FORMAÇÃO DO PROFESSOR-PESQUISADOR:

UMA CONDIÇÃO PARA A COMPETÊNCIA?

 

 

ELSIENI COELHO DA SILVA

PROFESSORA ÁREA: METODOLOGIA DE ENSINO E PESQUISA EM ARTE

DEART – FAFCS – UFU  

 

 

A condição de formador de professor especialista, tanto em caráter “inicial” quanto o de “formação continuada”, exige uma postura política e ética, além da qualidade formal. O professor, comprometido com uma formação a serviço do bem comum, da democracia e da solidariedade, carece saber pensar, aprender a aprender, avaliar-se e avaliar. Ao assumir uma formação que tem como princípio o questionamento reconstrutivo, essa define o modo de ser, que se completa na metodologia de ensino representada e percebida a posteriori pelo aluno. Representações essas presentes na maneira como o aluno, já na condição de professor especialista, mobiliza os conhecimentos quando ele concebe, estrutura, gerencia, ajusta e avalia sua intervenção.

A forma de ser do professor encontra-se imbuída por sua história de uma educação formal ou não formal. Ou seja, ela reflete o currículo escolar, representante de políticas educacionais e diretrizes didático-pedagógicas, ao qual o professor teve acesso, do ensino infantil ao superior. E ainda, é influenciado por sua história de vida, num contexto sócio-econômico e cultural, constituindo, assim, em habitus. Nesse conjunto de aspectos externos, que determinam uma identidade profissional, muitas vezes são as ações individuais de um professor formador que se tornam significativas para o professor formado.

O professor formador, que assume o seu espaço de decisão para construir uma forma própria de educar e imprimir um novo paradigma pedagógico, como sinônimo de alternativa de ensino, é aquele cuja tendência é tornar-se o responsável principal por mudanças na prática docente de futuros professores, já que, cada sujeito é o móvel da história. O que mostram as pesquisas em relação às mudanças sociais efetivas, em que as mesmas acontecem do indivíduo para o todo. Assim, na concepção de CUNHA

 

 

O primeiro estágio desta mudança será, naturalmente, a consciência da situação e uma inconformidade com ela. O professor precisará de um certo grau de insatisfação com a situação que vive e com o trabalho que desenvolve […] Recuperar a profissionalização significa construir uma nova competência para lidar com as questões educacionais contemporâneas e um desejo de lançar-se na construção do novo, consolidando uma prática pedagógica conseqüente. (In: VEIGA et alii, 1996. p. 124.).

 

O professor terá que ter consciência de que há um espaço de decisão próprio, mesmo estando num contexto de um sistema de ensino com diretrizes políticas e pedagógicas. A própria operacionalização dessas diretrizes traz características individuais que o próprio professor muitas vezes não percebe, tornando-se assim um dos fatores que dificulta assumir e conquistar o seu espaço no meio escolar. Esse é um problema de formação, em que falta o exercício do senso crítico como meio de tomada de consciência e ações alternativas.

Formar um professor profissional para PERRENOUD (2001), não se limita a dotá-lo de domínio de conhecimentos a serem ensinados, dos modos de análise das situações observadas em estágios, dos procedimentos de ensino, mas também faz-se necessário que seja trabalhada a percepção, a análise, a decisão, o planejamento e a avaliação. E ainda, a convicção na educabilidade, o respeito ao outro, o conhecimento das emoções, a abertura à colaboração e o engajamento profissional. Destarte, formar professores que adquiram e desenvolvam competências profissionais e, sobretudo, que suas práticas sejam fundamentadas e refletidas, o que não é tarefa fácil. Assim, uma das variantes possíveis para a análise dessa formação está na abordagem da relação circunscrita entre formador-formando-formador. O que contempla os objetivos dessa pesquisa:

Objetivo Geral – Analisar os fundamentos e estratégias para a formação de professor-pesquisador, bem como as orientações quanto a relação sujeito objeto de estudo, ou seja, o professor como observador participante ou como participante observador, utilizadas por coordenadores de grupos de pesquisa em nível de graduação.

Objetivo Específico Verificar a representação dessa formação, percebida pelo professor-pesquisador na sua prática didático-pedagógica, ou seja, na estruturação e gestão de conteúdos, adaptação aos acontecimentos em sala de aula e na capacidade de análise reflexiva entre teoria-prática-teoria.

Objetivo Teórico –Estabelecer um debate metodológico quanto a interação do professor-pesquisador, tanto o da formação inicial quanto o da formação continuada, com seu objeto de estudo e o significado dessa interação na capacidade do professor em analisar e refletir sobre suas ações no plano didático-pedagógico.

Objetivo Prático – Apresentar um roteiro teórico-prático aos que desafiam a educar e se educar pela pesquisa, acreditando nela como um dos meios para a formação de competências educacionais.

