CLCA 07

LINCOLN DE SOUZA: LEITOR CRÍTICO DE SI MESMO – ENTRE A CRIAÇÃO E A REESCRITA

JOSÉ SEVERIANO DE REZENDE – A ESCRITA COMO CONDENAÇÃO

FONTES PRIMÁRIAS: BASTIDORES DA MEMÓRIA CULTURAL


LINCOLN DE SOUZA: LEITOR CRÍTICO DE SI MESMO – ENTRE A CRIAÇÃO E A REESCRITA

Jaqueline Menezes Farias1
Eliana da Conceição Tolentino2

O trabalho de fontes primárias tem como objetivo entre outros, o resgate de produções culturais às vezes esquecidas, desconhecidas ou mesmo adormecidas nas estantes das bibliotecas ou em acervos particulares.

Mesmo desprezada por alguns como trabalho menor, a ida às fontes primárias pode ser elemento essencial para redefinir concepções já estabelecidas ou para estabelecer novas. “Historiografia do cotidiano”, “trabalho de formiga” construindo dia após dia o objeto de pesquisa, é este tipo de estudo lente que permite ver na produção final do romance, do poema, do conto um palimpsesto de inúmeras outras escritas. (CURY: 1998, p 25)

Inserido na linha de pesquisa de fontes primárias e levando em conta os pressupostos acima, este trabalho pretende, primeiramente, resgatar a obra poética do escritor Lincoln de Souza (1894-1969) que teve uma produção intelectual tanto poética quanto crítica e jornalística de fôlego.Quando morou em Belo Horizonte, manteve ligações com o grupo modernista mineiro e foi amigo intelectual de Carlos Drummond de Andrade, com quem trocou correspondências.

Num segundo momento, procurou-se rastrear as rasuras e as repetições, bem como as substituições em alguns poemas do escritor numa tentativa de flagrar Lincoln de Souza enquanto leitor de sua própria obra, numa reescritura constante, em busca da palavra poética. Segundo Conde,

o rascunho ou “versões” de um mesmo texto possibilitam a eliminação, o acréscimo, a substituição de palavras, expressões idéias, assim como a verificação da incoerência dos fatos ou dos elementos que, no primeiro momento, possam passar despercebidos. Neste sentido, o rascunho é aberto, pois descortina um universo que permite ao leitor/escritor dar um rumo à sua história, (re) construindo o seu texto. (CONDE: 1995, p 07)

Para a realização deste trabalho foram contemplados apenas os livros que se encontram disponíveis na Biblioteca Municipal Baptista Caetano de Almeida de São João del-Rei. Assim, destacamos: Versos Tristes (1919), Berceuse (2ª ed. 1946), Lenita(1947) e Poemas 1ª e 2ª edições.

Ao iniciarmos a pesquisa, pudemos verificar que substituir, acrescentar, cortar, deslocar palavras, aproveitar títulos de poemas em outros livros, são operações constantes utilizadas pelo escritor Lincoln de Souza. A cada nova edição, o poeta modificava os seus poemas. Retirando ou inserindo novas palavras ou trocando-as por seus sinônimos, Lincoln criava e recriava, deixando em destaque seu autocontrole, seu trabalho paciente, metódico e organizado. De acordo com Philippe Willemart (1993), a arte exige tempo do escritor e dedicação do crítico, uma vez que, através do estudo de seus rascunhos, se pode chegar à conclusão de que os escritores não escreviam de ímpeto e apenas sob a inspiração de uma musa, mas sim através de muito trabalho com a palavra.

Desempenhando um papel triplo de escritor/leitor/crítico, através de trocas, substituições e aproveitamentos, Lincoln de Souza desenvolveu um trabalho minucioso na busca da exatidão, na procura de palavras e ritmos que melhor expressassem aquilo que se queria. Através desse processo de construção de seus poemas, deixa-se flagrar não só a sua luta incansável com as palavras mas também o leitor crítico que, a cada leitura, denuncia a insatisfação do escritor e seu amadurecimento que vai sendo delineado e definido através da linguagem.

Para Roland Barthes:

Um segundo princípio, particularmente importante no que diz respeito à literatura, é que a linguagem não pode ser considerada como um simples instrumento, utilitário ou decorativo, do pensamento. O homem não preexiste à linguagem, nem filogeneticamente nem ontogeneticamente. Jamais atingimos um estado em que o homem estivesse separado da linguagem, que elaboraria então para“ exprimir” o que nele se passasse: é a linguagem que ensina a definição do homem, não o contrário. (BARTHES, 1998, p 31-32)

As muitas modificações feitas pelo poeta não só aparecem no corpo dos poemas como também, nos livros e nas suas reedições. É bastante comum o poeta fazer acréscimos, retiradas ou reuniões de poemas de outros livros em apenas um. Como por exemplo no livro Poemas, 1ª edição datada de 1952, publicado junto a Lenita, edição completamente diferente de Lenita publicado junto a Berceuse (2ª ed. 1946) e do livro Lenita publicado com Poemas (2ª ed. 1957). Lincoln, na introdução de Poemas (1ª ed. 1952), nos da um breve esclarecimento sobre as modificações ocorridas em alguns de seus poemas e esclarece também que parte desse livro é formado de poemas que se encontram em Versos Tristes, Para os teus olhos e Berceuse, e, exceto um, todos os outros de Lenita, acrescido de grande número de poemas compostos após a sua primeira publicação, em agosto de 1947.

Diz Lincoln:

Eu havia deliberado, por várias razões, não mais cuidar de livros de poesias, o que não importava, entretanto, em afastar-me do suave convívio das Musas. Muitos poemas, porém, de minha lavra, insertos em obras anteriores, que não me desagradavam e pediam modificações, despertaram-me o desejo de torná-los mais apresentáveis, dando-lhes a forma definitiva. Feito isso, e juntando-os a outros divulgados apenas em jornais e revistas, pensei em publicar um volume com o título genérico de POEMAS. (SOUZA, 1952)

Saber como ocorreram a seleção e a escolha de poemas para a reedição é uma tarefa que requer tempo. O que sabemos é que o poeta tinha por hábito publicar quase todos os seus livros em pares, ou por economia ou mesmo para “pegar uma carona”. Fato curioso também é que ele sempre mudava algo cada vez que os reeditava. Às vezes acrescentava ou retirava sinais de pontuação, aparentemente pequenos detalhes, como ocorre em o poema Tu nunca saberás, do livro Lenita publicado junto com Berceuse em 1946, em que o poeta retirou o sinal de exclamação e as reticências do título ao reeditá-lo na 1ª edição de Poemas em 1952. Um outro livro que também foi publicado em conjunto é o Jardins de Ouro e Névoa, (2ª edição em 1947) reeditado em 1948 com a 1ª edição de Flores Mortas.

Citaremos aqui seis poemas dos livros selecionados utilizando, de início, o primeiro livro de poesias do poeta, Versos Tristes, publicado em 1919. Nele fazem-se presentes algumas anotações feitas na margem de dois poemas em que o próprio poeta esclarece as modificações e aproveitamentos que ele fez. Composto por onze poemas, Versos Tristes, além de nos dar uma visão das produções da mocidade de Lincoln, pois o poeta tinha na época da publicação 25 anos, podem também ser um fio condutor para a compreensão de seus poemas posteriores.

Névoas, poema composto por quatro quadras, ao ser reeditado na 2ª edição do livro Poemas, em 1957, teve grandes alterações. Na margem deste poema Lincoln escreveu:

Este poema foi reeditado, com modificações, na segunda edição de “Berceuse”.

Este poema, entretanto, não consta na segunda edição de Berceuse, ele aparece na segunda edição do livro Poemas (1957). É como se o poeta Lincoln de Souza tivesse aproveitado apenas algumas palavras e composto, a partir delas, um novo poema. Vejamos:

VERSOS TRISTES (1919)

POEMAS (2ª ed. 1957)

Névoas

Nevoeiro... Dia morto... almas penadas...

