VIOLÊNCIA NA ESCOLA E CONSTRUÇÃO DE IDENTIDADES DE JOVENS DA PERIFERIA DE BELO HORIZONTE            [1]

 

ARAUJO MARIA CARLA DE ÁVILA[2]

 

O presente trabalho, de caráter investigatório, buscou compreender as vivências escolares de jovens alunos moradores de um bairro da periferia de Belo Horizonte, cujo cotidiano é marcado pela violência, pela insegurança pública e pela exclusão social. Tendo como unidade de estudo a escola freqüentada por esses jovens, a pesquisa desenvolveu-se em quatro etapas. Em primeiro lugar, buscou-se caracterizar sociologicamente o ambiente escolar como espaço de interações complexas, no qual violência simbólica e agressão física se entrecruzam, propiciando um tipo de vivência escolar baseada no medo e na ansiedade. Em segundo lugar, o estudo focalizou a experiência e as representações sociais dos jovens alunos, com o intuito de compreender como eles constroem suas identidades, tendo a violência como pano de fundo em suas relações grupais e interpessoais. Em terceiro lugar, examinou-se como as vivências fora da escola, em especial do lugar onde os alunos moram, invadem o cotidiano e reorientam atitudes e comportamentos dos alunos entre si, e destes em relação aos professores e a outros agentes escolares. Em quarto lugar, a investigação abriu possibilidades para pensar a escola como espaço de mediação de conflitos e de convivência da diversidade cultural e social. Centrado em uma metodologia de pesquisa participante com ênfase no modelo interpretativista, este estudo permitiu aprofundar questões referentes à educação e subjetividade, sob a ótica de alguns teóricos importantes, tais como Anthony Giddens, Norbert Elias e Erik Erikson.

 

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Maria Carla de Avila Araujo

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Área temática: Educação

 

Resultados de pesquisa / Dissertação

 

 

 

 

 

 

Juventude, geração e violência

 

 

Sendo os jovens sujeitos histórico-sociais, a análise, obviamente, não se mantém estática durante o passar dos anos e os autores absorvem as mudanças em seus trabalhos. De acordo com o momento histórico, há interferências nas produções que vão sendo realizadas pelos diversos autores.  A juventude tem sido, de acordo com o momento histórico, considerada de modos variados. Na década de 60, por  exemplo, era entendida como  um “problema”, na medida em que podia ser identificada como  geradora de uma crise de valores e de um conflito de gerações. Já na década de 70,  as questões de frente eram aquelas relacionadas ao jovem e o trabalho (emprego). Se pensarmos na juventude associada ao caráter transitório que caracteriza o período, poderemos defini-la  como um conjunto social derivado de uma determinada fase da vida, com enfoque e ênfase nos aspectos geracionais. Neste sentido, várias podem ser as funções atribuídas à juventude, cujo significado diferencia-se em cada contexto sócio-histórico. Uma delas seria o de “agente revitalizador.” (MANNHEIM,1970): um recurso latente de energia e força a ser usado pela sociedade como um dinamismo criador que objetiva dar novas orientações à sociedade. A modernidade institui a infância não só como uma categoria, mas como uma maneira de ser à parte: uma subjetividade voltada para o amanhã e também associa o jovem a uma idéia de futuro. (SPÓSITO,1999:08) No entanto, cabe lembrar que, por mais que a juventude não possa ser entendida  como transitória, ela também é marcada por “rituais de passagem”. É necessário contextualizar, sempre, de qual juventude estamos falando. Assim,  talvez devêssemos ter em mente que, quando falamos de “juventude”, na realidade estamos falando de “juventudes”, no plural. (SPÓSITO, 1998)   A definição de juventude é bastante flexível, pois ela é carregada de significados culturais e sociais. Há diversos modos de “ser jovem” em nossa sociedade e, portanto, não há apenas uma categoria teórica que possa dar conta dessa diversidade de situações. (SPÓSITO, 1998)[3]

 

 

