História e Memória da Escola Superior de Agricultura e Veterinária (ESAV): Resgate Histórico da origem da Universidade Federal de Viçosa

 

Cristiane Moraes Marinho

Graduanda do Departamento de Educação da Universidade Federal de Viçosa - UFV

Denilson Santos de Azevedo

Professor do Departamento de Educação da Universidade Federal - UFV

 

O presente trabalho, objetiva estudar o processo de construção e implantação da Escola Superior de Agricultura e Veterinária (ESAV), no período que vai de 1926 a 1936, e que se constitui na base  da atual Universidade Federal de Viçosa (UFV).

Atualmente, a Universidade Federal de Viçosa é uma das mais importantes instituições de ensino , pesquisa e extensão do país. Possui 34 Cursos de Graduação, distribuídos por 4 Centros de Ciências (Agrárias, Biológicas e da Saúde, Exatas e Tecnológicas e Humanas, Letras e Artes). Embora venha se expandindo noutras áreas do conhecimento, esta instituição desfruta de grande renome nacional e internacional no  estudo e na aplicação da ciência e da tecnologia na área agropecuária.

Esta reconhecida instituição originou-se da ESAV, que foi criada pelo Decreto 6.053, de 30 de março de 1922, pelo então Presidente do Estado de Minas Gerais, Sr. Arthur da Silva Bernardes.

A  criação dessa Escola parece não ter sido uma ação política isolada de um governo no Estado de Minas Gerais, mas fazer parte de uma diretriz maior, com o intuito de fortalecer a base econômica do Estado, haja vista que, entre  1914 e 1926, foram  criadas outras quatro novas Escolas agrárias: a Escola de Agronomia e Medicina Veterinária de Belo Horizonte (1914), a Faculdade de Medicina Veterinária de Pouso Alegre (1917), a Escola de Agronomia e Pecuária de Passa Quatro (1917), a Faculdade de Veterinária de Juiz de Fora (1924)[1].

Assim faz-se necessário compreender o contexto histórico brasileiro em que  o projeto de criação da ESAV foi implantado, para que possamos melhor analisar o seu desenvolvimento nas décadas de 1920 e 1930.

Em termos históricos, é fundamental tecermos algumas considerações sobre a primeira etapa da República Brasileira,  que abarca, segundo a maioria dos autores que estudam esse período, desde a Proclamação da República, em 1889, até a Revolução de 1930.

Se há quase um consenso nessa periodização, marcada por fatos de caráter eminentemente político, o mesmo não pode ser afirmado sobre a denominação dada a essa primeira fase da República Brasileira, que conforme o autor pode ser designada como República Velha, Primeira República, República Oligárquica, República dos Coronéis ou ainda República dos Governadores. Nesse sentido, torna-se importante, trabalhar com as três ultimas denominações dadas a esse período, por serem bastante relevantes no estudo que faremos a diante. 

Também é fundamental analisarmos como estruturou-se a “política do café com leite”, para a compreensão do papel exercido pelos dois Estados mais importantes da federação brasileira, que protagonizaram um revezamento na Presidência da República durante quase todo o período da Primeira República, ou seja,  São Paulo e Minas Gerais.

A grande força desses Estados nos destinos do País se explica em função da pujança econômica de São Paulo e a força das oligarquias cafeeiras aglutinadas em torno do Partido Republicano Paulista e a maior população eleitoral e a maior bancada no Legislativo Nacional, além da coesão política das oligarquias mineiras junto ao Partido Republicano Mineiro.

Embora essa aliança tenha perdurado quase três décadas, é inegável que existia uma grande rivalidade entre paulistas e mineiros, sobretudo no que se refere aos interesses econômicos e políticos. Temos por hipótese, que essa competição, sobretudo em termos econômicos, levou o Estado de Minas a desenvolver um projeto de desenvolvimento - com vistas a suplantar o domínio econômico paulista – que se propunha a superar as práticas agrícolas consideradas ultrapassadas, e a implantar um modelo Agrícola alicerçado na ciências aplicadas e na inovação técnica.

É nesse contexto, que o governo mineiro inicia contatos com o governo norte-americano, com o objetivo de  transferir recursos humanos e know-how que possibilitasse a criação e a implantação de uma Escola agrícola, calcada nos moldes dos Land-Grant Colleges dos Estados Unidos,  no Estado de Minas Gerais, para a introdução de novas técnicas no âmbito da produção agropecuária,  com vistas a dar um grande impulso no desenvolvimento econômico desse Estado.

Tal projeto se materializa com a criação da Escola Superior de Agricultura e Veterinária (ESAV) no Município de Viçosa. Essa Escola se diferenciou das outras quatro Escolas agrárias criadas em Minas Gerais , entre  1914 e 1926, por  seguir o modelo de ensino superior agrícola norte-americano, embora até esse momento, na história do ensino superior brasileiro, ainda ser  inquestionável o predomínio do modelo do ensino superior europeu.

 

ESAV: Uma Estratégia Mineira para o Desenvolvimento Agrário

 

A proposta de criação da ESAV por meio da Lei n.º 761 inicia-se no governo Arthur Silva Bernardes  no Estado de Minas Gerais (1918-1922) e se concretiza em sua gestão na Presidência da República Federativa do Brasil (1922-1926). O  início das atividades didáticas ocorreu em 1927 e se constituiu na base do que hoje é a  Universidade Federal de Viçosa.

No mesmo ano foi contratado o Dr. Peter Henry Rolfs “ ‘Bachelor of Science’, 1889; ‘Master of Science’, 1891; ‘Doctor of Science’, 1920 e, finalmente, Diretor do ‘Florida Agricultural College’ da ‘University of Florida’, no período de 1915 a 1920” (BORGES,1968: ). O professor Rolfs foi indicado pelo Departamento de Agricultura dos Estados Unidos através de contatos estabelecidos com o embaixador do Brasil em Washington. BORGES (1968 ) esclarece que “de acordo com o contrato cabia-lhe, além da direção do estabelecimento, as missões de colaborar na escolha do local e de apresentar ao governo os planos das construções e os programas gerais de ensino”

Outra pessoa muito importante nesse processo de constituição da ESAV, foi o engenheiro João Carlos Bello Lisbôa que chegou à Viçosa em 1922, para integrar a equipe de engenheiros responsável pela construção desta Escola. Em menos de seis meses, passou a ser o engenheiro chefe e, com a inauguração da ESAV, tornou-se o primeiro catedrático contratado, assumindo a cadeira de Engenharia Rural e o cargo de Vice-Diretor da Instituição. Quando P. H. Rolfs deixa o cargo de Diretor da ESAV, para desempenhar as funções de Consultor Técnico de Agricultura do Estado de Minas Gerais em 1929, é Bello Lisbôa que o assume.

