Usando o Diário de Classe num curso de Didática: A importância da auto-estima e auto-regulação no processo de construção do conhecimento.

 

 

Silvia Regina Quijadas Aro Zuliani[1]

Ana Cristina do Amaral F. Carbonera[2]

Denise Cristina Restoy Ruiz[3]

 

1.      Resumo

            O controle pessoal do processo de aprendizagem é uma das linhas mais promissoras na pesquisa em educação. Quando se trata da formação de professores, parece-nos que esta habilidade tão pouco desenvolvida seja de fundamental importância, já que a aprendizagem para se concretizar enquanto construção individual de conhecimentos, tem como parte integrante a confiança do aprendiz em suas próprias capacidades e habilidades de progressão. Para a realização desta pesquisa, partiu-se do pressuposto que a busca deliberada e consciente do conhecimento é um caminho eficaz para a aprendizagem. O trabalho está sendo desenvolvido com base nas aulas da disciplina Didática II, 3º ano do Curso de Pedagogia, na UNIFAC – Associação de Ensino de Botucatu. O sujeitos da pesquisa são vinte alunas da disciplina e sua professora de Didática. No início do trabalho, a professora solicitou às alunas que elaborassem semanalmente um diário de classe onde elas teriam a oportunidade de relatar e discutir pontos importantes, dúvidas, dificuldades e interesses referentes aos conteúdos desenvolvidos durante as aulas. A construção do diário deveria ser voluntária e só deveriam fazê-lo se realmente sentissem necessidade e interesse. Semanalmente os diários são lidos e respondidos pela professora, que busca questionar os pontos abordados pelas alunas no sentido de oferecer-lhes a oportunidade de refletir sobre suas dúvidas e dificuldades e encorajando-as na construção do conhecimento. A análise preliminar dos resultados aponta para uma evolução significativa do processo de reflexão sobre o próprio conhecimento e sua construção e principalmente para um fortalecimento da auto-estima das alunas. Além disso, os diários apresentados por elas indicam um investimento crescente na auto-regulação da aprendizagem e, conseqüentemente, na compreensão deste processo de controle. Por se tratar de um curso de formação de Educadores, esta habilidade parece-nos fundamental, pois ao controlar e monitorar o próprio processo de aprendizagem as futuras professoras terão condições de monitorar suas atividades de ensino, tornado-se mais atentas às suas complexidades.

 

2.      Introdução e Justificativa

O aprimoramento do processo de aprendizagem sempre se constituiu num grande problema para os educadores e, embora tenha se tornado objeto de exaustivas discussões e pesquisas está longe de ter respostas definitivas. Comumente o ato de aprender é visto pelo estudante como um ato passivo e de responsabilidade do professor (Gunstone & Northfield, 1992). Esta visão determina o não engajamento do aprendiz no processo, dificultando ou até mesmo determinando o fracasso no desenvolvimento da aprendizagem. Para que haja uma aprendizagem mais eficiente, é necessário que o controle e a regulação do processo sejam atribuídos àquele que aprende. Confiança nas próprias habilidades e capacidade de progressão são fundamentais ao desenvolvimento da metacognição.

            Romainville (1994), define conhecimento metacognitivo como resultado da reflexão deliberada na própria atividade cognitiva. Esta reflexão pode assumir duas dimensões distintas, ou seja, o conhecimento que se tem sobre a própria cognição e o controle deste conhecimento. Partindo-se da hipótese de que se a automonitoração do processo de aprendizagem torna a evolução cognitiva mais eficiente, parece-nos que ao lançar mão de estratégias que encorajaram o aluno a verbalizar e refletir sobre seu próprio conhecimento, o professor pode oferecer aos alunos vias de acesso ao desenvolvimento destas estratégias de controle.

Ao desenvolver estratégias cognitivas adequadas, o aprendiz passa a priorizar a aprendizagem em detrimento da maneira pela qual ela é conseguida. Uma estratégia eficaz deve favorecer ao indivíduo o desenvolvimento da autonomia e independência, contudo estas são habilidades conquistadas a partir do sentimento de competência, e é através do engajamento na atividade que o indivíduo percebe-se capaz (Gunstone, 1991; Osborne, 1997).

Algumas barreiras importantes ao processo de desenvolvimento metacognitivo foram relatadas por vários autores (Mitchel, 1995; Gunstone, 1991). Gunstone apresenta quatro resultados importantes que emergiram da pesquisa e que se constituem em barreiras:

1-     A visão do estudante a respeito da própria aprendizagem (ex. nós estamos pensando demais e trabalhando pouco).

2-     As questões afetivas e motivacionais (estamos longe de conseguir que os estudantes queiram aprender).

3-     Uma prática avaliativa que recompense a natureza da aprendizagem.

4-     A confiança do aprendiz no professor.

Outro ponto interessante apresentado por Mcdonald (1990, apud Gunstone, 1991) é o fato de os estudantes necessitarem de uma linguagem apropriada para discutir sua aprendizagem, isto é, após atribuírem significados a palavras como “conceito”, “processo”, “estratégias de aprendizagem” etc., os estudantes passam a ser capazes de discutir e pensar novos caminhos para melhorar sua própria aprendizagem.

Além destas considerações, é necessário acrescentar que, embora conhecimento e controle cognitivo estejam estritamente relacionados, apresentam diferenças relevantes. Entre elas, destaca-se a citada por Campione et al é o fato de que

“o conhecimento metacognitivo aparece mais tardiamente enquanto a regulação e o controle executor dependem mais da situação e da tarefa...” (Campione et al, 1975, apud Martín & Marchesi, 1995, P.28)

 

Estas considerações levam-nos a reflexões sobre as possibilidades de favorecer a utilização de estratégias metacognitivas e seu reconhecimento pelas alunas em um curso de formação de professores. Se o desenvolvimento dessas estratégias e sua utilização dependem do professor e de sua atuação, os cursos de formação de professores devem oferecer esta possibilidade aos seus alunos e futuros profissionais.