Ao discutir a violência,  DEBARBIEUX (1998) a associa à incivilidade;  destacando a desorganização da ordem, a introdução do caos, a perda de sentido e de compreensão. E ao relacioná-la com a incivilidade, o autor destaca a desorganização do mundo da escola, ou seja,  a crise de sentidos pelo qual passa essa instituição. Nesta perspectiva, DEBARBIEUX (1998:13)  “denuncia” o fracasso das escolas em cumprir as promessas de integração social, uma vez que a inserção dos jovens no mercado de trabalho é problemática:

“ É bem possível que a incivilidade de certos jovens seja uma incivilidade reativa a expressão de um amor decepcionado com uma escola incapaz de cumprir suas promessas de inserção.” [4]

Esta análise, embora possa se constituir em uma possível compreensão para o fenômeno da violência entre os jovens, na escola, não pode ser considerada a única explicação ou entendimento da questão. Neste estudo tive de explorar   a violência que era vivenciada pelos jovens em seus locais de moradia para entender como esta vivência poderia estar interferindo na dinâmica escolar. Assim, analisei como a violência vivenciada no local de moradia se relacionava com a construção de identidade dos jovens, através da interpretação das ações dos alunos, bem como as significações que atribuíam aos fenômenos sociais.

 

 

A pesquisa privilegiou a intencionalidade dos atos, as percepções dos atores e o caráter intersubjetivo dos significados. Entendendo a identidade como um conjunto de imagens, representações,  conceitos de si,  e considerando, especialmente, o caráter  dialético de sua construção, a saber, a importância da alteridade neste processo, faz-se também necessária a inclusão, na metodologia, de procedimentos que possam nos fornecer dados para a compreensão da importância do outro neste processo. [5] A construção da identidade é dialética: além de determinada é também determinante, pois o jovem tem um papel ativo, quer na construção deste contexto a partir de sua interação, quer na sua apropriação. A identidade só pode ser construída a partir da interação. Interessa-nos, portanto, a percepção que os jovens/alunos têm uns dos outros e da violência na qual estão inseridos, em seus locais de moradia e na escola.

 

 

Vivenciar a violência no local de moradia pode se tornar um elemento constituinte da identidade desses jovens? E mais: quando esses jovens vão para a escola,  como se comportam, se organizam, convivem e criam estratégias de convivência com os outros alunos? A imagem que os outros alunos fazem dos jovens da Vila da Luz também participa na constituição da identidade deles. Nesse sentido, o que os outros jovens da escola têm a dizer sobre os meninos da Vila da Luz, nos ajuda a esclarecer o objeto desta pesquisa. Foram utilizadas: a observação, as conversas informais com eles dentro das salas de aula, durante o recreio, nas entradas e saídas da escola, etc.No decorrer da pesquisa fiz entrevistas semi-estruturadas, observações,  atividades em grupo a partir de exposição de gravuras, da exibição (parcial) de uma fita de vídeo e  de associações livres. As atividades em grupo foram filmadas pelos próprios alunos, com exceção das associações livres, que não foram filmadas.

 

 