 Ao estudar a história da ESAV, é possível perceber a grande importância atribuída a esses três nomes: Arthur da Silva Bernardes, Peter Henry Rolfs e João Carlos Bello Lisbôa. Segundo Lima (1996:17) “É necessário destacar aqueles que, primeiramente, deram o impulso para o início desta história. Estes são os “pioneiros” da Escola de Viçosa”. A importância atribuída a esses três personagem é clara também em trechos de entrevistas realizadas com os senhores Edson Potsch Magalhães e José Maria Bello Lisbôa, filho de José Carlos Bello Lisbôa segundo diretor da ESAV, respectivamente:  

“Com relação aos principais responsáveis pela criação e  consolidação da ESAV, inquestionavelmente foi o presidente Arthur Bernardes que foi o seu criador intensivo e permanentemente lembrado, referenciado com toda justiça. Agora as figuras, sem dúvida as figuras singulares são primeiro P. H Rolfs que era um homem de extraordinária cultura, de grande experiência adquirida nos Estados Unidos e que pertencia a numerosas associações. Publicou muitos trabalhos, era um especialista em pomologia, principalmente abacateiros em doenças de plantas e muitas coisas, basicamente ele era um engenheiro agrônomo como eu sou.

E sem dúvida alguma, depois dele foi o Dr. João Carlos Bello Lisbôa que dirigiu durante muitos anos a Escola até a formatura da primeira turma de médicos veterinários ele dirigiu a Escola.” (POTSCH)

 

“Criação foi o presidente Bernardes não é, que era governador de Minas Arthur Bernardes foi ele quem levou a Escola para Viçosa, então acho que a idéia inicial foi dele o criador acho que foi ele e os consolidadores acho que foram o meu pai e o Dr. Rolfs, Dr. Rolfs e o meu pai acho que os dois estão na mesma  na mesma posição um na parte agronômica outro na parte da construção civil e na criação do espírito que animou esses  alunos das primeiras gerações.” (LISBÔA)

  

Nesse sentido, é possível observar ainda em alguns exemplares das revistas Seiva e Ceres e em discursos de colação de grau, referências a P. H. Rolfs e ao Bello Lisbôa.   

Em relação a figura de Arthur Bernardes, é interessante observar que esse estadista com a criação da ESAV, segundo PANIAGO (2000: 23), acreditava ter “lançado as bases para a solução do angustiante problema da agricultura mineira”. Essa afirmativa é também confirmada pelo depoimento de Edson Potsch Magalhães: “ Ele [Bernardes] queria que fosse dado um grande impulso na transformação do Estado, mas evidentemente a Escola era para atender o país, mas o ponto central era o Estado de Minas Gerais, ele nunca deixou de declarar isso”.      

Segundo o artigo 3º da lei que autorizava a criação da Escola, esta deveria ser fundada em um lugar que, para tal fim, oferecesse as condições necessárias, assim uma comissão foi constituída para a escolha do local de instalação da ESAV. Faziam parte desta comissão o Diretor de Agricultura da Secretaria de Estado de Minas Gerais, Dr. Álvaro da Silveira e  Dr. P. H. Rolfs além de dois auxiliares. Sobre tal escolha esclareceram os membros da comissão:

“Dr. Álvaro da Silveira – Dos terrenos que visitei nas vizinhanças de Ubá, Rio Branco, Viçosa e Ponte Nova, prestam-se a meu ver, melhor os denominados ‘Maria Luiza’, situados a pequena distância de Viçosa.

Dr. P. H. Rolfs – Tomando a questão sob todos os seus aspectos e estudando-a em seu conjunto, não ha duvida de que Viçosa é o melhor dos quatro lugares para localização da Escola Superior de Agricultura e Veterinária.” (  BORGES,1968)      

 

Assim,  “a comissão, tendo visitado alguns sítios nas vizinhanças de Ubá, Rio Branco, Viçosa e Ponte Nova, decidiu-se, providencialmente, por localizá-la nas proximidades da cidade de origem do Presidente do Estado, Dr. Arthur da Silva Bernardes, isso é, Viçosa (Capdeville 1991:85). Nesse contexto  o decreto n.º 5.806 de 1921, assinado pelo presidente do Estado, no qual aprovou o local de instalação da Escola, as plantas e  autorizou a desapropriação dos terrenos necessários. Já o decreto n.º 6.053, de 30 de março de 1922 criou a Escola Superior de Agricultura e Veterinária ( ESAV) esta só seria inaugurada em 1926 . 

O fato da ESAV ter sido construída  justamente em Viçosa, terra natal do Presidente Bernardes, traz alguma polêmica. Nesse sentido, Belo Lisbôa que foi engenheiro-chefe da construção, num texto publicado no Boletim de Agricultura, Zootecnia e Veterinária (BAZV), da Secretária de Agricultura em 1928, dizia que:

“ A primeira questão a ser resolvida, no início, foi o lugar em que deveria ser construída a Escola. Nestas ocasiões formidáveis são os conflitos entre interesses.  O governo de Minas entregou a solução da questão a uma comissão de techinicos...A única instrução que do governo recebeu a comissão foi de que a Escola deveria ser localizada na Zona da Mata, por motivo de sua riqueza agrícola e densidade de população”( apud COELHO, 1992:44).

Alguns autores consideram que a escolha da cidade de Viçosa, como sede para construção da Escola, não aconteceu por critérios puramente técnicos, mas de forma a referenciar o seu idealizador Arthur  Bernardes ou como uma tentativa deste, de fortalecer sua cidade. Segundo afirma CARVALHO (apud COELHO, 1992:32) “ A Escola, inaugurada em 1926, foi criada por Arthur Bernardes para beneficiar sua terra”.

Essa visão é partilhada por LIMA (1996:16 ):

“...É naturalmente compreensível que, psicologicamente, Viçosa tivesse posição prioritária perante os membros da comissão, visto que o próprio presidente do Estado de Minas era viçosense.”

