ANÁLISE DA DICOTOMIA TEORIA E PRÁTICA CONSTRUTIVISTA NA EDUCAÇÃO INFANTIL

DA REGIÃO DO VALE DO PARAÍBA/SP

 

 

JULIA PETERNELLI MOREIRA MIGUEL(1)

GILDA CORTEZ PEREIRA(2)

IVANCY MOREIRA MIGUEL(3)

 

Organização Guaratinguetá de Ensino/OGE

Av. Pedro de Toledo, 195 – Vila Paraíba

Guaratinguetá/SP – CEP: 12.500-000

 

 

RESUMO

 

Nos dias atuais em que a globalização do conhecimento e a necessidade de formação de indivíduos emancipados e aptos a se integrarem em uma sociedade pluralista tem presença marcante, torna-se cada vez mais evidente a necessidade de uma pedagogia que atenda as atuais mudanças vigente nos diversos segmentos sociais; inclusive na área educacional.  È neste contexto que a “pedagogia construtivista” aparece como uma alternativa destinada a preencher os requisitos necessários à formação de um cidadão que atenda ao perfil do mundo contemporâneo.  O construtivismo é hoje uma corrente pedagógica emergente que vem ganhando adeptos entre os educadores dos diversos níveis educacionais e que requer como conseqüência, a formação de educadores habilitados a trabalhar seus conceitos com eficácia e produtividade em sala de aula.  Os cursos de formação de professores oferecem fundamentação teórica construtivistas ao longo de sua graduação, entretanto, suspeita-se que os conceitos teóricos difundidos nestes cursos não são aplicados na prática das salas de aulas.

Este trabalho teve por objetivo levantar o panorama da fundamentação teórica recebida pelos educadores durante sua formação acadêmica e estabelecer uma relação destes dados com outros obtidos em uma pesquisa de campo, a fim de constatar a realidade da prática construtivista em sala de aula.  Para este fim, foi realizado uma pesquisa bibliográfica que permitiu levantar informações que serviram de base à realização de um questionário destinado a coletar informações da prática construtivista no cotidiano das escolas de Educação Infantil. Os resultados obtidos permitiram avaliar o conhecimento que os professores possuem a respeito dos conceitos construtivistas, em que situações eles receberam sua fundamentação teórica sobre este assunto, como eles estão trabalhando esta teoria em sala de aula, que tipo de material e pedagogia construtivista é praticada em sala de aula e ainda discutir a questão da dicotomia teoria/prática construtivista na Educação Infantil das escolas pesquisadas.

 

 

INTRODUÇÃO

 

A carência das habilidades do pensamento na atual educação brasileira é um fato que não podemos desconsiderar se desejamos promover um ensino com qualidade e destinado a atender às necessidades de uma sociedade cada vez mais exigente no que diz respeito à formação emancipatória de seus integrantes.  Os problemas educacionais atuais são muitos e percebe-se claramente o despreparo dos professores e outros educadores no que diz respeito às suas habilidades em trabalhar a questão do pensamento e da reflexão com seus alunos.  Habilidades genéricas como a inferência, o raciocínio, a investigação, a formação de conceitos e a interpretação podem e devem ser utilizados em qualquer disciplina, porém, pouco se percebe a exploração destes elementos no trabalho com as disciplinas tradicionais ensinadas em nossas escolas.  Atualmente, o sistema de ensino está calcado em uma estrutura que não favorece essas habilidades.

É neste contexto que o construtivismo desponta como uma “corrente pedagógica” que não só busca desenvolver a capacidade criativa e a construção de conhecimentos nos alunos, como também serve de suporte para uma avaliação da pedagogia realizada nos dias atuais.  O construtivismo também aparece como um alerta à necessidade de mudanças no sentido de direcionar o processo de ensino e da aprendizagem para uma formação de indivíduos mais aptos a se integrarem neste mundo em que a globalização da informação e a pluralidade cultural são elementos determinantes das condutas de seus componentes.

