Interação de alunos de diferentes nacionalidades em salas de
português como língua estrangeira
Denise Barros
Weiss[1]
O
campo de trabalho em que se insere este texto, o português visto como uma
língua estrangeira, é relativamente pouco conhecido no Brasil. É, assim, um
espaço em que muitas discussões ainda estão em aberto. Entre elas destacamos
uma, que tem repercussões diretas na prática do profissional do setor: como
trabalhar em uma sala de aula multicultural. Neste texto o objetivo é analisar
algumas das características desses grupos de alunos e o papel do professor que
trabalha com eles.
1.
Relações interculturais: um pouco da teoria
O
conceito de cultura que norteará este artigo será o que foi apresentado por
Itacira Ferreira: “queremos nos referir, aqui, a todas as atividades do fazer e
do pensar humanos, além das experiências, leis e normas que determinam a
convivência, principalmente as atitudes dos homens diante do novo e do
estranho, assim como diante das diferentes idéias e sistemas de valores e
formas de vida” (FERREIRA, 1998, p.40).
Chama
a atenção nesse conceito a referência à reação diante do novo que, na sala de
português como língua estrangeira, é de grande importância no desenvolvimento
das relações interpessoais.
Alunos
e professor de língua estrangeira entram em contato uns com os outros em uma
situação especial e delicada. Pessoas que não se conhecem, que não partilham,
em princípio, a mesma língua nem a mesma cultura, passam a conviver
quotidianamente. O objetivo explícito para essa reunião é o ensino/aprendizagem
da língua e a cultura de um país estrangeiro. Entretanto há ali, conforme já
foi visto, outras trocas do que essa.
Cada
aluno, assim como o professor, chega à sala trazendo como bagagem sua vida e
suas experiências pregressas. Não tarda muito para que os outros queiram saber
sobre essas experiências, e aí surge um feixe de relações imprevistas, de que o
currículo previamente organizado pelo professor não dá conta e que interfere no
comportamento e no rendimento da turma. Trata-se, fundamentalmente da
manifestação do processo que Hanvey, citado por Schlatter (1996, p.16-7) chama
de conscientização cultural:
No
estágio 1, a informação sobre a cultura de outro povo consiste de traços
superficiais, fatos isolados e estereótipos. A cultura é tida como estranha,
bizarra e exótica. Os indivíduos da outra cultura são muitas vezes considerados
rudes, ignorantes, lhes falta um certo refinamento. No estágio 2, a informação
é ampliada com os traços que contrastam com a própria cultura. O comportamento
dos indivíduos é tachado de irracional, irritante e sem sentido. No 3º estágio,
a cultura estrangeira começa a ser aceita no nível intelectual, tornando-se
pois aceitável porque pode ser explicada. O comportamento passa a ser
interpretado através do parâmetro da própria cultura estrangeira. Finalmente o
último estágio é o da empatia. O indivíduo começa a ver a cultura como se
pertencesse a ela e pode assim sentir o que o nativo sente.
O
autor certamente se referia ao processo de aculturação à língua-alvo, mas é
possível apropriar-se desse escalonamento e ampliar seu raio de ação para que
abranja também as relações que os alunos têm com as demais culturas com as
quais convivem em uma sala
multicultural.
Em
uma primeira fase desse relacionamento, os envolvidos no processo (incluindo-se
aí alunos e professores) tendem a olhar uns para os outros com base em
conceitos já muito arraigados. É como se a sala de aula não fosse formada por
pessoas, mas por nacionalidades. Não existe o John, mas um americano, nem o
Hideki, mas um japonês. Na falta de referências específicas, todos usam as
imagens estereotipadas que têm sobre os países de origem dos colegas. O
professor também é identificado de acordo com o mesmo critério.
Nessa
fase, costumam ocorrer muitos enganos, e às vezes problemas até bem sérios,
dependendo do grupo que se formou, conforme se verá na próxima seção .
