O PROCESSO DE MUDANÇAS NA PRÁTICA DOCENTE E

A FORMAÇÃO CONTINUADA DE PROFESSORES

 

 

Geralda Aparecida de Carvalho Pena[1]

 

 

Introdução

 

Atualmente, as discussões sobre a formação de professores/as vêm se destacando no campo da educação, considerando sua importância para avanços no trabalho docente,  tendo em vista as inúmeras mudanças ocorridas nas últimas décadas que vêm demandar da escola e dos/as professores/as novas formas de organizar seu trabalho. Considerando que as propostas de formação continuada, principalmente aquelas sistematizadas e planejadas com o objetivo de possibilitar a implementação de novas propostas de ensino sempre se baseiam em mudanças nas práticas vigentes na escola, torna-se relevante conhecer os posicionamentos das professoras em relação às mudanças que ocorrem na prática docente. Nosso interesse pelo tema deve-se também ao fato de termos consciência de que o processo de mudanças é lento e enfrenta diversas dificuldades para sua efetivação na escola. Sendo assim, no âmbito deste trabalho, tenho como objetivo central discutir estas relações, conforme percebidas por professoras do Ensino Fundamental, procurando identificar os fatores que contribuem para desencadear mudanças na prática pedagógica e os que as dificultam, bem como as causas da resistência às mudanças na escola, buscando, por meio dessas análises, verificar a relação entre esses fatores e a formação continuada.

As discussões referentes ao processo de mudanças na prática docente, apresentadas neste trabalho, têm por base a pesquisa: “A formação continuada de professoras e suas relações com a prática docente[2]” (PENA,1999), realizada com professoras da rede pública de ensino de uma cidade do interior de Minas Gerais. O principal objetivo desta pesquisa foi conhecer a forma como professores/as analisam seu próprio processo de formação no decorrer de sua trajetória profissional e a relação desta formação com sua prática pedagógica. Foram realizadas entrevistas com oito professoras das séries iniciais de três escolas de Ensino Fundamental, com as diretoras e supervisoras das escolas em que atuam, bem como com uma representante da Secretaria Municipal de Educação e uma representante da Superintendência Regional de Ensino do município. Foram ainda coletados dados em documentos destes órgãos sobre as atividades de formação continuada desenvolvidas nos últimos anos. Neste trabalho serão analisados os dados relativos ao processo de mudança na prática, sob a ótica das professoras.

 

1. Fatores desencadeantes de mudanças

 

As discussões sobre a necessidade de mudanças na prática docente geralmente estão vinculadas às críticas constantes que são feitas às práticas rotineiras da escola. Uma vez que a literatura sobre a escola em geral e sobre o cotidiano escolar aponta problemas distintos na forma de transmissão e na viabilização da construção do conhecimento na escola, a questão da mudança na prática torna-se ainda mais relevante, pois as transformações no trabalho pedagógico são consideradas essenciais para ressignificar a relação professor/aluno/conhecimento e o processo ensino-aprendizagem.

O processo de transformações em todos os campos de trabalho é considerado pelas professoras entrevistadas como um elemento que influencia as mudanças que ocorreram e ocorrem em sua prática diária. Elas ressaltam que no decorrer de sua trajetória profissional, foram ocorrendo mudanças paulatinas, decorrentes de sua percepção sobre a importância de mudanças na prática escolar.

Sabemos que a mudança não se caracteriza como um processo de ruptura com práticas ditas tradicionais, pelo contrário, é um processo que ocorre de forma lenta e gradativa. Da mesma forma, o processo de mudanças não deve ser analisado como caracterizado por uma “conversão” dos/as professores/as, no sentido de pressupor o abandono de todas as suas práticas anteriores e a mudança radical em suas formas de trabalho. Nesse sentido, é importante ressaltar que uma mesma proposta de mudança pode levar a práticas distintas decorrentes de diversos fatores, dentre eles, o interesse dos/as professores/as, seu estilo de trabalho e a forma como se posicionam frente às propostas. As características pessoais dos/as professores/as são portanto fatores importantes quando se analisa a questão da mudança na prática docente. Os depoimentos a seguir nos mostram como este aspecto é percebido pelas professoras:

 

“O que leva a aceitar as mudanças, acho que é o fato de as pessoas terem uma postura mais aberta.” (Eliane[3])

 

