OS CONDICIONANTES HISTÓRICOS DO PROCESSO DE DEMOCRATIZAÇÃO DA GESTÃO ESCOLAR NO MUNICÍPIO DE SÃO PAULO

Alexsandra Zanetti

 

            O presente trabalho destaca alguns aspectos da dissertação de mestrado aprovada no Departamento de Educação da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, cujo objeto de pesquisa foi o processo de implantação das propostas de democratização da gestão escolar na rede municipal de ensino de São Paulo no quadriênio 1989-1992. Partindo de uma breve retrospectiva das concepções político-administrativas predominantes na formalização da rede de ensino do município, foram identificados os condicionantes históricos que contribuíram tanto para um envolvimento efetivo, quanto para a geração de resistências à proposta analisada.

 Tal retrospectiva possibilitou uma apresentação do processo de constituição das instâncias da SME-SP, bem como da organização das escolas (dando ênfase às concepções e práticas subjacentes às propostas oficiais de gestão escolar implantadas de 1956 a 1988), além de pontuar três estilos de gestão : clientelista-vicário, técnico-racional moderno  e autoritário centralizador.

 

O ESTILO CLIENTELISTA-VICÁRIO :

 

             Em 1956,  por meio do Decreto 3185/56, foi criado o ensino municipal em São Paulo, que deveria ser organizado através de “escolas ou classes singulares ou agrupadas”.(Artigo 3)[1]

            O mesmo decreto previa que os professores dessas classes seriam escolhidos por meio de aprovação em provas, dando-se preferência aos candidatos cuja família residisse no município. Mas o fato de a  promulgação do mesmo ter se dado no mês de agosto, quando já se encontrava adiantado o ano letivo, permitiu a contratação, em caráter de emergência, de professores que tivessem o curso normal, “que conseguissem levantar uma listagem com o número mínimo de 40 alunos e assegurassem um local para que a classe pudesse ser instalada. Estabelecia também o decreto que os mesmos profissionais seriam dispensados ao final do ano letivo.”(ADRIÃO, 1995:16)

            Em estudo realizado sobre os fatores condicionantes da estrutura administrativa da Secretaria Municipal de Educação, Fischmann ressaltou que o fato de a instalação das classes ter sido atrelada à admissão de professores gerou uma comercialização de nomeações, chegando ao ponto de algumas pessoas alugarem locais para serem utilizados como sala de aula ou admitirem  a matrícula de crianças menores de sete anos.

            Se, por um lado, a contratação temporária de professores possibilitou a instalação imediata das classes, por outro, sua dispensa  tornou-se um dos primeiros problemas relacionados à política de pessoal da Secretaria.

            Desse modo, segundo Mascaro, o ingresso de um grande número de professores passou a exercer uma pressão eleitoral com objetivo de manter o vínculo criado com o serviço municipal. Daí, decorre a criação da  Associação dos Professores Municipais, cuja primeira reivindicação foi a defesa da manutenção do sistema, constantemente ameaçado de extinção. Em seguida, a luta foi pela efetivação dos professores admitidos a título precário, independente do decreto de criação do ensino municipal estabelecer o ingresso por meio de concurso de provas e títulos.[2]

            Com a mesma urgência com que se criou as primeiras classes, foi criado o Serviço de Orientação Pedagógica e quatro Chefias de Região Escolar. Durante o período de  discussão da criação desses órgãos, começaram a se definir  grupos de interesses. “Alguns preocupavam-se com a feição organizacional e as funções a serem desempenhadas; outros, com a divisão interna do poder e eventuais posições pessoais a serem conquistadas.”(FISCHMANN, 1988:167)

            Os novos cargos administrativos foram ocupados, mediante critérios pouco transparentes, por pessoas aposentadas oriundas da rede estadual e, provisoriamente, por professores recém-contratados.

            A nomeação dos diretores escolares baseava-se, entre outros critérios, em relações de amizade, troca de favores e interesses partidários. Em depoimento concedido à Fischmann (1988), encontramos um retrato da situação instalada na época:  

 

“Houve ainda o caso de um professor que ingressou em fevereiro de 1957 e foi designado diretor de ‘escolas agrupadas’ em maio do mesmo ano. Indagado acerca dos critérios que presidiram essa nomeação, comentou que, embora não tivesse certeza, talvez devesse ao fato de ser jornalista do jornal ‘O Dia’, de propriedade do prefeito eleito, Adhemar de Barros.”

( FISCHMANN, 1988:168)

 

            Passados dois anos do surgimento das primeiras classes, foi criado, através da Lei nº 5607/59, o Departamento de Ensino Primário, que posteriormente daria origem à Secretaria Municipal de Educação. Se, até então, não existia uma estrutura administrativa que pudesse dar  suporte ao trabalho desenvolvido nas classes, com a nova medida, pouco se alterou no sentido de se atender satisfatoriamente às verdadeiras necessidades das escolas.

            Como já vinha acontecendo, ocuparam os novos cargos aqueles professores contratados provisoriamente na fundação do ensino municipal. Esses “pioneiros”, como  se auto-intitulavam, foram efetivados e, à medida em que a rede foi se consolidando, os mais antigos passaram a ter prioridade na ocupação dos cargos dirigentes, inclusive nas escolas,  através de promoções ou de concursos de acesso.

            No entanto, conforme o depoimento dos entrevistados de Fischmann,  pessoas então vinculadas à rede municipal, existiram  muitas disputas pela conquista de cargos e, em especial, pelas  efetivações, quando “estratégias ardilosas” foram utilizadas para impedir que certa pessoa estivesse no exercício do cargo exatamente no dia das efetivações.

            Com a criação do Departamento começou a ser desenhada a estrutura organizativa da SME. Essas estruturas “tornaram-se até meados da década de 70, instâncias onde se exercitava o poder de influência de vereadores e de lideranças políticas de educadores a eles vinculados, o que possibilitou a constituição de feudos onde poucos nomes revezavam-se ao sabor do prefeito indicado.”(ADRIÃO, 1995:17)

            Fischmann destaca ainda as “Chefias de Região” como um meio usado para a consolidação de áreas administrativas , bem como “de poder pessoal , de influência que logo seria capitalizada por algum político ligado a partido.”( FISCHMANN, 1988: 175)

            A partir de então, as modificações na estrutura da Secretaria decorreram de  alterações impostas por leis federais ou da necessidade de amenizar os conflitos gerados em razão da disputa pelo poder.

