V CONGRESSO DE CIÊNCIAS HUMANAS, LETRAS E ARTES. OURO PRETO. AGOSTO – 2001. A
INDISSOCIABILIDADE ENSINO/PESQUISA/EXTENSÃO NA ESCOLA SUPERIOR DE
AGRICULTURA E VETERINÁRIA DE VIÇOSA: EXCELÊNCIA ACADÊMICA OU UTILITARISMO? OURO PRETO

AGOSTO/2001
A Indissociabilidade Ensino/Pesquisa/Extensão na Escola Superior de Agricultura e Veterinária de Viçosa: Excelência Acadêmica ou Utilitarismo?
Ellen Scopel Comettiá
Eliane Leandro da Vitóriaá
Maria das Graças M. Ribeiro (Orientadora)á
Introdução
O presente trabalho é parte de uma pesquisa mais ampla que procura investigar se a Escola Superior de Agricultura e Veterinária de Viçosa (ESAV) foi um Land Grant College no Brasil. Tal pesquisa busca compreender em que medida a ESAV incorporou os traços do Land Grant College norte-americano e em que medida esses traços perpetuaram-se naquela instituição. Aqui, trataremos somente de resgatar a memória da ESAV no que toca à associação das atividades de ensino, pesquisa e extensão.
Foi através do resgate histórico, com visitas a campo, leituras e fichamentos de documentos levantados na Biblioteca Central, no Museu e no Arquivo Central e Histórico da UFV, que levantamos um quadro geral do material existente sobre a ESAV, e assim, conseguimos fazer um regaste da trajetória da ESAV, até vir esta instituição a se transformar em Universidade Rural do Estado de Minas Gerais (UREMG), em 1948, a qual, mais tarde, transformou-se em Universidade Federal de Viçosa (UFV).
Primórdios do ensino superior
agrícola no Brasil.
As primeiras instituições de educação superior no
Brasil datam do século XVI, quando cursos de artes e teologia começaram a ser
oferecidos nos colégios dos jesuítas. Ainda que a universidade só aparecesse no
inicio do século XX, alguns cursos foram criados durante o período do Império.
No século XVIII foram criadas “academias” para estudos principalmente da
agricultura. Mais tarde apareceram Hortos Reais (1808), com funções tanto de
pesquisa quanto de ensino e extensão.
Foi a partir da criação do Horto Real que se
iniciou, por parte do governo, a implementação de outros atos voltados para o
ensino agrícola.
A primeira
instituição de ensino superior criada na área de ciências agrárias, no país,
foi a Escola Superior de Agricultura de São Bento das Lages, Bahia, em 1877.
Posteriormente foram criadas a Escola Superior de Agricultura Eliseu Maciel, em
Pelotas, no Rio Grande do Sul, em 1891; a Escola Superior de Agricultura Luiz
de Queiroz, em Piracicaba, São Paulo, em 1901; a Escola Superior de Agricultura
de Lavras, Minas Gerais, em 1908. Só em 1910, com o Decreto n.° 8.319, que
estabelecia a primeira regulamentação oficial para o ensino superior agrícola,
foi criado o primeiro curso de Medicina Veterinária do país, na Escola Superior
de Agricultura e Medicina Veterinária do Rio de Janeiro. Nesse período foram
criadas, ainda, escolas agrícolas de nível primário e médio, destinadas ao
treinamento de filhos de agricultores e de meninos órfãos e desvalidos. Até esta data, as instituições organizavam-se
segundo modelos estrangeiros, ao sabor de quem as liderava.
Entre 1910 e 1929 diversas escolas de agronomia e
veterinária foram criadas. A Escola de Agronomia e Medicina Veterinária de Belo
Horizonte (1914), a Faculdade de Medicina Veterinária de Pouso Alegre e a
Escola de Agronomia e Pecuária de Passa Quatro (1917), a Faculdade de
Veterinária de Juiz de Fora (1924) e, ainda, a Escola Superior de Agricultura e
Veterinária de Viçosa (1926).
