A MÚSICA NAS ESCOLAS MINEIRAS DOS ANOS
20:
UM ESTUDO A PARTIR DE SUA LEGISLAÇÃO
ESPECÍFICA
Autor: Flávio Couto e
Silva de Oliveira
RESUMO
Este artigo
constitui-se em resultados parciais da pesquisa que desenvolvo no programa de
Doutorado em Educação da Faculdade de Educação da UFMG, sobre a história da
educação musical nas escolas primárias de Belo Horizonte entre as décadas de 20
e 70. O objetivo central do artigo é analisar o desenvolvimento histórico da
educação musical nas escolas primárias mineiras durante a década de 1920,
período durante o qual a educação musical foi considerada como parte integrante
de um processo de educação cívica e estética nas escolas brasileiras. O estudo
da legislação mineira relativa à educação musical permitiu identificar as
especificidades da evolução da mesma no Estado de Minas Gerais. O artigo tem
sua relevância na medida em que traz para o campo da história das disciplinas
escolares, uma temática ainda pouco explorada. As fontes pesquisadas
constituem-se, basicamente, de leis e decretos contidos na Coleção das Leis do
Estado de Minas Gerais, pertencente ao acervo do Arquivo Público Mineiro. Como
referenciais teóricos foram utilizados estudos nos terrenos da história
cultural e da história das disciplinas escolares. O trabalho é objeto de
interesse para educadores musicais, historiadores da educação e demais
pesquisadores da história cultural de Belo Horizonte no princípio do século.
Desde
que se compreenda em toda sua amplitude a noção de disciplina, desde que se
reconheça que uma disciplina escolar comporta não somente as práticas docentes
da aula, mas também as grandes finalidades que presidiram a sua constituição e
o fenômeno de aculturação de massa que ela determina, então a história das
disciplinas escolares pode desempenhar um papel importante, não somente na
história da educação, mas na história cultural" (CHERVEL, 1990).
TIRAR ESSA PARTE EM
VERMELHO SE NÃO HOUVER ESPAÇO NO TEXTO
A educação
musical pode ser compreendida como uma pedagogia apropriada ao ensino e aprendizagem
da linguagem musical e sua gramática, do conhecimento organizado das relações
entre os sons e de suas infinitas possibilidades de expressão artística,
utilizando-se para isso de diferentes técnicas vocais e instrumentais, em
instrumentos musicais convencionais ou não. Segundo MARTINS (1991-1993:06), a
educação musical é uma disciplina que deve se orientar por uma "preocupação com os processos de uma
pedagogia musical, com uma aprendizagem adequada às diferentes necessidades e
características humanas, respeitando níveis de desenvolvimento biológico,
cognitivo e cultural".
Não restam dúvidas de que a música é
um poderoso instrumento de aprendizagem, afirmação e expressão da cultura dos
mais diferentes grupos sociais. Quem tem a oportunidade de ver crianças de
pouca idade executando perfeitamente as coreografias criadas a cada verão pelos
grupos musicais da moda, a cadência de soldados marchando ao som de uma banda
marcial, uma torcida de futebol cantando o hino do seu time, ou a batida de uma
escola de samba atravessando a avenida, percebe claramente o impacto que a
música, em suas mais variadas formas, tem na formação das identidades sociais.
Apesar disso, no campo da educação, pouco se estudam os métodos e os processos
pelos quais a música é (ou foi) ensinada e aprendida nas escolas brasileiras,
onde nas últimas décadas, essa disciplina tem sido sistematicamente relegada a
segundo plano, como se pode verificar na atual exiguidade dos tempos e dos
espaços escolares a ela dedicados. Assim, as discussões sobre a educação
musical escolar acabam quase sempre restritas aos debates internos da área, os
quais, via de regra, estão voltados para as questões didático-pedagógicas da
música e quase nunca para seus aspectos históricos.
