MPC 01-05

A DINÂMICA DA MODERNIZAÇÃO AGRÍCOLA NO BRASIL

E NO ESTADO DE MINAS GERAIS : 1985-1995

 

 

Armando Chinelatto Neto[1]

Adriano Provezano Gomes[2]

 

 

Sinopse: Este trabalho utilizou as hipóteses contidas no modelo de inovação induzida para analisar a dinâmica da modernização da agricultura mineira e nacional, no período de 1985 a 1995. Este modelo identifica os exemplos clássicos da agricultura japonesa e norte-americana, onde, em ambos os casos, a modernização ocorreu no sentido de poupar relativamente mais o fator de produção mais escasso. Na metodologia utilizada, os estabelecimentos agrícolas foram estratificados de acordo com a área e a categoria do produtor, isto é, se proprietário, arrendatário, parceiro ou ocupante. Esta divisão teve o objetivo de identificar qual a dinâmica de seleção dos estabelecimentos e categorias de produtores aptos a permanecerem no mercado. Foram calculadas a migração rural-urbana e a variação do uso dos fatores terra e trabalho, por tamanho do estabelecimento, para identificar qual o sentido da modernização em cada estrato de terra. Os dados utilizados foram coletados dos Censos Agropecuários e Anuários Estatísticos, referentes ao Brasil e ao Estado de Minas Gerais. Os principais resultados indicam que, de modo geral, observa-se a mesma tendência, tanto para Minas Gerais quanto para o Brasil, a saber: exclusão dos minifúndios e latifúndios, concentrando as propriedades nos estratos intermediários de terra; redução das categorias de produtores que apresentam menores autonomias decisórias e menores vínculos com a terra, privilegiando os proprietários de terras; existência de um elevado contingente de migrantes do meio rural para o urbano; e redução do uso de ambos os fatores de produção, terra e trabalho. No entanto, a redução foi mais intensa no uso de trabalho, fornecendo indícios de que a geração e adoção de tecnologias foram no sentido de reduzir a relação trabalho/terra. Nota-se que a redução de mão-de-obra e a migração rural-urbana ocorreram simultaneamente, podendo-se atribuir certo grau de correlação entre os dois eventos, seja pela atratividade das cidades, seja pela modernização.

Palavras-chave: Modernização agrícola, migração rural-urbana, estrutura fundiária.

 

 

I. Introdução

 

1.1. Considerações iniciais

 

A industrialização do Brasil é acompanhada de crescente urbanização da população. Esta tendência já foi observada em muitos países desenvolvidos, onde a mecanização da agricultura aumentou a produtividade da terra e diminuiu o emprego de mão-de-obra.

O modelo de inovação induzida, proposto por HAYAMI e RUTTAN (1988), pode representar quais as possíveis direções do desenvolvimento agrícola. Este modelo considera a tecnologia como variável endógena dos sistemas econômicos, destacando a existência de múltiplos caminhos para o desenvolvimento técnico. A escolha de qual caminho seguir, depende da dotação de fatores produtivos da economia e das forças de mercado, à medida que seus preços relativos são estabelecidos.

A inovação induzida consiste na orientação tecnológica no sentido de poupar o uso de fatores escassos e intensificar o uso dos fatores abundantes. Os Estados Unidos e o Japão são exemplos desse modelo de desenvolvimento orientado. O setor agrícola desses dois países tiveram rápida e constante modernização, entretanto, o sentido da modernização foi diferente em cada país. No Japão, foram verificados intensos aumentos na produtividade da terra, já nos Estados Unidos, a produtividade da terra não cresceu tanto. O que se verificou na agricultura norte-americana foi um crescente aumento na produtividade do fator trabalho.

A explicação está no tipo de tecnologia adotada. O Japão é um país de mão-de-obra abundante e terra escassa, optando por uma tecnologia que poupasse esse fator.  Por outro lado, não há tanta limitação de terra nos Estados Unidos, e sim do fator mão-de-obra, em função do elevado grau de urbanização, justificando o direcionamento da geração de tecnologias mecânicas, no sentido de aumentar a produtividade do trabalho.