Desta necessidade surgiu este trabalho, que tem por objetivo favorecer a reflexão das alunas da disciplina Didática II, 3º ano do curso de Pedagogia da UNIFAC-CEPRA-Botucatu[4], sobre sua relação com conceitos apresentados e discutidos na disciplina. Pretende-se que a partir desta reflexão, as alunas passem a perceber o conhecimento metacognitivo mobilizado em seu processo de construção e controle do conhecimento.

O instrumento do qual se utilizou para a consecução deste objetivo foi a construção de diários de classe com a finalidade de, através da atribuição de significados aos próprios pensamentos, favorecer o planejamento e auto-regulação da aprendizagem.

Segundo Martín & Marchesi:

“As situações mais efetivas de aprendizagem são aquelas em que os alunos são orientados pelos seus professores para facilitar-lhes o desenvolvimento da auto regulação. Quando os estudantes amadurecem, são eles mesmos que internalizam estas funções, interrogando a si mesmos e avaliando seus próprios processos cognitivos e os resultados que obtém. Em todas estas situações, tanto nas experiências iniciais de aprendizagem, quando é o adulto que centra, organiza e dirige por meio da linguagem, por meio de aquisição de estratégias, ou conhecimentos, quanto nas posteriores e mais evoluídas, em que é o próprio individuo que regula sua própria atividade, em grande parte através de seu diálogo internalizado, a comunicação e a linguagem configuram-se como fatores imprescindíveis” (Martín & Marchesi, p. 30).

Portanto, por utilizar a linguagem como argumento principal, os diários foram escolhidos como instrumento de coleta de dados para esta pesquisa.

 

3.      Metodologia

A proposta para o desenvolvimento da disciplina Didática II centrou-se na elaboração pessoal. As aulas tiveram por base estudos de textos, dinâmicas de grupo e aplicação do conhecimento a situações de vida prática. Os textos eram indicados com antecedência para a leitura dos alunos, e a sua discussão ocorria em grupo na forma de seminários. No início esta prática causou grande desconforto para as alunas, que estavam acostumadas à leitura do texto em sala de aula junto com o professor ou somente com a aula expositiva. Para minimizar este desconforto a professora passou a alternar as discussões com aulas expositivas e algumas dinâmicas de grupo.

Nas aulas expositivas a professora disponibilizava para as alunas o resumo utilizado nas transparências, mas não abria mão do questionamento constante, buscando fomentar nas alunas a questão da relatividade do conhecimento.

Nas discussões em grupo, o objetivo central foi favorecer a exposição de dúvidas e argumentos e levar a discussão para situações práticas de aplicação do mesmo.

Os diários de classe surgiram como uma possibilidade de avaliar o trabalho desenvolvido e facilitar a comunicação com aquelas alunas que apresentavam mais dificuldade em estar expondo suas questões ao grupo de forma oral.

 

3.1.  A Opção pelo uso dos Diários de Classe como instrumento de Aprendizagem

Para a realização desta pesquisa, optou-se pela construção partilhada de um “diário de classe”. Chamamos o referido diário de “diário de classe” pois seu principal objetivo foi oferecer às alunas a oportunidade de refletir sobre a construção do conhecimento e travar um diálogo consigo mesmas. Além disso, a caracterização como “partilhado” reside no fato de que teve por função manter uma dupla via de comunicação, onde o pesquisador – professor tivesse oportunidade de dividir com as alunas seus anseios e dificuldades, mas ao mesmo tempo estimular e cooperar com sua reflexão sobre a própria aprendizagem. Assim, na perspectiva do trabalho partilhado, serão analisadas aqui as representações das alunas, principalmente aquelas que apresentarem reflexos no processo de elaboração da aprendizagem das alunas.

O uso dos diários justifica-se pelo fato de favorecer, conforme Zabalza, o desenvolvimento de...

“... uma tarefa de trabalho conjunto com os professores implicados na investigação e dirigida explicitamente ao seu desenvolvimento pessoal: postulados de negociação e de complementarização de perspectivas (Zabalza,1994., p.19).”

 

Segundo o autor, é necessário que se tenha duas precauções quanto a validação da utilização dos diários como recurso metodológico para a coleta de dados. O primeiro diz respeito à questão naturalidade / artificialidade (garantia da reflexão de uma situação natural ou se constitua numa resposta à necessidade de escrevê-lo). Neste particular, parece-nos pouco provável a presença da artificialidade, pois a construção dos diários foi voluntária e nosso objetivo foi utilizar os diários como instrumento de desenvolvimento pessoal e profissional das futuras professoras. A segunda precaução diz respeito ao contexto pragmático em que são construídos os diários e que é chamada de precaução técnica, e está ligada ao contexto em que a elaboração dos diários é conduzida.

Zabalza aponta três parâmetros importantes para a sua validação:

“A que tipo de solicitação responde o diário, de que percepção de si mesmo e do investigador parte o indivíduo que elabora o diário e como se resolve a dialética publicidade/privacidade dos conteúdos dos diários”.(Zabalza, op. cit., p. 99)

 

Neste trabalho, a solicitação esteve vinculada a um processo de formação: utilizou-se o diário como instrumento de comunicação professor – aluno, dentro do contexto da disciplina, e com a finalidade específica de produzir o desenvolvimento do conhecimento metacognitivo. O objetivo principal foi oferecer às alunas (futuras professoras) um espaço de “troca” com a professora (pesquisadora). Portanto, a percepção de si mesmos e do investigador pode ser classificada como de parceria e cooperação.

