A EDUCAÇÃO COMO FATOR DE “ORDEM E PROGRESSO”
(UBERLÂNDIA-MG, 1920-1945)
Círian Gouveia Máximo[1]
Wenceslau Gonçalves Neto[2]
O campo da História da Educação vem se caracterizando por privilegiar as singularidades locais e regionais, numa tentativa de compreender melhor como se desenvolveram e se consolidaram as diretrizes educacionais ao longo dos tempos. E com a ampliação da noção de documento, ocorrida, principalmente, a partir da segunda metade do século XX, fez surgir transformações significativas nesse campo, redirecionando as linhas de pesquisa e os enfoques teóricos.
Mesmo com a má conservação
dos documentos históricos, a falta de um critério para organizá-los e outras
dificuldades, muitos pesquisadores têm realizado trabalhos consistentes,
conseguindo explorar as várias dimensões oferecidas pela História Regional e
Local. Dentre as diversas possibilidades, desta história, pode-se elencar:
permite um contato direto com documentos originais para o trabalho
historiográfico; possibilita observar os fatos descritos no “dia-a-dia”, ao
viabilizar a descoberta de novos sujeitos históricos ou novas participações dos
já conhecidos; permite encontrar novos materiais, que podem ampliar o
conhecimento sobre o tema, dentre outras. Dessa forma,
“o estudo regional oferece novas óticas de análise ao estudo de cunho
nacional, podendo apresentar todas as questões fundamentais da História (como
os movimentos sociais, a ação do Estado, as atividades econômicas, a identidade
cultural, etc.) a partir de um ângulo de visão que faz aflorar o específico, o
próprio, o particular. A historiografia nacional ressalta as semelhanças, a
regional lida com as diferenças, a multiplicidade. A historiografia regional
tem ainda a capacidade de apresentar o concreto e o cotidiano, o ser humano
historicamente determinado, de fazer a ponte entre o individual e o social.
(...) a historiografia regional é também a única capaz de testar a validade de
teorias elaboradas a partir de parâmetros outros, via de regra, o país como um
todo, ou uma outra região, em geral a hegemônica. Estas teorias,
quando confrontadas com realidades particulares concretas,
muitas vezes se mostram inadequadas ou incompletas”. (AMADO, 1990)
Com a historiografia francesa[3] a noção de documento sofre uma renovação, ampliando-se suas categorias de análise ao promover uma “revolução” na maneira de considerar os objetos, como as considerações e informações a eles relacionados. Valoriza-se os documentos antes ignorados, ou seja, cai a supremacia dos documentos oficiais e abre-se espaço para novas séries documentais, possibilitando ampliar a visão dos acontecimentos, sendo estes constituídos “por homens reais, vivendo relações de dominação e subordinação em todas as dimensões do social, daí resultando processos de dominação e resistência” (ARAÚJO et alii, 1995). Ao considerar as novas linguagens, o historiador precisa estar atento para quem as produzem, como as produzem, quem as dominam, isto é, implica pensá-las como elementos que fazem parte da realidade social, não sendo neutras ou despolitizadas.
Desse
modo, pensar pesquisas, no âmbito da História da Educação, é estar diante de
uma diversidade de fontes e possibilidades, de uso dos “novos” documentos,
antes não considerados. Dentre eles destacam-se: boletins, discursos, programas
de ensino, documentos pessoais (cartas, diários), documentos escolares (livros
de ponto, diários de classe, correspondências), fontes iconográficas
(fotografias, ilustrações), fontes audiovisuais, relatos orais, jornais,
revistas, dentre outros.
Esta
pesquisa procura enveredar por um caminho que leve em conta as diversas
dimensões da atividade humana: política, social, cultural e econômica,
procurando não compartimentá-la. Interessa investigar as lutas reais,
considerando não apenas os grandes nomes, mas também as pequenas iniciativas
tomadas nos vários espaços. E ainda, perceber o objeto em meio ao emaranhado de
relações e contradições, tentando recuperar como ele foi constituído.