Os jovens atores  Luís, Epitácio, Sílvio, Luísa, Élcio, sorteados estavam dentro da faixa etária de 14 a 19 anos, do sexo masculino ou feminino, moradores da Vila da Luz. Os garotos têm consciência de que moram em um lugar perigoso. Todos os entrevistados mostraram ter clareza da situação de violência vivenciada por eles na Vila da Luz, falam da violência na Vila da Luz e tentam explicar-me o que julgam ser os motivos de tanta violência:  uns dizem que a Vila da Luz  vive em guerra com o Conjunto ABC[6] por questões de drogas, ou seja, pela disputa de pontos de vendas, etc; outros falam que os moradores do Conjunto ABC são pessoas malandras, que não querem saber de nada e que, tendo chegado depois, não se submetem às regras anteriormente colocadas por aqueles que “mandam no pedaço;”[7] outros dizem que tudo começou por causa da morte de um rapaz que foi roubado após ter decidido abandonar o vício, deixando, portanto, de adquirir drogas dos malandros do Conjunto ABC. Outros dizem que os moradores do Conjunto ABC são pessoas que pegam as outras por sacanagem, sem motivos, o que, com razão, os deixa mais apavorados. Questões importantes começam a ser construídas nesse meu percurso de compreensão da problemática da vivência da violência e a construção de identidade dos jovens: como se defender, se nem os inocentes são poupados? Como saber quem sobreviverá, se há mortes sem motivos? De alguma maneira, a sociabilidade desses garotos fica comprometida, como analisaremos adiante. Pela realidade descrita pelos jovens, tudo parece indicar que eles necessitam  de estratégias que os protejam de um certo anonimato como medida de segurança na Vila da Luz. Não podem se envolver em confusões, e quanto menos eles forem vistos, melhor. Ao mesmo tempo, há relatos que nos apontam para a necessidade que têm de serem reconhecidos pelo grupo de moradores da Vila da Luz e da região, que inclui o Conjunto ABC. Em alguns momentos, eles dizem que precisam ser conhecidos e reconhecidos como moradores do bairro, que isso lhes dá segurança para, por exemplo, entrarem e saírem da Vila da Luz. Assim, a ambigüidade, reconhecimento/anonimato parece fazer parte importante da problemática vivenciada pelos jovens.  Algumas vezes ser reconhecido é o que traz a segurança, outras vezes é o que gera insegurança e medo; outras vezes não ser anônimo é bom (podem andar pela Vila da Luz, livremente, garantem sua segurança e os protege contra a discriminação), e outras,  os coloca em situações de risco de vida. Na Vila da Luz, quando os jovens não são reconhecidos, podem correr risco de vida; outras vezes, ficar no anonimato é o que lhes dá proteção.

 

 

Mas a ambigüidade não termina com essa divisão ou separação, pois veremos oportunamente que, às vezes, ser reconhecido como morador da Vila da Luz traz ganhos para o jovem, propiciando-lhe respeito. Isso lhe dá uma identidade de autoridade, de temido, de valente e de “mais vivido”. [8]  Além disso, é bom lembrar que, por ser tratar de ambigüidade, os dois sentimentos estão sempre presentes, ou seja, eles continuam existindo mesmo quando um deles não está explícito. Será que o jovem tem necessidade de afirmar sua identidade[9] em lugares diferentes? Parece que, para esses jovens, essa afirmação pode não ser desejada. Além disso, o fato de existirem casos de pessoas inocentes que foram assassinadas, deixa os jovens em situação de alerta. Afinal, se a inocência não garante a vida, o que a garante. Esta equação, sob meu ponto de vista só se sustenta até quando inocentes são assassinadas – isso, então, coloca a equação em desequilíbrio: inocente também morre, então, como podemos nos proteger? Inocente é morto por engano. Engano no sentido de não  ser aquele que deveria ter sido morto e engano no sentido de que aquele ali era inocente. A ausência de motivos claros, explícitos, que expliquem as mortes violentas deixa os jovens em total insegurança e fragilidade. Não há controle e, obviamente, isso traz conseqüências do ponto da construção da identidade. É como se eles se perguntassem a todo momento: esse morreu por quê? Ele era inocente? Ele era do tráfico? Foi por engano?  Os sentimentos de insegurança e  incerteza parecem criar um outro: o medo. Esse parece fazer parte da maioria dos jovens que moram na Vila. Morar na Vila da Luz , sem sombra de dúvida, afeta significativamente a vida daqueles jovens. A vivência da violência no local de moradia desses jovens desperta sentimentos que, enredados com os elementos constituintes de identidade, se tornam, também, elementos importantes na sua constituição.

