ANÁLISE DA DICOTOMIA TEORIA E PRÁTICA CONSTRUTIVISTA
NA EDUCAÇÃO INFANTIL
DA REGIÃO DO VALE DO PARAÍBA/SP
JULIA PETERNELLI MOREIRA MIGUEL(1)
GILDA CORTEZ PEREIRA(2)
IVANCY MOREIRA MIGUEL(3)
Organização Guaratinguetá de Ensino/OGE
Av. Pedro de Toledo, 195 – Vila Paraíba
Guaratinguetá/SP – CEP: 12.500-000
RESUMO
Nos
dias atuais em que a globalização do conhecimento e a necessidade de formação
de indivíduos emancipados e aptos a se integrarem em uma sociedade pluralista
tem presença marcante, torna-se cada vez mais evidente a necessidade de uma
pedagogia que atenda as atuais mudanças vigente nos diversos segmentos sociais;
inclusive na área educacional. È neste
contexto que a “pedagogia construtivista” aparece como uma alternativa
destinada a preencher os requisitos necessários à formação de um cidadão que
atenda ao perfil do mundo contemporâneo.
O construtivismo é hoje uma corrente pedagógica emergente que vem
ganhando adeptos entre os educadores dos diversos níveis educacionais e que
requer como conseqüência, a formação de educadores habilitados a trabalhar seus
conceitos com eficácia e produtividade em sala de aula. Os cursos de formação de professores
oferecem fundamentação teórica construtivistas ao longo de sua graduação,
entretanto, suspeita-se que os conceitos teóricos difundidos nestes cursos não
são aplicados na prática das salas de aulas.
Este
trabalho teve por objetivo levantar o panorama da fundamentação teórica
recebida pelos educadores durante sua formação acadêmica e estabelecer uma
relação destes dados com outros obtidos em uma pesquisa de campo, a fim de
constatar a realidade da prática construtivista em sala de aula. Para este fim, foi realizado uma pesquisa bibliográfica
que permitiu levantar informações que serviram de base à realização de um
questionário destinado a coletar informações da prática construtivista no
cotidiano das escolas de Educação Infantil. Os resultados obtidos permitiram
avaliar o conhecimento que os professores possuem a respeito dos conceitos
construtivistas, em que situações eles receberam sua fundamentação teórica
sobre este assunto, como eles estão trabalhando esta teoria em sala de aula,
que tipo de material e pedagogia construtivista é praticada em sala de aula e
ainda discutir a questão da dicotomia teoria/prática construtivista na Educação
Infantil das escolas pesquisadas.
INTRODUÇÃO
A
carência das habilidades do pensamento na atual educação brasileira é um fato
que não podemos desconsiderar se desejamos promover um ensino com qualidade e
destinado a atender às necessidades de uma sociedade cada vez mais exigente no
que diz respeito à formação emancipatória de seus integrantes. Os problemas educacionais atuais são muitos
e percebe-se claramente o despreparo dos professores e outros educadores no que
diz respeito às suas habilidades em trabalhar a questão do pensamento e da
reflexão com seus alunos. Habilidades
genéricas como a inferência, o raciocínio, a investigação, a formação de
conceitos e a interpretação podem e devem ser utilizados em qualquer
disciplina, porém, pouco se percebe a exploração destes elementos no trabalho
com as disciplinas tradicionais ensinadas em nossas escolas. Atualmente, o sistema de ensino está calcado
em uma estrutura que não favorece essas habilidades.
É
neste contexto que o construtivismo desponta como uma “corrente pedagógica” que
não só busca desenvolver a capacidade criativa e a construção de conhecimentos
nos alunos, como também serve de suporte para uma avaliação da pedagogia
realizada nos dias atuais. O
construtivismo também aparece como um alerta à necessidade de mudanças no
sentido de direcionar o processo de ensino e da aprendizagem para uma formação
de indivíduos mais aptos a se integrarem neste mundo em que a globalização da
informação e a pluralidade cultural são elementos determinantes das condutas de
seus componentes.
A
necessidade de mudança na educação, aliada às possibilidades que o
construtivismo oferece como uma nova forma de trabalhar os problemas do ensino
levaram um grande número de educadores a se envolverem com os princípios desta
corrente pedagógica. Entretanto, também
são muitos os educadores que sem nenhum comprometimento de mudança de conduta,
se entusiasmaram com essa nova pedagogia e passaram a utilizar o termo como uma
forma de se mostrarem atualizados, atuando na maioria das vezes, como meros
reprodutores de conhecimentos previamente estabelecidos, mascarados sob o
enfoque “construtivista”.
