PES 03-04

O PROCESSO DE VERTICALIZAÇÃO DO BAIRRO PRAIA DO CANTO EM VITÓRIA – ES: UM ESTUDO DE CASO

Eduardo Rodrigues Gomes1

1. Introdução

O processo de verticalização representa uma das características marcantes dentro da urbanização brasileira. Sendo esse processo para SOUZA (1994, p 129) uma especificidade dessa urbanização.

Essa nova forma de se morar - a verticalização - transformou, e vem transformando, o espaço urbano de muitas cidades brasileiras - sejam essas grandes metrópoles, centros urbanos regionais ou cidades médias.

“A verticalização é reconhecidamente um fenômeno do século XX, processo também centenário, como o Novo Arrabalde2, tendo projetado mundialmente Nova Iorque a partir do final do século XIX, sendo nas últimas décadas, um elemento marcante da metropolização brasileira”. (MENDONÇA, 1997, p 24)

O objetivo do presente trabalho consiste em um estudo de caso sobre o processo de verticalização na Praia do Canto, bairro localizado na zona leste do Município de Vitória, abordando o período de 1970 até o presente. É importante ressaltar que esse trabalho – que é baseado no nosso projeto de pesquisa de dissertação de mestrado em geografia – limita-se a descrever as etapas do processo de verticalização, pois parte de um projeto mais amplo que será desenvolvido ao longo da nossa dissertação.

Como objetivo geral pretende-se prestar uma contribuição aos estudos que elegem o tema em destaque como objeto de análise, pois de acordo com SOUZA (1994, p 129) são “pouquíssimos e raros os estudos sobre verticalização no mundo”.

A seguir será desenvolvida uma breve revisão teórico-conceitual buscando evidenciar a temática em questão.

Segundo SOARES e RAMIRES (1995, p 30), “o processo de verticalização não é uma consequência natural da urbanização, mas uma das possíveis opções traçadas e definidas pelos diferentes atores sociais e interesses econômicos que envolvem a estruturação interna das cidades”.

MACEDO (1987) apud RAMIRES (1997, p 10), descreve que,

“Verticalizar significa criar novos solos sobrepostos, lugares de vida dispostos em andares múltiplos, possibilitando pois, o abrigo, em local determinado, de maiores contigentes populacionais do que seria possível admitir em habitações horizontais, e por conseguinte valorizar e revalorizar estas áreas urbanas pelo aumento potencial de aproveitamento”.

Para SOMEKH (1987, p 72) “o termo verticalização foi definido como possibilidade de multiplicação do solo urbano permitida pelo elevador”.

RAMIRES (1998, p 77) lembra que “o termo verticalização não aparece nos dicionários da língua portuguesa evidenciando os poucos trabalhos sobre o tema”. Apesar disso o mencionado autor aponta que,

“O processo de verticalização já ganhava destaque em nosso país nos anos 20, com prédios altos, como o edifício A Noite, inaugurado em 1927, no Rio de Janeiro, com 22 andares, sendo considerado o prédio mais alto do mundo em concreto armado nos anos 30. Em 1929, foi inaugurado o prédio Martinelli em São Paulo superando A Noite por apenas alguns metros”. (RAMIRES, 1998; p 77).

Sobre os estudos de verticalização já foi mencionado que são poucos e raros no mundo. SOUZA (1994, p 129), destaca que, “... a bibliografia de que se dispõe é sobre a construção de edifícios, e não sobre o processo de verticalização, portanto uma bibliografia mais vinculada a arquitetura e a engenharia”. Para RAMIRES (1998, p 99), “no Brasil os estudos sobre a verticalização ganham destaque a partir dos anos 80. É nessa década que são realizados os primeiros estudos acadêmicos com destaque para a defesa das dissertações de HOMEM (1982) e SOMEKH (1987), e a tese de Livre-Docência de SOUZA (1989)”.

Segundo SOUZA (1994, p 129), o trabalho de Somekh é importante porque foi um dos primeiros a evidenciar a importância do estudo da verticalização, “esse trabalho procura responder a questões fundamentais de como, quando e onde surgem os edifícios em São Paulo e quais as causas do processo de verticalização”.