Nessa
linha de pensamento, a produção do conhecimento histórico deve ser vista
“não
como aquele que tem implicações apenas com o saber erudito, com a escolha de um
método, com o desenvolvimento de técnicas, mas como aquele que é capaz de
apreender e incorporar essa experiência vivida, é fazer retornar homens e
mulheres não como sujeitos passivos e individualizados, mas como pessoas que
vivem situações e relações sociais determinadas, com interesses e com
antagonismos”.(ARAÚJO et alii, 1995)
Ou
seja, passa-se a utilizar uma concepção de história que valorize as
experiências humanas, considerando que a história real é construída por homens
e mulheres reais, vivendo suas necessidades e aspirações, mas que também
resistem e se submetem. A história, portanto, situa-se como um campo de
possibilidades, recuperando a ação de diferentes grupos, antes relegados e
valorizando-lhes seu saber e experiências de vida.
Com
esse olhar entendemos que a imprensa permite o “reconstruir” da história,
trazendo à tona alguns modelos de funcionamento no campo educacional,
constituindo-se num recurso valioso para enriquecer as análises no campo da
História da Educação, por veicular uma grande quantidade de informação, pela
proximidade dos acontecimentos, pelo caráter veloz e polêmico de suas
informações e pelo poder de intervenção na realidade. Constitui-se, dessa
forma, num excelente observatório para se estudar o pensamento pedagógico, por
meio dos discursos veiculados e pela repercussão dos temas debatidos, tanto
dentro como fora do universo escolar.
A imprensa periódica vem sendo (re)visitada por pesquisadores, pelo fato de, na maioria das vezes, estar diante de reflexões muito próximas dos acontecimentos. A análise da imprensa permite o contato com discursos situados, tanto no âmbito macro do sistema, como na esfera micro das experiências humanas. É o lugar onde a regulação coletiva se faz permanente, pois seus organizadores e produtores procuram equilibrar o que ela quer veicular para o leitor conhecer, atendendo, ao mesmo tempo, aos interesses e expectativas do consumidor. Assim,
“os meios de comunicação coletiva, através dos quais as mensagens jornalísticas penetram na sociedade, bem como os demais meios de reprodução simbólica, são ‘aparatos ideológicos’, funcionando, se não monoliticamente atrelados ao Estado, (...) pelo menos atuando como uma ‘indústria da consciência’, (...) influenciando pessoas, comovendo grupos, mobilizando comunidades, dentro das contradições que marcam as sociedades. São portanto veículos que se movem na direção que lhes é dada pelas forças sociais que os controlam e que refletem também as contradições inerentes às estruturas societárias em que existem”. (MELO, 1994)
Diante dessas características, o espaço jornalístico configura-se, primeiramente, por ser um meio de transmissão de informações, não sendo ele neutro e imparcial, perante os acontecimentos, e não estando à margem da realidade social e política. E, também, por serem formadores e reguladores da opinião pública, pelo fato de veicularem análises a respeito da vida política, educacional, comercial, moral, religiosa, entre outros. Na verdade, constitui-se num instrumento de veiculação e manipulação de interesses diversos (públicos e privados), passando a atuar na vida social e, conseqüentemente, não fica alheio à realidade histórica, na qual está inserido.
A imprensa periódica (jornais e revistas) pode contribuir para estudos reflexivos sobre a trajetória da educação, pois através dela manifestam-se, de um modo ou de outro, os problemas educacionais, revelam-se as múltiplas faces dos processos educativos e por ela pode-se “compreender as dimensões sociais da educação, ultrapassando uma mera descrição das idéias, das reformas, dos programas e das práticas educativas” (NÓVOA, 1997). São os pequenos detalhes, ocorridos no interior do espaço educacional e registrados nos jornais, que permitem compreender como as relações foram sendo construídas dentro dos microcosmos sociais. Por meio dos artigos, editoriais, reportagens, notícias, dentre outros gêneros jornalísticos[4], a imprensa constitui-se num importante espaço de observação das relações sociais, possibilitando acompanhar a trajetória dos vários discursos educacionais, demonstrando o desenrolar dos processos históricos, que culminaram em “vitória” ou “derrota” de tais discursos.