A música, historicamente, tem
integrado os currículos escolares, cumprindo diferenciados objetivos e funções
pedagógicas, estéticas e políticas. Logo, os valores atribuídos à educação
musical transitam entre valores intrínsecos e extrínsecos à música. De maneira
geral, na Europa, até o início do século XX, a educação musical se baseava
preferencialmente, em valores extrínsecos, ou seja, servia para atender às
demandas de serviços religiosos, militares e de comemorações escolares
(HENTSCHKE, 1991). A partir de meados dos anos 20, educadores musicais como
Zalton Kodaly, Emile Jaques Dalcroze e Carl Orf passaram a perseguir uma
educação musical não como meio para se atingir outros fins (educação através da
música) e nem tampouco com o único objetivo de formar músicos profissionais, mas
uma educação musical que privilegiasse a música como uma linguagem artística
plena de possibilidades expressivas e capaz de influir positivamente no
desenvolvimento estético e intelectual dos educandos. Para esses educadores
musicais, o aprendizado e o domínio da linguagem musical deveria partir de
experiências concretas dos alunos com os fenômenos sonoros, a fim de que esses
pudessem ser mais bem apreciados e enriquecidos de novas significações. Somente
então, os alunos teriam contato com a teoria e a gramática musical. Nessa
perspectiva, o estudante passava a ser visto no centro do processo de ensino e
aprendizado, enquanto o professor mantinha-se apenas como um orientador de suas
descobertas e desenvolvimentos. Essas idéias sobre educação musical foram fortemente
influenciadas pelos preceitos escolanovistas e sobretudo pelo pensamento do
educador americano John Dewey, que alcançou grande repercussão entre os
professores de arte.
No Brasil, durante as primeiras
décadas do século XX, a educação musical começou a ganhar espaço nos currículos
das escolas, sob a forma do canto escolar. Durante esses anos, os argumentos em
favor de sua legitimação enquanto disciplina escolar estiveram intimamente
ligados ao momento sócio-político-cultural que atravessava o país. Vivia-se
então, o período crucial de consolidação do regime republicano e, à educação,
coube um importante papel na afirmação desse novo projeto de nação. Assim, com
o advento da República, instaurou-se um vigoroso debate no campo da educação,
relacionado à formação de uma nova civilidade para as massas, a qual devia
estar ancorada em um legítimo entusiasmo cívico-patriótico e que fosse, ao
mesmo tempo, condizente com os padrões de uma sociedade que se pretendia
moderna e renovadora. Logo, a educação estética e a educação cívica da
população, juntas, iriam ajudar a cimentar o ideário republicano de
modernização do país e de exaltação do sentimento nacionalista. A aula de
canto, aos poucos, passou a adquirir um prestígio cada vez maior dentro da
estrutura curricular, notadamente no ensino primário, desempenhando um papel
intermediário entre os objetivos de caráter estético e os de caráter
patriótico.
A legislação sobre a educação
musical escolar, encontrada no Arquivo Público Mineiro, permitiu acompanhar um
pouco da trajetória do desenvolvimento dessa disciplina nas escolas de Belo
Horizonte. Foram encontrados entre os anos de 1924 e 1934, cerca de quatorze
decretos assinados pelos respectivos presidentes do Estado, dispondo sobre a
organização da educação musical nos ensinos primário e normal. No entanto, é
interessante notar que em Minas Gerais, já em 1906, a música fazia parte do
currículo escolar. Nos programas escolares das escolas singulares ou isoladas,
por exemplo, "seria a própria
professora a encarregada de dirigir o canto, no primeiro e no último intervalo
do horário de aulas, devendo escolher hinos apropriados ou os que se
determinarem oficialmente", sendo que ao canto eram destinados "dois tempos diários de déz minutos,
intercalados com outras cadeiras de ensino e com os exercícios físicos" (VAGO,
1999:163-164).
Desse modo, já desde aquele tempo, a
aula de música começou a se impor nas escolas primárias mineiras como uma
disciplina em construção. Assim, de acordo com o Decreto n° 6.758/25, que
dispunha sobre os programas de ensino primário, o qual será analisado adiante, percebe-se
que a organização dos tempos escolares dedicados à aula de canto não passou
por alterações substanciais até o final
da década de 20. Em outras palavras, o referido decreto mantinha, para as aulas
de canto, os mesmos dois tempos de dez minutos intercalados com outras
disciplinas. É importante chamar a atenção para o fato de que, em todos os
demais conteúdos, as aulas raramente excediam a duração de vinte minutos, conforme
revela o quadro de horários disposto na
TAB. 1.
