A PRODUÇÃO DE TEXTOS NA PERSPECTIVA SEMIÓTICA DO ESPAÇO GEOGRÁFICO NO ENSINO BÁSICO DE GEOGRAFIA

 

Jeane Medeiros Silva[1]

Vânia Rúbia Farias Vlach[2]

 

Introdução

A educação é um fato social: sua função promove a sobrevivência da sociedade perante os desafios do futuro. O grupo social, nessa perspectiva, conforma o indivíduo à sua semelhança, e em processo contínuo. A escola é uma extensão do aprimoramento social do indivíduo; constitui um lugar para produzir e conhecer o produzido. Entretanto, muitos processos de ensino e aprendizado presentes nas salas de aula transformam a escola em um lugar preparado para se receber as ideologias e práticas hegemônicas, perpetuando-as.

Dentre estes trabalhos pedagógicos, sublinhamos aquele que conduz o ensino por meio de respostas, esperando que nelas fiquem subentendidos os problemas, excluindo, nessa trajetória, a criatividade, as convivências e a participação dos educandos: são explicações procedentes, não precedentes. Entenda-se respostas como a abordagem da realidade sistematizada, refletida e resultante de diversos esforços de converter as experiências em conhecimento, ou simplesmente o conhecimento; e problema como o proposto, o que está face à dúvida, ao desconhecimento, que tem diversas explicações e está em aberto para a continuidade, ou seja, a necessidade de conhecer a natureza humana, suas ações, o mundo em que vivemos.

Tal pedagogia espera que o professor produza o saber dos educandos por meio da sua ministração (que apenas revisa conteúdos prontos), e não por intermédio do processo conjunto professores/alunos de ensino-aprendizagem, ou seja, uma atividade que caminha metodologicamente do problema para as respostas.

Uma prática dinâmica de produção do conhecimento, que envolva os educandos como sujeitos do aprendizado, ou seja, aquela que evidencie a formação individual à formação histórica social, e não o contrário, deve considerar as manifestações lingüísticas do aluno, bem como as linguagens do seu mundo, seus usos e suas tecnologias. Esforços nesse sentido têm sido enfatizados entre os teóricos da educação: "Linguagem e realidade se prendem dinamicamente" (FREIRE, 1995: 11).

Em trabalho desenvolvido anteriormente, "Importância e aplicabilidade da redação no contexto do ensino fundamental e médio de Geografia", evidenciamos que, no contexto escolar, a produção de textos encontra-se compartimentada em relação aos outros conteúdos, estando restrita às práticas da disciplina Língua Portuguesa. Entretanto, a Redação tem uma inegável importância no processo de aprendizagem, pois auxilia o desenvolvimento do raciocínio lógico-argumentativo dos educandos, oferecendo-lhes oportunidades para relacionar o conhecimento apreendido em sala de aula e as experiências de caráter geográfico de que participam em seus cotidianos, e, ao mesmo tempo, demonstrar-lhes que o aprendizado não consiste unicamente em memorização, mas em conscientização dos aspectos e relações que compõem a realidade. Por outro lado, a Redação é uma das possibilidades do trabalho didático nas aulas do Ensino Fundamental e Médio de Geografia, posto que a escrita, enquanto uma disposição lógica de um determinado raciocínio, fixado por meio de signos lingüísticos (VANOYE, 1982; BARTHES, 1975), é um processo e um meio de comunicação.

Reconhecer o caráter intencional do ato comunicativo por intermédio da escrita já seria suficiente para justificar sua aplicabilidade a outras disciplinas do currículo escolar, a exemplo da Geografia, pois nele se inclui uma das principais premissas indicada pelos estudiosos do Ensino da Geografia: a de tornar o aluno agente do processo educativo.