 

 

As identidades são construídas através de crises, no sentido eriksoniano, o que, portanto, significa que o jovem viverá momentos de ambivalência de sentimentos: medo e coragem, por exemplo. De acordo com as passagens pelas crises previstas neste processo, o jovem vai fazendo escolhas, retomando pontos de sua história, significando situações acontecidas anteriormente, etc. Como a juventude é uma fase em que há perdas (inevitáveis), por exemplo, do corpo infantil, o medo pode aparecer de forma imaginária, como uma proteção: até que se tenha certeza, é melhor temer e ficar a distância. Da mesma maneira que o jovem oscila entre ser reconhecido e ser anônimo, ele também oscila com relação a se expor ou retrair-ser.  Dizer de coisas que acontecem lá, na Vila, pode comprometê-los muito, pois serão cobrados depois. Omitem as situações, não se expõem. Élcio, nos conta que, quando eles vêem os moradores do Conjunto ABC, precisam correr. Mas, ao mesmo tempo, temem tomar esta atitude, afinal, aquele que corre é porque tem alguma coisa para temer. A situação é extremamente angustiante: pois se ficam parados, podem ser baleados: se correm, podem indicar que devem alguma coisa e, também, ser baleados. O que fazer? Penso que  esta é a pergunta que norteia o cotidiano do jovem morador da Vila da Luz. Ao pensar na  modernidade tardia, que será analisada oportunamente,  adianto o seguinte ponto: segundo GIDDENS (1991), temos de construir nosso projeto reflexivo do self,[10] diariamente, ou seja, optar, fazer escolhas. Se assim é a modernidade tardia na qual vivemos, pergunto: como fica essa característica da modernidade tardia[11] (escolha diária) na vida de um jovem que já tem, nesta fase de sua vida, de lidar com tantas escolhas, dúvidas e inseguranças? Não seria para o jovem da Vila da Luz  uma grande tarefa essa, de construir seu projeto reflexivo tendo questões tão sérias, de sobrevivência, para serem escolhidas a cada momento? Não seria isso cruel demais, pelo menos para a juventude aqui pesquisada, inserida na modernidade tardia?

 

 

Dando continuidade à vivência das ambigüidades dos jovens, temos a questão da singularidade  e de ser mais um/ser um qualquer.  Faz parte da juventude este movimento de buscar, nos grupos, o reconhecimento de uma identidade que faça com que o jovem se sinta pertencente a eles. No entanto, este movimento também é ambíguo, pois, ao mesmo tempo, o jovem quer ser reconhecido também como um sujeito singular, diferente dos demais e busca esta autoafirmação. Os jovens procuram referenciais para minimizar os sentimentos de desamparo que sentem, no entanto, nem sempre os encontram. Vemos que uma das maneiras pode ser exatamente o comportamento que eles têm apresentado na escola: agressivo, sem diálogo. As dúvidas com as quais eles se deparam, diariamente, são substituídas por atos impulsivos, atitudes grupais irracionais ou negações.  É espantoso ouvir os jovens contarem como essa vivência da violência  na Vila da Luz  modificou suas vidas, seu cotidiano, seus pensamentos e até suas estratégias para se protegerem. Algumas atitudes podem nos parecer exóticas ou impossíveis, mas naquela realidade é questão de sobrevivência. Mais  uma vez não posso deixar de pensar nas interferências dessas vivências  na construção das suas identidades que, de alguma forma, os leva a assumirem identidades diversas para sobreviverem em um local com tamanha violência. O direito de ir e vir, sem dúvida, alimenta a autonomia tão necessária para o desenvolvimento do jovem. A falta de opção imposta para se obter um mínimo de segurança, com certeza esbarra na sua formação, uma vez que, por excelência, está em uma fase onde “fazer escolhas” é criar e também fortalecer identidades.  Existe uma ânsia de locomoção que é expressada por um “ir em frente” e que também aparece na participação dos jovens em passeatas, movimentos de grupos de jovens, etc. Além disso, a sociedade oferece ao jovem possibilidades para que ele possa exercer essa ânsia de locomoção: esportes, danças, etc.  Essa característica da juventude faz parte da construção da identidade e é essencial para que o jovem consiga estabelecer a sua identidade e seu estilo.