Pesquisar a imprensa, permite descortinar características singulares do campo educacional, mostrando as relações estabelecidas por seres humanos numa determinada época, tanto no âmbito nacional, como ainda no regional e local. Desse modo, possibilita recuperar aspectos pouco considerados pela História da Educação Brasileira, pois através de iniciativas desse teor, busca-se preencher algumas lacunas deixadas pelas pesquisas macro-estruturais e, ainda, trazem para o cenário histórico agentes sociais antes desconhecidos, passando a valorizar o seu saber e sua vivência.
Trata-se,
portanto, de buscar interpretações que valorizam as experiências da atividade
humana nos seus aspectos particulares. Dessa forma, realizamos
“uma aproximação do momento de estudo não pela fala dos historiadores
da educação, mas pelos discursos emitidos na época. Em lugar do grande quadro
explicativo da História, da grande síntese que para ser efetuada desconhece
detalhes e matizes, lidamos com a pluralidade: as diversas falas colorem a
compreensão do período e indicam lutas diferenciadas, muitas vezes
irrecuperáveis no discurso homogêneo do historiador de grandes quadros,
fazem-nos recuperar vieses que ficaram perdidos nas análises historiográficas
posteriores. (...) Esses fatos discursivos que compunham o universo da fala no tempo
podem dimensionar melhor os debates, fazendo-nos perceber cada época na sua
feição única e não como parte de um enorme processo histórico que arrola causas
e conseqüências. O significado de cada época, buscado nas referência do momento
e, não, na interpretação a posteriori, pode redimensionar nossa percepção do
período, permitindo-nos vislumbrar lutas e inquietudes numa paisagem que
considerávamos harmônica”. (VIDAL, 1992)
Nessa linha de pesquisa já
podemos contar com diversas publicações, que estimulam e auxiliam novas
incursões por esse caminho. Dos trabalhos publicados podemos mencionar as
produções de Denice Bárbara Catani[5],
José Carlos Souza Araújo[6],
Luciano Mendes de Faria Filho[7],
Maria Helena Câmara Bastos[8],
António Nóvoa[9], Raquel
Gandini[10],
Wenceslau Gonçalves Neto[11],
dentre outros. Por isso, consideramos a imprensa, como fonte histórica,
possibilitando um descortinar de várias potencialidades no campo educacional,
dentre as quais nos salienta António Nóvoa:
“- revelar tanto as múltiplas facetas dos processos educativos, numa perspectiva interna ao sistema de ensino (cursos, programas, currículos), como também o papel desempenhado pelas famílias e pelas diversas instâncias de socialização de crianças e jovens;
- ser o melhor meio para compreender as dificuldades de articulação
entre a teoria e a prática: o senso comum que perpassa as páginas dos jornais e
das revistas ilustra uma das qualidades principais de um discurso educativo que
se constrói a partir de diversos atores (professores, alunos, pais,
associações, instituições);
- ser o lugar de uma permanente regulação coletiva: a elaboração de um
periódico apela sempre a debates e discussões, a polêmicas e conflitos; mesmo
quando é fruto de uma vontade individual, a controvérsia não deixa de estar presente,
no diálogo com os leitores, nas reivindicações junto aos poderes públicos ou
nos editoriais de abertura”. (NÓVOA, 1993)
Permite, então, conhecer os
métodos e concepções pedagógicas, de uma determinada época, propiciando, ao
pesquisador, estudar o pensamento educacional de um grupo, partindo do discurso
veiculado, e ainda sua relação com os temas debatidos no interior do espaço
escolar. Esses periódicos contribuem para a percepção dos modos de
funcionamento da educação, ao veicularem informações a respeito do trabalho
pedagógico, da prática docente, das disciplinas, da organização dos sistemas,
das reivindicações docentes e outros assuntos gestados nesse campo.