Neste artigo, analisamos e identificamos os elementos semióticos do espaço geográfico, visando ampliar o entendimento do espaço sócio-natural como uma das chaves para que o aluno compreenda a abordagem da disciplina geográfica e produza, a partir dela, raciocínios que melhor o façam compreender a realidade de que participa cotidianamente. Nesse sentido, propomo-nos a compreender o conceito de Espaço nos debates atuais da Ciência Geográfica e suas implicações no Ensino de Geografia; investigar a contribuição da Semiótica e da Lingüística para o conceito de espaço geográfico, visando a produção/reprodução de textos no Ensino de Geografia; e, finalmente, reconhecer a importância de um raciocínio semiótico para a formulação de propostas redacionais.

 

Os pressupostos semiológicos da linguagem

Com o desenvolvimento dos estudos semiológicos, na última metade do século XX, a palavra perdeu sua hegemonia enquanto elemento da comunicação humana e, assim, no seu silêncio, os lingüistas perceberam sistemas de significação que ampliaram as dimensões dos estudos sobre a comunicação. Nessa perspectiva, a Semiologia seria o conjunto epistemológico cujo "...objeto é o estudo dos signos no seio da vida social..." (DUBOIS et al.: 1998, 536). Os signos são unidades de comunicação dotadas com a dicotomia significante/significado (o aparente e o sentido nele implícito), capazes de comunicar uma determinada informação. No sentido semiótico, os signos não se limitam ao lingüístico, ao contrários, transcende-os, sendo, conseqüentemente, unidades e sistemas de comunicação cujos significantes não são propriamente o acústico ou traço de fixação das palavras, mas signos visuais, auditivos, tácteis: são os sinais de trânsito, as cores, os desenhos, as expressões, os gestos, usos e costumes, símbolos etc.

"A semiótica é a ciência que tem por objetivo de investigação todas as linguagens possíveis, ou seja, que tem por objeto o exame de modos de constituição de todo e qualquer fenômeno, como fenômeno de produção de significação e de sentido" (GALVÃO, 1994: 75).

Em decorrência disso, a Semiologia persiste nos paradigmas da Lingüística: os signos têm significações porque são construídos no contexto social, produto de uma convenção implícita e/ou explícita entre seus membros comunitários, isto é, pode-se dar até mesmo inconscientemente.

 

A discussão sobre o espaço geográfico

As relações sociais registram-se concretamente no entorno espacial dos indivíduos, que têm uma inserção local/regional e uma inserção em um contexto cada vez mais amplo e complexo, ou seja, há lugares em que se produzem e reproduzem, e há a transcendência deste espaço (política, econômica e culturalmente) transmitida pelos meios de comunicação, e percebida nas decisões que continuamente transformam e reorganizam a interação do homem com a natureza e com os seus pares. Desse modo, o espaço geográfico é considerado como uma interação dinâmica e histórica da realidade, ou, de acordo com SANTOS (1996: 122):

"...um conjunto de relações realizadas através de funções e de formas que se apresentam como testemunho de uma história escrita por processos do passado e do presente [...] é, então, um verdadeiro campo de forças cuja aceleração é desigual. Daí porque a evolução espacial não se faz de forma idêntica em todos os lugares".

Na Geografia Tradicional, o espaço não foi um dos conceitos primordiais da análise geográfica, estando o seu enfoque mais centrado no entendimento da paisagem e da região. Seu sentido perfazia a base sócio-natural das ações humanas, ou então aplicava-se ao território (apropriação social do espaço) e ao espaço vital (necessidade implícita da sociedade por território outros para o seu pleno desenvolvimento); isto quando não efetivava a noção de ser um receptativo dos elementos e fenômenos sócio/naturais — conforme a análise de CÔRREA (2000: 17, 18, 19).

A reação do pensamento crítico a tais posturas epistemológicas fez a Geografia incorrer contra a materialidade do espaço (que lhe concedia o caráter descritivo e a abordagem ilimitada da realidade), cedendo lugar a uma reflexão que considera o "campo" social, ou seja, suas relações, sua dinâmica espacial (SANTOS, 1996).