Nunca
um termo foi tão pronunciado entre os educadores como a palavra “construtivismo”
e muitos mal-entendidos sobre a teoria construtivista são inevitáveis no meio
educacional. É nesse contexto que se suspeita
que esses mal-entendidos são resultantes da interpretação inadequada de uma
fundamentação teórica ensinada nos cursos de formação dos professores. Percebe-se uma certa desinformação dos
professores com relação aos conceitos construtivistas e como conseqüência, falsas
interpretações que levam a erros quando a teoria é transferida para a ação
prática em sala de aula.
É
objetivo deste trabalho analisar a questão da compreensão ou não do termo e dos
conceitos construtivistas por parte dos professores da educação infantil das
escolas da região do Vale do Paraíba/SP e estabelecer um elo de ligação entre
esta questão e a dicotomia entre teoria e prática construtivista em sala de
aula, caso ela seja evidenciada.
MÉTODOS E PROCEDIMENTOS.
A
realização desse trabalho envolveu em uma primeira etapa, um levantamento
bibliográfico através do qual foi possível obter os conceitos de construtivismo
sob a ótica de diversos autores, bem como, informações relacionadas aos
conteúdos construtivistas, ao papel dos professores que se propuseram a
trabalhar esta metodologia de ensino em suas aulas, a avaliação e ao uso do
erro dos alunos como forma de aprendizagem e de construção de conhecimentos e
de outras informações que serviram de embasamento teórico para a realização de
uma pesquisa de campo, efetuada em uma fase seguinte deste trabalho.
Após
a realização da pesquisa bibliográfica indireta, foi confeccionado um
questionário contendo 10 questões, cujo objetivo consistiu em levantar dados
reais sobre a existência ou não da dicotomia teoria e prática construtivista na
Educação Infantil. Foram pesquisados
100 professores que lecionam em escolas públicas e estaduais situadas em 8
diferentes cidades da região do Vale do Paraíba no interior do Estado de São
Paulo.
O
referido questionário foi composto por perguntas através das quais foi possível
identificar o verdadeiro conhecimento dos professores em relação à definição do
conceito “construtivismo”, sua identificação com esta metodologia de trabalho,
os tipos de materiais didáticos construtivistas empregados em suas práticas
pedagógicas, a existência ou não da interação entre sua prática de aula e a sua
fundamentação teórica recebida durante sua formação como profissional da
educação e os tipos de resultados obtidos com a aplicação da prática
construtivista em sala de aula.
Procurou-se ainda obter algumas sugestões desses profissionais no sentido
de melhorar a relação teoria/prática no que se refere ao construtivismo como
postura educativa.
Além
das perguntas destinadas a obter informações sobre o conhecimento técnico da
pedagogia construtivista, o questionário em questão continha duas questões com
objetivo de identificar a origem das escolas nas quais os professores
pesquisados exercem sua profissão e a fonte mantenedora dessas escolas, se
particular ou pública. Por motivos
éticos, essas questões apresentaram um caráter opcional reservando ao pesquisado
o direito ao anonimato.
O
objetivo da pesquisa de campo foi de obter informações sobre a realidade do
ensino numa perspectiva construtivista nas escolas pesquisadas e comparar os
dados obtidos com outros, provenientes da pesquisa bibliográfica previamente
realizada.
Dos
100 professores pesquisados, 65 se negaram a responder o questionário e apenas
35 responderam as questões propostas, fato este que intensificou as suspeitas
de insegurança e desconhecimento dos professores no que diz respeito aos conceitos
construtivistas. As respostas obtidas
através do questionário foram tabuladas e as informações foram analisadas e
agrupadas conforme o grau de semelhança e relação existente entre elas.
A
tabela 1 apresenta a distribuição dos professores que foram pesquisados no que
se refere às cidades de origem e à fonte mantenedora das suas instituições
escolares.