A dialética privacidade / publicidade não se tornou um problema para este trabalho, pois a utilização dos diários foi negociada com os sujeitos, estes foram somente utilizados no contexto da investigação e de forma anônima. Os diários foram elaborados de maneira voluntária, só o fizeram as alunas que manifestaram o desejo de relatar suas dúvidas e dificuldades em relação às aulas de didática. Além de relatar dúvidas e dificuldades, os diários poderiam trazer sugestões e críticas às aulas e aos assuntos nelas tratados.

Os dados obtidos foram agrupados em dimensões que, serão discutidas durante a análise dos resultados. No anexo 1 apresentamos um Diário com as respostas da professora.

 

4.      O grupo e seu relacionamento com os Diários de Classe: Percepções de uma vivência

 

4.1.  O ponto de vista das alunas

Quando se iniciaram as aulas e o grupo deparou-se com um professor desconhecido e com estratégias e métodos diferentes, percebeu-se muita insegurança e medo de não conseguir atingir os objetivos, tanto os propostos pela professora quanto os propostos para o curso. A professora propunha metas as quais o grupo não estava acostumado. Ler, pesquisar, expor os conhecimentos, a compreensão dos textos e utilizar questionamentos constantes pareciam coisas muito distantes e aquém das habilidades desenvolvidas pelo grupo.

O pedido para que se escrevesse um diário a cada aula dada, expondo as dúvidas e sentimentos, fez com que o grupo ficasse estático e sem saber, num primeiro momento, o que poderia ou deveria ser colocado no diário. A partir daí, cada uma das alunas buscou elaborar o diário à sua própria maneira. O que mais chamou a atenção foi o fato de todas argumentarem ter dificuldades ao colocar no papel suas apreensões e sentimentos em relação às necessidades de auxílio.

Na análise inicial desses diários, notou-se que as alunas tinham dúvidas e dificuldades parecidas. Os primeiros diários escritos apresentaram nitidamente a ansiedade e o medo de expressar-se de maneira “inadequada”, pois não existiam parâmetros para avaliar como seria a reação da professora ao lê-los. Elas se mostravam apreensivas com a possível posição da professora com relação aos seus comentários.

Depois das primeiras respostas, notou-se que as alunas passaram a sentir mais confiança em suas próprias produções. O incentivo por parte da professora fez com que cada uma acreditasse mais em suas próprias habilidades e capacidades, minimizando as ansiedades a partir da indicação de que tudo o que fosse apresentado nos diários seria respondido com muito interesse e atenção por parte da mesma.

A partir deste momento, o diário deixou de ser uma atividade inicialmente feita com receio para ser de interesse das alunas, o que aparece claramente quando aquelas que não haviam ainda se resolvido a escrevê-lo, ao conversar com colegas que já haviam recebido as primeiras respostas, iniciaram sua elaboração.

 

4.2.  As justificativas da professora

Conhecer o grupo de alunos é requisito fundamental para o planejamento e desenvolvimento do trabalho do professor. Este conhecimento deve ser construído ao longo da convivência com os alunos e a partir de observações e diálogos sistemáticos. Numa disciplina com duas horas/aula semanais e um grupo de quarenta alunas, este processo se torna demorado e oneroso, podendo inclusive prejudicar o conteúdo a ser trabalhado.

Com base na necessidade de abreviar o tempo consumido para o conhecimento do grupo, é de fundamental importância a utilização de uma via de comunicação direta, onde a oportunidade de discutir pontos de vista, apresentar dúvidas, dificuldades e interesses, parece-nos de grande valia no processo de apreensão das características do grupo, bem como de oferecer-lhe a oportunidade de conhecer melhor o professor.

Estas características podem ser reunidas na construção partilhada do diário de classe. Na realidade, este documento passou a ser escrito quinzenalmente, tanto por parte das alunas como da professora, que no caso é também uma das pesquisadoras. As alunas apresentavam os diários que, recolhidos e respondidos pela professora, eram devolvidos na semana subseqüente. Deixou-se claro às alunas que o diário deveria ser uma atividade voluntária e não teria cunho avaliativo. O principal objetivo para sua elaboração foi oferecer às alunas a oportunidade de reflexão sobre sua própria aprendizagem, facilitando seu relacionamento com o conteúdo proposto e também com a professora.

Na primeira semana, de um grupo de quarenta alunas, somente três diários foram entregues, sendo que em todos a principal característica diagnosticada foi a insegurança e a incerteza sobre o próprio escrito. Após a devolução dos primeiros diários, o número destes e o interesse pelas respostas da professora aumentaram gradativamente. De tímidos comentários iniciais, as alunas passaram a questionar com liberdade os conceitos discutidos nas aulas e a metodologia utilizada para desenvolvê-los.

A utilização dos diários ofereceu uma oportunidade de aproximação com o grupo de alunas e, sob esta perspectiva, os diários já teriam cumprido sua missão, mas ao possibilitar também à professora a avaliação do próprio trabalho e da construção do conhecimento por parte das alunas, tornaram-se insubstituíveis.