 

 

A sociabilidade desses jovens parece não ter conseguido, ainda, driblar as dificuldades  impostas pelo seu local de moradia. Se há uma socialização, como aponta SPÓSITO (1994), que vem nascendo no mundo da rua, nas esquinas e pontos de encontro, onde os jovens desenvolvem suas relações de amizade e lazer, exatamente por enfrentarem os mecanismos da violência urbana, essa socialização não pode ser observada nos jovens pesquisados. Segundo ela, neste espaço da rua os jovens buscariam construir suas identidades coletivas e as modalidades de sociabilidade.  Percebe-se que os jovens pesquisados ainda não se envolveram em ações coletivas, tornando-se atores sociais atuantes. O espaço  urbano da Vila da Luz não é visto como um espaço que foi reapropriado por aqueles jovens com possibilidades de se tornar um novo espaço para novas redes de sociabilidades. Nesse sentido, o fato de não poderem sair de casa só dificulta a articulação desses jovens, que poderiam buscar nova sociabilidade, apesar do local onde moram. 

 

 

É impossível falar de identidade sem falar de sociabilidades.  A identidade pode ser entendida como um conjunto de  representações que a sociedade e os indivíduos constroem sobre algo que dá unidade a uma experiência humana,  múltipla, facetada, tanto no plano psíquico como no plano social.  (MARQUES,1997: 66) Tanto as juventudes quanto as identidades são construídas de formas diversas, segundo as diferentes sociedades, o lugar social que o sujeito ocupa, os conjuntos de valores, idéias e normas, etc., que vão formar seu instrumento de leitura para a interpretação do mundo. Assim, cada sujeito, de acordo com seu contexto sócio-histórico, a partir desses referenciais vai organizando a sua percepção da realidade:

  “Toda identidade é socialmente construída no plano simbólico da  cultura”. (MARQUES,1997:67)

Sabemos também que possuímos, todos, várias identidades: a identidade pessoal, a identidade familiar, a identidade social, etc. Assim também é com o jovem: ele possui uma identidade na família, na escola, na galera, no futebol, no trabalho, onde  mora, etc.  Como há muitas identidades, precisamos pensar como o jovem se relaciona com a família,  na escola, no local de moradia, etc., para pensar a sua identidade. Em todas essas áreas, o jovem da Vila da Luz não tem como recompensar a sociabilidade comprometida na Vila.

 

Pensando nos alunos da Vila da Luz, somos levados a considerar que eles lidam com algo que lhes desagrada (morar na Vila da Luz) mas que, ao mesmo tempo, é algo que lhes protege (morar na Vila da Luz). Esta ambigüidade nos foi assinalada por alunos que moram em outros bairros. Ao descreverem os colegas da Vila da Luz, eles sinalizam traços de violência em seus comportamentos; entretanto, entendem que esses traços, embora marginalizem os alunos de Vila da Luz, são usados por eles, convenientemente, para garantir sua própria sobrevivência ou autoproteção. A sociabilidade dos jovens da Vila da Luz, marcada pela violência, se reproduz também no interior da escola. Na medida em que a escola não representa mais uma fortaleza de “sossego e tranqüilidade”, ela pode, como vem sendo, ser freqüentada por pessoas que não fazem parte de sua dinâmica interna. Nessa perspectiva, ela deixa de ser um fator de proteção, para se constituir em fator de risco. As representações que os alunos constroem de seus colegas da Vila da Luz oferecem-nos um quadro de perplexidades, pois nele vislumbra-se um tipo de solidariedade grupal que se constitui por e na violência. Movidos pelo medo e pelas ameaças, alguns alunos receiam que seus colegas da Vila sejam eles mesmos os “malandros” da Vila, “os que lá matam”; outros, entretanto, receiam que eles sejam amigos dos “malandros” da Vila. Estes, podendo ser convocados, a qualquer momento, para dar uma “mãozinha” nas brigas domésticas, na escola; formando-se, assim, numa espécie de corporação a serviço da violência; corporação esta que, segundo os alunos de outros bairros, tem sido utilizada para ameaçar. Chama-nos a atenção, nos relatos, o fato de que os jovens de outros bairros interpretam a violência praticada pelos alunos da Vila da Luz como uma “violência gratuita”, sem motivo real, pautada em motivos inventados: “é uma desculpa” ou “uma oportunidade para cair numa briga”.É interessante observar que os jovens  relatores identificam a “briga” como quase uma necessidade do “Outro”, como um impulso que tem de cumprir sua trajetória natural, com ou sem motivo consciente. Nesse sentido, esta visão coincide, em parte, com alguns pressupostos psicanalíticos, dentre os quais ressalta-se aquele que entende os impulsos como algo que existe na estrutura psíquica humana, não necessitando de nenhuma razão externa para manifestar-se. O nosso jovem, por exemplo, pode criar um motivo que justifique seu ato de violência em relação a seus colegas, porque sabe que será julgado por suas ações. Uma violência sem motivos  plausíveis é “muito pior” do que uma outra justificada, embora ambas produzam o mesmo  efeito para a sua vítima. Mas ele pode, também, justificar seu ato inventando um motivo banalíssimo, conforme os que foram relatados, porque ele não consegue expressar, no nível da linguagem discursiva, os motivos internos que o levam a agir daquela maneira. ENRIQUEZ (1990), ao estudar a natureza dos vínculos sociais, demonstra o quanto a violência pode significar uma forma de o indivíduo proteger-se contra uma possível desintegração do próprio ego. Ele reage violentamente todas as vezes em que se sente impotente e muito frágil ante as ameaças externas de perda de sua integridade.No nosso caso, seria o mesmo que dizer que, para proteger seu ego de ameaças constantes de desintegração psíquica, o jovem da Vila da Luz inventa um motivo para exprimir sua “agressão” autoprotetora. Dito de outra forma, age com violência, não porque seja destemido, e sim, porque é frágil e desprotegido. Sua segurança ontológica[12] está profundamente ameaçada; entretanto este é um dado que permanece oculto, ou pelo menos, não consegue ser traduzido em linguagem oral. Isso talvez explique porque sua violência em relação a outros alunos seja vista, por esses outros alunos, não como resultado de uma “insegurança psíquica”, mas, sim, como afirmação de sua identidade.