 

Linguagem, espaço e ensino

A Língua e a escrita, desde a Antigüidade, eram tidas como os elementos hegemônicos da comunicação humana. Entretanto, nas circunstâncias que se seguem à Revolução Industrial, respaldaram-se novos tipos de comunicação e suas tecnologias, em paralelo à Língua e sua escrita. Desde então, falou-se em uma crise da linguagem escrita, ou, simplesmente, da linguagem. No entanto, no sentido social que a abordamos aqui, a crise da linguagem não se reverteu negativamente para a realidade, como muitos queriam, entusiasmados que estavam, entre o fim do século XIX e o início do século XX, com o surgimento da fotografia, do cinema mudo etc. Ao contrário: do abalo do seu prestígio algumas escamoteações ruíram. Assim, emergiu uma conscientização da natureza da linguagem: 1) desnaturalizou-se o fenômeno lingüistico, ficando evidente o seu caráter de convenção social, desmistificando-se, por conseguinte, o tratamento mecanicista, objetivo e puramente empírico da linguagem (normalmente confundida com a língua), como a concebiam os lingüistas positivistas, ou seja, a língua e a linguagem ressurgem como um organismo vivo e social; 2) descompartimenta-se, pois, linguagem e pensamento, destacando-se as relações de reciprocidade que efetivamente ocorrem entre ambos:

"O pensamento não é uma imaterialidade pairando nas nuvens de uma "alma" individual ou coletiva, mas se acha indissoluvelmente ligado ao desenvolvimento de nossa capacidade de organizar e criar linguagens" (BRAGA, 1984: 50);

3) constata-se que o pensamento e a linguagem não se particularizam no lingüístico: "somos hoje mais leitores de formas e de suas interações do que de estruturas apenas lingüísticas" (BRAGA, 1984: 50). Tais avanços cognitivos são desdobramentos resultantes da perda da função hegemônica da linguagem, e da escrita, enquanto meio por excelência da cultura humana em escalas espaciais e temporais mais amplas.

A Educação Básica de Geografia (Ensino Fundamental e Médio) deve ser entendida cada vez mais como uma atuação comprometida com o construir-se dos educandos. Esta atuação, inclusive, vem sendo reforçada como um dos principais desafios da rede escolar contemporânea. É nesse sentido que estudiosos da Educação e do Ensino da Geografia, recentemente, conduzem suas investigações na evolução da pedagogia geográfica (FREIRE, 1995; OLIVEIRA, 1989; VLACH, 1990, 1991).

Um dos pressupostos deste trabalho consiste em concordamos com a existência de práticas geográficas implícitas na formação social dos indivíduos; esta Geografia preexiste à inclusão do aluno no sistema educacional e manifesta-se por meio de saberes sócio-espaciais e práticas comportamentais na vida cotidiana, ou seja, é o entendimento da espacialidade das relações sociais (por exemplo, o domínio referencial do território que ocupa, a compreensão de alguns valores da divisão social e espacial urbana e assim por diante). Por isso, demonstramos que o saber da interação homem/espaço (logo, da realidade) também é um trabalho conjunto e recíproco da percepção e da experiência individual (memória pessoal), que pode ser veiculado tanto pela linguagem oral quanto pela linguagem escrita. No último caso, o discurso escrito interage entre a informação compreendida na sala de aula e as experiências pessoais.

Se visualizarmos o Espaço Geográfico de um ângulo semiótico, podemos perceber que o espaço é um conjunto de elementos intercalado por relações que expressam a mesma dicotomia significado/significante do signo. A prática geográfica é uma das maneiras de reconhecer as significações do espaço: atitudes, fatos, disposição, distribuição, escala, enfim, significados. Tal composição é suscetível de interpretação, o que implica no entendimento de que o espaço é um sistema de comunicação, não lingüístico, não intencional, constituindo um "...processo convencional cuja realização concreta (chamada de ato sêmico) permite a comunicação" (BUYSSENS, 1967). Portanto, há um estado de "linguagem natural" que é encontrado na organização espacial e que, a despeito da sua não-intencionalidade, comunica informações ao interpretante ¾ é um índice referencial de sua substância. O Espaço Geográfico consiste em um sistema de signos na medida em que tem, em torno de si, convenções sociais advindas tanto da "sabedoria popular" quanto dos estudos efetuados nas Universidades ou, porque não, nas aulas do Ensino Fundamental e Médio de Geografia, que estimulam o reconhecimento de uma lógica e de uma significação espacial.