            Através da reorganização implementada na Secretaria pela Lei 7037/67, o Departamento de Ensino Primário passou a denominar-se Departamento Municipal do Ensino. A principal modificação introduzida na estrutura do Departamento foi a extinção das “Chefias de Região”, que passou para os Inspetores de Região a tarefa de prestar uma assistência regionalizada . Entretanto, para preservar  a remuneração superior dos antigos “Chefes de Região”   foi-lhes concedida uma referência a mais equivalendo ao Padrão “T”, mesmo que estes passassem a ocupar o cargo de Inspetor, cuja referência era  o Padrão “U”.

  

“Como a questão da hierarquia é levada muito a sério em qualquer organização burocrática, e como uma das formas de expressão dessa hierarquia é a remuneração diferenciada, os antigos Chefes de Região não poderiam ter seu ‘status’ modificado em detrimento de seus salários”(Idem:176)

             

            A mesma Lei  determinou a realização  do primeiro concurso público de provas e títulos para orientador pedagógico e para professor,  dez anos após a criação do ensino municipal. Até aquele momento, o concurso para professor foi voltado para aqueles que já atuavam na rede.

             Foi com a Lei 7693/72 que o preenchimento dos cargos de primeiro e segundo escalões tornou-se de livre provimento pelo prefeito ou Secretário de Educação, acabando com a prática de  promoção entre os educadores da rede.

            Em 1975, a Secretaria de Educação e Cultura  foi desmembrada pela Lei 8204/75, tornando-se duas Secretarias. Com essa medida a Secretaria Municipal de Educação passou a organizar seu quadro de pessoal, instituindo a carreira do magistério.

            Ao ser instituído o primeiro Regimento Comum das Escolas de Primeiro Grau -  Portaria 5697/75, as unidades escolares sofreram um processo de reestruturação administrativa. De acordo com o Regimento, a direção da escola era  composta pelo diretor, “especialista” com habilitação em Administração Escolar. Este deveria coordenar, promover e supervisionar todas as atividades desenvolvidas na sua respectiva unidade escolar.

Eram considerados  como Pessoal Técnico Administrativo:

·      Diretor.

·      Assistente de diretor - designado pelo Secretário de Educação  para assessorar e realizar todas as tarefas delegadas pelo Diretor.

·      Auxiliar de diretor - designado pelo Diretor para realizar o que lhe fosse delegado.

·      Secretário da escola.

 

            Os demais “especialistas” (Assistentes Pedagógicos e Orientadores Educacionais) deveriam planejar, coordenar e controlar as atividades didáticas. Já os professores deveriam participar na elaboração e execução do planejamento, avaliando o processo ensino-aprendizagem.

            Os usuários do sistema escolar, representados pela Associações de Pais e Mestres (APM), deveriam segundo o Artigo nº 56, “auxiliar, moral e materialmente a direção e representar, junto a esta, as aspirações dos pais”. Também deveriam recolher e fiscalizar a aplicação das contribuições financeiras dos pais.[3]

 

“Permeavam o projeto de organização das escolas os pressupostos  de hierarquia e centralização encontrados em toda a organização da Secretaria. A organização e o controle das atividades escolares eram atribuição exclusiva da ‘chefia imediata’, no caso, o diretor.”(ADRIÃO, 1995:20)

 

            Em 1978, por força do Decreto Municipal nº 15002/78, ocorreu a  unificação de todos os níveis de ensino anteriormente ligados a diferentes departamentos da Secretaria Municipal de  Educação. Como complementação dessa medida, a Portaria nº 477/79 assim reestruturou os órgãos centrais da referida Secretaria :[4]

 

·      Superintendência Municipal de Educação (SUPEME) - respondia  pela operacionalização administrativa da Secretaria;

·      Departamento de Planejamento, Orientação e Controle (DEPLAN) - responsável pela elaboração e orientação pedagógica. Controlava os bens e serviços encaminhados às escolas.

·      Departamento de Assistência Escolar (DAE) - respondia pelas ações assistenciais.           

 

            Foram também instituídas cinco Delegacias Regionais de Educação Municipal (DREMs), órgãos intermediários  de âmbito  regional, cuja função era fiscalizar e acompanhar o desenvolvimento da política educacional nas escolas sob sua jurisdição.       

            A nova configuração dada à Secretaria vinha mais uma vez atender aos interesses dos “pioneiros” do ensino municipal, designados para os cargos de chefias dos novos órgãos.  Criado o ensino municipal, a criação irá, daí por diante, conduzir a ação dos criadores”.[5]

 

            Em concordância com a afirmação acima,  Fischmann chama de “criadores” todos os políticos envolvidos na elaboração e aprovação das leis. Porém sua pesquisa lhe permitiu ainda observar “que os verdadeiros autores da Lei são seus beneficiários - com o que se travam verdadeiras lutas internas, caracterizando um clima interno de beligerânça. “[6]

            Para a citada pesquisadora, no discurso formal, os verdadeiros objetivos, ou seja, os individuais, não eram explicitados, mas camuflados por aqueles voltados para as “condições de funcionamento da rede”, leis que “beneficiem a todos”, a melhoria dos padrões de ensino.

            Assim, as leis aprovadas contemplavam os  interesses dos quadros políticos e  técnicos com trânsito de influência nos poderes  Executivo e  Legislativo:  

 

“Outro Delegado afirmou que estava habituado a reunir, em seu gabinete, sempre que preciso, alguns vereadores, para explicar-lhes o que deveriam votar. Completou dizendo que ‘sem apoio político ninguém faz nada’.”(FISCHMANN, 1988:197)

 

             Passados mais de vinte e cinco anos durante os quais a organização e o funcionamento da rede municipal se estruturava em função dos interesses privados de pessoas e grupos, era chegado o momento de garantir melhores condições de aposentadoria. Daí, decorreu a criação de cargos e de órgãos como um recurso para conquistar uma melhor remuneração na aposentadoria.

