”
(FERRÉS, 1996:9)
Pelo lado dos comunicadores,
os estudiosos da Universidade de Birmingham reconhecendo que, até mesmo nos
países desenvolvidos, como a Inglaterra, em nível das escolas de graduação
profissional, “muitos estabelecimentos de ensino promovem um ensino sobre o
cinema e a televisão, mas de maneira muito superficial” (HALL: 1971, 7).
Pode-se imaginar nos cursos básicos e fundamentais.
Para a análise crítica
supõe-se uma visão externa e também uma visão interna. Exige-se uma compreensão
do meio, mas não como o mediador proposto nas teorias americanas, nem como
instrumento ideológico, como na Teoria Crítica. Mas de ambos e muito mais. É
necessária esta compreensão do meio como uma compreensão da complexidade,
dentro de todas as dimensões que possuem variantes e que interferem na relação
entre TV e telespectador: tecnológica, psicológica, artística, sociológica, cultural
e ideológica. Ferrés completa sendo
ainda mais explícito quanto a sua proximidade com os estudos contemporâneos da
comunicação:
“A abordagem crítica da televisão deveria ser feita sempre a partir da
interação. A experiência televisiva é o resultado do encontro de um espectador
- com sua ideologia, a sua sensibilidade, os seus sentimentos, as suas emoções
e valores - e um emissor - com sua ideologia, os seus interesses explícitos e
implícitos, os seus valores e o seu sentido da estética. E tanto o espectador
como o emissor estão condicionados por um contexto social e cultural. Não se
deveria prescindir de nenhuma dessas dimensões”(FERRÉS, 1996: 9)
E não pode haver uma
sobreposição de uma dimensão em detrimento de outra, já que a relação está
exatamente no “entre”, entre os sujeitos interlocutores, mas também além deles,
entre todos os fatores e dimensões que participam do ato comunicativo, na
interação destas mesmas dimensões.
Carlos Eduardo BRANDÃO
reitera a inserção do homem em sua sociedade, e o caminho semelhante por que
passa o ato de educar com o de comunicar ao relembrar que, no seu ponto de
vista, “os gregos ensinam o que hoje esquecemos”:
“A educação do homem existe por toda a
parte e, muito mais do que escola, é o resultado da ação de todo o meio
sócio-cultural sobre os seus participantes. É o exercício de viver e conviver
que educa.” (BRANDÃO, 1995: 32)
O dilema da
linguagem
Um
outro dilema é o da linguagem da televisão, completamente diferenciada da
linguagem na sala de aula. Enquanto nas escolas houve pouca evolução do
tradicional quadro negro e professor, a TV, junto com o homem, criou uma nova
forma de apreensão do mundo. O ritmo dos cortes de cenas nas edições dos
programas é cada vez mais frenético. Na MTV, voltada predominantemente jovens
de 19 a 30 anos, são poucos os planos com mais de 3 segundos. O fenômeno do zapping - onde o telespectador, com o
controle remoto à mão, troca de canal durante a emissão em um ritmo rápido -
anteriormente associado às inserções publicitárias tornou-se prática de
estimulação sensorial. Estudos recentes comprovam que somente 19 a 33% do zapping está associado à publicidade.[8]
Com essa velocidade, a
fragmentação da realidade se ampliou, o conteúdo perdeu importância na
transmissão das informações, o sentido humano foi alterado em vários aspectos:
não há constrangimentos depois de uma série de pequenas notícias veiculadas em
um telejornal, de um desastre climático com milhares de mortos e desabrigados
em um país asiático, à uma guerra bárbara na África, com seus corpos
ensangüentados nas ruas. No máximo, um sentimento de pena e espanto, mas por
poucos segundos, sobreposto, logo a seguir, pela sensação de alegria pelo gol
da cobertura esportiva.