Analisá-los, significa compreender os discursos que permeiam as práticas e
teorias, situadas nas várias esferas das experiências humanas, representando
tanto anseios para o futuro como as expectativas do presente.
A partir desse momento
procuraremos fazer uma incursão na direção dos principais jornais que
circulavam na cidade de Uberlândia, MG, entre 1920-1945: A Tribuna (1919-1942), O Estado de Goiaz (1932-1945), O Reporter (1933-1963) e Correio do Triângulo (1939-1985), em particular, as matérias relativas à
educação. Até o momento, já reunimos um conjunto de 110 referências, entre
artigos e editoriais, ligados ao campo educacional. Esta opção metodológica se
deve ao fato da imprensa traduzir, com muita riqueza, os anseios, as desilusões
e as esperanças presentes no cotidiano da sociedade, pois vários agentes
sociais estão presentes em suas páginas (pais, professores, literatos, alunos,
políticos) e revelam questões essenciais que o campo educativo atravessou num
determinado período, permitindo fazer leituras que outras fontes não
possibilitam.
Ao delimitar o nosso objeto
de estudo procura-se investigar as particularidades e singularidades do campo
educacional em Uberlândia[12],
utilizando fontes que possam balizar nossa perspectiva, diante dos desafios da
História da Educação. Pretendemos interpretar as várias matérias publicadas
pelos jornais uberlandenses, procurando identificar qual a concepção de
educação que circulava na cidade. Nesse aspecto possibilita compreender as
múltiplas faces dos processo educativos, permitindo entender as dimensões
sociais da educação em Uberlândia.
Desde
as primeiras décadas do século XX, há uma freqüência de matérias que enaltecem
a cidade de Uberabinha[13],
elevando suas conquistas, seu “adiantado” progresso, sua “industrialização”,
seus feitos. Percebe-se, portanto, uma grande preocupação, por parte dos
autores dessas matérias, de prover a cidade de elementos que dignifiquem seu
nome e a projetem, sempre à frente das demais cidades da região, no cenário
nacional.
Uma
das constantes preocupações diz respeito à instrução, do povo dessa “cidade
maravilhosa”, devendo estar sempre à altura de
seu desenvolvimento comercial e industrial e manter seu lugar de destaque,
também, no âmbito da cultura. A instrução, seria a luz capaz de guiar os “filhos
desta terra abençoada” para as grandes
realizações, uma vez que a educação geraria o desejo de trabalhar e,
conseqüentemente, o povo almejaria progredir.
Dessa
forma, a ausência de uma instrução cuidadosa, era a causa das calamidades, dos
vícios e doenças presentes na cidade. Um povo analfabeto é um povo miserável,
capaz de destruir o equilíbrio da própria nação. Nessa ótica, a educação era um
fator de transformação social capaz de despertar nos indivíduos o ideal de
nação, formando, assim, homens capazes de conduzir este país ao progresso.
Através dos princípios e valores adquiridos pela educação, manter-se-ia a ordem
e a regeneração dos vícios, evitando-se o aumento da marginalidade e,
conseqüentemente, a desarmonia social, alçando a sociedade uberabinhense ao
estado de progresso material e moral.
Os jornais trazem em suas
páginas, além de questões corriqueiras, preocupações maiores, como as relativas
ao progresso social e material da cidade. De acordo com o ideário positivista,
o progresso está diretamente ligado à condição de ordem, pois sem ela não é
possível elaborar ou acolher nenhuma reforma social. A educação deveria formar
solidamente a conduta dos indivíduos, prescrevendo regras que estariam em
conformidade com a harmonia social[14].
