Este trabalho tem como foco
as práticas musicais formais e informais
presentes em uma escola
municipal de ensino básico da cidade de Uberlândia, MG. Especificamente, o
estudo vem sendo desenvolvido com quatro turmas de Pré-escola (5 e 6 anos).
O
espaço escolar contribui para que se observe manifestações musicais tanto
apreendidas na própria escola como em outros ambientes. A vivência musical dos
alunos, tais como canções que ouvem e cantam em seu dia-a-dia e outras
experiências musicais, são consideradas para que se pense um trabalho conjunto
entre pesquisadora e professora, visando
a educação musical no contexto da Educação Infantil.
Os pressupostos teóricos estão fundados nos estudos do
cotidiano e nos Referenciais Curriculares Nacionais para a Educação
Infantil (MEC). Os procedimentos
metodológicos são de natureza qualitativa, fazendo uso de técnicas etnográficas como a observação
participante, diários, fotos e filmagens.
Este trabalho tem proporcionado uma troca de experiências entre professores,
bolsista e crianças, sendo que nos vários momentos em sala de aula nota-se o
envolvimento que a criança expressa através da
participação e de sugestões.
A pesquisa se justifica enquanto contribuição para
uma compreensão mais aprofundada da presença da música na escola e,
consequentemente, oferece subsídios para propostas mais adequadas de educação
musical no contexto específico de uma determinada escola.
Mirian
Carmen Machado
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INTRODUÇÃO
Esta comunicação, que
apresentará resultados parciais de uma pesquisa, tem como foco as práticas
musicais formais e informais
presentes em uma escola
municipal de ensino básico da cidade de Uberlândia, MG. Especificamente, o
estudo vem sendo desenvolvido com quatro turmas de Pré-escola (5 e 6 anos) e
está vinculado ao programa PIBIC- UFU-CNPq.
A investigação teve início
em agosto de 2000, com término previsto para agosto de 2001, e é um sub projeto de uma proposta de
investigação mais ampla que busca desvelar as representações sociais que professores, estudantes e direção de
escolas públicas de Uberlândia têm sobre música, sobre sua presença na escola e
seu ensino e aprendizado (Arroyo, 2000).
Os pressupostos teóricos estão fundados nos estudos do
cotidiano (Souza, 1997) e nos Referenciais Curriculares Nacionais para a
Educação Infantil (Brasil, 1997). Os
procedimentos metodológicos são de natureza qualitativa, fazendo uso de técnicas etnográficas como a observação
participante, diários de campo, fotos, gravações e filmagens.
Experiência musical formal e informal
O
espaço escolar contribui para que se observe manifestações musicais tanto
apreendidas na própria escola como em outros ambientes. A vivência musical dos
alunos, tais como canções que ouvem e cantam em seu dia-a-dia e outras
experiências musicais, podem ser consideradas para que se pense um trabalho
conjunto entre pesquisadora e professora, visando a educação musical no contexto da Educação Infantil.
Considerando a importância
dos termos “formal e informal” para esta investigação, fez-se necessário um breve estudo acerca do assunto.
Os termos ‘formal’ e
‘informal’ que qualificam práticas educacionais apresentam diferentes
significados:
“formal” pode
significar escolar, oficial, ou dotado
de alguma organização. Dessa maneira, o
“formal” pode ser ou o ensino e a aprendizagem que acontecem nos espaços
escolares e acadêmicos, mesmo que
alternativos (escolas alternativas de música), ou, no sentido oficial, apenas
os sistemas de ensino regulamentados
(escolas de ensino básicos, médio, conservatórios, graduações, etc). Na
terceira possibilidade significativa,
“formal” pode ser também as práticas de ensino e aprendizagem que acontecem no
contexto da cultura popular, já que
vários estudos têm desvelado que essas práticas de educação musical
possuem formalidades próprias (Ternos
de Reis, Escolas de Samba, Rituais do Congado, etc) (...) Quanto ao
adjetivo “informal”, que às vezes aparece como “não-formal”, ora significa
educação musical não oficial, ora não escolar. Também é utilizado para
referir-se ao ensino e à aprendizagem musical que acontecem no contexto das
culturas populares e mesmo no cotidiano das sociedades urbano-industriais
(aprendizagem que ocorre através dos
meios de comunicação, de informação, etc) (Arroyo; et al, 2000).
