A História da Educação e a Estatística Escolar: as representações imagéticas educacionais nos registros oficiais em Minas Gerais  (1889-1930).[1]

                                                                                                         

 

 

NEVES, Leonardo Santos[2]

CALDEIRA, Sandra Maria[3]

FARIA FILHO, Luciano Mendes (orientador)[4]

 

 

Este trabalho é decorrente da nossa pesquisa que vem sendo desenvolvida sobre a Estatística Escolar de Minas Gerais, no qual buscamos problematizar a veracidade e a legitimidade dos dados referentes à matrícula, à freqüência e às conclusões de curso das escolas públicas primárias estaduais mineiras no período de 1889-1930, pretendemos ainda, investigar a história dos serviços estatísticos que precedem a criação do IBGE na tentativa de compreender sua relação com a História da Educação em Minas Gerais. Dentro desta temática nos propomos, aqui, a compreender algumas imagens que acompanhavam os dados referidos, as quais eram apresentadas nos documentos oficiais da época, como o Anuário Vida Escolar. 

O motivo que nos impulsionou a  uma análise mais atenta das imagens refere-se ao nosso intenso contato com os números da educação, que vinham normalmente acompanhados, nos documentos, por representações imagéticas. Vimos então que se, de um lado, estes números revelam uma inconsistência na obtenção de “totalidades”, por outro, as representações divulgadas pelo Estado demonstram uma linearidade no crescimento da instrução primária, dando uma idéia positivista da educação. O conflito que surgiu no decorrer da nossa investigação entre os números analisados e as imagens apresentadas nos registros oficiais, trouxe-nos uma certa inquietude que teve como conseqüência um desvio do objeto principal, que seriam os números, e estes passam a servir como auxílio na compreensão destas imagens.

Assim, o objetivo deste texto é analisar as imagens presente nas publicações oficiais que tratam dos números da educação mineira no período de 1889-1930. As representações imagéticas tem como objetivo revelar um pouco a idéia de um discurso oficial que pretende ser transmitido à sociedade republicana. Neste sentido as imagens querem evidenciar a noção de positividade dos dados educacionais, ou seja, tentam levar ao leitor da época um crescimento linear e constante dos números de matrícula, da freqüência e das conclusões de curso. Dessa forma buscam construir uma pretensa grandiosidade da Instrução, o que é concomitantemente reafirmada pelos números. Propomos através da análise destas imagens buscar evidências de que esta linearidade aparente, não encontre correspondências nos dados estatísticos que representam a educação. Nota-se que a estatística é também uma forma de representação, portanto uma outra linguagem, que agregada às imagens, tem o poder de legitimar formas de representações simbólicas como o professor e o aluno.

 

 

 

 

Visões Ilusórias: imagens e números, miragens ou realidade?

 

 

Para explicitar a questão da estatística no âmbito educacional é interessante destacar o seu papel na constituição do campo pedagógico mineiro. Entendemos que a escolarização em Minas Gerais é conformada intrinsecamente  ao uso da estatística que passa a ser usada em grande quantidade pelo Estado, por ser um conhecimento seguro, neutro, positivista e universal. Assim, a estatística é um instrumento que dá visibilidade à busca incessante pelo progresso na Educação, pois este só seria possível pelo combate ao atraso provocado pela grande porcentagem de analfabetos, segundo o discurso da época. Neste contexto a República é vista como o meio mais indicado para a produção de uma sociedade saudável, educada e que poderia ser chamada de nação. A República traz à tona a valoração exacerbada da Educação como forma de instruir uma sociedade que precisava ser construída.

Tendo as representações imagéticas e seu envolvimento com as estatísticas como um recorte de pesquisa, foi necessário a busca e utilização de uma bibliografia, diferente da que vínhamos trabalhando que se referia a discussão da estatística no campo da educação. Utilizamos leituras de autores como Míriam L. Moreira Leite (1995), Arlindo Machado (1984), Silvia F. Santos Wolff (1995) dentre outros. Tal bibliografia nos possibilitou tratar com maior segurança e seriedade o novo tema, dando visibilidade no entendimento da relação das imagens com a estatística educacional. Os autores fazem uma leitura indispensável sobre a imagem fotográfica, documentos iconográficos e a arquitetura de prédios escolares tendo como tema central a educação, abrangendo um período que vai do começo da República brasileira até meados do século XX. Tais reflexões deram-nos mais condições para compreender as imagens como documento histórico.