SOMEKH (1997, p 20) estabelece uma data como marco do início da verticalização em São Paulo,

“Para a verticalização de São Paulo foi adotado o ano de 1920 como o marco incial de periodização, pois nesse ano é promulgada a lei no 2332, e é nessa década que se desenvolve a regulamentação das alturas dos edifícios e do uso do elevador, elemento central no processo”.

Nos centros urbanos brasileiros, o crescimento vertical, segundo MEDEIROS e SOARES (1996, p 156), apresentam “peculiariedades que, historicamente, modificaram o modo de se viver nas cidades, pois os grandes edifícios deram uma nova forma aos contornos urbanos e a sua espacialidade”.

No processo de verticalização das cidades brasileiras, apesar de algumas experiências isoladas vinculando esse processo com as camadas populares, de acordo com RAMIRES (1998, p 78), “o que se configurou desde o início desse processo foi a difusão de uma nova forma de morar para as classes mais abastadas”.

A verticalização no Município de Vitória foi – e continua sendo, como será visto posteriormente no caso do bairro da Praia do Canto – desde o início de seu surgimento, caracterizada como moradia para as classes sociais de maior poder aquisitivo.

2. O Início da Verticalização em Vitória

O início do século XX em Vitória foi marcado por graves problemas financeiros em conseqüência da crise do mercado internacional do café. Isso refletiu-se diretamente nas obras de urbanização que se iniciaram no final do século XIX.

“Só a partir de 1911, com uma pequena estabilidade dos problemas, é que estas obras retomam seu caminho. Por um lado a cidade cresce e se adapta a este desenvolvimento mas, por outro, se modifica perdendo suas características coloniais” (CARVALHO e ROTHSCHAEDL, 1994, p 14).

É importante ressaltar que nesse período de equilíbrio nas finanças quem governa o estado é Jerônimo Monteiro3 entre 1908 e 1912. CAMPOS Jr (1998, p 94) lembra que “o processo de transformação do centro começou com as iniciativas de Jerônimo Monteiro”. Esse período é marcado pelas alterações na organização espacial do núcleo urbano da cidade de Vitória com serviços urbanos e melhoramentos em infra-estrutura. Foram implantados serviços de limpeza urbana (coleta do lixo), saneamento (água encanada e esgoto) e eletrificação (tanto para as residências como para os bondes).

A implantação desses serviços também é destacada por MENDONÇA (1985, p 38) quando a autora afirma que,

“A urbanização nesse período ocorreu de forma tão acelerada, que provocou no poder público a preocupação quanto à implantação de determinados serviços, visando a melhoria nas condições em geral, instalando o serviço de limpeza pública, coleta de lixo e dando continuidade às obras de infra-estrutura urbana iniciadas no final do século anterior”.

Nesse momento em Vitória a elite local ligada à comercialização do café tem uma forte participação no planejamento da cidade passando a intervir nas decisões do governo, porque era de interesse dessa classe que ali residia, modelar e transformar a cidade de acordo com as suas necessidades.

Por isso, concordamos com MUNIZ (2000, p 40) quando descreve que,

“As transformações urbanas em Vitória, que ocorreram nas duas primeiras décadas do século XX foram motivadas muito mais pelo pensamento de progresso da elite dominante que assumiu o poder na República e pelo desejo de romper com um passado considerado vergonhoso, do que propriamente pela procura de soluções para dotar a cidade de melhorias para a vida de sua população.[...] Assim, no governo de Jerônimo Monteiro, as necessidades de mudanças na cidade encontraram eco no pensamento da elite dirigente do Estado”.

Na década de 1920 ocorreu uma diversificação da produção e uma reorganização do espaço capixaba em função da economia cafeeira “que viabilizava a política das famílias dominantes da cidade, de transformar o centro de Vitória numa praça comercial e num corredor de exportação” (MIRANDA, 2000, p 44).