Rod
Ellis, em seu Second Language Acquisition, ao tratar das identidades
sociais explica que “aprendizes de língua têm identidades sociais complexas que
podem ser entendidas somente em termos de relações de poder que dão forma a
estruturas sociais[2]” ELLIS
(1997, p.40)
Uma
sala de aula de língua estrangeira é, portanto, não apenas um lugar onde se
reúnem pessoas interessadas em receber informações novas, mas um espaço
privilegiado de discussão e um microcosmo de relações sociais organizado e
reorganizado continuamente. Ao se reunirem pessoas de diferentes origens, a
língua alvo torna-se, mais do que uma disciplina a ser estudada, o meio, muitas
vezes único, de se estabelecer a comunicação e o entendimento mútuo. Quando há
de fato interesse nesse entendimento, existe um crescimento do grupo em direção
a níveis mais elevados de proficiência. Entretanto, se alguém fica de fora,
corre um sério risco de perder oportunidades de interação e provavelmente terá
dificuldades em atingir tais níveis de proficiência.
Uma
pista para se compreender o que pode significar o caminho percorrido pelo aluno
estrangeiro, quando vai imergir na cultura alvo, pode ser o que explica BASTOS (1999, p. 9-10):
O
modo de vida vigente, ou a realidade consensual, pode ser entendido, a
princípio, como o modo de subjetividade homogenética. Ilustrativamente, pode-se
dizer que, quando há rupturas na subjetividade homogenética, surgem
possibilidades de outros modos de existir diversos até então. Em outras
palavras, aqui aparecem, então, certos modos de subjetividade heterogenética ou
mutante.
Pode-se
considerar o momento da decisão de se sair do país como um momento de quebra da
subjetividade homogenética. Quando alguém se dispõe a dedicar um ano de sua
vida (ou sua vida toda) ao projeto de viver outra cultura, pode-se dizer que
ele já não corresponde mais ao estereótipo da cultura na qual nasceu e foi
criado. É alguém que já se percebe um pouco diferente em relação aos demais de
sua comunidade. Há algum grau de insatisfação com sua vida que o faz buscar um
espaço diferente, uma interação com outras coisas. Quando ele sente a
necessidade dessa busca, já está um pouco aberto para a apreensão dessa outra
realidade.
Paul
Claval, em seu livro A geografia cultural, assim se refere à experiência
do relativismo cultural:
Ao freqüentar vários grupos, descobre-se
rapidamente a relatividade das convenções e das normas que os caracterizam.
Enquanto se permanece prisioneiro de uma outra cultura, então tudo parece
assinalado pela marca da necessidade, tudo parece legítimo. Os costumes, as
instituições, os mitos, as crenças são tidos como normais e parecem depender
mais do registro da natureza do que da criação humana.
O
desenraizamento libera ao permitir comparações: toda sociedade deve enfrentar
necessidades e assegurar serviços, mas há mil maneiras de consegui-lo. Para
quem conhece muitas culturas, nada permite afirmar a priori que uma
solução seja superior a outras.
As
situações de contato cultural abrem assim a via aos questionamentos. Fazendo
descobrir outros códigos e outros sistemas de regras, convidam ao
questionamento das bases do universo no qual se vive. (CLAVAL, 1999, p.106)
Mas
entre a vontade, algo utópica, de viver o diferente, e a realidade de sair de
seu locus vivendi e entrar em outro, existe um processo longo, não
isento de sofrimento. A passagem não se dá sem que haja um estranhamento diante
do diferente, uma comparação com aquilo que lhe é caro, até que haja,
finalmente, a compreensão e a aceitação da outra cultura. Esse processo é
especialmente sofrido quando o aluno sai de seu país por motivos tais como a
guerra ou a necessidade premente de aceitar um emprego em outro lugar.
