Adriano Ferreira de Assis[1]
Josefina Aparecida Virgulino Mário[2]
Ó mar
salgado, quanto do teu sal
São lágrimas
de Portugal!
Por te
cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos
filhos em vão rezaram!
Quantas
noivas ficaram por casar
Para que
fosse nosso, ó mar!
Valeu a
pena? Tudo vale a pena
Se a alma
não é pequena.
Quem quere
passar além do Bojador
Tem que passar
além da dor.
Deus ao mar
o perigo e o abysmo deu,
Mas nelle é
que espelhou o céu.
Fernando Pessoa
1 – Introdução
As experiências aqui relatadas estão baseadas num trabalho subsidiado pelo Programa Universidade Solidária, no ano de 2001. Esse programa tem como presidente do Conselho da Comunidade Solidária a primeira dama do Brasil Professora Ruty Cardoso e objetiva “o investimento na formação cidadã de futuros profissionais, fortalecendo a responsabilidade social e desenvolvendo a criatividade e a liderança jovem; a colaboração, por meio da ação de professores e universitários, para a melhoria das condições da vida das comunidades; a contribuição para a disseminação e consolidação comunitária das universidades brasileiras, fortalecendo a extensão; a atuação para transformar o cotidiano dos municípios na organização comunitária e na busca de soluções locais”[3]. Caracterizado como programa de extensão, teve a duração de 20 dias, no município de São Gabriel da Cachoeira, sendo este a nossa sede, e os distritos de Maturacá e Yauaretê – AM, no período de 03 a 22 de fevereiro de 2001. Para o programa foram selecionados 10 alunos dos diversos cursos de graduação da FUNREI, sendo nós dois os únicos do Curso de Pedagogia.
Embarcamos em Belo Horizonte com destino a São Gabriel da Cachoeira levando nas malas muitas expectativas e o plano de trabalho “A Arte, o Lúdico e a Educação Bilíngüe em Classes de alfabetização”. Esse plano foi resultado de uma articulação – orientada pelo professor-coordenador[4] responsável pela equipe – dos projetos: “Educação Bilíngüe: um resgate de valores” elaborado pela acadêmica Josefina que tinha como objetivo primeiro propor a inclusão dos valores éticos e morais inerentes ao povo das terras amazônicas, na escolarização das crianças e jovens daquela região; mostrando através de conteúdos como matemática, português, história, ciências, geografia a dimensão social, cultural e histórica em que esses indivíduos estão inseridos. E o projeto: “A Arte e o Lúdico na Alfabetização: Trabalhando com Meio Ambiente e Pluralidade Cultural”, elaborado pelo acadêmico Adriano. Este tinha como objetivo a capacitação de docentes, e demais profissionais da educação, para que pudessem trabalhar com Meio Ambiente e Pluralidade Cultural dentro dos aspectos sociais e culturais indígenas, através da Arte e do Lúdico, utilizando e levando para a sala de aula a grande riqueza cultural dos povos indígenas.
Os projetos iniciais foram assim elaborados visando como público alvo, os profissionais da educação da região, por acreditarmos que através desses os objetivos propostos nos projetos seriam alcançados de forma satisfatória e eficaz, uma vez que esses profissionais caracterizam-se como multiplicadores. Para a elaboração dos projetos tínhamos como informação básica que 98% da população é de origem indígena, que São Gabriel da Cachoeira é a maior cidade da região com 30 mil habitantes e situa-se no Alto Rio Negro. Informações contidas no Edital de Convocação para s seleção dos projetos (Fundação das Organizações Indígenas do Rio Negro, FOIRN, 2000). Em uma pesquisa realizada pelo IBAMA, informamo-nos de que a maioria dos professores de São Gabriel da Cachoeira não tem formação adequada (edital de convocação para seleção dos projetos) e que mais de 70% desses, desconhecem o significado de Amazônia e Meio Ambiente (IBAMA, 2000).
Após a articulação entre os dois projetos iniciamos a elaboração do plano de trabalho. Nesse momento já dispúnhamos de mais informações, que foram coletadas pelo professor-coordenador em sua viagem precursora à Região. Segundo ele apesar da formação deficiente dos professores, a cidade dispunha de uma estrutura física educacional muito eficiente, havendo inclusive escolas informatizadas e em condições de atender à demanda de estudantes locais, e que o acesso à cidade só era possível através de avião e barco. Também ficamos sabendo que o exército é uma presença forte na cidade, sendo responsável por boa parte da receita e que a Igreja é outra presença também muito forte.
