O ESTUDO DO MEIO COMO METODOLOGIA ALTERNATIVA PARA A FORMAÇÃO CONTINUADA DE PROFESSORES DO ENSINO FUNDAMENTAL

 

Profª Drª Rita de C.A. Braúna – DPE /UFV

 

1.      Introdução e Objetivos

 

Este trabalho de pesquisa é fruto das minhas inquietações com a prática de formação continuada desenvolvida com professores do ensino fundamental - 1ª a 4ª séries -, na área de Ciências. A partir da minha experiência na Universidade Federal de Viçosa, com inúmeros cursos de Ciências oferecidos para professores desse nível de ensino, comecei a me dar conta da dificuldade existente no processo de mudanças nas suas práticas pedagógicas. A literatura sobre a formação continuada de professores tem destacado a presença de resistências a esses processos de mudanças. Como afirma Nóvoa (1995) “ há um efeito rigidez que, num certo sentido, torna os professores indisponíveis para a mudança ” e acrescenta que, “ é verdade que os profissionais do ensino são por vezes muito rígidos, manifestando grande dificuldade em abondonar certas práticas, nomeadamente as que foram empregues com sucesso em momentos difíceis da sua vida profissional” (p.16). A literatura destaca ainda a relevância da prática profissional como elemento constitutivo desta formação (Santos, 1998), a influência das dimensões pessoal e coletiva na configuração da prática docente (Nóvoa, 1997), os aspectos da profissão e da carreira no desenvolvimento do saber docente (Sacristán, 1995) e, também, a importância do contexto institucional em que essas práticas são desenvolvidas (Perrenoud, 1997). A participação durante um ano em um Projeto[1] Interdisciplinar de Formação Continuada me permitiu vivenciar uma nova estratégia para a formação continuada de professores – o estudo do meio. A pertinência de me apropriar do Projeto como objeto de estudo foi se delineando aos poucos, à medida que vivenciava o processo e ia percebendo os efeitos provocados na prática pedagógica das professoras. A natureza interdisciplinar do Projeto também foi outro fator decisivo para a escolha. A necessidade e até mesmo a urgência de uma educação integral humanizadora é defendida atualmente em diferentes partes do planeta, norteando reformas educacionais em inúmeros países.

De acordo com Severino (1989) a interdisciplinaridade nas diferentes práticas sociais, dentre elas a atividade de ensino, é “algo pressentido, desejado e buscado, mas ainda não atingido. Por isso todo o investimento que pensadores, pesquisadores, educadores, profissionais e especialistas de todos os campos de pensamento e ação fazem, no sentido de uma prática concreta da interdisciplinaridade, representa um esforço significativo rumo à constituição do interdisciplinar.” (p.68)

Partindo do pressuposto de que os professores são os sujeitos do processo de formação, este estudo pretende buscar o entedimento do processo de formação continuada desenvolvido pela USP, sob a ótica das professoras envolvidas. Dessa forma, objetiva analisar como as suas vivências no Projeto, particularmente no estudo do meio, articulam-se às suas práticas docentes e ao contexto escolar mais amplo. Nesse sentido, foram levantadas algumas questões norteadoras para a pesquisa: Como traduziram para as suas práticas pedagógicas a perspectiva interdisciplinar que norteou o Projeto? Houve mudanças nas suas práticas ? Em caso positivo, de que natureza? Tais mudanças permanecem ainda hoje na prática pedagógica dessas professoras? Quais as dimensões envolvidas no processo de mudanças? Como as professoras situam o projeto no contexto das suas trajetórias pessoais e profissionais? Quais os limites e possibilidades desse processo de formação?

