ANÁLISE DOS REFLEXOS DA
IMPLEMENTAÇÃO DAS DIRETRIZES CURRICULARES NOS CURSOS DE LICENCIATURA DA UFV
I- INTRODUÇÃO
Os cursos de Licenciatura da Universidade Federal de Viçosa (UFV) têm
enfrentado problemas semelhantes àqueles das demais Instituições de Ensino do
país, dentre outros: dicotomia entre disciplinas de conteúdo específico e
pedagógicas; entre Licenciatura e Bacharelado; desarticulação da formação
acadêmica com a realidade prática. CARVALHO E VIANNA (1988) consideram que, dentre os
problemas da Licenciatura, “o primeiro é de institutos de conteúdos específicos
e faculdades de Educação não assumirem a co-responsabilidade nas Estruturas
Curriculares” que, somado a outros, acarretam a fragmentação dos cursos de
formação de professores.
Há consenso entre diversos autores sobre a precária e insatisfatória situação dos cursos de Licenciaturas de uma maneira geral. Os problemas hoje discutidos não são muito diferentes daqueles que já se discutiam quando da criação destes cursos. Soma-se a isto a desvalorização e o desprestígio social do trabalho docente no ensino Fundamental e Médio. Conforme KUENZER (1998), tal realidade leva à uma visão simplista desta formação, onde “qualquer um pode ser professor”, mesmo desconhecendo o campo pedagógico.
Agravando este quadro, há desvalorização das Licenciaturas também por parte do corpo docente destes cursos. Neste sentido, CARVALHO E VIANNA (1988) afirmam que os cursos de Bacharelado são os mais disputados pelo corpo docente, são considerados de elite, onde estão os alunos com “melhor formação” e que obviamente darão melhores frutos. Em contrapartida, a Licenciatura é tida como curso desprezado, com alunos de “pior formação, aqueles que não têm “queda” para a pesquisa, ou até mesmo, “aqueles que não querem nada”.
Recentemente, OLIVEIRA &
MAFFIA (1999) realizaram um estudo diagnóstico na UFV para levantar os limites
das Licenciaturas, que se resumem em: dicotomia entre teoria e prática, tanto
das disciplinas de conteúdo quanto das pedagógicas; excesso de conteúdo teórico
das disciplinas pedagógicas e falta de integração entre os departamentos de
origem do Licenciando e o de Educação. Os dados destes estudos subsidiaram na
UFV a implementação das Diretrizes Curriculares que incluem as 300 horas de
Prática de Ensino, buscando valorizar o magistério e constituir o elemento
articulador entre a formação teórica e a prática pedagógica.
Visando a melhoria de seus cursos formadores de professores, o Departamento de Educação da UFV (DPE) e aqueles que oferecem Licenciatura montaram e implementaram um Projeto Pedagógico, baseando-se no “Documento Norteador Para a Elaboração das Diretrizes Curriculares Para os Cursos de Formação de Professores”, relativo à Lei de Diretrizes e Bases (LDB) nº 9394/96. O artigo 65 da referida Lei estabelece que “a formação do docente, exceto para a educação superior, incluirá a Prática de Ensino de, no mínimo, 300 horas”.
Seria simplista não
relativisar a importância e a confiança que se depositam nas reformas
curriculares, como forma de solucionar os problemas da Licenciatura. Torna-se
necessário, portanto, avaliar tais propostas curriculares.
Portanto, neste estudo, buscamos responder
questões como: Qual a compatibilidade entre as Diretrizes Curriculares e a
proposta da UFV? Que modificações reais ocorreram no currículo e na grade
curricular destes cursos? Quais os reflexos destas alterações na dinâmica dos
cursos envolvidos? Quais as percepções dos administradores, coordenadores,
professores e estudantes?
II-
OBJETIVOS
Buscando avaliar os avanços e limites desta proposta de implementação das Diretrizes Curriculares para as Licenciaturas, este estudo objetivou analisar os reflexos da implementação das Diretrizes Curriculares nos cursos de Licenciaturas da UFV, mais especificamente:
·
Comparar a proposta da UFV àquela sugerida no Documento
Norteador, centrando-se nas disciplinas oferecidas pelo DPE;
·
Levantar as mudanças ocorridas nas grades curriculares
das Licenciaturas dos cursos de Ciências Biológicas, Física, Química e
Matemática;
·
Verificar
a compatibilidade entre as Diretrizes Curriculares e a proposta local;
·
Analisar
os reflexos destas alterações na dinâmica dos cursos envolvidos, identificando
as percepções dos administradores, dos coordenadores, dos professores e dos
estudantes;
III-
METODOLOGIA
Este estudo assumiu um caráter analítico descritivo e foi desenvolvido sob os parâmetros de uma metodologia qualitativa de pesquisa. Conforme Bodgan e Biklen, citados por LÜDKE E ANDRÉ (1986),
“esse tipo de pesquisa envolve a obtenção de dados descritivos, obtidos no contato direto do pesquisador com a situação estudada, enfatiza mais o processo que o produto e se preocupa em retratar a perspectiva dos participantes.”
Os sujeitos centrais desta pesquisa foram: a – Presidente da Comissão de Reformulação do DPE; b - quatro coordenadores dos cursos de Licenciatura em Química, Matemática, Ciências Biológicas e Física; c – dez professores que ministram disciplinas para as referidas Licenciaturas; d – Pró-reitor de Ensino.
Utilizamos, ao longo do
trabalho, duas estratégias metodológicas básicas: Entrevista e Análise
Documental.
A Análise
Documental foi destinada a verificar a compatibilidade entre as Diretrizes
Curriculares e a Proposta da UFV, bem como comparar a Grade Curricular vigente
com a nova proposta que inclui as 300 horas de Prática de Ensino.
Para detectar o reflexo das alterações das Diretrizes Curriculares na comunidade universitária foram realizadas entrevistas: ao Presidente da Comissão de Reformulação do DPE, aos professores das disciplinas pedagógicas oferecidas para as licenciaturas dos cursos de Química, Matemática, Física e Ciências Biológicas; aos professores de Prática de Ensino e Estágio Supervisionado; aos professores das disciplinas de Instrumentação de Ensino; aos coordenadores dos referidos cursos e ao Pró- Reitor de Ensino.
4.1. Das disciplinas pedagógicas
Este estudo limitou-se a analisar o currículo dos cursos de Licenciatura em Ciências Biológicas, Física, Matemática e Química. Para fazer uma análise comparativa da grade curricular das disciplinas oferecidas pelo DPE às Licenciaturas antes e após as mudanças curriculares, tivemos inicialmente que consultar o Catálogo de Graduação da UFV e compará-lo à nova proposta. A tabela 1 nos mostra as disciplinas oferecidas pelo DPE às Licenciaturas, de acordo com o catálogo de 2000, comparando-as ao catálogo de 1999.
