Possibilidades e Limites da Ação do Supervisor Educacional no Cotidiano
Escolar do Município de Viçosa-MG.
Márcia Ferreira Rocha[1]
Essa pesquisa, teve como objeto central de análise, a
prática cotidiana dos supervisores pedagógicos, bem como seus limites e
possibilidades de ação. Atualmente, existem diversas correntes de pensamento
que se propõem a discutir a função e a atuação do supervisor nas diversas áreas
pedagógicas. A origem da Supervisão no Brasil está ligada aos acontecimentos
históricos internacionais, oriundos da guerra fria na disputa de poder entre os
blocos capitalista e socialista. Neste contexto, os Estados Unidos firmam
diversos acordos com os países latinos. No campo da educação, tais acordos
deram origem, entre outras coisas, à Supervisão Educacional no Brasil, surgindo
em Minas Gerais, através do Programa de Assistência Brasileira Americana ao Ensino
Elementar (PABAEE), sendo posteriormente implantada nos demais Estados
brasileiros, com o objetivo de controlar e fiscalizar o sistema de ensino. O
presente estudo teve como objetivo analisar a função oficial do supervisor, bem
como sua ação real no ambiente escolar a partir da ótica dos professores de
escolas municipais de Viçosa/MG.
O estudo foi realizado em três escolas do ensino
fundamental, tendo como sujeitos três supervisoras e dezoito professores em
exercício nessas escolas. A partir das orientações teórico-prática da pesquisa
qualitativa, utilizou-se como instrumento de coletas de dados o levantamento
documental e bibliográfico, observações, questionários e entrevistas, com o
intuito de analisar a prática quotidiana das supervisoras a partir de suas
relações com os demais atores do processo educacional. O uso desses
instrumentos metodológicos constituiu-se num procedimento importante para a
realização dessa pesquisa, por tratar-se de recursos necessários para conhecer
e confrontar a realidade vivenciada no cotidiano escolar por seus diferentes
sujeitos.
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Referencial
Teórico
Este
projeto tem como objetivo analisar a função oficial do supervisor/coordenador
pedagógico, bem como sua ação real no ambiente escolar a partir do olhar dos
professores de algumas escolas municipais da cidade de Viçosa - MG.
Atualmente, existem diversas correntes de pensamento
que se propõe a discutir a função e a atuação do supervisor/coordenador nas
diversas práticas pedagógicas. Neste contexto, dois autores se destacam: José
Falcão Filho e Oder José dos Santos.
O primeiro autor defende a supervisão a partir de uma
nova prática do supervisor, pois este precisa ter uma consciência de sua
competência política, humana e técnica dentro da escola:
''Essas três competências interagem entre si, e se
interpenetram num processo circular e em qualquer situação em que se encontrar
o supervisor, ele deverá ser capaz de utilizar as três competências, pois em
primeira diz respeito ao lugar teoricamente demarcado pela superação entre os
trabalhadores do ensino e os meios de trabalho e a organização do processo de
trabalho, cujo lugar deve ser preenchido pelos gestores do processo de ensino,
isto é, por aqueles que têm por função produzir os procedimentos
técnico-pedagógicos e organizar e controlar o processo de trabalho docente. A
segunda decorrente da primeira, refere-se ao fato de, usualmente, esses
procedimentos técnicos na sua mais ampla acepção serem considerados como
neutros" (FILHO, 1987: s/p).
A origem da supervisão no Brasil está ligada aos
acontecimentos históricos internacionais. Os Estados Unidos e a extinta União
Soviética, em disputa pelo poder mundial, declaram a Guerra Fria, onde o mundo
passa por uma bipolarização: de um lado o Bloco Socialista e do outro, o Bloco
Capitalista.
Os Estados Unidos, temendo uma expansão dos países
socialistas, traçam planos de ajuda aos países da América Latina. O Brasil, em
1957, tinha como presidente Juscelino Kubitschek, quando começou a funcionar
oficialmente os acordos de ajuda firmados entre o MEC (Governo de Minas Gerais)
e pelo diretor da United States Operation Mission to Brazil. Dentre estes
acordos, surge em Belo Horizonte a Supervisão Escolar, através do Programa de
Assistência Brasileira Americana ao Ensino Elementar (PABAEE).
A capacitação dos professores brasileiros, para a
implantação dos cursos de formação de supervisores, era realizada a partir de
um intercâmbio entre o Brasil e os Estados Unidos, onde iam para se
especializarem.
Faz-se necessário ressaltar que não ocorreu uma
preparação adequada dos profissionais da educação na implantação da supervisão
escolar no Brasil, visto que o material didático utilizado nesta preparação não
era de acordo com a realidade do país.