Assim, fica difícil a
linguagem da escola competir com a TV. E as TVEs, como poderiam associar dois
meios tão diversos, escola e TV? Como despertar o interesse dos jovens,
hiperestimulados pela imagem frenética e pela fragmentação da informação, ao
mesmo tempo em que repassa o conhecimento? Aliás, como repassar conhecimento
por um meio que não privilegia o conteúdo, fragmenta a informação em um ritmo
totalmente inadequado para uma sala de aula? Como usar um meio, historicamente
utilizado para o entretenimento, mais associado ao recreio, para apoiar e até
mesmo substituir a sala de aula?
Desta maneira, não é de se estranhar que os educadores e comunicadores andassem em caminhos diferenciados, cada um certo da impossibilidade de se usar a TV, de forma eficiente, para a educação. Em torno de todos esses dilemas, havia ainda o maior de todos, o da forte interatividade presente em uma sala de aula, entre detentor do conhecimento e do aprendiz do saber, e ausente com a mediação da TV com o telespectador, mesmo que haja outras formas de participação. De acordo com França
“a presença e intermediação dos meios técnicos intervém de maneira
decisiva na configuração da palavra, das relações dos interlocutores. (...) As
relações são impessoais, os interlocutores são anônimos. As funções e os
espaços de intervenção - do emissor, do receptor - são mais definidas, o que
não exclui formas de participação diferenciadas. A planificação e
institucionalização da produção significam seguramente a construção de
linguagens específicas e relações particulares” (FRANÇA, 1998: 56).
As mudanças na
programação das TVEs
Os produtores de programas
que abasteceriam as TVEs nos anos 80 em diante, começaram a se debruçar sobre
todas essas questões dentro de uma perspectiva que levava em conta a
complexidade onde atores, meios e sociedade estivessem inseridos. Não chegava a
ser uma ‘virada’, mas uma mudança significativa que Mattelart chama de ‘crise
do modo de pensamento linear’, que afeta toda a ciência, resultado também, da
mudança das sociedades em busca de sua cidadania. Mattelart sintetiza bem quando
diz que
“a figura da centralidade deixa de ser a referência real para deixar
lugar ao reconhecimento das diferenças. (...) Com a crise do pensamento linear,
é a crise da ciência una que se abre. É também a crise da teoria, é o
surgimento do pensamento da constatação, da atenção ao real, mais preocupado de
descrever o ordinário, de colar à experiência, de dar crédito ao bom senso, que
de tentar uma elucidação teórica que não desembocará imediatamente sobre o
vivido”(MATTELART, 1986: 8).
Assim, foi inevitável a
aproximação de grupos de educadores e comunicadores para, enfim, realizarem
projetos conjuntos. Experiências neste sentido, até então esporádicas,
começaram a ser uma constante e, atualmente, não se produz programas para as
TVEs onde não haja uma equipe integrada com profissionais de ambas as áreas.
Este já foi um importante
passo para melhorar a qualidade dos programas, qualidade sendo entendida como
aquela em que o projeto está adaptado ao meio, consegue manter o telespectador
atento e repassa o conhecimento dentro de critérios educacionais, além de
atrair um público cada vez maior. Mas não foi o único passo.
Já vimos que este verdadeiro
movimento em benefício do aprimoramento dos programas educacionais e, por
conseguinte, das TVs educativas, é, também, resultado do contexto social por
que passava o mundo. Unia-se a isto a divulgação de novos trabalhos e
interpretações das relações entre os homens, com destaque para as pesquisas em
comunicação social e a valorização dos processos interativos. Acontece um
movimento, na produção dos programas educativos, que, uma vez mais, aproxima as
TVEs dos estudos contemporâneos de comunicação.
Os produtores se voltam para
o cotidiano de seus públicos-alvos e enterram, de vez, as pretensões do
princípio das TVEs de educar indiscriminadamente a todos, sem distinções, nos
moldes da comunicação estímulo-resposta em massa da Teoria da Informação e da
manipulação/formação da sociedade da Teoria Crítica.
Agora é a vez de recortar,
com mais precisão, o público a ser atingido. A ordem é fazer, ao invés de
poucos programas para todos, vários projetos por objetivo e segmento.
