OGT 12-03
Gestão da Imortalidade
Empresarial: a empresa não tem necessariamente que morrer.
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Cláudio Luis Miotto Universidade
Federal de Uberlândia
miotto@ufu.br |
Luciel
Henrique de Oliveira
Universidade de Alfenasluciel@uol.com.br |
Resumo:
Este trabalho tem o
propósito de discutir a mortalidade empresarial, e analisar os fatores que propiciam sua longevidade, a caminho da
imortalidade. É o que pode ser chamado da busca da “Teoria da gestão da
imortalidade empresarial”. Consiste de um estudo exploratório, e pretende ser o
início de uma linha de pesquisa sobre a imortalidade empresarial, onde serão
avaliados casos específicos de organizações seculares no Brasil e no exterior
que têm se destacado por sua força, longevidade, capacidade de adaptação e evolução
ao longo das crises históricas do país e do mundo. Para isto, partiu-se de uma
revisão bibliográfica sobre a visão sistêmica (ou holística) das empresas
modernas, e procurou-se discutir sua relação com o índice de mortalidade
empresarial. A seguir procurou-se contextualizar a alta taxa de mortalidade
empresarial das empresas brasileiras (algo que não é muito diferente da maioria
dos países capitalistas), para depois questionar-se os fatores críticos que
permitem às empresas caminharem em busca de sua imortalidade. A seguir
exemplificou-se com casos de sucesso. Finalmente, na conclusão, efetuou-se uma
análise da conjuntura econômica brasileira e traçou-se paralelos com seus
efeitos sobre a imortalidade das empresas.
Palavras-chave: Imortalidade Empresarial, Longevidade, Adaptação, Evolução.
1 - Introdução
O desejo de perpetuação repousa no imaginário do ser humano. A vida eterna e a imortalidade da alma vêm se constituindo num mistério, e ao mesmo tempo numa hipótese que muitos vêm tentando de algum modo comprovar. A ciência e a religião têm buscado respostas para o impasse, mas aparentemente não há demonstrações e definitivas do que ocorre após cessarem de vez as funções vitais do corpo humano.
Quando uma pessoa nasce,
pode-se dizer que tem uma expectativa de vida de 70 ou 80 anos em muitas
regiões do mundo. E as organizações? A previsão de sobrevida é menor que as das
pessoas, chegando a 40 ou 50 anos nos países desenvolvidos, conforme Arie de
Geus citado por CAULKIN, 1997.
É verdade que nem todos os empreendedores têm a sorte da vida longa para o seu empreendimento. Mas “muitas companhias através dos séculos levam à reconsideração do princípio econômico que assegura que toda empresa tem seu surgimento, ascensão e morte” (CAULKIN, 1997). De qualquer modo, na maioria dos casos as empresas passam por várias crises, provocadas algumas vezes pela conjuntura econômica interna e externa ao país, outras vezes por crises de identidade e de gestão interna, morte de fundadores, crises de sucessão, etc.
As crises evidenciam a
fragilidade a que está sujeita a empresa. Usuária e beneficiária de tecnologias
cada vez mais potentes, a corporação insere-se em complexos sistemas. Qualquer
falha nesses sistemas pode alcançar proporções de catástrofe, e expor os
limites do homem em controlar e entender suas próprias criações (SALINAS,
2000).
Este trabalho tem o propósito de discutir a mortalidade empresarial, e analisar os fatores que propiciam sua longevidade, a caminho da imortalidade. É o que pode ser chamado da busca da “Teoria da gestão da imortalidade empresarial”.
Partiu-se de uma revisão bibliográfica sobre a visão sistêmica (ou holística) das empresas modernas, e procurou-se discutir sua relação com o índice de mortalidade empresarial. A seguir procurou-se contextualizar a alta taxa de mortalidade empresarial das empresas brasileiras (algo que não é muito diferente da maioria dos países capitalistas), para depois questionar-se os fatores críticos que permitem as empresas irem em busca de sua imortalidade exemplificando-se com casos de sucesso. Abordou-se também a questão dos faotores conjunturais que podem levar ao enfraquecimento e à falência organizacional. Finalmente na conclusão procurou-se delinear os fatores comuns e padrões de comportamento, inerentes às empresas longevas.
2 - Visão
Sistêmica das Organizações
Para entender os processos de criação e morte da empresa é necessária uma abordagem sistêmica. Isto tanto é verdade no sentido de enxergarmos a sua dinâmica como como entidade agregadora de partes, quanto nas suas interações com o meio na qual está imersa. A compreensão de organizações como sistemas já é debate consagrado no campo da administração. Neste estudo considerou-se a visão de SHRIVASTAVA, 1988, para quem os sistemas são simultâneas cadeias de estruturas sócio-técnicas pelas quais transitam informações e recursos que as interligam, estabelecendo o locus e conferindo sentido às partes da organização, e essa com seu ambiente externo.
Os sistemas são normalmente contraditórios. MITROFF et al., 1996 apontam que os sistemas são duais, na qual caos e ordem convivem simultaneamente. Assim, um sistema não inclui apenas uma estrita interconexão das variáveis que o constituem. Em cada uma dessas variáveis reside uma tendência à ordem e ao caos. Mudanças em uma das variáveis pode acarretar mudanças em todo o sistema, considerando que essa alteração é amplificada por igual comportamento das demais unidades constituintes. MITROFF et al.. 1996 afirmam que um sistema organizado vivo, tal como uma organização, necessita ambas as forças integrativas e destrutivas para continuar vivo e funcionando. A vida de um sistema é sustentada pela paradoxal interação de ordem e caos, sendo, ao mesmo tempo, complementares, competitivos e antagônicos.