A Escola
Superior de Agricultura e Veterinária de Viçosa (ESAV).
Em 1920, o Governo de Minas Gerais criou através da Lei nº 761 a ESAV, cujos objetivos eram: “ministrar o ensino prático e teórico de Agricultura e Veterinária” e “realizar estudos experimentais que concorram para o desenvolvimento de tais ciências no Estado de Minas” (Coelho, 1992, p. 2).
Vale ressaltar que, nos anos 20, a situação sócio-econômica de Minas Gerais apresentava dificuldades que entravavam o crescimento da principal atividade econômica, a agricultura. A esta situação regional somava-se o contexto geral de uma economia agroexportadora, em que o único produto - o café - adquiria “status” de determinação primeira na dinâmica político-econômica nacional.
Foi nesse contexto que as autoridades entenderam
que a criação de uma Escola Agrícola seria uma estratégia política para tentar
reverter à crise com a formação de técnicos para atuarem juntamente com os
agricultores. Desse modo, foi pedido ao Governo Americano a indicação de um
homem para vir superintender a criação da Escola. Assim, foi indicado o Dr.
Peter Henry Rolfs, que chegou ao Brasil em 1921 para planejar a criação da
Escola, sendo seus planos aprovados neste mesmo ano. No dia 10 de junho de
1922, lançava-se a pedra fundamental do primeiro e mais imponente dos edifícios
da ESAV, o “prédio principal”. Pouco antes de sua inauguração oficial foi
aprovado pelo Decreto n.° 7.323, de 25 de agosto de 1926, o primeiro
regulamento da Escola. Após a aprovação desse regulamento, aconteceu a sua
inauguração oficial, em 28 de agosto de 1926.
As aulas foram iniciadas na ESAV em 1927, sendo que o Curso Superior de
Agronomia somente entraria em funcionamento no ano seguinte.
A primeira turma de engenheiros agrônomos, na ESAV, formou-se em 1931, quando era editado o decreto n.° 10.154 que estabelecia um novo regulamento para a instituição. Com a criação desse novo regulamento, a Escola passou a constituir-se por quinze departamentos através dos quais seriam distribuídas as “matérias” lecionadas. Além dessa inovação, o decreto introduzia o semestre, no lugar do ano, como unidade letiva.
O ensino, a pesquisa e a extensão.
A ESAV, segundo o exposto no seu Regulamento, de 25 de agosto de 1926, tinha como característica, ser um estabelecimento essencialmente agrícola que tinha por fim adquirir e difundir conhecimentos relativos “à economia rural”, em todos os seus graus e modalidades. Ela visava formar agricultores com conhecimentos científicos necessários à exploração racional do solo, administradores para os diferentes serviços públicos e particulares que se relacionem com a vida agrícola em geral, tecnólogos para as indústrias intimamente ligadas à agricultura, engenheiros agrônomos para os serviços de melhoramentos agrícolas, veterinários para o exercício da medicina aplicada aos animais domésticos, e professores para o ensino agrícola em todos os seus aspectos e especialidades.
No Art. 2.º, do mesmo regulamento, temos que:
“O ensino ministrado pela Escola, com intuito de educar a população agrícola do Estado em todos os assuntos pertencentes à vida rural e melhorar as suas condições morais, mentais e econômicas, no mais breve tempo possível, será facilitado a alunos com qualquer grau de instrução e deverá ser sempre teórico-prático”.