Tabela1: -
Origem e fonte mantenedora das escolas, cujos professores foram pesquisados que
responderam ao questionário.
|
CIDADES |
PROFESSORES PESQUISADOS |
ESCOLAS DE ORIGEM |
MANTENEDORAS |
|
M |
P |
|||
|
Aparecida |
3 |
3 |
2 |
1 |
|
Cachoeira
Paulista |
2 |
1 |
1 |
0 |
|
Cruzeiro |
2 |
2 |
2 |
0 |
|
Guaratinguetá |
6 |
4 |
3 |
1 |
|
Lorena |
10 |
6 |
2 |
4 |
|
Roseira |
1 |
1 |
1 |
0 |
|
São
José dos Campos |
13 |
8 |
5 |
3 |
|
Taubaté |
6 |
4 |
2 |
2 |
|
TOTAIS |
35 |
29 |
18 |
11 |
Nota: M = Escola
Municipal e P = Escola Particular.
De
acordo com os dados plotados na tabela 1, percebe-se que a maioria das escolas
pesquisadas (62 % dessas instituições) é da rede municipal de ensino e as
demais são mantidas por rendimentos de origem particular. Nenhuma escola estadual foi pesquisada
devido a quase inexistência da presença da Educação Infantil neste segmento
educacional. O número limitado de
respostas se deve a uma certa rejeição da maioria dos professores pesquisados
em responder ao questionário e ao fato de que este trabalho ainda se encontra
em desenvolvimento. Está previsto um
número maior de questionários a serem distribuídos em outras escolas a fim de
concluir a pesquisa proposta.
DISCUSSÃO DOS RESULTADOS.
Os
resultados obtidos na pesquisa de campo permitiram confrontar o real
conhecimento dos professores pesquisados com os principais conceitos teóricos
difundidos pela literatura construtivista.
Dessa forma, foi possível verificar como vem sendo estabelecido a ponte
de união entre a teoria e a prática desses conceitos e os possíveis
mal-entendidos na interpretação da teoria construtivista.
Para
se atingir aos objetivos propostos neste trabalho, cinco pontos básicos foram
estabelecidos para fins de discussão dos resultados: (1) a questão do
conhecimento sobre definição e sobre o conceito de construtivismo; (2) a
questão do modismo ou da pseudo interpretação sobre ser ou não um professor
construtivista; (3) um levantamento para identificar em que situações o
professor recebeu fundamentação teórica construtivista durante sua formação
como educador.; (4) a abordagem sobre a prática educativa e os conteúdos
trabalhados em sala de aula, objetivando verificar a relação entre teoria e
prática construtivista do professor pesquisado; (5) uma análise dos resultados
obtidos na educação com base no construtivismo. Também será apresentado um breve comentário sobre algumas
sugestões apresentadas pelos professores pesquisados com o intento de melhorar
a relação teoria e prática no que se refere ao construtivismo como prática
educativa.
O que é
Construtivismo?
O
psicólogo Jean Piaget (1896-1980) em sua teoria denominada Epistemologia,
concebeu o Construtivismo como uma
teoria que parte do princípio de que o desenvolvimento da inteligência é
determinado pelas ações mútuas entre o indivíduo e o meio. A idéia de que o homem não nasce
inteligente, mas também não é passivo sob a influência do meio. Ao contrário, responde aos estímulos externos
agindo sobre eles para construir e organizar o seu próprio conhecimento, de forma
cada vez mais elaborada. Desse modo,
Piaget apresentou a idéia de que nada, a rigor, está pronto e acabado e que o
conhecimento não é algo terminado. Na
concepção de Piaget, os processos de desenvolvimento da aprendizagem estão
associados ao processo de maturação do ser humano. É o desenvolvimento do ser humano que determina e condiciona o
processo ensino-aprendizagem através de uma relação de interdependência entre
esses elementos.
O
filósofo russo Lev Semenovich Vygotsky é outro pesquisador de destaque ao
analisarmos a teoria construtivista. A
idéia central dos estudos de Vygotsky reside na crença de que o desenvolvimento
das funções superiores dos homens não é causa única e exclusiva de suas
necessidades biológicas (como acontece com os animais e os bebês) e nem das
“influências” do meio social sobre o indivíduo, conforme as idéias de
Piaget. Para Vygotsky, o
desenvolvimento das funções humanas é fruto da “interação” entre o homem e o
meio social em que se insere. Na
concepção deste filósofo, o homem é um ser social e portanto, está relacionado
às interações sociais através da troca de experiências e dessa forma realiza o
processo educativo e a construção de conhecimentos. Para Vygotsky, a apropriação do conhecimento se dá através das
relações interpessoais que prevalecem na sociedade na qual o indivíduo está
inserido. É através da mediação de um
indivíduo mais experiente que os conteúdos são apropriados, concretizando assim
o processo de construção de conhecimento.