Hock, 2000, afirma que estamos diante do nascimento de uma era caórdica. Este é o termo que Dee Hock, fundador e CEO da VISA, cunhou “para simbolizar a característica de uma nova ordem mundial, que seria resultante de uma convivência harmoniosa entre a ordem e o caos” (CYGLER, 2001). Ou seja, nestes novos tempos as empresas deverão combinar harmoniosamente modelos de estrutura e comportamento, que combine sem sobressaltos, características do caos e da ordem.
Vários autores, embasados na natureza dual dos sistemas, sugerem que essas ocorrências são inevitáveis. Apregoam existir até uma taxa “normal”, decorrente da expansão cumulativa de tecnologias e de produtos, os quais, traduzindo sua essência polar, contribuem para melhorar a qualidade de vida e ao mesmo tempo trazem novos perigos, dada a sua complexidade em termos de processo e manutenção. PERROW, 1984 citado por SETHI, 1987, sugere que as mais intensas tentativas de tornar os sistemas seguros não podem minimizar a possibilidade de acidentes. É da essência desses sistemas serem sempre suscetíveis de viver uma catástrofe se estão presentes em um ambiente hostil ou em ambientes nos quais existem alta competitividade.
Indiferente a uma possível taxa “normal” de ocorrência, o maior dos questionamentos, em um evento de grandes proporções, para a empresa e o ambiente que a rodeia, é o sentido da vida e da criação humana. Rodeado por falhas complexas em sistemas inerentes à alta tecnologia, implica a morte daqueles diretamente envolvidos na sua causa imediata. Dele fazendo algum uso, seja apenas por estarem no local. É o desastre que em grande escala dizima populações ou um grupo restrito. Caracteriza-se, em oposição às chamadas catástrofes naturais, pelo fato de o fenômeno gerador ser decorrente de um defeito ou negligência para com uma criação humana destinada a, primeiramente, melhorar a vida sobre o planeta. Uma construção arquitetada pelo homem para melhorar sua condição de subsistência acarreta o contrário. E a dimensão não é somente ao nível do questionamento do evento em si. Considera também o legado direto o potencial aos que não foram diretamente afetados.
A visão sistêmica das
organizações é essencial para o entendimento de sua longevidade. Na verdade, é
difícil aceitar qualquer tipo de isolamento em nossos dias. Todas fazem parte
de um sistema sócio-técnico aberto, e desta forma relacionam-se com o meio
ambiente empresarial, e participam direta ou indiretamente de sua cadeia
produtiva. O correto conhecimento de sua cadeia produtiva e da agregação de
valores, e o entendimento de seu papel nesta mesma cadeia (supply chain) é
fundamental para a percepção de necessidades de mudanças e aperfeiçoamento, bem
como para a percepção de oportunidades a serem aproveitadas. Esta é a lei da
sobrevivência e adaptação, que da forma como foi descrita por Charles Darwin,
pode ser perfeitamente aplicada ao estudo da sobrevivência, adaptação e
longevidade das empresas.
No século XIX, o inglês
Charles Darwin propôs que as variações entre as espécies no mundo animal e
vegetal são consequência de um processo contínuo de adaptação, baseado em
mutações genéticas controladas pela seleção natural. Um animal de pescoço
curto, cuja dieta é baseada em folhas, não sobreviverá em uma floresta de
árvores altas. Mas, se por acaso esse animal tiver um descendente de pescoço longo,
esse descendente terá todas as folhas à sua disposição, (GLEISER, 1998).
A idéia básica da teoria de
Darwin é que essa mutação de um animal de pescoço curto em um de pescoço longo
se dá lenta e aleatoriamente em nível genético. A seleção natural apenas dita
quais as mutações que ajudam (ou não) na sobrevivência de uma dada espécie.
Aquelas que ajudam a prole a sobreviver em um ambiente austero são
"selecionadas" e passam a ser parte de seu código genético, sendo
transmitidas às futuras gerações.
Segundo Darwin, a evolução ocorre essencialmente devido a três princípios: a variabilidade, presente em todos os seres vivos, a hereditariedade, ou seja, a transmissão das características de pai para filho, e a luta pela sobrevivência, que determina as variações que tornarão uma espécie mais apta a sobreviver. A Evolução é a teoria que admite a transformação de um agregado de partes homogêneas em outro mais complexo, ou de elementos homogêneos em um agregado de elementos mais diferenciados.
Metáforas e analogias deste
tipo são fundamentais para possibilitar uma visão sistêmica e integrada do
fenômeno de sobrevivência e evolução das organizações. Pode-se imaginar uma
organização atual passando pelas mesmas fases e oportunidades de
desenvolvimento que as espécies animais. A busca pela longevidade, tanto física
quanto de nossas criações (empreendi- mentos organizacionais) acaba orientando
todas as nossas ações, e não poderia ser diferente no mundo organizacional.
A analogia e metáfora desta
visão de marketing para questões gerenciais mostra que cada vez mais estaremos
vinculados a uma rede maior, sem limites para pensar no assunto.
