AS ESPECIFICIDADES DA PRESENÇA DE FAMÍLIAS DE CAMADAS
POPULARES NA ESCOLARIZAÇÃO DOS FILHOS - O PAPEL DA FAMÍLIA DE MACHADO DE ASSIS
Ana Amélia Chaves Teixeira (Bolsista PIBIC/CNPq - FUNREI).
Orientadora: Professora Doutora Maria José Braga Viana (DECED - FUNREI)
INTRODUÇÃO:
Este trabalho representa o resultado de
um estudo que dá continuidade à problemática levantada por Viana (1998) em sua
tese de doutorado, Longevidade escolar em famílias de camadas populares:
Algumas condições de possibilidades e, coloca a seguinte questão: - de que
formas específicas as famílias de camadas populares estão presentes no sucesso
escolar de seus filhos, propiciando situações de longevidades escolares nesses
meios?
Por quê formas específicas? – Porque de
acordo com Viana(1998), as práticas e intervenções realizadas pelas famílias de
camadas médias, endógenas ao processo escolar, não ocorrem nas camadas
populares. Temos como hipótese que estas formas constituem-se de um tipo de
presença familiar, e caracterizá-las constituiu nosso objetivo neste trabalho.
Analisamos a biografia do renomado
escritor – romancista: Machado de Assis e a metodologia utilizada fixou-se
basicamente em três princípios norteadores de análise, listados a seguir:
Primeiro, a relação que Machado de Assis estabeleceu com o tempo; segundo, as formas
socializadoras familiares; terceiro, os processos intergeracionais de
continuidades, rupturas e ambivalências no plano simbólico e cultural.
Estabelecemos a seguinte subdivisão das
etapas da vida do escritor que marcaram passagens importantes, apoiando-nos na
metodologia traçada. De acordo com a predominância maior de cada princípio
norteador de análise temos: 1) A infância no Morro do Livramento e os primeiros
elementos de uma socialização familiar facilitadora. Neste momento da vida do
escritor temos a formação de seus valores, hábitos, usos de linguagem em
ambiente social favorável, na casa da madrinha, que mais tarde tornará
explícita toda uma constituição de personalidade que facilitou o sucesso
obtido. 2) O segundo casamento do pai de Machado de Assis e a possibilidade de
contato com o universo letrado. Neste segundo momento, observamos mobilizações
familiares no sentido de propiciarem que Machado de Assis se emancipasse
culturalmente. A acolhida pela madrasta e a possibilidade de convivência dentro
de uma escola, como vendedor de quitutes, na sua companhia. 3) A saída de casa
e a difícil conciliação de dois mundos. Neste terceiro momento, visualizamos os
resultados daquela educação recebida em casa, aliada aos esforços de
possibilitar que Machado de Assis fosse criado com melhores condições de vida
que o distanciou das referências sociais e culturais de origem. 4) O reencontro
da identidade perdida. Neste último momento, percebemos a poeira se assentar.
Quando Machado de Assis encontra Carolina, esta aparece como que um conforto
para sua alma atribulada, porque ela era a única pessoa que conseguia
reconciliar os valores que o romancista trazia de casa e o universo
sociocultural ao qual se integrara, amenizando os impactos e todo o sofrimento
pelos quais o escritor passava.
Joaquim Maria Machado de Assis nasceu e
passou sua infância no período de 21/06/1839 (data de seu nascimento) até mais
ou menos 1849, logo após a morte de sua mãe, em terras da chácara do Livramento,
na cidade do Rio de Janeiro. "Nesta casa sempre habitada por
famílias importantes, com fumaças e hábitos de grandeza,
passou-se a primeira infância do romancista"(Pereira, 1988, pp.29).
Sua família estabelecia vínculos muito fortes nesta chácara em função do uso da
terra e das relações de trabalho que possuíam, como agregados.
As relações estabelecidas entre os pais
de Machado de Assis e os proprietários da casa era uma relação de proximidade,
com algum vínculo de conhecimento, com o fazendeiro ou mais especificamente,
com Dona Maria José de Mendonça Barroso. Tal consideração deve-se ao fato de
que seu pai, tendo sido alforriado, permaneceu vinculados à estas pessoas e,
ainda instauravam-se boas relações de convivência entre eles.