A necessidade de mudança na educação, aliada às possibilidades que o construtivismo oferece como uma nova forma de trabalhar os problemas do ensino levaram um grande número de educadores a se envolverem com os princípios desta corrente pedagógica.  Entretanto, também são muitos os educadores que sem nenhum comprometimento de mudança de conduta, se entusiasmaram com essa nova pedagogia e passaram a utilizar o termo como uma forma de se mostrarem atualizados, atuando na maioria das vezes, como meros reprodutores de conhecimentos previamente estabelecidos, mascarados sob o enfoque “construtivista”.

Nunca um termo foi tão pronunciado entre os educadores como a palavra “construtivismo” e muitos mal-entendidos sobre a teoria construtivista são inevitáveis no meio educacional.  É nesse contexto que se suspeita que esses mal-entendidos são resultantes da interpretação inadequada de uma fundamentação teórica ensinada nos cursos de formação dos professores.  Percebe-se uma certa desinformação dos professores com relação aos conceitos construtivistas e como conseqüência, falsas interpretações que levam a erros quando a teoria é transferida para a ação prática em sala de aula.

É objetivo deste trabalho analisar a questão da compreensão ou não do termo e dos conceitos construtivistas por parte dos professores da educação infantil das escolas da região do Vale do Paraíba/SP e estabelecer um elo de ligação entre esta questão e a dicotomia entre teoria e prática construtivista em sala de aula, caso ela seja evidenciada.

 

 

MÉTODOS E PROCEDIMENTOS.

 

A realização desse trabalho envolveu em uma primeira etapa, um levantamento bibliográfico através do qual foi possível obter os conceitos de construtivismo sob a ótica de diversos autores, bem como, informações relacionadas aos conteúdos construtivistas, ao papel dos professores que se propuseram a trabalhar esta metodologia de ensino em suas aulas, a avaliação e ao uso do erro dos alunos como forma de aprendizagem e de construção de conhecimentos e de outras informações que serviram de embasamento teórico para a realização de uma pesquisa de campo, efetuada em uma fase seguinte deste trabalho.

Após a realização da pesquisa bibliográfica indireta, foi confeccionado um questionário contendo 10 questões, cujo objetivo consistiu em levantar dados reais sobre a existência ou não da dicotomia teoria e prática construtivista na Educação Infantil.  Foram pesquisados 100 professores que lecionam em escolas públicas e estaduais situadas em 8 diferentes cidades da região do Vale do Paraíba no interior do Estado de São Paulo.

O referido questionário foi composto por perguntas através das quais foi possível identificar o verdadeiro conhecimento dos professores em relação à definição do conceito “construtivismo”, sua identificação com esta metodologia de trabalho, os tipos de materiais didáticos construtivistas empregados em suas práticas pedagógicas, a existência ou não da interação entre sua prática de aula e a sua fundamentação teórica recebida durante sua formação como profissional da educação e os tipos de resultados obtidos com a aplicação da prática construtivista em sala de aula.  Procurou-se ainda obter algumas sugestões desses profissionais no sentido de melhorar a relação teoria/prática no que se refere ao construtivismo como postura educativa.

Além das perguntas destinadas a obter informações sobre o conhecimento técnico da pedagogia construtivista, o questionário em questão continha duas questões com objetivo de identificar a origem das escolas nas quais os professores pesquisados exercem sua profissão e a fonte mantenedora dessas escolas, se particular ou pública.  Por motivos éticos, essas questões apresentaram um caráter opcional reservando ao pesquisado o direito ao anonimato.

O objetivo da pesquisa de campo foi de obter informações sobre a realidade do ensino numa perspectiva construtivista nas escolas pesquisadas e comparar os dados obtidos com outros, provenientes da pesquisa bibliográfica previamente realizada.

Dos 100 professores pesquisados, 65 se negaram a responder o questionário e apenas 35 responderam as questões propostas, fato este que intensificou as suspeitas de insegurança e desconhecimento dos professores no que diz respeito aos conceitos construtivistas.  As respostas obtidas através do questionário foram tabuladas e as informações foram analisadas e agrupadas conforme o grau de semelhança e relação existente entre elas.

