A MANCHESTER PAULISTA: IMAGENS HISTÓRICAS
DE MODERNIDADE NO MUNICÍPIO DE SOROCABA NO INÍCIO DO SÉCULO XX
Arnaldo Pinto Júnior*
“A idéia de um progresso da humanidade na história é inseparável da idéia de sua marcha no interior de um tempo vazio e homogêneo. A crítica da idéia do progresso tem como pressuposto a crítica da idéia dessa marcha.”
(Walter Benjamin, 1940)
“Soberbo panorama! Bellissimo e pittoresco quadro animado pela vida do trabalho, sentindo-se o palpitar das almas felizes; ouvindo-se os pulmões de aço das machinas colossaes e o vozear dos pulmões fortes dos operarios de todas as idades, fallando e casquilhando sadiamente, alegres na faina laboriosa de todos os dias, do romper ao pôr do sol!”
(Almanach
Illustrado de Sorocaba, 1914)
O
presente trabalho faz parte da pesquisa em nível de mestrado sob orientação da
Profa. Dra. Maria Carolina Bovério Galzerani na Faculdade de Educação – UNICAMP.
O
objeto fundamental desta pesquisa é trazer à tona a construção histórica das
imagens de modernidade no município de Sorocaba (a Manchester Paulista), presentes na mídia em geral, em materiais
escolares e nas vozes de moradores, imagens engendradas desde o início do
século XX na cidade.
Pretendo
nesta comunicação discutir alguns resultados da pesquisa até o momento,
destacando a concepção de modernidade que foi difundida através da imprensa na
cidade no início do século passado, problematizando suas idéias a partir de um
diálogo com os teóricos Walter Benjamin, E. P. Thompson, Michel Foucault e
Peter Gay.
A difusão de idéias que
tentavam relacionar imagens de modernidade capitalista à Sorocaba não
significou uma tarefa fácil nos primeiros anos do século XX. A elite liberal
buscou transformar a imagem de uma cidade de hábitos coloniais, marcados por
atividades de origem mercantilista, conhecida no país (ao menos nas regiões
Sudeste e Sul do Brasil) pelas suas feiras de muares, em uma cidade moderna, urbanizada,
adequada ao avanço do capitalismo no Brasil, voltada para a atividade
industrial com suas implicações mecânicas e maquínicas.
Provavelmente, boa parte dos próprios moradores da cidade não
associaram de imediato a idéia de cidade moderna, civilizada e
industrial à Sorocaba, resistindo ao discurso da modernidade por algum motivo.
Sorocaba
foi uma vila colonial portuguesa fundada por bandeirantes em 1654, que desde
meados do século XVIII desenvolveu atividades relacionadas ao tropeirismo e às feiras de muares, abastecendo nesse
período os mercados das áreas mineradores e regiões próximas. No século XIX,
com o desenvolvimento do cultivo do café, as feiras de muares da cidade
atenderam os mercados do Vale do Paraíba e, em menor escala, do Oeste Paulista.
Com a implantação das ferrovias para escoar as safras de café, as tropas de
muares perderam a primazia no transporte de carga no Sudeste, provocando a
lenta agonia da feira em Sorocaba.
Lutando para se desvencilhar
da imagem de centro comercial de muares surgida em meados do século XVIII,
alguns grupos da elite comercial, industrial e intelectualizada da cidade
estavam interessados na produção de uma “nova” imagem, que está relacionada com
os projetos de modernização do país, buscando explorar símbolos que representam
as idéias de novas tecnologias, de civilização e de progresso no período.
Grupos da elite liberal, a partir de seus interesses econômicos e tentando
acompanhar os esforços “renovadores” da república, indicam o sentido da idéia
de progresso associada ao crescimento do parque industrial têxtil. Na opinião
desses grupos, graças a força do “povo” sorocabano
empreendedor, a cidade deixou o atraso das feiras de muares, que acabaram
definitivamente em 1897, para produzir tecidos e transportá-los pelas linhas da
Estrada de Ferro Sorocabana. Os novos caminhos de ferro abertos na região desde
a década de 1870 com a inauguração da Sorocabana, foram
sedimentados com o desenvolvimento da produção têxtil industrial na cidade.