Um outra hipótese plausível ao uso da “violência gratuita” aponta para o fato de que nosso jovem pode agir dessa forma porque teme o diálogo. Nesse caso, estamos lidando com outra forma de  se pensar os atos de violência. Está implícita, na hipótese acima, a idéia de que tais atos poderiam ser controlados e/ou eliminados, se pudéssemos fazer com que os motivos que os tornam violentos fossem convertidos, ou seja, traduzidos em linguagem racional, com perguntas e respostas, com réplicas, com concordâncias,  dissensos, enfim, com diálogo. Como o conflito  só se manifesta onde há diversidade de idéias, de opiniões e de práticas, pode-se dizer que ele funciona como espécie de “animador cultural”, estimulando o debate e o diálogo entre os indivíduos que compartilhem, entre si, um mesmo espaço para realizar algum tipo de atividade. É assim que a solução de conflitos poderia se realizar naturalmente na “mesa de negociações.” (VELHO,1986) A escola poderia ser o local do aprendizado dessa negociação. Como  não tem, em sua maioria, se prestado a isso, os conflitos têm se exacerbado a ponto de ficarem inegociáveis, dando-se, assim, espaço à violência explícita.

diversidade e incentivem a postura de diálogo acima de qualquer coisa. Obrigado a todos esses jovens que, com sua vivência, nos colocaram de frente com uma realidade cujos significados, por vezes, dolorosos não nos fazem perder a esperança de um dia  ser modificada.

 

 

 

Referências  bibliográficas

 

DEBARBIEUX, E. Le professeur el le sauvageon: violence à l’école, incivilité et postmodernité. Revue Française de Pédagogie, n. 123, avril-juin, 1998.

 

ENRIQUEZ, E. Da horda ao Estado. Rio de Janeiro : Zahar, 1990.

 

GIDDENS, A. A Constituição da Sociedade. São Paulo: Martins Fontes, 1991.

 

MANNHEIM, K. Funções das gerações novas. In: FORACCHI, M. Educação e sociedade. São Paulo : Ed. Nacional, 1970.

 

MARQUES, M. O. da S. Escola noturna e jovens. In: Revista Brasileira de Educação. Juventude e Contemporaneidade, n. 5-6. Número especial.