 

  1. O critério de interpretação da realidade: A hermenêutica na palavra escrita

Interpretar a intenção colocada pelos sujeitos ao escrever um diário, não nos parece uma tarefa muito simples. Ao escrever livremente o indivíduo percorre caminhos que ele mesmo desconhece e põe a descoberto suas ansiedades e expectativas. Portanto, buscamos dimensionar as principais idéias presentes nos diários, de modo a organizar sua exploração e análise. Os diários elaborados permitem a identificação das estruturas de significação e a avaliação processual do próprio sujeito em suas narrativas. Destas narrativas extraíram-se as dimensões apresentadas na tabela 1:

 

Tabela 1 – Dimensões Estruturadas a Partir dos Diários de Classe

Dimensão

Configuração no Discurso

Interesse e Motivação

-         Interesse pela resposta ao diário

-         Desenvolvimento da auto-estima

A Aquisição do Conhecimento

-         Traduzir o conhecimento adquirido de forma escrita

-         Consciência da necessidade de aprendizagem profissional

Metaconhecimento

-         Desconhecimento das próprias estratégias de aprendizagem

-         Exercitar o controle sobre si próprio no processo de aprendizagem

-         A crítica da estratégia de ensino

 

            Esta construção teve por objetivo listar os aspectos capazes de revelar as características da narrativa estudada, dando forma ao pensamento dos sujeitos da pesquisa no âmbito do trabalho realizado e verificar como este pensamento se organiza no conjunto de intenções expressas por meio da exposição de idéias através da linguagem escrita.

 

5.1  Interesse e Motivação

Para Pintrich et. al. (1993) de um modo geral, os modelos cognitivos de aprendizagem não consideram metas individuais, intenções, expectativas ou necessidades dos alunos. Isto acarreta muitas vezes o desinteresse do aluno, pois a maioria dos objetos de ensino propostos pelo professor pouco se relacionam com suas necessidades. Para o autor o contexto de sala de aula tem muita influência na adoção de metas que enfocam a aprendizagem, a compreensão e o domínio da tarefa. Entre as variáveis de sala de aula que exercem esta influência, as estruturas que possibilitem o aluno a fazer escolhas e controlar as suas próprias atividades, são indicadas como características fundamentais. A questão que se põe é de que maneira as diferentes variáveis contextuais de sala de aula podem mediar a construção do conhecimento e favorecer a reflexão e controle sobre a aprendizagem?

Os resultados de pesquisa (Pintrich et al., 1993) indicam que a modificação de crenças de auto eficiência pode levar a um melhor uso de estratégias cognitivas e que a percepção dos alunos sobre a competência está relacionada com juízos auto eficientes, principalmente aqueles ligados a tarefas de compreensão, leitura e escrita. Escrever o diário causou nas alunas uma preocupação e receio, mas a possibilidade de obter uma resposta superou essa apreensão inicial. As poucas alunas que iniciaram a construção do diário de maneira mais imediata, não tinham a certeza da resposta da professora. As respostas desencadearam um maior interesse do grupo na elaboração dos diários e o seu numero cresceu rapidamente.

As alunas expressam o prazer em ter a atenção da professora às suas dúvidas e questionamentos:

I. (2º Diário): “Leio toda as respostas que me escreve atentamente... isto faz com que eu reflita um pouco mais a respeito de minhas próprias perguntas”.

 

A expectativa e o interesse em dividir com a professora as dificuldades e dúvidas, se transformaram em confiança estabelecida com base nas palavras de incentivo e ajuda presentes nas respostas. Esta confiança facilitou a evolução da auto-estima das alunas, na medida em que a partir dos questionamentos, as induziram à auto-avaliação e reorganização de processos de aquisição de conhecimento. Estas características aparecem significativamente em diversos diários como, por exemplo:

K: (1º Diário) “è isso que eu acho interessante nas suas aulas, que deixa-me, as vezes “vendo navios”, é claro que isso a primeira vez, provocou-me irritação.Recordo-me que era uma das primeiras discussões em roda e eu fiquei em dúvida sobre transdiciplinaridade, perguntei, é lógico, mas daí você fez outra pergunta, é claro que a dúvida aumentou. Bom, o mais engraçado sabe o que foi? É que eu revirei minha casa toda, bibliotecas atrás dessa bendita transdiciplinaridade, encontrei e acabei pesquisando sobre outras coisas “relacionadas”, por exemplo, multidisciplinaridade, interdisciplibnaridade, temas transversais... O interessante, ainda mais vindo de mim, quando eu acabei de pesquisr tudo isso, comecei a rir, pos nunca na minha vida eu li, fora os livros habituais, algo que não fosse obrigada e que tivesse  contida na matéria, só para saber mais sobre aquilo, achei  uma estratégia maravilhosa”.

 

Parece-nos que as respostas aos diários tiveram o dom de elevar a auto-estima das alunas à medida que favoreceram a percepção de que para aprender não há necessidade de memorizar quantidades intermináveis de conteúdos, mas sim admitir corajosamente para si próprias suas dúvidas e receios e buscar caminhos para soluciona-los.

 

5.2  . A aquisição de conhecimento

Nos cursos de formação de professores, a tônica comum é a discussão dos preceitos construtivistas para o processo de ensino e aprendizagem. Muito justa a sua discussão, uma vez que deve fazer parte do conjunto de conhecimentos docentes. Não pretendemos questionar a pertinência do conceito, e sim a maneira como é apresentado ao futuro professor. Normalmente discute-se as teorias construtivistas do ponto de vista teórico e de maneira tradicional.

Para Schneltzer, num processo de ensino construtivista:

“É fundamental que o professor seja sensível às concepções e interpretações dos alunos e que as valorize. Na medida em que o conhecimento é construído pelas pessoas através da interação social, é também fundamental que o clima da sala de aula seja amigável para que haja respeito e apoio mútuos entre os pontos de vista do aluno e do professor (Schneltzer, 1992, p. 21)”.

