A FORMAÇÃO E A ATUAÇÃO DOCENTE NA PERSPECTIVA DO ALUNO-MESTRE

 

Dimair de Souza França[1]

 

 

 

 

 

INTRODUÇÃO

 

 

 

A pretensão neste texto é discutir os espaços de formação e atuação do aluno/mestre, isto é, de alunos que já atuavam como docentes em escolas básicas, públicas e particulares, e que ao mesmo tempo freqüentaram o curso de Pedagogia. 

Para esta elaboração tomo como referência um estudo[2] realizado em que procurei discutir as relações que o aluno-mestre estabelece entre a sua formação básica e a sua prática docente bem como as reflexões suscitadas a partir da realização do estágio curricular, espaço por excelência de vivência da docência no processo formativo, com o objetivo de apresentar algumas reflexões acerca da formação de professores na atualidade.

O texto que segue apresenta um esboço destas reflexões, procurando compreender como se configura o processo formativo e o contato com a sala de aula e a escola básica, no curso de formação, e quais as implicações desse processo para a prática docente, na perspectiva dos alunos-mestres.

Para isso, busco, inicialmente, apresentar um pouco da discussão acerca da formação de professores na atualidade na tentativa de evidenciar as condições que estão postas hoje para os cursos e as instituições que se dedicam à tarefa de formar o profissional do ensino.

Em seguida, procuro empreender uma leitura das perspectivas dos alunos-mestres participantes deste estudo visando apresentar uma análise das condições a que está submetido o processo formativo desses alunos.

Para finalizar, ressalto as dificuldades explicitadas durante a realização do curso de formação de professores, bem como procuro sinalizar para a necessidade de valorizar o processo formativo numa perspectiva de articulação teoria-prática, em que o “aprender a ser professor” possa constituir-se no eixo norteador de todas as atividades aí desencadeadas, visando uma formação qualitativamente melhor para esse profissional.

Este é o desafio posto hoje a todos os formadores de professores e, particularmente, é a minha aposta numa formação comprometida com um ensino de qualidade e para todos.   

 

 

1. Contextualizando o problema...

 

 

 

A formação do professor é, hoje, uma questão central, seja pela responsabilidade a ele atribuída pelas reformas em curso, seja pelo papel decisivo a ele imposto na formação do novo trabalhador face às mudanças tecnológicas nesta sociedade globalizada.

Igualmente, multiplicam-se as instâncias formativas desse profissional, atribuindo diferentes perspectivas para esse processo, seja na Universidade, nos Institutos Superiores de Educação ou até mesmo nas Escolas Normais Superiores, como resultado das políticas adotadas para o setor. A formação do professor assume, então, características diferenciadas: currículo fragmentado, excessiva formação teórica, supervalorização da prática, formação pautada nos saberes oriundos da experiência, formação pelas competências, entre tantas outras.

A discussão sobre a formação desse profissional se faz necessária, pois estas  questões estão postas, cabendo a todos quantos estejam imbuídos desta tarefa o papel de repensar esse processo diante das solicitações feitas hoje às escolas e aos seus professores. Esse foi o propósito que permeou a realização desse trabalho, tendo como referência o curso de Pedagogia do campus de Corumbá/UFMS. 

Este foi um estudo de natureza qualitativa, em que se privilegiou, essencialmente, a compreensão do fenômeno estudado a partir da perspectiva dos sujeitos da investigação (Lüdke e André, 1986), tendo a entrevista como o instrumento básico utilizado para a coleta dos dados .

Os participantes dessa pesquisa foram seis alunos-mestres, sendo cinco professoras e um professor, que atuavam na educação infantil e no ensino fundamental em escolas das redes particular e pública (estadual e municipal) de ensino. O critério adotado para a seleção dos participantes foi a experiência com ensino mediante a atuação como docente durante a realização do curso de formação de professores (os alunos cursavam a 4ª série de Pedagogia no ano de 1997).

O curso em referência tem como prioridade a formação para o exercício da docência na educação infantil e séries iniciais do ensino fundamental e nas disciplinas pedagógicas da habilitação Magistério (ensino médio). Ao aluno que freqüenta esse curso é facultado o exercício da docência em qualquer destes níveis, pois a sua formação, apesar de restrita a um único curso, possibilita tal atuação ao contemplar em seu currículo componentes específicos para cada uma dessas habilitações.

