O presente
trabalho, objetiva estudar o processo de construção e implantação da Escola
Superior de Agricultura e Veterinária (ESAV), no período que vai de 1926 a
1936, e que se constitui na base da
atual Universidade Federal de Viçosa (UFV).
Atualmente, a Universidade
Federal de Viçosa é uma das mais importantes instituições de ensino , pesquisa
e extensão do país. Possui 34 Cursos de Graduação, distribuídos por 4 Centros
de Ciências (Agrárias, Biológicas e da Saúde, Exatas e Tecnológicas e Humanas,
Letras e Artes). Embora venha se expandindo noutras áreas do conhecimento, esta
instituição desfruta de grande renome nacional e internacional no estudo e na aplicação da ciência e da
tecnologia na área agropecuária.
Esta reconhecida
instituição originou-se da ESAV, que foi criada pelo Decreto 6.053, de 30 de
março de 1922, pelo então Presidente do Estado de Minas Gerais, Sr. Arthur da
Silva Bernardes.
A criação dessa Escola parece não ter sido uma
ação política isolada de um governo no Estado de Minas Gerais, mas fazer parte
de uma diretriz maior, com o intuito de fortalecer a base
econômica do Estado, haja vista que, entre
1914 e 1926, foram criadas
outras quatro novas Escolas agrárias: a Escola de Agronomia e Medicina
Veterinária de Belo Horizonte (1914), a Faculdade de Medicina Veterinária de
Pouso Alegre (1917), a Escola de Agronomia e Pecuária de Passa Quatro (1917), a
Faculdade de Veterinária de Juiz de Fora (1924)[1].
Assim faz-se necessário
compreender o contexto histórico brasileiro em que o projeto de criação da ESAV foi implantado, para que possamos
melhor analisar o seu desenvolvimento nas décadas de 1920 e 1930.
Em termos históricos, é
fundamental tecermos algumas considerações sobre a primeira etapa da República
Brasileira, que abarca, segundo a
maioria dos autores que estudam esse período, desde a Proclamação da República,
em 1889, até a Revolução de 1930.
Se há quase um consenso
nessa periodização, marcada por fatos de caráter eminentemente político, o
mesmo não pode ser afirmado sobre a denominação dada a essa primeira fase da
República Brasileira, que conforme o autor pode ser designada como República
Velha, Primeira República, República Oligárquica, República dos Coronéis ou
ainda República dos Governadores. Nesse sentido, torna-se importante, trabalhar
com as três ultimas denominações dadas a esse período, por serem bastante
relevantes no estudo que faremos a diante.
Também é fundamental
analisarmos como estruturou-se a “política do café com leite”, para a
compreensão do papel exercido pelos dois Estados mais importantes da federação
brasileira, que protagonizaram um revezamento na Presidência da República
durante quase todo o período da Primeira República, ou seja, São Paulo e Minas Gerais.
A grande força desses
Estados nos destinos do País se explica em função da pujança econômica de São
Paulo e a força das oligarquias cafeeiras aglutinadas em torno do Partido
Republicano Paulista e a maior população eleitoral e a maior bancada no
Legislativo Nacional, além da coesão política das oligarquias mineiras junto ao
Partido Republicano Mineiro.
Embora essa aliança
tenha perdurado quase três décadas, é inegável que existia uma grande rivalidade
entre paulistas e mineiros, sobretudo no que se refere aos interesses
econômicos e políticos. Temos por hipótese, que essa competição, sobretudo em
termos econômicos, levou o Estado de Minas a desenvolver um projeto de
desenvolvimento - com vistas a suplantar o domínio econômico paulista – que se
propunha a superar as práticas agrícolas consideradas ultrapassadas, e a
implantar um modelo Agrícola alicerçado na ciências aplicadas e na inovação
técnica.
É nesse contexto, que o
governo mineiro inicia contatos com o governo norte-americano, com o objetivo
de transferir recursos humanos e know-how
que possibilitasse a criação e a implantação de uma Escola agrícola, calcada
nos moldes dos Land-Grant Colleges dos Estados Unidos, no Estado de Minas Gerais, para a
introdução de novas técnicas no âmbito da produção agropecuária, com vistas a dar um grande impulso no
desenvolvimento econômico desse Estado.
Tal projeto se materializa com
a criação da Escola Superior de Agricultura e Veterinária (ESAV) no Município
de Viçosa. Essa Escola se diferenciou das outras quatro Escolas agrárias
criadas em Minas Gerais , entre 1914 e
1926, por seguir o modelo de ensino
superior agrícola norte-americano, embora até esse momento, na história do
ensino superior brasileiro, ainda ser
inquestionável o predomínio do modelo do ensino superior europeu.
ESAV: Uma Estratégia Mineira para o
Desenvolvimento Agrário
A proposta de criação da
ESAV por meio da Lei n.º 761 inicia-se no governo Arthur Silva Bernardes no Estado de Minas Gerais (1918-1922) e se
concretiza em sua gestão na Presidência da República Federativa do Brasil
(1922-1926). O início das atividades
didáticas ocorreu em 1927 e se constituiu na base do que hoje é a Universidade Federal de Viçosa.
No mesmo ano foi contratado o Dr. Peter
Henry Rolfs “ ‘Bachelor of Science’, 1889; ‘Master of Science’, 1891; ‘Doctor
of Science’, 1920 e, finalmente, Diretor do ‘Florida Agricultural College’ da
‘University of Florida’, no período de 1915 a 1920” (BORGES,1968: ). O professor
Rolfs foi indicado pelo Departamento de Agricultura dos Estados Unidos através
de contatos estabelecidos com o embaixador do Brasil em Washington. BORGES
(1968 ) esclarece que “de acordo com o contrato cabia-lhe, além da direção do
estabelecimento, as missões de colaborar na escolha do local e de apresentar ao
governo os planos das construções e os programas gerais de ensino”
Outra pessoa muito importante
nesse processo de constituição da ESAV, foi o engenheiro João Carlos
Bello Lisbôa que chegou à Viçosa em 1922, para integrar a equipe de engenheiros
responsável pela construção desta Escola. Em menos de seis meses, passou a ser
o engenheiro chefe e, com a inauguração da ESAV, tornou-se o primeiro
catedrático contratado, assumindo a cadeira de Engenharia Rural e o cargo de
Vice-Diretor da Instituição. Quando P. H. Rolfs deixa o cargo de Diretor da
ESAV, para desempenhar as funções de Consultor Técnico de Agricultura do Estado
de Minas Gerais em 1929, é Bello Lisbôa que o assume.