 

E também é corroborada por  SILVA (1995:44):

“...Na memória popular, se fala que Bernardes orientou, assim, o professor americano P. H. Rolfs: ‘Pode instalar a Escola em qualquer lugar do Brasil, desde que seja em Viçosa’, terra natal do presidente”.    

 

Em entrevista, o professor Marcondes Borges discute a questão considerando que:

“Sempre houve duas correntes, a que achava que foi feita em Viçosa pela figura de Bernardes. Na idéia dele, ele queria criar uma Escola superior americana, essa era a idéia dele.

Tirou uma comissão, eu acho que apesar de responsável, eles pensaram, porque não faz em Viçosa é a terra do presidente, eu sou dessa teoria, que não era o lugar melhor, eu até acredito pela pessoa do Bernardes que ele não tenha pedido a  comissão.

Mas que por considerarem que era a terra dele, vamos fazer em Viçosa, é a terra do presidente. Eu acredito que tenha valido por uma questão política como hoje talvez seria feito.

A outra vertente acreditava que Viçosa foi o melhor lugar mesmo. Porque se Viçosa não era o melhor meio agrícola, o judeu não está transformando o deserto em áreas cultiváveis, se aqui não era o melhor local agrícola podia-se ter  uma Escola até mesmo para desenvolver o local.

Eu acho que em todo lugar tem que ter uma Escola agrícola, é importante para todo lugar”.

 

Para LIMA ( 1996:22), essa determinação de Bernardes em fundar uma Escola agrícola, em Viçosa/MG, na década de 20, teve várias motivações:

  “O desejo de fomentar a agricultura mineira, elemento básico da economia do País, o desejo de dotar a sua terra natal de um investimento estatal de grande vulto que pudesse dinamizar e projetar Viçosa no cenário estadual e nacional, o desejo de ser o precursor do progresso, trazendo a ciência e a técnica a uma sociedade acostumada ao empirismo, além de outros, acenderam a fagulha da determinação de Bernardes em fundar uma Escola agrícola na década de 20.”    

 

Foi também Arthur Bernardes quem decidiu que essa  Escola                                                                                                                                                fosse  instituída nos moldes dos Land Grant Colleges americanos, que “era pautado em três linhas - o ensino, a pesquisa e a extensão – e seria uma exceção ao academicismo predominante nas relativamente poucas instituições brasileiras de ensino superior da época” ( LARA et. alli: 1996, 23) e que “deram extraordinário desenvolvimento à agropecuária dos Estados Unidos” (RIBEIRO: 1996, 9)

Nesse sentido, a criação dessa Escola parece não ter sido uma ação política isolada de um governo no Estado de Minas Gerais, mas fazer parte de uma diretriz maior, com o intuito de fortalecer a base econômica do Estado, tendo em vista a criação de outras quatro novas Escolas agrárias, como já apontadas na introdução desse relatório.

Podemos perceber que a criação dessas Escolas Superiores de Agronomia e/ou Veterinária no Estado de Minas Gerais, ocorreu num momento em que as elites agrárias mineiras almejavam firmar-se política e economicamente diante de São Paulo, como também já foi apontado, uma vez que o capitalismo que começava a se consolidar nestes Estados tinha como exigência, a competitividade e a produtividade alicerçadas na ciência e na técnica, premissas básicas para se alcançar a prosperidade econômica. Nesse sentido, Minas almejava livrar-se da posição incômoda de segunda força econômica, tendo em vista que São Paulo era o grande motor propulsor da economia agro-exportadora brasileira, enquanto Minas era o maior colégio eleitoral e por isso, possuía mais representantes no Congresso Nacional, embora sua economia estivesse ainda longe de  ser equiparada a São Paulo.

Assim a criação  ESAV, bem como de outras escolas agrícolas da época,  não pode ser entendida fora deste contexto, ou relacionada somente à vontade de alguns homens públicos. A criação desta Escola reflete interesses políticos e econômicos de um tempo e de uma sociedade. Isso pode ser verificado no Artigo 4º da lei 761 que estabelece os seus objetivos: “ Esta Escola terá por objetivo ministrar o ensino prático e teórico de agricultura e veterinária e bem assim realizar estudos experimentais que concorram para o desenvolvimento de tais ciências no Estado de Minas Gerais”. Essa assertiva é confirmada por SILVA (1995:43) quando afirma que: “Nesse contexto, as autoridades entenderam que a criação de uma Escola Agrícola era uma estratégia política para tentar reverter a crise com a formação de técnicos para atuarem junto aos agricultores.”

E ainda que: “...Criou-se não só uma Escola, mas também se institucionalizou a expectativa de que sua instalação proporcionaria resultados para melhoria das condições sociais e produtivas, alterando o quadro observado” (idem:ibidem)

A idéia de dinamizar a agricultura mineira foi desde cedo inculcada na Escola, o que pode ser atestada desde o seu primeiro anuário, apresentado ao então Secretário de Agricultura Djalma Pinheiro Chagas, em maio de 1928, pelo Diretor P. H. Rolfs, onde pode-se ler na conclusão, a seguinte afirmativa:

 “ Está passada a época da lavoura braçal. Somente pela utilização de métodos modernos poderá Minas Gerais conquistar o lugar que lhe compete entre os Estados do Brasil. Os métodos são, na maioria, conhecidos. Resta ensina-los aos filhos dos agricultores, para que sejam postos em prática. Quando tornarem universais, em Minas, os ensinamentos simples, como são ministrados aos nossos alunos do Curso Elementar, veremos uma evolução rápida na agricultura e na vida do Estado”.  

 

Com relação ao objetivo de criação da ESAV, José Maria Bello Lisbôa nos diz em entrevista que: 

“Na minha visão o que eu sempre entendi dele [seu pai José Carlos Bello Lisbôa] foi a necessidade de ter uma agricultura mais cientifica, mais técnica, presidente Arthur Bernardes teve esse desejo e a agricultura (...) o Brasil era agrícola mesmo naquela época, a industria estava incipiente, não havia indústria e a agricultura tinha que ser, (...) na visão do presidente Arthur Bernardes, eu acredito que seja isso, o conhecimento  da técnica, da pesquisa da atividade que era primordial  na economia do Brasil.”

