“O COTIDIANO ESCOLAR: COMEÇAR TUDO DE NOVO?”

 

“O brasileiro não sabe pensar”

“O brasileiro lê muito pouco”

“O brasileiro não sabe escrever”

 

INTRODUÇÃO

 

A reflexão sobre educação envolve a compreensão que se tem da vida em sociedade. Parte-se do princípio que desde o nascimento o ser humano inicia seu processo de aprendizagem. Ao atingir a vida adulta, o cidadão continua se educando. As atividades diárias envolvem todo um processo educativo: alimentação, trânsito, destino final de lixo tanto caseiro como industrial, lazer, conservação de recursos naturais e exercício da profissão. No que diz respeito ao exercício da profissão, a prestação de serviços será tanto melhor quanto mais consciência se tiver da vida em sociedade. Entre as diversas áreas do conhecimento, tanto o médico quanto o engenheiro, o pedreiro,  o escritor e o professor contribuem para a produção de bens  e serviços para a sociedade. Outra consideração a ser feita é que os estudantes chegam aos cursos superiores com inúmeras dificuldades de leitura, interpretação e análise de textos e sérios bloqueios de redação. Estas afirmações orientam este artigo cujo objetivo é identificar as prioridades da escola pública de 1ª a 4ª série no cotidiano escolar, no município de Lavras, sul de Minas Gerais.

A investigação foi realizada em três escolas de periferia no ano de  1993, tratando-se de um trabalho de natureza qualitativa onde se utilizou a entrevista semi estruturada, a observação e análise documental. Foram entrevistados vinte agentes em educação com o objetivo de identificar suas percepções sobre ações escolares prioritárias.

 

1 A EDUCAÇÃO E O PENSAR

 

Considerando que os objetivos da escola pública extrapolam as quatro paredes da instituição, isto significa admitir  que existe uma relação permeável de troca entre escola e sociedade. Ambas fornecem subsídios para que a construção do saber resulte em melhores condições de vida para toda  sociedade e sobretudo auxilie o processo de constituição do cidadão brasileiro. Neste sentido, Silva (1986) destaca que a função do educador é auxiliar o educando para o exercício da capacidade de viver em coletividade.

Pressupõe-se portanto que é fundamental e indispensável a ação de todos os agentes responsáveis pela escola: pais, alunos, professores, merendeiras, faxineiras, assessores pedagógicos, auxiliares administrativos e diretores. Trata-se de pensar coletivamente um projeto educativo que extrapole os muros da escola.

Esta afirmativa fundamenta-se na concepção de educação segundo a qual o saber realiza-se entre as dimensões do sentir-pensar-agir/emocional-mental-físico. Trata-se de um processo onde estas três dimensões se interagem (Sales e Santos, 1993).

Portanto, a reflexão sobre as prioridades da escola pública de 1ª a 4ª série deve articular-se com esta vinculação entre educação e sociedade. É impossível alfabetizar a criança e educar o cidadão segmentando suas capacidades: só sentir/emoção, só pensar/mente ou só agir/físico. Só emoção, só coração ou só razão. Estas são dimensões humanas inseparáveis.

O que seria o pensar? Sales e Santos (1993) define o pensar enquanto movimento que tenta construir a nível mental imagens e símbolos que vão clareando e aprofundando a compreensão da geração, gestão e transformação das práticas individuais e coletivas - econômicas, políticas, culturais e afetivas (Sales et al, 1993).

Não é muito fácil pensar! E se a partir do ensino básico se pensa pouco, a tendência é chegar à idade adulta, inclusive em cursos de pós graduação, sem gostar de ler, sem saber pensar e com inúmeras dificuldades para escrever. Freire e Macedo (1993, p.31) consideram que o processo de alfabetização “não deve separar a leitura da palavra da leitura do mundo”. Ler a palavra e aprender como escrever a palavra, de modo que alguém possa lê-la depois, são precedidos do aprender como “escrever” o mundo, isto é, ter a experiência de mudar o mundo e de estar em contato com o mundo. Esta perspectiva não só estimula o ato de pensar coletivamente, como também viabiliza a integração dos diversos conteúdos ministrados no 1º grau. A proposta de ler o mundo, não o segmenta em compartimentos separados de português, matemática, ciências, estudos sociais, ensino religioso, o que permitirá ao educando exercitar sua capacidade de compreensão das práticas sociais quer sejam individuais ou coletivas, políticas, econômicas, culturais e afetivas entre todas outras.