 

Partindo do pressuposto que a aprendizagem é um processo do aluno (Ausubel, 1978), o ensino deve garantir a ele oportunidades freqüentes de explicitar e tornar públicas suas idéias. Freqüentemente, as atividades de ensino propostas pelos professores, não oferecem esta oportunidade, desenvolvendo no aluno a idéia equivocada de que sua função na sala de aula é simplesmente ouvir e assimilar os conceitos “passados” pelo professor.

O. (2º Diário): O professor deve levar o aluno à descoberta, mas desde que ele tenha primeiramente um referencial e através do mesmo, professor e aluno buscarão o caminho, havendo uma troca de experiências e possibilitando o avanço de ambas as partes”.

 

O uso dos diários permitiu às alunas fazer uma nova interpretação do processo vivenciado, a partir da qual passaram a discutir o próprio processo de aprendizagem de maneira mais coerente e crítica. Com isso passaram a se fazer auto questionamentos e a buscar as próprias respostas de maneira centrada e consciente.

K. (1º Diário): “O mais importante, que ficou mesmo marcado de todas essas aulas além daquilo que já mencionei, é que para uma boa aprendizagem não é necessária a memorização, a maneira como você vai usar a aprendizagem é que vai fazer a diferença”.

R. (2º Diário): “Em nossa aula de hoje, depois de todas as explicações, sobre o Joãozinho, foi somente agora que eu pude compreender a “matéria” sobre as estações do ano. O trabalho me ajudou bastante...”.

 

As alunas passam a fazer o reconhecimento da aplicação do conceito adquirido à situação de sua prática profissional, acrescentando ao processo de aprendizagem um critério de validação.

Al. (3º Diário): “No texto nº 4, onde tratamos o assunto: Como organizar e dirigir situações de aprendizagem, e no texto nº 5 que fala sobre como administrar a progressão das aprendizagens, muitos dos aspectos consigo perceber em minha prática, porém, outros ainda não percebo, ou melhor, não acho que estão bem estruturados”.

 

Valorizar a construção do próprio conhecimento pode produzir no aluno o interesse pela elaboração de uma prática profissional que possa incorporar critérios já discutidos do ponto de vista teórico, mas não considerados até então do ponto de vista da prática pedagógica. Um questionamento pertinente nesta situação pode ser levantando:

As estratégias de aprendizagem que se apresentam eficazes, são passíveis de utilização deliberada pelo aprendiz em outras situações?

 

Garner & Alexander (1989) afirmam que para que uma estratégia passe a ser utilizada pelo indivíduo deve ter como condição essencial, capacidade de se mostrar eficiente a partir da sua utilização. Os diários das alunas parecem indicar que a vivência experiencial de estratégias já conhecidas do ponto de vista teórico, muda sua opinião a respeito da utilização delas na prática profissional e no próprio processo de aprendizagem:

M.I. (5º Diário): “Não sabia como se construía o conhecimento (que tanto ouvimos e falamos) e você nos levou a construí-lo. Aprendi que embora “ensine” as estações do ano para as crianças, eu mesma não sabia. Interessante né? Aprendi que trabalhar no concreto não garante o aprendizado. O importante é ter significado para a criança. Aprendi a valorizar a pesquisa como instrumento de aprendizagem. Muitas das “palavras-chave” (pesquisa, concreto, construir conhecimento) nós já ouvimos falar ou lemos, porém embora memorizadas, não houve entendimento, aprendizagem. Você nos levou a “aplicá-los” (na prática) em sala de aula, e isto sim, foi aprendizado”.

 

Além de favorecer a construção referencial de uma prática pedagógica fundamentada na construção pessoal, a elaboração dos diários oferece ao professor a oportunidade de conhecer melhor os alunos e conseqüentemente buscar a satisfação de suas necessidades específicas. O acompanhamento continuado por um outro lado, permite o redirecionamento de rumos quando este se fizer necessário.

 

5.3  Metacognição ou metaconhecimento

A investigação didática tem apontado para a metacognição como uma capacidade básica e pouco explorada. Um dos componentes de qualquer processo de aprendizagem, não tem recebido atenção sistemática até o momento (Campanario & Otero, 2000). A capacidade de reconhecer e controlar os próprios processos de construção do conhecimento pode garantir ao indivíduo a opção por estratégias adequadas e a possibilidade de redirecioná-las para um melhor aproveitamento.

Aparentemente, em situação de aprendizagem os indivíduos falham ao perceber as estratégias que utilizam. Muitas vezes os alunos crêem que sabem resolver um problema, mas na realidade não é assim. Segundo Campanário & Otero,

“... em determinadas ocasiões pode ser mais decisivo saber que não se sabe que saber ou não saber” (Campanário & Otero 2000, p. 164).

 

Quando o indivíduo reconhece que não domina determinados conhecimentos, abre-se a possibilidade de buscar as respostas de maneira controlada. A construção partilhada do diário oferece ao professor uma oportunidade sem igual para a partir dos questionamentos, plantar dúvidas e despertar o interesse pela sua superação. Isto se evidencia em muitos dos diários das alunas. Quando passam a aceitar que não detêm o conhecimento que acreditavam possuir desencadeia-se um processo de busca que levará a uma aprendizagem eficiente. O trecho extraído de um dos diários deixa evidente esta situação:

(N. 4º Diário). “Isto ficou muito claro quando você nos aplicou a avaliação no primeiro bimestre, que os objetivos não foram atingidos.

O texto deixava bem explícito o quanto Joãozinho tinha vontade de sanar suas dúvidas. Porém, eu, como a sua professora, não soube entender suas perguntas e achei que o meu método de ensino seria muito melhor que o dela. Mas me enganei quando pensei que Joãozinho teria uma plena aprendizagem, porque na verdade, quem precisaria aprender era eu.