Particularmente, a clientela que tem freqüentado esse curso, em grande parte, já atua como professor de educação infantil ou das séries iniciais. O fato desta clientela já ter passado por um curso de formação inicial (ensino médio) e estar atuando em sala de aula caracteriza-a como uma população singular, com experiência peculiar, que a diferencia dos demais alunos que freqüentam esse mesmo curso.

São alunos com uma trajetória escolar e profissional em construção e que retornam ao espaço do curso de formação básica para, ali, “complementar” seu processo formativo, agora com estudos superiores.

No curso de Pedagogia, esses mesmos alunos vivenciam uma situação única: embora tendo suas salas de aulas em escolas de educação básica, públicas ou particulares, e estando, portanto, no exercício pleno da docência, passam também a conviver com um “novo” processo formativo, no espaço do curso, cujo objeto é a própria atuação tomada como realidade a ser conhecida, referenciada, analisada.

Portadores desse saber, pela experiência acumulada no exercício da docência, encontram-se, agora, em uma situação inusitada: discutir a educação, a escola, a sala de aula, o ensino, numa perspectiva de afastamento e aproximação de sua própria prática, quase nunca considerada no espaço de formação.

Entretanto, o curso parece não dar conta desta dupla condição de ser aluno e professor ao mesmo tempo. Mas é no momento de incursão na escola e na sala de aula, para a realização do estágio curricular que a problemática se acentua. O cumprimento desta atividade torna-se, então, um momento singular, carregado de crenças e valores próprios de sua vivência profissional que direcionarão sua prática nas salas de aulas de outros professores.

Como professora de Prática de Ensino desse curso, percebi que muitos alunos questionavam a necessidade de cumprir o estágio. Na verdade, a experiência docente anterior ou mesmo paralela à realização do curso, era negligenciada, não havendo uma preocupação explícita em aproveitar, no espaço do curso, a contribuição efetiva desses alunos, ao trazerem para a discussão as diferentes experiências vivenciadas em suas salas de aulas.

Como estava lidando com alunos que já eram professores, o estágio pareceu-me o momento do curso de Pedagogia que mais se aproximava da realidade da sala de aula desses alunos e, portanto, poderia ser considerado o momento em que as interações e contribuições aflorassem naturalmente.

Entretanto, cabe perguntar qual a relação entre o aprender a ser professor na prática do estágio e o aprender a ser professor na prática da sala de aula?

O estágio e a prática docente, enquanto momentos distintos, porém diretamente articulados com o fazer pedagógico do professor, podem e devem configurar-se como espaços de aprendizagem. É certo que não posso considerar esta relação linearmente, pois ela não ocorre desta forma. Primeiro, porque a aprendizagem obtida com a prática docente é constante e, embora seja considerada pequena no caso dos professores iniciantes, ela sempre será maior que o contato possibilitado pela prática de ensino. A prática de ensino, por sua vez, apesar de escassa, configura-se como o espaço próprio dessa aprendizagem, não podendo ser comparada com a prática docente nos mesmos termos de igualdade. A primeira é real, supõe uma aprendizagem diária, porém solitária. A segunda é provisória, pois a atuação é temporária na realidade do professor da sala, tendo como referência o acompanhamento, a sistematização.

Penso que o estágio vivenciado no curso de formação de professores é um momento singular, particularmente rico em experiências e vivências da docência, significativo do ponto de vista da formação pela qual estão passando e, principalmente, um caminho a ser construído com os futuros professores e os alunos-mestres. Por isso, o curso de formação de professores precisa propiciar oportunidade tanto de avaliação como de reflexão sobre a própria formação. Saber lidar com este fato requer, segundo Almeida (1994),

(...) repensar a formação do futuro professor de maneira que este, dentro das condições atuais do sistema escolar, se arme intencionalmente com seu próprio trabalho, por um lado superando as análises idealistas e, por outro, tornando seu saber e fazer pedagógicos uma alavanca que desencadeie mudanças não só no nível da escola, mas também no nível do sistema social do qual a primeira é parte integrante (p.39).

Esta situação traz, evidentemente, muitos questionamentos para o profissional envolvido com a formação de professores. Penso que essa experiência no contexto da formação básica, e nela, o estágio curricular desempenham um papel importante ao possibilitar ao (futuro) professor o contato com a realidade educacional e ao propiciar as discussões necessárias à compreensão do fenômeno educativo, principalmente se considerarmos as experiências acumuladas.