3 - A alta
taxa de Mortalidade Empresarial
A maioria das organizações não possui vida longa. “Quase 40% das empresas da revista Fortune500 de 1983 desapareceram; 60% das de 1970, e das doze companhias incluídas no Dow Jones Industrial Index, de 1900, a GE é a única sobrevivente - e isto mostra que se a única coisa que a empresa tem é tamanho, então ela não sobrevive” (CAULKIN, 1997).
No Brasil, os números das
pequenas e médias empresas são assustadores. Estudos feitos pelo Sebrae
(Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas) confirmam que os pequenos empreendimentos
são fundamentais para a economia do país. Eles representam 98% do total de
empresas e empregam 60% de toda a mão-de-obra (ROSA Jr., 1997).Por outro lado,
o índice de mortalidade já no primeiro ano de atividade dessas empresas
permanece alto. “Em 1997, uma pesquisa por amostragem feita pelo Sebrae(COHEN,
2000) em 12 Estados brasileiros mostra que o índice de falências varia entre
47% e 73% em três anos. Em São Paulo, o Estado brasileiro que abriga o maior
número de empresas, os resultados foram: 35% de falências em um prazo de um
ano, 47% em dois anos e 56% em três anos.” Os empresários têm dificuldades para
obter crédito e adquirir novas tecnologias e sofrem com o excesso de tributos e
de burocracia.
Nesse ambiente, o apoio aos
pequenos empreendedores ganha prioridade absoluta. Algumas experiências para
reverter este quadro tem se destacado. O Sebrae, por exemplo, tem executado
esse trabalho com sucesso. Sua tarefa principal é melhorar a competitividade
das pequenas empresas, em todos os segmentos. Isso significa levar aos negócios
de menor porte tudo aquilo que existe de mais moderno no campo da gestão
mortalidade na tecnologia da informação, nos sistemas de controle e nas
metodologias de qualidade total.
As micro e pequenas
empresas, somadas, têm importância de gigantes. São mais de quatro milhões,
presentes em todas as atividades. Seu índice de mortalidade é elevado, na
maioria das vezes e principalmente, por falta de tratamento diferenciado, apoio
e atenção do Estado. Mesmo assim, os pequenos oferecem mais de 60% do total de
empregos. Tal número é suficiente para revelar que eles são uma força especial
de produção, empregos, consumo e distribuição de renda, garantindo o equilíbrio
de nossa economia e a sobrevivência das grandes empresas (DOMINGOS, 1996).
Além disso, de acordo com
pesquisa Sebrae/FIPE (1997), as principais causas da mortalidade das empresas
são :
|
Causas |
Percentual |
|
Não procuram identificar seus clientes antes de
abrir a empresa |
45% |
|
·
Achavam desnecessário |
16% |
|
·
Alegaram falta de experiência |
14% |
|
·
Resolveram correr o risco |
12% |
|
·
Nem sequer pensaram no assunto |
8% |
|
Não calculam previamente o volume de vendas
necessário para ter lucro |
+ de 40% |
|
Não verificam quantos concorrentes terão |
+ de 30% |
|
Não identificam previamente seus fornecedores e
quais suas condições de preço e prazos de pagamentos |
+ de 25% |
(Fonte: COHEN, D.Com se faz
gente que faz? EXAME. 23/Ago/2000.p.158-167)
Mismanagement é um termo cunhado por MEYERS
& HOLUSHA, 1991 que caracteriza muito bem as escolhas da empresa para fazer
frente às crises. Em português, a expressão que melhor traduz o vocábulo inglês
é “não gestão”. O conceito define as tentativas de estancar uma crise a partir
dos mesmos pressupostos que, se no passado garantiram o êxito organizacional,
também concorreram para as falhas que levaram ao ‘fato detonador’. Na raiz das
crises estão as origens dos fatos que impedem a longevidade das organizações.
Entender os fatores de Mismanagement torna-se
essencial para entender as razões de longevidade.
Discutindo as causas da
mortalidade empresarial, PEARSON e CLAIR, 1998 observam que em organizações as
quais se crêem relativamente imunes a crises, há pouco ou quase nenhum preparo
para ultrapassar o momento de tormenta. Essas corporações falham em perceber a
dimensão do problema. O êxito de experiências passadas as impede de detectar
completamente as possibilidades de falhas antes e depois da ocorrência, e
rapidamente responder-lhes segundo um padrão compatível com a situação. Assim,
tendem a minimizar a gravidade do período para não ter de revisar seus
procedimentos e enfrentar a realidade de que apresentam pontos vulneráveis.
O mismanagement não implica necessariamente que a empresa desapareça
em virtude de uma crise. Através dele é até possível ultrapassar o período,
sufocando as causas. Mas os problemas
de fundo permanecem sem solução. A continuidade
dos processos consagrados remete a crise à latência e todas as suas
conseqüências, dentre as quais o seu ressurgimento ainda mais violento e
intenso, que torna vãs quaisquer iniciativas de novamente sufocá-la.
Passado o turbilhão, essas
empresas têm dificuldades em repensar suas palavras e ações e incorporar ao seu
repertório o aprendizado surgido na crise, prática usual de empresas preparadas
para o advento de tempos difíceis. Se sobreviverem ao período, a sua meta é o
esquecimento do passado recente e a restauração do modelo comunicativo ao qual
sempre se ativeram. Não há reciclagem nem reflexão sobre os erros. As causas
são várias, e dentre elas podem-se listar o constrangimento da alta cúpula, os
erros entendidos como pessoais, a revelação de outros problemas potenciais e a
constatação de desavenças internas. Em síntese, todas as problemáticas se
referem à vulnerabilidade da empresa e à sua propensão à mortalidade precoce. A
perfeição e a imortalidade empresarial são a antítese da fragilidade.