            A implementação do Regimento Comum das Escolas Municipais (Portaria nº 9517 de 30/12/82) [7] manteve a direção das escolas centrada na figura dos diretores escolares. Esses deveriam planejar, organizar, coordenar e controlar as atividades desenvolvidas.

            A novidade trazida pelo Regimento de 1982 foi a implantação dos Conselhos de Escola, nesse momento ainda de caráter consultivo. Os Conselhos de Escola possuíam a seguinte configuração:

·      Diretor -presidente e membro nato;

·      Assistente de Diretor - membro nato;

·      Assistente Pedagógico - membro nato;

·      Orientador Educacional - membro nato;

·      Secretário Escolar - membro nato;

·      Professores - eleitos por seus pares e representados de acordo com o número de séries;

·      Usuários - representados pelos pais, em um número correspondente ao  número de turnos de funcionamento da escola, sendo eleitos por seus pares.

           

            Essa configuração privilegiava a representatividade da burocracia escolar,  uma vez que o não estabelecimento de critérios de paridade ou de proporcionalidade lhes permitia ser maioria no Conselho de Escola.

            Quanto às suas atribuições, o Conselho encontrava-se restrito a auxiliar e acompanhar o trabalho desenvolvido na escola,  mas o poder de decisão continuava com o diretor. A esse respeito, vejamos o que dizia o Artigo nº 15, assim sintetizado por Adrião:

 

As atribuições do Conselho de Escola limitavam-se ao assessoramento da direção escolar em suas decisões e ao fornecimento de subsídios que facilitassem a  fixação das diretrizes e metas de atuação da escola, à  resolução de impasses de natureza administrativo-pedagógica, à discussão de critérios para aplicação dos recursos financeiros da escola ( arrecadação da APM ) e à assistência aos educandos. Além dessa assessoria cabia ao CE apreciar os relatórios anuais da escola e opinar nos casos de transferência compulsória de alunos em virtude de problemas disciplinares.”( ADRIÃO, 1995:27) 

 

            A todos os trabalhadores da escola, às instituições auxiliares (Associação de Pais e Mestres e Centro Cívico Escolar), bem como ao Conselho de Escola, cabia, além de cumprir suas funções específicas,  auxiliar e  prestar contas ao diretor.

            O Regimento estabelecia que o projeto pedagógico de cada escola, consubstanciado no Plano Escolar, seria elaborado pela equipe escolar e coordenado pelo diretor, com base nas normas e prazos estipulados pela SME. Até mesmos os aspectos pedagógicos ficavam submetidos à direção. Essa, por ocupar o posto mais alto na hierarquia da escola, tinha plenos poderes para avaliar e até mesmo modificar as práticas pedagógicas  da escola.

            No período de implementação do Regimento de 1982, ocupavam os cargos de chefia, nas instâncias da SME, os “pioneiros” do ensino municipal, como vinha ocorrendo desde o início da sua estruturação. Diante dessa constatação, Adrião concluiu que:

 

“a permanência desses profissionais por longos períodos em cargos de comando, que não de provimento efetivo, vincula-se à adoção de mecanismos de resistências que culminam na negação de qualquer dado novo que venha a interferir no estado de coisas então instituído.”(Idem: 28)          

            Como visto, as reformas na estrutura da SME e das escolas, a criação de cargos de chefia e muitas das medidas legais caminharam, desde a criação do ensino no município até o início da década de 80, em consonância com os interesses das lideranças político-partidárias locais e municipais.

            Tal  processo caracteriza o estilo clientelista-vicário,  tendo como “pano de fundo” o clientelismo político.      Nesse estilo de gestão educacional, o clientelismo manifesta-se principalmente enquanto critério adotado para o preenchimento de cargos, inclusive o de diretor escolar, que, nessa perspectiva, é nomeado segundo os interesses de quem possui um mandato político. Em muitos casos, essa nomeação resulta da soma de interesses clientelistas ao estabelecimento de alguns requisitos técnicos, como habilitação específica ou tempo de serviço.

“De qualquer forma, ela encerra sempre um alto grau de subjetividade, propiciando um sem número de injustiças e irregularidades, já que não existe um critério objetivo, controlável pela população, que, além de garantir o respeito aos interesses do pessoal escolar e dos usuários, possa também evitar o favorecimento ilícito de pessoas,  ferindo o princípio da igualdade de oportunidades de acesso ao cargo por parte dos candidatos”(PARO, 1991:150)

        

             Além da ausência de democracia no acesso ao cargo, a nomeação permite ao diretor indicado nele permanecer por um longo período, dependendo do grau de influência do partido ou do político que fez sua indicação. Outro fator determinante para a garantir sua permanência no cargo é a manutenção dos compromissos firmados com seu fiador político. Esse então tende a ser o verdadeiro compromisso do diretor.

            Desse modo, a nomeação favorece o fortalecimento do partido ou do político que faz a indicação. As pessoas nomeadas para os cargos de chefia das Secretarias de Educação e das escolas podem se transformar em fiéis cabos eleitorais, bem como fazer das unidades escolares verdadeiros “currais eleitorais”.

             Essa situação acaba  anulando as possibilidades de participação dos educadores e de usuários na gestão da escola,  pois, de acordo com Dourado, fica inviabilizada “a abertura de canais legítimos de participação, na medida em que o diretor prescinde do respaldo da comunidade escolar, trabalhando, pois, numa situação em si, instrumentalizadora de práticas autoritárias”. [8]

        

O ESTILO TÉCNICO-RACIONAL MODERNO

 

            A partir de 1983, a rede municipal de ensino de São Paulo começou a vivenciar as primeiras tentativas de democratização da gestão. Nessa ocasião, assumiu a prefeitura paulistana Mário Covas Júnior, indicado pelo Governador eleito Franco Montoro, ambos vinculados ao Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB), partido identificado como oposição ao regime militar instaurado em 1964.

            As eleições diretas para governadores  ocorridas em 1982, após quase vinte anos de ditadura militar, apontaram a vitória do PMDB em nove estados brasileiros.Porém, a eleição para prefeitos não ocorreu nas capitais e nos municípios considerados área de segurança nacional, como foi o caso de São Paulo, sendo os mesmos nomeados por seus  respectivos governadores.