A tabela 1 apresenta a distribuição dos professores que foram pesquisados no que se refere às cidades de origem e à fonte mantenedora das suas instituições escolares.

 

Tabela1: - Origem e fonte mantenedora das escolas, cujos professores foram pesquisados que responderam ao questionário.

 

CIDADES

PROFESSORES

PESQUISADOS

ESCOLAS

DE ORIGEM

MANTENEDORAS

M

P

Aparecida

3

3

2

1

Cachoeira Paulista

2

1

1

0

Cruzeiro

2

2

2

0

Guaratinguetá

6

4

3

1

Lorena

10

6

2

4

Roseira

1

1

1

0

São José dos Campos

13

8

5

3

Taubaté

6

4

2

2

TOTAIS

35

29

18

11

Nota:   M = Escola Municipal e P = Escola Particular.

 

De acordo com os dados plotados na tabela 1, percebe-se que a maioria das escolas pesquisadas (62 % dessas instituições) é da rede municipal de ensino e as demais são mantidas por rendimentos de origem particular.  Nenhuma escola estadual foi pesquisada devido a quase inexistência da presença da Educação Infantil neste segmento educacional.  O número limitado de respostas se deve a uma certa rejeição da maioria dos professores pesquisados em responder ao questionário e ao fato de que este trabalho ainda se encontra em desenvolvimento.  Está previsto um número maior de questionários a serem distribuídos em outras escolas a fim de concluir a pesquisa proposta.

DISCUSSÃO DOS RESULTADOS.

 

Os resultados obtidos na pesquisa de campo permitiram confrontar o real conhecimento dos professores pesquisados com os principais conceitos teóricos difundidos pela literatura construtivista.  Dessa forma, foi possível verificar como vem sendo estabelecido a ponte de união entre a teoria e a prática desses conceitos e os possíveis mal-entendidos na interpretação da teoria construtivista.

Para se atingir aos objetivos propostos neste trabalho, cinco pontos básicos foram estabelecidos para fins de discussão dos resultados: (1) a questão do conhecimento sobre definição e sobre o conceito de construtivismo; (2) a questão do modismo ou da pseudo interpretação sobre ser ou não um professor construtivista; (3) um levantamento para identificar em que situações o professor recebeu fundamentação teórica construtivista durante sua formação como educador.; (4) a abordagem sobre a prática educativa e os conteúdos trabalhados em sala de aula, objetivando verificar a relação entre teoria e prática construtivista do professor pesquisado; (5) uma análise dos resultados obtidos na educação com base no construtivismo.  Também será apresentado um breve comentário sobre algumas sugestões apresentadas pelos professores pesquisados com o intento de melhorar a relação teoria e prática no que se refere ao construtivismo como prática educativa.

 

 

O que é Construtivismo?

 

O psicólogo Jean Piaget (1896-1980) em sua teoria denominada Epistemologia, concebeu o Construtivismo como uma teoria que parte do princípio de que o desenvolvimento da inteligência é determinado pelas ações mútuas entre o indivíduo e o meio.  A idéia de que o homem não nasce inteligente, mas também não é passivo sob a influência do meio.  Ao contrário, responde aos estímulos externos agindo sobre eles para construir e organizar o seu próprio conhecimento, de forma cada vez mais elaborada.  Desse modo, Piaget apresentou a idéia de que nada, a rigor, está pronto e acabado e que o conhecimento não é algo terminado.  Na concepção de Piaget, os processos de desenvolvimento da aprendizagem estão associados ao processo de maturação do ser humano.  É o desenvolvimento do ser humano que determina e condiciona o processo ensino-aprendizagem através de uma relação de interdependência entre esses elementos.