Ao estudar a história da ESAV, é possível perceber a grande
importância atribuída a esses três nomes: Arthur da Silva Bernardes, Peter
Henry Rolfs e João Carlos Bello Lisbôa. Segundo Lima (1996:17) “É necessário
destacar aqueles que, primeiramente, deram o impulso para o início desta
história. Estes são os “pioneiros” da Escola de Viçosa”. A importância
atribuída a esses três personagem é clara também em trechos de entrevistas
realizadas com os senhores Edson Potsch Magalhães e José Maria Bello Lisbôa,
filho de José Carlos Bello Lisbôa segundo diretor da ESAV,
respectivamente:
“Com relação aos principais
responsáveis pela criação e
consolidação da ESAV, inquestionavelmente foi o presidente Arthur
Bernardes que foi o seu criador intensivo e permanentemente lembrado, referenciado
com toda justiça. Agora as figuras, sem dúvida as figuras singulares são
primeiro P. H Rolfs que era um homem de extraordinária cultura, de grande
experiência adquirida nos Estados Unidos e que pertencia a numerosas
associações. Publicou muitos trabalhos, era um especialista em pomologia,
principalmente abacateiros em doenças de plantas e muitas coisas, basicamente
ele era um engenheiro agrônomo como eu sou.
E sem dúvida alguma, depois
dele foi o Dr. João Carlos Bello Lisbôa que dirigiu durante muitos anos a
Escola até a formatura da primeira turma de médicos veterinários ele dirigiu a
Escola.” (POTSCH)
“Criação foi o presidente
Bernardes não é, que era governador de Minas Arthur Bernardes foi ele quem
levou a Escola para Viçosa, então acho que a idéia inicial foi dele o criador
acho que foi ele e os consolidadores acho que foram o meu pai e o Dr. Rolfs,
Dr. Rolfs e o meu pai acho que os dois estão na mesma na mesma posição um na parte agronômica outro na parte da
construção civil e na criação do espírito que animou esses alunos das primeiras gerações.” (LISBÔA)
Nesse sentido, é possível
observar ainda em alguns exemplares das revistas Seiva e Ceres e em discursos
de colação de grau, referências a P. H. Rolfs e ao Bello Lisbôa.
Em relação a figura de Arthur
Bernardes, é interessante observar que esse estadista com a criação da ESAV,
segundo PANIAGO (2000: 23), acreditava ter “lançado as bases para a solução do
angustiante problema da agricultura mineira”. Essa afirmativa é também
confirmada pelo depoimento de Edson Potsch Magalhães: “ Ele [Bernardes] queria
que fosse dado um grande impulso na transformação do Estado, mas evidentemente
a Escola era para atender o país, mas o ponto central era o Estado de Minas
Gerais, ele nunca deixou de declarar isso”.
Segundo o artigo 3º da lei que
autorizava a criação da Escola, esta deveria ser fundada em um lugar que, para
tal fim, oferecesse as condições necessárias, assim uma comissão foi
constituída para a escolha do local de instalação da ESAV. Faziam parte desta
comissão o Diretor de Agricultura da Secretaria de Estado de Minas Gerais, Dr.
Álvaro da Silveira e Dr. P. H. Rolfs
além de dois auxiliares. Sobre tal escolha esclareceram os membros da comissão:
“Dr. Álvaro da Silveira – Dos
terrenos que visitei nas vizinhanças de Ubá, Rio Branco, Viçosa e Ponte Nova,
prestam-se a meu ver, melhor os denominados ‘Maria Luiza’, situados a pequena
distância de Viçosa.
Dr. P. H. Rolfs – Tomando a
questão sob todos os seus aspectos e estudando-a em seu conjunto, não ha duvida
de que Viçosa é o melhor dos quatro lugares para localização da Escola Superior
de Agricultura e Veterinária.” (
BORGES,1968)
Assim, “a comissão, tendo visitado alguns sítios
nas vizinhanças de Ubá, Rio Branco, Viçosa e Ponte Nova, decidiu-se,
providencialmente, por localizá-la nas proximidades da cidade de origem do
Presidente do Estado, Dr. Arthur da Silva Bernardes, isso é, Viçosa (Capdeville
1991:85). Nesse contexto o decreto n.º
5.806 de 1921, assinado pelo presidente do Estado, no qual aprovou o local de
instalação da Escola, as plantas e
autorizou a desapropriação dos terrenos necessários. Já o decreto n.º
6.053, de 30 de março de 1922 criou a Escola Superior de Agricultura e
Veterinária ( ESAV) esta só seria inaugurada em 1926 .
O fato da ESAV ter sido construída justamente em Viçosa, terra natal do
Presidente Bernardes, traz alguma polêmica. Nesse sentido, Belo Lisbôa que foi
engenheiro-chefe da construção, num texto publicado no Boletim de Agricultura,
Zootecnia e Veterinária (BAZV), da Secretária de Agricultura em 1928, dizia
que:
“ A primeira questão a ser
resolvida, no início, foi o lugar em que deveria ser construída a Escola.
Nestas ocasiões formidáveis são os conflitos entre interesses. O governo de Minas entregou a solução da
questão a uma comissão de techinicos...A única instrução que do governo recebeu
a comissão foi de que a Escola deveria ser localizada na Zona da Mata, por
motivo de sua riqueza agrícola e densidade de população”( apud COELHO,
1992:44).
Alguns autores consideram que a escolha da
cidade de Viçosa, como sede para construção da Escola, não aconteceu por
critérios puramente técnicos, mas de forma a referenciar o seu idealizador
Arthur Bernardes ou como uma tentativa
deste, de fortalecer sua cidade. Segundo afirma CARVALHO (apud COELHO,
1992:32) “ A Escola, inaugurada em 1926, foi criada por Arthur Bernardes
para beneficiar sua terra”.
Essa visão é partilhada por LIMA (1996:16
):
“...É naturalmente
compreensível que, psicologicamente, Viçosa tivesse posição prioritária perante
os membros da comissão, visto que o próprio presidente do Estado de Minas era
viçosense.”
E também é corroborada por SILVA (1995:44):
“...Na memória popular,
se fala que Bernardes orientou, assim, o professor americano P. H. Rolfs: ‘Pode
instalar a Escola em qualquer lugar do Brasil, desde que seja em Viçosa’, terra
natal do presidente”.