Podemos perceber que houveram mudanças: em todos os códigos das disciplinas; em cargas horárias; as duas psicologias se fundiram em apenas uma; foi criada a disciplina Educação e Realidade Brasileira.
Tabela 1 - Grade Curricular das disciplinas oferecidas pelo DPE às Licenciaturas - Catálogo 2000 e equivalência ao Catálogo de 1999.
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Disciplinas oferecidas pelo catálogo de 1999 (Equivalência) |
Disciplinas oferecidas pelo catálogo de 2000 |
Dosagem: Número de créditos, aulas teóricas e práticas |
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EDU 153 – Didática |
EDU 155 – Didática III |
4 (4-0) |
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EDU 114 – Psicologia da Educação IV |
EDU 117 – Psicologia do Desenvolvimento e da Aprendizagem |
4 (4-0) |
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EDU 115 – Psicologia da Educação V |
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EDU 141 – Estrutura e Funcionamento do Ensino de 1o e 2o graus |
EDU 144 – Estrutura e Funcionamento do Ensino Fundamental e Médio |
4 (4-0) |
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EDU 133 – Educação e Realidade Brasileira |
3 (3-0) |
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EDU 370 - Prática de Ensino de Ciências Físicas e Biológicas na Escola de 1o grau – Estágio Supervisionado |
EDU 390 – Práticas de Ensino de Ciências e Biologia no Ensino Fundamental e Médio |
4 (2-6) |
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EDU 371 - Prática de Ensino de Biologia na Escola de 2o grau – Estágio Supervisionado |
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|
EDU 372 - Prática de Ensino de Física na Escola de 2o grau – Estágio Supervisionado |
EDU 392 – Prática de Ensino de Física no Ensino Médio |
4 (2-6) |
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EDU 373 – Prática de Ensino de Matemática na Escola de 1o e 2o graus – Estágio Supervisionado |
EDU 393 – Prática de Ensino de Matemática no Ensino Fundamental e Médio |
4 (2-6) |
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EDU 374 – Prática de Ensino de Química na Escola de 2o grau – Estágio Supervisionado |
EDU 391 – Prática de Ensino de Química no Ensino Médio |
4 (2-6) |
Pela análise do Documento Norteador Para a Elaboração das Diretrizes Curriculares Para os Cursos de Formação de Professores e do Projeto de Implementação das 300 horas de Práticas de Ensino das Licenciaturas – UFV, verificamos que obtivemos ganhos na Grade Curricular estabelecida.
Inicialmente, em relação à tentativa de superar a dicotomia teoria/prática das disciplinas pedagógicas, foram acrescentadas às disciplinas de Psicologia do Desenvolvimento e da Aprendizagem (EDU 117), Didática III (EDU 155) e Estrutura e Funcionamento do Ensino Fundamental e Médio (EDU 144), 30 horas de prática à cada uma.
Todavia, por questões de forma e transição de grade, houve um desmembramento da teoria e da prática das referidas disciplinas, criando-se outras disciplinas onde a prática é trabalhada separadamente. São estas: EDU 410 – Prática em Psicologia do Desenvolvimento e da Aprendizagem, EDU 440 – Prática em Estrutura e Funcionamento do Ensino Fundamental e Médio e EDU 450 – Prática em Didática III. A proposta de sistema “co-co”, ou seja, para matricular-se em uma teórica o aluno teria que matricular-se em uma prática, em um sistema de co-requisito, foi criticada e não se permitiu que tal sistema se implantasse.
O desmembramento da disciplina em teórica e prática auxiliou no processo de transição de grade, porque muitos alunos que precisariam matricular-se somente nas teóricas, ou somente nas práticas, por já terem cursado as teóricas na antiga grade, poderiam cursá-las de acordo com as suas necessidades. Assim, evitou-se o inchaço nas disciplinas . Conforme afirmou o Presidente da Comissão de Reformulação do DPE, "Casar a teoria e a prática depende do aluno, pois cursar as teóricas primeiramente e as práticas depois pode ser uma retomada do aprendizado anterior”.
Foram realizados diversos estudos infrutíferos para evitar a separação das práticas e teóricas. Todavia, pelas questões acima citadas, o que poderia ter se tornado um ganho acabou por limitar a proposta, pelo menos até o momento.
Outro avanço diz respeito aos conteúdos formativos relacionados a saberes pedagógicos mais amplos, que eram superficialmente abordados na grade anterior à reformulação. Para preencher este espaço, foi criada a disciplina “Educação e Realidade Brasileira” - EDU 133 - que trabalha questões relativas à Filosofia, Sociologia e História da Educação.
4.1.2 - Limites
Os limites desta mudança curricular, de acordo com o Presidente da Comissão de Reformulação do DPE, iniciaram-se no próprio DPE. Houve resistência por parte de alguns professores a respeito da implementação das 300 horas de Prática de Ensino. Estes alegaram que seria inviável, pois: “o aluno não cumpriria a carga horária”; “não haveria espaço/estrutura para o cumprimento das 300 horas” e “não teriam disponibilidade e tempo para acompanhamento aos alunos nas aulas práticas”
Em relação à Proposta do DPE, comparada ao Documento Norteador, observamos:.1- ausência do item “perfil profissional dos professores” que discriminaria os aspectos mais filosóficos desta formação. Isto nos sugere que as discussões interdepartamentais talvez tenham sido insuficientes e mais centradas no aspecto de Grade Curricular para atender às 300 horas; 2- ausência do documento onde firmariam convênio UFV e escolas de ensino Fundamental e Médio; 3- ainda por construir, uma Proposta de Trabalho de Conclusão de Curso; 4- divisão entre teoria e prática proposta em três disciplinas, cujo objetivo foi criar facilidade operacional de transição de grade.
Para análise dos reflexos da Implementação da Reformulação Curricular e
para verificar a dinâmica da prática das disciplinas pedagógicas, entrevistamos
os professores.
Atualmente, as disciplinas pedagógicas ministradas pelo Departamento de
Educação para os cursos de Licenciatura são: EDU 155 – Didática III; EDU 117 –
Psicologia do Desenvolvimento e da Aprendizagem; EDU 144 – Estrutura e
Funcionamento do Ensino Fundamental e Médio; EDU 390 – Prática de Ensino de
Ciências e Biologia no Ensino Fundamental e Médio; EDU 391 – Prática de Ensino
de Química no Ensino Médio; EDU 392 – Prática de Ensino de Física no Ensino
Médio; EDU 393 – Prática de Ensino de Matemática no Ensino Fundamental e Médio
e EDU 133 – Educação e Realidade
Brasileira.
Em relação às mudanças ocorridas nas disciplinas pedagógicas, um dos
problemas mais enfatizados e discutidos pelos professores foi a desvinculação
das partes teóricas e práticas destas.
De acordo com VÁSQUEZ (1977), “deve-se falar da unidade entre teoria e
prática e, nesse âmbito, da autonomia e dependência de uma com relação à
outra”.