A
pesquisa bibliográfica realizada forneceu ainda, diversas definições para o
termo “construtivismo”, que apresentam pequenas diferenças de acordo com a
visão de alguns educadores de renome no contexto educacional. Genericamente, e de modo bastante simples,
construtivismo pode ser definido como uma “teoria” na qual o aprendiz
“constrói” sua própria aprendizagem, através de um processo interno de
pensamento durante o qual o sujeito coordena as suas ações cognitivas.
O
pedagogo Matui (1995, p. 32) definiu construtivismo como:
“...um sistema de
epistemologia que fundamenta a construção da mente e do conhecimento sobre
bases anteriores, num processo extremamente dinâmico e reversível de
equilibração majorante”.
Já,
a educadora Ferreiro (1993, p. 78) no seu livro “Com todas as Letras” nos revela que:
“O termo construtivismo
não é sinônimo de ativo. Por certo que
a criança, enquanto sujeito constrói conhecimento, é um sujeito ativo, mas para
a tradição pedagógica ‘ativo’ pode querer dizer uma série de coisas que não
estão necessariamente contidas no termos construtivismo...”.
Muitos
outros educadores contribuíram com definições para o termo construtivismo. Apesar destas definições apresentarem
algumas diferenças no enfoque abordado, elas apresentam como aspecto comum o
fato de que o construtivismo se refere à uma teoria cuja essência consiste em
levar o aprendiz à capacidade de criar, refletir e construir mecanismos de sua
própria aprendizagem.
Os
resultados da pesquisa de campo realizada neste trabalho forneceu um
diagnóstico no que se refere ao conhecimento da definição e da fundamentação
sobre o construtivismo para os professores pesquisados.
Ao
se analisar as respostas obtidas, foi possível constatar que aproximadamente 41
% dos professores que se predisporam a responder a pesquisa mostraram uma boa
fundamentação teórica demonstrando conhecer com uma certa profundidade os
conceitos que orientam a teoria construtivista. Neste caso, os professores responderam a pergunta “o que é
construtivismo?” com bastante propriedade e procuraram ainda tecer comentários
sobre a questão abordada. Outros 24 %
mostraram possuir noções sobre os fundamentos construtivistas, limitando-se a
responder de modo superficial a esta questão, sem entretanto se aprofundar em
explicações mais complexas que pudessem demonstrar um conhecimento mais
profundo sobre este tema. Por outro
lado, 35 % dos professores apresentaram respostas evasivas, sem qualquer
fundamentação teórica ou ligação com os conceitos relacionados ao construtivismo.

A
figura 1 ilustra os dados estatísticos obtidos como resultado da pesquisa de
campo para esta questão.
Figura 1: -
Conhecimento demonstrado pelos professores em relação
aos conceitos construtivistas.
A figura 1 nos mostra um alto índice de
professores que desconhecem a fundamentação teórica sobre a corrente pedagógica
construtivista. Somada ao índice de
professores que tem apenas uma pequena noção sobre este tema, podemos observar
que mais da metade dos professores pesquisados não mostraram conhecer
profundamente a definição e os conteúdos que orientam a pedagogia
construtivista.
A questão
dos professores que se consideram praticantes da pedagogia construtivista.
Apesar
do alto índice de respostas obtidas para professores que desconhecem os
fundamentos da teoria construtivista, esses profissionais da educação se
posicionaram como praticantes da pedagogia construtivista ao serem questionados
quanto à sua prática pedagógica. Essa
contradição vem reforçar a suspeita de que muitos dos educadores que se julgam
construtivistas estão equivocados sobre o que é realmente trabalhar o
construtivismo.
O
pedagogo Matui (1995, p.35) relata que uma pesquisa realizada por Fernando
Becker (A epistemologia do professor) demonstra que apenas entre 15% e 20% dos
professores são construtivistas. O que
acontece de fato é que o ensino ministrado na maioria das escolas possuí
características tecnicistas e outras da escola tradicional mascaradas sob um
enfoque construtivista e não se concretizam como práticas que levam os alunos a
desenvolverem habilidades de pensamento, de abstração e de construção da
própria aprendizagem.
Em
termos percentuais, a pesquisa de campo forneceu os seguintes dados
estatísticos referentes à esta questão: 32 respostas de professores que se
identificaram como praticantes da pedagogia construtivista, 2 respostas de
professores que se consideraram parcialmente como praticantes desta corrente
pedagógica e apenas 1 professor não se posicionou como construtivista. Estes dados estão apresentados na figura 2.