Aprendi que o que nos leva à verdadeira aprendizagem são as dúvidas, os conflitos e a vontade de compreender como tudo acontece realmente.

 

Por outro lado, a possibilidade de repensar e discutir a própria compreensão amplia sobremaneira os horizontes nos quais o conhecimento é construído. As dúvidas ou mesmo as certezas podem ser dividas com alguém que ou poderá resolve-las ou ainda indicar caminho para sua solução. Em muitos dos diários apresentados as alunas relatam sua compreensão dos fenômenos estudados, buscando nas possíveis respostas da professora sua legitimação ou a indicação de falhas.

M.I. (1º Diário): “A principio (o texto) causou-me muitas contradições, pois até então, procedimentos para mim era o método, a estratégia utilizada pelo professor para conduzir o processo de aprendizagem. Com o debate em classe, entendi que nessa reforma, procedimento trata-se de um conteúdo como outro qualquer, ações ordenadas, orientadas para o alcance de um objetivo. Trabalhar os objetivos significa trabalhar a habilidade de saber fazer, de saber agir de maneira eficaz, aprender a aprender. É o como fazer do aluno, é a sua estratégia, sua técnica, sua habilidade. Estou certa?”

As teorias sobre processos metacognitivos indicam que o específico do comportamento inteligente é a capacidade de auto-regular a própria aprendizagem. Segundo Mantín & Marchesi (1995) o desenvolvimento dos processos metacognitivos é espontâneo, mas o tipo de atividade utilizada no processo de ensino pode favorecer o desenvolvimento destas habilidades.

Ao reelaborar a compreensão dos conteúdos em questão, as alunas abriram espaços para a reflexão sobre a própria aprendizagem. Com isto, parece-nos que o processo de construção dos diários foi capaz de desencadear nas alunas processos de planejamento, regulação e controle da própria aprendizagem.

Os três processos citados são contemplados nos diários das alunas, em maior ou menor grau. A grande maioria das alunas indica em seus textos reconhecimento dos mecanismos mais eficazes à sua aprendizagem, e dão indicação de que são capazes até de exercer controle efetivo sobre eles.

M.C. (3º Diário): “... só aprendemos a partir de nossas dúvidas, pois se não houvesse dúvidas não haveria discussão e trocas de idéias, só assim é que podemos realmente aprender”.

Am. (1º Diário): “Tivemos dificuldades de analisar as questões, pois foi o primeiro contato sobre a reflexão de situações decorrentes de um texto. Precisamos melhorar mais nossa habilidade de analisar, interpretar e descrever”.

M.C. (3º Diário): “Os textos são fabulosos, mas são muitos e muito longos, e meu tempo é bem curto para ler, reler, analisar, resumir e discutir, é o que eu gosto de fazer, principalmente quando se trata de textos”.

 

Apesar disso, somente em poucos diários aparecem reflexões sobre a maneira como este controle é desenvolvido e passa a fazer parte das estratégias de aprendizagem do indivíduo.

Martín & Marchesi afirmam que:

“O progresso na aprendizagem permitem passar do emprego de esquemas ligados a contextos muito específicos a situações mais gerais” (Martín & Marchesi, 1995, p. 28).

 

Parece-nos que ao refletir sobre o próprio processo de controle da aprendizagem, o indivíduo passa a utilizar esse controle no processo de construção da profissionalidade docente e associar a aprendizagem do aluno à disponibilidade de aprender do próprio professor. Isto se evidencia em um dos diários da seguinte maneira:

N. (2º Diário): “Conhecer cada criança, é muito importante para obtermos bons resultados de aprendizagem. Aprendi que devemos adaptar os conteúdos, refletir sobre os procedimentos, pesquisar novas situações didáticas, modificar o que foi proposto, tudo isto de acordo com a realidade do aluno e seu meio social. Avaliar o aluno gradativamente, valorizar o que não deu certo e fazer de novo, pois é errando que aprendemos. Acho que o professor que está disposto a aprender cotidianamente com seus alunos, esse com certeza proporciona aulas interessantes”.

 

A aluna parte do comentário sobre o processo de ensino, passa a refletir sobre sua própria aprendizagem, retorna ao processo de ensino e volta à sua aprendizagem novamente quando afirma que é errando que aprendemos.

Por outro lado são poucas as alusões à maneira pela qual as alunas buscaram gerenciar o processo de aquisição do conhecimento, caracterizando o que Martín & Marchesi (1995) chamam de planejamento das atividades cognitivas. Esta característica parece indicar que enquanto o indivíduo não é capaz de identificar quais estratégias utilizadas por ele surtem melhor efeito, dificilmente poderá planejar novas estratégias de ação que garantiriam o sucesso em nova situação de aprendizagem. Entre as narrativas que parecem indicar este planejamento destacamos:

K. (1º Diário): “...capitalizei minha inteligência para buscar uma compreensão maior sobre uma palavra que faz parte do meu cotidiano e se resume em uma palavra, conhecia a palavra mas não a prática que a define”.

 

A mesma aluna afirma que:

“...para uma boa aprendizagem não é necessário a memorização, a maneira que você vai usar essa aprendizagem é que vai fazer a diferença. Sendo os obstáculos um importante caminho, pois é através deles que recorremos ao que já conhecemos, reestruturando o conhecimento e chegando a uma compreensão, pois a partir do memento que trabalhamos nossos erros e obstáculos, chegamos a aprendizagem”.