Machado de Assis viveu o lugar de criança
filho de não proprietário mas, afilhado dos proprietários do Livramento.
Neste mundo social marcado pelo pouco distanciamento entre os ocupantes de
diferentes lugares sociais, a criança filha de quatro gerações da fazenda teve
acesso ao interior da casa. Certamente essa sua posição dentro dos salões
senhoriais muito favoreceu a posse de disposições culturais. Por exemplo,
Machado de Assis conhecia pinturas, livros e gravuras da casa da madrinha, que
possibilitaram, segundo meu entendimento, sua trajetória de emancipação social
e cultural.
Torna-se importante fazer uma breve
consideração histórica acerca das condições sociais e culturais em que se
processou a trajetória de escolarização de Machado de Assis para compreendermos
como aconteceu sua longevidade escolar num tempo em que o sistema educacional
vigente era ainda muito precário.
Segundo Werebe(1985), embora a
Constituição Imperial de 11 de dezembro de 1823 determinasse instrução primária
gratuita a todos os brasileiros, muito pouco se fez pelo ensino da massa
popular, tanto nos anos que precederam, quanto nos que sucederam a
independência. O analfabetismo disputava lugar, na conformação da história da
educação brasileira, com um pequeno grupo de profissionais que exercia, bem ou
mal, os seus ofícios e, um outro saído da elite proprietária de terras, cujos
diplomas serviam tão somente para satisfazer vaidades pessoais ou, para
obtenção de altos postos legislativos ou administrativos, politicamente úteis
na conservação dos interesses que representavam.
Foi nesse contexto histórico adverso que
Joaquim Maria Machado de Assis, a despeito de não apresentar diplomas, teve seu
sucesso com as letras. Sucesso marcado pelo domínio da leitura num país de
analfabetos, acrescido do poder da compreensão arguta do mundo histórico-social
que o rodeava, coroado pelo domínio da escrita que usava para retratar
sarcasticamente as incoerências sociais em curso.
Assim, gostaríamos de ajustar o conceito
de longevidade escolar em se tratando de Joaquim Maria Machado de Assis. Nesse
caso, o conceito se mostraria muito mais adequado à idéia de domínio de
conhecimento do que à permanência restrita em bancos escolares por longos
períodos de tempo. Tal transferência pode ser perfeitamente defendida, avalio,
através do contexto educacional vigente no período imperial. Em Conto de
Escola, Machado de Assis descreve a rotina, o cotidiano de uma escola muito
bem. No entanto, não existem provas de que ele tenha freqüentado uma
instituição de ensino.
Desta forma, a trajetória de aquisição de
conhecimento realizada por Machado de Assis se efetivou com a posse de
disposições culturais e sociais desenvolvidas, primeiramente, na casa onde
nascera.
ANÁLISE
DE ALGUNS DADOS ACERCA DA PRESENÇA DA FAMÍLIA NO CONTEXTO DA BIOGRAFIA DE
MACHADO DE ASSIS
Abordando o primeiro destes princípios,
que foi a relação estabelecida com o tempo por parte de Machado de Assis.
Percebemos que, em geral, o romancista não fazia planos em relação ao futuro
mais distante. Ele vivia as oportunidades que o presente lhe apresentava. Numa
relação de perseverança de que amanhã se alcançaria uma vitória, seja como
fosse e no tempo que fosse preciso. Somente na posse de uma tal conquista
poderia se dar o próximo passo. Vivia-se o presente. As vitórias iam se dando
ao acaso. Neste processo não tínhamos uma única vitória de longo alcance mas,
vitórias diárias que se iam efetivando. O resultado de cada dia era muito
importante para que se pudesse chegar a algum lugar.