Almeida
Filho chama a esse processo “desestrangeirização”. Em suas palavras,
É
preciso lembrar também que a desestrangeirização é um processo que não termina
por transformar o aprendiz num novo falante
nativo da outra língua. Muitos aprendizes bem-sucedidos logram avançar
até níveis de impressionante parecência com padrões nativos de desempenho
lingüístico-comunicativo, mas ainda assim não poderiam ser, a não ser em casos
raros, confundidos com verdadeiros falantes nativos. Essa aparente limitação não
representa para aprendizes maduros nenhum prejuízo, uma vez que gozam já de uma
plenitude lingüística em suas línguas maternas onde vivem culturalmente
integrados. (ALMEIDA FILHO, 1996, p. 21)
Costuma
haver uma expectativa de que, ao final do processo de aquisição de uma segunda
língua, o aluno estrangeiro se torne uma cópia fiel de um falante nativo. Mas
ele não quer e nem pode se encorajado a aspirar algo assim - já que isso
demandaria a perda completa de grande parte de sua vida anterior e o tornaria,
muito provavelmente, uma caricatura do que ele crê ser o falante nativo típico.
Assumir que se vai ser diferente é um grande passo na imersão na cultura alvo.
Segundo
Ferreira, “não é objetivo da aula de língua fazer com que o aluno internalize
profundamente as formas de pensamento e conduta da outra cultura, pois para que
haja uma comunicação cultural satisfatória não é necessário ocultar sua
condição de estrangeiro”. (FERREIRA,1998, p. 43)
O
processo de destrangeirização se dá de dois modos que atuam em maior ou em
menor grau, ainda que simultaneamente, ao longo do tempo: aquisição e
aprendizagem. Adotaremos aqui a postura de Krashen, que distingue (ao contrário
de Rod Ellis) esses dois processos.
a
aquisição é um processo subconsciente de construção criativa usado por crianças
e adultos ao adquirirem a primeira e a segunda línguas. A aquisição é natural e
por isso muito se assemelha à maneira pela qual a criança adquire a primeira
língua, enfatizando-se a necessidade de comunicação e não a forma lingüística.
A aprendizagem de uma língua, por outro lado, é um processo consciente através
do qual regras são assimiladas e observadas. (KRASHEN,1982, p.10)
Tanto
a aquisição quanto a aprendizagem ocorrem na sala de aula de língua
estrangeira. A formalização é, de modo geral, parte importante das expectativas
do aluno quando se dispõe a aprender uma segunda língua em um curso,
especialmente quando está em contexto de imersão, como é o caso dos alunos que
vêm para o Brasil. Ela se dá prioritariamente na relação professor aluno(s).
Por outro lado, a aquisição, espontânea, se processa prioritariamente no trato
entre os alunos na sala.
Uma
parte fundamental do processo se dá pela compreensão da cultura-alvo. Na sala
de aula, tradicionalmente se atribui exclusivamente ao professor o papel de
divulgador dessa cultura. No caso em apreço, porém, que é a o de alunos em
imersão na cultura-alvo, o que a experiência tem mostrado sugere um quadro
diverso. Muitas vezes são os próprios alunos que apresentam aspectos da cultura
brasileira uns para os outros, durante suas conversas em sala. Cada um
compartilha com os colegas e com o professor sua ponto de vista a respeito
daquilo que viu e experimentou. Essa leitura dos diferentes aspectos da cultura
alvo, feita por pelo aluno estrangeiro, ajuda os outros da turma que ainda não
tiveram aquela experiência a compreendê-la, ou ao menos a se prepararem para
ela. Permite ainda ao professor conhecer o que o aluno pensa sobre o tema e
colaborar para que ele tenha uma informação mais abrangente, mostrando-lhe sua
própria visão, como nativo daquela cultura..