Estruturamos nosso plano de ensino tendo como subsídios referenciais teóricos como os Parâmetros Curriculares Nacionais, os Referenciais Curriculares Nacionais para a Educação Infantil e a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional 9394/96, que apontam para formação integral do educando, Ferreiro e Teberosky (1989, 1991) que ressaltam, dentre outros, a importância da construção do conhecimento numa visão social, histórica e cultural e Luckesi (1999) que, atualmente, disserta sobre a importância da ludicidade na educação. A interlocução entre estes referenciais, nossas experiências acadêmica e profissional configurou-se nos seguintes conteúdos de trabalho:
· PCNs – Temas Transversais: o que são, sugestões de trabalho em classes de alfabetização e sua implicação na Educação Bilíngüe;
· Literatura: a poesia, o teatro, a fantasia e a criatividade em sala de aula – observação sensorial, afetiva e reflexiva, criatividade e sensibilidade, expressão corporal e dramatização;
· Jogos Matemáticos: aprender brincando, a importância do brincar, confecção de jogos;
· Vivências Lúdicas: um mergulho na infância de cada um para resgatar o prazer, as músicas e as brincadeiras folclóricas na escola;
· Meio Ambiente e Pluralidade Cultural: trabalhando os 4 Rs - Reduzir, Reutilizar, Reciclar e Rejeitar (Internet, site Klick Educação - 2001), Trabalhos Manuais, Interdisciplinaridade, Projetos.
Levando-se em conta a formação dos profissionais, a metodologia consistiu em ação teórica e prática dos conteúdos propostos. A idéia foi elaborar um trabalho dinâmico, descontraído, porém com consistência e respaldo conceitual. Acreditamos que a aproximação teoria-prática possibilita a assimilação e/ou construção do conhecimento, pautado na realidade de forma eficaz.
2 – São Gabriel da Cachoeira,
Maturacá e Yauaretê, a Realidade.
Desembarcamos em São Gabriel da Cachoeira no dia 04 de fevereiro e fomos recepcionados, atenciosamente, pelo 5º Batalhão de Infantaria de Selva (5º BIS), que nos conduziu até o local onde ficaríamos hospedados. Tratava-se do Centro Juvenil Salesiano, uma organização não governamental mantida pela Inspetoria Salesiana Missionária da Amazônia (ISMA). Esse foi nosso primeiro contato com o contexto educacional local. Suas instalações eram grandiosas e dispunha de tecnologias educacionais como computadores, TVs, Vídeos e Retroprojetores. Apesar de os professores estarem de férias não foi difícil identificar que o tradicionalismo e a religiosidade católica imperavam como fundamentos pedagógicos. Isso foi constatado através de cartazes e pinturas nas paredes e das avaliações de alunos que nos foram apresentadas e pela bibliografia existente na biblioteca da escola, na qual constavam várias cartilhas e eram quase inexistentes materiais didáticos que considerassem a língua, a cultura e os valores da região.
Após uma viagem de mais de 24 horas de voadeira[5], chegamos ao distrito de Maturacá, formado pela reserva indígena dos Yanomamis. Nos deparamos com o seguinte cenário: de um lado uma comunidade indígena Yanomami, do outro uma ONG francesa, uma escola, uma igreja e um Pelotão Especial de Fronteira (PEF) do 5º BIS, este com objetivo de proteger a fronteira com a Venezuela. E através do tenente responsável pelo pelotão soubemos que a ideologia de se formar uma Nação Yanomami estava se espalhando e ganhando força na região.
A escola foi fundada pela igreja, tendo uma boa estrutura física, porém seu corpo docente é formado, principalmente, por professoras yanomamis com formação equivalente ao Ensino Fundamental. Através do relato de uma delas observamos que se adotava um método sintético de alfabetização, no entanto, essa alfabetização se dava primeiro na língua materna do aluno, ou seja, yanomami, e que os valores culturais e artísticos eram passados aos alunos através de aulas ministradas por pessoas da comunidade.