“Não sou propensa a mudança, não; nem sempre a gente tem vontade de mudar.” (Rosa)

 

Podemos observar que, para as professoras entrevistadas, o fato de colocarem-se mais abertas a mudanças pode acarretar uma predisposição para mudar a prática. Essa predisposição pessoal para a mudança pode ser ampliada com o conhecimento de experiências bem-sucedidas de outras professoras em diferentes contextos de trabalho. De acordo com as professoras, um trabalho que foi desenvolvido com resultados positivos anteriormente em outras escolas as incentiva a realizar experiências semelhantes em sua sala de aula. Este fato traz indícios de que o sucesso da colega torna a professora mais predisposta a tentar realizar alguma modificação em sua prática.

 

 “O que convence mais é o relato, a troca de experiência entre as professoras. O que eu acho que influenciou prá eu mudar foi porque a gente está sempre lendo algumas coisas, vendo depoimentos de outras professoras, umas vão passando prás outras experiências que deram certo, aí a gente vai pegando e levando prá dentro da sala de aula.” (Ana)

 

“Nesse curso de matemática que eu fiz, tinha algumas professoras que já estavam trabalhando com a proposta e falaram que dava certo. Então eu já fico mais animada.” (Laura)

 

Esses depoimentos trazem questões interessantes: os relatos de colegas oferecem dicas sobre o “como fazer” o trabalho na sala de aula. Esses macetes parecem funcionar como elementos que fazem com que a professora fique mais “animada” a desenvolver um trabalho semelhante. Entretanto, parece que este tipo de comportamento não denota uma mudança mais profunda da prática, mas sim uma modificação na forma de trabalhar alguns itens do programa ou introduzir novos materiais didáticos nas aulas, como jogos, jornais, revistas, dentre outros. Dito de outra forma, a matriz pedagógica, a concepção de ensino e de conhecimento permanecem inalteradas, ou seja, nesses casos parece haver algumas mudanças ocasionais em um nível superficial no trabalho das professoras. Esse fato talvez possa ser relacionado à ausência de uma reflexão sobre o “porquê” do sucesso de tais atividades realizadas pelas colegas.

Em outras colocações, algumas professoras relataram situações que demonstram a existência, pelo menos no discurso, de mudanças mais profundas em sua prática pedagógica. As professoras citaram exemplos de trabalho que desenvolveram com os alunos, que são decorrentes de mudanças advindas de sua participação em cursos ou troca de experiências com colegas, nos quais podemos perceber afirmações sobre mudanças de postura diante do trabalho, dos alunos e do próprio conhecimento,  além de uma revisão de seu próprio papel enquanto professora.

Uma experiência interessante foi relatada pela professora Rita. Citando um exemplo de mudança em sua prática, afirmou que no trabalho com “órgãos dos sentidos”, ela iniciou a discussão levando balas para os alunos sentirem o cheiro, o gosto, apalparem, verem as cores da embalagem. A partir de questionamentos  sobre estes diferentes aspectos a professora levou os alunos à compreensão do tema proposto. Segundo a professora, no início de sua carreira, ela chegava na sala de aula e enchia o quadro de anotações ou dava uma ficha sobre o assunto para os alunos. Com a experiência foi observando que é mais produtivo fazer com que os alunos vivenciem mais as situações para alcançarem o conhecimento desejado.

Este depoimento nos leva a levantar a possibilidade de analisar o processo de mudança como rede, ou seja, uma mudança na concepção de ensino pode desencadear mudanças nas formas de trabalho na sala de aula e no relacionamento com os alunos. Por outro lado a mudança em um determinado aspecto da prática - como por exemplo uma nova estratégia de ensino - pode desencadear outras mudanças no relacionamento com os alunos, com o conhecimento e até mesmo na própria postura da professora diante do processo de ensino-aprendizagem.

Essas mudanças na forma de conduzir o trabalho na sala de aula podem  estar relacionadas também com a ênfase que vem sendo dada nos cursos de formação continuada a uma nova concepção de ensino, baseada em uma pedagogia crítica. De acordo com esta tendência, o aluno é considerado sujeito de seu processo de aprendizagem e cabe ao/à professor/a levá-lo a construir seu próprio conhecimento. Segundo as professoras, essa nova visão do aluno é um dos elementos que orientam seu trabalho pedagógico.