Mas
é oportuno lembrar que o aluno que aprende uma língua não o faz para poder
falar da cultura alheia mas, prioritariamente, para falar de si mesmo, para se
apresentar e apresentar sua cultura e sua maneira de pensar aos outros. Isso também é fonte de discussões freqüentes
durante os cursos de língua estrangeira. A professora Lygia Trouche descreveu
assim sua experiência no programa de Português para estrangeiros da
Universidade Federal Fluminense:
Como
num jogo de espelhos, as diversas culturas representadas por alunos alemães,
japoneses, norte-americanos, de São Salvador e da Nova Zelândia entram em
contato numa busca de reconhecimento de identidades nacionais específicas e de
possibilidades de compreensão mais profunda, em nível humano, numa troca de
experiências de vida e modos de ser diferentes. (TROUCHE, 1996, p. 71)
A
língua-alvo torna-se meio de comunicação progressivamente mais efetivo das
necessidades e questionamentos de cada um, proporcionando negociações de
sentido sempre mais sofisticadas. O nível de interação entre os aprendizes é,
nessa perspectiva, essencial para possibilitar mais oportunidades de
crescimento e de compreensão do outro. Além disso, é um dos elementos necessários
à baixa do chamado filtro afetivo, que interfere na capacidade de o aluno
atingir níveis mais altos de proficiência na língua-alvo.
Entendemos
aqui proficiência na acepção de Ommagio, tal como foi resumida na dissertação
de mestrado da autora:
Omaggio
(1986) propõe considerar a proficiência não como o ponto final de uma
trajetória de aprendizagem ou aquisição de língua, mas como um conceito
escalar, específico para a análise de aprendizagem de língua estrangeira, que serve de base para uma estruturação dos
objetivos de ensino, dando as diretrizes que levarão o aluno a atingir níveis
de conhecimento da língua-alvo. Esses níveis são estabelecidos com base em
habilidades específicas que devem ser adquiridas. (WEISS, 1994, p.68)
Wolfang
Klein, em seu livro Second language acquisition, (KLEIN, 1986) informa-nos que
há condições que determinam a propensão de um aprendiz a ter sucesso na tarefa
a que se propõe. Segundo ele, a
propensão cobre a totalidade dos fatores que fazem com que o leitor use sua faculdade
de linguagem para aprender uma segunda língua. Alguns desses fatores são
positivos, outros negativos. Não é fácil determinar quais são os fatores nem
mensurá-los, mas é importante analisá-los porque eles não afetam igualmente
todos os aspectos da aprendizagem e podem ser afetados por fatores externos.
Dentre os que ele cita, destacamos o que ele chama atitude.
A
atitude compreende a relação até certo ponto emocional que o aprendiz tem com a
língua alvo. Estão incluídos aí os preconceitos, a admiração pelo povo, o
"status" que a língua possui no conceito do aluno, etc. A atitude
pode assumir certas formas menos
óbvias, tais como a preocupação com a perda da identidade social , a
sensação de que aprender uma certa língua, cuja proximidade com a língua
materna do aprendiz é grande, é perda de tempo, o medo de revelar suas
dificuldades na hora de produzir enunciados, que faz com que o aluno não queira
falar ou escrever. Em alguns desses casos, parece haver uma atitude não só
frente à língua, mas frente a outros comportamentos sociais.
Influenciada
em grande parte pelos estereótipos vigentes,
a atitude é especialmente forte na fase de adaptação do aluno no país
estrangeiro. Nessa adaptação manifesta-se muitas vezes o medo do desconhecido.
Uma
frase de um aluno do curso de Português para estrangeiros que já está no Brasil
há aproximadamente um ano, ao conversar com um recém-chegado, ilustra bem qual
é o peso do filtro afetivo no processo de desestrangeirização. Quando se
comentava em sala a respeito da adaptação desse modo aluno, ele disse que não
sabia o que fazer com seus pertences, já que não conseguia confiar nas pessoas
com quem estava convivendo no lugar que escolhera para morar, o aluno mais
antigo se manifestou, dirigindo-se especificamente ao recém-chegado:
John,
quando eu cheguei, também tinha medo. País diferente, povo estranho. Mas, com o
tempo vi não era assim tão perigoso.