4 – Quando a
“causa mortis” está fora de controle
A análise da longevidade empresarial e dos fatores críticos para a sua concretização, sempre passa pela análise da conjuntura econômica vigente. A pressão da globalização econômica e da concorrência, e a nova safra de investimentos, voltada para o mercado doméstico e o Mercosul, é pouco geradora de divisas. Desta forma, a sua contribuição para o alívio da restrição maior ao crescimento desta economia (sua limitada capacidade de importar), tende a ser bastante modesta. Assim, à medida que entrem em operação os novos investimentos, será intensificada a pressão competitiva sobre os respectivos mercados. E a economia assimilará os novos investimentos, antes por redução de preços, que por aumento da produção. Dois tipos de fenômenos tendem a resultar desse tipo de ajuste, sendo fundamentais para a sobrevivência e perpetuação das empresas, como veremos nos itens a seguir:
4.1 – As empresas multiplantas tenderão a abandonar as unidades menos
eficientes.
Assim, por exemplo, a Ford seria estimulada a fechar a fábrica do ABC, em
decorrência da expansão das operações da fábrica de Porto Alegre. Tal fato
seria mais facilmente evitado, caso a economia se encontrasse em firme
expansão. O mesmo ocorreria entre empresas: aquelas que não estejam inaugurando
novas instalações (a imensa maioria) ou tenham feito modestas mudanças em seus
equipamentos sofrerão compressão das margens de lucro, e até mesmo poderão
fechar.
4.2 – A entrada em operação da nova capacidade instalada acarreta um
acirramento da competição, algo análogo a uma nova abertura. Os efeitos da abertura são
amplamente compensados de duas maneiras. Em primeiro lugar, as empresas
aumentam as suas importações -e desta maneira valeram-se da abertura, para
sobreviver à própria abertura. Por outro lado, os poderes públicos, de diversas
maneiras, se empenham em abrandar os efeitos do acirramento da competição.
Esses dois remédios, ou atenuantes, dificilmente poderiam operar, contudo, ante
o reforço da competição trazido pela nova safra de investimentos.
As empresas domésticas podem, teoricamente, valer-se da maior eficiência -traduzida em melhores preços e/ou qualidades -oferecida pelos novos investimentos. Na prática, contudo, isso não poderá em regra ocorrer, já que o mais superficial exame da nova safra de investimentos deixa claro que aí não estão presentes, seja insumos, seja bens de capital. Trata-se, visivelmente, de um conjunto de investimentos que diretamente responde ao surto de consumo detonado pelo Plano Real. Conclui-se, assim, que esse importante mecanismo de defesa não pode ser acionado. Quanto à possibilidade de que o governo venha a proteger ou subsidiar empresas domésticas, acossadas por outras empresas (ou até mesmo plantas) domésticas, parece ser uma hipótese sem muito sentido ou alcance.
Esta conjuntura sugere que a
restrição externa ao crescimento poderá -à medida que entrem em operação os
novos investimentos- provocar severo aumento da mortalidade de plantas e
empresas. O crescimento da economia passa então a ser necessário, para garantir
uma sobrevida a empresas e plantas, cuja competitividade torna-se muito baixa,
no próprio âmbito da economia doméstica.
Uma das surpresas trazidas
pela abertura e a estabilização econômica no Brasil foi que, ao contrário do
verificado em outras experiências latino-americanas, a mortalidade no campo
mortalidade foi relativamente baixa -e o desemprego aumentou pouco. Essa
vantagem poderá estar sendo perdida se medidas visando o longo prazo não forem
tomadas por Governo e empresários.
5 - Em busca
da imortalidade empresarial
O número de micro e pequenas empresas brasileiras (cerca de 4 milhões) tem muito espaço e oportunidade para crescer neste início do século XXI. As oportunidades podem aumentar com a expansão do mercado e o incremento das parcerias entre pequenas e grandes organizações. Mas é preciso investir em informação e capacitação para reduzir a elevada taxa de mortalidade - as estatísticas têm demonstrado que cerca de 80% dos novos negócios no país não passam do primeiro ano de vida (Folha de São Paulo, 03/Jul/94). Parece um jogo de azar, onde algumas poucas empresas estariam predestinadas ao sucesso. Mas um olhar bem detalhado mostra que não é necessariamente assim. Quais seriam os fatores determinantes da longevidade empresarial?
Um certo número de empresas,
a minoria, naturalmente, têm se mostrado predestinadas a fugir da morte. Entre
elas poderíamos destacar (CAULKIN, 1997).
I.
Japonesas:
Mitsui, Sumitomo e a loja de departamentos Daimaru - remontam aos séculos XVII
e XVIII.
II.
Britânicas:
Cambridge University (1534); Lloyds Bank, Lloyd’s of London, Coutts, e Bank of
Scotland foram fundados no final do século XVII.
III.
Francesas:
um próspero clube abriga empresas que chegam aos 200 anos.
IV.
Suecas:
A Stora Kopparberget é a mais velha, com mais de 700 anos. Foi mudando de
atividades, tendo iniciado como mina de cobre, passando por papel e celulose
(dentre outros ramos) e chegando aos produtos químicos.