O conceito do cotidiano, por
sua vez, não se restringe das atribuições do dia-a-dia, mas marca a inserção do
homem dentro de uma trama complexa que se estende além das 24 horas diárias da
agenda. É o cotidiano, também, permeado por várias dimensões objetivas e
subjetivas. O cotidiano
“se refere ao tempo presente - não enquanto presente absoluto, mas um
presente que se renova a cada dia, na forma de outro presente.(...) Presente
partilhado, espaço de convivência, o cotidiano é o mundo subjetivo do qual
participo com os outros” (FRANÇA, 1996: 104)
Este cotidiano que, a todo o
momento, é refeito, e só vivido através da interação.
Mas como fazer isso, se o
meio impede a interação pela presença física dos interlocutores, como acontece
na sala de aula? Bom, já que não havia maneira de participar do estar
fisicamente com os receptores, a solução foi buscar a interação através do
cotidiano subjetivo do público.
“Ao mesmo tempo, a idéia do cotidiano como estilo - essa coisa
englobante, essa atmosfera envolvente - ressalta uma outra dimensão muito cara
no pensamento de Maffesoli, que é a pulsão gregária, a atração do outro. O
desejo de se perder na massa, a busca do “aquecimento grupal”, são traduzidas
pela metáfora do contágio - uma espécie de contaminação (uma epidemiologia) que
desempenha um papel fundamental na conformação do social” (FRANÇA: 1996, 106).
É
óbvio que esta busca pela identificação do telespectador sempre foi uma
característica dos programas de televisão desde seus primórdios. No entanto, a
programação das televisões educativas se destacam, atualmente, por diversos
fatores novos:
a) aproximação da linguagem das TVs comerciais. A programação se aproxima
do modelo comercial (quase que exclusivamente de entretenimento e de
valorização da forma e do ritmo alucinante em detrimento do conteúdo) e adapta
sua meta educacional em um formato híbrido de transmissão de conhecimento com
entretenimento. Assim acontecia em programas como Vila Sésamo como acontece no Castelo
Rá-Tim-Bum da TV Cultura de São Paulo, onde a fantasia e os atores
presentes no imaginário infantil, como a bruxa, o mágico, a fada e os animais
falantes convivem, sem causar alarde, com os meninos e meninas, a jornalista, o
entregador de pizza. Usando a linguagem da televisão contemporânea, com planos
rápidos, cheios de movimentos e cores fortes, que não o descaracteriza de
qualquer outro programa tradicional da TV, o ritmo frenético é cortado por
vários ‘sub-programas’, apenas sustentados por uma linha temática tênue. Esses
‘sub-programas’ são quase que independentes, levando várias informações
diferenciadas, compactadas, fragmentadas - bem dentro das características do
meio - mas instrutivas e presentes na experiência de quem os assiste. A
frequente migração dos programas da grade das TVEs para as comerciais – Doug, Confissões de Adolescente, Mundo de
Beakman – mostram como, cada vez mais, tais programas estão sintonizados
com as demandas dessas emissoras. Programas como Repórter Eco e Planeta Terra
são uma espécie de Globo Repórter,
com uma linha investigativa de telejornalismo e a estética de belas imagens,
mas tem uma grande preocupação com o meio-ambiente e sua preservação.
b)valorização da diversidade cultural. Até pouco tempo atrás,
tentava-se impor uma cultura geral pela desqualificação da cultura regional,
por diversos fatores técnicos, políticos e sociais. Atualmente, programas que
tratam de culturas nem sempre próximas a nossa são veiculados e, percebeu-se,
não há estranheza, mas sim um despertar para diferentes realidades. O desenho
animado Meena, produzido pela Unicef
na Ásia Oriental e reproduzido em todo o mundo pelas TVEs, enfoca temas
culturais regionais tradicionais, como a obrigatoriedade das meninas em se
casar com o noivo indicado pelo pai, o desestímulo do ensino para as mulheres,
a fome, a falta de saneamento básico e o desemprego sofridos pelos povos
daquela região. Esses tipos de programas têm a pretensão de mostrar o mosaico
de realidades de que a humanidade é formada e, a partir do momento em que é
exposta, mostra a diversidade de todo o quadro. Reforça o direito e a
necessidade de existência de cada uma das peças.