A preocupação das professoras em oportunizar aos alunos uma aprendizagem significativa revelou-se de certa forma como um momento de revisão em seu próprio papel como professora. Dito de outro modo, as professoras buscavam organizar situações de ensino que as desafiavam a mudar sua postura como professora, deixando de ser a figura central do processo de ensino-aprendizagem e atuando como uma orientadora dos alunos neste processo. Isso de certa forma revela um compromisso destas profissionais  com o ensino, que muitas vezes não é reconhecido. Geralmente a literatura mostra de forma recorrente análises que apontam os inúmeros problemas enfrentados no ensino público, ressaltando entre estes problemas a questão da má formação e do descompromisso dos/as professores/as com um ensino de qualidade. Analisando os depoimentos das professoras, podemos constatar que este compromisso com a aprendizagem dos alunos demonstra uma situação não muito comum no ensino público, mas que não deve ser desconsiderada. No caso específico da realidade pesquisada, por ser uma cidade pequena onde as pessoas se conhecem mais, podemos levantar a hipótese desta preocupação com o aluno estar relacionada à proximidade que existe entre as professoras e os alunos e, às vezes até às famílias desses alunos. Em alguns casos, as professoras residem no mesmo bairro em que se localiza a escola, o que pode levar a um envolvimento diferenciado marcado por uma certa afetividade que pode fazer com que o empenho da professora seja maior em relação ao processo de ensino. Isto não significa, entretanto, que os resultados alcançados por estas professoras sejam sempre satisfatórios, pois muitos outros fatores perpassam o processo ensino-aprendizagem e o influenciam.

As professoras valorizam também a sua satisfação com seu próprio trabalho, ou seja, para as professoras entrevistadas, é importante que elas possam ver “o fruto de seu trabalho.” Esta satisfação está vinculada também ao contexto em que o trabalho se desenvolve. Para as professoras, o “clima” da escola e a união entre as colegas também influenciam sua decisão de mudar a prática, ou seja, o sentimento de pertencimento ao grupo pode levar a professora a repensar suas posições na escola:

 

“Na própria escola, quando a gente encontra apoio de colegas que também aceitam trabalhar numa nova perspectiva, você se sente mais entusiasmada,  quando uma professora sozinha faz alguma mudança, se der certo, deu, agora se der errado, falam: ‘quem mandou ela mudar?’ A professora fica sendo culpada. Agora quando mais pessoas tentam juntas uma mudança, então já é uma aceitação maior e mais pessoas pensando sobre o assunto. Se ocorrer algum imprevisto no decorrer do trabalho, tem várias pessoas prá analisar e reformular, ver o que não deu certo e repensar o trabalho.” (Eliane)

 

Em relação ao processo de mudanças, outro ponto a considerar é o envolvimento pessoal da professora. Em alguns casos, seu desejo de mudança pode estar vinculado a uma insatisfação com a prática ou ao conhecimento de um trabalho diferente desenvolvido por colegas. Essa é uma situação em que mudar é um desejo pessoal, que partiu de uma necessidade sentida pela própria professora. Entretanto, existem situações em que as professoras são conclamadas a mudar, como por exemplo, nos casos de implementação de uma reforma de ensino para uma escola ou uma rede de ensino, de uma mudança curricular, etc. Nesses casos, a necessidade de mudança é exterior à professora e ela precisa se posicionar frente a tais propostas. Enquanto no primeiro caso o desejo parte da própria professora, no segundo caso é importante que haja afinidade da professora com as propostas apresentadas, pois se a mesma não se sentir comprometida com a proposta, esta dificilmente se efetivará em sua prática.

Nesse sentido, as professoras mencionaram um elemento importante quando se considera a introdução de mudanças na escola: a sua postura anterior em relação à proposta de mudança. Além disso, ressaltaram a necessidade de esclarecimento da proposta a ser implementada, para que a mesma possa ser analisada e colocada em prática:

 

 “Eu acho que a mudança é mais fácil de ocorrer quando a proposta vem com embasamento aprofundado, que dê pro profissional perceber mesmo a essência da mudança. Eu acho que a professora se sente segura. Agora quando é só um conhecimento superficial, ela não consegue mudar, porque falta esclarecimento.” (Eliane)

 

É importante ressaltar que mesmo que seja uma proposta “de fora”, imposta por órgãos externos à escola, ela precisa atingir a pessoa do/a professor/a, pois senão não há mudança significativa. O que pode ocorrer é a alteração de alguns aspectos da prática, como um verniz encobrindo a prática anterior, mas que com o tempo vai se perdendo. Os depoimentos de algumas professoras mostram que, mesmo tendo o desejo de mudar, o apego aos trabalhos já desenvolvidos anteriormente coloca dificuldades quando procuram introduzir mudanças em sua prática.