Para a professora da disciplina Didática III, a prática desvinculada da
teórica foi uma questão burocrática. Na sua visão, o ideal seria a implantação
do sistema “co-co”, ou seja, matricular-se na teórica e na prática como
co-requisito.
A professora de Psicologia do Desenvolvimento e da Aprendizagem afirma
que disciplinas juntas ou separadas não são problemas de ordem pedagógica ou
cognitiva apenas, não podendo ser consideradas como uma prática
individualizada. A teórica e a prática deveriam ser ministradas juntas, de
forma articulada, na mesma disciplina. Levantou pontos como: 1- questão dos
pré-requisitos, pois ministradas separadamente houveram alguns conflitos; 2-
questões de ordem administrativa, pois na atual disciplina, alunos sem
embasamento teórico para cursar a prática foram matriculados juntamente com
alunos com embasamento, ou seja, aqueles que já cursaram a disciplina na grade
antiga, causando problemas de adaptação. 3- os alunos que cursaram a disciplina
teórica separadamente já possuem um domínio conceitual, possibilitando
inserir-se na prática com uma bagagem de conhecimento maior. Do contrário,
estes inserem-se na prática prematuros conceitualmente; 4- o aluno tem pouca
vivência no cotidiano, no campo escolar; não exercita e não vivencia os
problemas da escola. Acrescenta, ainda, que houve ausência de interlocução
entre os departamentos de formação específica e o de Educação durante a
reformulação curricular. Para ela, a prioridade da articulação teoria/prática
não é somente na disciplina, mas sim na formação deste profissional. TANCREDI
(1995), citado por PEREIRA (1996), ressalta que “a relação teoria e prática não
é vivida como diferentes dimensões de um mesmo saber, o saber docente”. A
referida professora acredita que a reformulação englobou uma comunicação apenas
no campo formal, um compromisso institucional por parte dos reformuladores e
não na crença de uma real mudança. Quanto a isto, VÁSQUEZ (1977) afirma que “a
teoria , em si, não é prática, isto é, não se realiza, não se plasma, não
produz mudança real. Para produzir tal mudança não basta desenvolver uma
atividade teórica, é preciso atuar praticamente”.
O descaso das Universidades com as Licenciaturas é antiga. ALVARENGA
(1991) e LÜDKE (1994) afirmam que a Universidade não tem assumido a formação de
professores como uma de suas tarefas centrais, mas sim como um lugar bastante
secundário.
Na opinião do professor de Estrutura e Funcionamento do Ensino
Fundamental e Médio, a separação das disciplinas teórica e prática foi uma
inexperiência por parte dos reformuladores. Essa desarticulação em duas
disciplinas não funcionou, e teve que se trabalhar com o concreto e não com o
que foi realmente proposto na reformulação curricular. Para ele, houve uma
falsa interpretação do artigo 65 da lei 9394/96, pois as 300 horas de Prática
de Ensino deveriam ser um estágio orientado durante todo o curso, não sendo
este associado a uma disciplina. De acordo com o Documento Norteador para
Elaboração das Diretrizes Curriculares para os Cursos de Formação de
Professores, a reformulação curricular “deveria assegurar um tempo de
permanência dos graduandos nas escolas do sistema de ensino equivalente a 25%
do tempo total do curso”, não especificando portanto se este deveria
estruturar-se em disciplinas ou em estágios durante o curso.
Os professores pontuaram as consequências oriundas da desvinculação entre
disciplinas teóricas e práticas e os demais problemas de adaptação da
implementação da reformulação curricular. Consideraram, porém, que estes são
característicos do período de transição, podendo ser superados a partir dos
próximos períodos.
Com relação às dificuldades para realizar as práticas, os docentes
pontuaram que: 1- alunos fazem a prática das disciplinas com um domínio
conceitual bastante restrito, quando cursam a teórica e prática
simultaneamente; 2- alunos que fizeram uma disciplina teórica na grade antiga e
que terão que fazer a atual para equivalência, reclamam que os conteúdos são
repetitivos; 3- A turma é muito heterogênea; 4- falta infra-estrutura para o
“estágio”. Há uma necessidade de maior integração entre Escola, suas
necessidades e desafios, e as possibilidades de intervenção dos professores e
alunos frente a estas problemáticas e de se criar espaços institucionais que
viabilizem a articulação teoria/prática; 5- ausência de transporte para os alunos
para a realização das Práticas de Ensino; 6- quanto às instituições dentro da
Universidade que poderiam oferecer seu espaço para a Prática de Ensino, temos,
como exemplo, o COLUNI, que está cobrando dos alunos um seguro, que não é
oferecido pela Universidade.
Ressaltaram também que a inserção no mercado de trabalho é marcada por
dificuldades em decorrência da ausência de prática durante a formação
acadêmica; onde o aluno não tem experiência na escola, não tem vivência do
concreto. Em estudo recente, PEREIRA (1996) verificou que “há pouca integração
entre os sistemas que formam os docentes, as Universidades e os que os
absorvem, as redes de ensino de 1º e 2º graus. Essa desarticulação reflete a
separação entre “teoria” e “prática” existente nos cursos de formação de
professores”.
É de nosso conhecimento que houveram duas reuniões entre o Pró-reitor de
Ensino e professores das escolas de Viçosa para que se firmasse um convênio
entre os dois segmentos. Todavia, estas negociações foram interrompidas e nada
se concretizou.
O professor de EDU 144 acredita que: a) o acadêmico mal preparado, acaba
por formar mal os seus alunos; b) há uma desvinculação entre o conteúdo
específico e a parte pedagógica, pois o aluno não consegue associá-las entre si
e nem à sua prática; c) “a maioria dos alunos que faz Licenciatura optou por
este curso porque não teve competência para fazer um curso melhor, ou seja, um
‘curso nobre’, aquele que dá ao aluno uma satisfação social”. Nesse sentido,
TANCREDI (1995) citado por PEREIRA (1996) afirma que os preconceitos em relação
à atividade de ensino se manifestam “no desinteresse pela formação dos
professores, na suposição da incapacidade intelectual dos licenciandos e na
acomodação a um fazer universitário considerado prioritário (a pesquisa)”.
A professora de Psicologia do Desenvolvimento e da Aprendizagem
fornece-nos uma visão mais ampla a respeito desta problemática. Para ela, houve
ausência de comprometimento político da Universidade referente às Práticas de
Ensino; a relação Universidade/escola,
após a reformulação, ocorre clandestinamente, pois os convênios, de
responsabilidade da Pró-reitoria de Ensino, não foram firmados; para haver
realmente uma mudança, depende de ações concretas de sujeitos que atuem nestas
mudanças, pois estas não se operam somente no papel. De acordo com o documento da
ANFOPE – Associação Nacional pela Formação dos Profissionais da Educação,
"boa parte dos problemas relativos à formação de professores não
está vinculada a grandes proposições teóricas, mas dependem, sim, de medidas
concretas que convertam em realidade a vasta produção teórica no campo
educacional sobre a temática da formação de professores”.