Através das fontes iconográficas é possível fazer outra leitura do documento e isto possibilita reconstruir para uma visão que queremos transmitir mesmo que esta seja ilusória. Nas imagens há dois elementos que  precisam ser destacados: a escola e as estatísticas.  A primeira é apresentada pelo novo regime como elemento unificador e construtor da nação, e a segunda  traz outro elemento relevante, referimo-nos às imagens  que apartir do século XIX, segundo Wolff (1995), vem completar e portanto revolucionar as fontes documentais, assim as estatísticas são como uma imagem. Neste sentido, as estatísticas e a imagem encostam numa questão bastante polêmica que é a apresentação de realidades que podem ser questionadas. Os números estatísticos podem ser manipulados, ou seja, sua construção se dá pela força do poder do discurso do Estado, pois  sendo a estatística uma linguagem de interpretação de dados matemáticos traz, apenas, uma dimensão da realidade. Não importa se as estatísticas são verdadeiras ou falsas, o importante é que elas podem ser consideradas representações e como tal revelam apenas um olhar subjetivo e parcial. Para Jean-Louis Besson, as estatísticas não revelam a realidade apenas refletem o olhar da sociedade sobre si mesma[5]. Desta forma, gostaríamos de ressaltar a constante apresentação dos dados escolares no seu montante nas fontes consultadas, a maneira como os dados são utilizados faz da estatística um instrumento a favor do Estado. A problematização e a análise do uso destes números durante a pesquisa foi importante, pois  possibilitou o entendimento da visão utilizada pelo Estado no interesse de esclarecer à sociedade o crescimento constante da educação pública primária .

Como na estatística,  a imagem pode revelar uma realidade pretendida, e dessa forma produz  uma visão parcial, pretendendo não dar margem a outras interpretações possíveis. Trazendo a discussão para o âmbito da educação, Leite (1995), afirma que na interpretação das imagens, os professores, na maior parte dos casos, “dirigem” a visão do aluno quando cristaliza práticas e saberes que devem ser transmitidos a eles, e assim, investe em comentários analíticos das imagens, não permitindo que ele mesmo descubra nas representações outros significados. A autora também escreve que a imagem não substitui a realidade, mas “implica um conhecimento prévio e direto de seu conteúdo, e não pode evitar uma reflexão sobre a natureza da imagem e as possibilidades de sua transmissão de conhecimento” (p. 83). Ela ainda nos lembra que entre a imagem e a realidade há uma gama de acontecimentos que permeiam e não consegue restituí-la, mas reconstruí-la sempre num movimento de aprendizagens da realidade que precisamos saber, sentir e ver. Por isso no decorrer da nossa investigação optamos por uma análise das imagens, certos de que apenas os dados estatísticos por si só não conseguiam expressar todo o conteúdo das fontes analisadas. Não pretendemos esgotar essas fontes pois elas apontam para outras análises também importantes para a História da Educação de Minas Gerais, tais como: analisar o crescimento das escolas e grupos mineiros através das fotografias presentes nas fontes, quais estratégias discursivas que permeiam os textos que acompanham as imagens. Míriam Leite contribui de maneira especial a nossa leitura das imagens, quando nos diz que há planos, limites, enquadramentos, seqüências e estruturas narrativas que necessitam de “exercícios constantes do olhar”, na interpretação pictográfica a decifração da imagem é um trabalho sem fim, que passa pelo conteúdo nela manifesto e chega à compreensão de sua unidade e suas interpretações possíveis.

A análise das imagens, segundo Leite, implica num aumento de intensidade do olhar e na qualidade da imaginação que pode revelar a realidade. O trabalho com imagens, no caso da educação, deve consistir em diálogos, comparações, interpretações; e assim o professor não deve fornecer nada pronto e acabado aos seus sujeitos, porque este é o encantamento da descoberta, pois “há sempre um canto do véu que pede expressamente para não ser levantado”[6]. Dessa maneira é a imagem que não deve se impor nas legendas, mas deve-se problematizar seus contextos e o que pode-se “enxergar” através dela, mais do que ver é importante ter visões já que na linguagem visual a forma e conteúdo estão intrinsecamente ligados e se complementam para um questionamento do papel do observador fornecendo elementos vários para o conhecimento das culturas. Para refletirmos um pouco, Míriam Leite nos alerta para a dificuldade de trabalhar com as imagens, pois muitos livros não trazem índice de ilustrações, ou a ordem dos números dos desenhos não coincidem com a página na qual se encontram. As confusões aumentam quando as imagens estão em papel de qualidade que difere ao texto escrito, isso distancia um texto do outro. Estas reflexões apontam para a negação da crença popular de que uma imagem vale mais que mil palavras.