Contando com uma produção de algodão herbáceo na região, inicialmente exportado
para a Europa e EUA, o empresariado local pode investir na indústria têxtil sem
se preocupar com o fornecimento da matéria-prima. A mão-de-obra também não foi
problema. A cidade recebia, como boa parte do estado de São Paulo, grupos de
imigrantes que se ocupavam profissionalmente de atividades agrícolas,
industriais e comerciais. Dentro do projeto de desenvolvimento do país, a
cidade se mostrava integrada, ou até melhor, à frente segundo a versão da
imprensa e de outros progressistas sorocabanos. Essa elite ostentava dois
grandes símbolos da modernidade na época, as estradas de ferro com suas
locomotivas e os edifícios industriais, repletos de máquinas que produziam,
além dos tecidos, os sons e fumaças que encantavam os defensores da modernidade
na cidade.
O recorte temporal
privilegiado neste trabalho é a década que vai de 1904 a 1914 com o início da
Primeira Guerra, período significativo, onde a imprensa local faz as primeiras
referências à cidade moderna, a Manchester Paulista, “portadora” de novos benefícios para
todos os seus habitantes e para o desenvolvimento do país. Com o avanço do
sistema capitalista, o discurso da modernidade começa a sofrer algumas
variações importantes entre os órgãos da imprensa local.
A denominação progressista surgiu no
início do século XX, mais precisamente em 1904, quando Alfredo Maia intitula a
cidade como a Manchester Paulista,
época em que a cidade contava com quatro fábricas têxteis de grande porte
(Paulo da Silva, 2000). Segundo seus construtores e posteriores defensores da Manchester Paulista, Sorocaba mostrava
sinais de um salto qualitativo na sua produção econômica, em suas relações
sociais e no destaque político e cultural de seus moradores.
Entre as fontes já consultadas em
minha pesquisa, trouxe para esta comunicação um texto do “Almanach
Illustrado de Sorocaba” para 1914, por acreditar ser
um fragmento que trás importantes características do discurso de modernidade
capitalista que envolvia o imaginário burguês local e nacional da época. Além
de trazer informações que procuram confirmar a idéia de Manchester Paulista, esse almanaque apresenta em suas páginas fotos
com os seguintes temas, da paisagem urbana com seus prédios industriais, de
seus trabalhadores e das imponentes chaminés soltando o
fumaça negra. Estes temas procuravam demonstrar a atividade fabril, com a
intenção de corroborar na construção da
imagem de cidade moderna/capitalista. Quer dizer, como um veículo de
comunicação dinâmico para a época, o almanaque desenvolvia as idéias nos textos
e confirmava as mesmas com fotografias, instrumentos imagéticos que poderiam
alcançar até o grande público não alfabetizado, ou mesmo as pessoas não
familiarizadas com a língua e escrita portuguesa. No início do século XX,
Sorocaba é uma cidade onde se encontra, como em todo o estado de São Paulo, uma
quantidade considerável de trabalhadores nacionais e imigrantes, além das
figuras excluídas, que auxiliaram o desenvolvimento das atividades econômicas
realizadas em diferentes áreas do município. Esses agentes históricos também
eram alvos do discurso progressista da imprensa da cidade, na tentativa de
moldá-los como seres economicamente na sua utilidade máxima, mas politicamente
dóceis.
Com
a reprodução de fotos, o almanaque completa o seu
discurso escrito da Manchester Paulista.
Tão importante quanto as fotos, são as palavras simples, as “tentadoras
simplificações” (Peter Gay, 1988), que introduzem os conceitos de modernidade,
industrialização, progresso e civilização aos leitores, incluindo entre eles os
que sabiam ler e também os que sabiam ouvir. As idéias explicitadas por Camargo
Cesar, autor do texto publicado no almanaque de 1914,
trazem elementos fundamentais para entendermos as concepções de progresso,
industrialização, capitalismo, trabalho, civilização e história que as produtores e/ou defensores da Manchester Paulista procuravam construir.
“Sorocaba
Industrial” é o título do texto que Camargo Cesar
escreveu para o almanaque publicado na cidade em 1914. Através dele, podemos
verificar a preocupação do autor em confirmar as vantagens da industrialização,
os inúmeros benefícios e alguns problemas decorrentes da concorrência
capitalista para todos os países, ressaltando a capacidade do “povo” sorocabano
em dominar estas “novas” técnicas de produção, contribuindo assim para o
progresso de São Paulo e do Brasil. Sem muita modéstia, o autor exalta o papel
da cidade no desenvolvimento do estado de São Paulo, segundo ele, o ponto
máximo da expansão industrial brasileira. A exaltação do progresso de Sorocaba
ultrapassava os limites da cidade para difundir a “qualidade” dos produtos
locais em potenciais mercados consumidores.