TABELA 1:
Grupos escolares diurnos e escolas reunidas (turno único)
|
Horas |
Segunda-feira |
Terça-feira |
Quarta-feira |
Sexta-feira |
Sábado |
||
|
11:00 |
Chamada |
||||||
|
11:05 às 11:20 |
Leitura |
Leitura |
Leitura |
Leitura |
Leitura |
||
|
11:25 às 11:45 |
Aritmética |
Aritmética |
Aritmética |
Aritmética |
Aritmética |
||
|
11:50 às 12:00 |
Canto
|
||||||
|
12:05 às 12:25 |
Escripta |
Escripta |
Escripta |
Escripta |
Escripta |
||
|
12:30 às 12:50 |
Língua Pátria |
Língua Pátria |
Língua Pátria |
Língua Pátria |
Língua Pátria |
||
|
12:55 às13:35 |
Recreio e exercícios
físicos |
||||||
|
13:40 às 14:00 |
Leitura |
Leitura |
Aritmética |
Sc. nat. Hyg. |
Sc. nat. Hyg. |
||
|
14:05 às 14:25 |
Geographia |
Geographia |
Geographia |
Desenho |
Desenho |
||
|
14:30 às 14:40 |
Canto
|
||||||
|
14:45 às 15:05 |
Aritmética |
Aritmética |
Escripta |
Leitura |
Sc. nat. Hyg. |
||
|
15:10 às 15:30 |
Desenho |
Trabalhos |
Trabalhos |
Trabalhos |
Trabalhos |
||
Nota:
Entre duas lições consecutivas, havia o intervalo de cinco minutos para
descanso da classe e correção de exercícios pelo professor
Verifica-se
assim que ao canto, eram dedicados os mesmos vinte minutos diários que para as
outras disciplinas. Em artigo publicado na Revista do Ensino, no ano de 1926, a
Professora Branca de Carvalho Vasconcellos, uma das principais incentivadoras
do canto escolar no período, assim justificava a partição desses vinte minutos
em dois tempos de dez:
Que
as lições sejam breves, não excedendo de oito a déz minutos. O motivo dessa
limitação é claro: si a atenção, como dissemos, é mantida com prazer, pelas
creanças, por ser a aula de canto para ellas um momento de recreação e de
alegria - prolongados os exercícios, essa attenção se cansa e as creanças se
enfadam, acabando por acompanhá-los penosamente (VASCONCELLOS: 1926, 222).
Sobre
o repertório das canções aprendidas é de se notar que o mesmo era definido
oficialmente pelo decreto que regulamentava o ensino primário em todo o Estado:
"o Governo mandará organizar e
editar um hinário, que contenha a letra e a música dos hinos e cânticos
patrióticos que forem aprovados pelo Conselho Superior para ser distribuído a
todas as escolas primárias do Estado, quer públicas, quer particulares"
(DECRETO n°
6.655/24, art. 206). Tudo isso aponta para um controle do Estado sobre a
disciplina, que é compreensível uma vez que a aula de canto, com seus hinos
cívicos e patrióticos, era um elemento-chave para uma educação que procurava
inculcar nas novas gerações os sentimentos de nacionalidade tão necessários
para a consolidação do ideário republicano.
Conforme
o Decreto n°
6.758/25, no curso primário das escolas singulares, tanto distritais como
urbanas, e no dos grupos escolares e escolas reunidas, a aula de canto figurava
ao lado de disciplinas como desenho, leitura e escrita, língua pátria,
aritmética prática, generalidades acerca do mundo e rudimentos de clorografia
do Brasil, principais fatos de história pátria (com particularidade da de Minas
Gerais), noções de educação moral e cívica e de urbanidade, rudimentos de
ciências naturais e de higiene e exercícios físicos. O fato de o canto constar
do currículo de todas as séries do ensino primário denota uma grande
importância a ele atribuída enquanto uma disciplina relacionada tanto à
urbanidade e educação moral e cívica, quanto à higiene e aos exercícios
físicos.