Figura 2: -
Identificação dos professores como praticantes da
pedagogia Construtivista.
A
figura 2 nos mostra que a grande maioria dos professores se considera como
praticante da pedagogia construtivista, apesar de alguns deles não demostrarem
conhecer a fundamentação que norteia esta prática de ensino. Esta divergência pode estar relacionada à
desinformação dos professores no que se refere a uma fundamentação teórica que
deveria ser ensinada a eles durante sua formação profissional.
A
Fundamentação Teórica recebida pelos professores nos cursos de formação destes
profissionais.
Com
o objetivo de demonstrar que a falsa interpretação e compreensão dos conceitos
construtivistas têm levado os docentes a enganosamente se posicionarem como
praticantes da pedagogia construtivista e que este fato pode estar ligado à
falta de fundamentação teórica fornecida pelos cursos de formação de
professores, a pesquisa de campo realizada buscou identificar em que momentos
da formação destes profissionais eles receberam conteúdos e embasamento teórico
no que se refere ao construtivismo. Os
resultados obtidos mostraram que, apesar de um grande número destes
profissionais terem recebido algum tipo de informação sobre construtivismo em
salas de aula durante sua graduação, a maioria deles obteve suas fundamentações
através de cursos extras classes ou de outras atividades também realizadas fora
da instituição de ensino destinada a formar estes profissionais. Assim, muitos educadores aprenderam os
conceitos construtivistas através de leituras de revistas, apostilas e eventos
como palestras, seminários e encontros acadêmicos. O estágio também foi uma das fontes de aprendizagem para alguns
professores que responderam conhecer os fundamentos do construtivismo. A pesquisa de campo mostrou também que uma
boa parte destes profissionais não receberam ou não se lembram de terem
recebido embasamento teórico em nenhuma
situação de sua formação como professor.
Mesmos os professores que responderam ter recebido conteúdos durante sua
formação acadêmica, alegaram que este tipo de conteúdo foi transmitido de forma
um tanto desorganizada, sem que houvesse uma sistematização prévia cujo
objetivo fosse ensinar especificamente os conteúdos da pedagogia
construtivista. Ao contrário, os
ensinamentos apareceram transversalmente junto com outras disciplinas ou
através de leituras esporádicas de livros textos.

A
figura 3 a seguir, ilustra o problema da ausência de uma fundamentação teórica
sistematizada enfocada nos conceitos construtivistas nas escolas de formação de
educadores.
Figura 3: -
Origem da fundamentação teórica construtivista para os
professores pesquisados.
Na
figura 3 pode ser observado que apesar de 32 % dos professores pesquisados
terem recebido os conceitos construtivistas em salas de aula do curso de
formação para professores, os outros 68% não receberam. Um grande percentual destes educadores teve
sua fundamentação obtida através de outros eventos (estágios, cursos extra
classe, etc.) e 21% deles não recebem os fundamentos do construtivismo
necessários para completar sua formação pedagógica. Este fato parece explicar os mal-entendidos apresentados sobre as
concepções e conceitos construtivistas.
A Questão da Dicotomia
Teoria e Prática para o Construtivismo.
Para
avaliar a questão da dicotomia teoria e prática na educação construtivista,
foram levantado dados que demonstrassem quais conceitos teóricos
construtivistas vêm sendo aplicados no cotidiano de sala de aula pelos
professores pesquisados. Dentre as
respostas obtidas, destacam-se as que citam os conceitos de interação social e
da mediação do conhecimento pertencentes a concepção construtivista de
Vygotsky, a alfabetização através da concepção discutida por Emília Ferreiro,
as questões relacionadas à experiências pessoais e as atividades que levem a criança
ao raciocínio e a reflexão na construção do seu próprio conhecimento. Também houve respostas em que o professor
demonstrou não utilizar nenhum dos conceitos construtivistas em sala de aula.
Estatisticamente, os dados obtidos estão
ilustrados na tabela 2, na qual percebe-se que há uma certa homogeneidade em relação à exploração dos conceitos
construtivistas em sala de aula. A
maior parte dos docentes aplica os conceitos de interação social e de mediação
do conhecimento. As atividades que
levam os alunos a adquirir habilidades cognitivas também são bastante
empregadas. Os dados revelam que 21%
dos professores pesquisados não usa a pedagogia construtivista em suas aulas.