Analisando as colocações das professoras, podemos perceber que se instala um dilema para a professora no momento em que tenta implementar mudanças mas sente dificuldades em abrir mão de sua prática anterior. A professora Laura, por exemplo, mesmo assegurando que o curso de avaliação mudou sua forma de pensar e de agir, ela afirma que continua “um pouquinho tradicional” misturando em sua prática aspectos dos novos conhecimentos com elementos que já eram comuns no seu dia-a-dia. A sua busca por fazer uma “aula mais divertida” reflete um desejo de mudança, mas ao mesmo tempo mostra também um certo receio de abandonar sua prática antiga. Para a professora Renata, quando as propostas dos cursos não davam certo em sua prática, ela as abandonava e continuava em seu “ritmo antigo”.

As afirmações destas professoras mostram que a mudança deve ser analisada como um processo que ocorre a longo prazo e depende fundamentalmente da reflexão. No momento em que aparecem dificuldades na prática, algumas professoras voltam às suas formas habituais de trabalho, às vezes sem refletir sobre as causas dessas dificuldades. Entretanto, parece que é a partir da reflexão sobre a prática, sobre a necessidade da mudança e sobre os empecilhos encontrados para realizar tais mudanças que a professora pode se mostrar predisposta a realizar concretamente alterações em seu trabalho diário.

O processo de mudanças na prática pedagógica está relacionado ainda aos desafios colocados pelo processo de aprendizagem dos alunos. A tomada de consciência das professoras em relação às necessidades de aprendizagem dos alunos e sua preocupação com a aprendizagem significativa dos mesmos traz indícios de que o compromisso da professora com seu trabalho e a busca por um ensino de qualidade está presente também na escola pública. VASCONCELOS (1998), analisando o processo de reconstrução do trabalho pedagógico em uma escola pública de Belo Horizonte, mostra que o reconhecimento e a valorização dos alunos enquanto sujeitos socioculturais pelas professoras é um dos fatores  que as leva a reorientar sua prática pedagógica para garantir a um ensino eficaz e, conseqüentemente, a permanência desse aluno na escola.

O que se constata também é que, para que uma mudança se concretize efetivamente na prática docente, é necessário que ocorra uma mudança de postura da professora em relação ao seu trabalho, ao aluno e ao conhecimento, que geralmente é desencadeada por uma revisão de seu próprio papel enquanto professora. Através da comparação de sua atuação no início da carreira docente com seu trabalho atual, as professoras mencionaram mudanças ocorridas tanto na forma de ensinar como na forma de se relacionar com seus alunos. Segundo a maioria das professoras, seu trabalho atual pauta-se por uma atitude de “ver mais o aluno, ouvir mais o aluno”, que antes era quase inexistente devido ao modelo introjetado de professora, de aluno e de ensino, que no seu entendimento, está associado ao modelo “tradicional.” Nesse sentido, o que podemos constatar é que, para as professoras, ocorreram mudanças paulatinas em sua prática que se caracterizam,  por um lado, por uma mudança ao nível da prática em sala de aula, no que se refere aos conteúdos trabalhados e à metodologia utilizada. Por outro lado, o que se destaca como resultado tanto da participação em cursos, em outras situações informais de formação, bem como da reflexão sobre a prática pedagógica, é uma mudança de postura  que se evidencia por uma nova percepção do aluno como sujeito do processo ensino-aprendizagem.

Entretanto, podemos observar também que, ao mesmo tempo em que afirmam ter efetivado mudanças significativas em sua prática, algumas professoras se consideram ainda “um pouquinho” tradicionais. Essa afirmação nos remete a pensar na possibilidade de que as mudanças que as professoras afirmam ter introduzido em sua prática podem ter ocorrido a nível do discurso, ou seja, podem ter realizado apenas mudanças superficiais em seu trabalho, sem que haja a percepção desse fato pelas próprias professoras. Esta percepção das professoras sobre o processo de mudanças entretanto tem sua importância, pois mesmo que tais mudanças não tenham chegado a se efetivar realmente na prática, esta percepção aponta para o horizonte pedagógico dessas professoras, dando pistas sobre seu universo conceitual e de valores. Essa análise nos leva a compreender a mudança como um processo lento e gradativo, marcado por idas e vindas. Conforme afirma ENGUITA (1998), a mudança significa alternativas, opções, liberdade, mas, também incerteza e insegurança.” (p. 25).