Por essa razão, procurei enfatizar neste estudo a formação oferecida ao futuro professor e, no âmbito dessa formação, a realização do estágio curricular, especialmente pelos alunos que já são professores, procurando identificar as possíveis relações que se produzem entre a formação propriamente dita e a prática docente, a fim de evidenciar as articulações que eles estabelecem entre ambas.

Entendo o estágio como uma prática em construção, que se modifica e se renova pelo contato com a realidade na qual se insere e que a modifica também. A observação desse duplo movimento permite situar o estágio como o elemento articulador entre a formação teórico-prática e a atuação docente, redimensionado pela prática reflexiva. Portanto, o estágio é o momento privilegiado da relação entre a formação e o exercício profissional, possibilitada pela reflexão sobre os problemas da prática pedagógica vivenciados na situação de ensino.

Nesse sentido, o estágio curricular precisa ser compreendido como uma aprendizagem que se concretiza na vivência do processo de ensino, nos seus aspectos de planejamento, execução e avaliação e pressupõe a unidade de ação e reflexão sobre a prática pedagógica. É nesta perspectiva que este estudo se insere, procurando considerar as perspectivas do aluno-mestre em relação às condições concretas do curso e à sua prática docente.

 

 

 

2.  Um olhar para a formação tendo como horizonte a sala de aula...

 

 

Os estudos realizados atualmente apontam a necessidade de se repensar a formação do futuro professor pautando-se em modelos que privilegiem não só a análise do referencial teórico-acadêmico dos cursos de formação mas, principalmente, que se voltem para a análise das práticas pedagógicas dos professores no contexto da escola e das salas de aulas.

Essa literatura tem se voltado para a identificação de uma nova concepção sobre a formação de professores, apontando para estudos sobre a formação inicial, a formação continuada, o desenvolvimento profissional do professor, o pensamento do professor, dentre outros.

Dentre as discussões sobre esta temática, aquelas coordenadas por Nóvoa (1995) propõem um novo modelo de formação que enfatiza a preparação de um profissional reflexivo. De acordo com este autor, é preciso trabalhar, do ponto de vista teórico e conceitual, os saberes de que o professor é portador. É preciso valorizar modelos de formação que promovam a preparação de professores reflexivos, assumindo a responsabilidade de seu próprio desenvolvimento profissional, participando como protagonistas na implementação das políticas educativas.

Entretanto, Nóvoa afirma que não é suficiente mudar o profissional, ou seja, os professores não podem mudar sem uma transformação das instituições em que trabalham. O desafio está em conceber a formação como um processo permanente e a escola como um ambiente educativo, onde trabalhar e formar não sejam atividades distintas. Sob a ótica da formação contínua no interior da escola, o autor aponta a necessidade de um esforço de troca e partilha entre escolas e instituições de ensino superior, em nome de uma nova cultura na formação de professores.

Para Arroyo (1996), a construção de um novo perfil de profissional com uma nova cultura, novos saberes, nova formação passa pela construção de um sistema novo de ensino pautado na universalização do saber e da cultura. Essa mudança radical requer uma nova visão de política e de prática pedagógica para a constituição de uma educação de qualidade.

De acordo com o autor, o que o avanço social demanda é que haja um alargamento da concepção de educação obrigatória como tempo de vivência e inserção na cultura e nos saberes universais. A função dessa nova escola está pautada na garantia do domínio dos saberes e competências necessários à vida social e cultural de todos os cidadãos.

Para que isto ocorra, o autor aponta um modelo de formação do educador cuja função é “formar um profissional de sínteses”. Por profissional de sínteses ele entende a capacidade de integrar os conhecimentos e a cultura comum com a formação dos cidadãos como sujeitos sociais e culturais, isto é, que seja capaz de integrar os problemas sociais, culturais, cognitivos, psicológicos e pedagógicos inerentes ao tipo de cultura e conhecimento que têm de vivenciar os alunos na escola obrigatória.

Significa romper com uma formação fragmentada, segmentada por campos de saber que, se por um lado permitem um aprofundamento e sistematização de conhecimentos de cada campo, por outro, tem deixado de fora dimensões gerais da formação humana próprias de um projeto de educação universal (Arroyo, 1996).

Severino (1991) afirma que a preparação do professor deve realizar-se de maneira que ele se torne um profissional qualificado e que, consciente do significado da educação, possa, mediante o exercício de sua função, estender essa consciência aos educandos, dando-lhes uma dimensão coletiva e solidária.