Como seria a construção coletiva do conhecimento? A definição de coletivo não pode ser imaginada como a simples soma de pessoas isoladas. Trata-se de um organismo social vivo e, que por isso mesmo, possui atribuições, responsabilidades, correlações e interdependência entre as partes. O coletivo dos professores e o coletivo das crianças não são dois coletivos diferentes, mas sim o mesmo coletivo pedagógico. Tal coletivo não pode ser definido por decreto, nem criado num lapso de dois ou três anos. A sua criação exige mais tempo, e quando existe e funciona é necessário guardá-lo, cuidá-lo e, assim todo processo  educativo decorrerá com muita facilidade (Makarenko, citado por Sales e Santos, p.48).

A possibilidade de vivenciar na escola pública a prática de pensar coletivamente as questões da educação, pressupõe uma relação democrática entre professor-aluno. Esta postura implica na compreensão  do que “a relação professor-aluno em si é carregada de conteúdo, muito mais do que o conteúdo teórico exposto, porque aquilo que se vivencia é introjetado com mais força do que o aprendizado da submissão, dependência, respeito a normas, obediência, que são intrometidos com força, embora sem uma intenção explicitada.” “Existe, portanto, um conteúdo explicito sobre o tema e um conteúdo implícito inerente à própria relação pedagógica vivificada” (Martins, 1989, p.50-51).

A relação professor-aluno é influenciada pelas práticas administrativas e pedagógicas da escola. Avançando mais um pouco, por sua vez a escola pública reflete e reproduz o funcionamento da sociedade. Nesta perspectiva a obediência e a submissão estão presentes na ação dos governantes, dos dirigentes escolares e dos responsáveis pela educação em geral. O submisso de hoje transforma-se no ditador de amanhã.

Outra questão essencial a ser considerada no processo educativo é a avaliação. É objetivo deste artigo identificar concepções teóricas sobre avaliação no processo de ensino e a percepção dos agentes sobre avaliação.

A vivência da avaliação nas ações empreendidas na escola norteia toda a prática que dá suporte ao processo ensino-aprendizagem. Para que a avaliação do estudante contemple as dimensões do saber é necessário que os agentes se interrelacionem e avaliem suas práticas constantemente. O estudante, o professor, o supervisor, o orientador, os funcionários administrativos e a direção executam ações contínuas. Este processo deve ser permanente e de tal maneira que garanta a participação de todos, ao mesmo tempo que desperta o interesse para a busca de alternativas coletivas.

A natureza da avaliação na educação de um estudante na escola relaciona-se com as opções que a escola oferece para o seu desenvolvimento. Trata-se de um processo em cadeia que envolve a verificação de mudanças qualitativas e portanto deve ser sistemático e reorientando a partir dos resultados que se vai obtendo (Martins, 1989).

Fundamentando-se ainda em Sales, Queiroz, Coimbra et al (1993) verifica-se que a avaliação deve se dar a nível do comportamento e também da aprendizagem dos conteúdos programáticos. Estes mesmos autores sugerem ainda que o aprofundamento da auto-estima e da capacidade de discernimento é algo fundamental a ser considerado na avaliação da aprendizagem.

O apoio ao “pensar” também pode ser considerado através da legislação brasileira, como se pode observar na Constituição Federal,  no Estatuto da Criança e do Adolescente e nos Regimentos Escolares.

A promulgação de uma lei reflete o interesse dos legisladores em intervir no processo de desenvolvimento. O fato de estar no papel representa o início do exercício dos direitos da cidadania. A lei é aliada daqueles que buscam a consideração da sociedade brasileira.

Mais de 40% das crianças que ingressam na rede pública de ensino não chegam à Segunda série. Desistem logo no início ou são retiradas indefinidamente na primeira série, quando não resvalam para guetos escolares da pobreza, as classes especiais, ante sala da evasão. Este dado traz a constatação que a escola pública brasileira está sendo, hoje, não apenas um grande restaurante (aquele que, num único programa, mais refeições distribui por dia), mas também o maior centro de triagem do país. “Um centro que segrega da aquisição dos instrumentos básicos da cidadania (o saber ler, escrever e contar) milhões de pequenos brasileiros, sublinhando uma condição já escrita na extração social desse contingente” (Costa, 1990).