Outros autores também destacam a importância da década de 1920 para o centro de Vitória, principalmente no governo de Florentino Avidos (1924 a 1928). De acordo com MARTINS (1993, p 96) “...foi na década de 1920, com a valorização do café, que o centro de Vitória sofreu em ritmo acelerado e caótico sua maior transformação urbanística”. Para CARVALHO e ROTHSCHAEDL (1994, p 15) “ é somente a partir de Florentino Avidos que Vitória passa a ter novamente impulso na sua urbanização”. O governo de Florentino Avidos foi importante tanto para o centro – com o alargamento de suas ruas estreitas, demolições de casarios coloniais, contruções de prédios para atividades culturais (Teatro Glória, Teatro Carlos Gomes) e a remodelagem da principal avenida da cidade, a av. Jerônimo Monteiro4 – como para toda a cidade de Vitória.

Com esse governante a cidade ganha ligação com o continente ao sul com a construção de pontes metálicas, são aterradas áreas de mar e construídas novas instalações para abrigar o porto, promove-se a expansão do núcleo urbano para o norte da cidade com a ocupação das áreas do Novo Arrabalde e também construi-se um conjunto habitacional onde atualmente está localizado o bairro Jucutuquara. O acesso para esses novos bairros foi melhorado com o aumento das linhas de bonde.

Ao final da década de 1920 houve uma mudança na urbanização de Vitória conforme pode ser observado abaixo nas palavras de MENDONÇA (1985, p 39), “como consequência da queda do café, após a crise de 1929, as obras de melhoramentos iniciadas na capital foram interrompidas e o processo de urbanização de Vitória ocorreu, até a década de 50, de maneira mais lenta do que no período anterior”.

Na década de 1940 a urbanização de Vitória e principalmente do centro ganha novo fôlego com a elaboração do primeiro Plano Diretor para cidade em 1947. “Consta desse plano, uma série de pequenas intervenções que, terminam com os últimos resquícios da Vitória antiga” (ALMEIDA, 1986, p 109). Esse plano também ficou conhecido como Plano Agache por ser supervisionado pelo urbanista Donat Alfred Agache. Ao lado das pequenas intervenções na cidade, o Plano Agache também propôs um novo aterro junto a baía de Vitória – na Esplanada Capixaba –, com isso incorpora-se à cidade uma área de cerca de 96.000 m2 que favorece a ampliação tanto do porto como das áreas edificáveis em Vitória.

Podemos observar em vários momentos da formação urbana do centro de Vitória a influência que os aterros exerceram na sua organização espacial. No final da década de 1940 esses aterros transformaram de forma definitiva o perfil de centro de Vitória. O aterro da Esplanada Capixaba, segundo ALMEIDA (1986, p 110), “ao mesmo tempo em que viabiliza o plano de urbanização de Vitória, abre espaço à reprodução do capital comercial local que passa a investir no mercado imobiliário”.

É a partir desse momento de acordo com CARVALHO & ROTHSCHAEDL (1994, p 18) que “o mercado imobiliário passa a investir diretamente na cidade, trazendo significativas alterações em sua conformação”. Essas alterações se referem principalmente a um processo que estava nascendo no centro da cidade: a construção verticalizada do edifício5.

“No final da década de 40 e início dos anos 50 a construção civil experimenta contratos de maior expressão e lança-se no mercado, construindo edifícios para o aluguel. Foram edificados quatro prédios com essa finalidade, que por sua vez, marcaram o início da verticalização em Vitória. Foram o Edifício Antenor Guimarães6 que fica na Costa Pereira. Edifício Rocha, situado em cima do antigo cinema São Luís, na rua 23 de Maio, e os Edifícios Alexandre Buaiz e Murad, ambos localizados na avenida Florentino Avidos” (CAMPOS Jr, 1998).

A legislação também foi importante para esse mercado imobiliário em formação pois “... incentiva a verticalização, que se valia do aprimoramento das técnicas construtivas e equipamento, para elevar os gabaritos no centro histórico, repercutindo na valorização do solo” (MIRANDA, 2000, p 48).

O processo de verticalização que se inicia na área central da cidade até meados da década de 1950, apresenta uma configuração predominantemente baixa. Nas palavras de CALDEIRA FILHO (1992, p 59) nesse período, “a verticalização ainda era um fenômeno muito incipiente, onde um ou outro prédio mais alto despontava na cidade. Ainda não existia um conjunto significativo de edifícios verticais capaz de mudar a paisagem urbana”.