O filósofo russo Lev Semenovich Vygotsky é outro pesquisador de destaque ao analisarmos a teoria construtivista.  A idéia central dos estudos de Vygotsky reside na crença de que o desenvolvimento das funções superiores dos homens não é causa única e exclusiva de suas necessidades biológicas (como acontece com os animais e os bebês) e nem das “influências” do meio social sobre o indivíduo, conforme as idéias de Piaget.  Para Vygotsky, o desenvolvimento das funções humanas é fruto da “interação” entre o homem e o meio social em que se insere.  Na concepção deste filósofo, o homem é um ser social e portanto, está relacionado às interações sociais através da troca de experiências e dessa forma realiza o processo educativo e a construção de conhecimentos.  Para Vygotsky, a apropriação do conhecimento se dá através das relações interpessoais que prevalecem na sociedade na qual o indivíduo está inserido.  É através da mediação de um indivíduo mais experiente que os conteúdos são apropriados, concretizando assim o processo de construção de conhecimento.

A pesquisa bibliográfica realizada forneceu ainda, diversas definições para o termo “construtivismo”, que apresentam pequenas diferenças de acordo com a visão de alguns educadores de renome no contexto educacional.  Genericamente, e de modo bastante simples, construtivismo pode ser definido como uma “teoria” na qual o aprendiz “constrói” sua própria aprendizagem, através de um processo interno de pensamento durante o qual o sujeito coordena as suas ações cognitivas.

O pedagogo Matui (1995, p. 32) definiu construtivismo como:

 

“...um sistema de epistemologia que fundamenta a construção da mente e do conhecimento sobre bases anteriores, num processo extremamente dinâmico e reversível de equilibração majorante”.

 

Já, a educadora Ferreiro (1993, p. 78) no seu livro “Com todas as Letras” nos revela que:

 

“O termo construtivismo não é sinônimo de ativo.  Por certo que a criança, enquanto sujeito constrói conhecimento, é um sujeito ativo, mas para a tradição pedagógica ‘ativo’ pode querer dizer uma série de coisas que não estão necessariamente contidas no termos construtivismo...”.

 

Muitos outros educadores contribuíram com definições para o termo construtivismo.  Apesar destas definições apresentarem algumas diferenças no enfoque abordado, elas apresentam como aspecto comum o fato de que o construtivismo se refere à uma teoria cuja essência consiste em levar o aprendiz à capacidade de criar, refletir e construir mecanismos de sua própria aprendizagem. 

Os resultados da pesquisa de campo realizada neste trabalho forneceu um diagnóstico no que se refere ao conhecimento da definição e da fundamentação sobre o construtivismo para os professores pesquisados.

Ao se analisar as respostas obtidas, foi possível constatar que aproximadamente 41 % dos professores que se predisporam a responder a pesquisa mostraram uma boa fundamentação teórica demonstrando conhecer com uma certa profundidade os conceitos que orientam a teoria construtivista.  Neste caso, os professores responderam a pergunta “o que é construtivismo?” com bastante propriedade e procuraram ainda tecer comentários sobre a questão abordada.  Outros 24 % mostraram possuir noções sobre os fundamentos construtivistas, limitando-se a responder de modo superficial a esta questão, sem entretanto se aprofundar em explicações mais complexas que pudessem demonstrar um conhecimento mais profundo sobre este tema.  Por outro lado, 35 % dos professores apresentaram respostas evasivas, sem qualquer fundamentação teórica ou ligação com os conceitos relacionados ao construtivismo.


A figura 1 ilustra os dados estatísticos obtidos como resultado da pesquisa de campo para esta questão.

Figura 1: - Conhecimento demonstrado pelos professores em relação

aos conceitos construtivistas.

A figura 1 nos mostra um alto índice de professores que desconhecem a fundamentação teórica sobre a corrente pedagógica construtivista.  Somada ao índice de professores que tem apenas uma pequena noção sobre este tema, podemos observar que mais da metade dos professores pesquisados não mostraram conhecer profundamente a definição e os conteúdos que orientam a pedagogia construtivista.

 

 

A questão dos professores que se consideram praticantes da pedagogia construtivista.