Arlindo Machado (1984) mostra-nos a obscuridade presente nas imagens e desperta-nos para uma interpretação mais cuidadosa das representações; não apenas vê mas olhar com outras visões as imagens que tantos textos nos trazem. Elas são apenas ilustrações ou trazem intencionalidades? Para o autor:

 

As coisas não são assim como elas ‘se mostram’ ao olhar desprevenido; para compreendê-las, é preciso fazer um desvio, dar um salto ‘por trás’ da miragem do visível, destruir a aparência familiar, natural e reificada com que elas  aparecem aos nossos olhos, como se fossem originárias em si mesmas e independentes do sujeito que as opera e modifica. A realidade não é essa coisa que nos é dada pronta e predestinada, impressa de forma imutável nos objetos do mundo: é uma verdade que advém e como tal precisa ser intuída, analisada e produzida”.

(MACHADO, 1984. p. 40 ).

 

MACHADO (1984), entende que a visão do homem no Renascimento é na perspectiva do descobrimento de um sistema de representação “objetivo”, “científico” e portanto absolutamente “fiel” ao espaço visto pelo homem; mas o que eles conquistaram, para o autor, era um espaço fictício, fruto da positividade científica e das reformas político-sociais em andamento nas imediações do século XV. O sujeito tem sua própria forma de tornar visível o referente, desta maneira cada imagem terá como suporte a visão de mundo, a cultura, a temporalidade e os interesses próprios do ser que a produz.

Segundo Arlindo Machado, o quadro da câmera fotográfica é uma espécie de tesoura que recorta aquilo que deve ser valorizado, que separa o que é importante para os interesses da enunciação. Assim como na fotografia, a pictografia tem um recorte nunca inocente, nem gratuito; tendo uma operação ideologicamente construída com a intencionalidade de quem  enuncia e a disponibilidade do enunciado. Mas nem toda violência decepatória implica necessariamente num maniqueísmo da intenção; em alguns casos, o recorte nos traz suas identidades mais imediatas.     

O autor citando Francastel (1960), justifica seu entendimento a respeito das representações:

 

“A perspectiva linear não é um sistema racional melhor adaptado que outro à estrutura do espírito humano; não corresponde a um progresso absoluto da humanidade na busca de uma representação sempre mais adequada do mundo exterior sobre a tela fixa de duas dimensões; é apenas um dos aspectos de um modo de expressão convencional, fundado sobre um certo estado das técnicas e da ordem social do mundo em um dado momento”[7].

 

 O autor aponta um aspecto e os outros aspectos? Neste sentido os autores concordam que a análise de documentos iconográficos ajudam no enfrentamento de outras questões presentes nas imagens, mas que precisam de um cuidado na visão ao serem consideradas, indo mais além da contemplação e procurando seu real sentido, valor e interesse.

 

 

A Construção do Olhar no Percurso da Investigação

 

 

O percurso da investigação conduziu-nos para um delineamento calcado nas representações imagéticas presentes nos documentos. Esta construção foi se efetivando apartir do desejo de conhecer, indo além das aparências daquelas imagens, e da convicção de que uma análise das mesmas nos proporcionaria seu melhor entendimento.    

Para tal análise algumas imagens foram selecionadas no percurso da investigação que ocorreu no Arquivo Público Mineiro. Tais imagens contendo números e representações familiares na educação da época eram nossas referências. As fontes consultadas durante a pesquisa constam de documentos oficiais produzido pelo Estado em publicações periódicas. Em tais documentos a presença de imagens era sempre recorrente. A importância de pesquisar estas fontes está na grande variedade de suas formas imagéticas, que por isto mesmo dá margem à outras possibilidades de análises através da desconstrução de sua lógica. Apesar dessa variação ser constante as imagens são utilizadas para serem lidas na perspectiva do progresso, crescimento e desenvolvimento de uma nação, pelas mãos da República. Nestas publicações pode-se perceber uma relação de dependência muito forte entre imagens e os dados estatísticos. Estas publicações trazem representações de professores e alunos, além de apresentar a grandiosidade na arquitetura escolar. Cabe, então, apresentar as fontes utilizadas para problematizar algumas de suas representações:

"Aspectos Culturais do Estado de Minas Gerais de 1936", é uma publicação do Ministério de Educação e Saúde Pública e do Serviço Estatístico de Minas Gerais (órgão anexo à Secretaria de Educação). Para nossa pesquisa esta fonte veio acrescer os dados de 1933 e 1934, além de mostrar as unidades escolares existentes até aquele momento. Contendo imagens que ilustram o momento da educação mineira, apresenta símbolos consagrados no espaço educativo, nesta perspectiva é um documento valioso para a nossa análise.   