Essa interdependência entre o progresso e a ordem pode ser percebida no
seguinte fragmento extraído do jornal A
Tribuna:
“A ordem tem seu fundamento no caracter objetivo da invariabilidade das
leis naturaes. A ordem artificial,
desprezado ponto de
vista subjectivo, repousa
necessariamente sobre a ordem natural e resulta do conjunto das leis reaes. A
correlação que se nota entre a existencia e o movimento, transportada para o
campo social, se manifesta egualmente entre a ordem e o progresso. A ordem se
torna, assim a condição permanente do progresso, ao passo que este constitue
sempre o objectivo daquella. Enfim, não se comprehende o progresso, sinão em
uma sociedade em que a ordem assume a cada passo um estado de maior perfeição.
E o progresso deve ser visto como um aperfeiçoamento, na evolução da ordem.
(...) Nem a ordem immovel, nem o progresso que não se funda na ordem são
bastantes fecundos; pelo contrario, o mais completo ideal se encontra na ordem
que evolue e assim progride. Ahi os dois ideaes se harmonizam numa formula
única: ordem e progresso”. (CAMPOS, 1921)
A ordem e o progresso,
segundo os positivistas, seriam conseguidos através da educação, sendo esta o
meio pelo qual a sociedade prepararia as crianças para as condições essenciais
de sua própria existência, ou seja, a educação, como um processo social,
deveria desenvolver condições intelectuais e morais, reclamadas pela sociedade,
no seu conjunto e, em especial, pelo meio a que a criança se destina[15].
Tais conceitos podem ser percebidos nos seguintes fragmentos das matérias
jornalísticas:
“Desenvolver a instrucção, creando escolas em quantidade necessaria;
fazer com que nenhuma creança fuja ao ensino, é construir; é levantar a nação,
o estado”.
(PARA..., 1920)
“(...) um fim de muito maior
trancendencia lhe reservou ou descobriu a moderna pedagogia: a formação
completa do individuo, para a sua vida social, a vida que elle está vivendo e a
que o espera o futuro(...)”. (ESCOLA..., 1936)
“Quanto mais apurada a personalidade de cada um, mais culto e elevado o
meio, que é constituido pelos próprios individuos. Eis que a educação é fator
do progresso geral. (...) Com ela, toda a geração eleva-se e transmite aos
provindouros o cabedal precioso do saber”. (RIOS, 1942)
Esses elementos, permitem
entrever uma concepção pedagógica que possibilitaria educar os alunos para o
coletivo, sendo considerado educado aquele apto a viver em conformidade com os
preceitos sociais vigentes. Essa educação, para a coletividade, é uma
preocupação dos pensadores positivistas, especialmente Durkheim, pois a
educação consiste numa socialização das gerações, sendo todo indivíduo, formado
por dois seres:
“um, constituído de todos os estados mentais que não se relacionam
senão conosco mesmo e com os acontecimentos de nossa vida pessoal; é o que se
poderia chamar de ser individual. O outro é um sistema de idéias, sentimentos e
hábitos, que exprimem em nós, não a nossa individualidade, mas o grupo ou os
grupos diferentes de que fazemos parte; tais são as crenças religiosas, as
crenças e as práticas morais, as tradições nacionais ou profissionais, as
opiniões coletivas de toda espécie. Seu conjunto forma o ser social. Constituir
esse ser em cada um de nós – tal é o fim da educação”. (DURKHEIM, 1978)
Durkheim, em seus estudos,
aborda a educação como um fenômeno social que ocorre em todos os grupos
sociais. No entanto, ela varia de uma sociedade para outra, pois cada uma
construirá o seu tipo ideal de homem, de acordo com suas necessidades. Para ele
o homem tornou-se humano a partir da cooperação e das tradições sociais, de
modo que a sociedade, a cada nova geração, precisa sobrepor ao “ser associal”
um outro, submisso à vida moral e social. Seria através da ação educativa que
se transmitiriam os atributos distintivos do homem, a educação consistiria,
dessa forma, numa via social.