 

Apesar do alto índice de respostas obtidas para professores que desconhecem os fundamentos da teoria construtivista, esses profissionais da educação se posicionaram como praticantes da pedagogia construtivista ao serem questionados quanto à sua prática pedagógica.  Essa contradição vem reforçar a suspeita de que muitos dos educadores que se julgam construtivistas estão equivocados sobre o que é realmente trabalhar o construtivismo.

O pedagogo Matui (1995, p.35) relata que uma pesquisa realizada por Fernando Becker (A epistemologia do professor) demonstra que apenas entre 15% e 20% dos professores são construtivistas.  O que acontece de fato é que o ensino ministrado na maioria das escolas possuí características tecnicistas e outras da escola tradicional mascaradas sob um enfoque construtivista e não se concretizam como práticas que levam os alunos a desenvolverem habilidades de pensamento, de abstração e de construção da própria aprendizagem.

Em termos percentuais, a pesquisa de campo forneceu os seguintes dados estatísticos referentes à esta questão: 32 respostas de professores que se identificaram como praticantes da pedagogia construtivista, 2 respostas de professores que se consideraram parcialmente como praticantes desta corrente pedagógica e apenas 1 professor não se posicionou como construtivista.  Estes dados estão apresentados na figura 2.

 


 


Figura 2: - Identificação dos professores como praticantes da

pedagogia Construtivista.

 

A figura 2 nos mostra que a grande maioria dos professores se considera como praticante da pedagogia construtivista, apesar de alguns deles não demostrarem conhecer a fundamentação que norteia esta prática de ensino.  Esta divergência pode estar relacionada à desinformação dos professores no que se refere a uma fundamentação teórica que deveria ser ensinada a eles durante sua formação profissional.

 

 

A Fundamentação Teórica recebida pelos professores nos cursos de formação destes profissionais.

 

Com o objetivo de demonstrar que a falsa interpretação e compreensão dos conceitos construtivistas têm levado os docentes a enganosamente se posicionarem como praticantes da pedagogia construtivista e que este fato pode estar ligado à falta de fundamentação teórica fornecida pelos cursos de formação de professores, a pesquisa de campo realizada buscou identificar em que momentos da formação destes profissionais eles receberam conteúdos e embasamento teórico no que se refere ao construtivismo.  Os resultados obtidos mostraram que, apesar de um grande número destes profissionais terem recebido algum tipo de informação sobre construtivismo em salas de aula durante sua graduação, a maioria deles obteve suas fundamentações através de cursos extras classes ou de outras atividades também realizadas fora da instituição de ensino destinada a formar estes profissionais.  Assim, muitos educadores aprenderam os conceitos construtivistas através de leituras de revistas, apostilas e eventos como palestras, seminários e encontros acadêmicos.  O estágio também foi uma das fontes de aprendizagem para alguns professores que responderam conhecer os fundamentos do construtivismo.  A pesquisa de campo mostrou também que uma boa parte destes profissionais não receberam ou não se lembram de terem recebido embasamento teórico em  nenhuma situação de sua formação como professor.  Mesmos os professores que responderam ter recebido conteúdos durante sua formação acadêmica, alegaram que este tipo de conteúdo foi transmitido de forma um tanto desorganizada, sem que houvesse uma sistematização prévia cujo objetivo fosse ensinar especificamente os conteúdos da pedagogia construtivista.  Ao contrário, os ensinamentos apareceram transversalmente junto com outras disciplinas ou através de leituras esporádicas de livros textos.


A figura 3 a seguir, ilustra o problema da ausência de uma fundamentação teórica sistematizada enfocada nos conceitos construtivistas nas escolas de formação de educadores.

Figura 3: - Origem da fundamentação teórica construtivista para os

professores pesquisados.

Na figura 3 pode ser observado que apesar de 32 % dos professores pesquisados terem recebido os conceitos construtivistas em salas de aula do curso de formação para professores, os outros 68% não receberam.  Um grande percentual destes educadores teve sua fundamentação obtida através de outros eventos (estágios, cursos extra classe, etc.) e 21% deles não recebem os fundamentos do construtivismo necessários para completar sua formação pedagógica.  Este fato parece explicar os mal-entendidos apresentados sobre as concepções e conceitos construtivistas.