O anuário Vida Escolar, outra fonte importante, era organizado pela 4a. seção da Secretaria do Interior, portanto é um documento oficial. O primeiro número foi publicado em 1916 com o objetivo de trazer os dados estatísticos do Serviço da Instrução Pública Primária, Secundária e Superior ao conhecimento da administração do Estado. O anuário tem um total de cinco publicações nos anos de 1916, 1917, 1918, 1921, 1925. O Anuário Vida Escolar utilizava como fonte de dados os Relatórios da Secretaria do Interior, as Mensagens dos Presidentes e outras fontes oficiais publicadas pelo Estado.

Em quase todas as páginas da Revista constata-se a existência de fotos de grupos e escolas destacando sua arquitetura suntuosa e a presença de aglomerado de crianças posicionadas nas escadarias das escolas, dando a impressão da escola estar freqüentemente cheia. Estas representações supõem simbolizar o crescimento do número de alunos na Educação e demonstram, ainda, a hierarquia na escola com os professores e diretores sempre em posições distintas, na parte superior das escadarias. Nota-se também fotos de grupos escolares em construção e grande quantidade de tabelas contendo o número de escolas e quantidade de alunos de todas as cidades de Minas. Ainda apresenta fotografias com os trabalhos manuais e agrícolas feitos pelos próprios alunos. Essas imagens eram feitas em dias de festa para exaltar alguma personalidade políticas e/ou datas cívicas, como o dia da Bandeira.

Devido a presença de imagens na Revista Vida Escolar ser bastante relevante para a pesquisa em fontes iconográficas, nos chamou a atenção a riqueza deste material, assim esperamos que nosso olhar possa compreender e apreender além daquilo que a imagem pretendeu mostrar, conforme nos lembra OLIVEIRA (1995, p.249). Porém, não pretendemos compreender o aspecto técnico do material fotográfico, este não cabe ser analisado nos limites deste texto, pois vai além dos objetivos propostos, mas reconhecemos a importância deste entendimento. Como afirma MACHADO, citado por OLIVEIRA:

 

“Nenhuma leitura dos objetos visuais ou audiovisuais recentes ou antigos pode ser completa se não considerarem relevantes, em termos de resultados, a ‘lógica’ intrínseca do material e das ferramentas de trabalho bem como os procedimentos técnicos que dão forma ao produto final”.

 (p. 249)

 

As Mensagens dos Presidentes do Estado de Minas Gerais, 1890 à 1930,  outra fonte consultada, são publicações apresentadas pelos Presidentes do Estado ao congresso mineiro. Nelas os Presidentes trazem as principais ocorrências havidas na administração do Estado no intervalo de cada ano. Constitui-se numa forma de prestar contas de tudo o que é administrado em Minas, como: as finanças, a política, organização jurídica e leis processuais, ofícios de justiça, força policial, estradas, pontes, patrimônios do Estado, questão dos limites territoriais, estatística comercial, agrícola e industrial e ainda descreve sobre a instrução pública apontando seus avanços e limites. A publicação é dirigida à população mineira e apresentada ao Congresso Mineiro. No seu discurso tem a intenção de enaltecer a República e comprovar seu crescimento e desenvolvimento no Estado em oposição ao Império.

 

“Confiemos que a estrela da Republica ha de brilhar d’ora em diante, n’um céo sem nuvens”.

(Mensagem, 21de Abril de 1894, Affonso Augusto Moreira Penna)

 

“Se o Império era o déficit, no dizer dos mais abalizados estadistas do regimen decahido, será consolador para os republicanos que possamos afirmar que a República é o saldo”.

(Mensagem, 15 de Junho de 1901, Francisco Silviano de Almeida Brandão)

 

 

 

Na maior parte das mensagens percebe-se a presença de  dados estatísticos para se referirem a gastos na Educação, número de pontes construídas, investimento na agricultura e ainda discorrem sobre casos de prisão, apresentam o número de pessoas delinqüentes etc. E, é claro, a instrução aparece em números, apresentando dados do ensino primário, ginasial e técnico; com os números de matrícula, freqüência e conclusões de curso e também número de Grupos e Escolas do Estado. Esta realidade vem comprovar o exaustivo uso que o Estado fazia dos números.