As alternativas de modernização da agricultura brasileira, sugeridas por ALVES (1996), estão relacionadas às forças de mercado, tendendo a criar um setor agrícola que pouco emprega mão-de-obra assalariada. Nesse sentido, observa-se uma tendência de crescimento na utilização de tecnologias poupadoras de mão-de-obra, em intensidade superior à utilização de outras tecnologias, poupadoras de terra, juntamente com o processo migratório.

Buscou-se, a partir da argumentação apresentada até aqui, identificar evidências da existência de transformações na agricultura brasileira que foram preconizadas por autores como KAGEYAMA e SILVA (1983), no que diz respeito a tecnologia  adotada e seus desdobramentos sobre a forma de produzir. Portanto, este trabalho tem o objetivo de traçar qual o perfil da estrutura produtiva agrícola, no período de 1985 a 1995, nas regiões brasileiras.

Mais especificamente pretende-se dividir os estabelecimentos agrícolas em quatro estratos de terra e analisados de acordo com as condições de posse das terras, número de estabelecimentos e área concentrada em cada estrato no Brasil e Minas Gerais, para o período de 1985 a 1995. Foi mensurada a migração rural-urbana e realizado um estudo comparativo do uso dos fatores terra e mão-de-obra, mediante o cálculo da variação do pessoal ocupado na agricultura, variação da área total dos estabelecimentos e variação da relação pessoal ocupado/área, no período de 1985 a 1995.

 

1.2. Condicionantes da mudança tecnológica e impactos sociais

 

Tratando dos condicionantes da mudança tecnológica na agricultura, PAIVA (1976) descreveu que o processo de mudança através da incorporação de modernas técnicas de produção ocorre lentamente e, em uma mesma região ou entre regiões, encontram-se agricultores cujos níveis tecnológicos divergem.

A falta de condições ou de qualificações para a adoção de novas técnicas são resumidas por GALJART (1973) em três aspectos: a ignorância e o desinteresse, que são fatores de caráter subjetivo, e a impotência resultante de fatores objetivos. A ignorância é fruto do desconhecimento total ou parcial das novas técnicas, da sua forma de utilização ou de seus resultados possíveis, deixando de adotá-las em razão dos riscos e incertezas envolvidos nessa decisão.  O desinteresse ocorre quando o agricultor sabe qual o procedimento para melhorar a eficiência produtiva, podendo efetivamente fazê-lo, mas não o quer. A atitude deliberada de não aceitação da nova tecnologia é fruto da avaliação do produtor e está intimamente ligada à pouca disposição do indivíduo para abandonar hábitos e costumes e para superar incômodos que a mudança de comportamento acarreta. Trata-se de uma resistência natural dos agricultores à adoção de inovações, explicada por vários autores como conseqüência da falta de motivação para o êxito, preferência pelo ócio, carência de capacidade criadora e falta de ânimo independente e experimental.

A impotência trata das limitações de recursos naturais ou econômicos do agricultor e expõe claramente o ponto de estrangulamento das pequenas propriedades rurais. Mesmo que os produtores conheçam, aceitem e desejem adotar as novas tecnologias, não tem mais meios materiais para fazê-lo.

De acordo com PASTORE (1977), a não adoção de inovações tecnológicas na agricultura se deve principalmente à impotência resultante da inadequação das técnicas disponíveis e à escassez de recursos naturais. Estes fatores atingem mais intensamente os agricultores pobres, pois trabalham em pequenas áreas que não dispõem de condições essenciais para a agricultura. São áreas de solo geralmente exaurido, topografia desfavorável e sujeita a regimes climáticos desfavoráveis. 

Alguns fatores externos aos produtores, aqui chamados de fatores objetivos, que afetam a adoção de práticas agrícolas mais racionais, são discutidos por MESQUITA (1998). Este autor formulou hipóteses a respeito do tipo de influência que eles podem exercer sobre decisões do agricultor.