A sociedade brasileira vivia um momento de abertura política,  iniciado ao final da década de 70. Diversas entidades se opunham ao regime militar e lutavam por melhores condições de vida e pela democracia.No campo educacional ocorreram movimentos por melhores condições de trabalho dos educadores, pela expansão e melhoria da qualidade da escola pública em todos os níveis, aliados a um movimento pela democratização das instituições educacionais.

            Nesse contexto, o PMDB apresentava-se como partido de oposição que propunha uma reorganização da sociedade brasileira. Entre seus objetivos, estavam a defesa da democracia, da participação da população na vida política brasileira e o combate à miséria e ao desemprego. Para a concretização das reformas pretendidas, o partido estabeleceu algumas metas, como a democratização do ensino. Porém, como nos adverte Barone:

 

“Não podemos esquecer que tanto o partido, o PMDB, quanto sua proposta de educação não se apresentavam como alvo de uma mudança estrutural e sim uma reorganização da sociedade brasileira. A educação é entendida como um dos aspectos que deve contribuir para essa reforma.” (BARONE, 1992:16)

 

            O novo grupo  que assume a SME nesse momento, coordenado pela então Secretária Municipal de Educação, Guiomar Namo de Mello, tinha como referência uma trajetória acadêmica e de militância no PMDB;  trazia em seu discurso a “defesa do ensino público, a democratização do acesso à escola e das relações internas ao sistema educacional, a melhoria da qualidade de ensino e a valorização do magistério.”(NOGUEIRA e SILVA, 1995: 223)

            Inicialmente, este grupo de educadores se preocupou em fazer um diagnóstico das condições em que se encontrava o ensino municipal. O levantamento revelou a existência de um ensino municipal de “baixa qualidade, elevadas taxas de evasão escolar, insuficiente remuneração do pessoal docente, instalações deterioradas e mal aproveitadas, precárias condições administrativas e pedagógicas, ausência de materiais para o trabalho escolar, falta de programas adequados de aperfeiçoamento e reciclagem do magistério, inexistência de comunicação interna entre os diferentes órgãos, entre as escolas e também entre a escola e a comunidade.” (Idem: 224)

         O estudo também denunciava a desarticulação nos órgãos da SME, a presença de práticas autoritárias e clientelistas, enfim, todo o estado de coisas já apontados anteriormente no item 2.1. Em documento oficial, a SME avaliava que a tentativa de modificar a situação encontrada implicava em mexer em uma estrutura que “sofreu a nível da administração central uma dinâmica de relação de poder pessoal que transformou setores e órgãos em espaços fechados, privados de grupos e de pessoas que trabalhavam em função de seu próprio projeto não de um projeto educacional comum.” (SÃO PAULO-SME, 1983a: 11 )

            A partir do diagnóstico, a SME apresentou propostas de reestruturação da carreira do magistério, de reformulação do regimento das escolas, de reforma currícular e  medidas para dinamizar o acesso as informações. Os sindicatos e o pessoal docente municipal reivindicaram maiores informações e o debate dessas propostas antes de sua efetivação.

            Em sintonia com os princípios de participação e descentralização da nova administração, foram divulgados,  na rede, materiais informativos e realizados encontros para discutir tais propostas. Cabe destacar que algumas dessas discussões ocorreram com a participação das entidades sindicais, prática, até então, quase inexistente.

            Entre essas medidas do novo governo, ressalta-se a elaboração de um novo Regimento Comum das Escolas Municipais, que adotou uma dinâmica diferenciada das anteriores, desta vez  buscando incorporar educadores e usuários da escola municipal  nesse processo.

            Inicialmente, foi composto um grupo de trabalho com vinte e cinco pessoas, cuja função era de coordenar as consultas feitas às escolas e sistematizar os resultados obtidos sob a forma de um documento. A discussão da proposta foi impulsionada pelas DREMs em maio de 1985, quando a direção das escolas e os professores, tomando como referência o regimento em vigor, destacaram pontos que dificultavam o trabalho escolar e ainda aqueles que necessitavam de alterações, visando superar tais problemas. Ainda no final do mesmo mês, as DREMs receberam e sintetizaram as propostas para o Regimento gestadas nas escolas,  posteriormente enviadas ao grupo de trabalho.

            O mês de junho foi reservado para a sistematização das sugestões oriundas das escolas e para a elaboração da proposta de Regimento pelo grupo de trabalho. A apreciação dessa proposta pela rede de ensino ocorreu durante as duas etapas do 5º Encontro de Educadores. Na primeira etapa, realizada entre 23 e 26 de julho, os diretores e demais especialistas reuniram-se com suas respectivas DREMs, para discutir e receber esclarecimentos sobre a proposta. Em uma segunda etapa, compreendida entre 29 e 31 de julho,  os mesmos diretores e especialistas coordenaram a discussão da proposta nas escolas,  neste momento envolvendo todos os segmentos da comunidade escolar.

            Em seguida, cada escola elegeu de três a quatro representantes, sendo um deles pai de aluno, para, juntamente com as equipes das DREMs, trabalharem na tabulação das sugestões apresentadas. Após a tabulação, esse material foi encaminhado ao grupo de trabalho, quando se redigiu a versão final do Regimento a ser enviado ao Conselho Estadual de Educação para  sua apreciação e aprovação.    A SME justificou o fato de os dados tabulados não terem retornado às escolas para uma nova discussão, alegando a não existência de tempo hábil, pois o Regimento deveria ser aprovado até o mês de dezembro, quando encerraria aquele governo.

            Somente no início de dezembro, a minuta do Regimento foi enviada e aprovada pelo CEE, através do Parecer nº 1.944. Desse modo, o novo Regimento foi  instituído pelo prefeito Mário Covas, mediante o Decreto nº 21.811 em 27 de dezembro de 1985, já nos últimos dias de seu mandato.         

            Como foi dito, a dinâmica adotada visava a participação da comunidade escolar  no processo de elaboração do Regimento. Ainda que o tempo tenha sido pouco para as escolas  analisarem e apresentarem sugestões, esta foi uma tentativa inédita na história da rede municipal, em especial pelo envolvimento dos alunos e pais.