 

2.      Metodologia

 

Devido aos objetivos desta pesquisa, que procurou compreender a natureza das mudanças introduzidas na prática pedagógica de professoras das séries iniciais do ensino fundamental, a partir da vivência em um Projeto de Formação Continuada desenvolvido numa perspectiva interdisciplinar, buscando identificar dimensões envolvidas no processo de mudanças e os limites do Projeto, entende-se ser o estudo de caso qualitativo a abordagem metodológica mais adequada a este tipo de investigação. De acordo com Lüdke e André (1996), a preocupação central desse tipo de pesquisa “é a compreensão de uma instância singular”. Em outras palavras, isso quer dizer que “o objeto estudado é tratado como único, uma representação singular da realidade que é multidimensional e historicamnete situada.” (p.21)

Para além do entendimento das suas práticas pedagógicas, este estudo procurou lançar um olhar sobre a pessoa do professor pois, como afirma Nias (1991, apud. Nóvoa, 1995), “o professor é a pessoa; e uma parte importante da pessoa é o professor” (p.15) e complementa Nóvoa (op.cit.), “a maneira como cada um de nós ensina está diretamente dependente daquilo que somos como pessoa quando exercemos o ensino” (p.17). A compreensão dos processos de mudanças na prática pedagógica das professoras passa, portanto, pelo entendimento da forma como cada uma delas constrói sua identidade profissional, concebida enquanto um espaço de elaboração de maneiras de ser e estar na profissão.

Os principais sujeitos dessa pesquisa são sete professoras da Rede Pública de Ensino de São Paulo, das séries iniciais do ensino fundamental que participaram de todas as etapas do Projeto Interdisciplinar elaborado pela USP, no período de junho de 1995 a dezembro de 1996.

Como instrumentos de coleta de dados foram utilizadas entrevistas semi-estruturadas e análise documental. O pressuposto de que “a prática profissional pode ser concebida como elemento constitutivo da formação continuada dos profissionais” (Santos, 1998, p.124) e, particularmente, no nosso caso específico, em que a experiência profissional das professoras variava de 13 a 26 anos de magistério, nos orientou no sentido de apreender um pouco dessa vivência profissional. Por isso, a entrevista foi conduzida de maneira bem livre. Apesar da existência de um roteiro básico, houve a preocupação em deixar vir à tona as lembranças e representações das professoras a respeito das suas práticas pedagógicas. Dessa maneira, foi possível apreeder o modo singular de cada uma exercer a docência, ou, segundo Nóvoa (1997), sua “segunda pele profissional.” (p.16)

Com o objetivo de reconstituir o estudo do meio[2] realizado em São Sebastião – cidade localizada no litoral norte de São Paulo – foram realizadas entrevistas com os quatro profesores doutores envolvidos no projeto, responsáveis pelas áreas de Geografia, Física, Química e Biologia. Além desses professores, foram entrevistados: uma coordenadora da Rede Pública de Ensino que coordenou o trabalho de História, um doutorando da Faculdade de Educação, co-responsável pelas atividades desenvolvidas em Física, uma bolsista de iniciação científica que coordenou em um segundo momento o trabalho de Química e um monitor de Prática de Ensino de Geografia, que auxiliou as professoras do ensino fundamental durante o desenvolvimento do Projeto.

Objetivando complementar os dados obtidos pelas entrevistas analisamos documentos de diferentes naturezas: fitas de vídeo sobre o estudo do meio, registro do estudo em fotos e slides, entrevistas realizadas com diferentes moradores de São Sebastião, documentos coletados na Secretaria de Cultura, textos produzidos pelas professoras do ensino fundamental e material didático utilizado pelos professores coordenadores por ocasião do aprofundamento de conteúdos por área de conhecimento[3], entre outros.

Para a compreensão da tradução para a sala de aula da perspectiva interdisciplinar desenvolvida pelo Projeto da USP e a apreensão do seu significado na trajetória profissional das professoras, foram analisados ainda os relatos escritos a respeito dos Projetos Iterdisciplinares[4] elaborados e desenvolvidos pelas professoras nas suas respectivas escolas e fichas de avaliação produzidas em diferentes etapas do Projeto.