Outro problema não resolvido nesta reformulação é a questão da pesquisa,
que deveria ser incorporada como atividade essencial na formação dos
licenciandos. De acordo com VIANNA (1993), “o professor deverá ser também um
pesquisador assim como todo pesquisador deverá ser um professor”. Para ele, os
alunos de Licenciatura quase não têm “oportunidade de vivenciar o processo de
construção do conhecimento”. Essa afirmativa vem reforçar a forma simplista e
desvalorizada através da qual vem se tratando a questão da pesquisa nas
Licenciaturas. Apesar da valorização da pesquisa pelos profissionais da
educação, verificamos que nenhum dos entrevistados do DPE orienta atualmente
trabalhos de Iniciação Científica com enfoque na Licenciatura.
Podemos concluir, a partir das entrevistas que, apesar da implementação
das 300 horas de Prática de Ensino, ainda não se articulam teoria e prática.
Esta implementação se restringe no campo essencialmente formal. GATTI (1992),
citado por PEREIRA (1996), reforça isto afirmando que “há uma certa inércia nas
Universidades quanto a repensar as licenciaturas”. Nós sugerimos que, devido a
este desânimo, haja favorecimento para a implementação dos Institutos
Superiores de Educação.
Para uma análise da dinâmica das disciplinas pedagógicas de Prática de Ensino oferecidas pelo DPE aos alunos que cursam Licenciatura em Química, Matemática, Física e Ciências Biológicas, entrevistamos seus professores. Tais disciplinas são denominadas: EDU 390 – Práticas de Ensino de Ciências e Biologia no Ensino Fundamental e Médio – Estágio Supervisionado; EDU 391 – Prática de Ensino de Química no Ensino Médio – Estágio Supervisionado; EDU 392 – Prática de Ensino de Física no Ensino Médio – Estágio Supervisionado e EDU 393 – Prática de Ensino de Matemática no Ensino Fundamental e Médio – Estágio Supervisionado.
Apenas no ano de 2000, para transição de grade, foram criadas disciplinas
complementares, formadas por mais 15 horas teóricas e 45 horas práticas, que
foram oferecidas para alunos que já haviam cursado as disciplinas de estágio,
anteriores à reforma, para que pudessem se adequar à nova grade curricular e
complementar as 300 horas. Foram estas: EDU 394 – Prática de Ensino
Complementar de Matemática no Ensino Fundamental e Médio- Estágio
Supervisionado; EDU 395 – Prática de Ensino Complementar de Física no Ensino
Médio – Estágio Supervisionado; EDU 396 – Prática de Ensino Complementar de
Química no Ensino Fundamental e Médio- Estágio Supervisionado.
A professora de EDU 392 não ministrou esta disciplina no 1º semestre por
falta de demanda e não sabe explicar o motivo pelo qual não houveram
matrículas.
A docente da disciplina EDU 393, que contou com 15 alunos matriculados, foi nossa primeira entrevistada.
A parte prática desta disciplina foi desenvolvida no Colégio Universitário (COLUNI) para o Ensino Médio e nas escolas do município para o Ensino Fundamental. Segundo a professora, a disciplina não supre as expectativas dos alunos, pois estes acreditam que, neste curto período de tempo, aprenderão a ministrar aulas. “Cabe a mim a difícil tarefa de complementar as deficiências das disciplinas pedagógicas, e até mesmo as de conteúdos específicos para o Ensino Fundamental e Médio, nas quais o aluno ainda não tem domínio”.
Para isto, a referida professora propõe, para auxiliar no melhor funcionamento da EDU 393, que o Registro Escolar determine como pré-requisito para a mesma, a disciplina Metodologia de Matemática para o Ensino Fundamental e Médio, que forneceria embasamento referente ao ensino de matemática para os alunos. Através desta, o aluno poderia conhecer o “como”, ou seja, a maneira de se ensinar matemática, que é sua maior carência.
Em relação à relevância do trabalho do professor de Prática de Ensino, KRASILCHICK (1988), citado por PEREIRA (1996), “concebe este professor como um ‘construtor de pontes’ entre a teoria e a prática em sua própria matéria, entre a sua disciplina e as pedagógicas, entre a Universidade e as escolas de 1º e 2º graus e, finalmente, com os órgãos normativos do sistema”.
Há pouca seriedade quando se tratam as questões da Educação em nosso país, principalmente em relação à formação de professores. O relato que se segue, da professora de EDU 392, Prática de Ensino de Física para o Ensino Fundamental e Médio, confirma nossas afirmações. Segundo a mesma, na Ata nº 310, aprovada pela Pró-reitoria de Ensino, a Prática de Ensino de Física equivale para a habilitação também em Matemática; e a Prática de Ensino de Matemática equivale também para a habilitação em Física. Essa resolução não seguiu os trâmites devidos na administração da UFV, onde seus mentores alegaram que a reformulação tinha que ser aprovada rapidamente. A professora acredita que essa discussão tem que ser retomada, para impedir que haja uma banalização do ensino, e principalmente, das Licenciaturas. Segundo a mesma, a junção das Práticas de Ensino de Matemática e Física podem promover a volta à formação do professor polivalente, ou seja, o profissional poderá habilitar-se em vários cursos a partir de uma formação básica, que sustenta ambos.
De acordo com PEREIRA (1996), “o fato da Universidade não assumir a responsabilidade, que é sua por natureza, sobre a formação de professores, pode promover o distanciamento entre a Universidade e os sistemas de Ensino Fundamental e Médio, para os quais ela se encarrega de formar professores”.
Com o objetivo de detectarmos as concepções dos coordenadores dos cursos de Física, Ciências Biológicas, Química e Matemática, sobre a compatibilidade entre a Proposta da UFV e as Diretrizes Curriculares, bem como os reflexos desta implementação nestes cursos, utilizamos a entrevista.
Em todos estes cursos, a opção entre Licenciatura e Bacharelado não é realizada no primeiro semestre de ingresso do estudante na UFV. Portanto, não há uma separação entre Licenciatura/Bacharelado no vestibular. Nos cursos de Ciências Biológicas e Física, a opção pela Licenciatura é realizada ao final do 4º período. Já em Química e Matemática, no final do 2º período. Esta última estruturação de grade curricular se aproxima mais da Proposta do Documento Norteador.
Segundo os coordenadores dos cursos de Ciências Biológicas e Química, a Licenciatura, após a reformulação, “passou de um complemento para uma opção”. De acordo com o documento do FÓRUM DAS LICENCIATURAS (1991), “a vivência pedagógica é amalgamada com a conquista de conteúdos desde o início do curso, pois não se transforma um bacharel em licenciado por meio de uma complementação pedagógica estanque e tardia”.
Quanto ao tempo médio para conclusão da Licenciatura, há uma certa padronização: no curso de Química, o tempo mínimo é de 3 anos e meio, em Matemática, Ciências Biológicas e Física, é de 4 anos.