Como
é possível observar, os termos ‘formal’ e ‘informal’ mostram-se imprecisos
“para nomear aspectos de uma realidade que se tem revelado bastante complexa: o
ensino e a aprendizagem de música que ocorrem em diferentes contextos culturais
e, especificamente, nas sociedade urbano-ocidentais contemporâneas, nas suas
várias sub culturas (Ibid, s.p.).
Com vistas a uma definição destes termos no âmbito
deste trabalho, recorremos à Libâneo (1992) que define educação ‘formal’ como “aquela estruturada,
organizada, planejada intencionalmente, sistemática. Nesse sentido, a educação
escolar convencional seria tipicamente formal” (p.81).
Entretanto,
o autor adverte que a situação formal não ocorre somente em espaço escolar, mas
pode ser observada também fora do marco escolar, desde que tenha uma forma, uma
certa estrutura.
Já o termo informal resulta
da vivência dos indivíduos, das suas relações em nível individual ou grupal.
Enquanto uma educação formal é marcada pela intencionalidade, a informal é
“não-intencional” (Libâneo, 1992, p.82-83). Segundo Libâneo (1992) a situação
informal não depende de métodos ou planos, pois não se trata de algo pré –
estabelecido, mas de uma vivência envolvendo vários momentos da vida.
Em se tratando do contexto
educacional, a situação informal pode fazer parte da situação formal, organizada
e pré – estabelecida.
O presente trabalho mostra
momentos em que os dois termos oferecem relações entre si, onde numa ocasião
planejada ocorre participação e sugestão dada por meio da vivência da criança
ou professor, adquirida informalmente.
“O contexto da
vida social, política, econômica e cultural, os espaços de convivência social
na família, escolas e na rua”, embora não intencionais formam um ambiente que
produz suas conseqüências e modos de pensar (Libâneo, 1992, p.83).
Com base na tematização de
todo registro escrito, a questão do formal e do informal poderá ser melhor observada no que se refere
a experiências musicais.
Dando
suporte também conceitual à investigação, recorremos aos estudos do cotidiano.
Segundo Souza, “um desafio para nós educadores musicais tem
sido o de tematizar na sala de aula as experiências musicais dos alunos e sua
experiências sociais de mundo” (1997, p.38). Para a autora, os estudos do
cotidiano fornecem subsídios teóricos
para desvelar e interpretar as experiências musicais referências para os
alunos.
“(...) com as teorias do
cotidiano, a pesquisa busca penetrar na escola, se dispondo a ouvir os seus
agentes a fim de verificar com base em que operar no âmbito da sala de aula.
Desta forma, ela permite analisar que processos intervêm na formação do
conhecimento dos alunos e suas relações com o currículo” (Souza, 1997, p.38).
O foco desta pesquisa está em descrever como se dá a relação entre experiências musicais formais e informais no espaço das classes de pré - escola. Os resultados parciais obtidos serão apresentados a partir de dados levantados e registrados em diários de campo, fitas de vídeo, cassete, e fotos
Inicialmente foram feitos
estudos e discussões quanto aos procedimentos metodológicos que viriam a ser
adotados na realização da pesquisa. A metodologia escolhida é de natureza
qualitativa. Trata-se de uma pesquisa de campo onde foram adotadas técnicas
etnográficas.
A primeira fase do trabalho
de campo tratou do levantamento das práticas musicais formais e informais no
contexto da escola. A inserção em campo teve início com a interação entre a
orientadora, bolsista e crianças na hora da chegada à escola e durante o
recreio. Depois seguiu–se a inserção nas salas de aula, com objetivo de
conhecer as experiências musicais das crianças, por meio da realização de
algumas atividades sugeridas. Os encontros aconteceram semanalmente com duração
de 25 minutos em cada classe.
Durante
esses encontros pôde-se observar que a criança traz de seu meio inúmeras
experiências musicais, vivenciadas através do contato com a mídia, no caso de
algumas canções que foram relatadas, e também através da convivência que a
criança tem com a família, amigos e instituições, ou seja, canções que aprendem
em casa, na rua ou na igreja(informal). Também ocorreu de algumas crianças
terem em sua família pessoas que tocam algum instrumento.