Vista
pela ótica de outro estrangeiro, a situação em que o aprendiz se encontra deixa
de ter o peso da solidão. Um se apóia no outro na tentativa de traduzir para si
o mundo estranho em que se encontra. Nesse caso, a interferência do professor,
um nativo, não teria a mesma força.
A
sala de aula pode se tornar, então, o lugar em que as múltiplas identidades se
entrecruzam. Um caldeirão onde são problematizados os modos de cada aluno ver o
mundo e de apreendê-lo. Não é espaço, portanto, de veiculação de uma
cultura-alvo, somente, mas de trocas de
experiências de indivíduos portadores de múltiplas culturas, que, em contato,
mudam e complexificam suas relações, revêem seus conceitos e (re)criam suas
identidades.
2.
Ensinar português como língua estrangeira em salas multiculturais
O
professor de português como língua estrangeira tem, como campo de trabalho, no
Brasil de hoje, três grandes áreas.
Na
primeira estão as turmas formadas geralmente funcionários de empresas
estrangeiras que precisam ser habilitados para aumentarem a fluência em
português. Nesse caso, é bastante comum a formação de turmas homogêneas (de
alemães, de americanos, de franceses, de acordo com a nacionalidade da matriz).
Uma característica dessas turmas, sob o ponto de vista do professor, é a
possibilidade de tratamento homogêneo (até certo ponto) das questões culturais,
feito através da comparação da cultura materna à alvo. Nesse processo, os alunos, com suas
singularidades, fornecem o contraponto às informações, opiniões e crenças do
professor, representante da língua-alvo. Ao trabalhar com essas turmas, o
professor tem condições de se especializar na cultura dos seus alunos,
preparando de antemão atividades que versem sobre temas que ele domina. Assim,
um professor que tem em sala somente alunos alemães, por exemplo, pode
trabalhar com temas da história do país, enfocando-os sob as óticas brasileira
e alemã, com a relativa segurança de conhecer previamente os pontos de vista
prováveis de cada parte envolvida.
A
segunda área de trabalho é a das aulas particulares. Caracteriza esse tipo de
atividade a interação de um para um entre professor e aluno. As trocas se
realizam quase exclusivamente entre eles. A comparação entre as culturas se dá
no contato de dois indivíduos, com suas crenças e preconceitos, geralmente
confrontados. O processo de preparação das aulas é semelhante ao das aulas para
turmas homogêneas, diferenciando-se no nível das discussões, que costuma ser
mais aprofundado.
Na
terceira área temos o trabalho com turmas heterogêneas. Comuns nos cursos
oferecidos em instituições tais como as universidades e cursos particulares,
essas turmas costumam ser abertas a indivíduos de diferentes nacionalidades, já
que freqüentemente não existe possibilidade de se criar turmas específicas,
dada a grande variação na demanda. Nesse contexto, há uma pluralidade de
culturas em contato, e o professor se torna o representante de uma delas. O
contraste, então, será multidirecional, ainda que o foco das comparações seja,
a princípio, entre as culturas maternas dos alunos e a cultura-alvo. Nesse
caso, torna-se quase inviável para o professor o domínio, ainda que precário,
das culturas representadas em sua sala de aula, seja pela diversidade, seja
pela dificuldade de se obter as informações relevantes em cada aula preparada.
Em
uma sala de aula com essas características, as relações são mais complexas. Há
uma relação em foco: a que se considera principal, por ser, em princípio, a
razão pela qual se reúne a turma, é a
que ocorre entre o professor e os alunos. É, segundo a tradição educacional,
uma relação assimétrica: o professor detém o poder de falar e de fazer calar.