No
referido decreto, os conteúdos das aulas de canto aparecem de forma bastante
detalhada, tornando possível nos acercarmos da dinâmica de funcionamento dessa
disciplina. No entanto, de acordo com GOODSON (1995), é importante lembrar que
trata-se aqui da apresentação de um currículo oficial, isto é, de uma exposição
de intenções e normas a serem seguidas as quais, via de regra, não são
necessariamente congruentes com o currículo real, aquele efetivamente
praticado. Contudo, a leitura do documento é de interesse fundamental como
ponto de partida para o conhecimento mais aprofundado sobre o cotidiano e as
práticas culturais da disciplina em questão. O programa de canto para as
escolas primárias principia então por instruir a professora sobre os
procedimentos que a mesma devia adotar
durante as aulas, abordando nove pontos principais:
1)
A professora, antes de mais nada, deverá escolher, entre os alunos da classe,
os que mostrarem possuir melhores vozes e destacá-los, para constituírem o
primeiro grupo coral. 2) Nos primeiros dias, tantos quantos julgue necessário,
deverá obrigar os demais alunos da classe a ficarem em semicírculo e em
silêncio, até terem aprendido bem a letra e a música dos hinos ou das canções
escolhidas para o exercício. 3) Só depois é que permitirá que esse últimos
alunos participem do canto coral. 4) Não permitirá que os alunos, das primeiras
vezes, excedam a oitava compreendida entre o Dó da primeira linha inferior e o
Dó do terceiro espaço da clave de sol. 5) Deve adotar o diapasão para dar o tom
e, se possível, utilizar-se de um piano, de um harmonium ou, mesmo, de algum
outro instrumento para o solfejo, primeiro e depois para o acompanhamento. 6) O
exercício de canto deverá ser diário, não excedendo, porém, de cinco a oito
minutos. 7) As músicas adotadas deverão ser simples e fáceis; a princípio
servirão as próprias cantigas populares ordinariamente entoadas pelos alunos em
seus brinquedos. 8) Só depois que as vozes estiverem mais firmes e claras,
iniciará a professora o canto dos hinos e de outras músicas mais fortes e difíceis,
observando, porém, cuidadosamente a capacidade das crianças para tal exercício.
9) Deverá preocupar-se também em obter da parte dos alunos o canto sem esforço
e com boa emissão e vocalização. (DECRETO n°
6.758/25).
Através
dessas instruções, pode-se notar a preocupação das autoridades educacionais,
com relação à educação do sentido da audição das crianças. Isso se manifesta
claramente nos itens 1, 2 e 3, onde os alunos deviam primeiro ouvir, à
exaustão, as melodias e letras entoadas pelos colegas de "melhores
vozes" antes de tentar acompanhá-los. Também o uso do diapasão, expresso
no item 5, denota essa preocupação com a educação auditiva das crianças, na
medida em que, esse instrumento permite à professora definir melhor a
tonalidade e a afinação do coro. Os itens 4, 6, 8 e 9 refletem, por sua vez, alguns cuidados com as vozes infantis
a fim de se evitar o uso abusivo das mesmas, definindo inclusive sua tecitura e
região de maior conforto para a vocalização. O item 7 reflete uma preocupação
didático-pedagógica para o canto, uma vez que ali se expressava o valor
atribuído às experiências musicais extra-escolares dos alunos. Finalmente, deve-se notar que todas as
instruções diziam respeito também a uma preocupação de caráter estético: o coro
deveria ser afinado e as vozes limpas e fortes, sem que as crianças precisassem
forçá-las. Segundo (VASCONCELLOS: 1928, p: 391), durante os exercícios de
vocalização a professora devia cuidar rigorosamente de dois pontos essenciais:
A)
Da emissão dos sons, para que essa emissão seja natural, isto é, para que a voz
não saia da garganta, mas dos pulmões e não seja nasal, mas limpa e pura. B) Da
voz cantada, para que não haja o canto gritado, inconveniente a que nos temos
referido mais de uma vez e que cumpre afastar inteiramente das nossas classes,
como desvirtuante dos fins educativos do canto escolar.