A importância destas disposições
temporais de futuro para o que nos interessa nesse estudo tem seus fundamentos
na seguinte fala de Mercure(1995, apud Viana, 1998):
“Numerosas contribuições científicas nos
ensinam que o estudo das diversas maneiras de tomar consciência do tempo, para
tomar apenas um exemplo, contribui muito para a compreensão de certos fenômenos
sociais, precisamente porque esquemas temporais, formas de simbolização do
tempo, concepções e atitudes particulares em relação ao tempo, podem ter
implicações mais ou menos diretas sobre os diversos modos de atividades.”( Mercure,1995, pp.15,apud
Viana, 1998,pp.61)
Essas disposições aparecem na trajetória
de Machado de Assis como uma forma própria de tomar consciência do tempo. A
partir de uma noção de tempo concreta ou, de tempo na medida do que fosse
possível, ele aproveitava as suas experiências, o seu momento. Como também,
assumia uma concepção de futuro como produto de suas próprias ações. Como
podemos perceber nas citações a seguir:
“O pequeno
gago, esquivo, pouco comunicativo, não deve ter sido o ideal dos vendedores [de
quitandas]. Certamente, nas horas de folga, procurava ouvir trechos das lições
dadas às meninas ricas, pescar aqui e ali uma noção, um esclarecimento. Não lhe
seria possível penetrar nas classes, mas os moleques têm mil manhas, sabem escutar
às portas, esgueirar-se pelos corredores, esconder-se nos desvãos escuros.
Imóvel o coração batendo de susto, enquanto esperava o tabuleiro de quitandas,
Joaquim Maria ouviria as aulas que não lhe eram destinadas.” (Pereira, 1988, pp.42)
“Metido na
sua roupinha surrada esforçando-se por não gaguejar, corria para casa de Madame
Gallot. Apenas tinha uma folga e lá ficava a falar, a conversar, todo ouvidos,
todo atenção, certo de que assim estava preparando o futuro.” (Pereira, 1988, pp. 44)
Esta questão de aproveitar o tempo, pode
ser percebida, neste estudo, da seguinte maneira: Primeiro, não encontrei
nenhuma fala ou ação dos pais de Machado de Assis ou de sua madrinha que
estabelecesse que ele deveria ser um grande escritor. Segundo, percebe-se em Machado
de Assis uma assiduidade em ir buscar livros na biblioteca, o que me levou a
concluir que ele valorizava seu tempo a fim de buscar construir um futuro
melhor para si. Desse modo, o tempo lhe era muito caro e ele gastava-o lendo. O
dia-a-dia fez-se muito importante para o alcance de sucesso alcançado por
Machado de Assis. Podemos constatar também, que numa atitude de perseverança o
romancista ia pouco a pouco delineando suas perspectivas de futuro. Como
podemos verificar na passagem abaixo, temos em Machado de Assis uma forma muito
específica de apropriação do tempo e diferente para outros elementos de igual
procedência social:
“A barca
vinha cedo para a cidade, e voltava à tarde, conduzindo sempre os mesmos
passageiros, gente que tinha empregos no centro. Como era natural, a
camaradagem se estabeleceu entre esses companheiros diários, todos conversavam
para matar o tempo. Só o mocinho magro, sempre com um livro na mão, nunca
dirigiu a palavra a ninguém. Mal se sentava, logo afundava na leitura, e assim
ia e voltava, parecendo ignorar os que o cercavam. Sem levantar os olhos do
livro, indiferente aos espetáculos da viagem, à beleza da baía, às embarcações
que encontravam. Era Machado de Assis.” (Pereira, 1988, pp.45)
O segundo princípio que
norteou a nossa pesquisa foram as formas socializadoras familiares produtoras,
segundo nossa compreensão, de disposições sociais favorecedoras de longevidade
escolar nos meios populares. Por formas socializadoras familiares entendemos
todos os processos e mecanismos através dos quais a família repassa para os
filhos os seus valores e os constitui enquanto sujeitos sociais.
Quando buscamos as
origens de Machado de Assis percebemos que, embora mulato, fora criado no
palacete da madrinha, acostumado com pinturas, livros e boas maneiras; tudo
isto proporcionado por um capital social dos pais. Machado de Assis colhia os
frutos de uma boa rede de relacionamentos derivados do meio social ao qual
estavam inseridos e que muito lhe favoreceu a adoção de disposições culturais.
Estas experiências constituíam importantes referências de base para o
romancista. Assim, podemos demonstrar, segundo a citação que se segue, que
Machado de Assis teve seu desenvolvimento intelectual em meio fértil.