Em entrevista, o professor Marcondes Borges
discute a questão considerando que:
“Sempre houve duas correntes,
a que achava que foi feita em Viçosa pela figura de Bernardes. Na idéia dele,
ele queria criar uma Escola superior americana, essa era a idéia dele.
Tirou uma comissão, eu acho
que apesar de responsável, eles pensaram, porque não faz em Viçosa é a terra do
presidente, eu sou dessa teoria, que não era o lugar melhor, eu até acredito
pela pessoa do Bernardes que ele não tenha pedido a comissão.
Mas que por considerarem que
era a terra dele, vamos fazer em Viçosa, é a terra do presidente. Eu acredito
que tenha valido por uma questão política como hoje talvez seria feito.
A outra vertente acreditava
que Viçosa foi o melhor lugar mesmo. Porque se Viçosa não era o melhor meio
agrícola, o judeu não está transformando o deserto em áreas cultiváveis, se
aqui não era o melhor local agrícola podia-se ter uma Escola até mesmo para desenvolver o local.
Eu acho que em todo lugar tem
que ter uma Escola agrícola, é importante para todo lugar”.
Para LIMA ( 1996:22), essa determinação de
Bernardes em fundar uma Escola agrícola, em Viçosa/MG, na década de 20, teve
várias motivações:
“O desejo de fomentar a agricultura mineira,
elemento básico da economia do País, o desejo de dotar a sua terra natal de um
investimento estatal de grande vulto que pudesse dinamizar e projetar Viçosa no
cenário estadual e nacional, o desejo de ser o precursor do progresso, trazendo
a ciência e a técnica a uma sociedade acostumada ao empirismo, além de outros,
acenderam a fagulha da determinação de Bernardes em fundar uma Escola agrícola
na década de 20.”
Foi também Arthur
Bernardes quem decidiu que essa
Escola fosse instituída nos moldes dos Land Grant
Colleges americanos, que “era pautado em três linhas - o ensino, a pesquisa
e a extensão – e seria uma exceção ao academicismo predominante nas
relativamente poucas instituições brasileiras de ensino superior da época” (
LARA et. alli: 1996, 23) e que “deram extraordinário desenvolvimento à
agropecuária dos Estados Unidos” (RIBEIRO: 1996, 9)
Nesse sentido, a criação
dessa Escola parece não ter sido uma ação política isolada de um governo no
Estado de Minas Gerais, mas fazer parte de uma diretriz maior, com o intuito de
fortalecer a base econômica do Estado, tendo em vista a criação de outras
quatro novas Escolas agrárias, como já apontadas na introdução desse relatório.
Podemos perceber que a
criação dessas Escolas Superiores de Agronomia e/ou Veterinária no Estado de
Minas Gerais, ocorreu num momento em que as elites agrárias mineiras almejavam
firmar-se política e economicamente diante de São Paulo, como também já foi
apontado, uma vez que o capitalismo que começava a se consolidar nestes Estados
tinha como exigência, a competitividade e a produtividade alicerçadas na
ciência e na técnica, premissas básicas para se alcançar a prosperidade
econômica. Nesse sentido, Minas almejava livrar-se da posição incômoda de
segunda força econômica, tendo em vista que São Paulo era o grande motor propulsor
da economia agro-exportadora brasileira, enquanto Minas era o maior colégio
eleitoral e por isso, possuía mais representantes no Congresso Nacional, embora
sua economia estivesse ainda longe de
ser equiparada a São Paulo.
Assim a criação
ESAV, bem como de outras escolas agrícolas da época, não pode ser entendida fora deste contexto,
ou relacionada somente à vontade de alguns homens públicos. A criação desta
Escola reflete interesses políticos e econômicos de um tempo e de uma
sociedade. Isso pode ser verificado no Artigo 4º da lei 761 que estabelece os
seus objetivos: “ Esta Escola terá por objetivo ministrar o ensino prático e
teórico de agricultura e veterinária e bem assim realizar estudos experimentais
que concorram para o desenvolvimento de tais ciências no Estado de Minas
Gerais”. Essa assertiva é confirmada por SILVA (1995:43) quando afirma que:
“Nesse contexto, as autoridades entenderam que a criação de uma Escola Agrícola
era uma estratégia política para tentar reverter a crise com a formação de
técnicos para atuarem junto aos agricultores.”
E ainda que: “...Criou-se não só uma Escola, mas também se
institucionalizou a expectativa de que sua instalação proporcionaria resultados
para melhoria das condições sociais e produtivas, alterando o quadro observado”
(idem:ibidem)
A idéia de dinamizar a agricultura mineira foi desde cedo
inculcada na Escola, o que pode ser atestada desde o seu primeiro anuário,
apresentado ao então Secretário de Agricultura Djalma Pinheiro Chagas, em maio
de 1928, pelo Diretor P. H. Rolfs, onde pode-se ler na conclusão, a seguinte
afirmativa:
“ Está passada a época da lavoura braçal. Somente pela utilização
de métodos modernos poderá Minas Gerais conquistar o lugar que lhe compete
entre os Estados do Brasil. Os métodos são, na maioria, conhecidos. Resta
ensina-los aos filhos dos agricultores, para que sejam postos em prática.
Quando tornarem universais, em Minas, os ensinamentos simples, como são
ministrados aos nossos alunos do Curso Elementar, veremos uma evolução rápida
na agricultura e na vida do Estado”.
Com relação ao objetivo de criação da ESAV, José Maria
Bello Lisbôa nos diz em entrevista que:
“Na minha visão o que eu sempre entendi
dele [seu pai José Carlos Bello Lisbôa] foi a necessidade de ter uma
agricultura mais cientifica, mais técnica, presidente Arthur Bernardes teve
esse desejo e a agricultura (...) o Brasil era agrícola mesmo naquela época, a
industria estava incipiente, não havia indústria e a agricultura tinha que ser,
(...) na visão do presidente Arthur Bernardes, eu acredito que seja isso, o
conhecimento da técnica, da pesquisa da
atividade que era primordial na
economia do Brasil.”