Os documentos analisados datam de 1890 a 1930, nestes o números de páginas é muito variado, isso decorre do período de mais ou menos tempo que um governador permanecia no poder. Os Presidentes que administravam o Estado em um período maior tinham que relatar todos os seus feitos, preocupações e projetos, o que não ocorria com aqueles que administravam por um tempo menor. O objetivo desta fonte na pesquisa, diferentemente das anteriores, é a construção de um gráfico, a partir dos dados recolhidos,  que demonstre a oscilação do número de matrícula na educação primária, pois nos outros documentos a presença de imagens vem justificar o crescimento contínuo da instrução pública. O gráfico nos permite uma outra leitura que difere das imagens e pode dar visibilidade ao que propomos nesta comunicação.  

 

 

Reflexões a partir de uma Investigação

 

 

Como parte destas reflexões vamos trazer alguns elementos para a análise de alguns documentos iconográficos retirados do Anuário Vida Escolar e da publicação do Ministério da educação e Saúde “Aspectos Culturais do Estado de Minas Gerais de 1936”.

Como podemos observar na figura 1, oriunda da Revista Vida Escolar (1921), apresenta o número de alunos matriculados no ensino primário mineiro, estes são representados por uma aluna nos dois períodos: 1889 e 1920. Em 1889 a imagem é de uma figura diminuta, com o respectivo número de alunos, logo abaixo, contabilizando 43.586, tendo uma escrita pequena, portanto pouco visível. Para o ano de 1920, a imagem da aluna representada é bem vistosa e grande, aparecendo em escrita maior o número total de alunos, sendo 230.106. A figura da aluna representa um perfil social, econômico e cultural ideais na época, acreditamos que este não revela o perfil de aluno presente em todas as escolas públicas mineiras, dadas as precárias condições materiais da população da época.

A representação imagética da figura 1, nos mostram um crescimento do número de alunos na educação pública primária de Minas Gerias; o salto do crescimento da educação parece ser muito grande se observarmos apenas estas representações. A imagem tendo a sua própria linguagem, nos faz inferir em um crescimento aparentemente contínuo. Apartir desta linguagem podemos questionar, será que este aumento no número de alunos no período de 1889 a 1920 é sempre na perspectiva grandiosa de crescimento ou ocorre altos e baixos neste número? O que a figura nos proporciona é uma leitura sempre crescente e não permite ver as oscilações entre o período.

Outras questões podem ser pensadas a partir desta representação, porque a imagem traz uma mulher, já que o número de alunos é maior que o número de alunas matriculadas nas escolas, de acordo com os números presentes nas Mensagens dos Presidentes do Estado de Minas Gerais 1890-1930, esta representação pode está se referindo à legalização do ensino feminino, na tentativa de reafirmar a presença da mulher na escola. A presença do livro na mão, o uniforme e o sapato, isto é a realidade de todos os alunos? Podemos dizer que esta é uma imagem que não consegue trazer aos nossos olhos todas as representações presentes na espacialidade da escola, ela mostra, sem dúvida, apenas um lado que é aquele ideal pensado para todos alunos.

Esta representação nos ajuda a perceber o quão é importante refletirmos sobre as imagens que acompanham os textos, elas podem nos fazer entender melhor – mesmo que seja de acordo com sua interpretação – e por outro lado pode ser apenas mais uma ilustração, o que vai diferenciar seu significado depende do sujeito que a lê.

A Revista vida Escolar (1925, figura 2) contém também uma imagem que foi de generosa contribuição para esta análise. Apresenta um quadro que contém os números de matrícula, Escolas Singulares e Grupos Escolares, sendo também uma imagem. O ano utilizado como base é 1822 avançando de dez em dez anos até alcançar o ano de publicação do Anuário, 1925. Nela podemos perceber que há dois aspectos necessários para análise da figura: o primeiro refere-se à utilização de números para dar sentido ao crescimento da matrícula fazendo uso de um grande intervalo de tempo. Um maior intervalo de tempo utilizado na figura confere-se  uma procura de justificativa para a positividade da educação; se confrontarmos este com um período de tempo menor entre os anos, veremos que este crescimento não é linear, mas decresce em alguns anos.