Sendo assim, os cursos da Escola eram distribuídos em quatro modalidades atendendo ao interesse e nível de instrução dos interessados:
a) Cursos Elementares, com duração de apenas um ano, destinavam-se à formação de agricultores e capatazes rurais, e compreendiam o ensino de agricultura e veterinária com caráter basicamente prático. Atendiam a uma clientela, de agricultores que não possuíam oportunidades de receber instrução mais completa, mas tinham interesse em suprir as necessidades educativas relacionadas à sua vida rural.
b) Cursos Médios, com duração de dois anos, destinados a formar bons técnicos agrícolas e administradores rurais. No último ano de curso, o aluno era orientado a aperfeiçoar matérias referentes ao curso que para ele apresentasse maior utilidade. Este curso atendia especialmente aos filhos de fazendeiros ou agricultores que não tinham oportunidade de freqüentar o curso ginasial.
c) Cursos Superiores que tinham duração de quatro anos, subdivididos em oito semestres e destinavam-se à formação de profissionais de agronomia e veterinária. Atendiam aos candidatos que tinham o curso ginasial completo.
d) Cursos de Especialização, com duração de dois anos, subdivididos em quatro semestres. Este curso destinava-se a formar especialistas em agronomia e veterinária. Atendia alunos formados nos cursos superiores nessa escola ou equivalentes.
Aos concluintes do Curso Elementar eram concedidos o certificados de “Capatazes Rurais”. Aos que terminavam os Cursos Médios eram conferidos certificados de ‘Técnicos Agrícolas”. Aos formandos nos Cursos Superiores eram conferidos diplomas de “Engenheiros Agrônomos” ou “Médicos Veterinários”. Aos formandos do Curso de Especialização eram conferidos títulos de “Doutor em Agronomia ou em Veterinária”.
O Curso Elementar ou Fundamental foi extinto em 1947, “por estar sendo mais usado pelos alunos como mera passagem para o Curso Médio e, portanto, desviado de seus objetivos” (Borges et alli, 2000, p. 21).
É importante ainda mencionar a criação do Curso Complementar, criado em 1º de março de 1937, devido à deficiência do curso secundário em preparar os estudantes para o curso superior. “Esse funcionou até 1943, quando, com mudanças nas leis de ensino, foi extinto” (Borges et alli, 2000, p. 20).
Além desses cursos, o ensino ainda era oferecido por correspondência, por informações pessoais a fazendeiros que se dirigiam a Escola em busca de informações e esclarecimentos sobre questões acerca da agricultura, por publicações feitas pelo estabelecimento e por qualquer outro gênero de divulgação oral e escrita.
Já naquela época eram oferecidas disciplinas obrigatórias e facultativas, sendo que eram necessários alguns requisitos como: solicitação de pelo menos cinco alunos com interesse por disciplina; no máximo quatro aulas facultativas por semana; e as aulas facultativas não poderiam prejudicar o curso obrigatório.
Os cursos acima mencionados eram ministrados por semestres, com o mínimo de oitenta dias letivos.
A ESAV era constituída por quinze departamentos, cada qual com suas respectivas disciplinas. Assim temos o departamento de Agronomia, o departamento de Zootecnia, o departamento de Horticultura e Pomicultura, o departamento de Fitopatologia, o departamento de Solos e Adubos, o departamento de Silvicultura, o departamento de Engenharia Rural (hoje inexistente), o departamento de Clínica Veterinária, o departamento de Economia e Legislação Rural, o departamento de Química, o departamento de Anatomia, o departamento de Microbiologia e Parasitologia, o departamento de Fisiologia, o departamento de Cirurgia Veterinária e o departamento de Matemática e Contabilidade Agrícola.
Em cada departamento eram realizadas pesquisas voltadas para experiências que forneciam soluções aos problemas da agricultura e da pecuária de Viçosa e região.
Essas pesquisas para serem realizadas dependiam da formação dos pesquisadores e dos seus interesses. Num período onde não se recebiam verbas próprias para a pesquisa foi “internalizada a função do ‘professor’ como aquele que ensina, pesquisa e difunde o conhecimento para a transformação da realidade agrícola (...)” (Coelho, 1992, p. 231).