"Nas
minhas reminiscências de infância, tenho ainda viva a idéia de ter visto quase
diariamente a tela a que alude a anedota do cônego e do pintor; lá estava a
árvore, atrás da qual o cônego figurava estar escondido para não ser visto de
Susana."(Pereira, 1988, pp.31)
Identificamos, na
história de Machado de Assis uma educação familiar que lhe abriu portas no
mundo. Exemplo disso foi no jornal de Paula Brito onde ele, mesmo sendo um mal
tipógrafo, conseguiu cativar Manuel Antônio de Almeida, seu chefe, e este lhe
deu uma promoção: para o cargo de revisor de textos(provas). Manuel Antônio de
Almeida percebeu em Machado de Assis talento e formação superiores ao de
simples trabalhador tipográfico.
Machado de Assis se
sentia à vontade ao transitar em outros meios sociais. Tanto no modo de se
vestir como no modo como conversar. Era uma pessoa letrada, que conhecia a
moda, através da mãe, que era costureira da proprietária da chácara. Tinha
contato com arte na casa da madrinha, onde ele tinha livre trânsito, e seu pai
assinava o almanaque Laemmert. O que demonstrava uma determinado domínio
cultural ou segundo Bourdieu(1998), possuíam certo habitus que os
diferenciavam de outros sujeitos de igual procedência social. A importante
influência da mãe na desenvoltura apresentada por Machado de Assis, no modo de
se vestir e se portar, pode ser constatada neste relato de Fonseca(1960):
"Acreditamos
que tenha sido ele o cronista mais elegante da Marmota de 1855, 1856 e 1857.
Vêmo-lo mais tarde no Jornal da Família e noutros de índole feminina, sempre à
vontade, sem o menor recalque, o que de sua parte revela, segundo cremos muito
equilíbrio interior."(Fonseca, 1960, pp.25)
Apesar de sua origem
humilde, a formação intelectual de Machado de Assis se deu em um ambiente
favorável à aquisição de disposições culturais, onde estabeleceu para si outros
grupos de referência, por exemplo, a madrinha. A contribuição de seus pais
nesse aspecto foi a de propiciar uma mediação ou, facilitação de inserção
social de Machado de Assis em outros grupos sociais. Como podemos verificar na
citação que se segue:
“Seu super
–ego não se formou apenas em casa, junto dos pais, mas no palacete do padrinho
e no da madrinha, que lhe deram os próprios nomes e o batizaram em capela
particular.” (Fonseca, 1960, pp.54)
A mãe de Machado de
Assis, Maria Leopoldina, era branca e tinha uma condição superior na casa onde
trabalhava. De acordo com Fonseca(1960), apesar de não possuírem bens de
fortuna procediam em conformidade com os varões da casa. Do que podemos deduzir
que seu habitus de classe era formado em ambiente muito diferente do
meio social de origem.
Quanto ao pai de Machado
de Assis, Sr. Francisco José de Assis, há fortes indícios de que ele era filho
de um padre que o ajudou a se tornar pintor – decorador, profissão que exigia
algum estudo na época. Sobre este fato, Pereira(1988), comenta sobre a condição
de vida dos pais de Machado de Assis, que eram “gente humilde mas
organizada, legitimamente casada e benquista no Morro do Livramento. Senão
não teriam sido padrinhos de Machado de Assis tão alta senhora e tão importante
veador." A partir de tal comentário podemos inferir que embora a
condição de vida dos pais de Machado de Assis fosse precária, eles eram
amparados e protegidos por pessoas ricas da sociedade do Rio de Janeiro, do
séc. XIX.
Segundo esta disposição
moral familiar, o fato de serem legitimamente casados, gente honesta e
trabalhadora muito contribuíram para que se pudessem vislumbrar oportunidades
que não seriam possíveis se a família não fosse tão bem constituída. Assim, por
exemplo, o carinho com o qual Machado de Assis era tratado, e que muito lhe
beneficiou, devia-se à situação de seus pais dentro daquela propriedade.
Concluímos então, que a "facilidade" encontrada por Machado de Assis
para inserir-se em outros grupos sociais tem sua explicação, antes de tudo, na
educação que recebera dos pais, assim como, na influência herdada pela família
da madrinha de Machado de Assis.
Quanto à trajetória de
escolarização, quem ensinou as primeiras letras a Machado de Assis foi sua mãe.
No entanto, não existem provas de que ele tenha freqüentado alguma escola.