             As discussões ocorridas nas escolas deram-se sem a presença de representantes da direção da SME. No entendimento de Adrião, tal situação:

 

“ por um lado permitia que o debate ocorresse sem constrangimentos, por outro não assegurava que de fato ocorresse, possibilitando que as consultas e discussões ficassem restritas aos que delas possuíam informações, o que na maioria das vezes correspondia às equipes técnicas.” (ADRIÃO, 1991:30)

           

            Para Adrião, a não-garantia da presença dos usuários nas discussões pode ter contribuído para o predomínio, nelas, de conteúdos corporativos, “que em momentos de mudanças teimam em imperar”.

            Quanto às mudanças introduzidas pelo Regimento relacionadas à gestão escolar, merece destaque a instituição dos conselhos de escola com caráter deliberativo. Em consulta realizada na rede municipal, predominou a posição contrária ao caráter deliberativo do conselho. Apesar de tal resultado, a administração manteve sua posição na versão final do Regimento.[9] 

            Segundo Nogueira e Silva, na primeira consulta feita nas escolas no período de elaboração do Regimento, até mesmos os diretores haviam encaminhado às DREMs propostas de modificação do caráter do conselho - de consultivo para deliberativo. Na avaliação das autoras, foi no decorrer do processo de discussão que as resistências à participação da comunidade usuária na gestão da escola foram manifestadas:

 

Tudo indica que, durante este processo, alguns diretores sentiram sua autoridade ameaçada, fato que os levou, até mesmo, a impedir que a nova proposta chegasse a seus professores, funcionários, alunos e pais.”  (NOGUEIRA e SILVA, 1995:245)

 

            Nesta gestão, modificou-se também o perfil dos ocupantes dos principais cargos da SME,  por estar no poder um setor que se posicionou de forma contrária em relação às  administrações anteriores. Encontravam-se nos cargos pessoas afinadas com os princípios do PMDB e cuja  ligação com a rede municipal não se deu por critérios clientelistas mas  normalizadores.

            Contrários às práticas clientelistas predominantes na história da rede, este grupo enfatizava a competência técnica enquanto critério para ocupação dos cargos no âmbito da escola. Isto era sendo este considerado um mecanismo de combate ao clientelismo.  O concurso público passou a ser defendido como o melhor instrumento para verificar a competência técnica dos candidatos aos cargos, inclusive para o cargo de diretor escolar.

 

“Evidencia-se que de um lado a SME se dispunha a uma “abertura”, representando tal postura um avanço importante frente à realidade vivida, até então, pelo ensino municipal. De outro lado, talvez por acreditar que competência / conhecimento e “saber fazer” podem ser medidos por concursos, ou talvez por não ter a intenção de questionar a escola enquanto instituição, o Regimento garantia que o diretor chegasse a este  cargo por concurso público, numa alusão ao fato de ser esta uma das formas eficientes de combater o clientelismo.”(BARONE, 1992:80)

 

              A partir da adoção do concurso público, espalhou-se na rede de ensino “o discurso tecnocrata baseado na “ neutralidade” dos concursos e na sua condição privilegiada para aferir a qualificação profissional, prejudicando a percepção do conteúdo político de algumas funções e a implementação,  nesses casos de novos procedimentos”. (ADRIÃO, 1991:90) 

              O concurso público pode ser um bom instrumento para selecionar funcionários públicos para o exercício de funções que pressupõem conhecimentos técnicos específicos. Embora apresente algumas imperfeições, não há necessidade de descartá-lo, “ trata-se, muito mais de se aperfeiçoarem os procedimentos adotados na realização dos concursos, apurando as técnicas de medida de desempenho e incluindo entrevistas, estágios probatórios e outros mecanismos que lhe incrementem a eficiência”.( PARO, 1996:20)    

            Desse modo, o mesmo autor, concordando com Dourado, afirma que o ingresso do educador no sistema de ensino deve se dar por meio de concurso de provas e títulos, acrescentando ainda que nem por isso deve-se priorizá-lo como critério para introduzir o  educador na função de diretor, nem mesmo adotá-lo como critério suficiente para tal. [10]

 

“Quando se trata da escolha do diretor da escola pública, no Brasil, é preciso ter bem claro o tipo de desempenho que se espera do futuro ocupante do cargo e saber se o concurso isoladamente tem condição de aferir a presença da aptidão necessária nos candidatos.”(Idem:21)

 

            Nesse sentido, parece que o concurso público era a modalidade de escolha para o cargo de diretor escolar mais compatível com a visão dos dirigentes da SME, devido à importância dada a seu aspecto técnico, em detrimento de seu aspecto político.

 

“Por outro lado, se se pretende um diretor com funções mais propriamente políticas, não é a aferição do conhecimento técnico em administração a que se precisa proceder, mas à escolha, dentre os educadores escolares, daquele com maior comprometimento político e capacidade de liderança diante do pessoal escolar, dos alunos e dos pais. E a isso o concurso não se presta.” (Idem:23)

 

            O concurso, por si só, também apresenta a limitação de não favorecer o estabelecimento de um compromisso entre o diretor e a população usuária, pois contribui para  reforçar a ligação deste com o Estado de onde provém sua sustentação legal. Pesa  ainda nessa situação o fato de o concurso propiciar a estabilidade no cargo.        

            Quanto à crença no caráter democrático do concurso, baseada na igualdade de oportunidades oferecida aos candidatos, há de se considerar uma particularidade quando se trata de concorrer à direção de escola, porque, nesse caso, somente o candidato desfruta da democracia. Após sua aprovação, “o diretor escolhe a escola, mas nem a escola nem a comunidade podem escolher o diretor.”(PARO, 1992:44).         

            Nesse período, a tentativa de se alterar a situação em que se encontrava o ensino municipal  enfrentou dificuldades advindas das características históricas da rede. Em documento oficial de 1983, a  SME assim avaliou essa questão :  

 

“O pior resultado deste processo no qual o autoritarismo e o clientelismo eram gêmeos inseparáveis, foi o medo de assumir posições e críticas que pudessem ameaçar postos que, na ausência de processos mais democráticos, só poderiam ser conquistados por meio de favoritismo pessoal. Esse medo, em muitos casos, tornou-se matéria-prima do descompromisso com as mudanças necessárias para realizar (mos) uma educação mais democrática e voltada para o interesse da maioria.”(SÃO PAULO -  SME, 1983 a:12)

 

            Além das características históricas da rede, a proposta de gestão foi também limitada pelas concepções da própria direção da SME. Acreditava-se na competência técnica dos envolvidos no processo educacional como solução para a problemática do ensino público.  Através da competência técnica, o educador acabaria incorporando o compromisso político com as mudanças necessárias, à democratização da sociedade.  