De modo geral, de acordo com as professoras, as mudanças que introduziram em sua prática foram marcadas por um série de conflitos. Segundo elas, avanços e recuos permearam esse processo. Vários aspectos, a maioria deles relacionados à inserção do trabalho docente no contexto mais amplo da escola e da sociedade, no qual diferentes tipos de problemas tendem a reduzir a sua autonomia em relação a esta prática, causaram resistência às mudanças. É este aspecto que será discutido a seguir.

 

2. Mudança e resistência à mudança

 

Analisando a prática pedagógica, SACRISTÁN (1992), afirma que existe no discurso pedagógico uma “hiper-responsabilização dos/as professores/as em relação à prática pedagógica e à qualidade do ensino” (p. 64),  fato que reflete um sistema escolar que tem como central a figura do/a professor/a na condução dos processos institucionalizados de educação. Entretanto, para este autor, essa excessiva dependência da prática em relação ao/à professor/a na verdade contribui para a construção de uma imagem exigente do perfil deste profissional, o que não corresponde à percepção do professorado como categoria. Nesse sentido,  mostra que “a prática tem que ver com os professores, mas não depende unicamente deles.” (p. 64)

Considerando esta posição, podemos analisar sobre um novo prisma a questão da resistência dos/as professores/as à mudanças em sua prática. O que observamos geralmente é que, na maioria das vezes, são eles/as considerados como únicos responsáveis pelo direcionamento dado à sua prática, desconsiderando-se os variados elementos que interferem em suas decisões relativas ao trabalho pedagógico.

SACRISTÁN (1992), citando POPKEWITZ (1986), ressalta que o conhecimento da prática pedagógica e a possibilidade de modificá-la implica o entendimento das interações entre três níveis ou contextos diferentes, quais sejam: o contexto propriamente pedagógico, que é vulgarmente chamado de prática; o contexto profissional dos/as professores/as,  que os leva a produzir um modelo de comportamento profissional e o contexto sociocultural que proporciona valores e conteúdos importantes (p. 65). Neste sentido, podemos afirmar que a prática pedagógica efetivada em sala de aula não ocorre independente dos contextos em que se insere, os quais exercem influências sobre as ações dos/as professores/as.

A influência da cultura da escola na prática dos/as professores/as pode ser  percebida nos depoimentos das professoras Eliane e Laura. A primeira, ao ingressar na escola B sentiu-se indecisa sobre as formas que poderia adotar para realizar seu trabalho e por isso optou por agir em conformidade com as práticas já vigentes na escola. A professora Laura também procura agir de acordo com o ambiente escolar:

Analisando a situação de mudanças na prática pedagógica, o autor mostra que a autonomia dos/as professores/as existe dentro de regras definidas que os obriga a acomodações às situações reais concretas. Sendo assim, torna-se necessário transformar as condições de trabalho quando se pretende mudar a prática docente.

Nesse sentido, o conhecimento das condições reais de trabalho dos/as professores/as é essencial para se compreender os desafios colocados pelo processo de mudanças na prática, pois o trabalho dos/as professores/as está intimamente relacionado às condições concretas em que este se realiza e às posturas adotadas pelas escolas nas quais desenvolvem seu trabalho.

O “clima” da escola também foi mencionado como um dos fatores que pode influenciar a professora a introduzir mudanças na prática ou, ao contrário, deixar de introduzi-las por receio das posturas das colegas ou da direção da escola. Nessas colocações, as professoras sempre pautam suas análises por comparações entre a escola na qual trabalham atualmente e as outras em que já atuaram:

 

“Nas outras escolas, eu tive muitas dificuldades, porque às vezes uma professora tentava trabalhar de um jeito, outras tentavam de outro, eu tive dificuldade de entrosamento”. (Ana - Escola A)

 

“Já vi vários professores reclamando sobre isso, queriam promover alguma mudança e eram puxados para trás”. ( Márcia - Escola C)

 