Cabe-nos questionar porque o sistema educacional
brasileiro precisava de um especialista como este que garantisse a inserção das
ideologias do Estado no mesmo. Este período da história brasileira é marcado
pelo conflito entre burguesia e proletariado. Neste sentido, a educação é vista
enquanto um perigo pela burguesia e um instrumento de libertação para o
proletariado. Assim, a educação era vista como algo que deveria ser controlado,
manipulado em prol da manutenção dos interesses da classe dominante,
minimizando os conflitos sociais através de uma série de ideologias que buscavam
a conformação das massas, concretizando a hegemonia liberal.
A educação é um aspecto de uma totalidade social
desse mesmo antagonismo que ocorre no setor de produção, dentro do sistema
capitalista gerado pela bipolaridade: controle X não controle, propriedade X
não propriedade dos meios de produção. Neste contexto, a educação passa a ser
instrumento de dominação pela divisão entre os que sabem e os que fazem
(NOGUEIRA, 1989:22).
É assim que a postura fiscalizadora dos supervisores
passa a não ser aceita pelos professores, nas escolas, pois estes se sentiam
vigiados em sua prática, e desvalorizados quando o supervisor lhes impunha qual
o conteúdo que deveria ser ministrado e como este deveria ser. Mas é pertinente
ressaltar que a figura do supervisor foi projetada ideologicamente para ter
conotação de inovadora, modernizadora, introdutora de novos métodos e técnicas
de ensino. A supervisão por si só já condiciona um modelo de relação
autoritária, prejudicial aos objetivos educacionais, já que esta relação se dá
num contexto organizacional, no qual o supervisor ocupa uma posição de mando em
relação aos professores (FILHO, 1987:31).
Ainda hoje, encontra-se supervisores com a mesma
postura fiscalizadora, controladora da época do seu surgimento aqui no Brasil,
e por causa desta destorcia entre as suas funções oficial e real, é que vários
autores defendem a sua extinção, pois estariam as escolas gastando além do
espaço físico, dinheiro com um profissional que deixa lacunas em seu trabalho
desenvolvido. Além disso, qualquer outro profissional da educação estaria
habilitado para realizar o trabalho do supervisor, com competência.
Mas será que realmente se faz necessária a extinção do
supervisor e de um curso de formação de especialistas da educação, ou apenas
uma mudança de conduta e filosofia destes? De acordo com a resolução n0
7.150 de 16 de junho de 1993, da Secretaria da Educação do Estado de Minas
Gerais art. 10 "É papel específico do Especialista de Educação
(Supervisor ou Orientador Escolar) articular o trabalho pedagógico da escola,
coordenando e integrando os trabalhos dos coordenadores de área, dos docentes,
dos alunos e de seus familiares em torno de um eixo comum: o
ensino-aprendizagem pelo qual perpassam as questões do professor, do aluno e da
família".
“Só o pedagogo, com sua formação ao mesmo tempo abrangente e
específica, não só do processo ensino-aprendizagem, mas também de todo o
processo educativo desenvolvido pela escola, tem condições de coletar e
classificar as informações decorrentes da vida dos alunos e de suas famílias e
do contexto político-sócio-econômico no qual vivem. Essas informações são
fundamentais para o sucesso do trabalho docente” (FILHO,1987:32).
Tendo como referência esta Resolução da Secretaria de
Estado de Minas Gerais, qual outro profissional, além do supervisor escolar,
estaria realmente capacitado a realizar esse elo de ligação entre professor,
aluno e família?
De acordo com Marta Nogueira, "duas concepções de
educação coexistem e lutam pela hegemonia: educação conservadora reprodutora -
que leva a uma prática educativa reacionária mantenedora do capitalismo - e
educação transformadora - que leva a uma prática educativa revolucionária,
pretendendo a criação de nova forma de sociedade". A prática educativa do
supervisor vai de encontro com a concepção de educação que este tem
consciência.
Não podemos observar a função do
supervisor/coordenador de forma estanque, isolada do seu contexto e de sua
realidade, isto porque a função que este profissional desempenha no ambiente
escolar é conseqüência de um contexto maior: sócio-histórico, político e
cultural, o que pode ser observado pelo crescente abandono do sistema público
de educação brasileiro, haja vista a falta de recursos financeiros, ausência de
profissionais qualificados, diminuição gradativa do quadro de funcionários,
infra-estrutura precária, excesso de alunos em sala de aula e defasagem
salarial de professores e funcionários entre tantos outros problemas que não
caberia aqui enumerar.
