COORDENAÇÃO
PEDAGÓGICA & PROCESSO DE ENSINO APRENDIZAGEM: AS EVIDÊNCIAS DE UM EXERCÍCIO
ACADÊMICO
Érica
Aparecida de Sá[1]
Cristiane
Helena Pinheiro[2]
Jaqueline
Anália Maciel Bessa[3]
Lucilene
Inácio da Silva[4]
Rosa
Cristina Porcaro[5]
Tem-se discutido, nos
últimos anos, em congressos de educação e em literatura específica, a
necessidade ou não da existência, na escola, do Coordenador Pedagógico.
Os autores[6]
que são favoráveis à extinção deste
cargo argumentam que o trabalho docente, na sociedade capitalista, estaria
passando por um processo de proletarização[7].
Nesta perspectiva, o Coordenador Pedagógico assumiria a função de proporcionar
a alienação do trabalho docente, uma vez que este se responsabilizaria pelo
planejamento educacional e o professor seria mero executor de suas
pré-determinações.
Paradoxalmente, existem
autores[8]
que desenvolvem estudos sobre a necessidade e importância da existência do Coordenador Pedagógico no cotidiano
escolar. Segundo estes teóricos, este profissional, na atualidade, é
responsável por uma produção específica, própria e necessária ao
desenvolvimento do processo ensino – aprendizagem, uma vez que sua função é a
de complementar e suplementar a ação do professor, e não a de substituir ou
alienar o trabalho do docente.
Tendo como pressuposto a
realidade acima diagnosticada, propôs-se em um estudo acadêmico, da disciplina
Coordenação Pedagógica, do Curso de Pedagogia/UFV, fazer um mapeamento em duas
escolas - uma particular e outra pública - do município de Viçosa/MG,
buscando-se verificar qual tem sido a implicação da função
específica do Coordenador Pedagógico, nestas escolas, no processo ensino - aprendizagem. Esta
problemática originou algumas indagações como:
·
Qual
tem sido a função assumida pela coordenação pedagógica nestas instituições?
·
Que
tipo de relação tem-se estabelecido entre coordenação pedagógica, docentes e
processo ensino – aprendizagem?
Assim, este artigo tem como
finalidade apresentar os resultados e conclusões obtidos a partir do
desenvolvimento deste trabalho.
II) PERCEPÇÕES ADVINDAS DA
LITERATURA
O artigo Coordenação
Pedagógica & Processo Ensino - Aprendizagem: as evidências de um exercício
acadêmico referenda-se em um trabalho, cujo objetivo principal foi o de analisar
a implicação, no contexto escolar atual, do trabalho do Coordenador Pedagógico
no processo ensino-aprendizagem.
Tendo este objetivo como pressuposto, algumas categorias de
análise emergiram e estas, posteriormente, nos auxiliaram a
compreender/analisar melhor as informações obtidas. Assim, a seguir indicaremos
as percepções advindas da literatura que nos auxiliaram a compreender o
fenômeno em estudo.
SANTOS (1989) em um artigo
intitulado Organização do Processo de
Trabalho Docente: Uma Análise Crítica, desenvolve argumentação no sentido
de negar a necessidade da existência do Pedagogo/Coordenador e aponta que a
Coordenação Pedagógica tem sido o reflexo, na área educacional, da forma pela
qual a atual sociedade capitalista tem se organizado. Ainda de acordo com este
autor, as relações de trabalho estabelecidas pelo sistema capitalista de
produção têm determinado, dentro da escola, a organização e as relações do
trabalho docente. Sobre esta questão, SANTOS (1989: 1) afirma
“ É a estrutura organizacional - nos seus aspectos de divisão de
tarefas, de distribuição hierárquica de poder, de seleção, organização e
distribuição de conteúdos, de distribuição de períodos e horários escolares, de
processo de exame e avaliação, ou de diferentes procedimentos didático -
pedagógico – que condiciona e determina a prática docente”
Em contrapartida, existem
autores que rebatem esta perspectiva de análise, quando argumentam que as
relações de trabalho que ocorrem dentro de uma fábrica, não podem ser
simplesmente transpostas para dentro da escola. Segundo estes teóricos, é
preciso considerar a especificidade da dinâmica da instituição escolar.
Abordando as peculiaridades que interferem diretamente no processo
ensino-aprendizagem, FALCÃO FILHO(1994:42) afirma
“Problemas ligados às características de vida do aluno, a seu ambiente
familiar, às suas relações com os pais, às suas condições de saúde e nutrição;
igualmente aspectos ligados à sua história escolar, seu aproveitamento em
outras séries e outras matérias, suas relações com outros professores e com
colegas; todos esses aspectos, ligados à vida do discente fora da sala de aula,
interferem no seu aproveitamento e, consequentemente no trabalho do professor.”