Para o autor, três dimensões constituem o processo formativo do educador: a dos conteúdos (refere-se ao domínio dos conhecimentos), a das habilidades didáticas (refere-se à aquisição de instrumentos técnicos e metodológicos de sua profissão) e a das relações situacionais (refere-se à compreensão de que pertence a um grupo social, sendo ao mesmo tempo sujeito individual e coletivo). Esses processos só serão efetivados, acrescenta o autor, com competência, criatividade e criticidade.

Mas como articular formação inicial e continuada do professor? O que é necessário fazer para se preparar alguém para o exercício dessa função?

Ao lidar com a questão da formação inicial de professores nas licenciaturas, Pimenta (1996) afirma que os alunos têm saberes sobre o que é ser professor, oriundos de suas experiências anteriores. Entretanto, o desafio posto aos cursos de formação inicial é o de colaborar no processo de passagem dos alunos do seu “ver o professor como aluno” ao “ver-se como professor”. Para isto, a autora aponta que os saberes da docência têm um papel importante na construção dessa identidade profissional.

A mobilização dos saberes da experiência oriundos da prática enquanto alunos configura-se como o primeiro passo. Entretanto, é na mobilização dos saberes da docência, que compreendem os saberes da experiência, o conhecimento e os saberes pedagógicos, que se constituirá a sua identidade profissional. Esta se constrói, de acordo com a autora, a partir da significação social da profissão, do confronto entre teorias e práticas, pelo significado que cada professor confere à atividade docente a partir de seus valores, de seu modo de situar-se no mundo, do sentido que tem em sua vida o ser professor e na interação com os outros atores.

Quem deve responsabilizar-se, então, pela formação do (futuro) professor? A quem compete esta tarefa?

De acordo com Pimenta (1996),

(...) do curso se espera que forme o professor. Ou que colabore para sua formação. Melhor seria dizer que colabore para o exercício de sua atividade docente, uma vez que professorar não é uma atividade burocrática para a qual se adquire conhecimentos e habilidades técnico-mecânicas ( p. 75).

Dois aspectos, formar e atuar, são apontados aqui como constitutivos do exercício profissional da docência. Nesse sentido, formar e atuar são partes de um mesmo processo em que se assenta a profissão, ou seja, a formação e o exercício da docência são constitutivos de um mesmo processo em que se passa de aluno a professor mediante a construção da sua identidade profissional.

Se formar e atuar fazem parte de um mesmo processo, tanto a instituição formadora quanto a instituição escolar devem propiciar condições para que o mesmo ocorra de forma plena. A responsabilização pela formação docente do futuro profissional não está restrita à universidade e tampouco deve dar-se somente na escola. Há que se propor um trabalho integrado, por parte destas instituições, no sentido de aproximar a sua prática às reais condições da escola e do ensino nos dias atuais, sem com isso excluir uma formação teórico-prática que prepare o futuro profissional para transformar a sua realidade, pelo estabelecimento de finalidades para suas ações, pelo seu trabalho.  

O principal aspecto assinalado aqui refere-se à efetiva interação que deve haver entre o curso de formação básica na universidade e a preparação prática do futuro profissional na escola básica. E uma forma de se romper com concepções fragmentadas sobre a formação do (futuro) professor pode dar-se mediante ações que considerem duplamente a atividade de formar e formar-se, mediante as possibilidades vivenciadas no estágio curricular.

O estágio, de acordo com Pimenta (1994), é um componente do currículo que se configura não como uma disciplina, mas como uma atividade propiciadora da inserção dos alunos nas instituições escolares para o conhecimento de como o processo de ensino aí se dá.

Embora a formação inicial possua qualidade necessária para instrumentalizar os docentes, Caldeira (1995) afirma que a escola se constitui em um espaço privilegiado de reflexão pedagógica, condição esta imprescindível para a formação do professor.

Para Almeida (1994), a formação de professores e o estágio curricular revestem-se de importância ao tomar como ponto de partida a sala de aula, pois é nesta realidade que o futuro professor tem a oportunidade de avaliar a formação que está recebendo no curso e fazer desse momento uma base de reflexão, análise e crítica através de uma postura investigativa e problematizadora sobre o cotidiano escolar.

Por isso, não é suficiente falar de formação (inicial ou básica), pois ela subtende uma interação com a prática pedagógica desenvolvida na sala de aula, implicando o efetivo exercício da docência. A atuação docente se faz, então, imprescindível em todo processo formativo comprometido com a melhoria da educação e do ensino, não podendo  falar da preparação do futuro profissional do ensino sem dar conta desta perspectiva: o contato com a realidade do ensino, da escola, da sala de aula.