Podem ser constatados
exemplos ricos e surpreendentes de sobrevivência a longo prazo, em muitos ramos
da atividade humana. Um caso (mais recente) famoso de longevidade na música –
notadamente um setor onde os sucessos dos grupos são relativamente rápidos e
passageiros - é banda inglesa Rolling
Stones, que existe desde a década de 1960, com a mesma formação, e que conta
com sucessos como o hit "Satisfaction", que já está completando 37
anos. Na megaturnê "Voodoo Lounge", realizada pelos Stones de agosto
de 1994 até o fim 1995, quando foram percorridos os cinco continentes, o grupo
lucrou US$ 125 milhões após os 18 meses da turnê, segundo informações do
tablóide inglês "Daily Mirror". Nesta ocasião, o líder Mick Jagger
afirmava: "Nós gastamos muito dinheiro também. Não se trata apenas de
ganhar dinheiro. Queremos nos divertir e fazer as pessoas se divertirem.”,
(GIRON, 1994). Perguntado sobre qual o segredo da longevidade dos Stones, Keith
Richards respondeu: "Sempre fazemos o mesmo tipo de música, só que
tentando aperfeiçoá-la a cada dia. Somos muito críticos". "Ensaiamos
demais", atravessou Jagger. "É o trabalho diário que dá qualidade aos
shows." (GIRON, 1994).
A idéia dos economistas foi
sempre de que a morte além de inevitável, seria uma necessidade. Era preciso
que a empresas cansadas e claudicantes dessem lugar a outras mais jovens. Estas
novas, na visão deles, devem ser mais capazes e os gerentes agora mais
eficientes. Assim o ciclo nascimento, juventude empreendedora, maturidade
estável e então o declínio no ocaso da vida, seria um ciclo determinístico.
Segundo uma nova concepção,
a empresa não tem necessariamente que morrer. Mas para isso são necessários
alguns critérios. Vamos pontuá-los de acordo com algumas fontes citadas por
CAULKIN (1997):
I.
Para
Terry Gourvish, diretor da Unidade de História Empresarial na London School of
Economics, é necessário o seguinte:
·
Analisar as lições do
passado, para avaliar mais eficientemente as propostas atuais de estratégia e
renovação - buscar na história critérios que ajudem a sobreviver.
·
Cuidar melhor da etapa
infantil da vida das empresas, pois aí está o maior risco de morte.
Terry Gourvish trata
basicamente do aprendizado e da mortalidade infantil. Aprender com a
experiência, e de modo controlado incorporar conhecimento novo na organização,
é uma prática capaz de evitar recorrência de erros, desde que a mudança dos
modelos mentais (SENGE, 1994) se efetivem, e ainda mais, sejam capazes de
lidar, na prática, com novos cenários que venham se impor. A etapa que se
sucede imediatamente ao nascimento de qualquer organização é certamente a mais
crítica. Possivelmente sejam necessárias algumas “vacinas” combatam os males da
inexperiência, da falta de conhecimento sobre a indústria respectiva, e da
capacidade de planejamento e fôlego de recursos, muito comuns neste momento.
II.
Arie
de Geus, recomenda:
·
Buscar a evolução e avaliar
a possibilidade de migração quando as condições mudarem.
·
Adotar a questão da
aprendizagem como uma diretriz para a evolução a longo prazo. Planejar baseado
em cenários promove a aprendizagem.
·
Cuidado com o sucesso. Nada
é tão ameaçador para a aprendizagem contínua quanto o sucesso.
·
Redução da burocracia e preservação da autonomia e poder local. “A
concentração de poder reduz a inteligência empresarial; a tomada de decisão é
aprendizado, e o aprendizado é um meio de locomoção. Este movimento
consolida-se em evolução, e é através desta que as empresas se renovam e se
comparam aos sistemas de auto-organização.”
Arie de Geus propõe a
aprendizagem, a capacidade de mudar, a atenção e o estado de alerta mesmo
diante do sucesso, e o poder local, como fatores-chave para a longevidade. Aprendizagem não só
adaptativa, mas também generativa, na medida em que a organização não só
responde corretivamente aos estímulos das mudanças ambientais, mas também,
proativamente, busca a inovação lastreada pelo espírito pioneiro, construindo
as novas regras da competição, através da influência no estabelecimento dos
cenários futuros de sua indústria.
O brasileiro Amir Klink,
conhecido por muitos como o “navegador solitário”, fala-nos sobre os cuidados
com o sucesso. Durante suas viagens, como a maioria delas é “solo”, deve
manter-se alerta e a cada 50 minutos, verificar os vários indicadores das
condições de navegação. Para isto, tem o seu cronômetro programado para
alertá-lo nesta freqüência desejada. Ao final de uma de suas viagens pela
Antártida, e outros continentes, já estando muito próximo da costa brasileira,
e como tudo tivera sido um sucesso, acaba se descuidando da programação para as
inspeções periódicas, e por muito pouco não se choca violentamente com um
petroleiro de bandeira argentina, o “Mar Frio”. Esta é uma ilustração para
reforçar as idéias de Arie de Geus, sobre os perigos que o sucesso traz.
O sucesso tem uma relação
íntima com o futuro. Mas como planejar para o futuro se ele se mostra tão
complexo e incerto? Desenvolver histórias de cenários sobre múltiplos futuros
possíveis, resolve dilemas advindos da incerteza sobre o que virá pela frente,
criando os fundamentos para estratégias robustas. “Cenários são uma ferramenta
para ordenar nossa percepção sobre ambientes futuros alternativos nos quais as
conseqüências das decisões de hoje se desenrolarão” (ZUMBLE, 2001).