 

A Escola de Viçosa, desde a sua origem, se distingue das demais Escolas agrícolas de nível superior, criadas no Brasil, das décadas de 1910 e 1920, pois se espelha nos Land-Grant Colleges americanos que  “revolucionaram o ensino técnico da área agrícola nos fins do século passado nos Estados Unidos” (CARVALHO apud COELHO, 1992:32)

A respeito do surgimento dos Land-Grant Colleges (COELHO, 1992:34) contribui esclarecendo que:  

“Os Land-Grant Colleges surgiram em 1862 nos Estados Unidos, juntamente com a criação de uma órgão federal, o Departamento de Agricultura, que teria a função de coordenar a aquisição de informações acerca da agricultura.

A tecnologia agrícola desenvolveu-se nos Estados Unidos a partir de 1830 nas áreas menos dependentes do conhecimento das condições de clima e solo...Aquelas Escolas surgiram depois, como conseqüência da expansão da fronteira agrícola em direção a Oeste, onde novas condições climáticas e de solo demandavam novos conhecimentos ”.    

 

Assim, podemos perceber que os  Land-Grant Colleges surgem nos Estados Unidos com a necessidade de intervenção no processo de desenvolvimento agrário deste país. Citado por COELHO (1992: 33), o professor P. H. Rolfs faz o seguinte relato sobre essas Escolas americanas:

“Em um paiz jovem e progressista, como a América do Norte, quase todos os planos de ensino agrícola têm sido experimentados, com resultados tão variados quanto os planos. No leste, adaptaram dois typos de Escolas Europeas, pois esta parte do paiz manteve relações muito mais estreitas com paizes da Europa do que as outras. Um dos planos, era que a Escola deveria ser um centro para o ensino de sciencia pela sciencia, sem aplicação alguma à agricultura; o outro typo era o do ‘jorney-man’, isto é, do operário diplomado. Neste typo de Escola pretendia-se preencher as fileiras desfalcadas dos operários peritos, exclusivamente por outros que fossem portadores dum título. As Escolas baseadas neste último plano todas têm sido abandonadas ou reorganizadas. O primeiro typo produziu muitos dos melhores scientistas ,mas poucos agricultores. Foi no vale do grande Rio Mississipi onde a Agricultura era, e continua a ser a industria mais importante, onde nasceram, desenvolveram-se e hoje reinam, as Escolas Superiores de Agricultura typicamente americanas”.

 

O Land-Grant College de Viçosa surge com o objetivo de intervenção direta na realidade agrária mineira, para que os conhecimentos científicos aqui difundidos pudessem transformar a agricultura do Estado tornando-a mais produtiva através da implantação de métodos e  técnicas modernas.

“Ao combater o “empirismo” que cercava a agropecuária, o tradicionalismo, as superstições e os métodos arcaicos característicos da vida no campo, o progresso, enquanto idéia, pretende quebrar os mitos que amarravam a sociedade rural à estagnação econômica, social e cultural. Paradoxalmente, para tal, o progresso, ligado à razão, à ciência, à técnica, em suma, a tudo que se pretenda chamar de racional, constrói para um paradigma e transforma-se em mito.”  (LIMA,1996:32) 

 

Assim, a orientação que norteará a filosofia da implantação dessa Escola em Viçosa, estará fundamentada no paradigma de suas congêneres norte-americanas, que partem da seguinte característica:

“ fazer uma ligação direta da ciência com a aplicação dos conhecimentos em trabalhos cotidianos das fazendas, trabalhos práticos. Os princípios nos quais se basearam  foram considerados no momento de criação da ESAV, foram a ela conformados, servindo de alicerce idealizador para a implementação de um projeto de Escola baseado na articulação ensino, pesquisa e extensão. Estas características de sua implantação se tornaram marcas de seu desenvolvimento”. (SILVA,1995:45)

 

“’Estudar’, ‘Saber”, ‘Agir’ e ‘Vencer’, ‘Ciência e Prática’ e ‘Aprender Fazendo’ passaram a ser motos constantes da instituição que inaugurava uma nova fase na dinâmica educacional brasileira, até então essencialmente livresca e acadêmica. Impunha-se dignificar o trabalho em todas as suas formas e modalidades sem entretanto descuidar do livro, razão porque, ainda nos primórdios da Instituição, foi organizada a Biblioteca.” (BORGES, 1968)

 

As atividades didáticas da ESAV foram iniciadas em 1º de agosto 1927, com o oferecimento dos Cursos Elementar e Médio de Agricultura, “matriculando 25 alunos que foram alojados no porão do Edifício Principal até a conclusão dos dormitórios, inaugurados em 26 de junho de 1928” (SILVA, 1985: 4). De acordo com o Regulamento da Escola de janeiro de 1927, os cursos elementares tinham duração de um ano, este era considerado como um sistema de educação rudimentar que oferecia instrução mínima de agricultura e veterinária a agricultores e capatazes rurais, “destinavam-se estes cursos a suprir as necessidades educativas, relacionadas com a vida rural, de pessoas que não tenham oportunidade de receber instrução mais completa” ( Regulamento da Escola Superior de Agricultura e Veterinária, 1927;6).

Para ser admitido no curso Elementar, o candidato deveria ter exame final dos grupos Escolares, ou submeter-se,  a um exame de admissão com provas de caligrafia, leitura e prova escrita de aritmética sobre as quatro operações.

Em relação ao curso Médio o mesmo regulamento da ESAV esclarece que têm duração de dois anos e destinavam-se principalmente  “aos filhos de fazendeiros e agricultores que não tenham feito cursos ginasial e visam formar bons técnicos agrícolas e administradores rurais”. Para ser admitido nesse curso, o candidato deveria apresentar certificado de aprovação final em grupo Escolar, além disso o candidato deveria passar pelo exame de admissão que constava das seguintes provas: prova escrita de português, prova escrita de aritmética e noções de geometria e  desenho e provas orais de noção de geografia, história do Brasil e educação moral e cívica. 

No primeiro anuário da ESAV, é esclarecida a necessidade dos cursos Elementar e Médio:

“A instrução como é ministrada nos Cursos Elementares e Médio, é mais necessária para o desenvolvimento racional e rápido da agricultura do Estado de Minas. Quando esses moços estavam na idade própria para estudar em grupos Escolares, pouco deles tinham oportunidade de freqüentar essas Escolas, por serem poucas no Estado. Geralmente, a mentalidade dos alunos em nosso Curso Médio justifica a classificação no Curso Superior. Falta-lhe, porém, o ensino básico, que hoje está sendo ministrado pelos grupos escolares e ginásios.”(BOLETIM TEMPO E MEMÓRIA DA UFV,1996:9)   

  

Esses cursos foram extintos em 1947 e 1959, respectivamente.