As visões positivista e liberal
dominam as idéias de construção da modernidade na cidade. Criam-se textos que
reforçam a idéia de modernidade como verdade absoluta. Entre eles, o texto do
jornalista/historiador sorocabano caminha rumo ao cientificismo histórico
baseado na razão instrumental e na busca de ordem, progresso, civilização,
entendidos como adestramento do indivíduo às regras sociais. Camargo Cesar observa a cidade por um
ponto de vista onde ele acredita ser um espectador inatingível, neutro,
totalmente objetivo, livre de julgamentos de valor, para entender e dirigir aos leitores
de seus escritos o progresso de Sorocaba. Os olhares positivista e liberal
pretendem, mais uma vez, implementar a ordem moderna, isto é, o desenvolvimento
da indústria, da ciência, da técnica, não apenas no mundo da fábrica, mas além
dela.
A problematização do discurso da Manchester Paulista não nos remete somente ao passado, aos
interesses políticos, econômicos e sociais que contribuíram para a construção
desse discurso no decorrer do século XX. Explicitar as contradições internas da
Manchester Paulista é fundamental para
se compreender ideais e representações que ainda fazem parte do “olhar burguês”
sobre a sociedade. Esse olhar “superior, científico, verdadeiro, sempre voltado
para o futuro, para o progresso social”, construiu esse imaginário da Manchester Paulista industrial,
“empregadora”, “facilitadora de vidas” como também reafirmou a discriminação e
o preconceito social, afastou os negros e muitas vezes os trabalhadores
nacionais das tecelagens e de outros meios de convívio social, tecendo variadas
relações sócio-culturais.
AS “EVIDÊNCIAS” DA MANCHESTER PAULISTA E A SUA DECADÊNCIA
Durante a
maior parte do século XX, os moradores de Sorocaba se relacionam com a mídia
local reproduzindo a imagem moderna da Manchester
Paulista. Rádios, jornais, revistas, almanaques entre outros meios de
comunicação, “confirmavam” diariamente o progresso da cidade. Artigos
publicados em jornais, jogos de futebol transmitidos ao vivo via rádio, fotos
panorâmicas em revistas da cidade, isto é, vários suportes eram utilizados para
reforçar o imaginário da cidade industrial. Na perspectiva dos produtores da
modernidade capitalista, além da mídia, os moradores de Sorocaba poderiam
observar através das paisagens urbanas, representadas por grandes construções
fabris, edifícios de tijolos à vista, telhados ingleses e altas chaminés, a Manchester Paulista. Também chamava a
atenção dos moradores as sirenes dessas indústrias, potentes ruídos que
marcavam o tempo na cidade. Muitos moradores tinham as horas do dia
“controladas” através de seus relógios e das próprias sirenes que determinavam
os turnos de trabalho nas indústrias de tecelagem instaladas no município.
Pensando nas sirenes, desde às 4h30 da manhã até 11h
da noite era possível ouví-las nas regiões próximas
às fábricas, escutar os inúmeros toques de entrada e saída dos operários
durante o dia de trabalho.
O tempo
da cidade era o tempo regido pelas indústrias e suas sirenes, indústrias do
setor têxtil que dominavam a paisagem com suas chaminés e construções
características e, o som da cidade, com as sirenes. Assim, as fábricas Santa
Maria, Santo Antônio, Estamparia, Santa Rosália e Votorantim
(as maiores da cidade) anunciavam suas trocas de turno, horários de refeição,
etc., não só para seus operários, mas também para todos aqueles que estivessem
em suas cercanias.
Se
na Idade Média o tempo “era ritmado pelos sinos” das igrejas, segundo Jacques Le Goff (1983), em Sorocaba, a
população urbana de grande parte do século XX se acostumou a medir o tempo com
a ajuda das sirenes das fábricas. O tempo canônico da Idade Média regulou o
homem medieval junto às igrejas. O tempo capitalista industrial era determinado
em Sorocaba (como em outras cidades fabris) pelas indústrias que se instalaram
a partir do final do século XIX.
Com isso,
gerações de moradores acabaram se acostumando a observar o tempo não só através
dos apitos dos trens, a exemplo de parte das cidades do interior paulista, mas
também pelas sirenes dessas indústrias. Mesmo os habitantes que não trabalhavam
nesses estabelecimentos industriais tinham o seu tempo “controlado” pelas
sirenes. Porém, quando algumas fábricas deixaram de emitir os sons
inconfundíveis de suas sirenes, boa parte da população sorocabana perdeu uma
importante referência de tempo no seu cotidiano. Tanto os relógios de pulso
como os de parede eram, sem dúvida, fundamentais para a observação das horas,
mas parte significativa da população confirmava a precisão de seus relógios com
o som das sirenes.