O estoque de capital, referente aos meios materiais que o produtor possui para desenvolver as atividades agrícolas, é composto por terras, benfeitorias, máquinas, equipamentos e animais de serviços, bem como as atividades ou fontes de renda capazes de gerar recursos utilizáveis no processo produtivo, como as culturas permanentes, matrizes e reprodutores, florestas e recursos de extrativismo.  Partindo do princípio de que  adoção de técnicas de produção modernas e mais produtivas implica em despesas com a aquisição de novos fatores de produção, geralmente mais caros do que os tradicionais, é razoável esperar que um agricultor com maior estoque de capital tenha mais facilidade para adotar novas tecnologias. Não dispondo dos recursos necessários para adquirir novos fatores, o agricultor não adota as inovações, salvo condições de acesso ao sistema de crédito. Porém, este último pressupõe a existência de garantias e de capacidade de pagamento, limitando o acesso dos pequenos produtores.

O tamanho da propriedade relaciona-se com a disponibilidade de capital e a dotação de recursos naturais da unidade de produção. A abundância do fator terra nas grandes propriedades representa um maior estoque de capital, facilitando a obtenção do crédito que viabiliza a aquisição de fatores novos e mais produtivos. Os proprietários de grandes fazendas obtêm economias de escala na produção e na comercialização, apresentando melhores condições de assumir riscos com investimentos em inovações, além de serem melhor assistidos pelas políticas governamentais dirigidas à agricultura. 

As condições de posse e uso da terra influenciam à medida que o acesso à terra, em condições favoráveis para sua utilização, atuam sobre o fluxo de capital do produtor e, conseqüentemente, sua adoção de tecnologia. Não tendo a posse da terra que cultiva, os resultados econômicos obtidos pelo agricultor são diminuídos em função do pagamento de renda ao proprietário. Os produtores sem terra apresentam menores incentivos para adotar novas práticas. Embora muitos custos sejam distribuídos entre o dono da terra e o agricultor, é este último que realiza o esforço físico e assume em maior grau o risco envolvido na adoção da inovação, para depois dividir com o proprietário boa parcela do seu ganho. Quando um agricultor recebe somente metade do produto adicional, ou parte deste, a lucratividade que serve de incentivo para ele aceitar ou não a adoção de um novo fator representa somente metade, ou parte da lucratividade real. 

Outros aspectos devem ser ressaltados, dependendo dos contratos de parceria ou arrendamento, pois o produtor não proprietário tem pouco estímulo para adotar tecnologia, porque nem sempre consegue terras de boa qualidade para explorar, não tem permissão ou incentivos para realizar investimentos como correção, conservação e sistematização de solos, não tem controle sobre o capital e não tem poder de decisão sobre todos os aspectos da produção. 

A disponibilidade de mão-de-obra, mais especificamente a sua quantidade e qualidade,  determina a escolha do produtor entre uma tecnologia tradicional e uma moderna. Sendo escassa ou desqualificada a mão-de-obra, o agricultor tende a reduzir seu uso através do uso mais intensivo de máquinas. Na abundância e maior eficiência de mão-de-obra, o produtor tende a adotar práticas trabalho-intensivas, que possibilitem melhor aproveitamento desse fator. Os custos de substituição, de treinamento ou de complementação da eficiência da mão-de-obra são comparados e determinam, em última análise, a opção tecnológica a ser adotada.

Os pequenos agricultores dispõem de mão-de-obra familiar, utilizando, comparativamente, menos mão-de-obra contratada. Deste modo, a relação esperada entre mão-de-obra familiar e a adoção de inovações técnicas depende do tipo da inovação a ser adotada. Um produtor que dispõe de muita mão-de-obra familiar tende a adotar técnicas que aumentem o emprego deste fator, ao passo que em condições de menor disponibilidade de mão-de-obra familiar, a tendência do produtor é adotar técnicas que poupem mão-de-obra.

A assistência técnica é uma das condições essenciais para um agricultor adotar inovações técnicas, pois constitui o fornecimento do conhecimento sobre essa técnicas e seu modo de aplicação. Em decorrência disso, supõe-se que os produtores assistidos pelos serviços oficiais de extensão ou por instituições particulares, cooperativas ou empresas privadas de assistência técnica, têm maiores possibilidades de utilizar tecnologias mais modernas de modo mais eficiente em seu processo de produção. Novamente, o fator tamanho do estabelecimento, juntamente com o estoque de capital, desempenham papel importante na adoção de novas tecnologias, por representar condicionante para o acesso à assistência técnica.