c) Variedade rítmica. Em Conte
uma História, veiculado nas TVEs brasileiras, aproveitando da
hiperestimulação oferecida pelas emissoras comercias (e também pelas TVEs), o
programa oferece uma alternativa contrária quando emprega um ritmo suave, com
planos longos, sem movimentos significativos, sem alterações de audio, enfim,
sem a estrutura de um videoclip.
Antes de parecer contraditório, é um exemplo de uma série de produtos que
oferecem uma espécie de descanso para quem assiste às demais emissoras e
produtos da televisão.
d) A busca pela identificação. Confissões
de Adolescente, seriado produzido por uma produtora independente e
veiculado na TV Cultura e Rede Bandeirantes tem em sua estrutura dramática a
intenção dos produtores em buscar o subjetivo, a interação pelo cotidiano, a
utilização de imagens familiares, para chegar até o íntimo do receptor. Numa
família constituída de um pai separado com quatro filhas adolescentes, as
meninas falam de temas caros para essa faixa de idade, como sexo, drogas,
escolhas profissionais, relacionamentos afetivos. O objetivo é fisgar o
adolescente pela identificação, tanto pelo seriado como pelo processo de
“contaminação”, como diria MAFFESOLLI (FRANÇA, 1996:106). Com um tema
específico por programa, o enfoque é sempre alguma espécie de dilema que é
importante a este público, tratado não do ponto de vista do adulto, mas do
adolescente. O adulto chega a ser um intruso e, geralmente, ignorante do que
acontece à sua volta.
e) Apropriação da tecnologia. Um
Salto para o Futuro, programa produzido pela Rede Brasil, reúne, através de
sinais abertos, via satélite, em auditórios de várias capitais, professores de
todo o país que discutem, ao vivo, entre si, problemas sobre a educação. Um
exemplo da apropriação da potencialidade da TV pelos educadores antes mesmo da
nova onda de teleconferências. O programa debate não do ponto de vista da
política educacional do Governo, mas da sala de aula de Manaus, de Porto
Alegre, de Natal, e de cidades pequenas do interior representadas por quem
estiver presente. A central, no Rio de Janeiro, serve apenas como ponto de
encontro e traz alguns educadores experientes para participarem de uma troca de
experiências. Não chega a ser um debate, mas uma interação simples do tipo “eu
tenho um problema aqui em Campo Grande. Como vocês, aí em João Pessoa, resolvem?”
Todos
estes exemplos são histórias de sucesso, que cumprem a sua missão de chegar ao
seu público. Há muito mais exemplos, no Brasil e no mundo todo. Esta ‘chegada’
ao público está sendo feita por caminhos semelhantes aos dos programas
comerciais, mas que conseguem ir mais longe por tratar a comunicação e a
educação como processos complexos onde fatores sociais, a cultura, a
experiência e a interação entre todos os seus elementos formam um ato dinâmico de transmissão de conhecimento. Este caminho
buscado pelas TVEs, que se confunde com a evolução dos estudos de comunicação
mostra estar, ainda, em pleno desenvolvimento e contaminando outros setores,
como as já citadas veiculações de programas educativos em emissoras comerciais.
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[1] Cf. LEAL FILHO, 1997. p. 36. Este valor corresponde ao ano de 1995.
[2]
Expressão algumas vezes usada na década de 80 para marcar a entrada de ‘novas’
linhas teóricas de comunicação em contraposição às tradicionais de Informação e
Crítica.
[3] Cf. GORDON: 1967. p. 7.
[4] Ibidem.
[5]
Ibidem. p.8
[6] Cf. LEAL FILHO, 1997. p.24
[7]
Ibidem
[8]
Cf. FERRÉS, 1996. p.17