 

“Não que essa premissa não fosse necessária, mas, do ponto de vista da democratização das relações no interior da escola, o compromisso político não se encontra necessariamente atrelado à competência técnica, bem como o processo de democratização é fruto de conquistas e não de dádivas.”(ADRIÃO, 1995:30)

 

            A valorização da competência técnica colocava em destaque o papel dos especialistas como os mais indicados para elaborarem o Plano Escolar, isto é a proposta pedagógica da escola, bem como para integrarem as equipes técnicas da SME e das DREMs. Daí, porque o Regimento não previa a participação dos usuários,  por meio do Conselho de Escola, na elaboração do Plano Escolar.

 

 “(...) a comunidade poderia interferir, apenas em questões para as quais tivesse “competência” para opinar, o que não se aplicava a natureza mesma da escola; qual seja, a garantia do acesso ao conhecimento sistematizado. Para isso existiam os especialistas”.( Idem:31)

 

            Apesar de, em seu discurso, a SME ter defendido a participação dos usuários na gestão da escola através do Conselho de Escola, na prática, esse segmento continuou afastado dos processos decisórios, porque, de acordo com os pressupostos desse governo, eles exigiam conhecimentos de natureza muito mais técnica do que política, ao contrário da visão de Paro, para quem : 

 

“É como mecanismo de controle democrático do Estado que se faz a necessária presença dos usuários na gestão da escola. Para isso, o importante não é seu saber técnico, mas a eficácia  com que defende seus direitos de cidadão, fiscalizando a ação da escola e colaborando com ela na pressão junto aos órgãos superiores do Estado para que este ofereça condições objetivas possibilitadoras da realização de um ensino de boa qualidade.”(PARO, 1991:487)

             

            É importante considerar ainda que a participação representava um dos pilares da proposta do PMDB. Todavia, ela “aparece como algo que pode ser “concedido” à população tendo em vista que o retorno se daria sob a forma de legitimação concreta das ações do governo”(BARONE, 1992:30)

            Finalmente, ressalta-se o investimento feito, neste período, na formação de professores, através de  oferecimento de cursos e da publicação e divulgação de uma revista onde se discutia temas educacionais. Esta parece ter sido a maior contribuição dada ao ensino municipal neste período, sob a inspiração da idéia da competência técnica.

            De acordo com o relatado, a gestão de Mário Covas representou um período de rompimento com os procedimentos clientelistas fortemente presentes na história da rede municipal. Tais procedimentos foram substituídos pela adoção de critérios técnicos para o ingresso aos cargos.

            Foi uma fase em que se buscou uma maior abertura nas relações escola/ comunidade e escolas/órgãos superiores, muito embora as experiências participativas se limitassem à mera legitimação das decisões tomadas por aqueles mais tecnicamente capacitados .  

            Ao analisar  as mudanças ocorridas na SME,  Adrião assim se manifestou:  

 

“Do ponto de vista da estrutura da Secretaria, mudaram os personagens mas não a máquina. A estrutura hierárquica manteve-se inalterada, embora nos discursos oficiais a ênfase no necessário aumento de autonomia das escolas frente à administração central fosse constante.”  (ADRIÃO, 1995:36)

        

            Tal processo caracteriza o estilo técnico-racional moderno, cujos traços centrais são a ênfase na qualificação técnica para ocupação de cargos hierarquicamente superiores e a garantiria da participação dos cidadãos nos processos de definição das políticas públicas.

 

 O ESTILO AUTORITÁRIO-CENTRALIZADOR:

 

            Em 1986, assumiu a prefeitura de São Paulo, Jânio da Silva Quadros vinculado ao Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) e candidato vitorioso nas eleições municipais de 1985.

         Entre as primeiras medidas tomadas pelo governo janista, estava a revogação do Regimento Comum das Escolas Municipais, recém-instituído pelo governo Mário Covas. Com tal medida passou, novamente a vigorar o Regimento de 1982, implantado durante a gestão de Reynaldo de Barros.

            Na mesma ocasião, a Secretaria Municipal de Educação (SME) passou novamente por uma reforma administrativa, que a  unificava à Secretaria da Família e do Bem Estar Social (FABES), tornando-se, por meio do Decreto nº 21.862, de 15/01/86, Secretaria Municipal de Educação e do Bem Estar Social (SME-BES). É importante destacar que todas as unidades que constituíam as duas antigas secretarias foram mantidas, criando-se uma secretaria gigantesca, sem ocorrer alterações na sua estrutura:

 

“Na supersecretaria então criada somente foram juntadas as estruturas que aglutinassem as ações comuns e que direcionassem essas ações em torno de políticas e diretrizes abrangentes. Ou seja, a secretaria tornou-se inadministrável na medida em que não se reformulou a estrutura.”(MAIA et al.,  1995:138).

 

            As cinco Delegacias Regionais de Educação Municipal (DREMs) foram ampliadas para um número de dez (Decreto nº22.657/86), mantendo-se  subordinadas à Superintendência de Educação (SUPEM), que, como o Departamento de Planejamento e Orientação (DEPLAN), sofreu alterações em sua estrutura, funções e divisões (Decreto nº 22.503/86. e Decreto nº 22.365/86). Tais alterações ficaram restritas aos setores responsáveis pela infra-estrutura administrativa, não privilegiando, assim, às ações voltadas para dar suporte ao trabalho pedagógico das escolas:

 

“As reorganizações ocorridas nos órgãos centrais serviram apenas para readequar estruturas, na busca de melhor eficácia das ações, sem, entretanto, resultar em dinâmica que propiciasse condições de apoio e retaguarda à atividade educacional que se processava nas escolas.”

(Idem:138)

 

            À frente dos cargos hierarquicamente superiores da SME,  estavam novamente parte dos “pioneiros”do ensino municipal, buscando resgatar seu poder e influência política, que haviam sido ameaçados durante o governo anterior.