As pesquisas eram dirigidas e executadas pelos professores cathedráticos da Escola. Além disso, cabia aos professores cathedráticos responder pelo ensino teórico e prático do seu departamento. Além desse cargo, existiam ainda os cargos de professor auxiliar e mestre de oficina. Eram no total 27 professores e dois mestres de oficina, sendo quinze cathedráticos e doze auxiliares. Os mestres de oficina desempenhavam papéis importantes nas atividades de ensino, um na oficina de madeira e outro na oficina de metais.
Segundo consta no capitulo XVIII, do Decreto nº 7.323, de 25 de agosto de 1926, artigo 143,
“Nos departamentos adequados da Escola se realizarão experiências sobre plantas e animais, estudos e pesquisas originais com o fim de se descobrirem verdades básicas úteis a agricultura e a pecuária do Estado e se produzirem novas espécies e variedades, com valor econômico”.
Assim, nestes departamentos eram realizadas pesquisas e observações, visando a propagação de novas culturas, de novos métodos, de soluções dos diversos problemas agropecuários encontrados em Viçosa e região.
Foram realizadas pesquisas sobre a saúva, as plantas antileprosas, o feijão, o algodão, o álcool motor, o milho. A título de exemplo citaremos a pesquisa do milho híbrido, que trouxe benefícios para a Universidade, como instituição educacional, e para a economia do país.
Esse milho era obtido através da obtenção de sementes cruzadas, de variedades bastante diferentes, devendo ser, entretanto, semelhantes na cor. Após várias pesquisas descobriu-se que as espécies Catete e Amarelão foram as que apresentaram os melhores resultados. Os métodos utilizados para o plantio e tratos culturais eram os mesmos que para uma cultura comum, até que o milho estivesse prestes a soltar o pendão.
Ao término desta pesquisa observou-se uma desvantagem no plantio do milho híbrido: o milho colhido na grande plantação, proveniente do plantio da semente cruzada, não deveria ser replantado mais; assim, o fazendeiro deveria produzir todos os anos sementes cruzadas novas. Para resolver essa desvantagem foi proposto ao fazendeiro que comprasse anualmente um pouco de amarelão para produzir as sementes cruzadas na fazenda, de um produtor ou estabelecimento idôneo, ou plantado, num pequeno terreno isolado da fazenda, um canteiro exclusivamente destinado à obtenção dessa variedade pura.
Essa espécie de milho sendo de boa qualidade servia para a exportação em larga escala. Também foram observadas algumas vantagens: maior produção por área e resistência a más condições naturais.
É interessante observar que o capitulo XVIII, do Regulamento de 1926, previa, no art. 145, que:
“Na fazenda da Escola serão feitas culturas em grande escala, sendo cuidadosamente observada a parte econômica, com o fim de serem induzidos os lavradores do Estado a applicar os methodos ensinados pela Escola”.
Assim, como a pesquisa apresentou um papel relevante nas práticas desta instituição, a extensão mostrou-se fundamental para levá-la a outras regiões, divulgando as informações dos trabalhos aqui realizados, demonstrando assim a praticidade do ensino aqui ministrado. Desse modo, temos a Semana do Fazendeiro e o Mês Feminino como seus principais representantes.
A primeira Semana do Fazendeiro foi realizada na ESAV em 1929, após grandes esforços de intensa propaganda realizada pelos seus organizadores o Dr. João Carlos Bello Lisboa, o Dr. Jacyntho Soares de Souza Lima, o técnico José Coelho da Silva e o Dr. Joaquim Fernandes Braga, principalmente nos municípios de Rio Branco, Ubá e Cataguases. Assim, a ESAV recebeu, em Junho de 1929, a primeira caravana com 29 agricultores. Estes agricultores são os fundadores da 1ª Semana do Fazendeiro realizada na Escola.
Com a Semana do Fazendeiro, os agricultores vinham receber ensinamentos na Escola de Agricultura e nas Fazendas de Experimentação, através de cursos e palestras direcionadas a problemas do cotidiano dos fazendeiros. Esse serviço de extensão servia ainda para divulgar as pesquisas realizadas na Escola as classes agrícolas em geral. Essas reuniões, que aconteciam todos os anos, traziam os fazendeiros da região à Escola.