Descem névoas às frondes em inação,

Névoas descem à flor de águas paradas

E descem névoas ao meu coração...

Pois quando a névoa vem, sutil, algente,

Descendo sobre as coisas hiemaes,

Ela me acorda, dolorosamente,

Certas lembranças que me são fatais...

Nevoeiro... Dia morto... Nostalgia

Pela terra, no céu...em mim também...

Quanta tristeza, que melancolia

Espalha a névoa por aí além!...

Névoas

Que tarde triste e sonolenta!

Lá fora, muita névoa e solidão...

Cá dentro, uma outra névoa, lenta e lenta,

Enche de sombras o meu coração...

Tudo em torno parado... Nostalgia

Pela terra, no mar, no céu também...

__Que tédio imenso, que melancolia

espalha a névoa por aí além!...

e ante a paisagem cheia de abandono,

lembrando alguém que a muito me esqueceu,

sinto a vertigem desse eterno sono

que todos temem... Todos, menos eu!

Que tortura a lembrança!... Nunca! Jamais...

voltam, de saudade e “spleen”!

.....................................................................

e a névoa aumenta, cada instante mais,

pela terra, no céu... dentro de mim...

Devido à existência de dois livros Poemas, sendo respectivamente referentes à primeira e segunda edições, doravante, ao referirmos a estes livros, usaremos Poemas 1 para a primeira edição e Poemas 2 para a segunda.

Outro poema que também foi modificado pelo poeta é o soneto Castelo em ruínas, que aparece em Berceuse (2ª ed. 1946) em Poemas 1 com o título, também modificado, Castelos de areia.

VERSOS TRISTES (1919)

BERCEUSE (2ª ed. 1946)

“Castelo em ruínas”

Eu teci um castelo, ingenuamente,

À doce luz do teu celeste olhar;

Não castelo de poeta, alto e luzente,

Todo esmeraldas, de maravilhar.

O meu castelo azul de adolescente

Era, além deste rude tumultuar,

__Tu, meus livros, o teu piano dolente

e uma vivenda florea diante do mar...

Mas buscou teu olhar, lindo e envolvente,

Alguém... E eu vi, aos poucos, se apagar

E desfazer-se, infortunadamente,

Como um fumo sutil que some no ar,

A minha construção resplandecente,

Meu castelo de amor à beira-mar!

“Castelos de areia”

Levantei um castelo ingenuamente

À doce luz do teu celeste olhar.

Não castelo de poeta, alto e imponente,

Todo esmeraldas, de um fulgor sem par!...

O castelo que ergui tão suavemente

Era __ além deste rude tumultuar__

Tu, meus livros, o teu piano fremente

E uma alegre vivenda em frente ao mar...

Mas, uma tarde, o teu olhar dormente

Fugiu-me... E eu vi, em sangue, se apagar

E desfazer-se, repentinamente,

Como um divino sonho ao despertar,

A minha construção resplandecente,

Meu castelo de areia à beira-mar...

POEMAS (1ª edição 1952)

“Castelos de areia”

Levantei um castelo ingenuamente

À doce luz do teu celeste olhar.

Não castelo de poeta, alto e imponente,

Todo esmeraldas, de um fulgor sem par!...

O castelo que ergui tão suavemente

Muito além deste rude tumultuar__

Eras tu, eram o teu piano fremente

E uma alegre vivenda em frente ao mar...

Mas, uma tarde, o teu olhar dormente

Fugiu-me... E eu vi, em sangue, se apagar

E desfazer-se, repentinamente,

Como um divino sonho ao despertar,

A minha construção resplandecente,

Meu castelo de areia à beira-mar...

Outro poema rico em modificações é Saudade que aparece em cinco livros de Lincoln de Souza: Berceuse, Poemas (1952), Poemas (1957) Cantigas do meu crepúsculo (1965) e Poemas de minha ternura (1966). Porém, se em Berceuse e nas duas edições de Poemas trata-se do mesmo poema, ao contrário, em Cantigas do meu crepúsculo e Poemas de minha ternura, só o título coincide. O tema deste dois últimos também é a saudade mas seu conteúdo é completamente diferente dos poemas de Berceuse e Poemas. O poema que aparece em Poemas de minha ternura é composto de cinco estrofes e no de Cantigas do meu crepúsculo, que é um livro de trovas e quadras, o poema vem formado por cinco quadras.

De Berceuse para Poemas 1, percebemos que ocorreram algumas modificações. Saudade aparece reeditado em Poemas com uma estrofe a menos e com pequenas modificações nas outras estrofes. O poeta trocou o quarto verso da segunda estrofe Na tristeza de um sol-por..., por À tristeza de um sol-por...; na quarta estrofe eliminou os verbos de ligação dos dois primeiros versos e mudou a pontuação. De: “saudade é ânsia infinita./ É treva e luz, bem e mal.” (Berceuse, p 41), passou para “Saudade __ânsia infinita./Luz e trevas. Bem e mal.” (Poemas, p 21).

Nas outras estrofes, com exceção da primeira, terceira e última que o poeta não modificou, aparecem somente pequenas alterações como acréscimos e retiradas de alguns sinais de pontuação.Da primeira edição de Poemas para a sua segunda, em 1957, o poema Saudade perde mais uma estrofe e tem a quarta trocada com a oitava. De Berceuse para Poemas 1 o poeta eliminou a seguinte estrofe:

“Saudade...um olhar que implora

__Olhar distante e profundo...

(Onde é que ele fulge agora?

Em que recanto do mundo?...

(Berceuse, p 41)

De Poemas 1 (1952) para Poemas 2 (1957) o poeta retira a estrofe:

“Saudade __velha canção

que ouvi, à noite uma vez...

um breve aperto de mão

e um sonho que se desfez...”

(Poemas, p 21)

Pelas inúmeras modificações que pudemos observar parece-nos que Lincoln sempre que relia o poema sentia necessidade de modificá-lo, porque também já não era o mesmo. Talvez o que foi retirado do poema já não se encontrava mais no escritor, já não transmitia o que esse sentia e não lhe fazia sentido, ao contrário, talvez poderia denunciar algo que o poeta não queria.

Isso fica claro também no livro Lenita, reeditado três vezes, sendo a primeira em 1947 junto com a segunda edição do livro Berceuse, a segunda, em 1952 com o livro Poemas e, em 1957, com a segunda edição de Poemas. Nestas três variações do livro Lenita, Lincoln ora acrescenta poemas, ora retira-os, troca-os elimina. Por isso, seu livro Lenita ao ser citado deve ser especificado então pela data para que não se cometa erros de citar um no lugar do outro.

LENITA 1 (1947)

LENITA 2 (1952)

LENITA 3 (1957)

Adoração

Às margens do Araguaia

Beijei teus olhos

Confidência

Dúvida

Eterna lembrança

Eternidade

Promessa triste

Quando te beijo

Sol, crepúsculo, chuva...

Tu nunca saberás

Último pedido

Adoração

Às margens do Araguaia

Beijei teus olhos

Beijo etéreo

Confidência

Contraste

Curiosidade

Depois da partida

Distante

Eterna lembrança

Eternidade

Forever

Noite Xavantina

O mais lindo oásis

Perfume

Pergunta

Pressentimento

Promessa triste

Sol, crepúsculo, chuva...

Tormenta

Tu nunca saberás

Último pedido

Única

Às margens do Araguaia

Beijei teus olhos

Confidência

Contraste

Curiosidade

Depois da partida

Distante

Eterna lembrança

Eternidade

Fascinação

Forever

Noite Xavantina

O mais lindo oásis

Perfume

Pergunta

Pressentimento

Promessa triste

Revelação

Sol, crepúsculo, chuva...