Tabela 2: - Os
principais conceitos teóricos aplicados em sala de aula pelos professores
pesquisados.
|
CONCEITOS TEÓRICOS APLICADOS EM SALA DE
AULA |
RESPOSTAS OBTIDAS (%) |
|
Interação Social e
Mediação do Conhecimento |
27 |
|
Alfabetização por Emília
Ferreiro |
14 |
|
Exploração das
Experiências pessoais dos alunos |
19 |
|
Atividades que levam ao
raciocínio e construção cognitivas |
19 |
|
Nenhum aplicação da Teoria Construtivista |
21 |
Os dados obtidos na tabela 2 revelam que a teoria construtivista se
encontra presente na prática educativa dos professores pesquisados. Estes dados
estão em concordância com os obtidos na questão do levantamento sobre o
conhecimento dos professores em relação à teoria construtivista que nos mostram
um alto percentual de professores (41%) que conhecem profundamente os conceitos
desta pedagogia. O fato de existir
também um alto índice de professores que desconhecem a fundamentação teórica
construtivista ou que possuem apenas conhecimentos superficiais sobre esses
conteúdos, nos revelam que a presença da teoria construtivista na prática de
sala de aula está associada também à iniciativa de educadores que procuraram
obter este conhecimento por conta própria e não de forma sistematizada como
deveria ser ensinada nos cursos de formação de professores. Assim, a prática construtivista, em algumas
situações vêm sendo ensinadas de forma não sistematizada, apoiada em
fundamentação obtida por diferentes mecanismos de informação. A dicotomia, nesse caso, ocorre, se
considerarmos apenas como fonte de fundamentação teórica os cursos de formação
de professores. A partir do momento em
que consideramos outras fontes de informações e de capacitação de professores,
parece que ela deixa de existir, uma vez que os conhecimentos teóricos vindos
dessas diferentes fontes chegam à prática educativa.
Os Materiais Didáticos
usados na Educação Construtivista.
Um dos maiores mal-entendidos em relação à pedagogia
construtivista se refere à questão do tipo de material didático a ser utilizado
na prática de ensino. Alguns educadores
acreditam que o material é um elemento determinante na escolha de uma determinada
pedagogia. O objetivo desta questão
reside em mostrar que na proposta construtivista, a escolha do material não é
um fator determinante para se trabalhar esta prática de ensino, e sim a
metodologia empregada pelo educador. Em
outras palavras, qualquer que seja o material didático utilizado poderá ser
trabalhado na pedagogia construtivista, desde que o professor conheça os
fundamentos teóricos desta corrente pedagógica e saiba explorar seus conceitos
durante o exercício de sua prática de aula.
É comum os seguidores da corrente construtivista condenarem o uso de
apostilas pré-programadas ou do livro didático para serem acompanhados e
transmitidos aos alunos, alegando que este processo induz a reprodução dos
conhecimentos. Entretanto, esses materiais
podem perfeitamente serem explorados na pedagogia construtivista, desde que os
professores se proponham a usá-los de modo a promover uma educação na qual o
aluno seja levado a raciocinar, abstrair e utilizar outras habilidades do
pensamento que caracterizam esta prática pedagógica.
Os resultados obtidos na pesquisa de campo, ilustrados
na figura 4 nos mostram que existem uma variedade de materiais pedagógicos que
estão sendo utilizados nas salas de aulas por professores que se consideram
construtivistas. É comum o uso de
jornais, revistas, textos, livros infantis, livros didáticos, materiais de
pintura, colagem e dobradura, sucatas, fotos, materiais áudio-visuais e até
mesmos as apostilas pré-programadas.

Figura 4: - Os
materiais didáticos utilizados na pedagogia
construtivista.
Na
figura 4 pode-se observar a grande variedade de materiais utilizados na prática
pedagógica do construtivistmo.
Observa-se uma grande preferência para os materiais relacionados ao
desenvolvimento da leitura. Os materiais
lúdicos como jogos, brinquedos e outros que promovem a diversão enquanto se
desenvolve o processo ensino aprendizagem também tem boa aceitação. As sucatas aparecem com uma freqüência muito
próxima à das apostilas e livros didáticos, o que comprova o fato destes
materiais condenados por alguns educadores também terem sua finalidade no
contexto da educação construtivista. O
uso de materiais áudio-visuais tais como vídeos, músicas em compact disc – CDs
e o uso de computadores e softwares destinados à educação são outros materiais
que estão sendo explorados na prática pedagógicas dos professores
construtivistas.