A Escola de Viçosa, desde a sua origem, se distingue das
demais Escolas agrícolas de nível superior, criadas no Brasil, das décadas de
1910 e 1920, pois se espelha nos Land-Grant Colleges americanos que “revolucionaram o ensino técnico da área
agrícola nos fins do século passado nos Estados Unidos” (CARVALHO apud
COELHO, 1992:32)
A respeito do surgimento dos Land-Grant Colleges
(COELHO, 1992:34) contribui esclarecendo que:
“Os Land-Grant Colleges
surgiram em 1862 nos Estados Unidos, juntamente com a criação de uma órgão
federal, o Departamento de Agricultura, que teria a função de coordenar a
aquisição de informações acerca da agricultura.
A tecnologia agrícola
desenvolveu-se nos Estados Unidos a partir de 1830 nas áreas menos dependentes
do conhecimento das condições de clima e solo...Aquelas Escolas surgiram
depois, como conseqüência da expansão da fronteira agrícola em direção a Oeste,
onde novas condições climáticas e de solo demandavam novos conhecimentos
”.
Assim, podemos perceber que os Land-Grant Colleges surgem nos Estados Unidos com a
necessidade de intervenção no processo de desenvolvimento agrário deste país.
Citado por COELHO (1992: 33), o professor P. H. Rolfs faz o seguinte relato
sobre essas Escolas americanas:
“Em um paiz jovem e
progressista, como a América do Norte, quase todos os planos de ensino agrícola
têm sido experimentados, com resultados tão variados quanto os planos. No
leste, adaptaram dois typos de Escolas Europeas, pois esta parte do paiz
manteve relações muito mais estreitas com paizes da Europa do que as outras. Um
dos planos, era que a Escola deveria ser um centro para o ensino de sciencia
pela sciencia, sem aplicação alguma à agricultura; o outro typo era o do
‘jorney-man’, isto é, do operário diplomado. Neste typo de Escola pretendia-se
preencher as fileiras desfalcadas dos operários peritos, exclusivamente por
outros que fossem portadores dum título. As Escolas baseadas neste último plano
todas têm sido abandonadas ou reorganizadas. O primeiro typo produziu muitos
dos melhores scientistas ,mas poucos agricultores. Foi no vale do grande Rio
Mississipi onde a Agricultura era, e continua a ser a industria mais
importante, onde nasceram, desenvolveram-se e hoje reinam, as Escolas
Superiores de Agricultura typicamente americanas”.
O Land-Grant College de Viçosa surge com o objetivo
de intervenção direta na realidade agrária mineira, para que os conhecimentos
científicos aqui difundidos pudessem transformar a agricultura do Estado
tornando-a mais produtiva através da implantação de métodos e técnicas modernas.
“Ao combater o
“empirismo” que cercava a agropecuária, o tradicionalismo, as superstições e os
métodos arcaicos característicos da vida no campo, o progresso, enquanto idéia,
pretende quebrar os mitos que amarravam a sociedade rural à estagnação
econômica, social e cultural. Paradoxalmente, para tal, o progresso, ligado à
razão, à ciência, à técnica, em suma, a tudo que se pretenda chamar de
racional, constrói para um paradigma e transforma-se em mito.” (LIMA,1996:32)
Assim, a orientação que norteará a filosofia da implantação
dessa Escola em Viçosa, estará fundamentada no paradigma de suas congêneres
norte-americanas, que partem da seguinte característica:
“ fazer uma ligação
direta da ciência com a aplicação dos conhecimentos em trabalhos cotidianos das
fazendas, trabalhos práticos. Os princípios nos quais se basearam foram considerados no momento de criação da
ESAV, foram a ela conformados, servindo de alicerce idealizador para a
implementação de um projeto de Escola baseado na articulação ensino, pesquisa e
extensão. Estas características de sua implantação se tornaram marcas de seu
desenvolvimento”. (SILVA,1995:45)
“’Estudar’, ‘Saber”,
‘Agir’ e ‘Vencer’, ‘Ciência e Prática’ e ‘Aprender Fazendo’ passaram a ser
motos constantes da instituição que inaugurava uma nova fase na dinâmica
educacional brasileira, até então essencialmente livresca e acadêmica.
Impunha-se dignificar o trabalho em todas as suas formas e modalidades sem
entretanto descuidar do livro, razão porque, ainda nos primórdios da
Instituição, foi organizada a Biblioteca.” (BORGES, 1968)
As atividades didáticas da ESAV foram iniciadas em 1º de agosto
1927, com o oferecimento dos Cursos Elementar e Médio de Agricultura,
“matriculando 25 alunos que foram alojados no porão do Edifício Principal até a
conclusão dos dormitórios, inaugurados em 26 de junho de 1928” (SILVA, 1985:
4). De acordo com o Regulamento da Escola de janeiro de 1927, os cursos
elementares tinham duração de um ano, este era considerado como um sistema de
educação rudimentar que oferecia instrução mínima de agricultura e veterinária
a agricultores e capatazes rurais, “destinavam-se estes cursos a suprir as
necessidades educativas, relacionadas com a vida rural, de pessoas que não
tenham oportunidade de receber instrução mais completa” ( Regulamento da Escola
Superior de Agricultura e Veterinária, 1927;6).
Para ser admitido no curso Elementar, o candidato deveria ter exame
final dos grupos Escolares, ou submeter-se,
a um exame de admissão com provas de caligrafia, leitura e prova escrita
de aritmética sobre as quatro operações.
Em relação ao curso Médio o mesmo regulamento da ESAV esclarece que
têm duração de dois anos e destinavam-se principalmente “aos filhos de fazendeiros e agricultores
que não tenham feito cursos ginasial e visam formar bons técnicos agrícolas e
administradores rurais”. Para ser admitido nesse curso, o candidato deveria
apresentar certificado de aprovação final em grupo Escolar, além disso o
candidato deveria passar pelo exame de admissão que constava das seguintes
provas: prova escrita de português, prova escrita de aritmética e noções de
geometria e desenho e provas orais de
noção de geografia, história do Brasil e educação moral e cívica.
No primeiro anuário da ESAV, é esclarecida a necessidade dos cursos
Elementar e Médio:
“A instrução como é ministrada
nos Cursos Elementares e Médio, é mais necessária para o desenvolvimento
racional e rápido da agricultura do Estado de Minas. Quando esses moços estavam
na idade própria para estudar em grupos Escolares, pouco deles tinham
oportunidade de freqüentar essas Escolas, por serem poucas no Estado.
Geralmente, a mentalidade dos alunos em nosso Curso Médio justifica a
classificação no Curso Superior. Falta-lhe, porém, o ensino básico, que hoje
está sendo ministrado pelos grupos escolares e ginásios.”(BOLETIM TEMPO E
MEMÓRIA DA UFV,1996:9)
Esses cursos foram extintos em 1947 e 1959, respectivamente.