Yauaretê, na fronteira com a Colômbia, outro distrito em que fomos, tem aproximadamente 4000 habitantes, sendo estes de várias etnias diferentes, destacando-se, pelo maior número, a Tukano. Lá se instalara o 1º PEF do 5º BIS com o objetivo de proteger a fronteira. Logo que chegamos fomos procurados por líderes da comunidade que nos convocou para uma reunião na qual explicitaríamos nosso trabalho e nossas intenções. Na reunião, depois de explicarmos o motivo de nossa presença, nos foi revelado a angústia que eles estavam sentindo em relação à notícia de que a região poderia se transformar em Território Nacional. Dessa forma o distrito de Yauaretê passaria a município, sendo, provavelmente, administrado por “brancos”, os quais não valorizariam a cultura dos “não brancos”[6], e esses não se sentiam em condições (formação e conhecimentos acadêmicos) de assumir a administração do possível município.
Nos foi solicitado, por eles, que trouxéssemos ao conhecimento de pessoas competentes suas necessidades, suas intenções e através de convênios, intercâmbios e parcerias, pudessem encaminhar pessoas para a formação/capacitação acadêmica “aqui no sul”. Posicionamo-nos como sendo, infelizmente, apenas portadores de tais reivindicações, não podendo nos comprometer em oferecer soluções.
Outro momento marcante em Yauaretê foi a visita à escola, também dirigida por irmãs missionárias. A escola tem instalações exemplares e oferecia formação em nível fundamental e médio. Uma freira e professora foi a responsável por nos apresentar a escola. Morava nas dependências daquele prédio, e ao ser indagada por nós sobre como se dava a educação bilíngüe na instituição ficou um tanto quanto receosa. Depois nos contou que não saberia como viabilizar, no corrente ano, este tipo de ação pedagógica, pois as professoras não tinham formação adequada e, ainda, existiam muitas etnias diferentes na mesma sala de aula, além disso, disse que esse era um assunto burocrático e que não teria respaldo para nos responder. Entretanto, nos foi revelado que até aquele momento as professoras ensinavam o Português e a “língua materna”, no caso o Tukano, por ser a etnia da maior parte dos alunos e habitantes do distrito.
Foi somente no retorno de Yauaretê a São Gabriel, nossa sede, que pudemos efetivar nosso plano de trabalho, pois a partir desse momento ficaríamos na cidade até nossa partida. O número de inscritos para os minicursos foi de 189 agentes relacionados à educação, entre eles professores, alunos, pais, mães.... Vale lembrar que os dez alunos formaram duplas com seus respectivos planos de trabalho, oferecendo assim, cinco “minicursos” com diferentes temas. O horário fixado para os minicursos foi o noturno, com duração de oito dias, e para que os inscritos pudessem ter proveito de todos os trabalhos, elaboramos um rodízio de turmas de modo que após um tempo estabelecido os alunos iriam para outra sala participar de um minicurso diferente. Com essa dinâmica, cada “minicurso” teve a duração total de 4 horas. Para os alunos que se interessaram por um minicurso específico oferecemos aprofundamentos dos temas em horários combinados durante o dia. No nosso caso, trabalhamos o aprofundamento à tarde durante 6 dias, completando, assim uma carga horária de 20 horas.
3 – Algumas Reflexões
No decorrer do trabalho percebemos que os alunos não correspondiam à proposta por nós elaborada, uma vez que não tinham conhecimentos básicos e não compreendiam termos específicos como construtivismo, lúdico e psicomotricidade dentre outros. Foi o momento de repensarmos a proposta e começamos a ouvir mais, conhecendo melhor a realidade, a prática e as experiências dessas pessoas. Constatamos que se tratava de um ensino caracterizado pela transmissão de conteúdos descontextualizados, métodos sintéticos de alfabetização e uma cultura assimilacionista em relação aos valores indígenas, ou seja, os valores indígenas só eram defendidos em nível de discurso. Na realidade os meios, métodos e valores eram do “brancos”.
