OFÍCIO
DO PROFESSOR: NEGOCIAÇÃO DOS SABERES E FAZERES DOCENTES NOS ESPAÇOS DE FORMAÇÃO
– 1871-1889
NASCIMENTO, CECÍLIA VIEIRA DO (bolsista de Iniciação
Científica-FAPEMIG)[1]
GOUVÊA,
MARIA CRISTINA SOARES DE (Orientadora)2
Este
trabalho é decorrente de uma recente sistematização em torno da questão da
história da profissão docente e insere-se nas consistentes pesquisas integradas
em andamento intituladas “Escolarização, culturas e práticas escolares sobre a
instituição do campo pedagógico em Minas Gerais – 1820/1950” e “Guia de Fontes
para a História da Educação”, que vem investigando a constituição e
consolidação do campo pedagógico em Minas ao longo do século XIX.3
Pretende-se,
com esta pesquisa, analisar e compreender o processo de formação e
profissionalização do magistério no interior das Escolas Normais mineiras, constituída como espaço privilegiado de
transmissão do saber docente, a partir de fontes primárias (correspondências,
atas, ofícios e provas escritas a que eram submetidos seus alunos) documentos
que encontram-se no Arquivo Público Mineiro, no fundo de Instrução Pública.
Investiga-se as estratégias de apropriação dos modelos de formação e
profissionalização do magistério utilizadas pelos(as) alunos(as), no interior
desta escola. Compreende-se tais alunos(as) como sujeitos históricos que em sua
prática cotidiana negociavam e reivindicavam os saberes transmitidos no
interior dessas instituições. O recorte histórico da pesquisa situa-se entre
1871, ano em que a Escola Normal de Ouro Preto é reinaugurada e a Proclamação
da República, quando a instrução pública é reordenada.
A fundação da primeira
Escola Normal da província, em 1839 em Ouro Preto, de acordo com o previsto
pela Lei nº 13, de 1835, marca a busca
governamental de profissionalizar o corpo docente, regulando a ação
pedagógica, unificando práticas, tanto para formação de novos(as)
professores(as), como para o aperfeiçoamento dos(as) antigos(as). As escolas
normais eram os locais autorizados para a difusão de um tipo de conhecimento
normatizado que deveria caracterizar o “novo” professor primário,
distinguindo-o de seus antecedentes “os mestres-escolas”. Esses mestres davam
aulas particulares, com formas domésticas de ensino, e que, segundo ARROYO
(1985), era mais um mestre “... de dedicação do que de competência.”(p. 23).
Sob a ação do Estado, os mestres pouco instruídos do início do século XlX ,
deveriam ceder lugar a profissionais formados, preparados para a atividade
docente.
Na tentativa de
conformação da profissão docente, o Estado institui mecanismos como por
exemplo, a seleção pelos concursos e o controle pelos mecanismos de inspeção e
vigilância. Estes irão contribuir para
um redirecionamento no conceito de “profissionalização”.4
Por outro lado, nos alertamos para o que dizia
ARROYO, de que “... a configuração histórica do profissional do ensino
não foi feita em uma, duas ou mais reformas, leis ou decretos, ainda está em
construção.” (p.05)
A adesão dos(as)
professores(as) a esse processo de estatização e homogeneização docente não
ocorreu sem contradições. Se de lado estão submetidos(as) a um controle
ideológico, de outro têm meios de produzir um discurso próprio e de se
organizar como categoria profissional. Internamente, enquanto alunos(as) das
escolas normais, os(as) professores(as) em formação utilizavam-se de
estratégias e negociações diárias que demonstravam sua condição de sujeito
desse processo, seja através do abandono da profissão, seja através da negação
de algumas determinações.
Um dos aspectos
privilegiados na análise do processo de profissionalização docente é o estudo
dos mecanismos de seleção. Segundo FRAGO (95), o processo de seleção dos(as)
professores(as) é um aspecto essencial para se entender o de profissionalização
docente, e para fazer a história da docência como profissão.
No processo de seleção para
matrícula na Escola Normal eram exigidos documentos que comprovassem a conduta
moral, civil e religiosa do(a) candidato(a), havendo uma preocupação que
extrapolava a formação pedagógica-metodológica, mas que centrasse, em grande
parte, na idoneidade moral e religiosa da(a) professor(a). Essa preocupação com
sua virtude é interpretada por ARROYO (1985) como sendo uma conseqüência de um
Estado ausente, em que a lógica do governo é suprir sua omissão pelo amor do
professor. Porém, essa omissão está na dimensão da ausência de recursos
financeiros, necessários para cobrir gastos básicos, como os de aluguel dos
estabelecimentos de ensino, compra de material didáticos e pagamento de
ordenados dos(as) professores(as).