Na Química, se o aluno cursar o Bacharelado antes, concluirá a Licenciatura em mais 1 ano e meio de curso. Se, por outro lado, iniciar pela Licenciatura, concluirá o Bacharelado em mais 1 ano. O tempo mínimo para finalizar as duas habilitações é de 4 anos e meio. Segundo o coordenador deste curso, “incentiva-se o aluno a cursar primeiro a Licenciatura e depois o Bacharelado, o aluno terá o direito garantido de fazer outra habilitação depois de concluir aquela que já cursou”.
Na Matemática, o aluno poderá concluir o Bacharelado e a Licenciatura em 4 anos e meio ou 5 anos, desde que não tenha muita reprovação.
Já em Física, o coordenador do curso não estimou o tempo mínimo para os alunos concluírem as duas habilitações.
No curso de Ciências Biológicas, o aluno que optar pelo Bacharelado antes, concluirá a Licenciatura em mais um ano e meio, ou seja, Ciências - direcionada para o Ensino Fundamental e Biologia – direcionada para o Ensino Médio.
De acordo com os quatro coordenadores, seria precipitado especular se a demanda pela Licenciatura aumentará ou diminuirá após a reformulação, porque esta ainda está acontecendo. Para o coordenador de Física, há expectativa de diminuição da desvalorização das Licenciaturas. Ele afirma, ainda, que antes da reformulação, a Licenciatura era oferecida para o “Bacharel de 2ª classe”, aquele “Bacharel que não deu certo” e que atualmente o curso básico de Física é oferecido para a Licenciatura e Bacharelado, podendo haver maior valorização. Para ele, está havendo uma maior opção pela Licenciatura, independente da reformulação.
A coordenadora do curso de Matemática também acredita que há uma tendência maior do aluno optar pela Licenciatura, e que há incentivo para que ele curse também o Bacharelado. Para ela, “não é dada a devida importância à Licenciatura na UFV”.
Apresentando uma opinião divergente dos demais, o coordenador do curso de Ciências Biológicas tem dúvidas se as mudanças irão beneficiar o aluno, porque os atrativos da Licenciatura diminuíram. Ele teme pela diminuição da demanda, e pontua alguns fatores relevantes: 1- O Bacharelado tem seis opções de habilitação apresentando grande possibilidade de flexibilidade curricular, ao contrário da Licenciatura, que apresenta uma estrutura curricular mais rígida; 2- A Carga horária obrigatória ficou elevada, com um tempo médio de 4 anos; 3- Antes da reformulação, 90% dos alunos cursavam o Bacharelado e Licenciatura e agora terão que optar somente por uma habilitação.
Percebemos, pelas entrevistas realizadas, que a
maior parte dos entrevistados acredita na possibilidade de haver mais
valorização das Licenciaturas frente à reformulação e de uma maior demanda de
alunos desta.
Todos os coordenadores informaram que as mudanças ainda não estavam integralmente consolidadas até o presente momento (realização da Entrevista em maio/2000) e que o Catálogo 2000 – versão provisória – seria reeditado após todas as possíveis modificações.
Outro aspecto analisado foi a diversidade de habilitações as quais o aluno pode cursar. Pudemos constatar que três dos cursos pesquisados oferecem habilitações em mais de uma Licenciatura. No curso de Física, o aluno pode habilitar-se em Ciências, direcionado para o Ensino Fundamental (5a a 8a séries); em Química, direcionado para o Ensino Médio; em Matemática, direcionado para o Ensino Fundamental e Médio.
Em Matemática, além da Licenciatura específica do curso, o aluno poderá licenciar-se para lecionar Física direcionado ao Ensino Médio; em Química direcionado para o Ensino Médio; e em Ciências direcionado para o Ensino Fundamental (5a a 8a séries). A coordenadora do curso informa, ainda, que o aluno poderá cursar o Bacharelado e a Licenciatura, simultaneamente, desde que cumpra as disciplinas obrigatórias e as disciplinas optativas.
Além da Licenciatura em Química, o aluno deste curso poderá habilitar-se também em Física direcionado para o Ensino Médio; em Ciências direcionado ao Ensino Fundamental (5a a 8a séries); em Matemática direcionado para o Ensino Fundamental (5a a 8a séries); podendo os alunos cursar disciplinas simultaneamente.
O curso de Ciências Biológicas constitui a exceção, pois o aluno deste não poderá habilitar-se nas demais Licenciaturas, como Física, Química ou Matemática. Como já afirmamos antes, o aluno deste curso concluirá sua Licenciatura habilitado em Ciências – direcionada para o Ensino Fundamental e Biologia – direcionada para o Ensino Médio. Mais uma vez o curso de Ciências Biológicas diverge da estrutura curricular adotada nos três cursos, o que pode caracterizar-se como uma tentativa de se evitar a banalização das Licenciaturas.
Todos os entrevistados acreditam que houve compatibilidade entre a Proposta da UFV e as Diretrizes Curriculares. Este dado nos aponta que alguns coordenadores desconhecem as deficiências da reforma da UFV, já mencionadas anteriormente, mas que ressaltaremos mais uma vez: ausência de uma proposta de um trabalho final de curso, ausência de investigação em ensino, ausência de convênio com escolas para todas as Práticas de Ensino, onde o professor voltaria à Universidade para uma formação continuada. E principalmente, ainda por ser efetivada, uma maior integração entre os departamentos de origem dos Licenciandos e o Departamento de Educação.
De acordo com o coordenador do curso de Ciências Biológicas, as principais mudanças ocorridas na Licenciatura após a reformulação curricular foram: 1- dilatação da carga horária das disciplinas específicas; 2- "estágio" passou a ter um mínimo de 300 hs (Prática de Ensino); 3- Criação de disciplinas de Instrumentação específicas para as Ciências Biológicas; 4- fusão entre Ciências e Biologia na disciplina EDU 390 - Prática de Ensino de Ciências e Biologia no Ensino Fundamental e Médio – Estágio Supervisionado.
O coordenador do curso de Química ressaltou que houve ampliação das disciplinas optativas, totalizando 600 hs obrigatórias de disciplinas optativas com ênfase pedagógica. Nesse curso inclui-se, com a reformulação, atividades extra-classe, ou seja, a carga horária de congressos, monitorias, encontros, é contabilizada e equivale a uma disciplina optativa.
Para a coordenadora do curso de Matemática, a maior mudança entre o catálogo anterior à reformulação e o atual, é a diferenciação da Licenciatura e Bacharelado, e consequentemente a distinção do perfil destes profissionais. Neste departamento, está sendo montado um Laboratório de Ensino de Matemática, que será direcionado principalmente às Instrumentações.