 

Disponibilizar o conhecimento para que seja utilizado em diferentes situações é um dos principais objetivos do processo de ensino e aprendizagem. Geralmente as atividades de ensino não são capazes de promover esta competência, pois deixam de levar em consideração uma importante característica do desenvolvimento: a regulação individual dos processos cognitivos. Esta, na idade adulta, se desenvolve segundo a psicologia soviética, a partir do diálogo do indivíduo consigo mesmo. Nas fases mais evoluídas quando

“... é o próprio indivíduo que regula sua própria atividade, em grande parte através de seu diálogo internalizado, a comunicação e a linguagem configuram-se como fatores imprescindíveis” (Martín & Marchesi, 1995, p. 30).

 

Ao utilizar a linguagem para expressar seus pensamentos na elaboração dos diários, as alunas tiveram a oportunidade de estabelecer um diálogo com suas próprias dúvidas e conhecimentos, o que parece ter favorecido seu relacionamento com o processo de aprendizagem e o estabelecimento de um clima de confiança e solidariedade com a professora.

Uma outra observação constante nos últimos diários, além da crítica à própria postura diante da disciplina foi a elaboração de críticas à metodologia utilizada em sala de aula. As críticas, sempre acompanhadas de sugestões de mudanças na postura do professor, parecem fundamentadas no desejo de melhorar a própria compreensão e também a do grupo.

M.C. (3º Diário): “Peço-lhe: Dê o texto, leia conosco (em sala) peça para a outra semana resumos, discussões. Trabalho em grupo etc... pois ler sozinha e depois ouvir sua explicação é mais difícil e grande parte do “meu interesse” já se foi, pois não sei se está certo ou errado”.

Mo. (2º Diário): “O novo é assustador, mas deve ser experimentado, vivido só assim o susto passa e o medo some, tornando o fato presente e ativo no cotidiano. Este estilo de aula é interessante. Tenho algumas sugestões para as meninas se soltarem mais: dinâmicas, dividir em 2 ou 3 grupos, discutir e depois fazer um plenário, dramatizar situações reais”.

 

Levando-se em consideração o caráter evolutivo e progressivo da construção dos conhecimentos profissionais e a necessidade de uma formação contínua e continuada (Tardif, 2000) o caráter auto-formador da construção dos diários possibilita a participação do indivíduo em sua própria formação e auxilia na construção de um conjunto  de estratégias que poderão ser aplicadas a outras situações de ensino e de aprendizagem.

 

 

  1. Conclusão

 

O trabalho com os diários de classe neste curso ainda não foi finalizado, pois a disciplina é anual e os diários serão mantidos até o final do ano letivo. Portanto, as análises que fazemos são ainda bastante preliminares e carecem de aprofundamento. Entretanto algumas generalizações podem ser apresentadas:

-         Os diários favoreceram de maneira eficiente a comunicação professor-aluno, gerando um clima de confiança e respeito mútuo.

-         O clima estabelecido favoreceu o crescimento da auto-estima do grupo, incentivando-as a buscar de maneira organizada as respostas às suas dúvidas e questionamentos.

-         As discussões levantadas tanto nos diários de maneira individual como nos grupos favoreceram o reconhecimento da aplicação do conhecimento adquirido às situações da vida prática, proporcionando a esta aquisição um bom critério de validação.

-         Através dos diários a avaliação do processo de aprendizagem se faz num continuum, oferecendo ao professor oportunidades de analisar seu trabalho e redirecionar suas estratégias.

-         Os diários favorecem o diálogo do aluno consigo mesmo, oferecendo a eles a oportunidade de planejar, controlar e avalias suas estratégias de aprendizagem.

-         A elaboração dos diários tornou concreto para as alunas o caráter processual da construção do conhecimento na medida em que ofereceu a elas o direito à dúvida e lhes atribuiu a responsabilidade por ultrapassá-la.

Apesar de a utilização dos diários auxiliar de maneira bastante produtiva, o desenvolvimento do processo de ensino e aprendizagem, oferecendo ao grupo a oportunidade de desenvolver a auto-estima, auto-controle e avaliação do processo de aprendizagem, algumas questões ainda ficaram sem resposta. Entre elas a que mais nos chamou a atenção foi a tentativa de fugir aos questionamentos propostos nas respostas do professor. Apesar de insistir na necessidade de reflexão das alunas a cada diário respondido, não há retorno por parte de algumas das alunas, o que evidencia uma tendência muito forte de negar a exposição das próprias idéias. Como se poderia obter explicações para este fenômeno, e como se poderia auxiliar o professor no planejamento de atividades para estes alunos?

 

  1. Bibliografia

 

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ZABALZA, M. A. Diários de aula: contributos para o estudo dos dilemas práticos dos professores. Porto: Porto Editorial, 1994.

 

 

  1. Anexo 1 K (1º Diário)

 

            Com as aulas eu aprendi várias coisas interessantes, mas o que eu espero, que eu atenda seus objetivos a respeito do diário, pois não sei se é bem isso que você espera?

            Antes de mais nada, devemos pressupor que a escola não é uma entidade autônoma, lidamos com pessoas, com necessidades diferentes e especiais, devemos trabalhar conseqüentemente com uma pedagogia diferenciada.

            Daí a importância do professor estar para todas as situações na sala de aula – o aluno defasado, o médio e o bom – devemos trabalhar de uma maneira diferenciada, mas sem prejudicar nem um nem outro, trabalhar de tal maneira que promova o avanço de todos.

            Não devemos esquecer, que o aluno tem autonomia para desejar aprender ou não, por isso devemos identificar os alunos que não estão interessados e procurar maneiras para cativa-los.

            Em síntese, o ensino deveria ser uma estratégia, aquilo que desejo desenvolver no meu aluno?

            Para que meu ensino seja uma estratégia, eu preciso pensar no que vai contribuir para o meu aluno? Qual o meu objetivo?