Em 1º de março de 1928, teve início o Curso Superior de Agricultura. Em 1932, foi a vez do Curso
Superior de Veterinária.
Para o ingresso no curso superior, o
candidato deveria apresentar o certificado de aprovação no curso ginasial e
passar no exame de admissão que exigia conhecimentos em português, uma língua
estrangeira moderna, aritmética, álgebra, geometria e trigonometria, geografia,
física, química, história natural, história do Brasil e história universal.
Sobre o exame de admissão o professor POTSCH afirma, em seu depoimento, que
“era um vestibular bem pesado e o número de vagas era limitado. Não havia
nenhuma preocupação em preencher as vagas, ou o indivíduo atingia a média que,
naquela época era sete, ou não...” (entrevista, 2001)
No curso superior, eram ministradas
quatro oficinas obrigatórias oferecidas no primeiro ano que eram: oficina de
eletricidade, de carpintaria de selaria e de mecânica, “a gente aprendia coisas
simples, mas coisas curiosas, como por exemplo: fazer uma ligação elétrica, instalar
um interruptor, fazer ligações ligeiras, soldas, essas coisas todas”. (Potsch:
entrevista, 2001)
Detalhes interessantes sobre esses cursos (elementar, médio e
superior) são lembrados pelo professor José Marcondes Borges em entrevista:
“Havia um vestibularzinho,
para o curso superior de agronomia e veterinária. Tinha o curso médio de dois
anos e o elementar de um ano. Era muito normal quando se perdia no curso superior fazer prova no o médio, quando perdia-se no médio fazia o
curso elementar. Assim, começou a haver
uma deturpação do curso elementar, que tinha sido criado para dar conhecimento
para capatazes rurais, auxiliares, operadores rurais”.
E ainda:
“No curso médio, havia muito
indivíduo que terminava, comprava o anel e dizia que era agrônomo por Viçosa,
isso era uma parcela dos alunos que faziam, outra parte trabalhava mesmo por ai
como técnico agrícola.
Existia uma certa briga entre
o curso médio e o superior, coisa de estudante. O curso médio diziam que os
estudantes do curso superior eram uns teóricos, só sabiam decorar. Os do curso
superior diziam que os estudantes do curso médio não tinham conhecimento e que
queriam se passar por agrônomos.”
Além desses três cursos:
elementar, médio e superior, existia
ainda os cursos de especialização que eram “ feitos em dois anos, por
engenheiros agrônomos e veterinários e visavam a formação de professores e
cientistas de alto grão.” (LISBÔA,1928:16)
A primeira turma de
engenheiros - agrônomos colou grau em
1931, enquanto a primeira turma de médicos-veterinários formou-se no final de
1935.
Como o prédio do dormitório só foi
inaugurado parcialmente em 1928, os primeiros alunos internos tiveram que se
alojar no porão do Prédio Principal. O internato, destinado aos estudantes do
curso superior, “foi o primeiro a obter sucesso em todo país, após o malogro
das tentativas realizadas em outras regiões” .(BORGES, 1968: s/p). Segundo o
depoimento de Potsch, a criação e manutenção do internato pela ESAV representa
a marca de um pioneirismo, pois:
“...provou ser possível
um regime de internato para alunos de cursos superior. Isso foi duramente
criticado antigamente, pois não podiam entender como é que um aluno de curso
superior estivesse num regime de internato. E o internato foi, sem dúvida
alguma, um elemento extraordinário, para facilitar não só a oportunidade de
estudos para as pessoas menos bem situadas e também porque assegurava a
convivência mais intensa entre estudantes e professores. O regime evidentemente,
foi salutar, está aí até hoje, de uma forma mais amena e sem aquela gratuidade
total que nos tivemos nos tempos áureos”.
Praticamente,
desde o inicio das atividades dessa Escola, a questão da disciplina ficou
a cargo do vice-diretor e depois
diretor João Carlos Bello Lisbôa. Este de acordo com alguns documentos
pesquisados, salientava a necessidade da disciplina tanto para a formação
integral do homem quanto do profissional. Essa afirmativa pode ser demonstrada
textos do Bello Lisbôa no Relatório Anual do Vice-Diretor, relativo ao 2º
semestre de 1927 e do Boletin de Agricultura, Zootecnia e Veterinária (BAZAV) do início de 1928:
“ Mantida com rigor e
baseada na responsabilidade pessoal dos alunos, orientada de modo a se
despertar ou desenvolver em cada um o sentimento do bom proceder por força de
caráter, sem temores e sem constrangimento, evitando a todo transe rebaixar os
alunos, mas elevá-los, combatendo com rigor o fingimento e a hipocrisia, que
tantos males fazem aos internatos, vai dando a disciplina os melhores frutos.
Parece ser esse o único
método de disciplina aconselhável e prático para um internato superior, (...)
devemos continuar a ter disciplina ‘pelo caráter e não pela força’.( LISBÔA,
1927:42-43)
“ Os alunos são
tratados como cidadãos, baseando-se a rigorosa disciplina mantida no
estabelecimento, na responsabilidade pessoal de cada aluno.
Está a Escola seguindo
nova linha de educação, tudo fazendo para desenvolver o caráter de seus alunos
em vez de deprimi-lo.
É preferível educar-se, elevando. Exposto, a
princípio, esse método, muitas
opiniões pessimistas se manifestaram. A sua aplicação prática, porém, demostra
eficiência e grandes vantagens. Não se preocupa a Escola com altos muros,
grades de ferro nas janelas dos dormitórios e outras velharias. Instituiu o
regime de porta aberta, hora certíssima, muito trabalho, alimentação
cientificamente sadia.
Exige muito o estabelecimento o princípio de
honestidade em tudo, proceder bem e obedecer as leis porque a consciência o exige.” (
LISBÔA,1928:13-14)
A questão da disciplina fica
patente também na fala dos entrevistados:
“Aqui já tinha
internato, mas tinha exigência para entrar no internato. Na verdade era muito
exigente o regime no internato era muito
duro. Eu fiquei aqui em Viçosa dois anos morando na cidade porque tinha mais
liberdade.