Segundo as professoras entrevistadas, são muitos os obstáculos que encontram quando querem realizar mudanças em seu trabalho na escola. Em alguns casos, a tentativa de romper com determinadas práticas vigentes na escola esbarra em limitações impostas pelas regulações institucionais:

 

“A escola tem essa posição de querer manter o que era, mais por medo da tentativa do novo, de mudar... porque aí muda na estrutura da escola toda. A escola tem essa postura conservadora por isso. Então assim... não põe obstáculo prá você fazer mudanças, mas só que você também não recebe apoio, então você fica desenvolvendo e se alguma outra colega sua aderir aí fica mais fácil de trocar idéias, mas se ninguém aderir, você tenta sozinha. Aí você pode encontrar alguma dificuldade e não ter ninguém a quem recorrer.” (Eliane - Escola B)

 

Podemos observar por esses depoimentos que muitas vezes o interesse da professora em introduzir alguma mudança em sua sala de aula não encontra apoio ou respaldo na escola. Geralmente, no interior da escola se assume uma atitude de, como vimos nos relatos de Rita e Eliane, culpabilizar o/a professor/a pelos atropelos que porventura surgirem em um processo de mudança na prática. Dessa forma, o que se observa é que a  escola, enquanto instituição, pode desencorajar atitudes inovadoras por parte das professoras mais propensas à mudança.

Outro fator que se destaca é a importância atribuída pelas professoras ao trabalho coletivo quando se referem às mudanças na prática.  A relevância deste tipo de trabalho é ressaltada por elas quando mencionam as trocas de experiências com colegas, as discussões sobre os problemas e dificuldades que enfrentam ao tentar mudar sua prática. Segundo as professoras, o trabalho coletivo na escola funciona com um ponto de apoio para que possam introduzir mudanças com mais segurança.

De acordo com SACRISTÁN (1992), a atuação profissional dos/as professores/as pode se caracterizar tanto pela adaptação às condições e requisitos impostos pelo contexto quanto por uma posição crítica pautada pela capacidade de estabelecer estratégias inteligentes de intervenção neste contexto. No caso das professoras entrevistadas, o que pode ser observado é que seu trabalho é conduzido ora pela adaptação às práticas correntes na escola, ora por tentativas de propor alterações neste contexto.

Relacionando os contextos da prática pedagógica com a questão da mudança, SACRISTÁN (1992) ressalta que a mudança e a inovação são fenômenos complexos e neste sentido indica pistas para a formação continuada:

 

“A formação contínua de professores deve por em causa as bases da profissionalidade docente, não limitando-se a uma reciclagem a nível dos conteúdos ou das destrezas. (...) a mudança pedagógica e o aperfeiçoamento dos professores devem ser entendidos no quadro de desenvolvimento pessoal e profissional.” (p. 76)

 

Para o autor, a mudança em educação não depende diretamente do conhecimento, uma vez que a prática é histórica e social, construindo-se não apenas a partir do conhecimento científico. Sendo assim, as mudanças educativas, entendidas como transformações ao nível das idéias e práticas  não são lineares nem repentinas. Isso porque toda prática educativa parte de um conhecimento anterior e qualquer tentativa de mudança apanha o processo “em andamento”. Nesse sentido, ressalta que ações e programas de formação têm que incidir nos contextos em que a prática se desenvolve, em que são produzidas as determinações para as iniciativas dos/as professores/as.

Ao lado dos fatores atribuídos à escola, observa-se também fatores atribuídos aos/às professores/as quando se analisa a questão da introdução de mudanças na prática docente. O despreparo do/a professor/a, a resistência causada pelo receio de introduzir mudanças na prática e não obter os resultados esperados, bem como a preocupação com a aceitação dos pais também foram apontados pelas professoras como obstáculos à introdução de mudanças na escola.

A questão da resistência à mudança é discutida também por NÓVOA (1995). De acordo com este autor, os/as professores/as podem tornar-se resistentes à mudança devido ao seu apego a práticas que funcionaram com sucesso anteriormente em sua trajetória profissional.

 

“Há aqui um efeito  rigidez que, num certo sentido,  torna os professores indisponíveis para a mudança. E é verdade que os profissionais do ensino são por vezes muito rígidos, manifestando uma grande dificuldade em abandonar certas práticas, nomeadamente as que foram empregues com sucesso em momentos difíceis de sua vida  profissional.”  (p. 17)

 

As análises de PERRENOUD (1993) sobre a prática pedagógica e seu caráter muitas vezes marcado por situações de improvisos, mostram que o/a professor/a sempre se defronta com momentos diversos em que é necessário tomar uma série de “micro decisões”  de diversas naturezas, quase sem refletir sobre elas. Isso segundo o autor, não quer dizer que estas decisões são tomadas ao acaso, mas que às vezes obedecem a certas condutas de ação.