A busca do favorecimento legal ao pensar conduz ao destaque de citar como exemplo alguns artigos da legislação.

No Estatuto da Criança e do Adolescente o Capítulo IV - Do direito à educação, à cultura, ao esporte e lazer assim refere no Artigo 53: A criança e o adolescente têm direito à educação, visando ao pleno desenvolvimento de sua pessoa, preparo para o exercício da cidadania e qualificação para o trabalho.

A Constituição Federal traz em seu Artigo 206, Inciso II - Liberdade de aprender, ensinar, pesquisar e divulgar o pensamento, a arte e o saber.

Já o Regimento Escolar tem em seu Artigo 2º - O ensino de 1º e 2º tem por objetivo geral proporcionar ao educando a formação necessária ao desenvolvimento de suas potencialidades como elemento de auto-realização, preparação para o trabalho e para o exercício consciente da cidadania.

 

2 METODOLOGIA

 

     A definição metodológica a ser utilizada  em um trabalho de pesquisa depende inicialmente do tipo de questões que se quer responder com a pesquisa. Por sua vez a definição das questões centrais a serem pesquisadas, vincula-se à referencia conceitual que os pesquisadores têm sobre o tema, e à interpretação que fazem da realidade.

     As questões que nortearam a pesquisa referem-se: à concepção que os agentes em educação têm sobre as prioridades da escola pública de 1ª a 4ª série; aos tipos de ações administrativas e ao tempo a elas dedicado; à natureza da relação professor-aluno; à utilização de trabalhos individuais ou em grupo  e a ocorrência e metodologia das reuniões pedagógicas.

     Utilizou-se como técnicas de coletas de informações, a análise documental e entrevistas semi-estruturadas recomendadas para a pesquisa de natureza qualitativa. Foram entrevistados três diretores, três supervisores/orientadores e doze professores. Em cada escola foi entrevistado um professor de cada uma das quatro séries. A entrevista das diretoras foi complementada com o depoimento de diretoras de outras escolas da rede pública municipal que se dispuseram a contribuir com a pesquisa.

     Com o objetivo de garantir a fidedignidade das informações as entrevistas foram gravadas e transcritas.

     O estudo intensivo do grande número de informações transcritas sugeriu a elaboração de dez temas que recebem como título depoimentos dos entrevistados e são apresentados a seguir.

 

3 “APRENDER A LER E SABER AS QUATRO OPERAÇÕES”

 

     Nesta seção pretende-se falar da existência, estrutura e funcionamento e da ação pedagógica através dos depoimentos obtidos dos agentes, os quais aparecem intitulando os temas.

 

3.1  “Não sei como a escola foi criada...” Origem da Escola

     O conhecimento da trajetória histórica de uma organização serve de subsídio para que seus agentes possam vincular-se às experiências  ocorridas no passado, aprimorando-as ou não.

     A organização que conhece e valoriza sua história a utiliza como referência para ações do presente. A identificação das experiências vividas por uma escola, sem dúvida a aproximaria do alcance dos seus objetivos.

     A importância da escola no contexto social está vivenciada à reconstrução histórica desta organização pelos agentes.

     Os depoimentos refletem a percepção de uma instituição criada por decreto, com “ajuda” de políticos ou militares ou se desconhece o sentido da criação. Se está bom ou ruim também não faz muita diferença. A não valorização da história de uma escola pode contribuir para a repetição de erros prejudiciais aos seus objetivos.

 

3.2  “Todo mundo faz de tudo um pouco...” Estrutura e funcionamento organizacional

3.2.1 “A direção tem funções muito amplas...” Direção

     A análise dos depoimentos indicam uma administração centralizada que privilegia como eixo central da ação o controle. Não se vincula o controle , por exemplo, ao planejamento participativo. Não se tenta imprimir ações sistematizadas como também há falta de clareza dos objetivos a alcançar.

     Investe-se na arrecadação de recursos financeiros (com envolvimento dos pais), para aquisição de equipamentos que, quando adquiridos tornam-se ociosos, sob alegação de que “não se tem pessoal preparado para utilizá-los”. A diretora não coordena a ação administrativa, sua atuação é caracterizada  pelo repasse de tarefas sem uma noção do projeto administrativo da escola.