Para a existência de práticas educativas fundamentadas e reflexivas, vem sendo apontado como uma das condições, desde o início dos anos 90, no Brasil, a formação do professor-pesquisador. Uma forma de romper com a fragmentação profissional, em que de um lado encontra-se o professor na condição de operacionalizador e reprodutor de conhecimento e, do outro, o pesquisador como produtor de conhecimento que exercita o questionamento reconstrutivo.

As conseqüências de uma formação fragmentada ficam visíveis em pesquisas de campo, quando professores são indagados sobre os fundamentos teóricos e práticos, os quais dão origem à sua metodologia de ensino. O universo dos professores se divide em três grupos básicos. Grupo A, professores alheios às diretrizes políticas e teóricas atuais em relação ao ensino. A desatualização e a falta de uma formação de autonomia na busca de conhecimento e análise de dados justificam o temor dos mesmos para falar de suas práticas de ensino, que aumenta conforme o tempo de profissão. Grupo esse que possui uma boa representatividade. Grupo B, professores que conhecem as diretrizes atuais para o ensino, em especial por intermédio de cursos de capacitação oferecidos pela instituição vinculada. Ao terem conhecimento, procuram transpor as diretrizes como normas a serem seguidas, resultando em equívocos e fracassos educacionais. Grupo C, professores inquietos, insatisfeitos, questionadores, preocupados com suas ações no contexto das competências de ensino. Entretanto, em sua maioria, de um grupo bastante restrito, fica perdido por falta de orientações metodológicas de como conduzir pesquisas sistemáticas que possam indicar soluções para suas indagações. Uma realidade que tem origem numa educação bancária como expressa FREIRE. Ao fazer do educador um depósito de conhecimentos transmitidos, mantém-se a dependência do mesmo em ações conduzidas, justificando os cursos para uma formação continuada. Formação essa que deveria ser resultante da experiência permanente de reflexões sobre prática cotidiana. Entretanto, a falta de uma formação que privilegia e exercita a autonomia na construção do conhecimento, faz do professor um desconhecedor do processo de construção, que permeia o ensino e a aprendizagem.

A proposta de uma pedagogia libertadora de FREIRE, embora tenha sido construído a partir de experiências de ensino em âmbito “não formal”, não deve ser excluída dessa proposta atual de formação do professor-pesquisador, apesar do próprio termo incomodar-lhe, já que para ele

 

Não há ensino sem pesquisa e pesquisa sem ensino. Esses fazeres se encontram um no corpo do outro. Enquanto ensino continuo buscando, reprocurando. Ensino porque busco, porque indaguei, porque constatei, constatando, intervenho, intervindo educo e me educo. Pesquiso para conhecer o que ainda não conheço e comunicar ou anunciar a novidade. (1996. p. 32.)

 

Pela indissociabilidade entre educação e pesquisa, que para o autor não justifica falar em professor-pesquisador, ele não concebe que ser pesquisador seja uma qualidade ou uma forma de ser ou de atuar que acrescente a de ensinar. Por isso, convida o educador ao exercício permanente da pergunta, da busca e da reflexão de seu ofício. Uma condição para a consciência crítica e a capacidade de se reeducar. Dessa forma, para que a prática cotidiana de sala de aula tenha o significado de formação permanente, torna-se necessário que o professor perceba e assuma, porque professor como pesquisador e saiba utilizar essa formação para formar o educando.

Na concepção de DEMO, entre educação e pesquisa há um trajeto coincidente, mas que também possui singularidade. Dessa forma, algumas de suas características são:

 

ambas valorizam o questionamento, marca inicial do sujeito histórico; enquanto a pesquisa se alimenta da dúvida, de hipóteses alternativas de explicação e da superação constante de paradigmas, a educação alimenta o aprender a aprender, fundamento da alternativa histórica;

 

ambas se dedicam ao processo reconstrutivo, base da competência sempre renovada; enquanto a pesquisa pretende através do conhecimento inovador, manter a inovação como processo permanente, a educação, usando o conhecimento inovador, como instrumento, buscar alicerçar uma história de sujeitos e para sujeitos;

 

ambas se opõem terminantemente à condição de objeto, por ser a negação da qualidade formal e política; enquanto a pesquisa usa a transmissão de conhecimento como ponto de partida e se realiza em sua reconstrução permanente, a educação exige ultrapassar o mero ensino, instrução, treinamento, domesticação; (1998. p. 8 e 9.).

 

Os posicionamentos conceituais desses dois autores – FREIRE e
DEMO –, quanto à educação e à pesquisa, que implica na condição de professor-pesquisador, apesar de suas divergências, se completam. Enquanto a teoria de FREIRE fica limitada à pesquisa como atitude cotidiana do professor, para DEMO ela faz-se necessária juntamente com a pesquisa como resultado específico.