Nos
exames finais, que dariam a permissão para a ocupação de cadeiras, a seleção
buscava ser cada vez mais rigorosa, sendo que a Inspetoria Geral exigia das
escolas que fossem mais criteriosas nesses exames, assim como indica a
correspondência enviada pelo Inspetor Geral da Província ao Diretor da Escola
Normal de Campanha:
“
tendo sido benévolos os últimos concursos processados nas Escolas Normais para
o provimento das cadeiras de instrução primária, o que se tem verificado pelas
provas escritas dos candidatos, das quaes muitas sendo realmente péssimas,
mereceram ser classificadas bôas, e não convindo aos interesses da instrução pública que sejam nomeadas para
o magistério pessoas inaptas, solicito do reconhecido patriotismo de Vossa
Senhoria todos os esforços possíveis para que d’ora avante sejam os concursos
actos sérios em que se possam apurar as habilitações dos candidatos que
estiverem na altura de exercer o
magistério.”5
Entretanto, pode-se observar que um
número considerável de alunos(as) faltava a esses exames, fato intrigante, uma
vez que estes representam a etapa final de um período de três anos de formação
nas escolas.
O(a) professor(a) não
aceitava passivamente as intervenções externas vindas, principalmente por parte
do Estado que representavam, muitas vezes, em tensas relações. O(A) trabalhador(a)
do ensino vivia o confronto de descobrir-se explorado, com baixas remunerações,
instabilidade de contratos e na gradativa perda de controle do processo
educativo, cada vez mais centrada nos aparelhos burocratizados do Estado.A
proscrição dos castigos corporais, feita em 1867, que representou um recurso
disciplinar utilizado durante muito tempo, não foi aceita sem reações. Um
professor da província de Ouro Preto negou-se a aceitar esta ordenação, sendo
que, quando descoberto, foi advertido pelo inspetor geral da instrução pública.
Em outra situação, um grupo de professores fez um pedido à direção da escola para que adiassem a data de realização
dos exames finais, uma vez que consideravam-se despreparados para tais. Além
disso, o abandono do magistério era elevado, havendo registro de muitos(as)
professores(as) que prestavam exames para outras carreiras, principalmente na
área jurídica, renunciando seu cargo ou simplesmente abandonando sua aula.
Sendo em ações individuais ou em grupos, os(as) professores(as) reagiam à
tentativa de uniformização das práticas pedagógicas.
EM BUSCA DA EFETIVAÇÃO DO
DIREITO
Apesar da legislação
educacional prever férias remuneradas aos(às) professores(as), esta questão
pode ser apontada como um ponto conflituoso. É comum encontrarmos nos registros
das escolas normais pedidos de férias, onde os(as) professores(as) reclamam e
até imploram o direito pelo descanso.
Nos escritos de Ina Von Binzer, uma educadora alemã que trabalhou no Brasil na década de 60 do século
XIX, podemos perceber estas aflições:
“Eles querem engolir cultura às colheradas e nunca têm uma tarde livre, um dia
desocupado, nem muito menos uma semana de férias durante todo o ano”(p.31).
Ao descrever, através de
carta para uma amiga alemã, a distribuição de suas atividades diárias, Ina
reclama a falta de tempo para o descanso. Isto pode ser observado com muita
freqüência nos documentos contidos no arquivo, onde é significativo o número de
reclamações que, em alguns casos, tornam-se abandono das aulas com
justificativa na incapacidade física e mental. O processo turbulento de
implantação da cultura do descanso e das férias docentes pode ser percebido em
muitos municípios da província mineira.
À época, alguns(mas)
professores(as) eram convocados(as), durante as férias escolares, para
participarem de bancas examinadoras, nos exames finais dos(as) alunos(as)
matriculados(as) nos estabelecimentos escolares, inclusive nos dias
santificados. Os(As) professores(as) que faltavam a esses compromissos
justificavam-se tentando comprovar seu gozo por férias:
“...pedindo e obtendo a palavra fez diversas considerações no sentido
de provar que, estando em goso de férias, não poderia comparecer aos exames
marcados...”, ”...encontrava-se disfrutando as ferias, unico refugio dos
Professores.”6
Essas justificativas e
outras discussões gerais sobre o dia-a-dia da escola eram feitas no interior da
Congregação de Professores(as), onde havia um ambiente de ricas discussões
sobre o regimento interno do estabelecimento, assim como questões
disciplinares, os compêndios das
matéria (onde os(as) professores(as) expunham, uns aos outros, seus programas
das disciplinas) e os métodos e técnicas de ensino. A Congregação representava
uma importante forma de organização docente e, nesse sentido, demonstrava um
espaço de certa autonomia dos(as) professores(as).