O coordenador do curso de Física afirma que a maior mudança foi a redução da carga horária obrigatória dos cursos, substituindo-as pelos “Estágios” (Práticas de Ensino), com o objetivo de beneficiar os alunos: 1- na grade curricular, cresceu o leque de optativas. Os alunos têm uma maior flexibilidade curricular, pois podem cursar disciplinas de outros departamentos e têm a possibilidade de direcionar o curso para o campo de conhecimento que escolherem; 2- com menor carga horária obrigatória, há uma maior possibilidade do aluno estudar mais em casa, devido à maior disponibilidade de tempo.
Pudemos perceber que na organização estrutural, para beneficiar o aluno, certos cursos acabam por priorizar o fator quantitativo em contraposição ao qualitativo, podendo ocasionar uma desvalorização dos cursos formadores de professores e até mesmo uma descaracterização dos objetivos propostos na reforma.
Quanto ao papel que as Licenciaturas ocupam na UFV, houve unanimidade em considerar que a reformulação curricular contribuiu para que diminuísse a dicotomia entre Licenciatura e o Bacharelado. Nas palavras do coordenador do curso de Ciências Biológicas, “há uma tendência maior de interação entre Licenciatura/Bacharelado. A Instrumentação tem essa função, de envolvimento maior entre os departamentos”. O coordenador do curso de Física considera que “atualmente não há uma grande dicotomia entre a Licenciatura e o Bacharelado, pois a formação básica é igual”. Na opinião da coordenadora do curso de Matemática, “após a reformulação voltaram a atenção para as Licenciaturas, para a deficiência de pessoal para trabalhar nestas”.
Todos os coordenadores de curso afirmaram que não houve resistências às mudanças por parte dos professores dos departamentos de origem dos licenciandos.
Quanto à implementação das reformas, a coordenadora do curso de Matemática afirma que foi construída uma Tabela de Equivalência para evitar conflitos. Inicialmente, as disciplinas oferecidas pelo Departamento de Educação (DPE) ocasionaram problemas de adaptação, mas estes vêm sendo solucionados. Para ela, o processo de mudança foi marcado por um pouco de confusão, apesar das várias reuniões realizadas entre o DPE e o Departamento de Matemática, e ter havido uma grande comunicação interdepartamental.
Na opinião dos coordenadores dos cursos de Física e Química, apesar de não terem surgido dificuldades em implementar a nova grade, houveram modificações para a transição, mas estas já foram adaptadas.
Já o coordenador do curso de Ciências Biológicas afirma que, por parte dos professores, não houve resistência às mudanças, mas alguns alunos se manifestaram contrários à reformulação, pela necessidade de terem a Licenciatura como complementação. Este fato nos aponta que alguns discentes podem não estar dando a devida valorização à Licenciatura e consideram que esta pode ser apenas mais uma opção de emprego. Segundo LÜDKE (1994), "o aluno que busca os cursos de Licenciatura o faz mais por pressão pela obtenção de um possível emprego imediato em um mercado de trabalho cada vez mais difícil, do que propriamente por uma inclinação especial pelo magistério". Em relação a isto, OLIVEIRA e MAFFIA (1999) verificaram, em seus estudos na UFV, que 47% dos alunos optam pela licenciatura devido à possibilidade de mais uma fonte de emprego.
Três dos cursos envolvidos estabelecem aos alunos Trabalho de Conclusão de Curso. Em Física, uma monografia e um seminário, baseados nos trabalhos desenvolvidos a partir da disciplina EDU 392 – Prática de Ensino de Física para o Ensino Fundamental e Médio ou FIS 399 – Projeto Orientado. Ao final do curso de Ciências Biológicas exige-se uma monografia, não específica em Educação. No curso de matemática, criou-se, após a reformulação, a disciplina MAT 492 – Monografia e Seminário B, oferecida para a Licenciatura e o Bacharelado. Já no curso de Química, não tem um trabalho de conclusão de curso para a Licenciatura, somente as 300 hs de Prática de Ensino.
Os coordenadores dos curso de Química e de Matemática, ao referirem-se aos Estágios Supervisionados, afirmam que estes não vêm sendo desenvolvidos como deveriam. A coordenadora do curso de Matemática afirma que as aulas não estão suprindo as necessidades do curso e as expectativas dos alunos; e que não há um documento que formalize os convênios para a realização desses estágios. De acordo com o coordenador do curso de Química, a previsão é que surjam problemas relativos aos Estágios: 1- a demanda aumentou; 2- o COLUNI não se constitui num colégio de aplicação, ou seja, um Laboratório para as Licenciaturas; 3- a Universidade é dependente da rede pública, escolas de Viçosa e da região; 4- ausência de um documento que formalize os convênios; 5- necessidade de uma maior vinculação entre a Pró-reitoria/DPE/Secretaria da Educação. É importante ressaltar que a palavra “estágio” está sendo utilizada em substituição à Prática de Ensino.
A maioria dos autores educacionais acredita que a pesquisa neste campo não é tão incentivada e valorizada quanto nos outros campos do conhecimento. De acordo com PEREIRA (1996), "quanto maior é o envolvimento da instituição com a pesquisa, menor é a preocupação com a formação de professores".
Em relação às pesquisas relacionadas à educação, verificamos que no curso de Ciências Biológicas, o coordenador tem conhecimento somente de uma pessoa que desenvolve trabalhos de pesquisa relacionado à Licenciatura, mas não é de Iniciação Científica. No departamento de Química, há quatro ou cinco projetos de Iniciação Científica e também existem trabalhos desenvolvidos no Estágio Supervisionado do Bacharelado com o enfoque na Licenciatura. No curso de Matemática, os alunos não estão desenvolvendo trabalhos de Iniciação Científica ligados à educação.
Pudemos perceber, a partir das entrevistas, que a quantidade de projetos de Iniciação Científica relacionados à Licenciatura é irrisório. A importância da associação entre a pesquisa e o ensino é defendida por SOARES (1993), quando esta afirma que “além de uma necessária interação entre produção de conhecimento (pesquisa) e socialização do conhecimento (ensino), é preciso avançar e reconhecer a indissociabilidade entre uma e outra”. TANCREDI (1995), citado por PEREIRA (1996), também manifesta-se sobre a desarticulação entre ensino-pesquisa, afirmando que "no âmbito do ensino, a inquietação que o pesquisador sente e explicita em seu campo de pesquisa esteve ausente das atividades docentes como se professores e pesquisadores fossem pessoas diferentes no exercício de profissões conflituosas".
Parece consenso entre muitos autores que a questão da formação de professores seja considerada uma das vertentes mais relevantes para a melhoria da qualidade de ensino nas escolas. Faz-se necessário, portanto, uma reestruturação dos cursos formadores de professores.
A presente entrevista foi direcionada ao Pró-reitor de Ensino por ter sido este o centralizador de todo o processo de reformulação das Licenciaturas na UFV. O objetivo maior da entrevista foi levantar sua percepção sobre as mudanças ocorridas.