 

Algumas considerações

Uma reflexão da semiologia do espaço, evidentemente, tem referenciais para um raciocínio espacial em termos de linguagem, se admitirmos a multidimensionalidade espacial da realidade, ou seja, um espaço

"absoluto, relativo, concebido como planície isotrópica, representado através de matizes e grafos, descrito através de diversas metáforas, reflexo e condição social, experienciado de diversos modos, rico em simbolismos e campos de lutas..." CÔRREA (2OOO: 44).

O espaço geográfico, então, pode ser concebido como um sistema de comunicação e, por intermédio da produção de textos escritos pelos educandos, uma visão semiótica do espaço contribui para que o educador compreenda melhor as maneiras de se trabalhar com a redação e, em decorrência, auxilia o educando a escrever textos com base no seu aprendizado geográfico, contribuindo, então, com os procedimentos de conscientização das relações sócio-naturais e de construção da cidadania.

Se retomarmos as noções de problema/respostas introduzidas neste trabalho, podemos ressaltar, ainda, que as experiências sócio-espaciais deduzidas na convivência dos alunos, ou induzida por meio de aulas práticas, a exemplo do trabalho de campo, poderão participar da problematização da Geografia e, em seguida, da produção de respostas/conhecimento, as quais, por sua vez, podem integrar-se ao discurso dos educandos por meio da oralidade, da escrita e da cidadania.

 

Referências Bibliográficas

BARTHES, R. Elementos de semiologia. São Paulo: Cultrix, 1975.

BUYSSENS, E. Semilogia e comunicação lingüística. São Paulo: Cultrix, 1967.

CARLOS, A. F. A. (Org.) A geografia na sala de aula. São Paulo: Contexto, 1999. (Coleção Repensando o ensino).

CASTRO, I. E.; GOMES, P. C. da C.; CÔRREA, R. L. (Org.).Geografia: conceitos e temas. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2000.

CHISTOFOLETTI, A. Perspectivas da geografia. São Paulo: Difel, 1982.

DUBOIS, J. et al (Org.). Dicionário de lingüística. São Paulo: Cultrix, 1998.

FREIRE, P. A importância do ato de ler; em três artigos que se completam. São Paulo: Cortez, 1995. (Coleção Questões da nossa época; v. 13).

GALVÃO, Luisa Maria. Linguagem não-verbal: passeio pela semiótica de peirce. Uberlândia, n. 1, p. 71-90, jan./jun., 1994.

GREIMAS, A. J. Sobre o sentido: ensaios semióticos. Petrópolis: Vozes, 1975.

HAYAKAWA, S. I. A linguagem o pensamento e na ação. Trad. Jane A. Picarati. São Paulo: Pioneira, 1977. (Coleção Biblioteca pioneira de arte e comunicação).

KOCH, I. G. V. Argumentação e linguagem. São Paulo: Cortez, 1984. 240 p.

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OLIVEIRA, A. C. de (Org.). Para onde vai o ensino de geografia? São .Paulo: Contexto, 1989.

PIGNATARI, D. Informação, linguagem, comunicação. São Paulo: Perspectiva, 1976. (C. Debates).

SANTOS, M. Por uma geografia nova; da crítica da geografia à geografia crítica. São Paulo: Hucitec/EDUSP, 1978. 236 p. (Coleção Geografia: teoria e totalidade).

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VLACH, V. R. F. Geografia  em  debate. Belo Horizonte : Lê, 1990.

________. Geografia em construção. Belo Horizonte: Lê, 1991.

 



[1] Graduanda do Instituto de Geografia/Universidade Federal de Uberlândia; bolsista do PIBIC/CNPq/UFU/ jeane_ms@bol.com.br.

[2] Professora Doutora do Instituto de Geografia da Universidade Federal de Uberlândia/ vaniarubia@nanet.com.br.