Tormenta

Tu nunca saberás

Último pedido

Única

Para se ter uma idéia de como ocorreram as transformações nos poemas de Lenita levantaremos aqui apenas algumas delas em Lenita 1 para sua reedição em Lenita 2.

Na primeira parte do livro, Para o teu coração, no poema Confidências, Lincoln modificou os dois primeiros versos da terceira estrofe. De,

Em meu peito há reservas de ternura,

De bondade, filões desconhecidos...

(Lenita 1, p 17)

Para:

Guardo para te dar toda a ternura,

Todo o afeto em meu peito refloridos.

(Lenita 2, p 65)

Em Promessa Triste foram modificadas a primeira e segunda estrofes:

LENITA (1947, p 19)

LENITA (1952, p 69))

“Promessa Triste”

“Quando eu ficar velhinha, bem velhinha,

Hei de contar-lhe uma bonita história...”

__Escreveu-me ela, há pouco, ela, que a minha

Vida encheu, uma vez, de luar e glória.

“Uma bonita história...” E cismo, aflito,

Em coisas lindas como o seu olhar...

Talvez sim... Talvez não... Talvez... Medito:

__Que tem ela, meu Deus, para contar?

Mas eu sei que jamais escutarei

Sua bonita história, __uma ilusão...

Porque, quando ela vier, que é que eu serei?

__Um simples feixe de ossos sob o chão...

“Promessa triste”

“Quando eu ficar velhinha, bem velhinha,

Hei de contar-lhe uma bonita história...”

__Escreveu-me ela, há pouco, __ela, que a minha

Vida enche ora de treva, ora de glória.

“Uma bonita história...” Um infinito

de horizontes se rasga ao meu olhar...

Talvez sim...Talvez não... Penso, medito:

__Que tem ela, afinal, para contar?

Mas eu sei que jamais escutarei

Sua bonita história, __uma ilusão...

Porque, quando ela vier, que é que eu serei?

__Um simples feixe de ossos no chão...

O poeta, ao trocar o tempo verbal no último verso da primeira estrofe, passando de “encheu” para “enche” nos leva a pensar que este sentimento amoroso não passou. A sua musa continua enchendo-o “ora de treva, ora de glória”. Por que depois de transcorridos seis anos o poeta colocaria o verbo no presente? Fica claro que este sentimento ainda existe para o eu lírico e que as lembranças da amada ainda permanecem nele.

Em, Beijei teus olhos, o poeta também fez pequenas modificações na primeira, segunda e terceira estrofes mantendo o mesmo ritmo, a mesma forma mas mudou uma sensação de brevidade para uma sensação de leveza, de mais carinhosa , determinada pelo adjetivo leve e pelo diminutivo “frontezinha” tornando o poema mais suave.

LENITA (1947, p 27)

LENITA (1952, p 75))

“Beijei teus olhos”

Beijei teus olhos tão suavemente,

Tão sutilmente,

Que nem sentiste meu beijo breve

Sobre os teus olhos de um brilho ardente!

Beijei teus olhos, na tarde mansa,

Tão docemente, como quem beija

A fronte ingênua de uma criança.

Beijei teus olhos que enchem de luz

A estrada triste do meu Calvário...

Beijei teus olhos como quem beija

O linho branco de um santuário...

Beijei teus olhos tão suavemente,

Tão sutilmente,

Que nem sentiste meu beijo leve,

Muito mais leve que um beijo dado

Na tua mão...

Beijei teus olhos como se, enfim,

Beijasse, em sonho, teu coração!...

“Beijei teus olhos”

Beijei teus olhos tão suavemente,

Tão sutilmente,

Que nem sentiste meu beijo leve

Sobre os teus olhos de um brilho ardente!

Beijei teus olhos, na tarde mansa,

Tão docemente, como quem beija

A frontezinha de uma criança.

Beijei teus olhos como quem beija

A longa estrada do meu Calvário...

Beijei teus olhos como quem beija

O linho branco de um santuário...

Beijei teus olhos tão suavemente,

Tão sutilmente

Que nem sentiste meu beijo leve,

Muito mais leve que um beijo dado

Na tua mão...

Beijei teus olhos como se, enfim,

Beijasse, em sonho, teu coração!...

Passando à segunda parte de Lenita, “Através da Saudade”, e observando o poema Às margens do Araguaia, notamos que ocorreu apenas uma pequena modificação no segundo verso da primeira estrofe onde o poeta trocou “...que corre lento” (Lenita 1, p 22) por “_largo e barrento” (Lenita 2, p 89) Esta troca de palavras modificou bastante o poema dando-lhe uma carga maior de melancolia.

LENITA 1 (1947, p 22)

LENITA 2 (1952, p 89)

“Às margens do Araguaia”

Desceu a noite de estrelas cheia.

Do largo rio que corre lento,

Sento-me à margem, por sobre a areia

E solto as asas ao pensamento...

“Às margens do Araguaia”

Desceu a noite de estrelas cheia.

Do largo rio, __ largo e barrento,

Sento-me à margem, por sobre a areia,

E solto as asas ao pensamento...

Podemos dizer que, transcorridos cinco anos entre a publicação do poema e sua reedição em 1952, de uma visão e de um estado de calmaria transmitida pela lentidão do rio, o poeta já não vê o rio da mesma maneira. Como coloca o filósofo grego Heráclito, ninguém banha-se duas vezes no mesmo rio. Este já não o transmite paz e calmaria, suavidade, silêncio e tranqüilidade, mas sim inquietude e asco. Estas últimas sensações são transmitidas justamente pela troca das palavras “que corre lento” por “largo e barrento”. A repetição do adjetivo “largo” enfatiza o tamanho da sujeira, a proporção que esta tomou na visão do poeta, e, “barrento” transmite a visão e a sensação de uma coisa que não é límpida e clara. ”Barrento” também pode conotar mais um sentimento que foi acrescentado no decorrer dos anos ao eu lírico. É como se o poeta, lendo o seu poema, retornasse à margem do rio e já não o enxergasse da mesma maneira. Para ele o rio está mais sujo, mais escuro (barrento), mais solitário. Solitário porque em um rio barrento não há peixes, não há banhistas, não há vida e muito menos prazer em se olhar. Enfim, o eu lírico não seria fiel a seus sentimentos se descrevesse o rio da mesma maneira que o descreveu outrora. Isso porque, como ele mesmo coloca mais à frente no poema, “ o rio agora parece morto:/__ Parece o rio o meu coração”. Assim como o rio que o reflete, o poeta sente-se só e com um sentimento ainda mais melancólico e triste.

Levantamos algumas modificações para ilustrar a variedade bem como as proporções destas. Assim, como foi falado no início do texto, fizemos este levantamento restringindo-nos aos livros Versos Tristes (1919), Berceuse (1946) e Lenita1 (1947) editado junto com Berceuse. Dada a extensão da obra de Lincoln de Souza, não fizemos o levantamento de todas as modificações ocorridas nos livros Lenita 2 (1952), Lenita 3 (1957), Poemas 1 (1952) e Poemas 2 (1957).

Observando as modificações realizadas por Lincoln de Souza em seus poemas que foram aqui apresentados, pudemos verificar que todas as categorias de corte , inversão e acréscimo aparecem no universo de criação do poeta. Detectam-se porém, a superioridade e a predominância da substituição e, em nível menor, o acréscimo de novas palavras. Podemos afirmar também com isso que o poeta, através deste trabalho minucioso de revisão, foi um leitor crítico de si mesmo. Lendo e relendo várias vezes a sua própria obra, Lincoln foi, a cada reedição, subtraindo, substituindo, acrescentando, rascunhando e anotando, na margem de alguns poemas, observações em que buscava maior harmonia entre as palavras, ritmos e formas.