“... á Escola ministrará, por essa ocasião, aos agricultores, cursos intensivos e breves sobre grande número de atividades rurais, com a alta finalidade de influir nos seus métodos de cultura e criação, procurando aumentar assim a produção de nossas propriedades agrícolas, infelizmente sujeitas ainda aos velhos processos empíricos e anti-econômicos” (Notícias..., 1944: 297, 8).[1]
Nota-se que, em seus primeiros anos, aumentou-se consideravelmente o número de agricultores presentes nas Semanas do Fazendeiro realizadas por esta instituição. Em 1929, no ano de sua criação, a ESAV contou com 43 inscritos para participarem dos cursos e das programações do evento.
Em 1935, após seis anos de sua criação, o número de inscritos foi de 1.000 agricultores e em 1939, após dez anos, esse número cresceu para 1.096. Através destes dados é possível avaliar o sucesso que essa modalidade do serviço de extensão veio adquirindo com o passar do tempo. Até os dias atuais a Universidade Federal de Viçosa mantém essa tradição esaviana, realizando todos os anos a Semana do Fazendeiro.
Em 1935, foi realizado o primeiro Mês Feminino na ESAV, com o intuito de proporcionar às esposas de fazendeiros alguns ensinamentos práticos sobre a agricultura. Foi através do Ato nº 187, de 01 de dezembro de 1934, que foi criado o Mês Feminino, pelo prazo de 3 anos, “tendo em vista a grande colaboração que a mulher poderá e deverá prestar a causa do desenvolvimento agrícola” (Ato nº 187, de 01/12/1934).
Desse modo, o Mês Feminino, foi criado, segundo seus organizadores, com a finalidade de “estimular as fazendeiras a uma cooperação mais estreita com seus maridos”; “preparar as jovens filhas do campo a construção mais rígida de seus lares”, com as noções da agricultura moderna e ainda proporcionava, desde a infância, o interesse pelos estudos agronômicos. Durante o Mês Feminino eram ministradas aulas práticas sobre vários assuntos possibilitando assim uma maior ampliação do conhecimento nesta área.
Em princípio o Mês Feminino foi organizado com um programa para 3 anos, conforme o exposto no Ato nº 187, porém seu tempo foi prorrogado por solicitação das senhoras presentes ao Mês Feminino, de 1937. Observa-se como, durante seus três primeiros anos, o número de inscrições havia crescido consideravelmente, justificando assim sua prorrogação e seu êxito. No ano de sua criação foram inscritas 212 senhoras; no segundo ano esse número cresceu para 364 senhoras e no terceiro, e a principio último Mês Feminino, a Escola contou com 370 senhoras inscritas. Isso reflete seu grande sucesso na instituição, uma vez que foi o primeiro do gênero organizado em território nacional. Como podemos observar, tanto o Mês Feminino como a Semana do Fazendeiro, foram os primeiros do gênero a serem realizados no Brasil.
Os serviços de extensão realizados na ESAV não param por ai. A sua assistência à lavoura foi notória pelo grande número de consultas a que respondeu anualmente. A Escola contava ainda com a organização de assistência às fazendas, por excursão de seus professores a vários municípios próximos à instituição. Além dessa modalidade de propaganda agrícola, a Escola possuía elevado número de circulares e boletins sobre assuntos técnicos, contendo inúmeras informações para os agricultores. Exemplos de publicações como estas são os “Boletins da Imprensa”. Alguns boletins eram enviados “aos cidadãos ou estabelecimentos, que julgamos poderem aproveital-os; outros são enviados aos jornaes do Estado, para que elles possam, occasionalmente, dar alguma noticia da Escola” (Primeiro Anuário, 1927, p. 27/28). As informações veiculadas nesses boletins são sobre instrução sobre a cultura da Amaryllis, sobre o plantio de mudas de citrus, sobre normas para alimentação de animais.