Ao aluno cabe o papel, quase passivo, de reagir ao que for proposto pelo
professor, respondendo às questões que lhe forem dirigidas e fazendo perguntas
(o que ocorre apenas eventualmente, em muitos casos). O aluno costuma procurar produzir um discurso mais formal,
voltado em grande parte para o atendimento das proposições da situação de sala
de aula. Está sempre presente a preocupação em ser proficiente na língua-alvo,
mas nem sempre é primordial a comunicação de idéias, a troca de significados.
A
segunda modalidade de interação é a que existe entre os alunos. Essa subverte a
ordem da sala de aula e é temida pelo professor na aula chamada tradicional,
que a considera perigosa para o bom andamento dos trabalhos.
Em
uma sala de aula de português como língua materna, por exemplo, essa chamada
“conversa paralela” é desencorajada pelo professor. Entretanto, em uma aula de
português como língua estrangeira os alunos são encorajados a conversarem entre
si, já que nessa atividade predomina o interesse genuíno pelo que o outro tem a
dizer e, mesmo no contexto formal da sala, a troca tende a ser mais
significativa, menos ditada pelas exigências de um programa de estudos e mais
voltada para a informação.
A
sala de aula multicultural favorece esse tipo de interação. Alunos de
diferentes nacionalidades tendem a se sentir mais interessados na cultura do
outro, nos seus pontos de vista. Por causa desse interesse as oportunidades de
se usar a língua alvo (no caso, o português) se multiplicam.
É o que afirma Haiston, citado por
Julia Gousseva em artigo publicado em The Internet TESL Journal: "Real
diversity emerges from the students themselves and flourishes in a
collaborative classroom in which they work together to develop their ideas and
test them out on each other" (HAIRSTON,1992, apud GOUSSEVA, 1996)
Há,
porém, complicadores nessa interação, que serão alvo de atenção neste artigo.
Como
exemplos desse processo, serão aqui apresentadas duas situações vividas pela
autora em turmas de português para estrangeiros do curso de Português para
estrangeiros ministrado na Universidade Federal de Juiz de Fora (Minas Gerais),
das quais ela foi professora.
O
primeiro grupo era formado por três alunos, rapazes entre vinte e trinta anos,
oriundos da Rússia, da Iugoslávia e da Finlândia. Ocorre que finlandeses e
iugoslavos guardam grande mágoa dos russos, por conta de divergências sérias,
que já desencadearam guerras entre os países. A princípio, isso se refletiu,
com bastante força, na sala. O aluno russo foi rejeitado pelos outros dois, que
evitavam a todo custo, às vezes ostensivamente, realizar trabalhos em sala que
fossem em grupo. Fora da sala, essa relação era certamente ainda mais difícil.
Dar
aulas nessa turma foi um desafio. Sem a coesão entre os alunos, havia trocas
exclusivamente entre a professora e cada um dos alunos, separadamente. As aulas
se tornaram, então, um espaço de discussão quase exclusiva de itens de
gramática, com poucas oportunidades de trabalho para o desenvolvimento das
habilidades de comunicação oral.
A
solução, encontrada depois de várias experiências frustradas de aproximação dos
alunos, foi desviar o foco das tentativas de discussão do campo da
nacionalidade de cada um para o da individualidade. Essa prática não é usual
nas aulas de PLE preparadas em manuais didáticos. Com a mudança, as
nacionalidades continuaram, é certo, referências importantes, mas deixaram de
ser fonte primária de comparações. Com isso, estabeleceu-se uma situação menos
belicosa. Com alunos menos armados, menos na defensiva (especialmente o russo)
foi possível, ao final do ano, até uma revisão mais corajosa das relações entre
os países. Nesse momento os três alunos, tão diferentes e tão feridos por suas
experiências traumáticas nos países de origem, avaliaram, com ajuda mútua, a
situação que tinham vivido, utilizando como ponte a língua portuguesa. Nesse
caso, a ação das professoras foi fundamental para transformar o estranhamento
inicial em uma atitude mais positiva frente às diferenças.