 

3.2.2 “Tem dia que fico meio feito barata-tonta...” Supervisão/orientação

     A supervisão e orientação são normalmente exercidos pelo mesmo profissional, não existindo também um trabalho sistematizado. Os depoimentos comprovam  que a supervisão/orientação não têm clareza das possibilidades reais da escola. Suas prioridades são distintas das ações prioritárias da instituição. A especialização deste profissional é utilizada “apagando incêndio ”, já que não sobra tempo para o estabelecimento de ações coordenadas. A atuação junto aos professores se dá na base de quem tem algo a oferecer (o especialista) - para quem tem algo a receber (o professor). O exercício da função junto às crianças é através do cuidado com a higiene e do castigo por “indisciplina”, principalmente.

 

 

3.2.3 “Não é possível administrar conforme o regimento...” Regimento e o colegiado

     O regimento escolar é tido como uma exigência burocrática pouco útil na rotina escolar, inclusive pela amplitude e generalização de suas proposições. Quanto ao colegiado verifica-se que não há um investimento por parte da escola como forma de descentralizar o processo decisório envolvendo os pais na gestão da escola. A atuação prática dos colegiados escolares contradizem os depoimentos de boa atuação deste orgão, indicando que sua criação foi por imposição do governo estadual. Normalmente nas reuniões ocorridas, os pais e demais membros acatam as decisões da direção.

 

3.2.4 “Não há salas de aulas disponíveis para sala de leitura...” Material didático /estrutura física

     A estrutura física da escola se coaduna com a proposta educativa na qual as aulas devem ser expositivas, não se privilegia o hábito da leitura, não há preocupação com nenhum tipo de atividade complementar. As aulas de educação física são reprimidas por falta de espaço adequado e o número médio de crianças/sala de aula é alto, limitando e desestimulando a participação do estudante em seu processo educativo.

     Supervaloriza-se a importância da utilização de equipamentos “modernos” (retroprojetor, TV, vídeo) que do ponto de vista pedagógico conduzirão à passividade do usuário se, o seu uso não for integrado a uma proposta mais ampla. Não se verifica uma preocupação com a utilização sistemática do material didático- pedagógico, como exemplo: tipo de fitas e faixa etária. Na prática, as ações administrativas são desvinculadas das ações pedagógicas.

 

3.2.5 “Poucos professores estão motivados ao trabalho...” Qualificação do corpo docente

     Verifica-se que os agentes reconhecem a fragilidade dos cursos de magistério e a acomodação dos professores mais experientes. No entanto, esta constatação não motiva a busca de alternativas para que os professores sintam-se motivados ao trabalho. A qualificação profissional não é discutida nas escolas, e quando se inicia esta discussão, a qualquer imprevisto (no caso a greve dos professores), o processo dilui-se, e é interrompido.

 

3.3 “Avalio olhando caderno por caderno, ou oralmente...” Ação pedagógica

     As ações pedagógicas não são estanques e simultaneamente relacionam-se, complementam-se e criam-se novas ações.

 

3.3.1 “Agente já gosta da criança mais certinha...” Relação professor-aluno

     Os depoimentos são bastante contraditórios, indicando que a relação professor/aluno na prática introjeta a importância da submissão, obediência, e o aceite indiscutível dos conteúdos propostos pelo professor. Verifica-se uma relação às vezes paternalista, que atrela o estudante ao professor, legitimando o poder deste último sobre o primeiro.

     Constata-se ainda que o avanço dos meios de comunicação ao apontarem a importância da democratização do processo ensino/aprendizagem têm contraditoriamente reforçado a ação autoritária de alguns professores, que afirmam “não saber como agir, pois as crianças hoje são mais agitadas” ou ainda, “não tem como agir, mas tem que ter pulso, senão ninguém agüenta”. Não existe na escola um suporte pedagógico que viabilize o estabelecimento de limites nesta nova relação democrática.

     Além destes, alguns depoimentos indicam a atitude discriminatória de alguns professores que caracterizam o vocabulário de uma criança, como típico “de gente que tem uma cultura bem pobre...”. Esta afirmação pressupõe uma valorização de uma cultura do dicionário sobre a cultura “pobre”. Neste caso o professor assume a postura de que na sala de aula só ele sabe o que é certo.