Para GONÇALVES e PRADO (1995, p 82) “o processo de verticalização só vai se firmar com o término das obras do aterro da Esplanada Capixaba e o surgimento do capital imobiliário”.

Esse novo capital que surge se consolida na década de 1960 com a expansão da construção civil para fins residenciais. É importante destacar que ainda nessa década a expansão da cidade, bem como o seu processo de verticalização se restringia ao centro de Vitória. “A expansão de Vitória era ainda, a expansão do próprio centro, pela urbanização da Esplanada Capixaba” (MENDONÇA, 1996, p 15).

A verticalização se intensifica na década de 1960 com a influência mais uma vez da legislação que

“... referente, a limites de gabarito é alterada sucessivamente, permitindo, por exemplo, que se aumente primeiro em 100% e logo em a seguir, em 150% o limite máximo de altura dos prédios. A legislação determina, ainda, para os prédios a serem construídos na Esplanada, o limite mínimo, obrigatório, de 12 pavimentos” (ALMEIDA, 1986, p 116).

MARTINS (1993, p 17) retrata a intensificação da verticalização nessa década quando se refere as duas rupturas arquitetônicas de Vitória que ocorreram na avenida Jerônimo Monteiro – a principal via do centro:

“A primeira ruptura ocorreu no início do século XX, quando o estilo eclético procurava negar o passado colonial. E a segunda, a partir da década de 60, quando edifícios de vários andares passaram a ocupar seus quarteirões”.

Na década de 1960 também ocorre a apropriação do centro pelo setor terciário, com a valorização dos seus imóveis urbanos, excluindo a classe de baixo poder aquisitivo da possibilidade de comprar suas moradias.

A principal conseqüência dessa valorização e a posterior exclusão dos pobres do centro da cidade foi, segundo CARVALHO e ROTHSCHAEDL (1994, p 46), “o início das invasões das áreas de propriedade pública e privada normalmente próxima ao centro”. Para as referidas autores, essas invasões provocaram uma ocupação desordenada que acabou contribuindo para a deterioração da vida urbana da cidade.

Paralelamente a essa ocupação desordenada ocorre a ocupação dos espaços livres do centro, pelo setor informal do comércio, formado pelos trabalhadores desempregados e subempregados que ficaram à margem do desenvolvimento do setor terciário no centro. Isso tudo repercute,

“... com todas as suas conseqüências, na saída do centro, da elite que ali residia e que se transfere para a ‘nova cidade’, construída pelo setor imobiliário na zona norte, junto às praias, que se torna a área nobre da cidade. O centro, assim, com a desvalorização dos imóveis, decorrente desse processo, passa a ser local de moradia das classes média e baixa. A ocupação dos morros se acelera, bem como a transformação de muitos prédios em cortiços” (ALMEIDA, 1986, p 123).

Dentro dos bairros que compõem o que a autora acima denomina de zona norte da cidade junto as praias, está localizado o bairro da Praia do Canto.

A Praia do Canto na área próximo as praias, foi o primeiro bairro a apresentar uma representativa verticalização a partir da década de 1970, quando esse processo já estava consolidado no centro da cidade.

O processo de verticalização encontrou no bairro condições propícias para sua realização, conforme apontam CASER & CONDE (1994, p 51), as “primeiras áreas visadas para este processo são as consideradas “nobres” em áreas de grande residências, ruas arborizadas, que possuam infra-estrutura. Este era o cenário da Praia do Canto no início da verticalização”.