Quando eu cheguei aqui
[1940 aproximadamente] a coisa já tinha aliviado bastante. No tempo do Bello
Lisbôa a coisa era ainda mais rigorosa, ninguém sabe como aquele homem vigiava
tanto assim, lá no arquivo tinha o regulamento. Nos tínhamos que chegar as 7
horas no alojamento porque as 9 horas tinha a tal sopa da dona Germana. Havia
um conselho de disciplina que era dirigido por um professor e constituído por
um representantes de cada seção do
internato, tal representante era eleito pelos estudantes. O representante tinha
que dizer o que tinha acontecido nos alojamentos, se fulano chegou atrasado, se
fizeram barulho, se cumpriu as normas...Depois de feito isso o professor
chamava o estudante e ameaçava coloca-lo para fora do internato, naquele tempo
o regime era muito rígido, mas não tanto quanto no tempo do Bello Lisbôa”. J.
Marcondes Borges (entrevista, 2001)
“cada seção elegia o
seu representante e havia um diretor de disciplina e se reuniam rapidamente
para avaliar os problemas, se tudo corria bem nos apartamentos, se faltava
alguma coisa, se todo mundo estava estudando, se havia indisciplina. Ninguém
admitiria que uma moça entrasse lá. Isso era coisa que o diretor era
extremamente rigoroso, nem moça, nem ninguém podia entrar, só entrava nos
apartamentos, estudantes”. E. Potsch (entrevista, 2001)
João Maria Bello Lisbôa, referindo-se a
rigidez e a disciplina exigidas por João Carlos Bello Lisbôa [seu pai e na
época diretor da ESAV], afirma que: “apesar de toda dureza, da disciplina, ele
era considerado como segundo pai sabe( ..)é como um pai que dá palmada no bom
sentido”.
No que se refere ao ensino,
a rigidez nos horários e na grade de aulas deveriam ser cumpridas rigidamente.
O ensino ministrado pela ESAV, dava grande importância à parte didática, sobretudo à instrução
prática, rompendo com a nossa tradição
academicista, livresca. A adoção dessa
nova metodologia de ensino, foi bem recebida pelos discentes, como pode ser
constatado no relato do Prof. P. H. Rolfs:
“ Ao iniciar os
trabalhos em Minas, fui seguramente informado por muitos dos ‘leaders’ em
educação que os jovens mineiros não aceitariam a forma americana de instrução
agrícola, que eles teriam vergonha de sujarem as mãos tocando em arados e
máquinas agrícolas. Tenho a máxima satisfação em dizer-vos que é extremamente o
contrário o que se tem dado com os nossos alunos; eles preferem as aulas
práticas nos campos às aulas teóricas.( apud Coelho,1992:216)
O “aprender fazendo” foi também
estimulado em virtude do número reduzido de servidores, o que levou muitos
discentes a manusear as máquinas agrícolas e acompanhar, de uma maneira muito
mais direta e efetiva, o andamento das pesquisas e dos experimentos, exigências
previstas desde o primeiro regulamento dessa Escola[2].
Sobre essa iniciativa de realização de trabalhos experimentais da ESAV, afirma
SILVA (1985:7):
“A partir daí , a
pesquisa tem sido uma constante em seu desenvolvimento e tem concorrido para
soluções práticas de variado problemas. Como exemplo, podem ser citados: a
variedade de arroz “ Agulha-ESAV”, a variedade de feijão preto “ Rico 23”, a
variedade de milho “Opaco-2”, além dos numerosos estudos e soluções para outros
problemas da agropecuária.”
Podemos supor que, a permanência da
cultura de pesquisa e de experimentação, criada desde os primórdios da ESAV,
fizeram com que essa instituição fosse uma das instituições pioneiras na
implantação de programas de pós-graduação stricto sensu no Brasil, em
1961.
Ainda em conformidade com o modelo dos Land Grant Colleges americanos, a
prática extensionista também possui uma forte tradição na UFV, oriunda dos
tempos da ESAV, haja vista que a “Semana do Fazendeiro” vem se realizando
anualmente e sem interrupção, desde 1929. O professor José Marcondes Borges,
que ainda como aluno da ESAV ajudou a organizar várias Semanas do Fazendeiro
rememora:
“A semana do fazendeiro
foi a primeira semana extensionista do
Brasil. Foi a primeira e durante muitos anos a única. Surgiu na época da
direção do Bello Lisbôa. Joaquim Fernandes Braga, e o José Coelho da Silva conversaram
com o Bello Lisbôa e resolveram fazer a Semana do Fazendeiro.
Com o constante aumento
do número de participantes houve a
necessidade de organizá-la melhor. A Universidade sempre deu importância à Semana do Fazendeiro”.
A Iª Semana do Fazendeiro, contou com a participação de 39
agricultores e representou uma iniciativa pioneira, no Brasil, de levar
assistência técnica ao agricultor. A idéia de realização deste evento
surgiu após a visita de um grupo de
agricultores à ESAV, conforme esclarece
NEVES:
“ (...) a inspiração da
criação desta Semana nasceu de uma visita que o Dr. Jacinto Soares de Souza
Lima ( clinico e agricultor do município de Ubá) fez à Escola, em 1928, com um
grupo de agricultores. Ele e os então alunos, assumiram o compromisso de trazer
agricultores à Escola no próximo ano para estágio de alguns dias. ( apud, SILVA
1995: 5)
A orientação seguida por essa atividade de
extensão rural é inspirada na filosofia de suas congêneres norte-americanas,
que são norteadas pelas idéias de:
prestação de serviços, difusão de métodos e técnicas de produção, transferência
de conhecimentos científicos, sistematizados e comprovados.
Podemos dizer, que esses princípios
permanecem balizando a realização dessa atividade de extensão até os dias
atuais, como pode ser atestado no documento de divulgação da 71ª Semana do Fazendeiro, realizada em outubro
de 2000, onde esse evento objetiva:
“...difundir, entre os
participantes, conhecimentos técnicos das diversas áreas de atuação da UFV,
visando à melhoria da produtividade e da produção e ao bem-estar social do
produtor e de sua família. No decorrer da Semana, haverá cursos em diversas
áreas, exposição de máquinas e implementos agrícolas e exposição de
artesanatos. Neste ano estaremos lançando a "Clínica Tecnológica" com
o objetivo de prestar consultoria gratuita, através de especialistas da UFV,
aos participantes em diferentes áreas” (site da UFV/set.2000).