A
experiência musical formal foi observada através da participação das crianças
durante a inserção nas salas de aula. Algumas classes demonstraram bastante
“familiaridade” com música, outras nem tanto. Algumas classes conheciam muitas
canções tradicionais infantis, o que demonstrava que alguns professores tinham
o hábito de cantar com as crianças durante as aulas.
As relações entre as experiências musicais
formais e informais foram observadas durante o momento em sala de aula, onde as
crianças participavam ativamente citando canções que aprendiam em casa ou na
escola.
Os dados
levantados até o momento foram pré-analisados. Essa pré-análise consistiu em
uma tematização do diário de campo que resultou nos seguintes temas:
1.a - Ações
espontâneas das crianças
Com vistas a trazer a esta comunicação alguns
resultados parciais da pesquisa, a seguir serão descritas três cenas vinculadas
ao temas mapeados: Ações espontâneas das
crianças, Experiências musicais informal e Experiências musicais formal.
CENAS
1. Ações espontâneas das crianças
Criando (DC, Mirian, 12-03-2001)
Neste encontro que tive com uma das classes do pré, assim
que entrei na sala percebi as crianças muito agitadas. Creio que por causa da
minha presença, ficam ansiosas para cantar e participar. Neste dia cantamos
várias canções. Todos cantavam com muita empolgação e ao terminarmos de cantar
“Caranguejinho” (canção do Cacuriá do Maranhão) uma criança saiu de seu lugar,
veio até o meio da sala e disse: “Vamos
fingir que estamos voando, igual a um passarinho?”
Aproveitando a oportunidade,
perguntei se alguém sabia cantar uma música que falasse de passarinho.
Como nenhuma criança lembrou-se um canção que falasse da ave, sugeri que inventássemos uma. Dido[2]
disse: “tenho uma idéia!”. E começou a cantar ao mesmo tempo em que fazia o gesto de chamamento com o dedo indicador:
“Vem pra cá meu passarinho,
que eu vou te dar
comida”.
Perguntei o que poderíamos fazer para terminar a música, se alguém teria
alguma idéia, então Gerson levantou o dedo, mas ficou com vergonha. Saiu de sua
carteira e foi cochichar no ouvido de
Hirlando. Voltou ao seu lugar ficando de pé ao lado da carteira e
começou a cantar:
“Venha cá meu passarinho
que eu vou te dar comida.
Você é muito fofinho
e eu vou te dar carinho”
Hirlando: “ a música é minha, ele
inventou o fofinho”
Achei muito interessante a forma como iniciou a canção,
pois não começou pela parte que inventara, mas primeiro cantou a frase
inventada por Dido.
Tom
e Jerry (DC, Mirian, 07-05-2001)
Logo que entrei na sala a
professora pediu para que os alunos fechassem os cadernos e prestassem atenção
em mim. Estavam ligados na tarefa que a professora iniciara. Esta turma de pré
estava bem mais cheia do que o normal, pois a professora da outra sala havia
faltado, de modo que juntaram as duas classes. Começamos recordando algumas
canções referentes à temática trabalhada nesta classe, entre elas o tema do
“Mar”. No finalzinho da aula, coloquei a Valsa Brilhante de Chopin, mas antes
falei sobre o instrumento utilizado na obra, discutimos sobre as diferenças
entre piano e teclado. Ouvimos a obra inteira. Achei incrível como estavam
atentos à audição, pois era uma obra instrumental e além do mais bem diferente
do estilo de música vivenciado pelas crianças. Ao final da audição perguntei se
alguém já havia ouvido algo parecido antes, falamos também sobre o caráter da
música, se era triste ou alegre, mas chamou-me muita atenção a participação de
um garoto que após a audição levantou o dedo falando alto e empolgado: “É a música do Tom e Jerry”!