Perante os dados
apresentados, entendemos a dimensão e importância da História da Educação, ao
preocupar-se, mais detidamente, com a apreensão dos movimentos sociais, os
quais impulsionaram as mudanças na educação. Vê-se, assim, o significado deste
campo, configurando-se num contínuo pensar e repensar dos modos de atuação dos
sujeitos, bem como sua intervenção, consciente ou inconscientemente, na
sociedade. Cabe, portanto, aos historiadores da educação, procurarem a
caracterização dessa ação, não na busca de verdades imutáveis, mas sim no
sentido de trazer à tona as múltiplas facetas que compuseram ou compõem uma
determinada época. É com esta intenção que desenvolvemos este estudo, sem ter a
pretensão de cristalizar verdades.
Apesar
da existência de algumas correntes historiográficas, que atribuem inconsistência
a essas fontes e inexpressividade da História Local e Regional em relação a
outros “achados”, do nosso ponto de vista, a imprensa é uma importante
referência para a (re)construção de um processo histórico-educacional
incompleto e fragmentado, ao permitir o (re)pensar sobre os “fragmentos da
História”, sem poder de vista sua composição com os elementos
macro-estruturais. Nesse sentido, vislumbra-se novas representações e várias
análises para a História da Educação.
Referências Bibliográficas
AMADO,
Janaína. História e região:
reconstruindo e construindo espaços. In: SILVA, Marcos A. da (Org.). República em Migalhas: História
Regional e Local. São Paulo: Marco Zero/CNPq, 1990.
ARAÚJO,
Maria do Pilar et alii. A pesquisa em
História. 3 ed., São Paulo: Ática, 1995.
BASTOS, Maria Helena Câmara. Apêndice- “A imprensa periódica educacional no Brasil: de 1808 a 1944". In: A imprensa periódica e a História da Educação. Educação em Revista. São Paulo: Escrituras, 1997.
CAMPOS, Juca dos. Ordem e Progresso. A Tribuna, Uberabinha, 10 de abril de 1921, ano II, nº 83, p. 01.
COMTE, Auguste. Curso de Filosofia Positiva. São Paulo: Abril Cultural. 1973. Coleção Os Pensadores. pp. 7-302.
DURKHEIM, Émile. Educação e Sociologia. São Paulo: Melhoramentos, 1978.
ESCOLA Nova. Diario de Uberlandia, Uberlândia, 27 de abril de 1936, anno I, nº 7, p. 02.
MELO, José Marcos de. A opinião do jornalismo brasileiro. 2 ed., Petrópolis: Vozes, 1994.
NÓVOA, António. A imprensa de educação e ensino: concepção e organização do repertório português. In: CATANI, Denice Bárbara e BASTOS, Maria Helena Câmara. A imprensa periódica e a História da Educação. Educação em Revista. São Paulo, Escrituras, 1997.
______ A imprensa de educação e ensino – repertório analítico (séculos XIX e XX). Lisboa: Instituto de Inovação Educacional, 1993. Coleção Memórias da Educação.
PARA o Futuro. A Tribuna, Uberabinha, 15 de fevereiro de 1920, anno I, nº 23, p. 01.
RIOS, Joaquim. Pedagogia X. O Estado de Goiaz, Uberlândia, 26 de fevereiro de 1942, ano 10, nº 735, p. 02.
VIDAL, Diana Gonçalves e CAMARGO, Marilena Jorge Guedes de. A imprensa periódica especializada e a pesquisa história: estudos sobre o Boletim de Educação Pública e a Revista Brasileira de Estudos Pedagógicos. Revista Brasileira de Estudos Pedagógicos, Brasília, v. 73, nº 175, set./dez. 1992.
[1] Graduada em Pedagogia pela Universidade Federal de Uberlândia, mestranda em Educação pela UFU e membro do Núcleo de Estudos e Pesquisa em História e Historiografia da Educação da UFU.
[2] Orientador – Doutor em História pela FFLCH/USP, professor do Instituto de História e do Programa de Mestrado em Educação da UFU.