“O Serviço de Extensão possui já dezenas de circulares de divulgação para agricultores, tem enviado numerosas caravanas de ensino a diversos Municípios e sua expressão culminante – a Semana do Fazendeiro – em que se congregam na Escola agricultores de todas as regiões deste e de outros Estados (...)” (Revista Ceres, Vol. 1, nº1, julho/agosto de 1939).
Após treze anos da criação da ESAV, passou a existir na Escola, pela Ata da Diretoria, nº 126, de 24 de maio de 1939, o Departamento de Educação Rural, responsável pelo serviço de extensão e responsável por todo o serviço de divulgação da Escola, disseminando, com intensidade, os princípios da Agricultura moderna por todos os centros agrícolas do país.
Após a sua criação, o Departamento de Educação Rural ficou responsável por organizar os serviços de extensão da instituição, como a Semana do Fazendeiro, o Mês Feminino, as visitas a campo para estudos e observações e o serviço de propaganda agrícola; atividades estas consideradas fora do perímetro da Escola. E ainda serviços dentro do perímetro da Escola que atingiam diretamente os seus servidores. Eram mantidas escolas diurnas para os filhos de seus operários e escolas noturnas para os trabalhadores da instituição. Desse modo, tornou-se nula a porcentagem de analfabetos entre seus funcionários. Alem desse serviço de instrução, o Departamento de Educação Rural é responsável pela saúde de seus funcionários e pelo bem estar social dos mesmos.
“Organizam-se quinzenalmente vesperais, com o intuito de reunir socialmente o corpo de operários e suas Exma. Família. Esses vesperais realizam-se no Salão Nobre da Escola com interessantes programas” (Livro de Formatura de 1939).
Segundo Pavaglau, então professor do Departamento de Química da ESAV (1940, p. 120), “a ESAV de Viçosa”, foi “a primeira a trabalhar junto aos lavradores, fazendo a agricultura para a Agricultura”. Ainda segundo o autor,
“a ESAV, fundada para servir a lavoura mineira, tratou de subdividir-se instituindo os cursos: elementar, médio, superior de Agricultura e Veterinária, de modo a fornecer todos os profissionais necessários a lavoura, educados no princípio de tudo fazerem pela Agricultura Nacional”.
Para o autor com a criação da SEMANA DO FAZENDEIRO e do MÊS FEMININO, a ESAV completou-se, “difundindo-se ensinamentos em todos os graus e em profusão”. E ainda:
“Ministrando ensinamentos práticos, que constituem a chamada prática agrícola a todos os formados, tornado obrigatórias as numerosas aulas práticas de campos e de laboratório, formou, logo, profissionais, que atuam eficientemente no meio rural”. (Pavaglau, 1940, p. 120).
Vale notar a importância da teoria do “aprender fazendo” como prática de ensino na ESAV. Já pelo Regulamento de 1926, a Escola tinha como finalidade “adquirir e difundir conhecimentos relativos à economia rural”, ou seja, produzir um conhecimento e procurar difundi-lo, de modo que este conhecimento tivesse uma aplicação prática para a economia da região, onde a instituição produtora deste saber estava localizada.
A teoria do aprender fazendo, trazida pelo Dr. P. H. Rolfs da Universidade Estadual de Iowa, propunha um ensino teórico-prático e não só livresco. De acordo com essa teoria os agrônomos colocariam a “mão-na-massa” nas fazendas de experimentação, para levarem assim os ensinamentos adquiridos na Escola à comunidade.
Segundo Rolfs,
“Os educadores modernos reconhecem que as sciencias applicadas figuram entre os elementos mais importantes na instrucção de hoje. Na geração passada, negavam muitos educadores que as sciencias applicadas possuíssem valor educacional” (Rolfs apud Coelho, 1992, p. 33).