Como coloca Lucilinda Ribeiro Teixeira (1996, p 13), o escritor ao rasurar a sua criação, está rasurando a si mesmo, está se desnudando, deixando transparecer nela as suas intenções. Diante disso, podemos dizer que, ao modificar a sua criação, Lincoln de Souza não só se desnuda mas deixa transparecer ou mesmo tenta esconder as intenções de um eu insatisfeito e de um escritor que está sempre em busca da palavra exata. Denuncia momentos de reflexão e de intenção do poeta em pensar cada vez mais sua escrita e sua criação, comprovando com isso o que diz Maupassant, citado por Nery (1995, p 88) “que seja qual for a coisa que se quer dizer, não há senão uma palavra para expressá-la, um verbo para anima-la e um adjetivo para qualifica-la. É preciso, então, buscá-los até descobri-los, essa palavra, esse verbo e esse adjetivo e jamais se contentar com aproximativo...”

Assim, revendo, relendo e se autocriticando, Lincoln de Souza apaga, elimina, refaz o poema, descartando o que lhe parece supérfluo. Num reescrever constante reaproveita títulos, poemas e palavras porque “tem consciência que o texto é algo que não se perde no tempo e no espaço. Mas é algo vivo, é algo que ultrapassa os limites da própria eternidade” (TEIXEIRA, 1996, p 20). Durante todo o processo de criação, Lincoln de Souza demonstra ter o Outro como referência constante. Segundo Willemart,

na hora da substituição, o escritor leva em conta, sabendo ou não, a recepção dos próximos, do público, e talvez da imprensa. Isto é, o sentido depende não somente das pulsões, do passado e das forças socioliterárias, mas de um certo modo do futuro que o escritor imagina que existirá em tal círculo social, na comunidade de escritores ou em tal escola literária... Aí intervém o fator estético, intimamente ligado a esse Outro que sustenta a cultura vigente. (WILLEMART, 1996, p 50)

Percebe-se que com o passar dos anos, o eu leitor, antes, autor, não é o mesmo. Aquele poeta que compusera um poema anos atrás, ao lê-lo, no momento presente, sente necessidade de modificá-lo, pois já não é o mesmo do passado. A carga de vivência e maturidade, modificaram o poeta, agora leitor de sua própria produção. Isso comprova que Lincoln de Souza escreveu a vida toda uma só obra e nela trabalhava a cada nova edição de seus livros. Modificar poemas já editados conota modificar-se enquanto poeta e enquanto leitor é reescrever a cada instante o mesmo livro.

Notas

1 Graduada do Curso de Letras da Fundação de Ensino Superior de São João del Rei/FUNREI.
Bolsista de iniciação científica pelo CNPq do projeto O resgate da obra poética de Lincoln de Souza 1998-2000. voltar

2 Mestre em Literatura Brasileira, professora de Teoria da Literatura e Literatura Portuguesa da Fundação de Ensino Superior de São João del Rei/FUNREI. Orientadora do projeto de iniciação científica O resgate da obra poética de Lincon de Souza 1998-2001. e-mail: elianat@funrei.br. voltar

Referências bibliográficas

BARTHES, Roland. Rumor da língua: Escrever, verbo intransitivo? Trad. Mario Laranjeira. S.P.: Brasiliende, 1988.

CONDE, Narriman. O Papel do Rascunho: Resgatando as emendas e rasuras criativas do texto. Amae Educando, Belo Horizonte, nº 249, p 6-9, mar. 1995.

CURY, Maria Zilda Ferreira. Horizontes Modernistas. O jovem Drummond e seu grupo em papel jornal. Belo Horizonte: Autêntica, 1998.

NERY, Vanda Cunha Albieri. O movimento das rasuras no jogo da Criação Literária. Ícone, Uberlândia, v. 3, nº 2, p 77-104, jul./dez. 1995.

SOUZA, Lincoln de. Versos Tristes. São João del-Rei: Tip. São José, 1919.

_____. Berceuse/Lenita. Rio de Janeiro: Livraria São José, 1946.

_____. Poemas/Lenita. Rio de Janeiro: A Noite, 1957.

TEIXEIRA, Lucilinda Ribeiro. As Rasuras no processo de criação de Haroldo Maranhão. Revista da FEPI, Itajubá, nº 2, p 10-27, dez. 1996.

WILEMART, Philipe. Universo da Criação Literária: crítica genética, crítica pós-moderna. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 1993.

_____. A Rasura: sintoma da paixão da ignorância. Revista IDE, São Paulo, v. 28, p 46-52, 1996.

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JOSÉ SEVERIANO DE REZENDE – A ESCRITA COMO CONDENAÇÃO

Luciana Antunes Henriques1
Eliana da Conceição Tolentino2

Fiz-me apóstolo, fiz-me herói, fiz-me argonauta,

Sondei vaus, revolvi brenhas, galguei penedos

E a minha alma já era um papirus sem pauta,

De que eu tinha apagado a Vida e os seus enredos.

O lidador - José Severiano de Rezende

A FOGUEIRA E O LIVRO

A história da escrita, da leitura e do livro vem sempre ligada à destruição, a fogueiras e à censura. Várias bibliotecas foram destruídas ao longo da história da humanidade, da biblioteca de Alexandria, passando por Monte Cassino à Biblioteca Nacional do Camboja. Segundo Darnton, em seu artigo sobre o futuro da bibliotecas, uma outra ameaça paira na contemporaneidade; a idéia de que a internet e o livro eletrônico podem substituir o livro impresso. Para o historiador, o projeto da construção do novo campus da Universidade da Califórnia em Monterey sem uma biblioteca como espaço definido é inconcebível. O caráter físico da impressão de um livro, bem como a história de sua composição, publicação e manuseio são essenciais do ponto de vista do autor. (DARTON, 2001 )

Podemos lembrar ainda a fala de Manguel (1997) sobre o caráter físico do livro:

Minhas mãos, escolhendo um livro que quero levar para a cama ou para a mesa de leitura, para o trem ou para dar de presente, examina a forma tanto quanto o conteúdo. Dependendo da ocasião e do lugar que escolhi para ler, prefiro algo pequeno e cômodo, ou amplo e substancial. Os livros declaram-se por meio de seus títulos, seus autores, seus lugares num catálogo ou numa instante, pelas ilustrações em suas capas; declaram-se também pelo tamanho. Em diferentes momentos e em diferentes lugares, acontece de eu esperar que certos livros tenham determinada aparência, e, como ocorre com todas as formas, esses traços cambiantes fixam uma qualidade precisa para a definição de livro. Julgo um livro por sua capa; julgo um livro por sua forma. (MANGUEL, 1997, p 149 )

A condenação de livros, bibliotecas e conseqüente perseguição a autores, editores e leitores passa primeiramente pelos poderes religiosos e políticos. Como detentores de poder econômico e político, os reis ou davam proteção aos escritores ou, juntamente com a Igreja, detentora de um poder religioso e cultural, condenava-os. Livros e escritores proibidos como Voltaire e Rosseuau sempre existiram e continuarão a existir, pois haverá sempre a ilusão de que se pode controlar a produção cultural e a proliferação de idéias, eliminando as obras e aqueles que as escrevem ou publicam. Veja o exemplo atual do escritor Salman Rudshie, autor de Versos Satânicos que é perseguido por sua escrita.

Para Jean Lebrun “A fogueira em que são lançados os maus livros constitui a figura invertida da biblioteca encarregada de proteger e preservar o patrimônio textual.” (In: CHARTIER, 1998, p 23)

E essa biblioteca como patrimônio esteve, ao longo de boa parte da civilização, sob a guarda e o poder da Igreja. O poder eclesiástico foi durante muitos anos o órgão que ditou modelos de leitura destinados a educar e guiar os leitores. A recepção foi, num certo período, dirigida não só pelos livros que eram liberados, como também desviada daqueles que eram censurados ou queimados.