 

MELUCCI, A. Juventude, tempo e movimentos sociais. In: Revista Brasileira de Educação. Juventude e Contemporaneidade, n. 5-6, 1997. Número especial.

1997. Número especial.

 

SPÓSITO, M. P. Estudos sobre juventude em educação. In: Revista Brasileira de Educação. Juventude e Contemporaneidade, n. 5-6, coletiva da cidade. Revista de Sociologia da USP, São Paulo, v.1-2, n. 5, p. 161-178, nov. 1994.

 

VELHO, G. (Org.). Violência e cultura : debates. In: Cidadania e violência. Rio de Janeiro : Ed. da UFRJ, 1996.. Rio de Janeiro : Ed. da UFRJ, 1996.

 



[1] Pesquisa financiada pela CAPES

[2] A autora é Mestre em  Educação pela Faculdade de Educação da UFMG, na linha de pesquisa “Educação de Jovens e Adultos”. Professora da disciplina “Psicologia da Educação” nos cursos de Letras e Matemática, na Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais – PUC, unidade Betim-MG.

[3] Conferência sobre Juventude em maio de 1998, na Faculdade de Educação da UFMG.

[4]“...ll est bien possible que l’incivilité de certains jeunes soit une incivilité réactive, l’expression d’un amour déçu pour une école incapable de tenir ses promesses d’insertion (...) “.

 

[5] As técnicas de coleta de dados  que foram utilizadas na pesquisa serão explicitadas mais adiante. Cabe ressaltar que as  técnicas em grupo tiveram o objetivo de priorizar a relação entre os jovens, as imagens que faziam de si e dos outros, ou seja, a alteridade como ponto importante a ser explorado.

 

[6] O Conjunto ABC fica localizado nos  “fundos” da Vila da Luz . Esse conjunto foi “projetado” pela Prefeitura para transferir moradores de um local onde não havia a menor infra-estrutura, segundo relato dos jovens entrevistados.

 

[7] Essa expressão é dos meninos da Vila da Luz. Parece que é comum existir alguém que mande no pedaço. Eles convivem com isso, com alguém que deve ser respeitado por ser aquele que é quem “manda no pedaço”.

 

[8] Expressão utilizada por um dos entrevistados, morador de um outro bairro. Ser  “mais  vivido” é , de certa forma, ser mais esperto, ter vivenciado mais situações, lhe permitiu ser mais “vivido”, menos ingênuo.

 

[9] Expressão utilizada por MELLUCI  e refere-se à capacidade do jovem, que possuiu várias identidades (no trabalho, na escola, na Vila), de se reconhecer e de se fazer reconhecido nestas diversas situações.

 

[10]“ “O projeto reflexivo do self consiste na manutenção de narrativas biográficas coerentes ainda que continuamente revistas e ocorre no contexto da escolha múltipla filtrada através dos sistemas abstratos”. (GIDDENS,1991: 04)

 

[11] “A modernidade é uma ordem pós-tradicional, na qual a pergunta “como hei de viver?” tem de ser respondida através de decisões diárias acerca de como comportar-se, o que vestir e o que comer – e muitas outras coisas, bem como interpretada no desenrolar temporal da auto-identidade”. (GIDDENS, 1991 : 13)

 

[12] ERIKSON nomeou uma série de estágios de desenvolvimento da personalidade que vai da infância até a  idade adulta. Em cada um destes estágios a criança vai superando um obstáculo para que se sinta capaz de enfrentar o próximo. Ele comenta: “A primeira realização social da criança é, portanto, sua disposição de perder a mãe de vista sem que isso lhe cause angústia ou raivas desmedidas, pelo fato de a mãe ter se tornado tanto uma certeza interna quanto uma previsibilidade externa.” Dito de outra forma, é desde muito cedo que a criança vai adquirindo “confiança” que significa para ela também segurança. Inspirando-se nessas reflexões, GIDDENS procura trilhar um caminho em busca do que ele denomina de “segurança ontológica”. Para ele, a consciência prática, as rotinas e a confiança são possibilitadoras dessa segurança. (1997, p 35-39)