Existem algumas hipóteses dele ter tido acesso às aulas como ouvinte. Há também
uma citação de Fonseca(1960) em que este biógrafo fala que Machado de Assis foi
coroinha. E essa questão de ser coroinha era importante porque, nessa função se
aprendia o latim e isso constituía uma forma de estar estudando. Somente eram
coroinhas os filhos das pessoas mais abastadas da época.
Numa entrevista de
Pereira(1988) com dona Francisca Basto Cordeiro, filha dos Barões Smith
Vasconcelos e cuja avó, a condessa de São Mamede que fora aluna do Colégio São
Cristóvão, contava que conheceu Machado de Assis baleiro. Nesta escola, segundo
relatos de família de Dona Francisca, enquanto Machado de Assis vendia as
quitandas de sua madrasta este aproveitava para escutar as aulas que não lhe
eram destinadas. Uma outra forma de presença da família de Machado de Assis
através da socialização foi a contribuição paterna que lhe estimulara a paixão
apresentada pela leitura, como podemos perceber no relato citado abaixo:
“E o pequeno vivia na
chácara de dona Maria José de Mendonça Barroso, alheio a necessidades. Não
ignoramos que Francisco [pai de Machado de Assis] amava os livros e é de crer
que alguns houvesse no palacete da madrinha para o pequeno Joaquim Maria se
distrair vendo gravuras.” (Fonseca, 1960, pp.29)
Desta maneira concluímos
que, houveram significativas referências familiares no âmbito da socialização
para que Machado de Assis se tornasse o brilhante escritor em que ele se tornou
e que, esta herança paterna como também toda a herança legada pela mãe foram de
fundamental importância para o sucesso alcançado pelo romancista.
Por fim, o último princípio
norteador da análise foram os processos intergeracionais de continuidades,
rupturas e ambivalências no plano cultural e simbólico que tem como razão de
ser a permanência no sistema escolar.
Entendemos por processos
intergeracionais as relações estabelecidas entre pais e filhos e que tem a
escola como mediadora. Tais relações podem ocasionar continuidades, rupturas
e/ou ambivalências no âmbito cultural e simbólico.
Segundo Berger(1986), a
nossa identidade é atribuída em atos de reconhecimento social e as primeiras
pessoas, as quais nos identificamos, como se olhássemos em um espelho, são com
os nossos pais. Assim a nossa identidade não é uma coisa pré–existente, ela vai
sendo constituída e formada no meio ao qual nos integramos.
A convivência com um
sistema simbólico divergente do nosso ambiente social de origem pode acarretar
conflitos entre as gerações. Tal descontinuidade acontece quando a reprodução
dos valores, usos de linguagem e atitudes não são compatíveis entre as duas
gerações. O contrário seria a continuidade entre o socializado e a sua família,
as duas gerações se identificam, se prolongam apesar de emancipações culturais.
A ambivalência se
caracteriza por uma ruptura parcial, pela manutenção de alguns valores da
família ou, alguma identidade com as origens. A ambivalência seria o estado de
quem experimenta, ao mesmo tempo, numa determinada situação, sentimentos
opostos, falta integração com o meio. Por exemplo: ir a uma festa de
socialização no trabalho e não se reconhecer integrado àquelas pessoas, hábitos
e trocas simbólicas ali instauradas.
Desta
maneira, Richard Hoggart(1957) trabalha bastante com esta idéia do conflito e
da ambivalência experienciada pelas pessoas que realizam este tipo de
emancipação cultural e explicita os comportamentos sintomáticos praticados por
estas pessoas. Ele coloca que geralmente as pessoas que vivenciam esse
deslocamento social e cultural sentem-se desenraizadas e não se sentem
bem em nenhum grupo. Por isso, elas tendem a ser mais fechadas e mais
reservadas que o normal.
Tal fato se deve,
segundo Hoggart(1957), por uma ausência de equilíbrio e certeza necessários
para constituir-lhes a personalidade. Assim, por exemplo, identificamos em
Machado de Assis que ele era bastante reservado, que ele gostava de se
enclausurar dentro de casa, onde ele somente confiava em Carolina (sua esposa).