Para Magnani (1995), é apenas no exercício efetivo do magistério que se pode dar conta dessa profissionalização. A atuação tanto como aluno quanto como professor supõe constante reflexão teórica sobre a prática (discente e docente, respectivamente), podendo-se pensar que é esse trabalho que forma (e continua formando). Na atuação discente trata-se da reflexão teórica sobre a prática de aluno/futuro professor, enquanto que na atuação docente trata-se de refletir teoricamente sobre a própria prática do sujeito/professor.

Do ponto de vista da formação, devemos, portanto, considerar o estágio como necessário para a preparação profissional e igualmente importante para a formação do (futuro) professor, pois não se pode prescindir de uma formação que tenha como fundamento a unidade teoria prática pois, segundo Pimenta (1994)

A atividade teórica é que possibilita, de modo indissociável o conhecimento da realidade e o estabelecimento de finalidades para sua transformação. Mas para traduzir tal transformação não é suficiente a atividade teórica; é preciso atuar praticamente (p. 92).

Nesse caso, é importante ressaltar o “caráter introdutório” da formação inicial apontado por Lüdke (1997) ao mencionar que o trabalho ou a prática nas diferentes escolas vai ensinando e completando a formação do professor. Por serem alunos-mestres, esse caráter introdutório pode, no curso de Pedagogia, tomar uma feição diferente por representar um momento do “continuum” que caracteriza o conjunto da formação profissional.

 

3. Em pauta...   a atuação e a formação.

 

3.1. O espaço da atuação docente

 

                       

Investigar a atuação docente para conhecer um pouco da trajetória comum dos alunos-mestres, no percurso de construção da experiência com o ensino, e ao mesmo tempo particularizar diferentes experiências que se somam e se materializam na história do aprender a ser professor, histórias próprias daqueles que adentraram o caminho da docência, foi o propósito adotado aqui.

A principal característica da atuação docente apontada pelos alunos-mestres repousa na experiência. Todos apontam a experiência da sala de aula, enquanto professores, como a propulsora do “aprender a ser professor”.

Essa aprendizagem parece ter sido construída mediante modelos ou a partir da observação de seus professores:

As coisas que eu achava que valiam a pena, que eu tinha de recordação dos professores antes, então eu procurava trazer aquela experiência minha para dentro da sala de aula. E as coisas negativas, assim, que eu não gostava, eu procurei eliminar mesmo (Aluna B).

Nesse processo de aprendizagem da docência é preciso “aprender com a cara e a coragem”. Esta expressão revela que o aprender a ser professor é um processo solitário. Embora esse professor-aprendiz conviva com outros professores e com os alunos, ele está “sozinho” na tarefa de aprender a dar aula: “no começo a gente apanha um pouquinho, a gente erra bastante, continua errando, também porque a gente aprende a cada dia...” (Aluna C).

Os acertos e erros, nessa prática, são do professor-aprendiz, só dele. Não lhe é possível dividir esse resultado com ninguém, nem mesmo com o professor da sala ao lado, que em algum momento desta aprendizagem lhe passou alguma orientação.

Por isso, a dimensão dessa solidão talvez possa ser entendida como a inexistência de um acompanhamento sistematizado seja pela agência formadora, seja pela escola, seja pelos colegas professores, no sentido de avaliar e orientar as primeiras experiências com o ensino.

O professor, para eles, é alguém que tem uma “missão”, cujas maiores características são a “doação” e a “vocação”. O professor, nesse caso, não se vê como um profissional que tem um trabalho a realizar, pelo contrário, se vê como alguém que tem uma missão a cumprir.

Louro (1997), ao discutir as representações acerca da mulher e da mulher professora na realidade brasileira, aponta que a visão do magistério enquanto vocação fez parte do processo de feminização da profissão em que era necessário que fosse representado como “uma atividade de amor, de entrega e doação. A ele acorreriam aquelas que tivessem ‘vocação’ ” (p. 450).

Essa visão parece ter perdurado através dos tempos, de tal forma que ainda hoje se recorram a ela para justificar a desqualificação a que está submetida a profissão e a dedicação quase que exclusiva das mulheres a essa tarefa.

Apesar de verem a profissão de forma desvalorizada “só quem dá importância mesmo somos nós, professores...”(Aluna B), eles permanecem lidando com o ensino, achando que “se parar para pensar, isso vem acontecendo há muito tempo e que realmente a gente assume a profissão como uma missão” (Aluna F).