            Tais decisões são confiadas ao professor, o conteúdo que tem de cumprir, os objetivos que prevalecem, não devendo esquecer que são flexíveis, podendo ser mudados a constantemente, pois fazem parte do meu planejamento.

            O que fazer para administrar uma boa aprendizagem? Devemos ter uma competência específica?

            O que fazer para administrar uma situação problema? Será que seria formular hipóteses, encarando a situação como enigma a ser resolvido, proporcionando coletivamente instrumentos necessários para a resolução, levando o aluno ao questionamento, levando ao desejo intelectual, antecipando os resultados, promovendo debates, tendo o conhecimento científico um significado para outras situações, ou seja, ter um retorno às situações do dia-a-dia.

            Daí a importância do conteúdo procedimental? Ou seja, o aluno aprende a aprender, isso irá facilitar uma leitura, por exemplo, pois sempre quando precisar irá estar disponível, podendo ser acessado a qualquer momento.

            O professor de sempre fazer chegar onde ele quer atingir, ou seja, deve fazer o aluno chegar ao conceito e não dar o conceito, procurando sempre relacionar a teria co a prática, mostrando para os alunos que o conteúdo tem a ver com a vida dele, porque são importantes e como aplica-los numa situação real e não esquecer de promover avaliações para uma classe mista.

            O mais importante que ficou mesmo marcado de todas essas aulas, além daquilo que mencionei, é que, para, uma boa aprendizagem, não é necessário a memorização, a maneira que você vai usar essa aprendizagem é que vai fazer a diferença. Sendo os obstáculos um importante caminho, pois é através deles que recorremos ao que já conhecemos, reestruturando o conhecimento e chegando a uma compreensão, pois a partira do momento que trabalhamos nossos erros e obstáculos, chegamos a aprendizagem. Seria no caso a situação problema?Que obrigaria a transpor um obstáculo para chegar a aprendizagem de algo novo?

            É isso que eu acho interessante em suas aulas, que deixa-me, as vezes, “vendo navios”, é claro que isso a primeira vez, provocou-me irritação.

            Recordo-me que era uma das primeiras discussões em roda e eu fiquei em dúvida sobre Transdisciplinariedade, perguntei, é lógico, mas daí você fez outra pergunta, é claro que a dúvida aumentou.

            Bom, o mais engraçado, sabe o que foi? É que eu revirei minha casa toda, bibliotecas atrás dessa bendita Transdisciplinariedade, encontrei e acabei pesquisando sobre coisas “relacionadas”, por exemplo, multiplicidade, interdisciplinariedade, temas transversais...

            O interessante, ainda mais vindo de mim, quando eu acabei de pesquisar tudo isso, comecei a rir, pois nunca na minha vida eu li, fora dos livros habituais, algo que não fosse obrigada e tivesse contida na matéria, só para sabem mais sobre aquilo, achei uma estratégia maravilhosa.

            Porque eu capitalizei minha inteligência para buscar uma compreensão sobre uma palavra que faz parte do meu cotidiano e que se resume em uma palavra, pois conhecia a prática e não o tema que a define.

 

 

RESPOSTA DA PROFESSORA

 

K:

1)      Em primeiro lugar adorei o teu diário, não pelo onteúdo, ma porque você conseguiu fazer transparecer a importância de tê-lo escrito. Por outro lado, o meu objetivo foi atingido no momento em que você resolveu escreve-lo. E quanto aos seus objetivos? O que você me diz?

2)      O que você considera como sendo um aluno que pode ser classificado de “bom”. Será que estamos usando critérios adequados para esta classificação? Gostaria imensamente que você escrevesse um pouco mais sobre o aluno “bom” e o defasado no próximo diário. Estou esperando por isto.

3)      A pergunta que você coloca não ficou muito clara. Creio que faltou uma palavra. Corrija-me se estiver errada, ok? O ensino (processo) deveria ser calcado (baseado) nas estratégias capazes de promover o desenvolvimento do aluno? Se a pergunta for esta realmente, o que você acha disto? Está de acordo com o meu (seu) conceito de aprendizagem? Por quê?

4)      O mais interessante em seu diário é que você não precisa de minhas respostas. Elas estão todas aí! Se conseguirmos fazer com que os alunos encarem as situações de aprendizagem como enigmas e proporcionarmos os instrumentos necessários para sua resolução, sem fornecer, entretanto, as respostas, creio que atingimos nosso objetivo, não é mesmo?

5)      Quanto ao aprender a aprender, é o que tenho buscado produzir em vocês. Você acredita que estou no caminho certo? Porque?

6)      Quanto ao conteúdo a ser ensinado/aprendido temos que focaliza-lo sob dois pontos de vista: É importante que ele esteja presente na “minha” vida, mas nem todo conteúdo necessário no processo de aprendizagem pode ser relacionado ao cotidiano do aluno e nem por isso deixa de ser interessante (e necessário) no processo. O que você diria sobre isso?

7)      Como já disse, as respostas estão todas no seu texto. Disponibilizar o conhecimento para que seja usado em outras situações é um dos objetivos fundamentais do processo de ensino, e realmente fazem a diferença no indivíduo. Como você vê isto acontecendo em sua turma na disciplina Didática? Será que estamos no caminho certo? Não quero que teça elogios mas que avalie criticamente.

8)      Como você creio que atingi meus objetivos. Você ainda tem dúvidas?



[1] Professora Mestre, UNIFAC – Botucatu / Doutoranda, PPGE, Universidade Federal de São Carlos.

[2] Graduanda, 3º ano de Pedagogia, UNIFAC – Botucatu.

[3] Graduanda, 2º ano de Pedagogia, UNIFAC – Botucatu.

[4] Centro Educacional Professor Reinaldo Anderlini, Botucatu – SP.