Em 1º de março de 1928, teve início o  Curso Superior de Agricultura. Em 1932, foi a vez do Curso Superior de Veterinária.

Para o ingresso no curso superior, o candidato deveria apresentar o certificado de aprovação no curso ginasial e passar no exame de admissão que exigia conhecimentos em português, uma língua estrangeira moderna, aritmética, álgebra, geometria e trigonometria, geografia, física, química, história natural, história do Brasil e história universal. Sobre o exame de admissão o professor POTSCH afirma, em seu depoimento, que “era um vestibular bem pesado e o número de vagas era limitado. Não havia nenhuma preocupação em preencher as vagas, ou o indivíduo atingia a média que, naquela época era sete, ou não...” (entrevista, 2001)

No curso superior, eram ministradas quatro oficinas obrigatórias oferecidas no primeiro ano que eram: oficina de eletricidade, de carpintaria de selaria e de mecânica, “a gente aprendia coisas simples, mas coisas curiosas, como por exemplo: fazer uma ligação elétrica, instalar um interruptor, fazer ligações ligeiras, soldas, essas coisas todas”. (Potsch: entrevista, 2001) 

Detalhes interessantes sobre esses cursos (elementar, médio e superior) são lembrados pelo professor José Marcondes Borges em entrevista:

“Havia um vestibularzinho, para o curso superior de agronomia e veterinária. Tinha o curso médio de dois anos e o elementar de um ano. Era muito normal quando se perdia no curso  superior fazer prova no  o médio, quando perdia-se no médio fazia o curso elementar.  Assim, começou a haver uma deturpação do curso elementar, que tinha sido criado para dar conhecimento para capatazes rurais, auxiliares, operadores rurais”.

 

E ainda:

“No curso médio, havia muito indivíduo que terminava, comprava o anel e dizia que era agrônomo por Viçosa, isso era uma parcela dos alunos que faziam, outra parte trabalhava mesmo por ai como técnico agrícola.

Existia uma certa briga entre o curso médio e o superior, coisa de estudante. O curso médio diziam que os estudantes do curso superior eram uns teóricos, só sabiam decorar. Os do curso superior diziam que os estudantes do curso médio não tinham conhecimento e que queriam se passar por agrônomos.”

 

Além desses três cursos: elementar, médio e superior,  existia ainda os cursos de especialização que eram “ feitos em dois anos, por engenheiros agrônomos e veterinários e visavam a formação de professores e cientistas de alto grão.” (LISBÔA,1928:16) 

A primeira turma de engenheiros - agrônomos  colou grau em 1931, enquanto a primeira turma de médicos-veterinários formou-se no final de 1935.

Como o prédio do dormitório só foi inaugurado parcialmente em 1928, os primeiros alunos internos tiveram que se alojar no porão do Prédio Principal. O internato, destinado aos estudantes do curso superior, “foi o primeiro a obter sucesso em todo país, após o malogro das tentativas realizadas em outras regiões” .(BORGES, 1968: s/p). Segundo o depoimento de Potsch, a criação e manutenção do internato pela ESAV representa a marca de um pioneirismo, pois:

“...provou ser possível um regime de internato para alunos de cursos superior. Isso foi duramente criticado antigamente, pois não podiam entender como é que um aluno de curso superior estivesse num regime de internato. E o internato foi, sem dúvida alguma, um elemento extraordinário, para facilitar não só a oportunidade de estudos para as pessoas menos bem situadas e também porque assegurava a convivência mais intensa entre estudantes e professores. O regime evidentemente, foi salutar, está aí até hoje, de uma forma mais amena e sem aquela gratuidade total que nos tivemos nos tempos áureos”.     

  

            Praticamente, desde o inicio das atividades dessa Escola, a questão da disciplina ficou a  cargo do vice-diretor e depois diretor João Carlos Bello Lisbôa. Este de acordo com alguns documentos pesquisados, salientava a necessidade da disciplina tanto para a formação integral do homem quanto do profissional. Essa afirmativa pode ser demonstrada textos do Bello Lisbôa no Relatório Anual do Vice-Diretor, relativo ao 2º semestre de 1927 e do Boletin de Agricultura, Zootecnia e Veterinária  (BAZAV) do início de 1928:

“ Mantida com rigor e baseada na responsabilidade pessoal dos alunos, orientada de modo a se despertar ou desenvolver em cada um o sentimento do bom proceder por força de caráter, sem temores e sem constrangimento, evitando a todo transe rebaixar os alunos, mas elevá-los, combatendo com rigor o fingimento e a hipocrisia, que tantos males fazem aos internatos, vai dando a disciplina os melhores frutos.

Parece ser esse o único método de disciplina aconselhável e prático para um internato superior, (...) devemos continuar a ter disciplina ‘pelo caráter e não pela força’.( LISBÔA, 1927:42-43)

 

“ Os alunos são tratados como cidadãos, baseando-se a rigorosa disciplina mantida no estabelecimento, na responsabilidade pessoal de cada aluno.

Está a Escola seguindo nova linha de educação, tudo fazendo para desenvolver o caráter de seus alunos em vez de deprimi-lo.

 É preferível educar-se, elevando. Exposto, a princípio, esse   método, muitas opiniões pessimistas se manifestaram. A sua aplicação prática, porém, demostra eficiência e grandes vantagens. Não se preocupa a Escola com altos muros, grades de ferro nas janelas dos dormitórios e outras velharias. Instituiu o regime de porta aberta, hora certíssima, muito trabalho, alimentação cientificamente sadia.

  Exige muito o estabelecimento o princípio de honestidade em tudo, proceder bem e obedecer as leis porque a consciência o exige.”                           ( LISBÔA,1928:13-14)

 

A questão da disciplina fica patente também na fala dos entrevistados:

“Aqui já tinha internato, mas tinha exigência para entrar no internato. Na verdade era muito exigente o regime  no internato era muito duro. Eu fiquei aqui em Viçosa dois anos morando na cidade porque tinha mais liberdade.