 

 

 

A Questão da Dicotomia Teoria e Prática para o Construtivismo.

 

Para avaliar a questão da dicotomia teoria e prática na educação construtivista, foram levantado dados que demonstrassem quais conceitos teóricos construtivistas vêm sendo aplicados no cotidiano de sala de aula pelos professores pesquisados.  Dentre as respostas obtidas, destacam-se as que citam os conceitos de interação social e da mediação do conhecimento pertencentes a concepção construtivista de Vygotsky, a alfabetização através da concepção discutida por Emília Ferreiro, as questões relacionadas à experiências pessoais e as atividades que levem a criança ao raciocínio e a reflexão na construção do seu próprio conhecimento.  Também houve respostas em que o professor demonstrou não utilizar nenhum dos conceitos construtivistas em sala de aula.

Estatisticamente, os dados obtidos estão ilustrados na tabela 2, na qual percebe-se que há uma certa homogeneidade em relação à exploração dos conceitos construtivistas em sala de aula.  A maior parte dos docentes aplica os conceitos de interação social e de mediação do conhecimento.  As atividades que levam os alunos a adquirir habilidades cognitivas também são bastante empregadas.  Os dados revelam que 21% dos professores pesquisados não usa a pedagogia construtivista em suas aulas.

 

Tabela 2: - Os principais conceitos teóricos aplicados em sala de aula pelos professores pesquisados.

 

CONCEITOS TEÓRICOS

APLICADOS EM SALA DE AULA

RESPOSTAS OBTIDAS (%)

Interação Social e Mediação do Conhecimento

27

Alfabetização por Emília Ferreiro

14

Exploração das Experiências pessoais dos alunos

19

Atividades que levam ao raciocínio e construção cognitivas

19

Nenhum aplicação da Teoria Construtivista

21

 

Os dados obtidos na tabela 2 revelam que a teoria construtivista se encontra presente na prática educativa dos professores pesquisados. Estes dados estão em concordância com os obtidos na questão do levantamento sobre o conhecimento dos professores em relação à teoria construtivista que nos mostram um alto percentual de professores (41%) que conhecem profundamente os conceitos desta pedagogia.  O fato de existir também um alto índice de professores que desconhecem a fundamentação teórica construtivista ou que possuem apenas conhecimentos superficiais sobre esses conteúdos, nos revelam que a presença da teoria construtivista na prática de sala de aula está associada também à iniciativa de educadores que procuraram obter este conhecimento por conta própria e não de forma sistematizada como deveria ser ensinada nos cursos de formação de professores.  Assim, a prática construtivista, em algumas situações vêm sendo ensinadas de forma não sistematizada, apoiada em fundamentação obtida por diferentes mecanismos de informação.  A dicotomia, nesse caso, ocorre, se considerarmos apenas como fonte de fundamentação teórica os cursos de formação de professores.  A partir do momento em que consideramos outras fontes de informações e de capacitação de professores, parece que ela deixa de existir, uma vez que os conhecimentos teóricos vindos dessas diferentes fontes chegam à prática educativa.

 

 

 

Os Materiais Didáticos usados na Educação Construtivista.

 

Um dos maiores mal-entendidos em relação à pedagogia construtivista se refere à questão do tipo de material didático a ser utilizado na prática de ensino.  Alguns educadores acreditam que o material é um elemento determinante na escolha de uma determinada pedagogia.  O objetivo desta questão reside em mostrar que na proposta construtivista, a escolha do material não é um fator determinante para se trabalhar esta prática de ensino, e sim a metodologia empregada pelo educador.  Em outras palavras, qualquer que seja o material didático utilizado poderá ser trabalhado na pedagogia construtivista, desde que o professor conheça os fundamentos teóricos desta corrente pedagógica e saiba explorar seus conceitos durante o exercício de sua prática de aula.  É comum os seguidores da corrente construtivista condenarem o uso de apostilas pré-programadas ou do livro didático para serem acompanhados e transmitidos aos alunos, alegando que este processo induz a reprodução dos conhecimentos.  Entretanto, esses materiais podem perfeitamente serem explorados na pedagogia construtivista, desde que os professores se proponham a usá-los de modo a promover uma educação na qual o aluno seja levado a raciocinar, abstrair e utilizar outras habilidades do pensamento que caracterizam esta prática pedagógica.