Segundo Francisco Gimeno Blay, (apud LYONS, 1999, p 23), a queima de livros envolve três momentos; primeiramente pensa-se ser possível com a queima a extinção de uma memória histórica, podendo dessa forma se reescrever o passado. Posteriormente, ela tem um cunho higiênico de exterminação de “focos de infecção intelectual” e, por último queimar tem o sentido de “ataque pessoal ao autor, como uma premonição de sua própria destruição”. (p 24)

O POETA MALDITO3

Neste trabalho procuramos resgatar a obra de um poeta pouco conhecido, José Severiano de Rezende que nasceu em Mariana, em 23 de janeiro de 1831 e faleceu em Paris em 1931. Seu único livro de poemas, Mistérios é publicado em Lisboa em 1920 e reeditado pela UFMG, em 1971, por ocasião de seu centenário de nascimento. A pesquisa de iniciação científica encontra-se no início, portanto, o que apresentamos aqui é apenas um resultado parcial.

Era grande o interesse de Severiano Nunes Cardoso de Rezende que seu filho José Severiano de Rezende seguisse a carreira de advogado como a sua. Após ter interrompido por duas vezes o curso de Direito, uma vez em São Paulo e anos mais tarde em Ouro Preto, José Severiano de Rezende desiste da carreira. Como nos informa Andrade Muricy, “fora assaltado por uma onda de misticismo, entrara no Seminário Maior de Mariana e inicia a carreira eclesiástica”(apud COSTA E SILVA, s/d, p 65). Seu pai tenta em vão persuadi-lo a desistir da vida religiosa.

José Severiano de Rezende, enquanto residiu em São Paulo, escreveu para jornais e chegou a publicar dois livros polêmicos sobre questões anti-republicanas, a saber: Cartas Paulistas e Eduardo Prado. Era freqüentador assíduo, junto com Alphonsus Guimaraens, com o qual mantinha uma estreita ligação, da Vila Krial, era considerada a belle époque brasileira nas primeiras décadas do século XX. Esse elo com a literatura, essa intimidade com a escrita José Severiano de Rezende levou às escondidas para dentro do seminário. Manteve um caderno intitulado de Livro da Contrição em que se encontravam poemas escritos pelo então seminarista. Seu pai sabia da existência desse caderno, em suas visitas ao filho lança mão de três sonetos e os publicou no jornal Minas Gerais, dedicando-os a Alphonsus de Guimaraens.

Este ato de seu pai causou ao jovem seminarista sérios problemas com o diretor do seminário padre Chavanat. Como numa fogueira inquisidora mandou queimar no pátio do seminário toda “versalhada”. (AQUINO, 1971, p 08) O Bispo D. Silvério comoveu-se com a reação submissa de José Severiano, chegando mesmo a adoecer, aconselha-o a ir para Congonhas para lecionar até à ordenação.

Tempos depois retorna ao Seminário, ordena-se e recebe neste mesmo ano 1894 a direção da redação do folheto marianense D. Viçoso que, segundo Aberto da Costa e Silva, “deu livres asas ao seu talento de panfletário” (p.67) o que chegou a causar uma enorme polêmica na cidade, agradou uns e desagradou outros. Pelo que escrevia no D Viçoso, José Severiano de Rezende chegou mesmo a sofrer um atentado e saiu da cidade sob vaias e aplausos. No seminário sabia-se que o então seminarista vinha freqüentando rodas literárias na futura capital mineira, o que era proibido aos padres.

ALQUIMIA SEVERINA

José Severiano de Rezende teve uma vida literária movimentada. É para o seminário que dirigimos nossa atenção nesse ensaio porque é de lá que se espalham pelo ar as folhas queimadas do seu Livro de Contrição e nasce o poeta José Severiano de Rezende.

Como no episódio bíblico em que os três reis magos se orientam por uma estrela para chegarem ao destino pretendido, José Severiano de Rezende se vê obrigado a largar as rodas literárias para seguir sua carreira eclesiástica, entretanto, após inúmeros atritos com seus superiores, entrega sua batina em uma bandeja de prata e muda-se em definitivo para os grandes centros onde residiam as rodas literárias, percorrendo capitais culturais como

E ainda, como o fogo é sempre purificador, o poeta não se dá por vencido, posteriormente, em 1920, José Severiano de Rezende compõe uma coletânea de poemas que intitula Mistérios.

Livro da Contrição e Mágoa é uma das partes dessa coletânea. Os trinta e seis poemas desse livro, assim como os primeiros sonetos publicados por seu pai no Minas Gerais, são dedicados a Alphonsuns de Guimarens. Esses, agora do livro, apresentam sentimentos de mágoa, angústia metafísica, questionamento; o eu lírico coloca-se como pecador e perante Deus apresenta-se submisso e humilde, suplicando perdão. (LISBOA, 1971)

Por ser eu o mais réu dos demais pecadores

(E por ter a consciência escura e corrompida)

Longamente sonhei horrores sobre horrores

Tenebrosas alucinações desta vida.

..........................................................................

Orei ao Senhor Deus diante de tais horrores,

O meu rosto escondi na poeira das estradas

E deixei o clamor dos grandes pecadores

Ecoar no coração das almas condenadas.

(Misere, p 98)

Em quase todos eles o poeta faz uma dedicatória a um amigo ou intelectual, como por exemplo, Ad Alta, a Arduino Bolivar, Anátema, ao embaixador Luiz de Souza Dantas, Crepúsculo Macabro, a Alberto de Oliveira para citar apenas alguns. As dedicatórias nos permitem traçar um quadro do meio intelectual que o poeta freqüentava, de suas rodas de amigos ou mesmo expõem a admiração que nutria por escritores como Olavo Bilac. As dedicatórias bem como as epígrafes de partes da Bíblia promovem uma leitura que deixa entrever nos poemas um intertexto em que dialogam o literário e o religioso. O poema Misere, por exemplo, estampa a epígrafe “A João Gualberto Amaral Sacerdos in aeternum”, e Prece tem “Hodie dicntur Pdslmi Graduales Rubrica do Breviário Romano

CONTRIÇÃO E MÁGOA

Os poemas do Livro de Contrição e Mágoa parecem ser os versos queimados anteriormente no pátio do seminário. Entretanto, no título, agora, o poeta acrescenta a expressão da mágoa. Seria uma referência ao sentimento em relação aos incidentes com o padre Chavanat? Ou teria relação ainda com sua vida tumultuada de sacerdote e literato? Seriam esses versos os mesmos de 1895? José Severiano de Rezende teria outras cópias? Ou apenas usou o título daquele livro, acrescentando da mágoa? Por que os publicaria trinta e seis anos mais tarde acrescido da expressão da mágoa? Remetendo-nos a Blay (1999), o passado não fora reescrito com a queima e a memória insiste em se reatualizar?

Não podemos responder a essas indagações, nem afirmar que os poemas queimados sejam os mesmos que, em 1920 compõem a coletânea Mistérios. Entretanto, a leitura do Livro da Contrição e Mágoa nos leva a perceber que a obra é formada de poemas que tratam de sentimentos, de mágoa, questionamentos, de pecados e culpa.

O Ato de Contrição, que na celebração eucarística da religião católica, é feito na confissão e antes da comunhão, pode ser dividido em três partes: reconhecimento, admissão do pecado, arrependimento e súplica ao perdão. Do ponto de vista religioso “contrição” significa arrependimento das culpas ou pecados. É um ato penitencial, parte integrante da absolvição dos pecados.

ATO DE CONTRIÇÃO

Pesa-me Deus, e sinto de todo o coração de vos haver ofendido, porque mereci o inferno e perdi o céu, e muito mais me pesa, por haver ofendido a um Deus tão bom e grande como sois vós. Quisera antes Ter morrido do que vos haver ofendido; e proponho firmemente nunca pecar e fugir as ocasiões próximas do pecado.