3. O Processo de Verticalização no Bairro da Praia do Canto

A Praia do Canto foi um dos primeiros bairros planejados de Vitória. Ele é parte do projeto do Novo Arrabalde, concebido em fins do século XIX – mais precisamente no ano de 1896 pelo engenheiro sanitarista Francisco Saturnino de Brito – na gestão do então governador Muniz Freire (1892 - 1896), e executado e ocupado a partir de 1926. CAMPOS Jr (1998) endossa o que foi dito acima quando destaca que,

“O projeto do Novo Arrabalde, de Sartunino de Brito, que propunha dotar a capital capixaba de um área de expansão urbana em condições adequadas de salubridade, apesar de ter sido a primeira intervenção planejada na capital – foi concebido em 1896 – e de possuir técnica apurada de saneamento, semelhante à utilizada nas principais cidades do mundo, enfim um projeto exemplar para a época, que expressa no seu desenho o ideário positivista e valoriza a estética, no entanto sua área só foi ocupada, e portanto incorporada à malha urbana, a partir dos anos 20 e 30, ainda que timidamente”

O projeto de Saturnino de Brito era algo em torno de cinco a seis vezes a área então ocupada por Vitória, essa nova área ocuparia a parte lesta da ilha. Previa a construção de uma estrada de ligação (bairro-centro), um sistema de captação de água, tratamento e aproveitamento de esgotos, construção de hospitais, igrejas, cemitérios, parques e jardins públicos.

O projeto do Novo Arrabalde era separado em áreas ou zonas, sendo formado por uma área residencial, onde estava localizado o bairro da Praia Comprida7, atual Praia do Canto; de uma área para produção agrícola e uma outra para a construção de uma vila operária.

Sobre esse zoneamento de áreas no Novo Arrabalde, MENDONÇA (1999, p 184) descreve que,

“identifica-se, desde então, uma espécie de zoneamento de áreas, onde já estaria determinada, no projeto, a Região que se tornaria nobre no bairro, a que alcançaria maior valorização. Este vai ocorrer no Novo Arrabalde propriamente dito e nele, no setor litorâneo mais afastado do Centro, correspondente à Praia Comprida, atualmente denominada Praia do Canto”.

Foi após a execução do projeto, a partir da década de 20 que se verificou, conforme MENDONÇA (1999, p 186), um aumento significativo na aquisição de lotes8 na então Praia Comprida.

As residências construídas nesses lotes a partir dessa década eram unifamiliares. “As casas construídas até a década de 1940 resultaram de ‘cópias’ e influências de casas de outras capitais como o Rio de Janeiro e São Paulo”. (CASER e CONDE, 1994, p 30).

Acredita-se que desde o início da concepção do projeto do Novo Arrabalde que o bairro da Praia do Canto se destacaria como uma área nobre, sendo a mais privilegiada do projeto9. Para ABE (1999, p 526), “... o bairro da Praia do Canto foi escolhido pela elite como alternativa ao Centro como moradia, sendo até os anos sessenta o seu uso exclusivamente residencial, apesar de dispor de quase toda infra-estrutura”. A partir da década de 1960 foram construídas as primeiras residências multifamiliares no bairro10. No entanto, conforme BRINGUENTE (1995, p 11),

“... o processo de ocupação da Praia do Canto com residências multifamiliares inicia-se com investimento em edifícios com poucos andares, dentro do permitido pela legislação, sem maiores imposições que tornassem inviáveis este início do processo de verticalização do bairro”.

Apesar de serem construídos os primeiros edifícios na década de 1960, considera-se que o início expressivo da verticalização na Praia do Canto ocorreu na década de 1970, quando foram construídos um maior número de edifícios com quatro pavimentos.

Como foi mencionado anteriormente, o Centro de Vitória passou por um processo de ocupação desordenada provocando uma sensível deteriorização de suas residências além de um número crescente de disfunções que passaram a se desenvolver pela excessiva concentração de atividades centrais. Com essas transformações no Centro procura-se, a partir de então, de acordo com ABE (1999, p 410), “... alternativas para sua expansão e foi, nesse momento11 que as classes de maior mobilidade estavam se mudando para a face leste da Ilha de Vitória”.

Para BUFFON et al (1996, p 47), “a preferência para ocupação por parte do mercado imobiliário recai primeiro na Praia do Canto”. A partir desse momento, o bairro passa a ser “a menina dos olhos” do mercado imobiliário de Vitória.