Assim, é ainda FALCÃO FILHO
(1994:42) quem argumenta sobre a singularidade/necessidade do Coordenador
Pedagógico, quando diz que a produção específica deste profissional advém,
entre outras coisas, da sua contribuição ao processo ensino – aprendizagem, uma
vez que este é responsável por assessorar o professor na investigação das
variáveis psicossociais e político – administrativas que interferem na relação
professor - aluno.
No artigo Supervisor uma análise crítica das críticas,
FALCÃO FILHO (1994:46) ressalta
“ a formação do aluno requer um
conjunto de ações que apenas um docente não pode realizar; portanto o processo de ensino – aprendizagem
não se alimenta exclusivamente da contribuição individualizada de cada conteúdo
ou professor isoladamente; pelo contrário, além dessas contribuições
individuais, há aquelas provenientes do trabalho conjunto de todos os docentes
e destes com os demais profissionais da educação lotados na escola”.
Assim, em termos gerais, a literatura da área tem indicado como função específica do Coordenador Pedagógico, no que tange ao processo ensino-aprendizagem, o assessoramento do trabalho docente. Nesta perspectiva, a Coordenação Pedagógica propicia a melhoria do processo ensino-aprendizagem, uma vez que configura-se como instância facilitadora da relação professor-aluno.
Partindo de uma
discussão teórica promovida pela disciplina Coordenação Pedagógica, do Curso de
Pedagogia/UFV[9], enquanto
alunas, sentimo-nos motivadas a discutir sobre o papel do Coordenador
Pedagógico, no atual contexto escolar, considerando a implicação desta função
no processo ensino-aprendizagem. O interesse em desenvolver o estudo foi
singular, uma vez que este configurou-se como oportunidade de pensarmos
sistematicamente a respeito da profissão que pretendemos exercer.
Optamos por uma abordagem qualitativa dos dados, uma
vez que esta opção metodológica, de acordo com LUDKE E ANDRÉ(1986:13), citando
BOGDAN & BIKLEN, “(...) envolve a
obtenção de dados descritivos, obtidos no contato direto do pesquisador com a
situação estudada, enfatiza mais o processo que o produto e se preocupa em
retratar a perspectiva dos participantes”.
Tivemos como campo
investigativo uma escola pública da rede municipal e uma escola particular,
ambas da cidade de Viçosa / MG. Como
sujeitos, selecionamos um Coordenador Pedagógico e dois professores de cada uma
das escolas estudadas.
Como instrumento, utilizamos
a entrevista semi – estruturada, que nos possibilitou a coleta de um número
maior de informações, em tempo restrito.
Finalizando, ressaltamos
que os resultados obtidos configuram-se
apenas como um olhar inicial e delimitado da realidade, uma vez que este estudo
configura-se como um exercício acadêmico e não como um trabalho de pesquisa.
A partir do contato que
estabelecemos com as escolas, foi possível fazer algumas reflexões sobre a
questão que nos propomos a investigar.
O estudo nos indicou que o cargo de Coordenação Pedagógica
encontra-se em processo de transição. Observamos, durante a análise dos dados,
desde concepções “ingênuas” da profissão, até concepções que situam a prática
do Coordenador Pedagógico numa perspectiva reflexiva.
No que se refere às
concepções ingênuas, os nossos interlocutores afirmaram como funções da
“supervisora”: rodar mimeógrafo; olhar caderno de aluno; fazer planejamento
sem a presença do professor e, até mesmo, segundo uma docente entrevista, a
Coordenadora Pedagógica em nada ajudava o seu trabalho. Estas concepções
permearam as entrevistas, principalmente, dos profissionais que, durante a
realização do estudo, trabalhavam na escola pública. Ressalta-se que estes
sujeitos assinalaram que a relação da Coordenadora Pedagógica com o processo
ensino-aprendizagem, na escola em questão, era superficial.
No que tange às concepções
que situam a prática do Coordenador Pedagógico numa perspectiva reflexiva, os
entrevistados, principalmente, da instituição particular, evidenciaram em suas
falas que o Coordenador Pedagógico
possui uma função diferenciada e necessária na instituição escolar.