Posteriormente, após o Vaticano II, houve uma mudança no Ato de Contrição, numa tentativa facilitar a memorização para os fiéis. O Conselho do Direito Canônico recomenda desde então o seguinte Ato de Contrição:

Pequei, senhor, contra o céu e contra ti, mereço ser castigado porque vos ofendi. Arrependo-me sinceramente e peço-vos perdão. Amém.

O Livro da Contrição e Mágoa assim como o Ato de Contrição pode ser lido em três movimentos. Num primeiro instante, reconhecimento, figuram nos poemas um eu-lírico que se encena pecador e submisso a Deus. Esse pecado dá-se preferencialmente pela consciência da pequenez humana e pelo desejo em relação à mulher, símbolo do pecado, satânica. Os poemas dessa primeira parte voltam-se para o alto, para Deus como a suplicar piedade.

Ai! longo tempo errei, morte e alheio à Esperança

E tu, mansão de amor, longe de me deixares,

Deste ao meu desvario o bálsamo e a bonança,

Deste ao meu ser infiel a Hóstia dos teus altares

(Ad Alta, p 92)

E ainda,

Porque há de essa mulher bramir uivando a fome

E a sede que ela tem de amar e ser amada?

O fogo que a devora e a chama que a consome

É todo inferno já que dentro dela brada.

(Vênus Satúrnia, p 106)

Já nos poemas de arrependimento, o eu lírico vê no mundo desastres e vícios humanos. E, como a esperar a morte para sua absolvição definitiva, desenha-nos um quadro de horrores e solidão.

Oh! diante das turbas pasmas,

Os ímpios, de hirtas corcovas,

São como estranhos fantasmas,

Banidos de horrendas covas.

(Canção, p 109)

Longe do longo caos e das estígias vagas,

Da carne vil enfim o espírito evolado,

Recebei-nos, Senhor, nas vossas Cinco Chagas

Ou nessa então , Jesus, chaga do vosso Lado

...........................................................................

Ofego, anseio e corro... anseio e corro e venho

Oh! Para descansar à sombra desse Lenho,

Nas fontes siderais das Chagas do Senhor.

(Vúlnera...Sidera, p 124)

No terceiro movimento, súplica, o eu que se apresenta clama a Deus o perdão.

E os pobres homens, fracos e inermes,

Que se despenham na atra voragem,

Deixai cair sobre nós as lousas,

Mas as portas do céu abri para que entremos.

(A Hora Suprema, p 131-132)

Mas, Senhor! E o sol posto, e as lufadas do outono

E estas insônias e estes pesadelos?

Piedade para quem dorme e não tem mais sono,

Nem tem mais sonhos e não quer perdê-los!

(Crepúsculo Macabro, p 150)

Como podemos ver a escrita de José Severiano apresenta-se como condenação e censura. Tendo seu livro de versos queimado no seminário, tendo fugido de Mariana pelos seus escritos em D. Viçoso, o poeta sempre se deparou com a perseguição. Entretanto, como a literatura supera qualquer interdição ou fogueira e o passado nunca poderá ser reescrito sem as cinzas, o Livro da Contrição e Mágoa persistiu, ainda que nele não figurem os mesmos poemas da época do seminário ou mesmo figurem, não temos resposta. A formação católica, a religião e todas as regras do seminário acabaram por estar mais presentes na obra de Severiano, quando nos poemas nos deparamos com um eu lírico temente a Deus, entregue ao pecado e ao arrependimento, um eu-lírico que já se coloca de antemão solitário e dividido.

Notas

1 Graduanda do Curso de Letras da Fundação de Ensino Superior de São João del Rei/FUNREI.
Bolsista de Iniciação Científica/FAPEMIG do projeto José Severiano de Rezende - um poeta mineiro esquecido?/FUNREI/FAPEMIG-2001-2002. voltar

2 Mestre em Literatura Brasileira, professora de Teoria da Literatura e Literatura Portuguesa da Fundação de Ensino Superior de São João del Rei/FUNREI. Orientadora do projeto de Iniciação Científica/FAPEMIG José Severiano de Rezende - um poeta mineiro esquecido?/FUNREI/FAPEMIG-2001-2002. E-mail: elianat@funrei.br. voltar

3 Tomamos a expressão de empréstimo a Otto Lara Resende (1992, p 04 ). voltar

Referências Bibliográficas

AQUINO, Monsenhor Almir de Resende. Traços bibliográficos de José Severiano de Rezende. A Comunidade, janeiro de 1971, p 08-09.

CHARTIER, Roger. A aventura do livro do leitor ao navegador. Tradução Reginaldo de Moraes. São Paulo: Editora UNESP/Imprensa Oficial do Estado, 1999.

Código de Diretório Canônico; Tradução da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil. Promulgada pelo papa João Paulo II. São Paulo: Editora Loyola, 1983.

COSTA E SILVA, Alberto. José Severiano de Rezende e alguns temas de sua poesia. Revista do Livro, s/d, p 65-72.

DARNTON, Robert. O poder das bibliotecas. Folha de São Paulo, Caderno Mais, 15 de abril de 2001. p 4-7. São Paulo.

LISBOA, Henriqueta. Introdução. In: Mistérios. Belo Horizonte: UFMG, 1971.

LYONS, Martyn. Fogos da expiação. In: A palavra imprensa: história da leitura no século XIX. Tradução Cyana Leahy. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 1999. p 23-38.

MANGUEL, Alberto. Uma história da leitura. Tradução Pedro Maia Soares. São Paulo: Companhia das Letras, 1997.

RESENDE, Otto Lara. Resende: Poeta maldito: Padre rebelde. Folha de São Paulo, Revista d’, 8 de março de 1992.

REZENDE, José Severiano de. Mistérios. Belo Horizonte: UFMG, 1971.

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FONTES PRIMÁRIAS: BASTIDORES DA MEMÓRIA CULTURAL

Eliana da Conceição Tolentino1

ler é encontrar - no nível do corpo, e não no nível da consciência – como é que isso foi escrito: é meter-se na produção, não no produto

Barthes

A PESQUISA

O estudo de fontes primárias iniciou-se no Brasil, nos anos 70, no Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo, tendo à frente os professores Alfredo Bosi, Cecília de Lara, José Aderaldo Castelo. A princípio, a pesquisa voltou-se basicamente para o resgate, estudo e análise de revistas de grupos de escritores modernistas. Assim, as produções de jovens escritores brasileiros do período modernista que apareciam em revistas ou em jornais foram analisadas, tanto em dissertação de mestrado quanto em teses de doutoramento.

A professora Maria Zilda Ferreira Cury implantou em Minas, na Universidade Federal de Minas Gerais, o estudo de fontes primárias. O Centro de Estudos Literários da Faculdade de Letras da UFMG desenvolve, desde 1991, com o apoio do CNPq e da PRPq, o projeto de pesquisa que se volta para o acervo de escritores mineiros. Nesse projeto trabalham os pesquisadores Eneida Maria de Souza, Maria Zilda Ferreira Cury, Melânia Silva Aguiar, Vera Lúcia Andrade, Wander Melo Miranda, Silvana S. Santos, Albert von Brunn (Suíça) e E. M. de Melo e Castro (Portugal). A Universidade possui acervos dos escritores Henriqueta Lisboa, Murilo Rubião, Oswaldo França Júnior, coleções de Aníbal Machado e Otavio Dias Leite, além das correspondências de Alexandre Eulalio para Lélia Coelho Frota e a de escritores mineiros para Ana Hatherly. (MIRANDA:1995, p 25-26)

Segundo Wander Melo Miranda (1995), o objetivo da pesquisa em acervos do Centro de Estudos Literários da UFMG é

o estabelecimento e análise do corpus bibliográfico de escritores mineiros representativos no âmbito da literatura brasileira, dando-se relevo à articulação de suas relações no campo da poesia, ficção, memorialismo e do ensaio, com os processos de atualização cultural do país. Tal objetivo compreende a elaboração de uma metodologia adequada em áreas de interesse específico de trabalhos futuros e em andamento e a análise do material pesquisado, visando contribuir para a consolidação de uma memória literária no Brasil. O estudo da atuação de certos grupos de escritores e a determinação do papel desempenhado por eles na formação de vertentes diferenciadas da tradição cultural brasileira, levando-se em conta seu maior ou menor grau de intervenção na produção literária da atualidade, constituem igualmente finalidades de pesquisa. (Idem. p 25)

Nessa linha insere-se minha pesquisa, desenvolvida no mestrado, sob orientação da professora Maria Zilda. Esse estudo centrou-se na revista mineira Vocação, da década de 50.