As pequenas propriedades não podem se desenvolver por limitações de ordem física e econômica e as políticas econômicas, de um modo geral, são melhor aproveitadas pelas grandes propriedades, deixando os pequenos proprietários à margem de seus benefícios. 

Nas pequenas produções, o número de pessoas que dependem diretamente da atividade agrícola é maior que na grande produção, pois nessa estrutura agrária concentrada, com  maior parte das terras nas mãos de poucas pessoas, a área restante é a subdivisão em muitos minifúndios com baixa capacidade de acumular capital, apresentando dificuldades  para conseguir modernizar. As pequenas unidades produtivas não concorrem com as grandes na produção de bens mais lucrativos, porque a baixa rentabilidade de suas explorações impossibilita a acumulação do capital necessário à adoção de tecnologia indispensável e para obter melhor dotação de recursos naturais, economias de escala, facilidades de crédito e de comercialização.

Portanto, buscou-se qualificar quais fatores são os fatores responsáveis pela seleção dos estabelecimentos aptos a adotar as novas técnicas de produção. Dentre eles, assume-se que os principais fatores são chamados aqui de fatores objetivos, determinados pelo tamanho das propriedades e sua forma de posse e uso.

De acordo com SILVA (1996), o resultado da "industrialização da agricultura" brasileira foi uma "orquestração de interesses" agrários, industriais e financeiros, impondo a concentração e centralização dos capitais aplicados no setor agropecuário. Essa moderna maneira de produzir tem um caráter excludente quanto a utilização de mão-de-obra, quanto ao tamanho dos produtores e as regiões do país. São integrados os médios e grandes produtores, localizados preponderantemente nas regiões Centro-Oeste, Sudeste e Sul. Cresce a migração rural/urbana e inter-regional, reduz o emprego rural em relação ao urbano, e elimina a pequena a pequena produção.

Ao tratar dos impactos sociais da modernização agrícola, MARTINE e GARCIA (1987) argumentam que, a revolução mecânica, a revolução química e a "explosão demográfica" ocorreram simultaneamente, representando os processos-chave no caso brasileiro.

Neste contexto ALVES (1989) afirma que quando um país atinge o estágio pleno da agricultura moderna, a força de trabalho empregada neste setor situa-se entre 2% e 15%, como é o caso dos EUA (2%), da França (8%) e da Espanha (15%). Com o passar do tempo o crescimento dos setores industrial e de serviços e a intensificação da mecanização poderão significar maior proximidade da agricultura brasileira, no fim do século, ao modelo espanhol.

Para ALVES (1999), as regiões Sul, Centro-Oeste e Sudeste têm índices de urbanização próximos ou superiores aos dos Estados Unidos. Parte da população ocupada na agricultura vive nas cidades, de forma que a população ocupada da agricultura não caiu, em termos absolutos, como o ocorrido com a população rural. Porém, há decréscimo acentuado e contínuo, a uma taxa instantânea estimada de 3,4%, do Pessoal Ocupado na Agricultura por unidade de PIB agrícola.

Portanto, foi descrita uma dinâmica seletiva e concentradora no tocante à modernização, juntamente com a migração do meio rural para o urbano.

 

1.3 Tendência da produção agrícola

 

O processo de modernização do setor agrícola, pode ser melhor compreendido, de acordo com a disponibilidade relativa de recursos produtivos. Com a ajuda da Figura 1, pode-se identificar os possíveis caminhos de modernização a serem seguidos, a partir de uma dada situação inicial.

Na Figura 1, o eixo vertical mede a produtividade da terra e o eixo horizontal a produtividade do trabalho. De acordo com ALVES (1996), considerando que as produtividades iniciais são baixas, pode-se observar três possíveis caminhos para a evolução das produtividades:

-         Aumentar somente a produtividade do trabalho (caminho A);

-         Aumentar somente a produtividade da terra (caminho B); e

-         Aumentar tanto a produtividade da terra quanto a do trabalho (caminho C).