Como pode ser confirmado por CAMPOS,
1985:24
“O que
significa, hoje, administrar uma escola de 1º grau numa área de periferia?
Significa, entre outras coisa, lidar com a crônica falta de verbas, de
funcionários, de condições materiais mínimas para o “processo ensino-aprendizagem”.
E esta realidade tem implicações imediatas para as especialistas que se voltam
para as diversas campanhas: “rainha do milho”, “da primavera”, etc., cuja
finalidade é arrecadar fundos para substituir verbas que deveriam vir do
Estado”.
Dessa forma o poder público, através
de seus aparelhos ideológicos, vem promovendo e incentivando entre outras
coisas o trabalho voluntário na educação, em campanhas como: “adote um
analfabeto” e “amigos da escola”. Tais iniciativas demonstram claramente a
tentativa do poder público em “lavar as mãos”, descomprometendo-se abertamente
com o financiamento e manutenção da escola pública.
A escola neste contexto, convive com
uma crise que compromete todo o seu funcionamento, acarretando a seus atores
diversas atribuições que não são as suas específicas, neste sentido cabe
questionarmos na visão dos professores, há coerência entre a função oficial e a
função real desempenhada pelo supervisor/coordenador no cotidiano escolar?
Tal questão se justifica, quando de
um lado, observamos o papel que alguns supervisores/coordenadores vem
desempenhando nas escolas: diciplinário, professor eventual, enfermeira,
bibliotecária, etc. e, de outro, enquanto estudantes do curso de Pedagogia no
qual podemos observar incoerência entre as funções atribuídas a este
profissional e as que ele realmente desempenha.
Analisar a função oficial do
supervisor/coordenador pedagógico, bem como a sua ação real no ambiente escolar
a partir do olhar dos professores de algumas escolas municipais da cidade de
Viçosa - MG.
Esta pesquisa está calcada numa
abordagem de investigação qualitativa, que segundo BODGAN e BIKLEN (1982)
“envolve a obtenção de dados descritivos, obtidos no contato direto do
pesquisador com a situação estudada, enfatiza mais o processo do que o produto
e se preocupa em retratar a perspectivas dos participantes” (APUD: ANDRÉ e
LUDKE, 1986:13).
A adoção da pesquisa qualitativa se
justifica pelas características de tal metodologia, como apontam BOGDAN e
BIKLEN, citados por ANDRÉ e LÜDKE (1996:11-13):
1-
A pesquisa qualitativa tem o ambiente natural como sua fonte direta de dados e
o pesquisador como o seu principal instrumento.
2-
Os dados coletados são predominantemente descritivos.
3-
A preocupação com o processo é muito maior do que com o produto.
4-
O “significado que as pessoas dão às coisas e à sua vida são focos de atenção
especial pelo pesquisador.
5-
A análise dos dados tende a seguir um processo indutivo.
Para analisar as questões centrais
arroladas neste projeto e atender aos objetivos propostos, serão utilizados os
seguintes procedimentos metodológicos:
- Levantamento documental e
bibliográfico;
- Realização e análise das
entrevistas com os diferentes sujeitos inseridos no contexto escolar.
A entrevista será utilizada enquanto
um recurso de análise, na medida em que o procedimento utilizado para analisar
a realidade escolar, a prática cotidiana dos supervisores/coordenadores, bem
como a sua relação com os demais atores do processo educacional, não pode ser
analisado somente a partir de dados oficiais uma vez que tais dados possam ter
sido encomendados e modelados, conforme a imagem que os sujeitos pretendam
perpetuar.
Desse modo, o uso da entrevista com
os supervisores e professores constitui-se num procedimento metodológico
importante para a realização dessa pesquisa, por tratar-se de um recurso
necessário para conhecer e confrontar a realidade vivenciada no cotidiano
escolar pelos dois sujeitos.
Ainda sobre a abordagem da
investigação qualitativa, é importante ressaltar que esta pressupõe “que o
mundo seja examinado com a idéia de que nada é trivial, que tudo tem potencial
para constituir uma pista que nos permita estabelecer uma compreensão mais
esclarecedora do nosso objeto de estudo” (ALVAREZ et al., 1994:49). São estes
princípios de abordagem e método que balizarão esta pesquisa.
Para tanto foram selecionadas três
escolas do município de Viçosa/MG. Nas quais três supervisoras foram
entrevistadas e um total de 18 professoras receberam um questionário e o
devolveram devidamente respondidos.