Entre as pesquisas de fontes primárias produzidas por nós, na FUNREI, uma tem como objeto o Jornal do Poste, jornal-mural de São João del Rei. Esse periódico teve início no ano de 1958. Como os primeiros exemplares encontram-se perdidos, foi necessário iniciar o trabalho a partir dos exemplares da década de 60. A pesquisa busca resgatar esse veículo de comunicação da cidade, que teve papel importante enquanto meio formador de opiniões.

O projeto de pesquisa O resgate da obra poética de Lincoln de Souza volta-se para o poeta e jornalista Lincoln de Souza, nascido em 1894, vindo a falecer em 1969, no Rio de Janeiro. Intelectual sãojoanense, Lincoln de Souza conviveu com poetas do modernismo mineiro, tornando-se amigo de Carlos Drummond de Andrade, Emílio Moura, entre outros. Publicou Versos Tristes, Águas passadas, Contam que..., Jardins de ouro e névoa, Lenita, Berceuse entre outras.

O trabalho em fontes primárias tem como objetivo o resgate de produções culturais às vezes esquecidas, desconhecidas ou mesmo adormecidos nas estantes das bibliotecas ou em acervos particulares.

Nesse sentido, o projeto de pesquisa José Severiano de Rezende – um poema mineiro esquecido?, visa resgatar a obra do poeta José Severiano de Rezende. O seu livro Mistérios é nosso principal objeto de estudo. Entretanto, cientes de que a literatura não é um fato isolado e que dialoga com as séries literária, social e cultural, tentamos aprofundar, buscando relações com a vida literária do poeta, analisando o meio em que estava inserido quando de sua formação.

Dessa forma, as outras produções são também fontes de pesquisa na medida em que podem iluminar e dialogar com a produção poética. Não são o foco principal, porém, em muito podem esclarecer situações e fatos da poesia de José Severiano de Rezende.

UM NOVO OLHAR CRÍTICO

O estudo de Fontes Primárias abrange textos muitas vezes iniciáticos, inéditos por não figurarem em livros: são poemas, ensaios críticos, contos ou trechos de romances, às vezes publicados em periódicos ou em revistas de grupos de jovens escritores. Há textos, correspondências, anotações, recortes de jornais em gavetas, em pastas esquecidas nos gabinetes de escritores que nos permitem flagrar a produção da escrita. Fontes primárias não abrangem tão somente textos escritos, mas documentos e objetos pessoais, fotos, lembranças de viagens.

A pesquisa tem se desenvolvido não só na Literatura mas também em outras manifestações culturais como na Música e nas Artes Plásticas, por exemplo. Cury e Campos (2000), ao comentar a memória da escola, apontam como fontes de estudo aqueles documentos que compõem uma memória coletiva; por exemplo, os textos que aparecem nas carteiras escolares, os livros didáticos adotados, o material didático usado em determinada época.

Podemos acrescentar que a cidade, espaço por excelência da manifestação cultural coletiva também pode ser vista como um documento passível de leitura. Suas edificações, suas estátuas, suas ruas, seus logradores públicos, atualmente seus outdoors falam muito de um tempo. Para Santos (1999), em seu poético Saber de Pedra o livro das estátuas, “A cidade é uma grande imagem recortada em pedacinhos, que se lançam em muitas direções, como cartões-postais que remetemos para bem longe, para os mais improváveis endereços” (p 101) E ainda a respeito das estátuas:

Conceber uma estátua como um ser imóvel é não levar em conta a trepidação que se manifesta no interior da pedra. Atenta a tudo que ocorre à sua volta, a estátua age como um anteparo que capta os tremores da cidade, desde a leve vibração do grito da criança brincando na praça até o viaduto que balança quando passam veículos. Todos os estremecimentos urbanos a estátua registra em si, assimilando-os em suas partículas, reproduzindo-os com a mesma lógica de oscilação. (SANTOS:1999, p 107)

A cidade também compõe com suas estátuas um livro a ser decifrado e essas dialogam com o espaço urbano, mudando até perspectivas e olhares.

Nas cidades históricas, pela sua peculiaridade, há inúmeras páginas por onde o olhar se desdobra, seja nas suas ruelas estreitas, nas suas casas que acompanham a inclinação da rua, seja nas suas peças sacras como o Cristo Inacabado da Igreja do Carmo, em São João del Rei que suscita lendas.

No dizer de Calvino (1999) “a cidade não conta o seu passado, ela o contém como as linhas da mão, escrito nos ângulos das ruas, nas grades das janelas, nos corrimãos” (p 14-15). Em cada canto e em cada documento, nas palavras de Marco Polo em As Cidades Invisíveis, o viajante “reconhece o pouco que é seu descobrindo o mundo que não teve e o que não terá” (p 29).

A Crítica Genética, que se volta para o nascedouro da criação literária - os manuscritos e os rascunhos -, no entanto, encontra percalços, pois nem todos os acervos e arquivos estão organizados ou seus documentos estão num mesmo local. O acervo de Lincoln de Souza, por exemplo, divide-se entre a Biblioteca Municipal Baptista Caetano de São João del Rei, o Museu Bárbara Heliodora e as doações que o escritor fez a particulares. O pesquisador, nesses casos, à cata dos documentos, exerce, como afirma Maria Zilda Cury (1998), um “trabalho de formiga”, um trabalho braçal no levantamento e na busca incessante dos objetos do acervo. Nesses sentido, compete ao pesquisador empreender a organização e catalogação dos documentos ainda que possa ser impedido de reuni-los em um só local.

A biblioteca é outro lugar que essa pesquisa toma como objeto. Os livros com que o escritor compôs seu acervo, os que leu, os que não leu, os livros com dedicatória, os repetidos, os recortes de jornais, as revistas, os discos, os CDs, os filmes, as fotografias são todos objetos de interesse que esboçam a imagem de um sujeito, de um momento e de uma intervenção cultural.

Nesse sentido, a crítica literária vê-se diante do novo. Todo esse acervo, constituído de pertences do escritor, bem como de produções que ele esquecera ou às vezes desprezara, torna-se passível de leitura como um texto em que se entrecruzam várias vozes no processo de constituição do sujeito escritor/leitor.

O ACERVO

Além da difícil recomposição do acervo, o pesquisador conta ainda com a personalidade do intelectual e seu processo de criação próprio. Há aqueles que enchem os lixos de papéis de rascunhos, ensaios de uma escrita. A esses papéis, levados pelo lixo como restos de um fazer literário, o crítico não tem acesso, a não ser quando um parente, um filho ou uma esposa cuidadosa e ciente de que o processo de criação de faz de suor, os guarda escondido. Esse “roubo” de papéis, crime inafiançável na visão de muitos escritores, acaba por revelar as angústias, os ensaios de um fazer artístico.

Há ainda aquelas fontes às quais nunca o crítico terá acesso porque foram queimadas nas fogueiras inquisitórias que o próprio intelectual promove. Entretanto, se o crítico tem a informação de que houve queima, esse também é um traço significativo na tentativa de composição de acervo. Muitas vezes os silêncios falam por si.