Isso ocorreu, conforme CASER e CONDE (1994, p 60) porque, “... nessa época, a Praia do Canto era um bairro dotado de infra-estrutura, com residências de bom padrão, com áreas vazias propícias para a ocupação, despertando o interesse do mercado, passando a sofrer uma grande demanda de moradia”. Para MENDONÇA (1997, p 23), “... a Praia do Canto passou a local preferido para construção de edifícios na década de 1970, assimilando o modelo habitacional até então experimentado no Centro: o apartamento”.

Apesar de, no início da década de 1970, uma faixa ao longo de sua orla ser aterrada, possibilitando a ampliação da área para as construções verticais em frente ao mar, esse período foi marcado pela predominância de casas12.

É somente na segunda metade da década de 70 que, de acordo CASER e CONDE (1994, p 66), “iniciou-se uma crescente verticalização no bairro, aumentando o número de moradores na Praia do Canto”.

ABE (1999, p 526) lembra que “foi no final dessa década de 1970 que começaram a surgir os edifícios com elevadores”13. Primeiro, de acordo com BUFFON et al (1996, p 48), “vem os edifícios residenciais e posteriormente o comércio, os serviços e as atividades institucionais”.

Essa verticalização que se inicia nesse período provocou, conforme mencionado, um aumento do número de moradores na Praia do Canto. Com uma população cada vez maior, o bairro necessitava de ter um comércio e serviços diversificados que atendesse as necessidades dos seus moradores.

Foi a partir desse momento, como lembram CASER e CONDE (1994, p 74) que a Praia do Canto passou a sofrer uma forte transformação no que diz respeito ao uso:

“A transformação do uso foi verificada na necessidade de se ter um comércio e serviços variados na região da Praia do Canto. Havia um número grande de moradores que precisavam se deslocar até o centro da cidade para comprar roupas, sapatos e procurar atendimento médico, etc. A ocasião, então era propícia para que este tipo de comércio e serviços se estabelecesse na Praia do Canto. Um fato que marcou o início dessa nova fase foi à inauguração do Centro da Praia Shopping, na avenida Nossa Senhora da Penha”.

A construção desse edifício (o Centro da Praia Shopping) na avenida Nossa Senhora da Penha estabeleceu, segundo BUFFON et al (1996, p 49), “um marco que iniciou a consolidação do comércio e dos serviços na Praia do Canto, o referido edifício especializou, na sua proximidade, uso do eixo da av. Nossa Senhora da Penha”.

A partir da década de 80, a verticalização se intensificou na Praia do Canto. Esse aumento das construções verticais no bairro foi favorecido pela criação do Plano Diretor Urbano de Vitória em 1984.

O PDU/84 (como ficou conhecido) propôs algumas alterações nas construções de edifícios em Vitória, repercutindo em especial na Praia do Canto, como por exemplo:

- O PDU estabelece o gabarito máximo de três pavimentos de uso comum destinados ao lazer (1 pavimento) ou à garagem (2 pavimentos) e além desses pavimentos, podem ser construídos doze pavimentos de apartamentos, mais um apartamento de cobertura com 50% de área do pavimento tipo.

Nessa década, para ABE (1999, p 377) ocorreram,

“...profundas transformações, verificando-se um intenso processo de verticalização com a edificação em seu interior de prédios de apartamentos e, em suas avenidas, a construção de edifícios de escritórios, centros comerciais e outros usos que caracterizam a mudança para esse bairro, de algumas das atividades do Centro histórico”.

Do início da década de 1990 até o presente o bairro conhece o auge do seu processo de verticalização. A partir de então a Praia do Canto torna-se, um dos bairros mais verticalizados de Vitória.14

4. Considerações Finais

A urbanização da cidade de Vitória passou por vários estágios que se refletiu fortemente na sua organização espacial. Podemos dividir em três estágios o desenvolvimento urbano de Vitória. O primeiro inicia-se com a formação de um núcleo inicial após a fundação da Vila de Nossa Senhora da Vitória (como era chamada a cidade) em 1551, esse estágio ficou marcado pela influência da Igreja na formação espacial da cidade que se restringia a sua parte alta. Já nesse período os aterros representavam uma forma de ampliação do núcleo inicial.