Resultados e Discussões
Após análise dos dados obtidos através de entrevistas,
questionários e do estudo da Resolução n.º 7.150 de 16/06/93, pudemos constatar
que as supervisoras entrevistadas aparentam possuir noção das
funções que lhes são atribuídas, no entanto, desconhecem a Resolução que as
estabelecem, dessa forma elas acabam por atribuir-se funções que não lhes
cabem (bibliotecária, professora
eventual, disciplinária, secretária) e esquivam-se de algumas atribuições
estabelecidas no documento acima citado (coordenar a elaboração do currículo
pleno da escola envolvendo a comunidade escolar, articular os docentes no
trabalho técnico-pedagógico da escola, envolver a família no planejamento e
desenvolvimento das ações da escola, oferecer apoio às instituições escolares
de discentes, estimulando a vivência da prática democrática dentro da escola).
Foi ainda possível identificar a partir dos questionários
respondidos pelas professoras três
perfis de supervisoras diferentes: a autoritária (acha que as professoras não tem conhecimento e
são despreparadas, por isso, entrega tudo pronto a elas sem consulta prévia), a
insegura (acha-se incapaz de desenvolver seu trabalho sozinha, precisando
sempre do auxílio de terceiros, delegando sempre que possível suas funções), e
a “boazinha” (faz tudo que as professoras lhe pedem, mesmo não sendo sua
função).
Das supervisoras entrevistadas duas eram novatas na função,
demostrando inexperiência e dificultando a análise da relação desta com as
professoras. A que já tem mais tempo de profissão, enfrenta uma série de
resistências por parte das professoras, devida a sua postura autoritária frente
a estas.
Em relação as professoras, enfrentamos dificuldades na
realização das entrevistas, devido a falta de tempo destas, pois se encontravam
ocupadas em suas atividades, por isso, acabamos optando pela entrega de um
questionário que deveria ser respondido e devolvido.
Um enorme entrave que enfrentamos neste processo, foi a
nossa necessidade de intermediação com as professoras através das supervisoras,
as quais acabaram influenciando as respostas destas, uma vez que aquelas
recolheram os questionários junto as professoras.
O questionário distribuído entre as professoras causou
insegurança nas supervisoras em relação ao que estas poderiam vir a responder sobre o seu trabalho. Um
fato no mínimo curioso, é que um questionário foi apagado e sofreu alterações e
outro, que uma professora se negou a responde-lo alegando falta de tempo.
Através das respostas obtidas nos questionários, percebemos
que as professoras não conhecem a Resolução que regulamenta a função do
supervisor/coordenador. Muitas acham
que a função deste é importante para o bom desempenho do seu trabalho,
mas não podem analisá-lo quanto a sua prática pedagógica, já que trabalham juntos a pouco tempo.
É de grande relevância o fato de que mesmo desconhecendo a
existência do documento citado, a maioria das professoras são capazes de
identificar o que não é função específica do supervisor/coordenador.
Conclusões
Como conclusão observamos que existe na sociedade
brasileira um conflito entre aquilo que se atribui oficialmente enquanto função
específica do supervisor/coordenador pedagógico e aquilo que realmente acontece
no interior de nossas escolas municipais.
A legislação atual, bem como a formação oferecida nos
cursos de Pedagogia destoa enormemente das práticas pedagógicas exercida
historicamente pelos supervisores/coordenadores. O contexto de desmonte da
escola pública é outro empecilho que dificulta ainda mais o desenvolvimento do
trabalho pedagógico destes profissionais.
O supervisor/coordenador vive em meio de constantes
contradições, entre aquilo que ele pensa e aquilo que lhe é possível realizar, entre a sua prática e a sua
teoria, entre a necessidade de articular os diferentes atores do processo
educativo e a rejeição que este sofre por parte destes, e outra contradição
vivenciada pelo supervisor/coordenador é o dilema entre o que o sistema lhe
impõe e aquilo que a realidade escolar requer.
A relação entre os supervisores e professores é ambígua
marcada oficialmente por um discurso de confiança, compromisso, participação,
diálogo, democracia, aconselhamento, orientação entre outros, no entanto, o que
observamos, é que na prática há um clima de desconfiança, insegurança, descontentamento
e omissão, que perpassam todas as relações estabelecidas dentro e fora do
universo escolar.
Podemos afirmar, com convicção, que nem os
supervisores/coordenadores e nem os professores tem clareza sobre a função
oficial que deve ser exercida pelo supervisor/coordenador, pois ambos
desconheciam a Resolução n.º 7.150 de 16/06/93, neste sentido constatamos uma
incoerência entre aquilo que a legislação estabelece enquanto função do
supervisor/coordenador, aquilo que abertamente este profissional assume
enquanto sua função mesmo desconhecendo a referida Resolução e aquilo que
realmente no cotidiano escolar este executa.
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