Regiões com grande oferta de trabalho agrícola tenderão para o caminho B, onde o emprego rural é a única opção para parte da população. Caso a mão-de-obra utilizada permaneça constante, haveria ganho na produtividade do trabalho, e a tendência seria o caminho C.

O caminho A, no qual somente ocorre o aumento da produtividade do trabalho, indica um aumento da mecanização no processo produtivo. Esse caminho está relacionado às regiões onde ocorreu uma urbanização intensa e uma conseqüente redução da força de trabalho agrícola.

Segundo ALVES (1996), há indícios demonstrando que o processo de urbanização do Brasil, a partir de 1960, é responsável pela redução da disponibilidade de mão-de-obra no setor rural. Aliada a esta tendência, destaca-se o aumento da utilização de processos mais tecnificados, atuando como destruidor de empregos agrícolas.

 

 

 
 

 


 


             

                

 

 

 

 

 

 

 

 


Figura 1: Tendências na Organização da Produção[3]

 

O que se sugere, por fim, é que o crescimento na utilização de tecnologias mecânicas, poupadoras de mão-de-obra em intensidade superior à utilização de outras tecnologias poupadoras de terra, associado ao gradativo processo de urbanização da população que tem se intensificado, justificam a hipótese de que o Brasil segue o caminho A. Esta tendência, como já mencionado, é semelhante ao que ocorreu na agricultura norte-americana, nas décadas passadas. A existência de características semelhantes entre os dois países, como a extensão territorial e a condição urbano-industrial, fornece os indicativos da semelhança nas atividades agrícolas nacionais com as norte-americanas.

 

2. Modelo analítico

 

Foi usada a seguinte estratificação dos estabelecimentos agrícolas, em quatro grupos de área: 1) menor que 10 hectares; 2) de 10 até menor de 100 hectares; 3) de 100 até menor de 1000 hectares; e  4) maior que 1000 hectares.

Segundo ALBUQUERQUE (1987), esta separação destaca três tipos básicos de posse de terra. Os minifúndios, caracterizados por baixo investimento em equipamentos, construções e capital humano, sendo pouco sensível às mudanças tecnológicas. Os latifúndios, parcialmente ou totalmente inaproveitadas. Duas categorias intermediárias, descritas pelo autor como sendo as mais dinâmicas.

Foram consideradas as seguintes categorias de produtor: proprietários , arrendatários, parceiros e ocupantes. De acordo com MESQUITA (1998), os proprietários de grandes fazendas podem se apropriar das novas técnicas, pois apresentam melhores condições de assumir riscos com investimentos em inovações e têm maior autonomia decisória.

            Para dimensionar o êxodo rural, foi usado um método que indicará se a pessoa deixou o meio rural de uma determinada região. O destino pode ser o meio rural de outra região ou a cidade. O destino só pode ser auferido, através dos dados agregados do Brasil. A soma dos estados será, portanto, maior que o resultado obtido para o Brasil. Este procedimento foi utilizado por ALVES (1995), sendo assim especificado:

- Calcula-se a taxa de crescimento da população rural e da população total do país/estado para cada decênio dada pela equação:

 

Pf = P0  eAR                                                                                                                (1)

 

Em que:

 

Pf  = População final da década;

P0 = População do começo da década;   

A = Taxa instantânea de crescimento; e

R = Número de anos do período utilizado.

 

- Cada década é dividida em n períodos. Assumindo que dentro do período a população rural cresce de acordo com a taxa de crescimento do País/estado, será verificado, no final do período, qual é a diferença entre a população rural estimada e a população existente no meio rural. Essa diferença representa a migração do período, e a soma da migrações dos n períodos é a migração da década. Deixando n tender para o infinito tem-se a fórmula que possibilita a aferição da migração instantânea:

 

                                                                                                  (2)

 

Em que:

M = quantidade de pessoas que migraram na década;

A = taxa instantânea de crescimento da população rural;

B = taxa instantânea de crescimento da população total;

R = número de anos do período; e

P0 = população do início da década.

 

Os dados secundários foram coletados nos Censos Agropecuários de 1985 e 1995/96, e nos Anuários Estatísticos de 1985 e 1996. Foram calculados os percentuais de participação do número de estabelecimentos e área de cada estrato de terra e a categoria de produtor em relação ao total de estabelecimentos, bem com os percentuais de redução do uso dos fatores terra e mão-de-obra. Os resultados dos cálculos foram organizados em tabelas.