 

3.      Resultados

 

A partir da análise das entrevistas e dos relatos escritos pelas professoras sobre os Projetos Interdisciplinares desenvolvidos nas suas escolas, envidencia-se que a tradução para a sala de aula da perspectiva interdisciplinar trabalhada pelo Projeto-USP varia de acordo com a trajetória profissional das professoras, suas preferências, estilos de trabalho e o contexto institucional onde ocorre a prática pedagógica. Foi possível identificar uma diversidade de práticas desenvolvidas pelas professoras na direção da interdisciplinaridade, onde inúmeras dicotomias comumente presentes nas atividades de ensino foram superadas: teoria/prática, reprodução/construção de conhecimentos, conteúdo/método, ensino/vida e obrigação/satisfação. Percebe-se, entretanto, uma dificuldade inicial em promover uma integração mais ampla entre os conteúdos de ensino. No entanto, parace que a vivência obtida durante etapas posteriores do Projeto -USP proporcionou um amadurecimento sobre o sentido da interdisciplinaridade no plano do ensino, que ainda se faz sentir nos dias de hoje. O contexto institucional aparece como aspecto de extrema relevância para o desenvolvimento e continuidade dos projetos pelas professoras. Desta forma, entende-se ser indispensável: o apoio da direção da escola, recursos humanos qualificados trabalhando em equipe e uma infra-estrutura adequada. Além disso, a possibilidade de romper com o trabalho fragmentado que geralmente ocorre nas escolas exige um projeto pedagógico, entendido enquanto um conjunto coerente de propostas e ações em função de finalidadades baseadas em valores previamente explicitados e assumidos, fundados numa intencionalidade.

As falas das professoras revelam o quanto incorporaram da metodologia do estudo do meio para suas práticas pedagógicas:

 

“ Eu nunca tinha feito o estudo do meio. Aprendi a ler a natureza a partir desse projeto...foi bom porque eu aprendi a fazer uma leitura de paisagem, de local, de coisas que passavam despercebidas, tipo de construções” (Profª Maria Júlia, agosto, 1999).

 

“ Uma coisa que me marcou muito foi que aprendi a registrar. A historicidade, o registro das coisas passava batido. Eu fazia pelo instinto, pelo afã.(...) Então, hoje em dia, me vale muito no trabalho” (Profª Isabela, outubro de 1999).

 

“ Eu acho que da viagem que nós fizemos, eu acho assim que mudou meio, ou eu resgatei aquele negócio de observar mesmo, de mexer, esse tipo de solo é diferente desse por causa disso, esse tipo de planta, as rasteiras, as mais altas, que tipo de ser vivo que a gente encontrava nos diferentes tipos de meio...” (Profª Tânia, agosto,1999).

 

Nesse sentido, as análises apontam para a importância do contato direto com um espaço natural/social, articulado a procedimentos metodológicos das diferentes áreas de conhecimento – observação direta, realização de entrevistas, coleta de materiais e documentos, treino de registros de observações, dentre outros procedimentos científicos – para a aquisição de novos conhecimentos e habilidades e ampliação da visão de realidade. Os termos utilizados por elas, referindo-se ao impacto desta atividade nas suas vidas e condutas pedagógicas – marcou, criou raízes, carregou para a vida, despertou, conscientizou –, apontam para o caráter pedagógico e conscientizante desta metodologia, indicando a pertinência da sua utilização num projeto de formação continuada de professores que visa promover mudanças em direção a um ensino voltado para a formação da cidadania.

Quanto aos elementos do processo que possibiltaram mudanças nas práticas pedagógicas das professoras vários aspectos foram destacados: a vivência afetiva e prazerosa, o contato com uma metodologia teórico-prática – o estudo do meio, que favoreceu uma reflexão sobre a prática e gerou uma ação mais reflexiva –, e a dimensão coletiva na produção dos saberes profissionais. Algumas falas são esclarecedoras:

 

“Fomos estudar Astronomia com o Sérgio, e ele mostrando as estrelas e uma noite assim lindíssima, e no mar, no litoral, é muito mais bonito, e nós apagamos tudo, ficamos assim, porque só nós estávamos no CEBIMAR, e assim coisas muito engraçadas, nós colocamos música, assim tudo muito descontraído e muito assim afetivo...” (Profª Isabela, agosto, 1999).