 

Os resultados obtidos na pesquisa de campo, ilustrados na figura 4 nos mostram que existem uma variedade de materiais pedagógicos que estão sendo utilizados nas salas de aulas por professores que se consideram construtivistas.  É comum o uso de jornais, revistas, textos, livros infantis, livros didáticos, materiais de pintura, colagem e dobradura, sucatas, fotos, materiais áudio-visuais e até mesmos as apostilas pré-programadas.

 

 

 

 

 


 


Figura 4: - Os materiais didáticos utilizados na pedagogia

construtivista.

 

Na figura 4 pode-se observar a grande variedade de materiais utilizados na prática pedagógica do construtivistmo.  Observa-se uma grande preferência para os materiais relacionados ao desenvolvimento da leitura.  Os materiais lúdicos como jogos, brinquedos e outros que promovem a diversão enquanto se desenvolve o processo ensino aprendizagem também tem boa aceitação.  As sucatas aparecem com uma freqüência muito próxima à das apostilas e livros didáticos, o que comprova o fato destes materiais condenados por alguns educadores também terem sua finalidade no contexto da educação construtivista.  O uso de materiais áudio-visuais tais como vídeos, músicas em compact disc – CDs e o uso de computadores e softwares destinados à educação são outros materiais que estão sendo explorados na prática pedagógicas dos professores construtivistas.

 

 

 

Algumas sugestões para melhorar a relação entre teoria e prática construtivista.

 

Ao serem perguntados sobre o que se poderia fazer para melhorar a relação entre a fundamentação teórica difundida nas escolas de formação de professores e a prática cotidiana da educação construtivistas, os professores pesquisados foram unânimes em afirmar a necessidade de maiores investimentos para qualificação dos professores e de se trabalhar mais o assunto a fim de esclarecer melhor os futuros educadores.  Algumas respostas apontaram a necessidade das escolas promoverem situações nas quais os graduandos tivessem um maior contato com a realidade das salas de aula que futuramente eles iriam encontrar no desenvolvimento de sua profissão.

Somada a essas sugestões, os autores deste trabalho acrescentam a necessidade das escolas de formação de professores pensarem na possibilidade de sistematizar os conceitos de uma abordagem construtivista, de modo a promover seus fundamentos de forma mais evidenciada e diferenciada dos demais conteúdos que compõem a grade curricular destes cursos.  Poderia ser pensado um módulo exclusivo sobre a fundamentação construvista para ser ensinada em um determinado momento da formação dos futuros educadores.  Afinal, o construtivismo é uma das tendências pedagógicas mais importantes e valorizada do momento educacional que vivemos, pois está relacionada à construção do conhecimento ou seja, a uma concepção epistemológica.

 

 

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS.

 

O presente trabalho procurou analisar um tema bastante amplo e que pelo fato de ser moderno, ainda não se encontra concluído em suas atribuições.  Existem muitas formas de se ver a pedagogia construtivista, o que pode ser facilmente percebido pela variedade de definições e enfoques que diversos autores atribuem a esse termo.  Corrente Pedagógica, teoria de aprendizagem, prática de ensino, teoria psicológica, enfim, são muitas as vertentes que encontramos na literatura referente ao construtivismo.  Neste contexto, não é difícil perceber porque há tantos mal-entendidos e equívocos na interpretação dos conceitos desta pedagogia por parte dos professores.