No segundo exemplo, houve uma situação
diversa. A turma contava com um maior
número de alunos (oito) e era composta por alunos de várias nacionalidades –
japonesa, iugoslava, argentina, americana, canadense e australiana. Nesse grupo
as dificuldades giraram em torno do aluno australiano. Arredio e difícil,
chegou a ser grosseiro, tanto com as professoras quanto com os colegas. O
restante do grupo, porém, tornou-se coeso, demonstrando um interesse mútuo
crescente. Isso em determinado momento isolou o australiano, mas acabou por
contagiá-lo. A turma, já mais homogênea, aceitou bem até a entrada de mais dois
alunos, de nacionalidades húngara e francesa, embora esse último, ainda muito
cônscio das diferenças entre seu país e o do aluno americano, tenha provocado
algumas situações mais difíceis. Nesse grupo, prevaleceu o espírito de que é
possível olhar para a própria cultura “de fora”, através das análises dos
outros que não compartilham dela.
Por
causa disso, ocorrem com freqüência situações em que o professor pouco
interfere: as questões surgem naturalmente e são discutidas de modo equilibrado
e respeitoso. Como resultado, notou-se que esses alunos atingiram graus mais
elevados de proficiência mais rapidamente que alunos de mesma nacionalidade.
Aqui
fica clara a importância da integração do grupo na sala para o estímulo à
aprendizagem: quanto maior for o contato entre os alunos, feito através da
língua estrangeira, maior será a chance de a fossilização ocorrer apenas em
estágios mais avançados de proficiência. Ao contrário, se um indivíduo se isola
(casos do russo e do australiano), ele não participa das discussões; não ouve,
não fala. É o que diz ELLIS (1997:40) (tradução da autora):
“A
pidinização na aquisição de L2 ocorre
quando os aprendizes falham em aculturar-se ao grupo da língua-alvo, ou seja,
quando eles são incapazes ou não têm interesse em se adaptar a uma nova
cultura.” [3]
Nos
exemplos descritos, vemos situações em que as relações entre os alunos, com a
mediação – mais ou menos explícita - dos professores, interferem nos
processos de ensino/aprendizagem da
língua portuguesa. Mas como fica o professor frente a essas situações?
Ser
professor de uma turma multicultural pode ser um risco ou uma oportunidade.
Isso vai depender, fundamentalmente, da sua relação o com trabalho. Se ele se
considera sempre o dono e senhor da comunicação na sala, se assume um discurso
autoritário, se pretende sempre ter a última palavra e guiar todos os passos do
aluno, uma sala assim representa para ele o pior dos mundos.
O
professor precisa assumir uma postura de facilitador, de mediador. Deixar de
contabilizar o tempo gasto com cada intervenção do aluno para prestar atenção
real ao que ele diz. Abandonar as questões retóricas e já tão gastas (Como é
sua cidade? Descreva o sistema de transporte) para dedicar-se a descobrir o que
de fato pode constituir motivos de interação real. E aí reside seu maior
desafio. Turmas heterogêneas têm, em geral, interesses igualmente
diferenciados, portanto ficar atento para o que cada aluno traz pode ser útil
na identificação de seus interesses, assim como dos prováveis pontos de
convergência. Atividades diferenciadas podem, em certos momentos, fazer esse
efeito. Mas o que tem funcionado bastante é dar aos alunos momentos totalmente
livres, se possível fora da sala de
aula, e escutar atentamente sobre o que eles conversam, então. Sem a pressão de
estarem sob o olhar do professor, eles vão se soltar um pouco mais e aproveitar
a oportunidade para conhecerem seus colegas e seu professor.
Uma
aula de língua estrangeira com essas características desnuda tanto professor
quanto alunos. Como as interações são reais, e não mais criadas com propósitos
meramente “gramaticais” ou “funcionais”, todos terão de estar preparados para
se revelarem mais. Para tanto a confiança entre os alunos deve ser estimulada -
só assim eles se sentirão mais à vontade para errar, para experimentar, para
arriscar.