Entretanto se, de um lado, há os que jogam no lixo e os que queimam, há outros que organizam muito bem seus arquivos. É o caso de Lincoln de Souza que organizou o acervo que encontra-se na Biblioteca Municipal Baptista Caetano, por exemplo, e tantos outros. Nesses casos, a trajetória que o leitor irá percorrer já está traçada de antemão pelo próprio escritor que, ao organizar suas pastas, ao selecionar as críticas a respeito de sua obra, ao compor seus álbuns de fotografias, ao catalogar suas correspondências, ao legendar as passagens de avião ou navio, compõe um grande livro de memórias. Memórias em que se entrecruzam vários textos e várias vivências.

As críticas saídas em jornais e recortadas pelo escritor falam muito da movimentação literária da época e traçam um quadro da historiografia literária do país. Se, por exemplo, num arquivo há apenas a seleção de críticas favoráveis, elas induzem o crítico a procurar outras e promover um diálogo entre as várias recepções de uma obra.

As fotos falam muito da convivência do intelectual e dos meios que freqüentava, dos grupos a que pertencia. As fotos de viagens falam muito dos romances e esses falam muito das viagens, dos exílios, dos lugares e da situação de um eu num espaço de despertencimento quando se vê num outro país, numa outra cidade, num outro lugar, ou mesmo no seu próprio, ou na imobilidade de seu escritório entre papéis e livros, alheio como se esse lhe parecesse desconhecido.

As correspondências traçam um retrato não só pessoal mas também literário. Nelas são expostas indagações individuais, debates de idéias, discussões calorosas são travadas em longas missivas. Nelas comentam-se a estética de determinado livro ou poema quando enviados ao remetente. E, muitas vezes, após a intervenção do amigo acaba-se por modificar trechos, palavras de poemas ou mesmo finais de romances. Pela criação literária entrecruzam-se textos que só serão revelados ou identificados quando a pesquisa no arquivo se efetiva. Assim, poderemos flagrar um fazer a várias mãos, pois a sugestão do outro quando acatada ou a crítica a determinado trecho terminam por criar um outro texto. As correspondências e as idéias que veiculam acabam por traçar uma estética e promover a leitura da recepção.

A Crítica Genética volta-se para o escritor enquanto leitor, assim, as anotações à margem dos livros que compõem a sua biblioteca, seus próprios textos manuscritos, escritos e reescritos, seus rascunhos trazem-nos os bastidores do processo de criação e a certeza de que esse é descontínuo e intertextual. Os manuscritos das primeiras produções artísticas, para falar em Literatura, os rascunhos, proto-textos, testemunhas de um processo privado de criação delineiam um eu em luta com a palavra, suas escolhas, suas trocas, suas hesitações, suas colagens, seus diálogos com outros textos. É no manuscrito que a censura se afrouxa e pode-se flagrar um eu em atividade.

As anotações à margem formam um palimpsesto em que se pode ler a partir de vários caminhos. O acesso a textos em que o autor deixou marcas à margem provoca uma dupla leitura, porque permite perceber a sua primeira leitura, nos induzindo a ler junto com ele, a perseguir os rastros de seu trabalho de leitor ou, simplesmente, ignorá-los. A marginália atualiza a leitura que se deu num tempo diverso. E o eu escritor dialoga, no presente, com o eu crítico pesquisador que, dessa forma, reatualiza a leitura, memória da produção.

Ao pesquisador de Fontes Primárias cabe, à vezes, entrevistar, quando possível, o intelectual. Esse é um momento de emoção. Emoção não é um sentimento muito bem aceito no trabalho científico, mas como negá-lo quando nos deparamos com aquele ser que conhecemos um pouco pelos seus escritos, pelas suas correspondências, pelos seus pertences?

É como estar diante de uma ficção que pula do papel para a realidade. Sem dúvida, por mais que se discuta, a aura e mitificação do escritor permanecem. E quando lado a lado com ele podemos participar de sua rememoração, o trabalho apresenta-se nos gratificante.

Lembro-me da entrevista que fiz com Affonso Ávila quando empreendia, no mestrado, uma pesquisa a respeito da revista Vocação, publicada em 1950, por Affonso Ávila, Fábio Lucas e Rui Mourão. Vocação veio depois a ter seus desdobramentos em Tendência, revista do mesmo grupo, publicada no final dos anos 50 e início de 60. Em momento algum o poeta mostrou mágoa, saudosismo, arrependimento ou esquivou-se de seu passado. Ter vergonha ou esquivar-se é comum a escritores quando são entrevistados sobre suas primeiras produções. Muitas vezes, o entusiasmo da juventude não produz, aos olhos criteriosos e maduros do presente, obras de valor.

Não, não percebi na fala de Affonso Ávila, sentado num canto do sofá da sua sala e de olhos alheios a olhar o infinito ou mesmo o passado que ali revivia, qualquer restrição ao que havia produzido na juventude. Pelo contrário, o respeito com que falava da revista e do grupo deu-me a certeza de que aquelas primeiras produções foram relevantes para a formação do intelectual e poeta que hoje conhecemos.

E qual foi para mim a surpresa quando o poeta disse ter uma pasta com todos os recortes de jornais que diziam respeito à recepção crítica da revista nos idos de 50. Ofereceu-me para reprodução. Os préstimos com que me cedeu e o carinho com segurou, dias depois, a pasta a caminho xerox muito me impressionaram. O valor e o apreço com que Affonso Ávila tratava aqueles valiosíssimos recortes comoveu-me.

As Fontes Primárias são expressões de um tempo, de uma memória. Representam o momento artístico e são além disso objetos representativos da cultura. Sendo assim, podem ser tomadas como um texto, um grande livro. Cabe à crítica promover uma leitura desprendida de precedentes, pois as fontes possuem sua especificidade e no decorrer da pesquisa é que elas se apresentam. Atuando nos bastidores da memória cultural, a pesquisa em fontes primárias caracteriza-se como um cruzamento de textos. “A pesquisa é, enfim, uma forma de leitura de palimpsesto” (TOLENTINO, 1995).

Notas

1 Mestre em Literatura Brasileira/UFMG. Professora do Departamento de Letras, Artes e Cultura da Fundação de Ensino Superior de São João del Rei/FUNREI. voltar

Referências bibliográficas

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CAMPOS, Edson Nascimento e CURY, Maria Zilda Ferreira. Fontes Primárias em discussão. Vertentes, nº 1, São João del Rei: FUNREI, 1993, p 53-60.

CURY, Maria Zilda Ferreira. Horizontes Modernistas - o jovem Drummond e seu grupo em papel jornal. Belo Horizonte: Autêntica, 1998.

_____. Cartas na mesa. Vertentes, nº 1, São João del Rei: FUNREI, 1993, p 53-60.

MARQUES, Reinaldo e BITTENCOURT, Gilda Neves. Limiares Críticos: ensaios sobre literatura comparada. Belo Horizonte: Autêntica, 1998.

MIRANDA, Wander Melo. (org.) A trama da arquivo. Belo Horizonte: Editora UFMG, Centro de Estudos Literários FALE/UFMG, 1995.

SANTOS, Luís Alberto Brandão. Saber de Pedra - o livro das estátuas. Ensaio fotográfico de Ronaldo Guimarães Gouvêa. Belo Horizonte: Autêntica, 1999.

WILLEMAT, Philippe (org.). Gênese e Memória. (anais) IV Encontro Internacional de Pesquisadores do Manuscrito e de Edições. São Paulo: ANNABLUME: Associação de Pesquisadores do Manuscrito Literário, 1995.

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TOLENTINO, Eliana da Conceição. Vocação: bastidores da memória literária em Minas. Vertentes. nº 5, São João del Rei: FUNREI, 1995, p 21-27.

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