A pesquisa como atitude cotidiana do professor possibilita ler a realidade de modo questionador para reconstruí-la como sujeito competente. A pesquisa como resultado específico tem o caráter de formalização em elaboração de projeto pedagógico, material didático para uso próprio e textos de caráter quase científico. Sendo os dois tipos de pesquisa essenciais na educação e um desafio na educação básica, em que predomina uma prática didático-pedagógica reprodutivista. Para DEMO

 

Educar pela pesquisa tem como condição essencial primeira que o profissional da educação seja pesquisador, ou seja, maneja a pesquisa como princípio científico e educativo e a tenha como atitude cotidiana. Não é o caso de fazer dele um pesquisador ‘profissional’, sobretudo na educação básica, já que não há cultiva em si, mas como instrumento principal do processo educativo. Não se busca um profissional da pesquisa, mas um profissional da educação pela pesquisa. Decorre, pois, a necessidade de mudar a definição do professor como perito em sala de aula, já que a aula que apenas ensina a copiar é absoluta imperícia. (1998. p. 02).

 

Fatores como sobrecarga de trabalho do professor da educação básica ou mesmo a condição de pesquisador participante tem servido como argumento para manter o professor à margem da pesquisa em ensino e consolidar o mito de que pesquisa é privilégio de especialista em pesquisa. Mas quem estará mais habilitado a perceber os problemas cotidianos de sala de aula, a formular questões, a encarar a experiência diária como um conjunto de dados, se não o professor. Para isso, pensar a formação do professor-pesquisador ganha uma dimensão, já que o profissional inserido no cotidiano da sala de aula tem, em mãos, os dados para a pesquisa e lhe falta um preparo metodológico para a sua execução e aprender a construir conhecimento e estilo próprio do modo de ser professor.

A existência desse professor depende da forma como ele, enquanto aluno, foi motivado, e ainda, das experiências imitativas aos avanços na autonomia da expressão própria. Além desses aspectos DEMO

 

Inclui também a capacidade de se expressar, de tomar iniciativa, de construir espaços próprios, de fazer-se sempre presente e participativo, e assim por diante. A atividade reconstrutiva não se esvai no reescrever, mas abrange, num todo só, o desafio de inovar, intervir, praticar. (1998. p. 29.).

 

O conhecimento, ainda que parcial, dos aspectos que devem ser considerados para a formação de um professor profissional, comprometido com uma prática educativa, reconstrutiva, suscita as seguintes indagações: Como conduzir uma prática educativa que forme um professor-pesquisador? Quais os fundamentos e estratégias tem sido utilizadas por coordenadores de grupos de pesquisa em ensino? Qual o significado dessa formação, percebida pelo ex-aluno, na sua trajetória como professor?

Essa última questão envolve tanto a forma como seu orientador conduziu a sua formação de investigador, quanto o próprio objeto de estudo e o lugar que ocupou como pesquisador. Dessa forma o estudo aqui proposto limita-se à prática de formação do professor-pesquisador, o lugar do sujeito e o objeto de estudo numa prática conseqüente e percebida, como estudo de caso.

Embora corra o risco de haver uma má interpretação no sentido de que nessa proposta exista duas pesquisas, uma de origem didático-pedagógica e uma de origem metodológica, é mister frisar que esse projeto de pesquisa traz como concepção o imbricamento dos dois pólos. De comum acordo com MOREIRA

 

A pesquisa em ensino tem, portanto, metodologias e bases conceituais para prosseguir e progredir, mas ainda, assim, há um problema sério a resolver: seu distanciamento em relação à sala de aula. É paradoxal que a pesquisa em ensino seja muitas vezes conduzida em situações de sala de aula e, ao mesmo tempo, seja distante da sala de aula. Ocorre que o pesquisador em ensino é, na maioria das vezes, externo à sala de aula. (1990. p. 87.).

 

Mesmo que o pesquisador fique imerso no ambiente da sala de aula, ele se encontra na condição de observador externo, o que o leva, após o período de coleta de dados, ao distanciamento do universo estudado; conseqüentemente os resultados da pesquisa, mesmo que cheguem aos participantes do processo, ganham maior importância no meio acadêmico e científico. Dessa forma, a pesquisa pouco tem contribuído para mudanças substanciais na prática docente. Nesse caso, MOREIRA não só convida o professor a ser pesquisador mas um investigador de sua prática de ensino, em pesquisas de caráter científico. Essa questão polêmica, que divide opiniões entre os que discutem a metodologia de pesquisa em ensino, exige que o professor formador de professores pesquisadores tenha que assumir um posicionamento na forma como vai conduzir as orientações nesse âmbito. O que justifica, portanto, os propósitos dessa pesquisa.