 

3.3.2 “Só vira doutor, quem é filho de doutor” Visão dos professores sobre as crianças

            A escolha da metodologia de ensino fundamenta-se no conceito que o professor tem dos alunos. Os depoimentos comprovam a afirmação de alguns estudos de que a escola reproduz a estrutura social. Os professores não acreditam na capacidade das crianças de construírem seu conhecimento, ainda que tenham “a ponta do dedo do pé roído pelo rato”. Na prática a criança de periferia não é considerada pela escola nem pelo professor como potencialmente capaz de “virar doutor”, e a ela cabe apenas as sobras. Neste sentido não há inconveniente em que a escola não funcione bem.

 

3.3.3 “As turminhas mais fracas têm muito problema em casa...” A divisão de turmas

            Nas escolas pesquisadas, as turmas são divididas segundo o rendimento das crianças em: A,B,C,D,E...

            Os depoimentos justificam a divisão de turmas e apoiam a busca da homogeneidade, embora, contraditoriamente se admite que não existe homogeneidade, pois “ninguém é igual”.

            Esta estratégia reforça a função da escola de reproduzir a estratificação social. Desde a 1ª série ou pré-escolar as crianças vão sendo divididas, segmentadas e acomodadas para que a escola funcione melhor.

            Verifica-se que a cultura escolar não vislumbra outra estratégia diferente de divisão em “mais fracos” e “mais fortes”. Esta postura prejudica a ambos, pois o aluno da turma A, normalmente, destaca-se pela obediência as normas e submissão ao professor. Não se investe na formação de uma personalidade mais corajosa e apta a desafios tão normais no dia-dia.

Por outro lado, a criança mais “rebelde” não recebe nenhum apoio. É marginal na sociedade e na escola. A escola não prioriza a busca de atividades que despertariam o potencial dessa criança para uma ação profissional. Afirma-se até que se trata de uma criança mais experiente que comercializa algumas coisas, que se move por toda a cidade sem dificuldade, mas...tem mãe solteira, pai que bebe.

De fato, a criança que não se ajusta à repetição mecânica de conteúdos distantes da sua realidade; não assume uma postura passiva diante de imposições autoritárias e inexplicáveis, não pode manter livros bem encapados e conviver com dicionários, será submetida a ordem escolar. Ou seja: repete séries indefinidamente até desistir, ou é empurrada para que a escola se livre deste “problema”.

Contudo, os depoimentos não revelam nenhuma articulação que explicite o fato de que a escola é mantida com impostos arrecadados também da periferia, a quem se destina “restos”. As “piores” professoras recebem os “piores alunos”.

 

3.3.4 “Para eles foi a coisa mais linda do mundo ter de trocar de professor” Divisão dos professores segundo o conteúdo

           As três escolas pesquisadas estavam iniciando experiência de, a partir da 3ª série desvincular os alunos da relação com um único professor. De acordo com a disponibilidade de pessoal, já na 3ª série a criança pode passar a ter dois professores: um para português e estudos sociais e outro para ciências e matemática. Pode-se verificar ainda na 3ª série um professor para cada conteúdo: Português, Matemática, Ciências, Estudos Sociais, Ensino Religioso e Educação Física.

Justifica-se mais tempo para dedicação às disciplinas específicas, e possibilidade da criança “amadurecer” mais cedo. Contra-argumenta-se sob a fundamentação de que um período de aula é muito curto para algumas disciplinas, especialmente português.

A interpretação dos depoimentos indica que esta medida reforça a divisão dos conteúdos sem inter-relacioná-los. Os professores raramente se encontram, favorecendo à desconexão entre as disciplinas. Português não tem nada a ver com Matemática, que não tem sintonia com Estudos Sociais, e assim por diante.

 

3.3.5 “Eles gostam muito de trabalhar em grupo, mas não tem disciplina”. Trabalhar em grupos

            Os depoimentos são contraditórios, indicando a instalação de um processo que não foi devidamente aprofundado pelos agentes, retratando um despreparo dos professores para o trabalho em grupo.

O professor sai do magistério com a noção de que “em grupo é mais difícil”; depara-se com a escola onde na prática as ações são individualizadas e é jogado na sala de aula a portas fechadas com um número médio de 35 crianças. Os depoimentos demonstram ainda que os professores não acreditam que o trabalho coletivo possa “render mais” para todos os envolvidos. A visão do professor se restringe ao processo de ensino, ao conteúdo, sem qualquer preocupação com áreas sociais ou de atitudes sociais.

A escola não prioriza nem estimula as atividades coletivas, investindo inclusive administrativamente no atendimento individual.