O segundo aspecto da figura, diz respeito a maneira de como a imagem utiliza crianças para representar uma linha constante de desenvolvimento da instrução mineira. Na representação de crianças percebe-se uma necessidade de demonstrar o ínfimo número de matrículas no ano1822, este é representado por um ponto indecifrável, não sendo possível a visualização da imagem. Este ponto vai se estruturando - e para isto conjuga meninas e meninos - tomando forma acompanhando o crescimento da matrícula que chega a um número superior representado por uma aluna, que pode ser entendida como o amadurecimento do ensino primário.

O crescimento não pode ser pensado como algo linear, constante, apesar da figura dá esta impressão, o que se nota nos números são crescimentos de maiores e menores proporções, a exemplo de 1872 para 1882 o crescimento é de 20.005, enquanto no período de 1882 para 1892 há um aumento de 9.633 matrículas apenas. Esta leitura não é possível somente pela imagem, por isso optamos pelo uso do gráfico no intuito de obter outra leitura através dos dados.

A possibilidade de uso de gráfico (anexo I) surge na investigação como um contraponto às imagens. Pensamos que sua leitura também seria interessante para visualizarmos de outra maneira o tão mencionado crescimento da educação. Nesta perspectiva, o gráfico em anexo nos mostra como o crescimento da matrícula acompanha no decorrer dos anos para seu aumento ou queda. Como exemplo, os anos de 1901 e 1902 apresenta um decréscimo na matrícula em relação a 1891, esta queda não é demonstrada na figura 2 que representa o mesmo período analisado. Acrescido a isso o número de matrícula para o ano 1902 na Revista Vida Escolar (figura 2) não coincide com o número apresentados no gráfico. Com este exemplo, pretendemos tornar visível a oscilação do número de matrícula que ocorre através dos anos e que de alguma maneira é distorcido nas publicações. O gráfico, então, é uma forma de questionar o discurso positivista da época.      

Quanto à figura 3 presente na fonte "Aspectos Culturais do Estado de Minas Gerais de 1936", gostaríamos de chamar a atenção para alguns pontos representado nestas imagens. Esta figura denota outra forma de fazer uso das imagens logo, tem como objetivo a legitimação de formas simbólicas de representação comuns no mundo da escola, estas imagens tentam reafirmar hábitos e maneiras que são observadas e/ou desejadas no sujeito professor e aluno. O aluno como aquele que é apenas receptor de conhecimentos e aqui é exposto sentado, o professor por sua vez aparece como aquele compenetrado nos estudos, detentor do conhecimento e, então, é ilustrado com o livro na mão estudando. Destacamos que a imagem do professor, ainda, é de homem e não de mulher como é comum nas fotografias do Anuário Vida Escolar. Na seqüência da figura o aluno aparece sustentando seu diploma que é visto como um símbolo empreendedor  de crescimento pessoal; como se a escola fosse a garantia de um sucesso e ascensão social. Mais que representações estas imagens ajudam a construir e reafirmar identidades tanto do aluno quanto do professor.

Em todas as representações analisadas manifesta-se a imagem conjugada com os números, estão sempre ligadas, aparecendo juntas nas imagens, e à utilização de estatísticas se agrega as imagens, uma reforça e completa a outra, mas ambas têm sua própria linguagem.

 

Considerações Finais

 

As formas de representação recorrente na República traz algumas possibilidades de inscrever na imagem um desejo de progresso, uma idéia que é também visto nos números mesmo que estes não seja os mais confiáveis. Neste texto tentamos entender como as imagens e as estatísticas (números) podem nos ajudar a compreender e a reconstruir parte da História da Educação Mineira. E a dualidade na sua compreensão pode decorrer além da interpretação como da dualidade nominal da fotografia.

Segundo Ivan Lima, a dualidade na fotografia , ou seja nas imagens, já se inicia na própria origem do nome, pois na Grécia e este é o significado usado no Ocidente; foto =  luz, grafia = escrita. Por esta definição entende-se que a fotografia é a arte de escrever com a luz, o que a define como uma forma de escrita. Outro sentido é dado à fotografia no Japão, pois fotografia, em japonês, se diz sha-shin que significa reflexo da realidade, aqui a fotografia é entendida como forma de linguagem visual. Por estas definições podemos dizer que a imagem traz no próprio nome a dualidade de significados representados.

A partir disso pode-se afirmar que a estatística sendo uma  forma de representação é, como as imagens,  passível de muitas interpretações. Estas serão feitas a partir do ponto de vista e interesse de quem a lê ou produz.

 

 

Referências Bibliográficas

 

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FIGURA I

 


 

 


FIGURA II

 

 


 

 

 

 

 

 

 

 

 



FIGURA III

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 



[1] Esta pesquisa se insere no Projeto Integr