A percepção dos alunos-mestres sobre a sua atuação docente revela, de maneira um pouco ingênua, uma visão romântica e idealista de educação e de ensino. Num momento de crítica e desqualificação generalizada, para eles é natural acharem que é preciso gostar muito da profissão para nela permanecer, pois “infelizmente, está acontecendo esta desvalorização do professor como mestre, como educador” (Aluna C).

O que parece evidente é o processo de desvalorização e desqualificação a que está submetido o professor em nossa sociedade. Esse processo arrasta o professor para o centro dessas críticas juntamente com a formação desse profissional, também tida como não qualificada para atender à realidade educacional em tempos de mudanças e reformulações (Torres, 1998). Tal processo não ocorre apenas nos dias atuais, ele vem de longa data e apenas talvez esteja num processo mais exacerbado neste momento.

Para contrapor-se a esse processo de desvalorização e desqualificação, os alunos-mestres dizem que é preciso continuar aprendendo. Entretanto, esta aprendizagem deve dar-se pela experiência, é preciso continuar aprendendo “com a experiência”. Lüdke (1997) aponta o auxílio e a influência de outros colegas nesta aprendizagem, mas também a própria seleção que o exercício do magistério faz, ao afirmar que o professor vai “aprendendo fazendo, com seus alunos” e retendo o que dá certo, incorporando-o para futuras soluções.

A avaliação que fazem sobre a própria experiência é relativa ao tempo de exercício no magistério, mas não se altera entre aqueles professores que possuem um tempo de experiência maior e aqueles que apenas estão começando na profissão. Para aqueles professores que atuam há pouco tempo, a experiência é tida como “pequena” embora a situação revele que “eu aprendi bastante coisa que já não dá para cometer os mesmos erros do passado (...) ainda tenho muito que aprender”(Aluna A). Na verdade, eles reconhecem que as situações mudam muito e que o professor tem que ser um “aprendiz” mediante as experiências que vai adquirindo ao longo do tempo.   

 

 

3.2. O que pensam da formação...

 

 

Neste item serão apresentadas as perspectivas dos alunos-mestres com relação à formação no curso de Pedagogia, envolvendo aspectos da estrutura curricular e do estágio em Prática de Ensino, realizado no 4º e último ano do curso.

Todos procuraram o curso de Pedagogia por opção. A procura pelo curso superior revelou a necessidade de continuar estudando, seja pela melhoria das condições de trabalho e de salário, seja pelo desejo de realização pessoal, seja pelo fato de se estar buscando respaldo “teórico” para a prática: “eu quero ver até que ponto algumas coisas é... em termos de teoria... bate com a realidade prática” (Aluno E) ou, ainda, pela possibilidade de atualização: “minha profissão é professora, então eu achei que era uma forma de estar mais atualizada, ia me fornecer conhecimentos maiores...” (Aluna F). 

A grande dificuldade apontada por todos eles diz respeito à estrutura do curso que concentra as disciplinas nos três primeiros anos e deixa a atividade de estágio para o final do curso. Essa visão é assinalada por um aluno-mestre ao afirmar que

 ele [o curso] trabalha muito assim... a teoria muito distante da prática. Porque nós tivemos muitas teorias no primeiro ano, segundo ano, terceiro ano. Aí, nós vamos para a prática lá no quarto. Então, acho muito assim... dissociada (Aluna D).

O curso, na visão dos alunos, deveria se preocupar em formar o professor porque

às vezes, a gente sai lá do curso de Pedagogia... e você não sabe nem fazer um planejamento direito... você não sabe fazer um... como é que eu vou dizer? Ah... não sabe nem como dar uma aula. Aí, o que acontece? Vai para a sala de aula e fica mesmo perdido (Aluna D).

A realização do estágio curricular para esses alunos-mestres pareceu uma etapa particular. A forma de realização foi a observação, participação e regência. Estas etapas compreendiam uma observação inicial na sala de aula juntamente com o professor regente da sala, que poderia autorizar ou não a participação nas atividades desenvolvidas por ele junto aos seus alunos; na segunda etapa priorizava-se a participação do estagiário nas atividades desenvolvidas pelo professor, sendo que era o professor quem deveria determinar quais atividades poderiam ou não ser executadas pelos estagiários junto aos alunos; na etapa seguinte o aluno deveria assumir a sala de aula para desenvolver o seu planejamento de regência.

