O OUTRO PAPEL DA MULHER EM JOSÉ DE ALENCAR E ROBERTO DRUMMOND

 

Renata Rena Rodrigues1

Francis Paulina Lopes da Silva2

 

 

A mulher, nos tempos atuais, vem se manifestando incessantemente em defesa de seu espaço, buscando maior autonomia e participação mais ativa na sociedade. Já no Romantismo, podemos encontrar alguns traços dessa autonomia, como vemos nos romances urbanos de José de Alencar. Assim também o observamos em obras da contemporaneidade, como no texto ficcional de Roberto Drummond.

Privilegiam-se, assim, neste trabalho as relações intertextuais existentes nas obras Senhora e Lucíola, de José de Alencar, e Hilda Furacão, de Roberto Drummond, em cujo discurso literário observam-se aproximações, embora representem culturas de diferentes épocas e tendências. As protagonistas dessas obras são mulheres que se distinguem de sua época, figuras realmente de destaque numa sociedade de valores restritos e extremamente voltada aos interesses masculinos.

 

A Mulher "romântica" de Alencar.

 

Alencar desenvolve, na maioria dos seus romances, a idéia da mulher vista como  "astro" ou "meteoro" que brilha fugazmente no céu da sociedade, para depois desaparecer como por encanto. Só que tal desaparecimento coincide, necessariamente, com seu casamento. Tal recorrência discursiva sugere que a independência, bem como a identidade da mulher só encontram lugar no período que decorre entre seu surgimento em sociedade e o seu casamento. É por isso que as heroínas do romance brasileiro do século XIX têm, em média, de 14 a 18 anos de idade. Quando ultrapassam  a média, já não são mais "casadoiras": no romance Lucíola, Lúcia tinha vinte e um, mas era cortesã.

Mas a idéia de astro e meteoro carrega em si uma outra significação latente: a do brilho da beleza e, se possível, do dinheiro. Aurélia ostentava as duas: tanto melhor. Foi ela a rainha dos salões e ninguém lhe disputava o cetro.

O romance romântico dirigia-se a um público mais restrito do que o atual; eram moços e moças provindos das classes altas e médias, assim, esses leitores tinham algumas exigências como reencontrar, muitas vezes, a própria e convencional realidade e projetar-se como herói ou heroína em peripécias, com o que não se depara a média dos mortais. Assim, muitas leitoras de folhetins sonhavam e se imaginavam no lugar e na posição de Aurélia, e até mesmo de Lúcia.

            O romance sempre propõe ao leitor o tema dos liames entre a vida e a ficção, gerando problemas como a verossimilhança das histórias, a coerência moral das personagens, a fidelidade das reproduções ambientais .

Alencar acreditava nas razões do coração. As sombras do seu moralismo romântico se alongam sobre as mazelas de um mundo anti-natural, como mostra em Senhora ao tratar do tema do casamento por interesse financeiro, também refere-se a sina da prostituição em Lucíola .Mas sempre esse autor busca salvar suas personagens, restaurando a sua dignidade última e redimindo-as das transações vis, repondo de pé o herói ou a heroína. Daí os enredos valerem como documento apenas indireto de uma  época esses romances que denunciam uma ética burguesa e realista das conveniências durante o segundo reinado. A sociedade na qual viviam os personagens de Alencar fazia- os à sua feição.

Apesar da sociedade privilegiar o homem, Alencar foi capaz de manipular essa realidade moldando-a  na forma da figura feminina. E como o artista que realmente foi, caracterizou Aurélia e Lúcia de maneira particular.

Como bem coloca Merquior, Alencar foi um escritor muito consciente, nada menos exato do que a assimilação do nosso maior prosador romântico a um inspirado desalento ao trabalho do estilo.Na casa dos trinta, eleito deputado pelo Ceará, dá nova vida ao nosso romance urbano com seus perfis de mulher (Cf. Merquior, 1996, p. 117).

 

Aurélia, a dama dos salões

 

A figura de Aurélia, do romance Senhora, representa uma contestação dos estereótipos femininos do sec. XIX.

 Em meio a essa sociedade em que se comerciavam  até os próprios sentimentos estava Aurélia, uma figura diferente das mulheres encontradas nesse meio.

Alencar ao criar a protagonista de Senhora, colocou-se à frente de seu tempo. Tratou a mulher não como mero produto de consumo, mas dotou-a de inteligência, e vontade, capaz de colocar-se lado a lado com o homem.