Quando eu cheguei aqui [1940 aproximadamente] a coisa já tinha aliviado bastante. No tempo do Bello Lisbôa a coisa era ainda mais rigorosa, ninguém sabe como aquele homem vigiava tanto assim, lá no arquivo tinha o regulamento. Nos tínhamos que chegar as 7 horas no alojamento porque as 9 horas tinha a tal sopa da dona Germana. Havia um conselho de disciplina que era dirigido por um professor e constituído por um  representantes de cada seção do internato, tal representante era eleito pelos estudantes. O representante tinha que dizer o que tinha acontecido nos alojamentos, se fulano chegou atrasado, se fizeram barulho, se cumpriu as normas...Depois de feito isso o professor chamava o estudante e ameaçava coloca-lo para fora do internato, naquele tempo o regime era muito rígido, mas não tanto quanto no tempo do Bello Lisbôa”. J. Marcondes Borges (entrevista, 2001)

 

“cada seção elegia o seu representante e havia um diretor de disciplina e se reuniam rapidamente para avaliar os problemas, se tudo corria bem nos apartamentos, se faltava alguma coisa, se todo mundo estava estudando, se havia indisciplina. Ninguém admitiria que uma moça entrasse lá. Isso era coisa que o diretor era extremamente rigoroso, nem moça, nem ninguém podia entrar, só entrava nos apartamentos, estudantes”. E. Potsch (entrevista, 2001)

 

João Maria Bello Lisbôa, referindo-se a rigidez e a disciplina exigidas por João Carlos Bello Lisbôa [seu pai e na época diretor da ESAV], afirma que: “apesar de toda dureza, da disciplina, ele era considerado como segundo pai sabe( ..)é como um pai que dá palmada no bom sentido”.

No que se refere ao ensino, a rigidez nos horários e na grade de aulas deveriam ser cumpridas rigidamente. O ensino ministrado pela ESAV, dava grande importância à  parte didática, sobretudo à instrução prática, rompendo  com a nossa tradição academicista,  livresca. A adoção dessa nova metodologia de ensino, foi bem recebida pelos discentes, como pode ser constatado no relato do Prof. P. H. Rolfs:

“ Ao iniciar os trabalhos em Minas, fui seguramente informado por muitos dos ‘leaders’ em educação que os jovens mineiros não aceitariam a forma americana de instrução agrícola, que eles teriam vergonha de sujarem as mãos tocando em arados e máquinas agrícolas. Tenho a máxima satisfação em dizer-vos que é extremamente o contrário o que se tem dado com os nossos alunos; eles preferem as aulas práticas nos campos às aulas teóricas.( apud Coelho,1992:216)

 

O “aprender fazendo” foi também estimulado em virtude do número reduzido de servidores, o que levou muitos discentes a manusear as máquinas agrícolas e acompanhar, de uma maneira muito mais direta e efetiva, o andamento das pesquisas e dos experimentos, exigências previstas desde o primeiro regulamento dessa Escola[2]. Sobre essa iniciativa de realização de trabalhos experimentais da ESAV, afirma SILVA (1985:7):

“A partir daí , a pesquisa tem sido uma constante em seu desenvolvimento e tem concorrido para soluções práticas de variado problemas. Como exemplo, podem ser citados: a variedade de arroz “ Agulha-ESAV”, a variedade de feijão preto “ Rico 23”, a variedade de milho “Opaco-2”, além dos numerosos estudos e soluções para outros problemas da agropecuária.”

 

Podemos supor que, a permanência da cultura de pesquisa e de experimentação, criada desde os primórdios da ESAV, fizeram com que essa instituição fosse uma das instituições pioneiras na implantação de programas de pós-graduação stricto sensu no Brasil, em 1961.

Ainda em conformidade com o modelo  dos Land Grant Colleges americanos, a prática extensionista também possui uma forte tradição na UFV, oriunda dos tempos da ESAV, haja vista que a “Semana do Fazendeiro” vem se realizando anualmente e sem interrupção, desde 1929. O professor José Marcondes Borges, que ainda como aluno da ESAV ajudou a organizar várias Semanas do Fazendeiro rememora:

“A semana do fazendeiro foi a primeira semana extensionista   do Brasil. Foi a primeira e durante muitos anos a única. Surgiu na época da direção do Bello Lisbôa. Joaquim Fernandes Braga, e o José Coelho da Silva conversaram com o Bello Lisbôa e resolveram fazer a Semana do Fazendeiro.

Com o constante aumento do número de participantes  houve a necessidade de organizá-la melhor. A Universidade sempre  deu importância à Semana do Fazendeiro”.

A Iª Semana do Fazendeiro, contou com a participação de 39 agricultores e representou uma iniciativa pioneira, no Brasil, de levar assistência técnica ao agricultor. A idéia de realização deste evento surgiu  após a visita de um grupo de agricultores à ESAV, conforme esclarece  NEVES:

“ (...) a inspiração da criação desta Semana nasceu de uma visita que o Dr. Jacinto Soares de Souza Lima ( clinico e agricultor do município de Ubá) fez à Escola, em 1928, com um grupo de agricultores. Ele e os então alunos, assumiram o compromisso de trazer agricultores à Escola no próximo ano para estágio de alguns dias. ( apud, SILVA 1995: 5)

 

A  orientação seguida por essa atividade de extensão rural é inspirada na filosofia de suas congêneres norte-americanas, que são norteadas pelas  idéias de: prestação de serviços, difusão de métodos e técnicas de produção, transferência de conhecimentos científicos, sistematizados e comprovados.

 Podemos dizer, que esses princípios permanecem balizando a realização dessa atividade de extensão até os dias atuais, como pode ser atestado no documento de divulgação da 71ª  Semana do Fazendeiro, realizada em outubro de 2000, onde esse evento objetiva:

“...difundir, entre os participantes, conhecimentos técnicos das diversas áreas de atuação da UFV, visando à melhoria da produtividade e da produção e ao bem-estar social do produtor e de sua família. No decorrer da Semana, haverá cursos em diversas áreas, exposição de máquinas e implementos agrícolas e exposição de artesanatos. Neste ano estaremos lançando a "Clínica Tecnológica" com o objetivo de prestar consultoria gratuita, através de especialistas da UFV, aos participantes em diferentes áreas” (site da UFV/set.2000).

 

Ao discutir a extensão universitária na ESAV, no entanto, não podemos nos ater somente a Semana do Fazendeiro, pois uma série de iniciativas extensionistas já vinham se desenvolvendo na Escola, a exemplo de suas congêneres americanas. Lima (1995:65) discutindo o desenvolvimento das atividades de extensão na ESAV  considera que: “uma das grandes atrações da época para o comparecimento de produtores à Escola foi a Exposição de frutas em 1926, com cerca de 600 visitantes”.