Para
que os objetivos da aula de canto fossem alcançados, os programas do ensino
primário, tal como os descreve o decreto, obedeciam a uma organização onde
mesclavam-se os aspectos musicais e os cívicos. No primeiro ano, eram dadas
canções populares e patrióticas de pequena extensão e música fácil, que fossem
designadas no hinário escolar para este ano. A professora devia explicar então,
aos alunos, a importância do canto sob vários aspectos. No segundo ano, eram
estudados os hinos constantes do hinário escolar que fossem recomendados. Esses
já deveriam ser cantados com alguma precisão e expressão, mantendo os alunos, a
postura correta e adequada ao canto. No terceiro ano, além dos hinos
recomendados, já se exigia dos alunos a máxima correção possível. Nessa etapa,
a professora já devia explicar as vantagens do canto, não somente sob o aspecto
psicológico, mas também as de ordem moral. Finalmente, no quarto ano, além do canto
extensivo a toda classe, conforme o hinário escolar, podia-se tentar o canto
individual, ou de um pequeno grupo de alunos dentre os que tivessem revelado
melhor voz. Nesse ano, a professora devia prosseguir com os ensinamentos de
caráter moral e cívico.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Neste artigo, a aula de canto foi
considerada como parte de um processo de educação cívica e estética que teve
lugar nas escolas brasileiras, sobretudo até o final dos anos 20. A educação
estética tem sido um tema bastante recorrente na história da educação
brasileira, principalmente durante a fase de consolidação do ideário
republicano. Nas últimas décadas do século XIX, já se falava na importância de
uma educação estética, ou educação dos sentidos, que deveria ser oferecida nas
escolas elementares. Esta se daria, sobretudo através do chamado método
intuitivo. Sobre esse método, Rui Barbosa, recorrendo às palavras de Comenius,
dizia em parecer apresentado à Câmara do Império em 1882: "Pelos sentidos há de principiar a instrução. O que penetra na
inteligência humana pela intuição sensível, imprime-se pelos sentidos na
memória, para nunca mais deslembrar" (BARBOSA, 1981: 202). Nas
primeiras décadas do século XX, Lourenço Filho, um dos maiores difusores das
idéias escolanovistas no Brasil, também se utilizava de Comenius para
argumentar em favor da importância da educação dos sentidos: "O fundamento de cada ciência consiste em bem
representar aos nossos sentidos os objetos sensíveis, de modo que eles possam
ser compreendidos com facilidade" (LOURENÇO FILHO, 1930: 35). A
educação dos sentidos era de grande importância para a pedagogia escolanovista
na medida em que favorecia a autonomia do educando, no seu processo de
construção do conhecimento já que, ainda segundo Lourenço Filho, "é o interesse que cria a atividade
(...) só se aprende realmente aquilo que interessa" (LOURENÇO FILHO,
op. cit: 54).
Embora seja possível se obter,
dispersas em trabalhos de temáticas variadas, algumas informações sobre o
passado de nossa educação musical, há que se dizer que na revisão bibliográfica
realizada sobre o tema, até o momento não foram encontrados trabalhos no campo
da história da educação que se dedicassem especificamente ao estudo dessa
temática. Mesmo no campo da educação musical tais pesquisas são quase
inexistentes. A relevância do trabalho
aqui proposto está, pois, no fato de o mesmo procurar preencher essa lacuna,
trazendo a discussão para o campo da história das disciplinas escolares. Desse
modo, estudando os processos de escolarização da música nas escolas primárias
de Belo Horizonte entre as décadas de 1920 e de 1970, torna-se possível
conhecer as relações do canto escolar enquanto disciplina, com o contexto
social da época. Ao mesmo tempo, o enfoque do tema a partir dos referenciais da
história das disciplinas escolares permite também compreender de que formas os
processos de escolarização da música se relacionaram historicamente com o
contexto mais geral da educação durante o período delimitado. Outra
contribuição deste artigo ao campo da história das disciplinas escolares é
trazer à luz os debates internos à educação musical escolar e, através deles,
perceber o avanço da disciplina nos currículos das escolas mineiras. Dessa
maneira, pode-se conhecer uma faceta ainda não explorada pela história social
da educação, que diz respeito ao entrecruzamento das práticas musicais
escolares em Belo Horizonte e o contexto sócio-cultural da cidade, de uma
maneira mais geral.