Ao discutir a extensão
universitária na ESAV, no entanto, não podemos nos ater somente a Semana do
Fazendeiro, pois uma série de iniciativas extensionistas já vinham se
desenvolvendo na Escola, a exemplo de suas congêneres americanas. Lima
(1995:65) discutindo o desenvolvimento das atividades de extensão na ESAV considera que: “uma das grandes atrações da
época para o comparecimento de produtores à Escola foi a Exposição de frutas em
1926, com cerca de 600 visitantes”.
E ainda:
“... raramente se passava uma semana sem ser recebida a visita de
um agricultor para fazer um “curso” de um dia, de estudo em Agricultura ou em
alguma especialidade de zootecnia, pomologia, horticultura ou agronomia”.
Além da realização das
atividades de ensino, pesquisa e extensão, a ESAV também conseguiu grande
destaque em sua organização administrativa, uma vez que trouxe algumas
inovações no ensino superior brasileiro, no início da década de 1930, que foram
efêmeras, em virtude das injunções políticas que culminaram com a instituição
do Estado Novo (1937-1945) .
Em 1931 foi publicado o Decreto n.º 10.154, que
aprovou um novo regulamento para a ESAV, que trouxe três importantes
mudanças. A primeira deu autonomia administrativa e financeira à Escola,
constituindo uma junta de nove membros, que ficou responsável pela
administração superior do Estabelecimento. A segunda substituiu a estrutura de distribuição
das disciplinas por “cadeiras” pela constituição de quinze departamentos que passavam a oferecer as “matérias”
lecionadas. A terceira foi a introdução do semestre, como unidade letiva, ao
invés do ano.
Tais inovações estavam
condizentes com o Decreto de 1931 relativo ao Estatuto das Universidades
Brasileiras, que definiu os critérios gerais para a
organização das universidades, sem detalhar o modo de organização das
instituições e sua rotina de ensino.
Contudo, essa “autonomia relativa” durou pouco tempo, uma vez que o
gradativo fortalecimento do governo Vargas, após a revolução de 1930, acarretou
um aumento do controle sobre as universidades, como das demais instituições
sociais, refletindo o intenso processo de radicalização político-ideológica que
culminará no advento do Estado Novo.
Assim, em 1934, esse
controle já começa a se efetivar. Segundo CUNHA (1989: 17-18):
“O governo federal, como que
para delimitar as variações regionais permitidas pelo Estatuto das
Universidades Brasileiras, baixou um decreto regulamentando as formas de
organização das universidades estaduais e privadas que pretendessem
equiparar-se às federais(...) deveriam incluir, em cada curso, como mínimo
todas as matérias obrigatórias do curso correspondente em uma universidade
federal, e também fazer as mesmas exigências nos exames vestibulares, Ter igual
duração e rigor equivalente. A especificação do programa de cada matéria, a
inclusão de matérias novas e sua distribuição pelos anos de curso permaneciam
como competência das universidades equiparadas.(...) Toda essa regulamentação
não eximia as universidades estaduais e privadas da necessidade de submeter
seus estatutos ao Ministério da Educação, que ouviria o parecer do conselho
Nacional de Educação, o que também faria no caso de proposição de cassação
definitiva da equiparação.”
No caso do ensino de
Agronomia e Veterinária, a normatização legal detalhada baseou-se nos
estabelecimentos-padrão, constituídos pela Escola Nacional de Agricultura e
pela Escola Nacional de Veterinária, ambas criadas no Rio de Janeiro, em 1934,
que trouxeram grandes transtornos para muitas Escolas que vinham funcionando
normalmente. A rigidez do controle sobre o ensino superior foi acentuado ainda
mais durante a vigência do Estado Novo.
Nesse contexto, a ESAV foi a
única Escola superior de agricultura e/ou veterinária mineira, criada nos anos
de 1910 e 1920, a “sobreviver” ao
Decreto n.º 23.979 de março de 1934 e ao Decreto-Lei n.º 933 de dezembro 1938[3],
aplicados pela equipe de inspetores da ex-DEA (Diretoria do Ensino Agronômico),
a SEAV (Superintendência do Ensino Agrícola e Veterinário) do Ministério da
Agricultura, que segundo CAPDEVILLE
(1991: 80):
“marcaram um período
excepcionalmente raro na história da Educação Brasileira, que foi o do
fechamento de várias Escolas e cursos, alguns com muitos anos de funcionamento
e fortíssimo respaldo político, fato peregrino, raríssimo mesmo, que
praticamente não mais se viu desde então. Os nomes dos funcionários da ex-DEA,
a SEAV.... faziam tremer os pórticos das Escolas de Agronomia e Veterinária da época.”
Contudo, vale também
ressaltar que a ESAV não passou incólume às mudanças, tendo em vista que a
Escola perdeu sua autonomia com a Lei
Estadual n.º 146 de novembro de 1936, ficando subordinada à Secretaria de Agricultura, Indústria, Comércio e
Trabalho. Além disso, em 1942, ela foi desmembrada na Escola Superior de
Agricultura do Estado de Minas Gerais, que permaneceu em Viçosa, e na Escola
Superior de Veterinária do Estado de Minas Gerais, que foi transferida para
Belo Horizonte, em função do Decreto-Lei n.º 824, de janeiro de 1942.
Nesse sentido, parece-nos
que a adoção do modelo do ensino superior norte-americano, baseado nos moldes
dos Land-Grant Colleges americanos, contribuiu para a permanência da
ESAV, mesmo que desmembrada.
Em função dos problemas levantados no
processo de criação/constituição da ESAV,
este trabalho tem como objetivos:
·
Investigar o
contexto histórico do período em que ocorreu a criação da Escola Superior de
Agricultura e Veterinária (ESAV), atual Universidade Federal de Viçosa;
·
Analisar a filosofia educacional desta instituição;
·
Identificar
os principais objetivos e finalidades da criação da ESAV;
·
Conhecer como
se deu o processo de consolidação desta instituição;
·
Apontar a
contribuição educacional da ESAV para o Estado de Minas Gerais e para o Brasil.
Essa pesquisa está calcada numa abordagem
de investigação qualitativa, que segundo
BOGDAN E BIKLEN (1982) “envolve a obtenção de dados descritivos, obtidos
no contato direto do pesquisador com a situação estudada, enfatiza mais o
processo do que o produto e se preocupa em retratar a perspectiva dos
participantes” (apud: ANDRÉ e LÜDKE, 1986: 13).