A personagem de Alencar, em sua beleza e encanto, desde cedo deslumbrou a sociedade. "Tinha dezoito anos quando apareceu a primeira vez na sociedade. Não a conheciam; e logo buscaram todos com avidez informações acerca da grande novidade do dia"(Alencar, 1997, p. 19).

Aurélia foi autônoma, influente, dona de suas próprias atitudes .Não deixou ninguém escolher seu destino. Ela escolheu seus próprios caminhos. Suas qualidades chegaram até mesmo a ser comparadas com a dos homens:

 

A natureza dotara Aurélia com a inteligência viva e brilhante da mulher de talento, que não se atinge ao vigoroso raciocínio do homem, tem a preciosa ductilidade de prestar-se a todos os assuntos, por mais diversos que sejam. O que o irmão não conseguira em meses de prática, foi pra ela estudo de uma semana. (Alencar, 1997, p. 102)

 

Desde cedo, ela se mostrava uma mulher forte e capaz de assumir responsabilidades:

 

Aurélia é quem suportava todo peso da casa. Sua mãe, abatida pela desgraça e tolhida pela moléstia, muito fazia, evitando por todos os modos tornar-se pesada e incômoda a filha [...] o cuidado da roupa, a conta das compras diárias, as contas do Emílio e outros misteres, tomavam-lhe uma parte do dia; a outra parte ia-se em trabalhos de costuras. (Alencar, 1997, p. 103)

 

Dona de uma personalidade invejada por muitas mulheres, Aurélia era centrada em suas convicções, e nem mesmo a riqueza e todos os elogios a corromperam: "Aurélia bem longe de inebriar-se da adoração produzida por sua formosura, e do culto que lhe rendiam, ao contrário parecia unicamente possuída de indignação por essa turba vil e abjeta" (Alencar, 1997, p. 20 ).

Assim também era a sua postura inconformada e crítica, contrária a uma sociedade hipócrita, que se curvava perante os bens materiais: "As revoltas mais impetuosas de Aurélia eram justamente contra a riqueza que lhe servia de trono, e sem a qual nunca por certo, apesar de suas prendas, receberia como rainha desdenhosa, a vassalagem que lhe rendiam" (Alencar,1997, p. 21).

Vemos, pois, que Alencar criou sua heroína como um tipo de mulher cerebral, lutando contra o cordial. Amou mais seu amor que seu amante. Foi senhora de um irrepreensível comportamento.

 

Lúcia , e o direito de amar...

 

Em Lucíola, encontramos a reprise do tema da purificação da cortesã. O escritor aprofunda consideravelmente a significação humana da história do amor. Segundo Merquior, Lucíola está na confluência da novelística sentimental de George Sand e do romance "fisiológico" dos "estudos da natureza", de Balzac. Os diálogos se fazem mais firmes, e o conflito psicológico tem muito mais dimensões, do que nas epopéias indianistas ou no romance histórico. A exímia prosa de Alencar aplica o seu refinado cromatismo, o seu gosto pela metáfora caracterizadora, à representação das metamorfoses de Lúcia, a mulher a um só tempo virginal e lasciva, na moldura dos interiores burgueses da corte.(Cf Merquior, 1996, p. 117)

Alencar mais uma vez não se limitou aos valores da sociedade, Lúcia foi uma prostituta diferente; foi uma mulher que também teve o direito de amar.

Foi admirada por Paulo desde o primeiro instante que ele  a vira:

 

A lua vinha assomando pelo cimo das montanhas fronteiras; descobri nessa ocasião, a alguns passos de mim, uma linda moça, que parara um instante para contemplar no horizonte as nuvens brancas esgarçadas sobre o céu azul e estrelado. Admirei-lhe do primeiro olhar um talhe esbelto e de suprema elegância (Alencar, 1995, p. 14).

 

Podemos perceber também a instabilidade das opiniões masculinas, Paulo não foi capaz de sustentar sua opinião a respeito de Lúcia, sentiu-se envergonhado diante do comentário de Sá:

 

Compreendi e corei de minha simplicidade provinciana, que confundira a máscara hipócrita do vício com o modesto recato da inocência. Só então notei que aquela moça estava só, e que a ausência do pai, de um marido, ou de um irmão, devia-me ter feito suspeitar a verdade. (Alencar,1995, p. 15)

 

O sentimento de Paulo despertado por Lúcia foi outra evocação à figura feminina. Uma prostituta despertava desejo e prazer aos homens, instintos, os quais não se misturavam aos sentimentos. Porém, fugindo a esse estereótipo, Alencar colocou Paulo "fragilizado" diante dessa mulher, ficou dividido em meio a convenções ou ao que realmente pensava:

 

Quando me lembrava das palavras que lhe tinha ouvido na Glória, do modo por que Sá a tratara e de outras circunstâncias, como do seu isolamento a par do luxo que ostentava, tudo me parecia claro; mas se me voltava para aquela fisionomia doce e calma, perfumada com uns longes de melancolia; se encontrava o seu olhar límpido e sereno; se via o gesto quase infantil, o sorriso meigo e a atitude singela e modesta, o meu pensamento impregnado de desejos lascivos se depurava de repente, como o ar se depura com as brisas do mar que lavam as exalações da terra (Alencar, 1995, p. 19).

 

Lúcia, teve sempre consciência da vida que levava. A pureza da infância; o sacrifício da honra à saúde do pai; a brutalidade fria com que é violada, condicionam toda sua vida. A lembrança de uma inocência perdida é não apenas possibilidade permanente duma pureza futura, mas a própria razão do seu asco à prostituição. A vigorosa luxúria com que subjugava os amantes é um recurso de ajustamento por assim dizer profissional, que consegue desenvolver; quase de imposição, a si mesma, duma personalidade de circunstância que se amoldasse à lei da prostituição, preservando intacta a pureza que hibernava sob o estardalhaço da mundana. Por outras palavras, a sua sensualidade desenfreada nos aparece como técnica masoquista de reforço do sentido de culpa, renovando incessantemente as oportunidades de auto punição.

 

Hilda Furacão , a fada sexual do quarto 304

 

Assim como Alencar soube manipular a realidade, de forma a adequá-la a personalidade de suas personagens, o escritor da modernidade, Roberto Drummond, também soube aproveitar os elementos sociais de que dispunha. Mesmo com toda a distância adquirida entre Roberto e Alencar podemos estabelecer algumas relações nas obras em questão.

No final dos anos sessenta, desde que foi lançada a campanha a favor da cidade das camélias, a Zona Boêmia é um promontório de alegria. O feitiço volta-se contra o feiticeiro. A rua Guaicurus conhece noites inesquecíveis. Até mesmo a polícia foi chamada para conter os ânimos dos que disputavam um lugar na fila que vai dar num território mágico: o quarto 304, no terceiro andar Do Maravilhoso Hotel onde Hilda Furacão exercia uma das mais antigas profissões, a prostituição. Roberto Drummond, da um foco diferente de outros escritores a esse fato: trata Hilda como uma pessoa "ilustre", merecedora de fama e o prestígio de qualquer outra figura de destaque da sociedade

Hilda, como Aurélia e Lúcia, foi uma mulher a frente de seu tempo. Não se prendeu a convenções ou valores sociais, viveu intensamente, direcionada por vontades exclusivas e não adquiridas. Até valores como a religião não foram obstáculo para sua vida sem regras .

Ela não passou indiferente pela sociedade em que viveu, ao mesmo tempo que era amada era também odiada. Assim percebemos essa mistura de amor e ódio:

 

As mulheres de Belo Horizonte, as mães de família, as esposas, as noivas, as namoradas odiavam Hilda Furacão, mas os homens, ah, os homens a amavam, ela os fazia subir pelas paredes e conhecer paraíso; daí, e a concorrência desleal dos coronéis fazia a cotação subir, o câmbio de Hilda Furacão ser tão alto. (Drummond, 1991, p. 38)

 

Roberto Drummond, enfatizando um cenário realista e merialístico da BH dos anos sessenta, construiu em sua protagonista uma pessoa realmente de destaque, uma mulher que soube se fazer presente dentre as demais:

 

Ela era uma bela mulher, inesquecível moça; ficava na beira da piscina olímpica do Minas Tênis Clube, onde o futuro escritor Fernando Sabino bateu recordes como campeão de natação; onde mergulhou um jovem que seria o famoso cirurgião plástico Ivo Pitanguy. Dizem que na época ganhou uma ode feita pelo poeta Paulo Mendes Campos e inspirou um conto (ainda que ele negue) de Otto Lara Resende. (Drummond, 1991, p. 40)

 

Outro aspecto relevante que podemos observar na personalidade de Hilda é sua capacidade de  dominação. Sua presença é tão forte que consegue desarmar até Frei Malthus que a sociedade considerava  "santo", por sua vida de dedicação e virtude, na prática religiosa:

 

[...] esperava ver Hilda Furacão com uma enorme e obscena boca lambuzada de batom, revoltos cabelos, brincos de argolão e, nos olhos quem sabe negros, um certo cansaço daquela vida de orgias e toda lascívia deste mundo. Por tudo isso - e sentiu que era ela quem vinha em sua direção pela estranha reação dos soldados e guardas-civis que, ao vê-la passar e barrar-lhe o caminho, tiraram reverenciosamente seus quepes e bonés, sendo que alguns caíram de joelhos, enquanto um silêncio imenso se fez, por tudo isso, duvidou do que via.