[3] De acordo com Peter Burke, a historiografia passou por um “processo revolucionário” na França, com o surgimento, em 1929, da Escola dos Annales. Segundo esse mesmo autor, podemos distinguir três momentos: no primeiro destacam-se Lucien Febvre e Marc Bloch, os fundadores que abrem “fogo” contra o antigo regime historiográfico e fundam os Annales, revista que carrega como pressuposto a colaboração interdisciplinar; já a segunda geração tem como figura exponencial Ferdinand Braudel, corresponde ao período em que aparecem mais bem definidos e articulados os novos métodos propostos e as novas categorias que lhes servem de sustentação (história serial, longa duração e, principalmente, estruturas e conjunturas); no terceiro momento aparecem historiadores contemporâneos bastante conhecidos como Jacques Le Goff e Georges Duby, entre outros, os quais abandonam a rigidez dos primeiros tempos e adotam posturas mais abertas em relação às outras correntes historiográficas. Cf. Peter BURKE. A escola dos Annales, 1929-1989 – A Revolução Francesa da Historiografia. 3 ed., São Paulo: UNESP. 1991. José Carlos REIS. Escola dos Annales – a inovação em História. São Paulo: Paz e Terra. 2000.
[4] De acordo com José Marcos de Melo o jornalismo classifica-se em duas categorias: a informativa e a opinativa. Os gêneros constitutivos da categoria informativa “se estruturam a partir de um referencial exterior à instituição jornalística: sua expressão depende diretamente da eclosão e evolução dos acontecimentos e da relação que os mediadores profissionais (jornalistas) estabelecem em relação aos seus protagonistas (personalidades ou organizações)”, fazendo parte desta categoria tem-se: nota, notícia, reportagem, entrevista. Já nos gêneros que compõem a categoria opinativa “a estrutura da mensagem é co-determinada por variáveis controladas pela instituição jornalística e que assumem duas feições: autoria (quem emite a opinião e angulagem (perspectiva temporal ou espacial que dá sentido à opinião)”, são componentes desta categoria: editorial, comentário, artigo, resenha, coluna, crônica, caricatura e carta. José Marcos de MELO. A opinião do jornalismo brasileiro. 2 ed., Petrópolis: Vozes, 1994. pp. 64-5.
[5] Denice Bárbara CATANI. Informação, Disciplina e Celebração: os Anuários do Ensino do
Estado de São Paulo. Texto apresentado na XVI Reunião Anual da ANPED, Caxambú,
MG, 1993. Publicado na Revista da Faculdade de Educação, v. 21, n. 2, jul./dez.
1995, p. 9-30; Educadores à meia-luz:
um estudo sobre a Revista de Ensino da Associação Beneficente do Professorado
Público de São Paulo – 1902-1919. São Paulo: FEUSP, 1989, tese de doutorado; A imprensa pedagógica periódica e a
constituição do campo educacional paulista. SBPC/Anais, 1992; A imprensa
periódica educacional: as revistas de ensino e o estudo do campo educacional. Educação e Filosofia, Uberlândia, MG,
10(20):115-130, jul./dez. 1996; CATANI, Denice Barbara e BASTOS, Maria Helena
Câmara (Org.). A imprensa periódica e a História da Educação. Educação em Revista. São Paulo:
Escrituras, 1997.
[6] José Carlos Souza ARAÚJO et alii. Educação, Imprensa
e Sociedade no Triângulo Mineiro: a revista A
Escola (1920-1921). História da
Educação, Pelotas, RS, 2(3):59-94, abril 1998.
[7] Luciano Mendes de FARIA FILHO (Org.). Pesquisa em História da Educação: perspectivas de análise, objetos e fontes. Belo Horizonte: HG edições. 1999; Dos pardieiros ao palácio – cultura escolar e urbana na Primeira República. Passo Fundo: UPF. 2000.