Na tentativa de regulamentar
o tempo escolar, o lente, palavra comumente utilizada no período, designando o professor,
utilizava-se da condição de
representante dos alunos, servindo como mediador entre os anseios destes e o
Estado. Essa posição intermediária pode ser interpretada como uma estratégia de
veiculação de suas próprias ambições. Na passagem abaixo, podemos perceber essa
questão: “Foi porém diminuto o numero dos que compareceu (...) o que
atrubûo a ser tempo de ferias, o que induz alguns alumnos a ausentar-se.”7 Os(As) professores(as) detectavam
os inconvenientes da lei e propunham mudanças no regulamento, como na passagem
abaixo, do professor João Maria Martins, da cidade de Mariana, ao Presidente da
Província, onde dizia:
“ Tendo de se principiar as férias para os Alumnos da Aula, que rejo no
primeiro de dezembro, e sendo incompatível o exame pelo Natal, pela razão de alguns se ausentarem desta vila a ter as ferias no regaço de sua familia, e sendo estilo em
todas as Aulas de fazerem os exames ou no fim do anno literário e nunca no meio
das ferias, ou no principio destas, eu tenho a honra, na qualidade de Professor
Publico de Filozofia e Rethorica de dirigir este a V. Exª se digne marcar ou o
ultimo dia de novembro ou o primeiro de dezembro, para exame dos Alumnos de
Filozofia, ou aquelle que for de razão e de justiça. ”8
Poderíamos trazer vários
documentos que evidenciam, com riqueza dos escritos da época, a constância em
que a questão das férias aparece nos relatórios. Através dessas reivindicações,
conseguiam, mesmo que com estratégias pontuais, legitimar uma nova prática,
onde alguns professores passavam a submeter
seus alunos(as) aos exames logo após o término das aulas, fazendo com
que, tanto alunos(as), quanto examinadores (em sua maioria professores) e o
Delegado do Círculo Literário, tivessem o direito à férias integrais, sem interrupções para a avaliação
dos alunos(as).
Assim, percebemos que
o processo de profissionalização docente se dá com muitos embates e, está
centrado, muitas vezes, na negociação dos professores(as), na vivência diária
de sua prática, fazendo do ambiente escolar, um espaço de confronto político,
onde a categoria docente se forma enquanto categoria profissional.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ARROYO, Miguel González- Mestre, Educador, Trabalhador: organização
do trabalho e profissionalização. Belo Horizonte: UFMG, 1985.
____ Antônio Vinão Frago. Historia de la educatión e historia
cultural: posibilidades, problemas, cuestiones. Faculdad de Educacion,
Universidad de Murcia. Revista Brasileira de Educação. Set/Out/Nov/Dez 1995, nº
0.
___ A escola elementar do século XlX. O método monitorial/mútuo. Maria
Helena BASTOS e Luciano Mendes FARIA
FILHO.
___ Historiografia da educação e fontes. Clarice Nunes de OLIVEIRA e
Marta Maria Chagas de CARVALHO.
ALMEIDA, Cybele Crossetti de. O magistério feminino laico no século XIX: uma abordagem histórico-filosófica/ Cybele Crossetti de Almeida – Porto Alegre: UFRGS, 1991. Dissertação de mestrado pela UFRGS.
BURKE, Peter. A escrita da História: novas perspectivas.
Peter Burke (org); tradução de Magda Lopes. – São Paulo: Editora da
Universidade Estadual Paulista, 1992.
BINZER, Ina Von. Os Meus Romanos: alegrias e tristezas de uma educadora alemã no Brasil;
tradução de Alice Rossi e Luisita da Gama Cerqueira. – 6ª edição bilingüe. Rio
de Janeiro: Paz e Terra, 1994.
DUARTE, Regina Horta. Noites
Circenses: espetáculos de Circo e Teatro em Minas Gerais no século XIX. Campinas,
SP. Editora UNICAMP, 1995, 279. P.
____ Maria Cristina Gouveia. Formação docente na Escola Normal de Ouro
Preto (1850-1890). Belo Horizonte, 2000.
MOURÃO, Paulo krüger Corrêa.
O Ensino em Minas Gerais no Tempo do
Império. Edição do Centro Regional de Pesquisas Educacionais. 1959.
PRIORI, Mary Del. História
do cotidiano e História da vida privada. In: Domínios da História. Ensaios de teorias e metodologias. Ciro
Flamarion CARDOSO e Ronaldo VAINFAS (orgs.). 5ª edição. RJ: Campus.
1997:259,274
VAINFAS, Ronaldo. História
das mentalidades e História cultural. In: Domínios
da História. Ensaios de teorias e metodologias. Ciro Flamarion CARDOSO e
Ronaldo VAINFAS (orgs.). 5ª edição. RJ: Campus. 1997:127/162
____ 500 anos de educação no Brasil- Instrução Elementar no século XlX.
Luciano Mendes FARIA FILHO. Editora Autêntica. Belo Horizonte. 2000: 135/149.
____ 500 anos de educação no Brasil- O mestre-escola e a professora.
Heloísa de O. VILLELA. Editora Autêntica. Belo Horizonte. 2000: 95/133.
[1]- Aluna da graduação da Faculdade de Educação da UFMG.
2- Professora Doutora do Departamento de Ciências Aplicadas à Educação da Faculdade de Educação/UFMG
3- Estas pesquisas são do Grupo de História da Educação da FaE/UFMG, coordenadas pelos professores Cynthia Greive Veiga, Luciano Mendes de Faria Filho e Maria Cristina Soares de Gouvêa.
4 Ver: Maria Cristina Soares de Gouvêa, 2000.
5 (IP2/1 Cx.01-30/05/1887)
6 IP 118,17 de Novembro de 1894.
7 SP, PP 1/42, Cx. 04- 12 de janeiro de 1.886
8 SP, PP
1/42, Cx. 04, de 08 de Dezembro de 1885