            Após experimentar as primeiras iniciativas no sentido de democratizar a gestão, a rede municipal passou a conviver com as medidas autoritárias e centralizadoras que caracterizaram o governo Jânio Quadros. Toma-se, como exemplo, o recolhimento, pelo novo governo, de todos os materiais enviados às escolas durante o governo Covas.   

            Do mesmo modo, a rede não era informada sobre a política educacional , muito menos se falava em participação da comunidade escolar na elaboração e definição das ações implementadas na escola.    

            Havia uma excessiva valorização da hierarquia, ficando a tomada de decisões, no âmbito da escola, centrada na figura do diretor, aqui visto como um gerente, cabendo ao Conselho de Escola atuar de forma consultiva, como pode ser confirmado em documento oficial do período:

“O que é evidentemente inviável é dar ao Conselho de Escola um pretenso papel deliberativo, numa estrutura em que o Diretor  de Escola é, por tal, aquele que responde, em última instância, por todas as ações desenvolvidas em sua escola. Esta administração valoriza, como vem ocorrendo já há vários anos, o CE em seu papel consultivo de órgão de indispensável acessoramento à Direção de Escola, com representatividade legítima da equipe escolar e da comunidade a que serve.”   [11]

 

            A posição contrária ao caráter deliberativo dos Conselhos foi manifestada pelo Secretário de Educação do governo Jânio Quadros, em entrevista realizada antes mesmo de iniciar seu mandato. Para Paulo Zingg, a escola deveria “liderar e não ser submetida à comunidade” [12]

            Nessa ocasião, foi criado o Conselho Municipal de Educação - CME ( Lei nº 10.429). Em seu pouco tempo de duração, o CME não foi uma instância onde se decidiu questões relevantes do ensino municipal. Mesmo assim, o governo Jânio tratou de utilizá-lo como seu “aparelho governamental”, conforme o comentário de uma professora e líder sindical do período: 

“ O CME do Zingg era assim o seu br000aço na SME, pessoas nomeadas por ele, indicadas por ele , que trabalhavam para ele, faziam exatamente a leitura de legislação que ele queria, era uma assessoria ampliada”.

 

            A administração janista  não adotou medidas de valorização do professor, tanto  nos  cursos de formação quanto na melhoria das condições de trabalho. Não havia disposição de dialogar com a entidade representante da categoria, bem como era reprimida qualquer tipo de manifestação contrária à política do governo. Nesse sentido, é bem ilustrativa a situação narrada pela  entrevistada anterior:    

 

“Para o Jânio professor bom, eu repito era professor “morto”. Professor sindicalizado, que pensasse e que falasse qualquer coisa ele advertia no Diário Oficial, xingava e ofendia. Uma vez, quando eu era presidente da APEEM, atualmente SINPEEM, eu mandei um ofício para ele, ele respondeu o ofício no Diário Oficial dizendo que eu era uma marxista e que ele não falava com marxista, mas que  ele publicaria como exemplo para mostrar quanto comunista tinha escondido nesta rede.”

 

            Apesar das características autoritárias e repressoras daquele governo, os professores se organizaram através da Associação de Profissionais da Educação do Município de São Paulo - APEEM, e em 1987, fizeram a maior greve da história do ensino municipal. O movimento durou dezenove dias e teve como principais reivindicações a melhoria salarial e uma maior abertura nas relações internas da escola e nas instâncias da SME.

            Foi solicitada aos diretores escolares a relação dos educadores paralisados. Aqueles que se negaram a fornecer foram  suspensos, transferidos ou colocados em disponibilidade. Foram ainda demitidos cerca de dois mil profissionais contratados, bem como foram abertos centenas de processos administrativos requerendo a demissão de profissionais do quadro efetivo.

“Por parte dos educadores e escolas, contrários à orientação janista, além da greve de 19 dias, encontrava-se um jogo de “burla” à política implementada e revolta surda frente ao autoritarismo exercido: era folclórico a existência de um tal senhor, conhecido como “Joãozinho Malvadeza” que, chegando nas escolas de surpresa, cortava o ponto dos professores que haviam esquecido de assiná-lo, ou mesmo que haviam chegado com 2 ou 3 minutos de atraso”. (ADRIÃO, 1995:39)

                       

            Como exposto, a gestão de Jânio Quadros caracterizou-se por práticas autoritárias e centralizadoras. Houve, na sua gestão um excessivo controle burocrático das escolas e nenhum espaço para a participação dos profissionais da escola e seus usuários. Esses elementos constituíram o estilo autoritário-centralizador predominante na história do ensino municipal no período de 1986 a 1988.   

 

CONCLUSÃO

 

            A presença de relações clientelistas predominantes na rede municipal durante as primeiras décadas de sua história contribuiu para que os rumos do ensino municipal fossem decididos de acordo com interesses privados de grupos e pessoas ligadas à sua fundação. Essa situação favoreceu a manutenção do poder e da influência de pessoas que se tornaram resistentes a qualquer proposta ou medida capaz de alterar tal situação.    

            Em contrapartida, durante a gestão de Covas iniciou-se um período de combate às práticas clientelistas, mediante a adoção do concurso público como critério para se ter acesso aos cargos. Com essa medida, fortaleceu-se na  rede  um  discurso sustentado no caráter neutro dos concursos, bem como na sua eficiência para selecionar os mais tecnicamente capacitados. Por conseguinte, enquanto em muitos sistemas estava sendo adotada a eleição de diretores, facilitando a discussão sobre o caráter político dessa função, na rede municipal de São Paulo ela foi desviada para sua dimensão técnica. Este fato se apresentou como um dos motivos da resistência dos educadores à idéia de eleição para os cargos técnicos, defendida no ante-projeto de Estatuto do Magistério elaborado na gestão petista.

            Ao privilegiar a dimensão técnica em sobreposição à dimensão política, a gestão de Covas, na prática, acabou por excluir dos processos decisórios a população usuária, certamente o setor mais atingido por tais decisões. A participação reduzia-se ao acompanhamento e legitimação do que era definido pelos detentores do saber técnico. Com esse caráter, as experiências participativas desse período não estimularam o crescimento de uma cultura participativa entre os agentes da comunidade escolar, gerando inclusive uma certa desconfiança na viabilidade da proposta petista de participação.  