Argumentaram que a Coordenação Pedagógica é importante para um melhor
desenvolvimento do processo ensino-aprendizagem, o que evidenciou-se, por
exemplo, na fala da Coordenadora da instituição privada, quando esta afirmou “(...) o meu trabalho possui três dimensões
principais: alunos, pais e professores. Todas estas dimensões, são direcionadas
ao processo de ensino-aprendizagem.”
A opção em trabalhar com
duas instituições tão diferenciadas – uma escola pública e uma escola privada
- configurou-se como uma escolha
paradoxal. A realidade dessas duas escolas eram totalmente díspares, o que
inviabilizou um estudo comparativo. Porém, o trabalho em questão nos permitiu
visualizar duas maneiras diferenciadas de concretizar a prática cotidiana de um
Coordenador Pedagógico; e mais, nos apontou que as condições materiais para
desenvolvimento do trabalho deste profissional, configura-se como uma das
instâncias, entre muitas, que interferem no êxito ou no fracasso deste
trabalho.
A partir do exposto, foi
possível inferir que tanto na escola pública, quanto na privada, a figura do
Coordenador Pedagógico é essencial. Na escola pública, a prática inadequada da
Coordenadora Pedagógica deixava lacunas no processo de ensino-aprendizagem que
poderiam/deveriam ser preenchidas com uma prática mais consciente. Na escola
privada, o suposto êxito deste processo era creditado em parte à ação deste
profissional do ensino.
Atualmente, estamos
vivenciando um tempo de muitas mudanças, via de regra impulsionadas pela
consolidação do sistema capitalista de produção. Esta nova configuração mundial
tem tido reflexos na maneira como ocorre a divisão social do trabalho. No campo
educacional, mais especificamente, não tem sido diferente. As relações de
trabalho, na escola, têm sofrido modificações nas últimas décadas. Porém, isso
não significa que as relações de produção capitalistas que ocorrem na sociedade
possam ser transpostas mecanicamente para dentro da escola, uma vez que esta
instituição é permeada por especificidades.
Assim, se na gênese da
Coordenação Pedagógica, o supervisor era o “fiscal”, o chefe que gerenciava a
produção - tal qual ocorria na indústria - hoje em dia, almeja-se que este se
configure como o que auxilia e contribui para a melhoria do processo ensino-aprendizagem, objetivando uma
educação de qualidade. É nesta perspectiva, portanto, que podemos afirmar que o
cargo Coordenação Pedagógica é necessário no ambiente escolar.
No entanto, o contato que estabelecemos com a realidade nos
indicou que, para se alcançar o papel a que se propõe ao Coordenador
Pedagógico, hoje em dia, existe um longo caminho a ser trilhado, uma vez que o
almejável depende de compromisso social (condições materiais favoráveis para o
desenvolvimento do trabalho) e de compromisso pessoal (comprometimento dos
profissionais da área com a sua profissão)
para ser concretizado.
FALCÃO
FILHO, José Leão M. Supervisão: Uma
análise crítica das críticas. Coletânea vida na escola: os caminhos e o saber
coletivo. Belo Horizonte, p 42-49, mai/94 .
HYPOLITO,
Álvaro Moreira. Trabalho Docente, Classe
Social e Relações de Gênero. Campinas, SP: Papirus, 1997. Coleção
Magistério: Formação e trabalho pedagógico.
LÜDKE, Menga & ANDRÉ, Marli E. D. A. Pesquisa em Educação: Abordagens
Qualitativas. São Paulo, EPU,
1986.
SANTOS, ODER José dos. Organização do Processo de Trabalho Docente:
Uma análise Crítica. Texto apresentado no V encontro de Didática e Prática de
Ensino. 1989.
[1] Estudante do 7º
período do Curso de Pedagogia da Universidade Federal de Viçosa.
[2] Estudante do 7º
período do Curso de Pedagogia da Universidade Federal de Viçosa.
[3] Estudante do 7º
período do Curso de Pedagogia da Universidade Federal de Viçosa.
[4] Estudante do 7º
período do Curso de Pedagogia da Universidade Federal de Viçosa.
[5] Professora do Departamento
de Educação da Universidade Federal de Viçosa, orientadora do exercício
acadêmico.
[6] Dentre os quais cita-se
SANTOS (1989).
[7] Hypolito(1997:85), sobre a
tese da proletarização afirma que: “ (...)
parte do ponto de vista que, o professor é um trabalhador assalariado, que
passa por um processo de desqualificação no qual se identifica perda do
controle sobre o processo de trabalho e perda do prestígio social.”
[8] Dentre os quais cita-se
FALCÃO FILHO (1994).
[9] Universidade Federal de Viçosa.