 A maior dificuldade encontrada por esses alunos-mestres para a realização do estágio foi com relação à liberação pela escola onde eles trabalhavam. Para aqueles que lecionavam em escola da rede particular de ensino, a liberação era “uma súplica (...) o professor não precisa fazer estágio” (Aluna A).

Independente de serem de escola particular ou pública, os professores tiveram que colocar um professor substituto para cobrir as suas ausências. Essa era a condição para que tivessem algum tempo disponível para a realização do estágio. Mesmo aqueles alunos-mestres que não tiveram que enfrentar problemas com a liberação, naquelas datas que coincidiam com suas atividades docentes, tiveram também que colocar professor substituto para poder cumprir seu estágio. Isso parece um tanto incoerente se pensar que são professores que estão deixando suas salas de aula nas mãos de outros profissionais para cumprirem uma tarefa que, naquele espaço, realizam diariamente.

Com relação à estruturação do estágio curricular no curso, um aspecto ficou evidente:

o estágio deveria começar no segundo ano. Segundo ano, terceiro, quarto. Segundo ano observação, depois a participação. Aí, no final a regência. A pessoa já está mais interagida com o estágio. Saber o que é entrar numa sala de aula. Principalmente os que não tem experiência nenhuma de sala de aula (Aluna D).

Este talvez seja, hoje, o grande desafio posto aos formadores de professores, ou seja, articular a relação teoria-prática ao longo do processo formativo, dando condições ao (futuro) professor de tomar contato com a ação educativa desde o início desse processo, através da inserção na realidade educacional e da reflexão sobre a prática educativa aí desencadeada.

Neste sentido, a avaliação que os alunos-mestres fazem da formação revela a necessidade de rever as condições em que estão sendo formados os futuros professores. A atual estrutura do curso não contempla as reais necessidades de formação do futuro professor e tampouco daquele que já se encontra no exercício de suas atividades profissionais.

A convivência entre professores e futuros professores poderia representar a possibilidade de uma formação que considerasse igualmente a contribuição advinda dessa convivência singular, pois ambos estão inseridos em um processo que não se encerra com a formação propriamente dita, pois a sua trajetória comporta a construção e a reconstrução de um fazer docente que se traduz por uma aprendizagem contínua, permanente e refletida.  

Os alunos-mestres não consideram desnecessária a realização do estágio curricular, apesar de terem suas salas de aulas. Pelo contrário, visualizam a realização do estágio como uma etapa na formação do professor. Ainda, apontam as dificuldades vivenciadas quando da realização desta prática e propõem alternativas possíveis para a solução dos problemas encontrados que, de forma alguma, descaracterizam esta prática no interior do curso.

Quando tratam das possíveis contribuições tanto para o estágio quanto para a prática, a referência é a experiência adquirida, seja como docente ou discente. Em um e em outro caso, foi possível verificar uma certa preocupação com a própria formação e com a formação dos pares (os “inexperientes”), seja na condução de suas próprias atividades, seja na contribuição dada às atividades desenvolvidas por eles. Foi possível observar que a perspectiva adotada pelos participantes foi a de já serem professores.

E o estágio, visto por esse aluno-professor como  semelhante à sua prática de sala de aula, trouxe algumas contribuições importantes para essa discussão, quais sejam a possibilidade de refletir sobre a própria prática, a troca de experiência com os professores do ensino básico, a troca de experiência com os próprios colegas de sala, a interação curso-sala de aula e a necessidade de relacionar teoria e prática no curso de formação.

Portanto, as observações que fazem retratam uma possibilidade de avaliação da própria prática à luz da formação teórico-prática recebida ao mesmo tempo em que avaliam o curso a partir da vivência em sala de aula e da experiência que possuem.

E esta experiência adquirida constitui-se no que Tardiff et. al. (1991)  denominam saberes da experiência ou da prática. Em sua pesquisa, estes autores indicam que, para os professores, os saberes adquiridos através da experiência profissional constituem os fundamentos da sua competência ao mesmo tempo em que servem de referência para o julgamento de sua formação anterior ou ao longo da carreira. 

Quando afirmam que o estágio é “aquilo mesmo que vivencio na sala de aula”, há que se atentar para os aspectos que seriam fundamentais para que o estágio pudesse “ser mais”, haja vista sua importância nesse processo de formação e o seu papel de possibilitar ao aluno-mestre uma melhor compreensão dos problemas advindos do exercício profissional propriamente dito.