            Se, por um lado, a defesa do caráter deliberativo do Conselho de Escola representava um avanço na postura dirigentes da SME e para o aprofundamento da democratização no interior das unidades escolares, por outro, sua manutenção na versão final do Regimento  não refletia a posição manifestada pela rede, mas a da administração. Tratava-se de um caso  de “democracia”  imposta e de desrespeito à democracia participativa. Os dirigentes da SME, enquanto governo, assumiam a postura de quem sabia o que era melhor para a população.

            Esse procedimento parece estar fundamentado na visão que possuíam, naquele momento, o PMDB e os próprios dirigentes da SME sobre o  papel do Estado nas políticas sociais. Acreditava-se na capacidade do Estado de promover as mudanças necessárias para se consolidar uma sociedade do bem-estar social.

            Contudo, deve-se levar em conta o fato de os partidos de oposição terem permanecido à margem dos cargos executivos durante todo o período de ditadura militar estarem naquele momento, assumindo por via de eleição, alguns governos estaduais. Assim, era natural a crença desses setores de que, assumindo o controle da máquina estatal, seria possível desenvolver uma política voltada para o atendimento das demandas das classes populares.  

            Quando a rede municipal começou a vivenciar suas primeiras experiências democratizantes, ainda bastante limitadas, perdeu-se a possibilidade de lhes dar continuidade   com o  inicio da gestão de Jânio Quadros.

            A gestão de Jânio certamente pode ser considerada um retrocesso no processo de democratização na medida em que impossibilitou a instituição do Conselho de Escola deliberativo, reimplantou legislações arcaicas, valorizou a hierarquia e o controle burocrático, usou de autoritarismo no trato com os servidores municipais e decidiu monocraticamente os rumos da política educacional. Este quadro, somado ao descaso para com as políticas sociais, uma vez que a administração tinha como prioridade a realização de obras viárias gigantescas, e à  falta de transparência  no trato com o público, concorreu para a instalação na rede de um cenário de  apatia e desconfiança, encontrado pelo Partido dos Trabalhadores.

            Percebe-se que, desde o início da gestão petista, havia uma grande expectativa da rede, como um todo, com relação às possíveis mudanças a serem implantadas pelo novo governo. Tal expectativa pode ter sido gerada pelo fato de se estar  iniciando um período de  transição de um governo onde havia uma valorização muito grande da hierarquia, do poder centralizado, para um governo recém-eleito sob o respaldo de um programa de governo democrático e popular

           

BIBLIOGRAFIA

 

ADRIÃO, Theresa. A gestão democrática nas escolas da rede municipal de ensino de São

      Paulo, São Paulo, 1995. Dissertação de Mestrado, FEUSP.

BARONE, Rosa E.M. A proposta educacional da SME-SP para o  período  de  1983 / 1995

      e sua prática em uma escola da  rede: um estudo de caso,  São Paulo, 1992. Dissertação

      de Mestrado, PUC/SP.

FISCHMANN, Roseli.  Estrutura administrativa  da  Secretaria  Municipal  de  Educação

       da  Prefeitura do Município  de  São Paulo (  um  estudo  de  fatores  condicionantes).

       Estudos e Documentos, FEUSP, v.29, 1988.

MAIA, Eny; CRUZ, Neide; RAMOS, Maria L.São Paulo: a experiência da gestão educacional

       na Secretaria Municipal de Educação no período 1989-1992. In: XAVIER, Antônio C. da

       Ressureição et. al. Gestão educacional: experiências inovadoras. Brasília, IPEA, 1995.

PARO, Vitor. Participação  popular  na  gestão da escola pública, São Paulo, 1991. Tese de

      Livre-docência, FEUSP.

_____. Participação  da comunidade na gestão democrática da escola pública. Série Idéias

      São Paulo, FDE, nº 12, p.39-47, 1992

_____.  Eleição  de  diretores:  a  escola  pública  experimenta  a  democracia.  Campinas,

        Papirus, 1996.      

SILVA,  Rose  N.  da   &   NOGUEIRA,  Madza  J. Novo modelo  de  gestão   educacional:  o

     município de São  Paulo  no  início  dos  anos  80.  In: XAVIER,  Antônio  C.  da  R.  et al.

     Gestão educacional: experiências inovadoras. Brasília, IPEA, 1995.

 

 

 

 



[1] O atendimento educacional no município tem início em 1931, através do Serviço Municipal de Parques Infantis                                             (Ato nº 767, de 09/01/30), subordinado diretamente ao gabinete do prefeito até 1935, quando foi criado o Departamento de Cultura e Recreação (Ato nº861, de 30/05/1935).A partir da década de 40, o ensino manteve-se através de convênios firmados entre o governo estadual  e municipal.

 

[2] Carlos Correa Mascaro. O município de São Paulo e o ensino primário (Ensaio de Administração Escolar), São Paulo, Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP, Boletim nº 211-nº 5, 1960,  apud., Roseli Fischmann, p.167

[3] Theresa Adrião, A gestão democrática nas escolas da rede municipal de São Paulo: 1989-1992,  p.21.

[4] Ibid., p.22.

    Salvo pequenas diferenças, esta foi a organização administrativa da SME encontrada pelo Partido dos                Trabalhadores.

[5]  Carlos Mascaro citado por Roseli Fischmann, op. cit.,  p.194.

[6] Roseli Fischmann, Estrutura administrativa da Secretaria Municipal de Educação do município de São Paulo     (um estudo de fatores condicionantes), p.194.

[7]A Portaria nº 9517 / 82 instituiu o Regimento Comum das Escolas de 1º grau.

 

[8] Luís Fernando Dourado. Democratização da escola: eleições de diretores, um caminho? . Goiania , UFG/FE ,  1990, dissertação de mestrado,  apud Vitor Paro op. cit., p.16.

[9]  Para maiores esclarecimentos à respeito dos conselhos escolares, tal como foram instituídos pelo Regimento de 1985 ver item 2.4 deste trabalho.

[10]  Vitor Paro,  op. cit., p.21.

[11]  São  Paulo. Prefeitura Municipal. Secretaria Municipal de Educação - SUPEME. “Plano de Ação”. p. 7-8.

[12]  Jornal Folha de São Paulo - 13/12/ 85 apud Teresa  Adrião, op. cit., p.35.