Algumas sugestões para
melhorar a relação entre teoria e prática construtivista.
Ao serem perguntados sobre o que se poderia fazer para
melhorar a relação entre a fundamentação teórica difundida nas escolas de
formação de professores e a prática cotidiana da educação construtivistas, os
professores pesquisados foram unânimes em afirmar a necessidade de maiores
investimentos para qualificação dos professores e de se trabalhar mais o
assunto a fim de esclarecer melhor os futuros educadores. Algumas respostas apontaram a necessidade
das escolas promoverem situações nas quais os graduandos tivessem um maior
contato com a realidade das salas de aula que futuramente eles iriam encontrar
no desenvolvimento de sua profissão.
Somada a essas sugestões, os autores deste trabalho
acrescentam a necessidade das escolas de formação de professores pensarem na
possibilidade de sistematizar os conceitos de uma abordagem construtivista, de
modo a promover seus fundamentos de forma mais evidenciada e diferenciada dos
demais conteúdos que compõem a grade curricular destes cursos. Poderia ser pensado um módulo exclusivo
sobre a fundamentação construvista para ser ensinada em um determinado momento
da formação dos futuros educadores.
Afinal, o construtivismo é uma das tendências pedagógicas mais
importantes e valorizada do momento educacional que vivemos, pois está
relacionada à construção do conhecimento ou seja, a uma concepção epistemológica.
CONSIDERAÇÕES FINAIS.
O
presente trabalho procurou analisar um tema bastante amplo e que pelo fato de
ser moderno, ainda não se encontra concluído em suas atribuições. Existem muitas formas de se ver a pedagogia
construtivista, o que pode ser facilmente percebido pela variedade de
definições e enfoques que diversos autores atribuem a esse termo. Corrente Pedagógica, teoria de aprendizagem,
prática de ensino, teoria psicológica, enfim, são muitas as vertentes que
encontramos na literatura referente ao construtivismo. Neste contexto, não é difícil perceber
porque há tantos mal-entendidos e equívocos na interpretação dos conceitos
desta pedagogia por parte dos professores.
Algumas
das conclusões que este trabalho enfatizou estão relacionadas a questão do
conhecimento ou não dos professores em relação ao que vem a ser a pedagogia
construtivista. Dessa forma, ficou
claro que a maioria dos professores pesquisados conhecem os conceitos construtivistas. Alguns possuem um conhecimento aprofundado,
outros possuem um conhecimento superficial, entretanto, de alguma forma o
construtivismo não é uma pedagogia totalmente estranha. Como conclusão, podemos dizer que é muito
difícil um professor que não seja construtivista, mas também é igualmente
difícil encontrar um professor que atue totalmente conforme essa corrente pedagógica. Em outras palavras, essa pedagogia aparece
de forma graduada, mesclada junto com outras pedagogias originadas em outros
tempos.
Outra
conclusão interessante que este trabalho forneceu se refere a origem da
fundamentação teórica recebida pelos professores pesquisados. Pode-se perceber que, apesar das escolas de
formação de professores ensinarem os conteúdos da pedagogia construtivista,
essa fundamentação não é sistematizada, sendo passada de modo informal,
mesclada aos demais conteúdos que compõem a grade curricular dessas
escolas. Por outro lado, os professores
pesquisados mostraram que sua fundamentação teórica, muitas vezes é resultante
da iniciativa pessoal destes educadores.
Eles buscaram os conceitos construtivistas em outras fontes diferentes
dos cursos de formação de professores.
No
que se refere à dicotomia teoria e prática construtivista, concluiu-se que esta
dicotomia, de uma forma geral não existe, já que os conceitos e conteúdos desta
pedagogia estão presentes em sala de aula.
Porém, ficou claro que a origem da fundamentação teórica não é os cursos
de formação de professores, mas sim outras fontes externas à formação acadêmica
que eles receberam. Se considerarmos
apenas a fundamentação oriunda dos cursos de formação de professores, talvez
haja então a citada dicotomia teoria e prática na educação construtivista na
Educação Infantil dos profissionais
pesquisados.
AGRADECIMENTOS
Os autores desejam agradecer a todos os
professores que gentilmente participaram da pesquisa de campo realizada e
contribuíram para a realização deste trabalho.
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