Marca
determinante de um período da história da cidade, as indústrias têxteis foram a fonte para a sobrevivência econômica de inúmeras famílias
e ponto de referência de tempo para habitantes em geral. Mas esse setor
econômico industrial da cidade de Sorocaba não conseguiu acompanhar o ritmo de
crescimento dos concorrentes em outras regiões do país.
Nas
décadas de 70, 80 e 90 do século XX, a cidade, que era acostumada a “ouvir as
horas”, sentiu a falta, uma após a outra, de “suas” sirenes, de seus relógios
sonoros. Nesse período, o parque industrial têxtil de Sorocaba foi perdendo
mercados dentro e fora do país. Com isso, as indústrias têxteis, que foram o
carro-chefe do crescimento sócio-econômico da cidade na primeira metade do
século XX, devido à concorrência e alegando a falta de recursos, não investiram
mais em novas técnicas de produção e acabaram perdendo ainda mais espaço nos
seus antigos mercados consumidores. Cada vez mais despreparadas para a
concorrência de mercado, essas indústrias diminuíram gradativamente sua
produção, fecharam postos de trabalho e terminaram encerrando suas atividades
nos últimos 20 anos.
Com
o fechamento dessas unidades industriais, não só postos de trabalho foram
fechados, como perderam-se algumas das referências que
faziam parte do imaginário da cidade. Muitos trabalhadores dessas fábricas mudaram
de atividade ou de cidade para encontrar novos empregos, porém, todos os que
viveram ou continuaram vivendo em Sorocaba não ouviram mais as sirenes
“avisando” que estava na hora de acordar, de sair para o trabalho, de almoçar
ou de voltar para casa. As rádios deixaram gradativamente de transmitir as
idéias sobre a cidade industrial têxtil. Os jornais, como a mídia em geral,
buscaram se adaptar ao novo contexto sócio-econômico de Sorocaba e deixando de
reproduzir a idéia de Manchester Paulista.
Como
exemplo desse declínio do setor industrial têxtil em Sorocaba verificado pela
imprensa recentemente, há uma reportagem de um jornal da cidade que afirma:
“Indústria Teba fecha
fábrica na cidade e encerra ciclo histórico”
“A diretoria do Grupo Braspérola,
proprietária da indústria Tecidos Barbéro
(Teba), confirmou ontem que fechará a fábrica
instalada no bairro Parada do Alto. A unidade local foi fundada há 52 anos pela
família Barbéro e emprega no momento 405
trabalhadores. A direção da empresa alega estar tendo prejuízos sucessivos e
que no Espírito Santo os incentivos fiscais são bem maiores, sobretudo em
relação ao ICMS.
O fechamento da Teba representa o fim do ciclo da indústria têxtil local,
pois é a única tecelagem em funcionamento em Sorocaba. Décadas atrás, a cidade
era conhecida nacionalmente por “Mancheter Paulista”
em razão do grande número de tecelagens que chegou a possuir. O próprio
processo de industrialização do município, no final do século passado, teve
origem com a instalação das indústrias têxteis, que dominaram a economia local
até a década de 60.
Os maquinários da Teba serão transferidos para Vitória, Espírito Santo, onde
está a matriz do Grupo Braspérola, maior produtor
nacional de linho.”[1]
“O
fim do ciclo da indústria têxtil” anunciado pelo jornal sorocabano Cruzeiro do
Sul apresenta aos leitores da reportagem uma concepção da história
sócio-econômica da cidade. Observamos, através da reportagem, a existência de
um passado industrial têxtil que surgiu no final do século XIX e que deixou de
ser a base econômica de muitas famílias de Sorocaba a partir da década de 1960,
quando da implantação de outros ramos industriais na cidade (autopeças,
siderurgia, fios e cabos, etc.), e que até 1999, deixa de existir por completo,
com o fechamento da última grande unidade industrial têxtil do município.
Sem
trabalhar com as diferenças ou semelhanças sociais, econômicas e tecnológicas
entre Manchester (inglesa) e Sorocaba, não explicitando quando e porque essas
cidades se aproximaram historicamente, a reportagem deixa dúvidas para o leitor
sobre a comparação. O atual leitor não consegue identificar os objetivos, os
elementos que contribuíram para que Sorocaba fosse chamada de Manchester Paulista. Seria essa
denominação uma honra ou uma crítica? Para as elites que procuraram construir a
concepção industrial da cidade no início do século XX, a denominação era uma
gloriosa vitória para uma cidade que buscava a modernização de sua sociedade em
um Brasil preocupado com o futuro.