Alunos
oriundos de sociedades que exigem altos níveis de perfeição ou de
competitividade (caso de japoneses e americanos, por exemplo) irão aos poucos
aprender a aceitar seus enganos e a mudar alguns de seus conceitos sobre outras
culturas. Isso lhes facilitará a compreensão da cultura alvo, já que não se
fará uma comparação dual – a cultura materna e a do outro, mas se procurará
conhecer diferentes modos de vida, relevados por indivíduos, não por cidadãos.
O
fato de se relevar ao outro é, às vezes, desconfortável tanto para o professor
quanto para o aluno. Muitas vezes os problemas com preconceito dentro da sala
de aula partem do modo como o professor encaminha seu discurso, preocupando-se
muito em realçar as diferenças entre os alunos e dedicando-se pouco a descobrir
as semelhanças. Para não correrem riscos, alguns se refugiam nas gramáticas das
aulas mais tradicionais A postura de simplesmente fazer e responder a perguntas
cujo conteúdo é inócuo não interfere em nenhuma crença, não altera nenhum
conceito de mundo. É, portanto, território conhecido, caminho já trilhado
muitas vezes. São aulas previstas e previsíveis, com um contrato confortável.
Romper
com esse tipo de aula é pisar terreno desconhecido, em que cada aula pode
esconder surpresas de todo tipo, que vão de perguntas provocadoras de um aluno
sobre as crenças religiosas do professor até dúvidas sobre aspectos gramaticais
sobre os quais o mestre jamais pensou. O professor muitas vezes é confrontado
com aspectos pouco agradáveis de sua vida com cidadão e como indivíduo. Esse
tipo de questionamento não ocorre com freqüência na prática profissional do
professor em outras salas, mas é comum em uma sala de português como língua
estrangeira. Afinal, se o professor pode fazer perguntas pessoais aos alunos,
eles também podem fazê-las. Entretanto é nesse embate que professor e aluno
crescem juntos, aprendendo e (re)conhecendo as culturas, próprias e do outro.
Para
tanto é preciso que o professor que assume uma sala multicultural esteja
preparado para não agir nem com deslumbramento nem com desprezo pelas culturas
ali representadas. È importante, também que ele veja no aluno um indivíduo, com
a complexidade que lhe é inerente, e não o mero suporte de uma carga cultural
imutável.
ALMEIDA
FILHO nos apresenta um conceito de língua que se coaduna com o que se pretendeu
apresentar neste texto:
Línguas
indica mais do que os sistemas lingüísticos em si mesmos, linguagem humana,
discurso como forma de ação social. A
línguas são as construtoras da cultura e da autoconsciência, mostrando-nos
identidades de quem somos e de quem podemos ser. Dita assim no plural, línguas
se referem também às experiências em novas línguas desestrangeirizadas para
seus aprendentes. (ALMEIDA FILHO, 1996, p. 19)
Para
terminar, gostaria de apenas de lembrar: ao lidarmos com Português língua
estrangeira, não estamos tratando com estrangeiros, mas com pessoas. Enquanto
nós, professores, não compreendermos isso, e não percebermos nosso próprio
etnocentrismo, não estaremos preparados para lidar com as (nem tão grandes)
diferenças nem para reconhecer as (muitas) semelhanças. Se o fizermos,
saberemos, como bem lembra Guimarães Rosa, que o que existe, mesmo e de verdade
“é o homem humano”.
Referências
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115 p. mimeo.
[1] Professora assistente da Universidade Federal de Juiz de For a. Mestre em Lingüística.
[2] “...language learners have complex
social identities that can only be understood in terms of the power relations
that shape social structures”
[3] “Pidginization in L2 acquisition
results when learners fail to acculturate to the target language group, that
is, when they are unable to adapt to a new culture” (ELLIS, 1997:40).