[8] Maria Helena Câmara BASTOS. O novo e o nacional em revista: a Revista do Ensino do Rio Grande
do Sul (1939-1942). São Paulo: FEUSP, 1994, tese de doutoramento; As revistas
pedagógicas e a atualização do professor: a Revista do Ensino do Rio Grande do
Sul (1951-1952). In. CATANI, Denice Bárbara e BASTOS, Maria Helena Câmara
(Org.), 1997; Apêndice- “A imprensa periódica educacional no Brasil: de 1808 a
1944". In: A imprensa periódica e a História da Educação. Educação em Revista. São Paulo:
Escrituras, 1997.
[9] Antônio NÓVOA. A
imprensa de educação e ensino – repertório analítico (séculos XIX e XX).
Lisboa: Instituto de Inovação Educacional, 1993. Coleção memórias da Educação;
A imprensa de educação e ensino: concepção e organização do repertório
português. In: Denice Barbara e BASTOS, Maria Helena Câmara (Org.), 1997;
Inovação e História da Educação. Teoria
e Educação, nº 6, 1992. pp. 210-20.
[10] Raquel GANDINI. Intelectuais, Estado e Educação: Revista Brasileira de Estudos Pedagógicos, 1944-1952. Campinas: Unicamp, 1995.
[11] Wenceslau GONÇALVES NETO et alii. Educação e
Imprensa: análise de jornais de Uberlândia, MG, nas primeiras décadas do século
XX. Revista de Educação Pública,
Cuiabá, nº 6, 1997.
[12] A cidade de Uberlândia, que até 1929 chamava-se Uberabinha, no Censo de 1920 contava com uma população de 22.956 habitantes, sendo 18.516 no meio rural e 4.840 no espaço urbano. Já no Censo de 1940 a população passa para 42.179 habitantes, não estando especificado a relação dos que habitam no meio urbano e rural, tais índices demonstram um considerável crescimento populacional. No entanto, não se verifica esse crescimento na instrução, de modo que apenas uma pequena parcela da população era alfabetizada. E a imprensa, em especial os jornais, destinarão suas matérias a esta elite, veiculando concepções, idéias e valores de seu interesse. Ao analisar as matérias jornalísticas, do período entre 1920 a 1945, poder-se-á compreender um pouco do que se passava no interior da sociedade uberlandense, no tocante à idéia de educação, como sendo o caminho para se alcançar o progresso e a socialização.
[13] Pela Lei n° 1126 de 19 de outubro de 1929, sancionada pelo então Presidente do Estado de Minas Gerais Dr. Antônio Carlos Ribeiro de Andrada, o município, cidade e comarca de São Pedro de Uberabinha, passou a denominar-se Uberlândia.
[14] Segundo Comte, “a ordem constitui sem cessar a condição fundamental do progresso e, reciprocamente, o progresso vem a ser a meta necessária da ordem”. Augusto COMTE. Discurso sobre o espírito positivo. São Paulo: Abril Cultural, 1973. Coleção Os Pensadores. p. 75.
[15] Para Durkheim a função da educação é “suscitar na criança: 1º, um certo número de estados físicos e mentais que a sociedade à qual a criança pertence considera não deverem estar ausentes de qualquer de seus membros; 2º, certos estados físicos e mentais que o grupo particular (casta, classe, família, profissão) considera igualmente dever encontrar-se em todos aqueles que o constituem. Assim, é a sociedade, no seu conjunto, e cada meio social particular, que determinam esse ideal que a educação realiza. A sociedade somente poderá viver se entre os seus membros existir uma suficiente homogeneidade: a educação perpetua e reforça essa homogeneidade, fixando antecipadamente na alma da criança as similitudes essenciais que a vida coletiva exige. Por outro lado, porém, sem uma certa diversidade, qualquer cooperação seria impossível: a educação assegura a persistência dessa diversidade necessária, diversificando-se a si próprio e especializando-se”. Émile DURKHEIM. Sociologia, Educação e Moral. Porto: Rés-editora, 1984. p. 16.