 

 

3. Resultados e discussão

 

Como muitos autores sugerem, a tecnologia moderna elimina a mão-de-obra assalariada e reduz o número de produtores. As novas tecnologias, principalmente mecânicas, poupadoras de mão-de-obra, são acessíveis aos produtores que são proprietários das terras que cultivam, em maiores propriedades por serem mais capitalizadas, dispondo de maior autonomia decisória, exercendo pressão para concentrar as terras e diminuir os postos de trabalho. Ocorre a diminuição dos estabelecimentos agrícolas, eliminação da pequena produção e dos produtores não proprietários, a concentração de terras e a migração do meio rural para o urbano.

A Tabela 1 mostra a distribuição da posse da terra nas regiões brasileiras, bem como a variação do número de propriedades, no período de 1985 a 1995. Enquanto a distribuição da posse da terra refere-se à participação percentual de cada estrato de produtores no número total de estabelecimentos, a variação calculada na última coluna refere-se ao crescimento/decrescimento do número de propriedades, em determinada condição do produtor, em relação ao período inicial de análise.

 

Tabela 1: Distribuição percentual da Posse da terra e variação percentual do número de propriedades, por condição do produtor,  no período de 1985 a 1995

 

Condição do produtor

1985

1995

Variação (%)

 

 

Brasil

 

Proprietário

65,03

73,98

-4,1

Arrendatário

9,58

5,52

-51,4

Parceiro

7,49

5,71

-35,7

Ocupante

18,08

14,60

-31,9

Total

100,0

100,0

-15,7

 

 

Minas Gerais

 

Proprietário

85,74

88,45

-7,1

Arrendatário

3,90

3,16

-27,1

Parceiro

2,96

3,23

-1,9

Ocupante

7,39

5,16

-37,1

Total

100,0

100,0

-9,9

Fonte: IBGE - Censo Agropecuário (1985 e 1995/96).

 

Merece destaque a participação dos estabelecimentos cujo produtor é proprietário das terras que cultiva, bem como sua variação no período analisado (de 65% para 74% no Brasil e de 85% para 88% em Minas Gerais, onde as magnitudes podem demonstrar que o estado de Minas Gerais se encontra mais inserido em uma forma de produção agrícola mais eficiente). Os mais afetados foram os não-proprietários, que, além de responderem por um número reduzido de estabelecimentos, perdem espaço relativo.

Reduz a participação relativa no total de estabelecimentos, para todos os grupos de área. No entanto, deve-se proceder com cautela na análise por estratos de terra pois Minas Gerais apresenta resultados diferentes do esperado. Observa-se maior redução dos menores estabelecimentos para o país, enquanto que Minas Gerais apresenta reduções relativamente menores no número de pequenas propriedades. Ou seja, a variação absoluta durante o período mostra que a queda do número de estabelecimentos é maior nas menores propriedades no Brasil, sendo diferente o comportamento observado no estado de Minas Gerais, como mostra a Tabela 2.

 

 

 

 

Tabela 2: Distribuição percentual e variação do número de estabelecimentos agrícolas, por grupos de área,  no período de 1985 a 1995

 

Grupos de Área (ha)

1985

1995

Variação (%)

 

 

Brasil

 

< 10

52,50

49,44

-20,6

10 a 100

37,48

39,43

-11,3

100 a 1000

9,04

9,67

-9,8

1000 e +

0,88

1,02

-2,2

Total

100,0

100,0

-15,7

 

 

Minas Gerais

 

< 10

33,20

34,15

-7,4

10 a 100

50,19

49,59

-11,0

100 a 1000

15,32

15,26

-10,3

1000 e +

0,95

0,91

-13,4

Total

100,0

100,0

-9,9

Fonte: IBGE – Censo Agropecuário (1985 e 1995/96).