- Ajudai-me Santo Antão - rogou, que não posso crer no que vejo! (Drummond, 1991, p. 56)

 

A superioridade da figura da mulher criada por Roberto Drummond chega a confundir as idéias de Frei Malthus, obstinado pela paixão:

 

[...] teve medo de pensar (oh, louco coração! ) que ela não usava sutiã e que seus seios recordavam duas maças argentinas e eram inquietos como os pássaros do paraíso.[...] - Mais fosse um anjo - pensou o santo - Ah, Santo Antão, o demônio sabe como se fantasiar para nos tentar! (Drummond, 1991, p. 57)

 

Na construção desse personagem masculino, o autor chega ao extremo de apresenta-lo  em sua fragilidade e impotência, confuso diante dos sentimentos de uma mulher tão decidida. Aqui percebemos que Frei Malthus já temia por Hilda.

 

O coração começava a deixar transparecer os sentimentos. Forças opostas faziam pressão naquele ingênuo coração: "Num clarão que se prolongou Hilda Furacão ficou iluminada e, ao vê-la, conforme novas confissões, Frei Malthus teve um estranho medo: de que um raio caísse na Rua Guaicurus e a matasse." (Drummond, 1991, p. 61)

 

A mulher era quem tinha fama de suspiros e gestos como transferir a objetos sentimentos que não podiam ser diretamente dirigido a pessoa amada: "[...] acreditou no momento em que apanhou no asfalto molhado e, controlando a vontade de beijá-lo, o meteu no bolso do hábito de dominicano, viu que ninguém viu o que acabava de acontecer..." (Drummond, 1991, p. 65).

Hilda Furacão tornou-se um fenômeno, muitas mulheres invejaram sua posição. O fascínio por ela exercido aos homens era inédito. Nunca uma mulher tinha conseguido tantos adeptos a sua beleza como ela. Foi ousada, independente, autônoma e crítica. Tornou-se também "senhora" de próprio destino.

 

 

 

 

Considerações Finais

 

Há, pelo menos dois alencares em que desdobrou nesses noventa anos de admiração: o Alencar dos rapazes, heróico, altissonante; o Alencar das mocinhas, gracioso, e sem medo de demostrar a realidade pura e simples como ela é.

Sem dúvida, Aurélia, Lúcia e Hilda Furacão foram mulheres à frente de seu tempo. Mulheres que não se limitaram a posição de simples companheira do homem, ou mesmo uma máquina procriadora. José de Alencar e Roberto Drummond atribuiram outros papéis à suas personagens. Não se submeteram, simplesmente, a cópias ou estereótipos da realidade em que viviam, mas tiveram a capacidade de ser dinâmicos e autênticos, desligando-se da posição privilegiada de homens assumida por elas.

 

 

 

Referências Bibliográficas

 

ALENCAR, José de. Lucíola. São Paulo: Ática,1995

 

ALENCAR, José de. Senhora. Rio de Janeiro: Ediouro,1991

 

BARRETO, Tobias. Crítica de literatura e arte. Rio de janeiro: Record, 1989

 

CANDIDO, Antônio. Formação da literatura brasileira. Belo Horizonte: Itatiaia,1981.

 

BOSI, Alfredo. História concisa da literatura brasileira. São Paulo: Cultrix,1980.

 

DRUMMOND, Roberto. Hilda Furacão. São Paulo: Siciliano, 1991.

 

MERQUIOR, José Guilherme. De Anchieta a Euclides. Rio de Janeiro: Topbooks,1996.

 

RIBEIRO, Luis Filipe. Mulheres de papel: um estudo imaginário em José de Alencar e    

Machado de Assis. Niterói :  EDUFF,1996.

 



1 Aluna do 6º período do Curso de Letras da Universidade Federal de Viçosa

2 Professora Adjunta do Departamento de Letras e Artes, UFV. Doutora em Teoria Literária. Autora dos 

        livros A Lira Dissonante e Murilo Mendes: Orfeu Transubstanciado.