A redução da burocracia e preservação da autonomia e poder local, é uma solução que vem se consagrando com o tempo. Na esteira do chamado “empowerment”, as empresas têm experimentado positivamente a redistribuição do poder, reposicionando os pontos de decisões, preferencialmente nos locais onde se dão as ações. As pessoas devem ter a liberdade de ação. Como ilustração podemos citar a Nordstrom, que é uma rede americana de lojas de departamentos, a qual escreveu o seu manual de normas (fig. 1, abaixo) em apenas uma página. No texto do “manual” (Albrecht, 1992), há uma clara orientação para os clientes, confiança nos colaboradores e em suas possibilidades de atingirem suas próprias metas, mas o ponto central é:

Fig.1 - Manual do funcionário da Nordstrom
III.
John
Kay, professor de economia da London Businesss School, argumenta que as
empresas de sucesso:
·
Buscam forças de capacitação
distintas, baseadas em relacionamentos com clientes, fornecedores e empregados.
·
Estes relacionamentos são
ancorados por confiança e continuidade, de modo a prover respostas flexíveis e
cooperativas à mudança.
·
Promovem relacionamentos
interligados e resistentes, fazendo com que um número enorme de pessoas na
sociedade precise que elas tenham
sucesso.
As organizações de sucesso
devem buscar o amadurecimento, com o esforço sinergético. Combinar esforços com
clientes, fornecedores, e até mesmo com competidores, em certos casos, é uma
forma de estabelecer uma rede de relacionamentos, contribuindo no processo de
compartilhamento e busca conhecimento novo. Parcerias, muitas vezes
constituem-se em um caminho onde as fraquezas locais são compensadas pelas competências
de que vem se agregar a um esforço comum, sendo que a recíproca também é
verdadeira. Numa relação de confiança, os envolvidos precisam objetivar o
compartilhamento de competências, para aproveitar as oportunidades.
Como imagem representativa
destas idéias podemos observar a figura 2 abaixo. A estrutura hierárquica,
burocrática, representada pela fig. 2.A, vem agora, na era do conhecimento, e
de modo cada vez mais reconhecido, sendo substituída por uma estrutura mais
complexa, porém mais capaz de também lidar com a complexidade crescente do meio
ambiente, tanto interno quanto externo. As relações entre clientes e
fornecedores internos, por exemplo, tanto quanto a relação com clientes e
fornecedores externos, vai agora parecer-se muito mais com a fig. 2.B, do que
com os pêndores de rigidez, e baixos graus de liberdade da fig.2.A.
Fig. 2 – Comando e controle
e a “era do conhecimento”
2.B - Era do conhecimento

2.A - Comando e controle
Segundo a lei do requisito
da variedade de Ashby: “Só variedade absorve variedade” (ESPEJO e SCHWANINGER,
1993). Afim de lidar com a complexidade e sobreviver, as organizações precisam
estabelecer dinâmicas de controle e comportamento que de algum modo reflitam
esta mesma complexidade, só assim podendo absorvê-la, e amortecê-la. Ou seja, é
muito menos provável a eficácia e o sucesso, quando buscamos formas de
gerenciar situações complexas utilizando dispositivos muito simples, que não
sejam capazes de lidar com o nível de variedade ou complexidade presente.
IV.
Dee
Hock, arquiteto e presidente da organização Visa defende:
·
A aceitação de que a
organização é uma entidade viva, porém sobre-humana. “Se a empresa for uma
metáfora de uma máquina ela acaba se desgastando. Se você por outro lado,
estruturá-la como uma metáfora de um ser vivo, será possível usar técnicas de
evolução e biológicas para criar alguma coisa que terá uma vida muito longa. Se
isto não ocorrer, pode criar extensões de si mesma por réplicas: isto é, sua
estrutura genética sobrevive - a exemplo da própria empresa Visa.”.
Como também afirma SENGE,
citado por WEBBER, 1999, “precisamos pensar menos como administradores e mais
como biólogos”. O autor defende o ponto de vista de que os executivos devem
deixar de pensar e agir como mecânicos, que seguem o modelo organizacional
mecanicista, cartesiano, baseado em estruturas rígidas, vinculadas
preferencialmente à física de Newton. Aconselha-se pois, a passar a agir como
jardineiros, no sentido de que, para buscar crescimento e prosperidade,
precisamos cultivar as mudanças e não impô-las.
Mudanças ficam melhor
orientadas quando se tem um objetivo de longo prazo, bastante claro e
compartilhado por todos (MIOTTO, 2000, SENGE,1994). Objetivos podem incluir
crescimento, desenvolvimento, e também a sobrevivência saudável.
Os sistemas vivos exibem
importantes complexidades. As organizações podem ser vistas como sistemas
dentro de sistemas maiores, com evolução concomitante de todos os constituintes
– o próprio universo está em expansão. Neste sentido também, a teoria do caos e
da complexidade são muito mais úteis para entender seus comportamentos, do que a metáfora da
máquina, que remonta às épocas pioneiras de Taylor. É preciso compreender-se a
complexidade dinâmica (SENGE, 1994, SIFFERT,2001), ou seja, pequenas alterações
nos “valores” iniciais - dados de entrada - podem ocasionar alterações
drásticas nas condições futuras de um sistema qualquer – sem que os eventos
estejam próximos no tempo e no espaço.