Supomos que até mesmo na escolha de sua companheira e amada, Machado de Assis
deixou exposta esta questão do conflito interno pelo qual passava, e que era
forte nele. O sofrimento presente na citação abaixo mostra o sofrimento que
muito o atormentava:
“... Tu não
te pareces nada com as mulheres vulgares que tenho conhecido. Espírito e
coração como os teus são prendas raras; alma tão boa e tão elevada,
sensibilidade tão melindrosa, razão tão reta não são bens que a natureza
espalhasse às mãos-cheias pelo teu sexo. Tu pertences ao pequeno número de
mulheres que ainda sabem amar, sentir e pensar. Como te não amaria eu? Além
disso tens para mim um dote que realça os mais: sofreste”. (Facioli, 1982,
pp.29)
Machado de Assis, segundo autores
pesquisados, sempre foi uma pessoa introvertida, tímida, disciplinada e
“aparentemente” desligada do mundo exterior. Outra característica marcante
ressaltada por Hoggart(1957) quanto aos desenraizados, pessoas que
realizam trajetórias de emancipação social e cultural com o meio social de
origem, é que eles retardam sua maturidade sexual em função do êxito escolar.
Isto se deve à necessidade de ter que escolher entre, casar mais cedo e logo
iniciar sua vida profissional ou, estudar. Machado de Assis não tivera outros
relacionamentos afetivos e casara-se com 30 anos de idade.(idade avançada para
a época)
Muito importante também, segundo
Hoggart(1957), é que os desenraizados vivem mais sob a influência
feminina que da masculina. O fato de Machado de Assis ter desenvolvido o gosto
pelas modas deve-se à constante presença do menino junto à mãe enquanto, esta
costurava. Fonseca(1960) nos fala uma pouco mais sobre isto:
“No Rio de
1839(e ainda no de 60 anos após, no Rio em que nascemos), as costureiras
trabalhavam nas residências das freguesas. Vestidos de grande gala
importavam-se de Paris. Os outros preparavam-se em casa. Do convívio diuturno
com a mãe costureira é que Machado de Assis pegou o gosto das modas.”( Fonseca, 1960, pp.25)
Depois, ao lado da madrasta vendendo
doces e mais tarde junto à Carolina percebemos Machado de Assis sempre sob a
tutela feminina. Quantas mulheres e ele parecia se dar muito bem com elas. Esta
é, segundo Hoggart(1957), uma condição que diferencia, nas camadas populares,
os filhos "desenraizados", ou sujeitos sociais marcados por
emancipações culturais dolorosas.
"...Começa
a sentir-se mais próximo das mulheres da casa do que dos homens. Isto acontece
mesmo quando o pai não é daqueles que acham que os livros e a leitura são
<<coisas de mulheres>>. O rapaz passa grande parte de seu tempo no
centro físico do lar, dominado pelo espírito feminino, estudando em silêncio
enquanto a mãe faz o trabalho de casa - o pai volta tarde do trabalho, ou foi
tomar uma bebida com os amigos. O pai e os irmãos do rapaz estão lá fora, no
mundo dos homens; este fica no mundo das mulheres."(Hoggart, 1957, pp.165)
Apesar de não ter valor enquanto prova,
nas obras de Machado de Assis podemos perceber o poder das mulheres e como elas
são influentes nos seus personagens tal consideração nos remete segundo
Massa(1971), as importantes influências femininas na vida do escritor. No
entanto, quanto às influências masculinas, estas são bem menos visíveis ou,
quase inexistentes. Por isso, percebemos mais um fator para a ausência de
identidade ou vínculos culturais com as origens.