 

 

 

Como mostra a Tabela 3, os percentuais de participação da área cultivada em cada estrato de terra permanece relativamente constante em Minas Gerais, apresentando um comportamento um pouco diferenciado para o Brasil no que diz respeito ao maior estrato de terra (mais de 1000 hectares), variando de 43,6% para 45.1%. 

Ocorre diminuição da área total cultivada, onde a diminuição é maior nos minifúndios e latifúndios, ou seja, observa-se que  as terras concentram-se nos estratos intermediários. Porém pode-se observar diferentes magnitudes nesta dinâmica, pois enquanto no Brasil os minifúndios e latifúndios reduziram de 21% e 17% respectivamente, em Minas Gerais foram de 12%, sendo que os estratos intermediários reduziram 10% em ambos os casos. 

O método utilizado para dimensionar a migração forneceu as taxas instantâneas de crescimento da população total e rural, a quantidade de migrantes na década e sua relação com a população rural no ano base, como mostra a Tabela 4.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Tabela 3: Distribuição percentual e variação da área dos estabelecimentos agrícolas, por grupos de área, no período de 1985 a 1995

 

Grupos de Área (ha)

1985

1995

Variação (%)

 

 

Brasil

 

< 10

2,61

2,23

-21,47

10 a 100

18,57

17,73

-10,79

100 a 1000

35,20

34,94

-10,56

1000 e +

43,61

45,09

-17,52

Total

100,0

100,0

-13,94

 

 

Minas Gerais

 

< 10

1,86

1,84

-12,1

10 a 100

21,50

21,68

-10,2

100 a 1000

47,69

47,90

-10,6

1000 e +

28,94

28,49

-12,4

Total

100,0

100,0

-11,0

Fonte: IBGE – Censo Agropecuário (1985 e 1995/96).

 

 

 

 

Tabela 4: Migração rural-urbana no período e taxas instantâneas de crescimento da população rural e total, nos anos 1985 e 1996

 

Regiões

Migração

(**)

M/P0

(***)

Taxas instantâneas

 

Total

Rural

Brasil (*)

11.574.616

8,5

1,34

-0,99

 

Minas Gerais

2.912.608

19,9

1,21

-0,66

 

Fonte: IBGE - Anuário Estatístico 1986  e Contagem da população 1996.

(*) Exceto a zona rural da região Norte.

(**) Total de pessoas que migraram no período.

(***) Total de migrantes em relação à população rural inicial.

 

 

Pode-se dizer que existem grandes semelhanças entre o país e o estado quanto a variação da área e as condições de posse dos estabelecimentos agrícolas, bem como  existência de um contingente de migrantes. Porém há diferenças na análise quanto ao número de estabelecimentos agrícolas em cada estrato de terra, pois Minas Gerais apresenta crescimento de minifúndios.

Como já é usual na literatura econômica, a comparação entre os anos demonstra a ocorrência de incrementos significativos no uso da maioria dos insumos, principalmente tratores e processos tecnificados, que constituem tecnologias poupadoras de mão-de-obra. Para evidenciar a menor utilização de mão-de-obra, vis a vis terra, considere os dados da Tabela 5, que descrevem o comportamento do pessoal ocupado, da área e da relação pessoal ocupado/área no período de 1985 a 1995. Reduz tanto o pessoal ocupado quanto da área, em todas regiões e em todos os estratos de terra. Entretanto, quando se considera a relação pessoal ocupado/área, verifica-se maior redução nas maiores propriedades.

 

Tabela 5: Variação percentual do pessoal ocupado na agricultura, da área total dos estabelecimentos e da relação pessoal ocupado/área, no período de 1985 a 1995

 

Grupos de área (ha)

Área

Pessoal Ocupado

Pessoal/Área

 

 

Brasil

 

< 10

-21,47

-21,53

-0,08

10 a 100

-10,79

-23,13

-13,83

100 a 1000

-10,56

-28,91

-20,51

1000 e +

-17,52

-24,02

-7,88

Total

-13,94

-23,47

-11,07

 

 

Minas Gerais

 

< 10

-12,1

-11,5

0,7

10 a 100

-10,2

-24,5

-15,8

100 a 1000

-10,6

-32,1

-24,1

1000 e +

-12,4

-42,2

-34,0

Total

-11,0

-24,8

-15,6

Fonte: Censo Agropecuário 1985 e 1995.