O objeto de estudo proposto exige uma abordagem qualitativa, podendo ou não utilizar dados quantificáveis. O desafio da pesquisa qualitativa é apreender, sob a ótica daqueles que participam do universo pesquisado, o sentido da experiência vivenciada.

Dentre as estratégias de uma pesquisa qualitativa MONTEIRO define

 

…podem ser ditas investigações qualitativas aquelas cujas estratégias de pesquisa privilegiam a compreensão do sentido dos fenômenos sociais para além de sua explicação, em termos de relação causa-efeito. No caso da educação, a investigação qualitativa visa compreendê-la em termos do seu processo e da experiência humana vivida que este envolve. (1998, p.07).

 

A opção por um estudo de caso, se justifica pela necessidade de um estudo profundo e exaustivo de grupos de pesquisa, que se encontram em condição alternativa, ou seja, fora do currículo acadêmico da graduação. Nesse sentido, faz-se necessário fazer levantamento de dados com três grupos, estando o primeiro definido. O grupo referido é do Departamento de Filosofia da atual Faculdade de Artes, Filosofia e Ciências Sociais / UFU. Ele possui um professor coordenador, enquanto o número de alunos envolvidos e suas origens em relação ao curso de graduação variam. Embora não seja um grupo de pesquisa em ensino e sim um Grupo de Estudo Metodológico (GEM), predomina a participação de graduandos em licenciatura.

O professor coordenador propôs esse espaço alternativa de discussão metodológica para um grupo de origem multidisciplinar, desde 1985. Hoje o coordenador mantém atuante e dos que passaram pelo grupo, existem, professores no ensino básico e superior. Quanto a esses participantes, ainda não estão definidos os critérios de seleção, em relação ao período que tenham sido integrantes do grupo. Desse universo, somente o coordenador do GEM e os participantes que assumiram a atividade profissional de professor, interessam a essa investigação.

A opção pela técnica de coleta de dados, a entrevista semi-estrutura gravada e não a observação, tendo em vista que a primeira permite só o que é percebido pelo professor e não o que é operacionalizado e experienciado pelo aluno, tendo como uma das justificativas o fato da heterogeneidade de áreas específicas de ensino.

Essa é uma técnica que desafia as qualidades e habilidades do pesquisador na forma como conduz as perguntas e as organiza em um roteiro conforme o objeto de investigação. O sucesso depende da experiência do pesquisador e de alguns cuidados, como em relação à atenção flutuante. Conforme LÜDKE

 

O entrevistador precisa estar atento não apenas (e não rigidamente, sobretudo) ao roteiro preestabelecido e as respostas verbais que vai obtendo ao longo da interação. Há toda uma gama de gestos, expressões, entonações, sinais não-verbais, hesitações, alterações, de ritmo, enfim, toda uma comunicação não verbal cuja captação é muito importante para a compreensão e a validação do que foi efetivamente dito. (1986. p. 36).

 

Para o registro desse tipo de dado será utilizado o diário de campo. E ainda, como material de apoio para a elaboração do roteiro da entrevista será lançado mão de documentos, caso existam.

Para a análise de dados serão construídas categorias de ordem teórica e empírica que permitirão o confronto de posicionamentos do universo estudado. Universo esse, que, embora não tenha sido definido os outros dois grupos, torna-se importante para uma análise comparativa de práticas pedagógicas na formação do professor pesquisador e diretrizes metodológicas de pesquisa.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

CUNHA, Maria Isabel. Relação Ensino e Pesquisa. In: VEIGA, Ilma P. A.  (org.) Didática: O Ensino e Suas Relações. Campinas/SP: Papirus, 1996. p. 115 a 126.

DEMO, Pedro. Educar pela Pesquisa. 3ª ed. Campinas/SP: Autores Associados. 1998. (Coleção Educação Contemporânea). 120 p.

FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia: Saberes Necessários à Prática Educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996.

LÜDKE, Menga. Pesquisa em Educação: Abordagens Qualitativas. São Paulo: EPU, 1986. p. 99.

MONTEIRO, R. A. (org.) Fazendo e Aprendendo Pesquisa Qualitativa em Educação. Juiz de Fora: FEME/UFJF, 1998. 413 p.

MOREIRA, M. A. Pesquisa em Ensino: O Vê Epistemológico de Gowin. São Paulo: EPU, 1990.

PERRENOUD, PHILIPPE et alli (org.). Formando Professores Profissionais: Quais as Estratégias? Quais Competências? 2ª ed; Porto Alegre: Artmed, 2001.

SILVA, Terezinha Maria. A Construção do Currículo na Sala de Aula: O Professor como Pesquisador. São Paulo: EPU, 1990. 74 p.