Algumas das conclusões que este trabalho enfatizou estão relacionadas a questão do conhecimento ou não dos professores em relação ao que vem a ser a pedagogia construtivista.  Dessa forma, ficou claro que a maioria dos professores pesquisados conhecem os conceitos construtivistas.  Alguns possuem um conhecimento aprofundado, outros possuem um conhecimento superficial, entretanto, de alguma forma o construtivismo não é uma pedagogia totalmente estranha.  Como conclusão, podemos dizer que é muito difícil um professor que não seja construtivista, mas também é igualmente difícil encontrar um professor que atue totalmente conforme essa corrente pedagógica.  Em outras palavras, essa pedagogia aparece de forma graduada, mesclada junto com outras pedagogias originadas em outros tempos.

Outra conclusão interessante que este trabalho forneceu se refere a origem da fundamentação teórica recebida pelos professores pesquisados.  Pode-se perceber que, apesar das escolas de formação de professores ensinarem os conteúdos da pedagogia construtivista, essa fundamentação não é sistematizada, sendo passada de modo informal, mesclada aos demais conteúdos que compõem a grade curricular dessas escolas.  Por outro lado, os professores pesquisados mostraram que sua fundamentação teórica, muitas vezes é resultante da iniciativa pessoal destes educadores.  Eles buscaram os conceitos construtivistas em outras fontes diferentes dos cursos de formação de professores.

No que se refere à dicotomia teoria e prática construtivista, concluiu-se que esta dicotomia, de uma forma geral não existe, já que os conceitos e conteúdos desta pedagogia estão presentes em sala de aula.  Porém, ficou claro que a origem da fundamentação teórica não é os cursos de formação de professores, mas sim outras fontes externas à formação acadêmica que eles receberam.  Se considerarmos apenas a fundamentação oriunda dos cursos de formação de professores, talvez haja então a citada dicotomia teoria e prática na educação construtivista na Educação Infantil  dos profissionais pesquisados.

 

 

 

AGRADECIMENTOS

Os autores desejam agradecer a todos os professores que gentilmente participaram da pesquisa de campo realizada e contribuíram para a realização deste trabalho.

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

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COSTA, Maria Luíza Andreozzi da.  Piaget e a intervenção psicopedagógica.  São Paulo : Olho d’água, 1997.

 

DANTAS, Heloísa; OLIVEIRA, Marta Kohl de; TAILLE, Yves de.  Piaget/Vygotsky/Wallon: Teorias psicogenéticas em discussão.  São Paulo : Summus, 1992.

 

DAVIS, Claúdia; SILVA, Maria Alice Setúbal S.; ESPÓSITO, Yara.  Papel e vetor das interações sociais em sala de aula.  São Paulo, [71], 1989. p. 49-54.

 

FERREIRO, Emília.  Com todas as letras.  2 ed.  São Paulo : Cortez, 1993.

 

LUCKESI; BARRETO; COSMA; BAPTISTA.  Fazer Universidade.  9ªed. São Paulo : Cortez, 1997.  p. 176-181.

 

MATUI, Jiron.  Construtivismo : Teoria construtivista sócio-histórica aplicada ao ensino.  São Paulo : Moderna, 1995.

 

REFERENCIAL CURRICULAR NACIONAL DA EDUCAÇÃO INFANTIL.  V. I, II, III.

 

VYGOTSKY, L. S.  A formação social da mente.  São Paulo : Martins Fontes, 1998.

 

WEIZ, Telma.  Revendo a função pedagógica da pré-escola.  Idéias 2.  São Paulo : FDE, 1988.  p. 33-68.

 

         .  O diálogo entre o ensino e a aprendizagem.  São Paulo : Ática, 1999.

 

 



1 Graduando em Pedagogia – OGE/Organização Guaratinguetá de Ensino.

2 Profª Mestanda em Educação – OGE/Organização Guaratinguetá de Ensino.

3 Doutorando em Engenharia Mecânica – UNESP/FEG – Guaratinguetá/SP.

  Graduando em Pedagogia – OGE/Organização Guaratinguetá de Ensino.