 

A redução na relação trabalho/terra indica que o processo de modernização ocorreu no sentido de se poupar relativamente mais trabalho, sendo mais intenso nos médios e grandes produtores.

Do que foi discutido até agora, pode-se dizer que a análise das propriedades agrícolas mostrou que ouve mudanças distintas quanto ao número das propriedades, sendo homogêneas as alterações quanto a área das propriedades,  às condições de posse dessas terras, bem como sobre a  utilização de mão-de-obra e a migração do campo para a cidade. Optou-se por tecnologias que poupavam mais o fator terra, em relação ao fator trabalho.

Em síntese, os resultados obtidos confirmam a proposição de que os ganhos de produtividade são oriundos da maior redução do uso de mão-de-obra, vis a vis terra, tanto em Minas Gerais como no Brasil.

 

4. Conclusão

 

Durante o período analisado, observou-se que houve redução no uso de mão-de-obra em relação ao uso de terra, tanto no Brasil quanto em Minas Gerais. Conclui-se que as inovações tecnológicas ocorreram de forma orientada, no sentido de poupar o fator de produção relativamente mais caro.

Pode-se dizer que a tecnologia moderna poupou mão-de-obra assalariada, reduziu o número de produtores e concentrou a propriedade das terras, onde a redução dos postos de trabalho no campo foi um dos motivos da crescente urbanização do Brasil. A reestruturação do setor agrícola na década de 90 foi marcada pela abertura comercial indiscriminada e a agricultura não foi exceção no movimento da modernização tecnológica, ou seja, as inovações mecânicas, químicas ou bioquímicas influenciaram negativamente o nível de emprego rural, como aconteceu em períodos anteriores. A agricultura atual é fruto de uma mudança fundamental, de caráter excludente quanto às regiões e ao tamanho, privilegiando médios e grandes produtores, localizados nas regiões Centro-Oeste, Sudeste e Sul, como muitos autores sugerem.

Porém, ao analisar a evolução das propriedades agrícolas, observa-se que em Minas Gerais aumentou-se o número de minifúndios, constituindo único aspecto divergente deste Estado em relação ao país. De maneira geral, à medida que as terras são concentradas, a participação relativa do número de estabelecimentos em cada estrato desconcentra-se, significando a diminuição do número de pequenas propriedades no Brasil.

De acordo com dados do IBGE, o aumento de postos de trabalho entre 1970 e 1985 foi compensado pelo acentuado decréscimo ocorrido na década seguinte. Nota-se, ao analisar a variação do  pessoal ocupado e a variação da área total dos estabelecimentos, a redução da relação pessoal ocupado/área, fornecendo indícios da menor utilização de mão-de-obra vis a vis terra, entre 1985 e 1995.

Portanto, o aumento da produção agrícola foi acompanhada de ganhos de produtividade do trabalho e da terra, onde a redução na relação trabalho/terra indica que o processo de modernização ocorreu no sentido de se poupar relativamente mais trabalho nas propriedades maiores.  

Houve migração do campo para as cidades em todo o período analisado. Com o aumento no uso de tratores e arados mecânicos em todo o período (tecnologia que se espera ser capaz de poupar trabalho no processo produtivo), foi observada diminuição da relação de mão-de-obra por hectare, principalmente nos dois estratos intermediários de terra. Porém o crescimento do número de pequenas propriedades pode significar que a demanda de mão-de-obra no campo, em Minas Gerais, não tem contribuído para a migração do campo para as cidades. Outros fatores ligados à oferta de trabalho no campo podem ser mais relevantes para se estudar o processo de êxodo rural neste Estado.

 

 

 

5. Bibliografia

 

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[1] Bacharel em Ciências Econômicas e Mestrando em Economia Rural/UFV, Viçosa/MG. E-mail: chinelatto@mailbr.com.br.

[2] Professor Adjunto do Departamento de Economia/UFV, Viçosa/MG. E-mail: apgomes@mail.ufv.br.

[3] O exemplo proposto por ALVES (1996) diz respeito à produção leiteira. Porém a análise pode-se estender a toda atividade agrícola.