 

3.3.6 “Não tem ninguém para me falar se estou fazendo certo”. As reuniões pedagógicas

            Reforçando a análise do item anterior, verifica-se que os agentes não consideram relevantes a ocorrência de reuniões.

            As reuniões são “da diretora” ou “da supervisora”, consolidando a postura de quem só vai participar para receber alguma coisa, trata-se de reunião de cunho predominante administrativo.

            Esta postura da direção e dos professores mantém a centralização das decisões na diretoria. As decisões não são tomadas a partir das reuniões, que são utilizadas apenas com caráter informativos de ações já definidas, ou meras atividades rotineiras.

 

3.3.7 “Fiz um curso sobre construtivismo, não gostei e não aceito”. Treinamentos

            Os depoimentos revelam que os professores raramente participam de treinamentos e nem são estimulados pela escola a se qualificarem.

Verifica-se ainda que a avaliação dos cursos freqüentados caracteriza um deslocamento entre a teoria  apresentada e a prática  vivenciada. Ao se fazer referência ao construtivismo transparece um grande incômodo diante de uma proposta imposta, não decodificada, o que até certo ponto desafia os professores a alternarem a metodologia de ensino, sem no entanto fornecer os subsídios fundamentais.

A reciclagem é apontada como importante, mas não tem sido até agora. Não há uma programação sistemática; priorizam-se as escolas urbanas em detrimento das rurais e não se considera a qualificação enquanto processo. Os cursos oferecidos são espaçados e desarticulados entre si.

 

3.3.8 “Claro que Português e Matemática são prioritárias...garantem o dia-a-dia da criança ”. Ações       prioritárias

            Para as disciplinas consideradas essenciais, Português e Matemática, se dedica maior carga horária e tenta-se reservar o início das aulas para ministrá-las, quando a criança está “descansada”. Esta prioridade traduz ainda no principal critério para aprovação e também para a divisão de turmas.

            Porém, esta prioridade não se verifica na busca de uma metodologia que estimule o hábito de leitura e produção de texto. Predomina a valorização da memorização sem entender o porque das coisas por exemplo com o uso do ditado e de tabuada e “a cabecinha deles está mais solta para receber”.

 

3.3.9 “Não existe uma avaliação”. Avaliações

            Os depoimentos refletem a concepção dos agentes que a avaliação ocorre quando os dois lados são envolvidos: quem avalia exerce ação sobre quem é avaliado. “A diretora é muito boa e nunca chama atenção de ninguém”; “a supervisora vai na sala e olha os cadernos”: “as professoras utilizam principalmente as provas para verificar aprendizagem”; “as crianças só se preocupam com a nota...”

            Esta concepção permite a todos os envolvidos esconderem-se atrás de normas e procedimentos inquestionáveis. “Não se estabelece uma sistemática de avaliação”, pois o desencadeamento deste processo poderia “trazer a tona a ineficiência de determinadas ações” administrativas e pedagógicas.

            A rigidez da escola faz com que os agentes não saibam agir diante de ações que possam provvocar reformas, como é o caso da avaliação feita nos CBA´s. Não há, pelo depoimentos, entendimento do significado da avaliação institucional, refere-se permamentemente à avaliação de ação (ensino) do professor e do aluno (aprender), tendo como resultado positivo a promoção e, negativo a reprovação.

 

3.3.10 “Precisava ter um jeito de fazer alguma coisa que anime, que entusiasme...” Perspectiva da educação

            O esforço de avaliar uma prática e apresentar propostas reflete a acomodação em que se encontram os agentes em educação das escolas pesquisadas.

            As análises são superficiais e segmentadas demonstrando a ausência  da práticas analíticas; os agentes não conseguem identificar e relacionar as ações e os seus significados e acabam por deixar dizer que a escola é muito democrática.

A necessidade de mudanças quando apontada é vinculada a atuação de outros que não os agentes(próprios) entrevistados. A responsabilidade é do governo, da burocracia, da estrutura sócio-econômica em níveis distantes dos agentes(deles mesmos).