Assim, o resgate da história da
educação musical escolar contribui significativamente com o debate mais que
atual no campo da história da educação, sobre os processos de educação estética
para o povo durante as primeiras décadas da República. Esses debates, que têm
como centro as práticas escolares avançam, portanto, na direção de outras
possibilidades de uma educação estética dirigida às massas, tais como as
utilizadas pela arquitetura e pelo urbanismo, que durante um período foram
fundamentais para a conformação de comportamentos, gestos e posturas populares
requeridos pela modernidade republicana.
REFERÊNCIAS
BIBLIOGRÁFICAS
VASCONCELLOS, Branca
de Carvalho. O Canto nas Escolas. in
REVISTA DO ENSINO. Orgam Official da Directoria da Instrucção. Anno II, número
14. Belo Horizonte, maio de 1926 (páginas 130-133).
Conteúdo: Comenta
sobre as vantagens do canto por audição, "consoante ao regulamento em
vigor".
VASCONCELLOS, Branca
de Carvalho. O Canto nas Escolas.
REVISTA DO ENSINO. Orgam Official da Directoria da Instrucção. Ano II, número
16. Belo Horizonte, julho e agosto de 1926 (páginas 183-186).
Conteúdo: Fala sobre a
importância de se educar o ouvido, uma vez que os cantos serão aprendidos por
audição. Fala também sobre a escolha do repertório para as classes primárias:
devem ser músicas e poesias singelas e curtas, fáceis de guardar e de aprender.
Os Exercícios Sensoriaes - Su Objetctivo, Sua Utilidade, A
Educação Sensorial Numa Escola Maternal, A Liberdade que A Criança Deve Ter. in
REVISTA DO ENSINO. Orgam Official da Directoria da Instrucção. Anno II, número
18. Belo Horizonte, outubro de 1926 (páginas 320-321).
Conteúdo: Comenta
sobre a finalidade dos exercícios sensoriais: "Eles têm um tríplice fim;
primeiro, aperfeiçoar na criança a aptidão para receber sensações precisas,
distintas, diferenciadas, numerosas; em segundo lugar, tornam-na apta a
discernir prontamente as semelhanças a estabelecer gradações, a conceber
diferenças menos acentuadas em cada ordem de sensação; em fim, favorecem e
desenvolvem a capacidade de observação".
VASCONCELLOS, Branca
de Carvalho. O Canto nas Escolas - Os
Cuidados com A Voz. in REVISTA DO ENSINO. Orgam Official da Directoria da
Instrucção. Ano II, número 19. Belo Horizonte, dezembro de 1926 (páginas
352-355).
Conteúdo:
Parte da série "O Canto nas Escolas", o artigo comenta sobre os cuidados
que se deve tomar com o uso da voz cantada em crianças do ensino primário e
fundamental a partir dos sete anos, enumerando e explicando as diferenças e os
cuidados que se deve tomar com as vozes masculinas e femininas.
FILHO,
Lourenço. Introdução ao Estudo da Escola Nova. Companhia
Melhoramentos
de São Paulo. São Paulo, 1930.
GOODSON,
Ivor F. Currículo, Teoria e História.
Vozes. Petróplis, 1995.
HENTSCHKE, Liane. Educação Musical: Um Desafio para A Educação
in
EDUCAÇÃO EM REVISTA. Belo Horizonte.
FAE/UFMG, 1991.
MARTINS,
Raimundo. Educação Musical: Uma Síntese
Histórica como Preâmbulo para idéia de educação musical no Brasil no Século XX.
In: Revista da ABEM. Porto Alegre: 1991-1993.
RANGEL, Ilana Assbu Linhales. O som da singularidade. Rio de Janeiro. PUC/Rio (mimeo), 1998.