 

“ Estávamos como crianças, excitadas como crianças! Para mim ficou muito as emoções, tava o pessoal que de certa forma estava numa sintonia muito boa...então para mim foi muito de emoção, de estar com um grupo novo, viajando, num outro lugar...” (Profª Tânia, agosto, 1999).

 

“ O grupo cresceu definitivamente nesses meses. E foi muito boa a participação e o interesse de todos nesse crescimento. Mais do que tudo, o grupo esteve sempre coeso e amigo, tornando as horas de trabalho horas de troca profissional e afetiva” (Profª. Jandira ).

 

 Assim, um clima descontraído onde o prazer em construir e compartilhar conhecimentos seja a tônica do trabalho, pode fortalecer o processo de socialização profissional dos professores permitindo que se afirmem como pessoas e profissionais.

 

“ Participar de um projeto na USP foi muito gratificante na medida em que eu pude enveredar por diversos caminhos – caminhos esses que me fortaleceram como pessoa e como profissional – e ao mesmo tempo enriquecer o processo ensino- aprendizagem na série em que trabalho.Posso dizer, com segurança, que passei por uma evolução profissional muito grande, que veio atender aos meus anseios pedagógicos de maneira coerente com a filosofia de trabalho que eu leigamente adotava” (Profª Jandira, ficha de avaliação, junho de 1996).

 

“ Não sabia o quanto cresceria profissionalmente e individualmente com as experiências obtidas através do curso que estamos fazendo. Como professora sempre relutei em aplicar a interdisciplinaridade, mas com a coordenação dos professores integrados ao projeto senti-me segura e gostei da experiência. Senti que fomos valorizadas como profissionais, acrescetando conhecimentos e sentimentos, unindo o grupo ainda mais” (Profª Maria Júlia, ficha de avaliação, 1996).

 

Acreditamos que esse crescimento pessoal e profissional ao qual se referem as professoras tem a ver com a questão de terem percebido o fruto do estimulante trabalho desenvolvido nas suas escolas e, principalmente, por terem sido valorizadas e apoiadas pela equipe do projeto e por outras professoras da rede, na ocasião em que ministraram cursos, no final do segundo semestre de 1996. De acordo com Esteve (1995), “a inovação educativa está sempre ligada à existência de equipes de trabalho que abordam os problemas em comum, refletindo sobre os sucessos e as dificuldades, adaptando e melhorando as práticas de intervenção.”(p.199)

De acordo com Nóvoa (1995), a criação de redes coletivas de trabalho, “é fator decisivo de socialização profissional e de afirmação de valores próprios da profissão docente” (p.26), o que, para esse grupo de professoras, resultou em uma produção coletiva de saberes e, de acordo com Diniz (1998), “uma maneira de enfrentar as dificuldades de uma profissão cujas competências específicas não se dominam.” (p.189)

A partir dessas considerações entendemos, portanto, que essa “reflexão partilhada” sobre os saberes produzidos, possibilitou às professoras repensarem suas práticas pedagógicas, para algumas conferindo a “confirmação” do caminho percorrido e, para outras, indicando novos caminhos a percorrer na direção de uma prática interdisciplinar. A avaliação escrita de uma das professoras é esclarecedora nesse sentido:

 

“Ficamos vários dias organizando, analisando, colhendo materiais para fazermos o relato sobre o projeto e, sinceramente, depois das análises dos outros projetos, das críticas construtivas, eu mudaria vários itens do nosso trabalho, hoje, faria com minha classe um trabalho mais rico e interdisciplinar.” (Profª Tânia, ficha de avaliação, junho de 1996)