O pensamento de Rolfs, como se viu, foi fundamental para a construção da identidade da ESAV. Conforme E. Coelho “Rolfs trouxe de sua ‘alma mater’, ‘Iowa State College’, os princípios básicos de ‘Ciência e Prática’, ‘Aprender Fazendo’” (E. Coelho, 1996, p. 24). Ele foi o responsável por trazer professores do exterior, pela estrutura curricular do ensino na Escola, orientando ainda as pesquisas aqui realizadas. Segundo E. Coelho “tudo respirava Rolfs na ESAV” (E. Coelho, 1996, p. 26).
Considerações Finais.
Cabe considerar que desde a Renascença existiam duas concepções diferentes sobre o valor da ciência. Uma delas é a que considera a ciência como um conhecimento desinteressado, onde afirma-se que o seu valor “encontra-se na qualidade, no rigor e na exatidão, na coerência e na verdade de uma teoria, independente de sua aplicação prática”, e a outra é a que considera a ciência como utilitarismo, afirmando assim, que o seu valor “encontra-se na quantidade de aplicações práticas que possa permitir” (Chauí, 1996, p. 279). Segundo Chauí, nesta concepção, é o uso ou a utilidade imediata dos conhecimentos que prova a verdade de uma teoria científica e lhe confere o valor” (Chauí, 1996, p. 279).
A princípio as duas concepções são verdadeiras, mas parciais.
“Se uma teoria científica fosse elaborada apenas por suas finalidade práticas imediatas, inúmeras pesquisas jamais teriam sido feitas e inúmeros fenômenos jamais teriam sido conhecidos, pois, com freqüência, os conhecimentos teóricos estão mais avançados do que as capacidades técnicas de uma época e, em geral, sua aplicação só é percebida e só é possível muito tempo depois de haver sido elaborada” (Chauí, 1996, p. 280).
Vale notar, como observa Noronha (1998, p. 109) que,
“a perspectiva utilitarista de ciência para resolver problemas imediatos se sobrepõe à formação de uma mentalidade científica, em que a união teoria/prática poderia contribuir para a implantação do modo de entender e de dominar a natureza que ultrapassasse tanto os limites da ciência desinteressada quanto os do utilitarismo estreito”.
Assim, é possível pensar que a pesquisa deu-se, na ESAV, como uma atividade necessária que legitimava a praticidade do ensino, voltando-se para as necessidades da universidade e da região onde estava localizada a instituição, ela também ao tentar resolver problemas imediatos acabava por secundarizar a formação de uma mentalidade científica em seus alunos, de modo que esses pudessem pensar em ciência para além de uma perspectiva utilitarista.
Desse modo, as considerações e análises aqui apresentadas evidenciam muito a ciência utilitária desenvolvida na Escola. Ao analisar as pesquisas realizadas nessa instituição nota-se seu caráter utilitário, voltado para resolver os problemas imediatos dos fazendeiros da região. É interessante observar ainda que o utilitarismo presente na ESAV, apesar de ter passado por todas as esferas do ensino, da pesquisa e da extensão, não impediu que a ESAV pudesse estabelecer um ensino de qualidade aos seus alunos.
Observamos que outras universidades agrícolas tiveram dificuldades em implantar a teoria do aprender fazendo. Algumas devido à falta de espaço físico para a realização de tal atividade, outras ainda, como é o caso da Escola Superior de Agricultura e Medicina Veterinária (ESAMV), atual Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, devido à distância que se encontrava a Fazenda de Experimentação da Escola. Analisando essas dificuldades vemos que problemas como esses não foram observados ou deixados transparecer na ESAV, fato este que facilitou a implantação da teoria do aprender-fazendo, trazida por Rolfs.
Dessa forma, na ESAV, foi a concepção de utilitarismo que prevaleceu em sua trajetória. Isso se deu devido à herança do modelo de educação americana transmitida para nós, por P. H. Rolfs, que veio ao Brasil para planejar a criação da Escola, uma vez que o utilitarismo é uma vertente do pragmatismo norte-americano, que nasceu no seio das instituições dos Estados Unidos.
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