O segundo estágio teve início com a proclamação da República em 1889 indo até a década de 1950 do século XX. Foi com estágio que Vitória, principalmente sua área central, passou por importantes transformações urbanas, modificando as características coloniais que a cidade apresentava. Nesse período o destaque recai para o governo de Jerônimo Monteiro que promove grandes obras de infra-estrutura na capital. Com esse governante iniciou-se o processo de transformação urbanística do centro de Vitória.

O último estágio, a partir da década de 1950 em diante, é o mais representativo para o nosso trabalho, pois tem início nesse período a verticalização das construções em Vitória. O processo de verticalização alterou profundamente o espaço urbano do Centro de Vitória e desde o início de sua formação esteve relacionado com a elite capixaba que primeiramente construiu edifícios com destinação para o aluguel.

A década de 1960 marcou a consolidação da verticalização no centro bem como o crescimento do comércio nessa área. A partir desse momento ocorre também uma ocupação desordenada – tanto do comércio informal como das invasões próxima ao centro – provocando o deslocamento da elite que residia nessa área.

O mercado imobiliário também “desloca-se” junto com essa classe para a parte leste da ilha – onde está a Praia do Canto – levando consigo o processo de verticalização, que começa a se destacar nesse bairro na segunda metade da década de 1970.

A verticalização na Praia do Canto, como no Centro da cidade, tornou-se uma especificidade do processo de urbanização de Vitória, assim como em outras cidades brasileiras que foram marcadas por esse processo de crescimento vertical das construções.

Notas

1 Mestrando do Instituto de Geografia da Universidade Federal de Uberlândia. E-mail: edugeoufes@bol.com.br voltar

2 O projeto de Um Novo Arrabalde será descrito posteriormente. voltar

3 “A transição mais efetiva da cidade colonial para capital moderna se deu durante a gestão de Jerônimo Monteiro” (GONÇALVES & PRADO, 1995, p 74). voltar

4 Para ALMEIDA (1986, p 100) “a importância da av. Jerônimo Monteiro, enquanto via central é reforçada pela presença da capital comercial que nela se fixara, enquanto ponto estratégico para sua realização e que com os investimentos do poder público tem o seu potencial incrementado”. voltar

5 Vamos considerar edifício o prédio com quatro pavimentos ou mais. voltar

6 “Este edifício, ao contrário dos outros, foi construído no final dos anos 30, vindo a ser o primeiro prédio alto construído em Vitória com seis pavimentos” (CAMPOS Jr, 1998, p 93). voltar

7 Segundo CAMPOS Jr (1996, p 192), o bairro da Praia Comprida compreendia a maior fração de área do Novo Arrabalde. “A sua área representa algo em torno de 35% da correspondente área do bairro em estudo”. voltar

8 “A partir da década de 70 esse lotes vieram a ser alvo de lucrativos empreendimentos imobiliários, através de construção de edifícios” (CAMPOS Jr, 1996, p 195). voltar

9 “Esse bairro se apresentava como um local privilegiado para os moradores que fossem ocupar essa área, devido a proximidade com as praias”. (GOMES, 2000, p 23) voltar

10 Segundo GOMES (2000, p 37), foram construídos 11 edifícios de 3 pavimentos e um edifício de 4 pavimentos na década de 1960. voltar

11 O autor refere-se ao final da década de 1960 e início da década de 1970. voltar

12 “A orla desse bairro , na sua fronteira com o canal da Baía, junto às ilhas de mar aberto, recebeu amplo aterro, para o qual foi elaborado um projeto urbanístico que previa principalmente usos residenciais e institucionais”. (ABE, 1999; p 410). voltar

13 “...ao mesmo tempo em que eram construídos o Praia Shopping, o Boulevard da Praia e o Centro da Praia, três empreendimentos de uso misto de porte elevado, este último de salas para escritórios .” (ABE 1999, p 526). voltar

14 Relacionada as modificações no Plano Diretor Urbano de Vitória, em 1994, nota-se uma sensível intensificação no processo de verticalização a partir da década de 90, em função das modificações propostas pela Prefeitura Municipal de Vitória que liberou a limitação do gabarito máximo (12 andares) para a altura das edificações. voltar

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