Segundo Nicolaci-da-Costa(1982) em todo
processo de socialização há, em potencial, descontinuidades entre sistemas
simbólicos. Segundo Bourdieu(1998), o filho para perpetuar a herança paterna
precisa se distinguir do pai, ultrapassá-lo e, em certo sentido negá-lo. Assim,
de acordo com estes autores, colocamos como hipótese que Machado de Assis para
efetivar sua transposição sociocultural apresentou certo distanciamento, até
mesmo físico, daquela que poderia denunciar uma procedência social e cultural
mais humilde, sua madrasta. Tal comportamento, como também, o disfarce e
ocultamento do pertencimento de classe vivido como marca de um destino singular
e não como fato social, foram detectados em Machado de Assis. A citação abaixo
revela isso, e através dela podemos perceber também porque, desde muito novo, o
menino começa a sentir a necessidade da solidão e do distanciamento com as
origens:
“A madrasta,
tão boa e tão humilde, era um testemunho vivo, insofismável, do passado a que
Joaquim Maria queria fugir. Era a prisão à condição modesta. E na alma do moço
escritor em conflito se há de ter
travado um doloroso drama íntimo entre a gratidão e a ambição. Deixou-se
afinal levar pela segunda, mas não sem lutas, lutas que o marcaram fundamente,
a ponto de ecoarem ainda nos romances escritos tantos anos depois, e devem ter
feito sofrer muito esse introvertido que tudo tentava para sair de si mesmo,
para se alçar acima do seu destino normal, para compensar pela personalidade
construída as deficiências trazidas pelo berço.”(Pereira, 1988, pp.71)
Desta forma, o que gostaríamos de
ressaltar é que segundo os processos intergeracionais vivenciados, a trajetória
de Machado de Assis foi marcada por ruptura entre sistemas simbólicos com a
"autorização" de sua família. No entanto, isto não quer dizer que tal
processo não se revestiu de dor, conflitos e inseguranças como podemos perceber
na descrição acima realizada.
CONSIDERAÇÕES
FINAIS
Como uma conclusão mais geral
identificamos que, a família de Machado de Assis, facilitando-lhe uma rede de
relações sociais exteriores ao núcleo familiar condicionou a emancipação de sua
situação social e cultural de origem. Através de uma atribuição de valor e de
mobilizações em relação a tudo o que se referia `a cultura num sentido mais
amplo, como leitura, pintura, arte de bordar e costurar, prática de boas
maneiras deduzimos que, a família constituiu o fator que possibilitou o sucesso
com as letras alcançado pelo romancista.
Mais especificamente, Machado de Assis
estabeleceu uma ruptura simbólica com o seu meio social de origem. Experienciou
conflitos semelhantes aos caracterizados por Richard Hoggart(1957) para
efetivar sua transposição social e teve como referência outras categorias
sociais, como a madrinha, sendo estas referências intermediadas por sua
família.
A família de Machado de Assis deu-lhe os
subsídios para se integrar num novo grupo social. No entanto, a ruptura que se
estabeleceu com o seu meio social de origem aconteceu quando ele precisou
manter novas integrações e com isto tinha que deixar para trás antigos hábitos
e valores, como podemos observar no caso retratado sobre sua madrasta, que fora
tão boa para ele, na ausência da mãe, mas trazia consigo um passado ao qual ele
queria se distanciar, qual seja, o de não possuir aquilo de que sua alma se
alimenta: outras conversas, outros grupos sociais, outra visão de mundo, outras
práticas e relacionamentos socioculturais. Machado de Assis não se identificava
mais com as origens.
A família, através da formação, propiciou
a Machado de Assis que ele fosse criado diferente dos hábitos com os quais
estavam acostumados, com outras referências fora da restrição familiar. E isto,
implicou em rupturas simbólicas entre eles.
Podemos perceber também, que a família de
Machado de Assis mobilizou-se em ensinar-lhe as primeiras letras, o que
demostrava o domínio de um capital cultural que fora repassado ao filho. Tal
fato, deixa transparecer que realmente valorizavam a educação e desejavam que o
menino se emancipasse culturalmente.
Concluímos que, a trajetória de aquisição
de conhecimento de Machado de Assis se deu, de acordo com as disposições
temporais, com a inexistência de projetos de longo prazo. Sendo assim, cada
passo dado abria horizontes novos. Cada etapa da vida do escritor era superada
com êxito e estas se davam ao acaso.
Concluímos também, que o casamento
realizado pelo romancista, deixa entrever que ele era mais um dos desenraizados
de Hoggart(1957). Tal consideração se faz porque segundo relatos do próprio
Machado de Assis ela possuía duas características que ele muito prezava.
Primeiro, o fato de Carolina ter conhecido a dor e a outra, é que ela era
inteligente. Era a única pessoa com a qual poderia se identificar. Carolina
representava o universo sociocultural que Machado de Assis integrara e ao mesmo
tempo, tinha experienciado a dor como o nosso romancista.
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