O Pró-reitor de Ensino afirma ter assumido o cargo com o objetivo principal de reformular o currículo dos cursos da UFV. Ele considera que a mudança mais significativa ocorrida em decorrência da reformulação curricular foi a diferenciação entre Bacharelado e Licenciatura, pois antes à reformulação as Licenciaturas eram consideradas como complemento do Bacharelado, como uma segunda opção. Segundo CANDAU (1987) “a ‘desvalorização’ e a ‘descaracterização’ dos profissionais da educação é apontada como eixo central da problemática do magistério como profissão”.
De acordo com o mesmo, houve compatibilidade entre as Diretrizes Curriculares e a Proposta da UFV. Apesar de considerar a mudança significativa, acredita que a Universidade ainda pode avançar em relação à reformulação ocorrida. Nesse sentido, PEREIRA (1996) considera que
“os desafios colocados para a melhoria dos cursos de Licenciatura talvez sejam muito maiores que uma ‘simples’ reforma curricular, mudanças nas ementas, nomes e carga horária das disciplinas ou na concepção de formação de professores que se tem hoje na Universidade”.
As principais mudanças proporcionadas pela reformulação das Licenciaturas, na opinião do Pró-reitor de Ensino, foram as discussões ocorridas no Departamento de Educação (DPE) em relação às disciplinas de “Estágio” (Prática de Ensino), e o fato do aluno ter que optar pela Licenciatura mais no início do curso e não somente nos últimos períodos como ocorria na antiga grade curricular. No entanto, pudemos constatar que, na maioria dos cursos, a opção se dá somente a partir do 4o período de curso.
Parece-nos que os cursos não adotaram na íntegra a proposta do Documento Norteador, que estabelece que “a estrutura curricular deve desdobrar-se, em concomitância e ao longo de todo o curso, em duas dimensões: a formação pedagógica e docente e a da formação específica nos conteúdos disciplinares de cada área do conhecimento”.
Segundo este, não houveram resistências às mudanças, e sim polêmicas e divergências de opiniões e considera que o principal progresso gerado pela reformulação curricular foram as discussões intensas em relação ao currículo durante todo o ano.
Na sua opinião, o fato das demais Licenciaturas serem do período diurno enquanto o curso de Pedagogia e de Letras são oferecidos no período noturno é um agravante que impossibilita o aumento da demanda pelas Licenciaturas. A sua proposta seria de trazer todos os cursos de Licenciatura para o mesmo turno, estabelecendo para as Licenciaturas dos cursos de Ciências Biológicas, Física, Química e Matemática um núcleo comum de disciplinas, onde o aluno optaria por um dos cursos a partir do 4o período. No entanto, a proposta apresentada não foi implementada. Parece-nos que a proposta apontada pelo Pró-reitor de Ensino provocaria a retomada do catálogo anterior, pois um núcleo comum de disciplinas poderia provocar a falta de identificação dos alunos com um dos cursos, inexistindo clareza entre eles.
Ele considera o “Estágio” de grande importância e acredita que o mesmo deveria ocorrer ao longo de todo o curso, desde o primeiro semestre. Atualmente, há atividades de “estágio” em várias disciplinas, que vieram a suprir uma necessidade dos cursos de Licenciatura da UFV, pois os coordenadores afirmam que os alunos têm vivenciado pouco o cotidiano escolar.
De acordo com o Documento Norteador, “o estágio pode se constituir em um verdadeiro espaço de formação contínua para os professores tanto da escola de formação, quanto para os das escolas dos sistemas de ensino”. Acreditamos que, para a implementação dessa “mão dupla” proposta pelo Documento, faz-se necessário a consubstancialização de um convênio entre a Instituição formadora e a rede escolar da micro-região de Viçosa, que ainda não foi firmado.
De acordo com o entrevistado, o DPE encarregou-se de apresentar propostas e sugestões para a realização dos Estágios, o que ainda não se concretizou. Ele considera o DPE um espaço muito fechado, havendo necessidade de uma maior quantidade e divulgação de pesquisas na área educacional.
Parece-nos que em todos os segmentos da Universidade há um consenso de que a Licenciatura precisa ser valorizada. Todavia, nos parece que alguns vão delegando a outros a tarefa de valorizar estes cursos, sem que, na realidade, ninguém queira assumir sua melhoria. CATANI (1986), refere-se ao descaso enfrentado pelas Licenciaturas em relação ao Bacharelado, afirmando que “a Universidade tem relegado a segundo plano a formação de professores”.
Quanto à implementação dos Institutos Superiores de Educação, ele considera que a nova organização dos cursos de Licenciatura, defendida pelo governo, comprometeria a “boa formação”, por tratar-se de ensino de qualidade inferior àqueles oferecidos nas Universidades. Ele acredita na possibilidade destas funcionarem por um período de tempo, mas não constituiriam em um sistema exclusivo de formação de professores. Segundo o mesmo, a lei que institui a implementação dos Institutos Superiores de Educação só foi aprovada devido à pressão por parte das Escolas Particulares, que teriam assim os seus lucros ampliados.
As disciplinas de Instrumentação foram criadas para possibilitar aos licenciandos uma transposição dos conhecimentos adquiridos para a realidade prática da sala de aula, buscando promover, portanto, uma ponte entre o saber teórico e o prático. Nesse sentido, CARVALHO (1992) afirma que “a disciplina integradora guia a ação educativa e promove a reflexão crítica depois da interação, fazendo com que a imersão na aula seja valorizada pelos futuros professores como, talvez, a atividade mais relevante na sua formação, pois representa um contato real com a sua futura profissão”.
Uma vez que a reformulação curricular ainda necessita de melhoria da formação dos futuros docentes, fizemos um levantamento da formação dos professores que lecionam disciplinas de Instrumentação de Ensino, vislumbrando sua adequação às disciplinas que ministrariam; e de onde estes se embasaram para selecionar os conteúdos das disciplinas.
Para tanto, buscamos um primeiro contato junto aos coordenadores dos cursos de Ciências Biológicas, Física, Química e Matemática, para obter informações sobre as disciplinas de Instrumentação oferecidas atualmente. Em seguida, realizamos Entrevistas aos professores de Instrumentação de Ensino.
Os coordenadores dos cursos
de Biologia e Matemática nos informaram que atualmente não está sendo oferecida
nenhuma disciplina de Instrumentação nestes departamentos.
Segundo o coordenador do
curso de Química, apenas uma disciplina de Instrumentação está sendo oferecida
por este departamento atualmente – QUI 303 – Instrumentação para o Ensino de
Química I. Ele afirma, ainda, que aproximadamente 90% dos alunos mantiveram-se
no catálogo anterior à reformulação e somente as turmas que ingressaram em 2000
são matriculadas no novo catálogo.
O professor da disciplina de Instrumentação oferecida pelo departamento de Química afirma que esta é formada por aulas práticas e teóricas, contrapondo-se à sua constituição na antiga grade, que era somente constituída por aulas práticas. De acordo com VÁSQUEZ (1977), “a prática é fundamento e finalidade que determina a teoria”.