 

4 CONSIDERAÇÕES FINAIS

 

     Do ponto de vista pedagógico, os depoimentos priorizam as disciplinas Português e Matemática por serem “essenciais” ao futuro das crianças. No entanto, a metodologia de ensino utilizada ocupa-se principalmente de memorização. Em Português há predomínio dos exercícios repetitivos e não há estímulo à reflexão nem sobre as poucas leituras realizadas em sala de aula, nem sobre o mundo da criança. Em Matemática a tabuada ainda é o eixo central; as crianças decoram as lições sem nenhuma aproximação de abstração numérica à realidade concreta. Os problemas constituem a verificação de aprendizagem. Esta segmentação da aprendizagem é reforçada pela divisão dos professores por conteúdos, conforme demonstraram os depoimentos, ou mesmo quando o professor ministra todos os conteúdos, mas segmentados e estratificados sem interação entre eles.

     Decorar conteúdos numa postura submissa e fragmentada não permite a criação de valores que possam transformar a sociedade.  O fechamento das aulas e atividades  aos limites da sala de aula inibe o desenvolvimento das crianças, do professor e da escola. Não estimula o pensar.

     Há uma convicção que a ação da escola raramente está preparando a criança para viver em sociedade. Quando ocorre a preparação em percentual mínimo, atribui-se ao mérito do próprio estudante.

     A análise administrativa reflete ações individuais e centralizadas na figura do diretor, e de outros dirigentes, o que tem acarretado sérias disfunções na organização escolar onde “todo mundo faz de tudo”. Segundo os agentes a rotina administrativa justifica a impossibilidade de atuar valorizando a criança e o professor.

     A ação administrativa reforça o individualismo. Não havendo reuniões pedagógicas sistemáticas o professor se sente desconsiderado  no processo decisório e desestimulado a criar atividades diferentes dentro dos seus limites profissionais. Não se verificam ações que priorizem a qualificação dos agentes como estratégia para alcançar os objetivos da educação e da escola.

     Esta pesquisa traz à tona portanto, a contradição dos agentes. Enquanto estes consideram de real importância transformar a escola pública, especialmente de 1ª a 4ª série, por ser essa a fase que a criança elabora os seus conceitos, no entanto, a responsabilidade primeira não é dos professores e dirigentes. A escola é a responsável por esta fase que irá nortear a vida futura do aluno no que tange a busca da qualidade no exercício profissional, coragem e ousadia na tomada de decisões, interesse pelo aprofundamento  de questões teóricas e práticas essenciais ao desenvolvimento social, responsabilidade no exercício dos deveres de cidadão, vivência democrática em todos os níveis: família, trabalho, lazer e solidariedade e tantos outros requisitos identificados com a noção de vida emsociedade.

     O descaso governamental nos níveis Federal, Estadual e Municipal com a educação e particularmente com o ensino básico é considerado responsável pela cristalização de valores culturais individualistas e de curto prazo, numa sociedade predominantemente consumista. Isto conduz á postura do “salve-se quem puder” onde a cidadania é abstração e a vida em sociedade é totalmente desconsiderada: “não pode deixar a criança solta...agente tem que ficar ali, em cima”.

     Nesta perspectiva fecham-se os olhos às inúmeras injustiças sociais onde “só vira doutor, quem for filho de doutor”.

 

“Não é suficiente adaptar a educação à sociedade, mas repensar ao mesmo tempo a educação e a sociedade” (Silva, 1986, p.125)

 

5 BIBLIOGRAFIA

 

CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA FEDERATIVA DO BRASIL. São Paulo: Jalovi, 1988. 247p.

 

COSTA, A. C. G. Infância, juventude e política social no Brasil, in: BRASIL CRIANÇA URGENTE, A LEI 8069/90. São Paulo: Columbus Cultural, 199o. p. 69-97.

 

FREIRE E MACEDO. ALFABETIZAÇÃO - leitura do mundo, leitura da palavra. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1990. 167p.    

 

MARTINS, P. L. O. Didática teórica didática prática para além do confronto. São Paulo: Loyola,1989. 183p.f

 

SALES, I. da C.; Santos, M. L. RETOME SUA VIDA, uma realidade, uma profecia. Recife, Bagaço, 1993. 183p.

 

SECRETARIA DE EDUCAÇÃO DE JABOATÃO DOS GUARARAPES. De raízes a frutos: Registro de um programa municipal de ensino. Jaboatão dos Guararapes, SC. 1992. 91p.

 

SILVA, S. A. I. Valores em educação. O problema da compreensão e da operacionalização dos valores na prática educativa. Petrópolis: Vozes, 1986. 144p.