Canção de alfabetização (DC- Mirian, 23-04-2001)
Neste dia, antes de entrar em outra sala de pré,
pude perceber que a professora regente
manifestava um interesse por música. Quando cheguei na escola e já estava perto
da sala ouvi as crianças cantando. Entrei e pude notar que a professora, Rose,
os conduzia numa canção, enquanto apontava com o dedo em algumas gravuras que
estavam coladas acima da lousa. Tratava-se de gravuras com as letras do
alfabeto e pequenos desenhos ilustrativos. Assim que terminaram, Rose disse: Vamos cantar pra Mirian? Enquanto ouvia a performance das crianças,
percebi que se tratava de uma canção com as letras do alfabeto, onde os nomes
das crianças eram colocados na música de acordo com a ordem das letras do
alfabeto. Quando terminaram, perguntei sobre a canção à professora: “Eu invento a música com as figuras e os
nomes deles. As letras que não tem os
nomes na sala, a gente substitui por outra coisa ou nome. Cantando, eles
aprendem mais. Você poderia cantar assim com eles, iria ajudar muito”.
Então as crianças repetiram novamente com intenção de me ensinar.
DISCUSSÃO
As experiências musicais dos alunos focalizados nos três momentos acima demonstram o quanto crianças e professores estão envolvidos com música, seja dentro da própria escola ou mesmo na rua.
O primeiro momento trata de
focalizar as ações espontâneas das
crianças, onde após a entoação de uma canção seguiu-se a participação de uma
criança que envolveu os demais resultando na composição de uma canção. Através
da letra, melodia e dos gestos que faziam para cantar, as crianças imprimiam sua própria expressividade e criatividade.
A música está presente na
rua, em casa através da mídia e outros. Dentro da sala de aula pôde-se observar
como as crianças estão atentas a tudo o que ouvem e são capazes de relacionar e
recordar a mesma música em ambientes e
situações diferentes, foi o que ocorreu no segundo momento intitulado
Experiências musicais informais. Após a audição de uma obra, as crianças
participaram falando sobre a música, e uma das crianças com muita empolgação
disse ter ouvido a obra no desenho animado Tom e Jerry.
Através do terceiro momento
foi possível perceber que as crianças eram bastante habituadas a cantar, o que
foi constatado a partir de várias participações e sugestões. Cantaram com muita
expressão, demonstrando prazer e conforto pelo que faziam, o que tornou o
trabalho ainda mais interessante e possível, pois um dos aspectos importantes
da pesquisa se mostrou de imediato, a interação.
CONCLUSÕES E IMPLICAÇÕES PARA A EDUCAÇÃO MUSICAL
Durante essa pesquisa
pôde-se observar que a criança traz de seu meio inúmeras experiências musicais,
vivenciadas através do contato com a mídia, no caso de algumas canções que
foram relatadas, e também através da convivência que a criança tem com a
família, amigos e instituições, ou seja, canções que aprendem em casa, na rua
ou na igreja(informal). Também ocorreu de algumas crianças terem em sua família
pessoas que tocam algum instrumento.
A experiência musical formal foi
observada através da participação das crianças durante a inserção nas salas de
aula. Algumas classes demonstraram bastante “familiaridade” com música, outras
nem tanto. Algumas classes conheciam muitas canções tradicionais infantis, o
que demonstrava que alguns professores tinham o hábito de cantar com as
crianças durante as aulas.
As relações entre as experiências
musicais formais e informais foram observadas durante o recreio e em momentos
na sala de aula, onde as crianças participavam ativamente citando canções que
aprendiam em casa ou na escola. A ação das crianças e professores descrita nos
momentos citados, possibilitou essa observação. Através dos vários relatos foi possível perceber que as experiências
formais e informais não se mostram isoladas, seja no pátio ou na sala, por meio
do estímulo e da participação das crianças, essas experiências se mostraram
sempre relacionadas.
A pesquisa mostrou que a música
pode ter resultados positivos se apresentada e estimulada de acordo com a
vivência dos sujeitos. Ou seja, respeitando suas diferentes escolhas e
experiências.
Ao iniciar o trabalho pensamos que
encontraríamos na escola somente experiências musicais adquiridas através da
mídia, e que as crianças estariam “pouco abertas” à novas experiências, mas o
resultado foi bem diferente. Por meio de pequenos estímulos várias experiências
surgiram e eram compartilhadas durante os momentos em sala e fora de sala.
Duas das professoras disseram que
as aulas rendiam mais, e que as crianças ficavam mais atentas e interessadas
após terem passado alguns momentos envolvidas com música.
A pesquisa mostrou-se válida,
atendendo os objetivos e questões propostas. Serviu também para que se pense em
trabalhos futuros com música em escolas.
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SOUZA, Jusamara. Música, cotidiano e educação:
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