Para PERRENOUD (1993), não basta uma vontade pessoal do/a professor/a para realizar mudanças em sua prática. Baseando-se em BOURDIEU, este autor afirma que é necessário que seja feita também uma intervenção nos contextos onde o trabalho pedagógico se desenvolve, ou seja, é necessário que haja uma transformação das condições objetivas do ensino.

Retomando os estudos de SACRISTÁN (1992) e PERRENOUD (1993), podemos relacionar o processo de mudança tanto aos desafios que representa para os/as professores/as em relação a modificações em  seu habitus, quanto aos aspectos que caracterizam a escola, que como instituição tem a tendência de manutenção de regras e normas, que tendem a dificultar ou impedir mudanças em seu contexto. Como bem salienta PERRENOUD, (1992) as mudanças na prática estão vinculadas também a mudanças nos contextos mais amplos onde esta se realiza:

 

“A criação de escolas numa atmosfera aberta, de um trabalho em equipes pedagógicas, de uma maior abertura entre as turmas, de um modo de gestão dos estabelecimentos, de estratégias de participação dos pais, de uma transformação do sistema de avaliação, conduziriam, seguramente, mais a transformações das práticas de ensino do que qualquer tentativa de influenciar planos e esquemas de ação dos professores.” (p. 43)

 

Esta análise desloca a ênfase dos aspectos centrados nos/as professores/as e na organização do trabalho docente para as relações que se estabelecem no contexto escolar. Nesta direção apontam também estudos de NÓVOA (1992). Para este autor,

 

“A formação de professores deve ser concebida como uma das componentes da mudança, em conexão estreita com outros setores e áreas de intervenção, e não como uma espécie de condição prévia da mudança. A formação não se faz antes da mudança, faz-se durante, produz-se nesse esforço de inovação e de procura dos melhores percursos para a transformação da escola.” (p. 28, grifos do autor)

 

Nesse sentido, argumenta sobre a necessidade de transformação das organizações escolares:

“A mudança educacional depende dos professores e de sua formação. Depende também da transformação das práticas pedagógicas na sala de aula. Mas hoje em dia nenhuma inovação pode passar ao lado de uma mudança ao nível das organizações escolares e do seu funcionamento. Por isso, falar de formação de professores é falar de um investimento educativo dos projetos da escola.” (p. 29)

 

Para PERRENOUD (1993) é necessário que a formação de professores/as, tendo por objetivo favorecer mudanças na prática, consiga manter uma posição de equilíbrio entre o realismo conservador e o otimismo ingênuo, procurando desta forma uma distância ideal entre a formação e as condições efetivas da prática (p. 101-102, grifos do autor). No seu entendimento, se esta distância for muito pequena, a formação contribuirá para a reprodução das injustiças do sistema. Se for muito grande, esses efeitos tendem a se agravar, ocasionando sentimentos de insucesso que poderiam acarretar o abandono da profissão docente.

 

Considerações finais

 

O processo de mudanças na prática docente revelou-se complexo. A pesquisa evidenciou que este é um processo longo e sua efetivação na prática demanda tempo e reflexão. Para as professoras entrevistadas, os principais fatores desencadeantes de mudanças na prática estão vinculados aos desafios colocados pela própria prática, que se relacionam com a necessidade de possibilitar ao aluno uma aprendizagem significativa, bem como ao apoio da instituição escolar às mudanças. A preocupação das professoras em oportunizar aos alunos uma aprendizagem significativa revelou-se de certa forma como um momento de revisão em seu próprio papel como professora. Dito de outro modo, as professoras buscavam organizar situações de ensino que as desafiavam a mudar sua postura como professora, deixando de ser a figura central do processo de ensino-aprendizagem e atuando como uma orientadora dos alunos neste processo.