O professor teve formação
acadêmica em Licenciatura e o doutorado em Educação Científica, possuindo,
portanto, um grande embasamento para se trabalhar na área da Educação. Ele é,
conforme informações do Pró-reitor de Ensino, o único professor das
Licenciaturas que possui doutorado na área educacional.
O coordenador do curso de
Física afirmou que somente uma disciplina de Instrumentação está sendo
oferecida neste período – FIS 313 – Instrumentação para o Ensino de Física II.
Segundo ele, 90% dos alunos optaram pela conclusão das duas habilitações,
Licenciatura e Bacharelado. Ele afirma que a demanda pela Licenciatura
aumentou, porém ainda não há como fazer uma estimativa precisa do número de
alunos que optaram por uma das duas habilitações.
O professor da disciplina
FIS 313, oferecida pelo departamento de Física, afirmou que desde 1981 realiza
estudos na área da Educação. Desde muitos anos, o mesmo coordena o convênio
existente entre a Universidade e cidades do norte de Minas, com o projeto de
Licenciatura Parcelada, promovendo habilitação de professores.
O entrevistado afirma não ter encontrado dificuldades para ministrar a disciplina. Ele assumiu esta a partir de 1997 e afirma que, antes à reformulação, a mesma limitava-se à preparação de material didático na oficina de Física. Essa oficina foi criada com o fim de oferecer subsídios para a preparação de material alternativo para o ensino de Física nas Disciplinas de Instrumentação.
Segundo o professor, a fonte
principal utilizada como suporte pedagógico para ministrar a disciplina é a sua
experiência, os treinamentos realizados para professores da Licenciatura
Parcelada e painéis de discussão, pois através destes tem a oportunidade de
conhecer mais de perto as deficiências do processo de ensino-aprendizagem.
Ele baseou-se no Programa
Oficial do Ensino Médio, através do Documento Oficial da Secretaria de Estado
da Educação, para selecionar os conteúdos desta disciplina seguindo-se,
portanto, as Diretrizes Curriculares. Ele selecionou, junto aos alunos, todos
os tópicos de conteúdos curriculares do Ensino Médio, estabelecendo prioridades
para os estudos e a elaboração dos projetos.
Percebemos que os dois
professores que ministram as disciplinas de Instrumentação possuem embasamento
teórico para trabalhar na área educacional. Eles baseiam-se em suas
experiências para selecionar os conteúdos e metodologias e utilizam pouco os
livros e programas com propostas de trabalho.
Várias mudanças ocorreram nas Licenciaturas após a reformulação, dentre elas ressaltamos: alteração nos códigos das disciplinas pedagógicas; mudança nas cargas horárias; as duas Psicologias se fundiram em apenas uma e foi criada a disciplina Educação e Realidade Brasileira.
Em relação aos avanços, verificamos ganhos nas Grades Curriculares estabelecidas, com o acréscimo de 30 horas de prática às disciplinas de EDU 117, EDU 155 e EDU 144. Esta parte prática foi uma tentativa de superar a dicotomia teoria/prática das referidas disciplinas pedagógicas. No entanto, para criar facilidade operacional de transição de grade, houve um desmembramento entre estas, o que acabou por criar outras disciplinas onde a prática foi trabalhada separadamente.
Outro ganho foi a criação da disciplina Educação e Realidade Brasileira, referente aos conteúdos formativos relacionados a saberes pedagógicos mais amplos, que eram superficialmente abordados na grade anterior à reformulação.
Quanto aos limites desta mudança curricular, podemos citar, inicialmente, a resistência por parte de alguns professores em adequar as práticas nas disciplinas que eram somente teóricas.
Quando analisamos a proposta do Documento Norteador
para Elaboração das Diretrizes Curriculares Para os Cursos de Formação de
Professores e a Proposta elaborada na UFV, verificamos limites tais como: 1-
ausência do item “perfil profissional dos professores” que discriminaria os
aspectos mais filosóficos desta formação, talvez devido às escassas discussões
interdepartamentais que ficaram mais centradas no aspecto de Grade Curricular
para atender às 300 horas; 2- ausência do documento onde firmariam convênio UFV
e escolas de ensino Fundamental e Médio; 3- ainda por construir, um Trabalho de
Conclusão de Curso; 4- divisão entre teoria/prática proposta em três
disciplinas, cujo objetivo foi criar facilidade operacional de transição de
grade, já ressaltado anteriormente.
Um dos problemas mais enfatizados e discutidos pelos professores das disciplinas pedagógicas foi a desvinculação entre a parte teórica e prática. A implementação mostra-se, segundo os entrevistados, no campo essencialmente formal, carecendo de uma mudança que busque realmente a melhoria dos cursos de Licenciatura.
A questão dos convênios, entre escolas da rede de Ensino de Viçosa e a
Universidade, pode ser considerada como uma grande limitação da implementação da
reforma curricular.
Outro fator preocupante que encontramos neste estudo diz respeito às Práticas de Ensino de Física e Matemática que são equivalentes para que os alunos licenciem-se em uma e outra. Isto poderá promover a volta do professor polivalente, ou seja, o profissional poderá habilitar-se em vários cursos a partir de uma formação básica que os sustente.
Parece unânime entre os coordenadores dos cursos a percepção de que a
Licenciatura, após a reformulação, tenha passado de um complemento para uma
opção, o que poderá levar a uma maior valorização desta. Os entrevistados
acreditam, também, que a reformulação possibilitou a diminuição da dicotomia
Licenciatura/Bacharelado e de uma maior articulação entre teoria/prática.
Em todos os cursos, a opção entre Licenciatura e Bacharelado não ocorre no início, como propõe o Documento Norteador. O tempo médio de conclusão das duas habilitações, Licenciatura e Bacharelado, é praticamente o mesmo para os cursos. No entanto, nas Ciências Biológicas há extensão do tempo de conclusão e os alunos podem habilitar-se somente neste curso.
O fato da Universidade secundarizar a responsabilidade sobre a formação de professores, poderá promover o distanciamento entre esta e os sistemas de Ensino Fundamental e Médio, para os quais ela se encarrega de formar docentes.
Parece-nos que em todos os
segmentos da Universidade há um consenso de que a Licenciatura precisa ser
valorizada. Todavia, nos parece também que alguns vão delegando a outros esta
tarefa, sem que, na realidade, poucos queiram assumir sua melhoria.
As licenciaturas na UFV conseguiram avançar alguns aspectos em relação à Implementação das Diretrizes Curriculares Nacionais. Todavia, há necessidade de alterar substancialmente sua estrutura e de considerar a diversidade de percepções e visões de Formação de Professores, presentes nas concepções dos profissionais envolvidos nesta reformulação.
Enquanto perdurar nas
Universidades o desprestígio relativo a atividade de ensinar, ficará aberta uma
porta para a instauração dos Institutos Superiores de Educação.
FÓRUM DE
LICENCIATURAS. Universidade de São Paulo. Documento Final, São Paulo, 1991.
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