Constatamos também, que estas pessoas possuíam uma formação insuficiente, provavelmente, devido à dificuldade de acesso aos conhecimentos. Havendo, inclusive, professoras em classe de alfabetização com problemas de ortografia e produção de texto, como no exemplo que segue:
“Que estes cursos esta sendo proveitoso. Aprender mais, e aprofuntar, os novos conhecimentos. Principalmente as dinâmicas que serão trabalhada com as crianças. As brincadeiras educativas. Para não levar as aulas sempre monótonas.” “Em primeiro lugar quero agradecer por compartilhar com vocês todas as dinâmicas de trabalho, acredito vocês tem muito algo a ganhar o importante sermos unidos por que a nossa sociedade necessita desta solidariedade que vocês nos transmite.” “O professor, planta flores nos jardins para mais tarde colher flores que brotaram. Que mais tarde vai ver que aprendeu tudo aquilo que ele ensinou. Toda criança aprende que o professor ou professora ensino com isso traz muita alegria para o professor. Nesse caso vocês são jardins, onde flores somos nós, para aprender de um pouquinho que vocês nos transmitiram.” “Os cursos são ótimos, porém muito pouco tempo. Os instrutores do curso são bem preparados, mas infelizmente as aulas são rápidas. Gostaria que fosse mais demorados (as aulas).” Esses depoimentos são de professoras que trabalham com alfabetização e foram produzidos ao solicitarmos que relatassem suas expectativas e avaliações a respeito do minicurso.
No
entanto, percebemos o envolvimento e a disponibilidade dessas pessoas para esse
conhecimento. Esses educadores, na sua maioria, estão preocupados com o seu
desempenho em sala de aula e, o mais importante, com o desenvolvimento de seus
alunos.
Diante do quadro encontrado, foi necessário mudar a dinâmica do plano inicial, trabalhando mais os aspectos práticos através de análises e exercícios de situações de aprendizagem relacionadas à teoria. Dessa forma o trabalho fluiu harmoniosamente e conseguimos nos aproximar dos objetivos propostos por nós e corresponder, de certa forma, às expectativas dos alunos.
Urge a necessidade de capacitação desses profissionais, entretanto, devido à escassez do tempo, não foi possível o aprofundamento dessas percepções. Os questionamentos: como lidar com diferentes pontos de vista? O que é certo? O que devo fazer? Estou me fazendo entender? Os objetivos propostos pelo Programa Universidade Solidária são possíveis de serem alcançados? Aliados à inquietação resultante do trabalho são base para a busca de respostas, para o empenho em pesquisar e procurar novas metodologias de trabalho.
Embarcamos em São Gabriel da Cachoeira de volta para casa trazendo nas malas outras tantas expectativas e um questionamento que consideramos como norteador de nossos estudos: Como viabilizar o desenvolvimento de uma proposta pedagógica para a capacitação desses profissionais da educação levando em conta a realidade, as dificuldades encontradas e o contexto histórico, social, político e cultural em que eles estão inseridos?
4 – Bibliografia
BRASIL. Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Lei n o 9.394/96, de 20 de dezembro de 1996.
__________. Estatuto da Criança e do Adolescente. Lei n o 8.069/90, de 13 de julho de 1990.
São Paulo: CBIA-SP, 1991.
__________. Constituição da República Federativa do Brasil. São Paulo: Imprensa Oficial do
Estado, 1988.
__________. Parâmetros Curriculares Nacionais / Ministério da Educação e do Desporto, Secretaria de Educação Fundamental. — Brasília: MEC/SEF, 1998.
__________. Referencial curricular nacional para a educação infantil / Ministério da Educação e do Desporto, Secretaria de Educação Fundamental. — Brasília: MEC/SEF, 1998.
FERREIRO, E. e TEBEROSKY, A. Psicogênese da língua escrita. Porto Alegre: Artes
Médicas, 1989.
__________. Filhos do Analfabetismo: propostas para a alfabetização escolar na América Latina. Porto Alegre: Artes Médicas, 1991.
Luckesi, Cipriano Carlos. (Org.) Ludopedagogia – Ensaio 1. Salvador: UFBA / SACED / Programa de Pós - graduação em Educação. Vol 1. 2000.
[1] Graduado em Pedagogia - Habilitação em Supervisão Escolar e graduando na Habilitação Inspeção Escolar – Instituição: FUNREI – Fundação de Ensino Superior de São João del Rei.
[2] Graduanda em Pedagogia – Habilitação em Supervisão Escolar - Instituição: FUNREI – Fundação de Ensino Superior de São João del Rei.
[3] Citação extraída do Manual da equipe do Programa Universidade Solidária, ano 2001.
[4]
Paulo Roberto de Azevedo Varejão do Departamento das Ciências da Educação
da FUNREI coordenou o Unisol.
[5] Nome dado na região aos barcos movidos a motor de popa.
[6] Termo usado por eles para se denominarem, pois não aceitam serem chamados de índios.