V.
Para
CAULKIN, 1997: 131, para obter-se a capacidade de adaptação e
auto-rejuvenescimento deve-se observar que:
·
A sobrevivência deve vir em
primeiro lugar. Acima dos lucros, ativos e exigências dos acionistas. Isto pode
ser visto no credo da Johnson & Johnson, onde os seguintes abordagens são
feitas, na ordem seguinte (e considerados de forma sucinta):
1º. “Nós acreditamos que nossa
primeira responsabilidade é para com os médicos, enfermeiras, pacientes, mães,
pais e outros usuários;
2º. “Nós somos responsáveis por nossos funcionários no mundo inteiro. Todos
precisam ser considerados como indivíduos, e reconhecidos e seus méritos
3º. “Nós somos responsáveis pelas comunidades nas quais vivemos e pela
comunidade mundial.”
4º. “Nossa última responsabilidade é para com os acionistas. Um negócio
precisa gerar lucros sólidos. Precisamos experimentar novas idéias, realizar
pesquisas, e corrigir nossos erros.”
·
Deve-se ter uma idéia clara
do que a empresa representa. O relevante é a autenticidade da crença, e não o
seu conteúdo. Necessita-se de uma ideologia, que direcione as pessoas.
·
A liderança não precisa ser
carismática, pois a empresa visionária caminha com a própria força de suas
crenças. As empresas de sobrevida longa criam seus próprios líderes, não os
importam.
·
As empresas devem estar
dotadas de grande autoconfiança e preparadas para enfrentar e superar crises,
até mesmo aquelas extremas. Em qualquer circunstância o processo de a empresa
reproduzir-se a si mesma deve estar acima dos produtos, lucros e acionistas
·
As estruturas de poder
preferencialmente descentralizadas.
As organizações que desejam
sobreviver com qualidade devem assumir e comunicar a todos sua identidade
(ESPEJO, et al, 1996). Ou seja, precisa comunicar o papel que desempenha dentro
de um todo maior. Assim como colocam os autores, é preciso definir:
·
O que as tornam únicas? Em
quais atividades é a melhor do mundo, ou de uma determinada classe?
·
Onde desejam estar no futuro?
·
Quais são suas forças,
competências e ou capacidades?
·
Quais seus princípios e
valores subjacentes?
·
Que espécie de valor pode
entregar aos clientes?
·
Que espécies de valor pode
entregar aos demais interessados – “stakeholders”
Para Dee Hock, citado por
CYGLER, 2001, as empresas morrem quando perdem sua emoção e a esperança por um
futuro melhor. “Sem um propósito compartilhado, como valores, crenças, as
comunidades desintegram-se progressivamente, e criam instrumentos de tirania”.
Isto também é ilustrado na definição de empresas visionárias (COLLINS e PORRAS,
1996). Para os autores, estas empresas são aquelas onde o lucro é apenas uma
meta – e nem sempre a primeira - dentro de um conjunto delas.
As organizações visionárias
são guiadas por seus princípios e valores centrais, e portanto mais capazes de
lidar e superar crises. E, paradoxalmente, sustentam os autores, as empresas
visionárias ganham mais dinheiro do que as que são movidas preferencialmente em
busca do lucro. Isto nos remete às organizações religiosas, que focalizam suas
ações em princípios, valores, e crenças
presentes nas escrituras. Como importantes organizações, desta categoria, têm
sobrevivido através dos tempos, fundamentadas em uma base ideológica bastante
forte.
A redistribuição do poder –
aqui focalizando o conceito de federalismo, conforme HANDY, 1992, também é uma
questão central para Caulkin A Shell, por exemplo, é um caso de federação onde
as empresas nacionais delegam poderes de reserva ao centro. As estruturas
dispersas são mais elásticas, têm maior grau de liberdade para amortecer falhas
locais. As decisões e idéias criativas fluem de baixo para cima. O conceito de
federalismo é apropriado para governar organizações com complexidades cada vez
mais crescentes. Isto porque oferece um caminho reconhecidamente bom para lidar
com os paradoxos – como descritos abaixo, do poder e controle (HANDY, 1992):
1.
A
necessidade de tornar as coisas grandes por mantê-las pequenas.
2.
Encorajar
a autonomia, mas dentro de fronteiras.
3.
Combinar
variedade e propósito compartilhado.
4.
Individualidade
e parceria.
5.
Local
e global.
6.
Região
tribal e estado nação.
7.
Estado
nação e bloco regional.
Para lidar com estes
paradoxos as empresas estão buscando a liberação de energia através de
autonomia das unidades federadas. Antigas companhias globais como Royal Dutch
Shell e a Unilever ao mesmo tempo que liberam mais autonomia para suas
subsidiárias, também sempre estão flexionando suas estruturas e sintonizando o
balanço de poder porque o federalismo não é um sistema estático (HANDY, 1992).
6 –
Considerações Finais
A morte é de fato uma das
experiências mais dolorosas e temidas pelo ser humano. Associa-se a muitos
aspectos negativos tais como a separação, a ruptura e a perda. Os seres humanos
incomodam-se com esta realidade, convivem com a idéia mas procuram dela se
esquecerem ao se envolverem com suas rotinas diárias. Contudo não há quem não deseje o prolongamento da vida...pois
se houver mais tempo disponível para as ações das pessoas, provavelmente virão
também soluções para os males e infortúnios que desestabilizam e tornam as
pessoas menos felizes.