Penso que esta é a possibilidade do estágio, pois aprender com o estágio e aprender com a sala de aula são situações distintas, mas não menos importantes, que requerem cuidados específicos, pois a finalidade de ambos é a melhoria do ensino. De acordo com Almeida (1994),

Se os estágios em Prática de Ensino feitos durante a formação forem produtivos e ricos em experiência e não um fazer burocratizado que vise apenas o cumprimento da carga horária exigida, estes serão um instrumento valioso para desenvolver a postura crítica e proporcionar o referencial teórico-prático necessário ao profissional que exigem os tempos atuais, para a melhoria da escola e da educação(...) (p.42).

E esta tarefa supõe a participação efetiva de todos os envolvidos com a formação do futuro professor e impõe uma cota de desafio a tantos quantos estão imbuídos dessa atividade nas instâncias formativas.        

 

 

 

4. Algumas considerações...

 

 

 

A pretensão deste estudo foi conhecer as perspectivas dos alunos-mestres sobre a formação e a atuação docente e, especialmente, sobre a efetivação da prática de ensino, por entender que é no espaço da prática, seja ela docente ou discente, que se constitui o ser professor.

O entrar numa sala de aula, o portar-se diante da criança e do adolescente, a segurança na condução da aula são apenas alguns aspectos mencionados em que a referência era sempre a sala de aula e não o curso.

Como alguém se torna professor? Que conhecimento é esse (que é o espaço da prática) com o qual a universidade não sabe lidar? Exatamente, o que se aprende com a experiência? Pode ser aprendido também num curso de formação?

Para Tardif et.al. (1991), o ensino traz limites à atuação do professor. Esses limites aparecem relacionados a situações concretas que não são passíveis de definições acabadas, e que exigem uma cota de habilidade pessoal, bem como capacidade de enfrentar situações mais ou menos transitórias e variáveis. A experiência dessas limitações e dessas situações é formadora: somente essa experiência permite ao docente desenvolver o habitus (disposições adquiridas na e pela prática real) que lhe permitirão justamente enfrentar as limitações e os imponderáveis da profissão.

Os saberes da experiência, afirma os autores, fornecem certezas particulares, das quais a mais importante consiste na confirmação, pelo docente, de sua própria capacidade de ensinar e de sua performance na prática da profissão, além de certezas relativas ao seu contexto de trabalho na escola, de forma a favorecer sua integração.

Portanto, esse conhecimento que é apontado pelo futuro professor como fundamental para a sua atuação e necessário no momento de sua atividade prática, não é ou não pode ser obtido no contexto de sua formação, embora esta deva possibilitar aproximações mais efetivas por meio de processos reflexivos.

Quando isso não ocorre na formação inicial, esse conhecimento acaba sendo adquirido somente no momento que este professor passa a atuar. Então, o início de sua experiência como docente se torna carregado de um saber-fazer tido como importante e necessário, mas que no âmbito de sua formação não foi possível obtê-lo. Agora, só é possível fazê-lo mediante “acertos e erros” solitários.

Para Guarnieri (1996), as características insatisfatórias da prática podem ser superadas no momento em que o professor for estabelecendo relações entre os conhecimentos assimilados na formação com os conhecimentos que vai adquirindo na atuação, realizando um duplo movimento de distanciamento e avaliação da prática sob a ótica dos conhecimentos teóricos e de aprofundamento e reelaboração desses conhecimentos sob a ótica da experiência prática.

Portanto, se formação e atuação são momentos constitutivos de um mesmo processo de aprendizagem da docência, o estágio no curso de formação de professores poderá configurar-se como momento formativo por excelência, dada a sua natureza teórico-prática.

Ainda, é importante ressaltar que a perspectiva adotada é a de quem conhece, sabe e faz algo. Entretanto, esse olhar para a formação e para a atuação, por parte dos alunos-mestres, está imerso em marcas. Essas marcas foram e estão sendo deixadas pelo exercício da docência em escolas públicas ou particulares...


REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA

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[1] Professora de Prática de Ensino do Departamento de Educação – Campus de Corumbá/UFMS e Doutoranda pela UNESP/Araraquara.

 

[2] Texto elaborado a partir da Dissertação de Mestrado intitulada “Estágio Curricular e Prática Docente: um estudo das perspectivas do aluno-mestre no curso de Pedagogia”, pela UFSCar, em 1999.