Para as professoras, ao lado de mudanças ao nível de sua prática em sala de aula, no que se refere aos conteúdos trabalhados e à metodologia utilizada, destaca-se, ao longo de sua trajetória profissional, uma mudança de postura em relação ao trabalho docente. Podemos destacar aqui a possibilidade de analisar o processo de mudança como rede, ou seja, uma mudança na concepção de ensino pode desencadear mudanças nas formas de trabalho na sala de aula e no relacionamento com os alunos. Por outro lado a mudança em um determinado aspecto da prática - como por exemplo uma nova estratégia de ensino - pode desencadear outras mudanças no relacionamento com os alunos, com o conhecimento e até mesmo na própria postura da professora diante do processo de ensino-aprendizagem.

De acordo com as professoras, as mudanças foram marcadas por um processo de avanços e recuos, podendo ocorrer tanto o retorno à práticas já cristalizadas de ensino, como também o desenvolvimento de novas formas de trabalho. Os dados evidenciaram portanto que apesar de afirmarem terem adquirido uma série de conhecimentos nas diferentes atividades de formação continuada das quais participaram em sua trajetória profissional, (nova postura em relação ao aluno, novas formas de organizar o trabalho em sala de aula, novas práticas), nem sempre esses conhecimentos garantiram a permanência de mudanças efetivas em suas práticas, pois vários elementos -  limitações da instituição escolar, resistência ao novo, apego a práticas anteriores e ausência de recursos materiais na escola - a maioria deles relacionados a inserção trabalho docente no contexto mais amplo da escola, tendem a reduzir a autonomia didática das professoras, colocando obstáculos à introdução de mudanças.

Em síntese, a pesquisa possibilitou-me constatar que a influência das diferentes ações de formação continuada na prática docente é limitada por diferentes fatores: (1) características pessoais das professoras, que envolvem o fato de serem propensas ou não à mudanças e de apresentarem afinidades com as mudanças propostas pelas diferentes ações de formação; (2) características da escola, que envolvem questões relacionadas às limitações próprias de uma instituição marcada por uma homogeneidade nas regras de funcionamento caracterizada pela tendência de manutenção de certas regulações institucionais, que podem acenar ou não com possibilidades de abertura para mudanças em seu contexto e (3) características da forma de organização dos cursos de formação continuada, que sendo na maioria das vezes organizados dentro do padrão escolar, têm dificultado a articulação entre o saber construído pela professora em sua prática e o conhecimento acadêmico.

A pesquisa possibilitou constatar portanto, a importância da formação continuada, mas também os limites da mesma, pois os dados da pesquisa levam a uma reflexão que mostra a complexidade do processo de mudança da prática,  uma vez que tal processo é orientado por razões de diferentes naturezas. Constatamos que os conhecimentos construídos e/ou apropriados pelas professoras nas diferentes atividades de formação continuada das quais participaram em sua trajetória profissional, nem sempre resultaram em mudanças efetivas em suas práticas.

Pode-se constatar, portanto, que o processo de mudança na prática das professoras entrevistadas caracterizou-se por avanços e retrocessos, sendo permeado por impasses, angústias e desejos que se revelaram em vários momentos nos quais se envolveram em tentativas de modificar sua prática. Constatamos também que o desejo de mudança por parte da professora é condição importante,  mas não suficiente para que esta realmente se efetive em sua prática. Como vimos, vários fatores contribuem para limitar sua autonomia, dentre estes as condições concretas da escola e as relações que aí se estabelecem. Nesse sentido, podemos constatar que o processo de mudanças na prática pedagógica está relacionado ao processo de formação de professores/as e que estas mudanças para se efetivarem devem ser pensadas em um contexto mais amplo, considerando-se a inserção dos/as professores/as nas escolas e destas no contexto social.

 

 

 Referências Bibliográficas

 

 

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SACRISTÁN, José Gimeno. Consciência e ação sobre a prática como libertação profissional dos professores. In: NÓVOA, António (org.). Profissão Professor. Lisboa: Porto Editora, 1992. p. 63-91.

 

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VASCONCELOS, Renata Nunes. A construção e reconstrução do trabalho pedagógico de uma escola fundamental: um estudo de caso. Belo Horizonte: Faculdade de Educação da UFMG, 1998. 173 p. (Dissertação, Mestrado em  Educação)



[1] Mestre em Educação pela FaE/UFMG e Pedagoga da ETFOP (Escola Técnica Federal de Ouro Preto-MG).

[2] Dissertação de Mestrado defendida em junho de 1999, na Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

[3] Os nomes das professoras e das escolas são fictícios.