 E ainda:

 “... raramente se passava uma semana sem ser recebida a visita de um agricultor para fazer um “curso” de um dia, de estudo em Agricultura ou em alguma especialidade de zootecnia, pomologia, horticultura ou agronomia”.

 

Além da realização das atividades de ensino, pesquisa e extensão, a ESAV também conseguiu grande destaque em sua organização administrativa, uma vez que trouxe algumas inovações no ensino superior brasileiro, no início da década de 1930, que foram efêmeras, em virtude das injunções políticas que culminaram com a instituição do Estado Novo (1937-1945) .

Em 1931 foi publicado  o Decreto n.º 10.154,  que  aprovou um novo regulamento para a ESAV, que trouxe três importantes mudanças. A primeira deu autonomia administrativa e financeira à Escola, constituindo uma junta de nove membros, que ficou responsável pela administração superior do Estabelecimento. A segunda substituiu a estrutura de distribuição das disciplinas por “cadeiras” pela constituição de  quinze departamentos que passavam a oferecer as “matérias” lecionadas. A terceira foi a introdução do semestre, como unidade letiva, ao invés do ano.    

Tais inovações estavam condizentes com o Decreto de 1931 relativo ao Estatuto das Universidades Brasileiras,  que  definiu os critérios gerais para a organização das universidades, sem detalhar o modo de organização das instituições e sua rotina de ensino.  Contudo, essa “autonomia relativa” durou pouco tempo, uma vez que o gradativo fortalecimento do governo Vargas, após a revolução de 1930, acarretou um aumento do controle sobre as universidades, como das demais instituições sociais, refletindo o intenso processo de radicalização político-ideológica que culminará no advento do Estado Novo.

Assim, em 1934, esse controle já começa a se efetivar. Segundo CUNHA (1989: 17-18):

“O governo federal, como que para delimitar as variações regionais permitidas pelo Estatuto das Universidades Brasileiras, baixou um decreto regulamentando as formas de organização das universidades estaduais e privadas que pretendessem equiparar-se às federais(...) deveriam incluir, em cada curso, como mínimo todas as matérias obrigatórias do curso correspondente em uma universidade federal, e também fazer as mesmas exigências nos exames vestibulares, Ter igual duração e rigor equivalente. A especificação do programa de cada matéria, a inclusão de matérias novas e sua distribuição pelos anos de curso permaneciam como competência das universidades equiparadas.(...) Toda essa regulamentação não eximia as universidades estaduais e privadas da necessidade de submeter seus estatutos ao Ministério da Educação, que ouviria o parecer do conselho Nacional de Educação, o que também faria no caso de proposição de cassação definitiva da equiparação.”

 

No caso do ensino de Agronomia e Veterinária, a normatização legal detalhada baseou-se nos estabelecimentos-padrão, constituídos pela Escola Nacional de Agricultura e pela Escola Nacional de Veterinária, ambas criadas no Rio de Janeiro, em 1934, que trouxeram grandes transtornos para muitas Escolas que vinham funcionando normalmente. A rigidez do controle sobre o ensino superior foi acentuado ainda mais durante a vigência do Estado Novo.

Nesse contexto, a ESAV foi a única Escola superior de agricultura e/ou veterinária mineira, criada nos anos de 1910 e 1920, a “sobreviver”  ao Decreto n.º 23.979 de março de 1934 e ao Decreto-Lei n.º 933 de dezembro 1938[3], aplicados pela equipe de inspetores da ex-DEA (Diretoria do Ensino Agronômico), a SEAV (Superintendência do Ensino Agrícola e Veterinário) do Ministério da Agricultura,  que segundo CAPDEVILLE (1991: 80): 

  

“marcaram um período excepcionalmente raro na história da Educação Brasileira, que foi o do fechamento de várias Escolas e cursos, alguns com muitos anos de funcionamento e fortíssimo respaldo político, fato peregrino, raríssimo mesmo, que praticamente não mais se viu desde então. Os nomes dos funcionários da ex-DEA, a SEAV.... faziam tremer os pórticos das Escolas de Agronomia  e Veterinária da época.”  

 

Contudo, vale também ressaltar que a ESAV não passou incólume às mudanças, tendo em vista que a Escola perdeu sua autonomia  com a Lei Estadual n.º 146 de novembro de 1936, ficando subordinada à Secretaria  de Agricultura, Indústria, Comércio e Trabalho. Além disso, em 1942, ela foi desmembrada na Escola Superior de Agricultura do Estado de Minas Gerais, que permaneceu em Viçosa, e na Escola Superior de Veterinária do Estado de Minas Gerais, que foi transferida para Belo Horizonte, em função do Decreto-Lei n.º 824, de janeiro de 1942.

Nesse sentido, parece-nos que a adoção do modelo do ensino superior norte-americano, baseado nos moldes dos Land-Grant Colleges americanos, contribuiu para a permanência da ESAV, mesmo que desmembrada.

 

 OBJETIVOS

 

Em função dos problemas levantados no processo de criação/constituição da ESAV,  este trabalho tem como objetivos:

·      Investigar o contexto histórico do período em que ocorreu a criação da Escola Superior de Agricultura e Veterinária (ESAV), atual Universidade Federal de Viçosa;

·      Analisar  a filosofia educacional desta instituição;

·      Identificar os principais objetivos e finalidades da criação da ESAV;

·      Conhecer como se deu o processo de consolidação desta instituição;

·      Apontar a contribuição educacional da ESAV para o Estado de Minas Gerais e para o Brasil.

METODOLOGIA

 

Essa pesquisa está calcada numa abordagem de investigação qualitativa, que segundo  BOGDAN E BIKLEN (1982) “envolve a obtenção de dados descritivos, obtidos no contato direto do pesquisador com a situação estudada, enfatiza mais o processo do que o produto e se preocupa em retratar a perspectiva dos participantes” (apud: ANDRÉ e LÜDKE, 1986: 13).

A  abordagem da investigação qualitativa pressupõe  “que o mundo seja examinado com a idéia de que nada é trivial, que tudo tem potencial para constituir uma pista que nos permita estabelecer uma compreensão mais esclarecedora do nosso objecto de estudo” ( ALVAREZ et alli, 1994:49).  São esses princípios de abordagem e método que estão balizando esse trabalho.  