Até agora não há solução
para esta inexorável e inquietante limitação. Muitos têm buscado atenuantes, e
até com sucesso. O aumento progressivo da expectativa de vida dos seres
humanos, praticamente de modo generalizado, é uma prova inconteste. Mas a
distância entre 30, 40 ou mesmo 50 anos a mais de vida, e a possibilidade de
caminhar para o infinito, também é infinita.
As pessoas que se reconhecem
mortais, parecem criar organizações à sua imagem, neste sentido. Criam
organismos aparentemente inferiores em sua dinâmica, quando comparados às
potencialidades físico neurológicas dos seres humanos. E como são inferiores,
morrem mesmo antes de completarem a idade que seus fundadores, em média,
conseguem, em vida completarem.
O homem, com sua inesgotável
capacidade criativa, tem procurado produzir “criaturas” à sua imagem e
semelhança. São os robots, a
inteligência artificial, para citar alguns exemplos. Mas estas iniciativas
ainda são muito limitadas em sua performance, quando comparamos à capacidade
intelectual, estrutura psicomotora, e outras habilidades e capacidades do
próprio ser humano. Ao criar as organizações, as pessoas parecem fazê-lo de sem
preocuparem devidamente com seu crescimento, desenvolvimento e sobrevivência. É
como se fossem programadas para a bancarrota, logo na concepção – aliás como
quase tudo que nos cerca. E todos convivem naturalmente com idéia, a despeito
de todas as dores pelo fato da morte das organizações – as dores sociais, as
dores econômicas, políticas, mercadológicas, e mesmo as do ego de seus
fundadores.
Pensar em longevidade
significa criar organizações superiores aos homens, em suas performances e
capacidades. É preciso reunir o conhecimento disponível, combiná-lo e
recombiná-lo, criar conhecimento novo, para produzir estruturas longevas. Elas
em si, deverão possuir dinâmicas de pensamento e ação muito superiores aos dos
seus criadores - pobres mortais.
Longevidade para as empresas significa criar inteligências para nós hoje ainda
desconhecidas, criar estruturas suficientemente robustas, onde seu “código
genético” estejam presentes as capacidades para lidar com situações incertas,
imprevisíveis, impossíveis de serem programas
Isto tudo é sem dúvida um
desafio sem precedentes. Mas temos que começar a enfrentá-lo com coragem e
obstinação. As explorações iniciais levam-nos a conclusões importantes,
singelas diante do problema, mas animadoras dentro de uma perspectiva de longo
prazo. Neste empreendimento também, usando as palavras do Dr W. Edwards Deming,
o grande gurú da qualidade, “é preciso ter constância de propósito”.
Este trabalho teve o
propósito de discutir a mortalidade empresarial, e analisar os fatores que propiciam sua longevidade, a caminho da
imortalidade. Desta forma, procura-se contribuir para a criação de uma “Teoria
da gestão da imortalidade empresarial”, que busca romper com o ciclo de vida
determinístico: nascimento, juventude empreendedora, maturidade estável e
declínio no ocaso da vida. Assim, partiu-se da hipótese de que a empresa não
tem necessariamente que morrer, e procurou-se investigar os fatores que
condicionam a gestão da imortalidade empresarial.
Foram analisados casos de empresas cuja longevidade já é notável, e procurou-se entender os fatores comuns entre elas. Percebeu-se que existe um padrão comum de comportamento, podendo-se destacar:
·
A
análise das lições do passado, para avaliar mais eficientemente as propostas atuais
de estratégia e renovação - buscar na história critérios que ajudem a
sobreviver;
·
A
preocupação em melhorar “a etapa infantil” da vida das empresas - onde está o
maior risco de morte.
·
A
busca da evolução e avaliação da possibilidade de migração quando as condições
mudarem.
·
A
adoção da aprendizagem organizacional como diretriz para a evolução a longo
prazo.
·
A
redução da burocracia e preservação da
autonomia e poder local
·
A
busca de forças de capacitação distintas, baseadas em relacionamentos com clientes,
fornecedores e empregados.
·
A
criação de relacionamentos baseados em confiança e continuidade, de modo a
prover respostas flexíveis e cooperativas à mudança.
·
A
promoção de relacionamentos interligados e resistentes (networks), fazendo com que um número enorme de pessoas e
organizações na sociedade precise que
elas tenham sucesso, condicionado a seu próprio sucesso pessoal.
·
A
aceitação de que a organização é uma entidade viva, porém sobre-humana.
·
A
consciência de que problemas gerenciais -
mismanagement (não gestão) -
não implicam necessariamente que a empresa desapareça em virtude de uma crise.
É possível ultrapassar as crises, sufocando as causas, mas os problemas de fundo não podem permanecer sem solução. A continuidade dos processos e
a longevidade empresarial remetem a
crise à latência e todas as suas conseqüências, dentre as quais o seu
ressurgimento ainda mais violento e intenso, que torna vãs quaisquer
iniciativas de novamente sufocá-la. A preocupação com o reconhecimento das
causas latentes de crise e sua correção
são fundamentais.
Finalmente, aqui temo o relato de um estudo exploratório, que pretende ser o início de uma linha de pesquisa sobre a imortalidade empresarial, onde serão avaliados casos específicos de organizações seculares brasileiras, e mesmo estrangeiras – globais ou não, que têm se destacado por sua força, longevidade, capacidade de adaptação e evolução ao longo das crises históricas do país e do mundo.
7 –
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