 

Este relato vem confirmar a importância do processo de reflexão sobre a prática (Freire, 1996) como importante elemento estratégico para o processo de formação continuada de professores, que pode possibilitar a reestruturação da ação. Nesse sentido, lembramos as indicações de Nóvoa (op.cit.), quando afirma que o processo de formação dá-se menos por uma participação em cursos, seminários e palestras e mais por um trabalho de reflexão crítica sobre as práticas e da “reconstrução permanente de uma identidade pessoal”. E conclui que “por isso é tão importante investir na pessoa e dar um estatuto ao saber da experiência” (p.25).

Ao se trabalhar com os saberes práticos dos professores foi possível mobilizar a pessoa do professor, já que, de acordo com Tardiff e outros (1991) os professores mantêm uma relação de interioridade com esses saberes. Nesse sentido, os saberes que podem criar resistências às propostas de inovação são os mesmos que devem ser mobilizados quando pretendemos atingir a pessoa do professor, proporcionando seu desenvolvimento que é, como vimos, a um só tempo, pessoal e profissional.

 

4.      Conclusões

 

Embora os aspectos apontados no item anterior sejam importantíssimos para a efetivação de mudanças, não podem ser considerados isoladamente, uma vez que, vários fatores contribuem para diminuir a autonomia das professoras, dentre eles o contexto institucional e as relações que nele se estabelecem. Desse modo podemos concluir que, se, por um lado, o processo de mudanças na prática pedagógica das professoras requer a utilização de estratégias de formação continuada que articulem diferentes dimensões – teórico-metodológica, sócio-política e humana –, por outro lado é necessário considerar que essas mudanças para se efetivarem devem ser pensadas num contexto mais amplo.

Os limites do projeto situam-se no âmbito da expansão da perspectiva interdisciplinar para a escola como um todo. Dessa forma, o modelo que considera a escola como locus de formação parece mais adequado a esta finalidade. Isto não exclui, de maneira alguma, outros espaços e modalidades de formação quando se objetiva a aprendizagem de conteúdos e habilidades específicas, como desenvolvido no Pojeto da USP.

Parece-nos que, para uma formação continuada em Ciências no nível de 1ª a 4ª séries do ensino fundamental uma interdiscipinaridade mais metodológica, proporcionada pelo estudo do meio, é bastante interessante e capaz de sensibilizar as professoras a produzir novas perspectivas de ensino para as séries iniciais do ensino fundamental. Parece-nos, também, uma oportunidade bastante apropriada para a aprendizagem de atitudes e valores: o respeito pela natureza, a partir da compreensão do seu complexo funcionamento, a responsabilidade coletiva, a curiosidade, leitura da natureza, visão de mundo, dentre outros aspectos.

Embora não seja possível generalizar os resultados dessa pesquisa, devido a natureza do estudo, parece-nos que algumas indicações podem ser feitas no sentido de subsidiar políticas de formação continuada, condizentes com as reais possibilidades e necessidades de desenvolvimento profissional dos professores.

Um aspecto inicial diz respeito a importância de se levar em conta os saberes da experiência produzidos pelos professores. Dessa maneira, a formação continuada é entendida em um sentido mais amplo, ou seja, trata-se de recuperar como eixo central o conhecimento, de não fazer tábula rasa dos saberes construídos pelos professores durante sua trajetória profissional. Ao contrário, deve-se considerá-los e valorizá-los como núcleo central do processo formativo. Isto não implica na negação da contribuição teórica das diversas ciências, porém uma integração que tenha por base uma reflexão sobre a prática pedagógica concreta, geradora de uma nova ação mais reflexiva. Assim, os professores transformam-se de objetos de políticas educacionais a sujeitos capazes de produzir uma nova profissionalidade.