Para analisar as questões centrais e atender aos objetivos aqui colocados, foram utilizados, como procedimentos metodológicos a análise das fontes  secundárias (livros, revistas, jornais) sobre o período histórico em foco e o levantamento das fontes primárias escritas do Arquivo Central da UFV (documentos históricos- correspondências, atas, ofícios, processos, discursos, etc.).

 

 

O uso das fontes secundárias constitui-se num instrumento importante, que favorece a apreensão do conhecimento já produzido sobre o contexto histórico mais amplo e sobre os acontecimentos singulares ocorridos na instituição. No entanto, a investigação e a leitura dessas fontes devem estar baseadas numa interrogação problematizadora dessas realidades descritas e/ou analisadas.

Nesse sentido, o levantamento e leitura  das fontes secundárias destinou-se a promover um maior esclarecimento do contexto histórico brasileiro e mineiro das décadas de 1920 a 1930, para que compreendamos o problema em sua plenitude, como um fenômeno socio-histórico pois  reflete em si, os  interesses políticos e econômicos de um tempo e de uma sociedade.

A entrevista foi enquanto um recurso de análise nessa pesquisa, na medida em que o  procedimento utilizado para o resgate da história de um período ou de uma instituição, baseando-se apenas nas fontes  documentais e na descrição dos fatos registrados em momentos históricos anteriores, faz com que o pesquisador corra o risco de aderir a interpretações tendenciosas e parciais, uma vez que os documentos, assim como os registros de determinados fatos históricos, possam ter sido encomendados e modelados, conforme a imagem que os sujeitos daquele momento histórico vivido  pretendam perpetuar.

Assim, foram entrevistados quatro figuras que viciaram algum momento da ESAV, no caso os senhores: José Marcondes Borges, ex-aluno e professor aposentado autor e organizador de alguns livros que buscam estudar a história da UFV. Edson Potsch Magalhães, ex-aluno, reitor e professor aposentado. Walter Brune, ex-aluno e professor aposentado e o senhor João Maria Bello Lisbôa filho do segundo diretor da ESAV, João Carlos Bello Lisbôa.

 

 RESULTADOS E DISCUSSÃO

 

Quando analisamos a história da Escola Superior de Agricultura e Veterinária – ESAV ,  hoje consolidada enquanto Universidade Federal de Viçosa – UFV,  percebemos a importância e a relevância do entendimento do  contexto  de desenvolvimento do capitalismo no mundo, no geral, e o contexto histórico brasileiro e mineiro em particular,  nos quais a ESAV surge e se constitui enquanto um modelo “impar”  de Escola, isto porque um fato histórico não pode ser recortado e isolado do seu momento histórico, da sua época, dos seus desdobramentos.

Nesse sentido, tivemos a preocupação de não reduzir o rico contexto histórico de criação,  implantação e consolidação da ESAV, à vontade de homens públicos ou fatos estanques, o que nos levaria a perder de vista, a concepção histórico-social da condição humana.

            Compreendemos que a criação da ESAV representou parte de um entre outras coisa, uma estratégia para “acelerar” o desenvolvimento agrícola do Estado de Minas Gerais, tendo em vista suplantar a liderança ocupada por São Paulo, na economia brasileira. 

É possível identificar a emergência do ideário de uma Escola redentora, que promoveria o incremento, a transformação das práticas agropecuárias em Minas Gerais.  Esse discurso entusiástico fica explícito em diversos momentos, como no estabelecimento dos objetivos da ESAV, no modelo de Escola agrícola adotado   ( Land-Grant Colleges), na ênfase dada ao ensino das ciências aplicadas, à experimentação e às atividades de extensão, enquanto forma de socialização da produção técnica e científica obtidas. 

A materialidade desse ideário pode ser detectado em diversos artigos publicados nas revistas Seiva  e Ceres - a primeira de responsabilidade dos discentes, e a segunda dos docentes -, nos relatórios anuais da Direção e do corpo docente da ESAV, bem como em documentos e correspondências diversas.

Por outro lado, fica patente o conceito rapidamente conquistado e desfrutado pela ESAV, uma vez que foi uma das poucas Escolas agrícolas a permanecer funcionando diante da severa fiscalização imposta pelas Inspetorias de Ensino Agrícola e Veterinário, em vigor durante a Era Vargas (1930-1945).

Podemos considerar que a sobrevida da Escola Superior de Agricultura e Veterinária está intimamente ligada a forma como esta Escola se diferenciou das demais de sua época. Nesse sentido, é possível identificar na ESAV uma série de aspectos impares que vão pouco a pouco consolidando o prestígio que essa instituição desfrutará nas décadas de 1930 e 1930.

Nesse sentido que salientamos a importância do espirito esaviano, de “bem servir, de se orgulhar-se da ESAV, de disciplina...”  que ainda hoje é expresso na memória de ex-alunos, as atividades pioneiras de extensão, que são referências históricas no Estado de Minas Gerais e no Brasil, haja vista que a semana do fazendeiro é considerada a primeira atividade de extensão do país, a ruptura com o modelo de ensino superior europeu e a indissociabilidade entre ensino-pesquisa-extensão já naquela época.   

BIBLIOGRAFIA

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SILVA, Uiara Maria. (1995) Extensão Universitária: A Interação do Conhecimento na Semana do Fazendeiro. Viçosa, UFV, (dissertação de mestrado).



[1] Quanto à criação das Escolas Agrícolas em Minas Gerais, Capdeville (1991:78-86) também relata que, em 1896, foi inaugurada pelos salesianos, o Curso agronômico das escolas D. Bosco de Cachoeira do Campo e, em 1908, a Escola Agrícola de Lavras, por missionários norte-americanos, que em 1950, transformou-se na Escola Superior de Agricultura de Lavras.

[2] Ver Decreto nº 7323 de 25 de agosto de 1926.

[3] Ambos Decretos regulam o funcionamento dos cursos superiores do Ensino agrícola e veterinário. Conforme Capdeville (1991: 80-85), as últimas turmas formadas nessas escolas foram: Escola de Agronomia e Medicina Veterinária de Belo Horizonte , em 1940; a Faculdade de Medicina Veterinária de Pouso Alegre, em 1937; a Escola de Agronomia e Pecuária de Passa Quatro, em 1938; e a Faculdade de Veterinária de Juiz de Fora, em 1940.