A
abordagem da investigação qualitativa pressupõe “que o mundo seja examinado com a idéia de
que nada é trivial, que tudo tem potencial para constituir uma pista que nos
permita estabelecer uma compreensão mais esclarecedora do nosso objecto de
estudo” ( ALVAREZ et alli, 1994:49).
São esses princípios de abordagem e método que estão balizando esse trabalho.
Para analisar as questões centrais e
atender aos objetivos aqui colocados, foram utilizados, como procedimentos
metodológicos a análise das fontes
secundárias (livros, revistas, jornais) sobre o período histórico em
foco e o levantamento das fontes primárias escritas do Arquivo Central da UFV
(documentos históricos- correspondências, atas, ofícios, processos, discursos,
etc.).
O uso das fontes secundárias constitui-se
num instrumento importante, que favorece a apreensão do conhecimento já produzido
sobre o contexto histórico mais amplo e sobre os acontecimentos singulares
ocorridos na instituição. No entanto, a investigação e a leitura dessas fontes
devem estar baseadas numa interrogação problematizadora dessas realidades
descritas e/ou analisadas.
Nesse sentido, o levantamento e
leitura das fontes secundárias
destinou-se a promover um maior esclarecimento do contexto histórico brasileiro
e mineiro das décadas de 1920 a 1930, para que compreendamos o problema em sua
plenitude, como um fenômeno socio-histórico pois reflete em si, os
interesses políticos e econômicos de um tempo e de uma sociedade.
A entrevista foi
enquanto um recurso de análise nessa pesquisa, na medida em que o procedimento utilizado para o resgate da
história de um período ou de uma instituição, baseando-se apenas nas
fontes documentais e na descrição dos
fatos registrados em momentos históricos anteriores, faz com que o pesquisador
corra o risco de aderir a interpretações tendenciosas e parciais, uma vez que
os documentos, assim como os registros de determinados fatos históricos, possam
ter sido encomendados e modelados, conforme a imagem que os sujeitos daquele
momento histórico vivido pretendam
perpetuar.
Assim, foram
entrevistados quatro figuras que viciaram algum momento da ESAV, no caso os
senhores: José Marcondes Borges, ex-aluno e professor aposentado autor e
organizador de alguns livros que buscam estudar a história da UFV. Edson Potsch
Magalhães, ex-aluno, reitor e professor aposentado. Walter Brune, ex-aluno e
professor aposentado e o senhor João Maria Bello Lisbôa filho do segundo
diretor da ESAV, João Carlos Bello Lisbôa.
Quando analisamos a história da Escola Superior de
Agricultura e Veterinária – ESAV , hoje
consolidada enquanto Universidade Federal de Viçosa – UFV, percebemos a importância e a relevância do
entendimento do contexto de desenvolvimento do capitalismo no mundo,
no geral, e o contexto histórico brasileiro e mineiro em particular, nos quais a ESAV surge e se constitui
enquanto um modelo “impar” de Escola,
isto porque um fato histórico não pode ser recortado e isolado do seu momento
histórico, da sua época, dos seus desdobramentos.
Nesse
sentido, tivemos a preocupação de não reduzir o rico contexto histórico de
criação, implantação e consolidação da
ESAV, à vontade de homens públicos ou fatos estanques, o que nos levaria a
perder de vista, a concepção histórico-social da condição humana.
Compreendemos que a criação da ESAV
representou parte de um entre outras coisa, uma estratégia para “acelerar” o
desenvolvimento agrícola do Estado de Minas Gerais, tendo em vista suplantar a
liderança ocupada por São Paulo, na economia brasileira.
É
possível identificar a emergência do ideário de uma Escola redentora, que
promoveria o incremento, a transformação das práticas agropecuárias em Minas
Gerais. Esse discurso entusiástico fica
explícito em diversos momentos, como no estabelecimento dos objetivos da ESAV,
no modelo de Escola agrícola adotado (
Land-Grant Colleges), na ênfase dada ao ensino das ciências aplicadas, à
experimentação e às atividades de extensão, enquanto forma de socialização da
produção técnica e científica obtidas.
A materialidade desse ideário pode ser detectado em
diversos artigos publicados nas revistas Seiva
e Ceres - a primeira de responsabilidade dos discentes, e a segunda dos
docentes -, nos relatórios anuais da Direção e do corpo docente da ESAV, bem
como em documentos e correspondências diversas.
Por outro lado, fica patente o conceito rapidamente
conquistado e desfrutado pela ESAV, uma vez que foi uma das poucas Escolas
agrícolas a permanecer funcionando diante da severa fiscalização imposta pelas
Inspetorias de Ensino Agrícola e Veterinário, em vigor durante a Era Vargas
(1930-1945).
Podemos considerar que a sobrevida da Escola Superior de
Agricultura e Veterinária está intimamente ligada a forma como esta Escola se
diferenciou das demais de sua época. Nesse sentido, é possível identificar na
ESAV uma série de aspectos impares que vão pouco a pouco consolidando o
prestígio que essa instituição desfrutará nas décadas de 1930 e 1930.
Nesse sentido que salientamos a importância do espirito
esaviano, de “bem servir, de se orgulhar-se da ESAV, de disciplina...” que ainda hoje é expresso na memória de
ex-alunos, as atividades pioneiras de extensão, que são referências históricas
no Estado de Minas Gerais e no Brasil, haja vista que a semana do fazendeiro é
considerada a primeira atividade de extensão do país, a ruptura com o modelo de
ensino superior europeu e a indissociabilidade entre ensino-pesquisa-extensão
já naquela época.
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[1] Quanto à criação das Escolas Agrícolas em Minas Gerais, Capdeville (1991:78-86) também relata que, em 1896, foi inaugurada pelos salesianos, o Curso agronômico das escolas D. Bosco de Cachoeira do Campo e, em 1908, a Escola Agrícola de Lavras, por missionários norte-americanos, que em 1950, transformou-se na Escola Superior de Agricultura de Lavras.
[2] Ver Decreto nº 7323 de 25 de agosto de 1926.
[3] Ambos Decretos regulam o funcionamento dos cursos
superiores do Ensino agrícola e veterinário. Conforme Capdeville (1991: 80-85),
as últimas turmas formadas nessas escolas foram: Escola de Agronomia e Medicina
Veterinária de Belo Horizonte , em 1940; a Faculdade de Medicina Veterinária de
Pouso Alegre, em 1937; a Escola de Agronomia e Pecuária de Passa Quatro, em
1938; e a Faculdade de Veterinária de Juiz de Fora, em 1940.