Outro aspecto a ser considerado é que o discurso teórico, necessário à reflexão crítica sobre a prática capaz de modificá-la deve ser de tal forma concreto que se confunda com a própria prática. Nesse sentido, o estudo do meio enquanto metodologia interdisciplinar parece favorecer caminhos extremamente ricos para o estabelecimento de realções mais estreitas entre teoria e prática e conteúdo e método, que podem possibilitar mudanças na prática pedagógica de professores.

Os resultados da pesquisa evidenciaram por um lado, a importância da troca de experiência entre os professores como importante fator de socialização profissional e afirmação de valores próprios da profissão. Por outro lado, mostraram como a falta de apoio aos professores pode comprometer o desenvolvimento de projetos inovadores. Nesse sentido, seria importante o empenho das Secretarias de Educação para implementar políticas de formação continuada que atendessem às questões demandadas pelas escolas, concedendo apoio financeiro às suas iniciativas. Convênios com universidades poderiam favorecer ações de formação continuada com perspectivas de continuidade e acompanhamento que possibilitasse apoio aos professores para o desenvolvimento de seus projetos. Seria necessário também viabilizar espaços e tempos em que professores de diferentes escolas pudessem socializar suas experiências, constituindo assim novos espaços de formação continuada.

 

 

Referências Bibliográficas

 

DINIZ, M.S. Professor de Geografia pede passagem: alguns desafios no início da carreira. Tese de Doutorado, USP/SP, 1998.

 

ESTEVE, J.M. Mudanças socias e função docente. In: Nóvoa (Org.), Profissão Professor. Lisboa: Porto Editora, LDA, 1995, p.93-124.

 

FREIRE, P. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa, 14ª edição, São Paulo: Paz e Terra, 1996.

 

LÜDKE, M e ANDRÉ, M. Pesquisa em educação: abordagens qualitativas. São Paulo: EPU,1986.

 

NÓVOA, A. Dize-me como ensinas, dir-te-ei quem és e vice-versa. In: Fazenda, I. (Org.). A pesquisa em educação e as transformações do conhecimento, 2ª edição, Campinas: Papirus, 1997, p.29-41.

 

__________. Os professores e as histórias da sua vida. In: Nóvoa, A (Org). Vidas de professores. Lisboa: Porto Editora, 1995, p.11-30.

 

SANTOS, L. L.C. P. Dimensões pedagógicas e políticas de formação contínua. In: Veiga, I. P.(Org). Caminhos da profissionalização do magistério. Campinas, SP: Papirus, 1998, p.123-136.

SEVERINO, A. J. Subsídios para uma reflexão sobre novos caminhos da interdisciplinaridade. Serviço Social e Interdisciplinaridadade. São Paulo: Cortez, 1989.

 

TARDIFF, M; LESSARD, C; LAHAYE, L. Os professores face ao saber: esboço de uma problemática do saber docente. In: Teoria e Educação, nº4. Porto Alegre, RS, 1991, p.215-233.

 

 

 

 

 



[1] Este Projeto, elaborado por professores doutores da USP e desenvolvido em parceria com professoras das séries iniciais do ensino fundamental da Rede Pública de Ensino de São Paulo, aconteceu no período de junho de 1995 a dezembro de 1996. Apresentava como principal característica a interdisciplinaridade, viabilizada pelo estudo do meio onde os conteúdos de Ciências Naturais foram articulados aos de História e Geografia sem a perda da especificidade de cada uma das áreas de conhecimento envolvidas.

[2] O estudo do meio foi escolhido como eixo metodológico para o desenvolvimento do trabalho interdisciplinar envolvendo os conteúdos de Física, Química, Biologia, História e Geografia. Este estudo ocorreu no período de 23 a 25 de junho de 1995.

[3] No período de agosto a novembro de 1995, houve a reelaboração do material coletado e produzido por ocasião do estudo do meio e reflexão teórica por área de conhecimento sobre os conteúdos estudados.

[4] Como contrapartida à bolsa recebida, as professoras deveriam participar das reuniões semanais que ocorriam na USP e implementar projetos interdisciplinares nas suas escolas.