Analisando
os números do desenvolvimento econômico de Sorocaba no século XX, notamos uma
lenta agonia das indústrias têxteis na cidade. Mas, enquanto as tecelagens
perderam sua importância no decorrer do século XX, a difusão da imagem de Manchester Paulista continuou acontecendo,
principalmente através da imprensa (jornais e rádios) e até mesmo nas escolas
locais, entre as décadas de 1960 e 1980.
Dentro
dessa perspectiva, a incompatibilidade entre o declínio do setor industrial
têxtil e a manutenção do discurso progressista baseado na imagem da Manchester Paulista é evidente. Além de
trabalhar historicamente com conceitos unidimensionais, lineares, excludentes,
a versão progressista da história da cidade ocultou informações que poderiam “desconfirmar”[2]
o conhecimento histórico que privilegiava a hierarquização do saber.
DOCUMENTOS E MEMÓRIAS LOCAIS
Os
documentos produzidos para conceber a modernidade capitalista de Sorocaba devem
ser lidos a contrapêlo (Walter Benjamin, 1985), com o
objetivo de observarmos elementos históricos que nos revelam o olhar do homem
comum da cidade, que experimentou variadas relações sócio-culturais, as quais
não estão presentes no interior da visão totalizante
da elite. Ao relacionarmos o processo de construção da representação histórica
da cidade, em sua perspectiva elitista, com as memórias coletivas da população
sorocabana, partimos para uma discussão da história local onde a versão
“oficial” será questionada, abrindo espaço para versões plurais que podem
aparecer no trajeto da pesquisa.
Quando
abordo o conceito de “cultura” imbricado no universo social, não pretendo
dividir minha abordagem em dois blocos distintos, que definem a cultura erudita
como a única responsável pela representação da Manchester Paulista, versus a cultura popular, que trabalha as
representações dos homens comuns como incapazes de se colocarem frente à força
do pensamento elitista. Esta posição me parece unidimensional, maniqueísta,
limitadora. Mesmo existindo uma clara diferença entre o modo de ver, pensar e
agir dos grupos sociais acima citados, acredito, como
Thompson, que:
“uma cultura é
também um conjunto de diferentes recursos, em que há sempre uma troca entre o
escrito e o oral, o dominante e o subordinado, a aldeia e a metrópole; é uma
arena de elementos conflitivos, que somente sobre uma
pressão imperiosa – por exemplo, o nacionalismo, a consciência de classe ou a
ortodoxia religiosa predominante – assume a forma de “sistema”. E na verdade, o
próprio termo “cultura”, com sua invocação confortável de um consenso, pode
distrair nossa atenção das contradições sociais e culturais, das fraturas e
oposições existentes dentro do conjunto.”[3]
Não
posso analisar a construção da representação histórica de Sorocaba como uma
luta desigual entre uma classe (política e economicamente) dominante que impôs
sua versão histórica e uma outra classe, de trabalhadores desqualificados, sem
condições para impedir uma dominação em todas as esferas da sociedade,
inclusive no campo cultural. Estamos tratando de uma relação cultural dinâmica,
dialética, ora de aproximação e confronto ao mesmo tempo, de incessante
movimento entre um grupo que pretende manter sua posição sócio-política e suas idéias como “verdadeiras” e
outro interessado em sobreviver não só econômica, mas culturalmente.
Pensando
nos conceitos de “verdade” e “poder”, considero, como Foucault, que a pesquisa
entrará em uma área de combate histórico.
“Há um combate “pela
verdade” ou, ao menos, “em torno da verdade” – entendendo-se, mais uma vez, que
por verdade não quero dizer “o conjunto das coisas verdadeiras a descobrir ou
fazer aceitar”, mas o “conjunto das regras segundo as quais se distingue o
verdadeiro do falso e se atribui ao verdadeiro efeitos específicos de poder”;
entendendo-se também que não se trata de um combate “em favor” da verdade, mas
em torno do estatuto da verdade e do papel econômico-político que ela
desempenha.”[4]
A
“verdade” estabelecida pela história “oficial” está ligada à modernidade, ao
mundo capitalista industrial, ao desenvolvimento urbano, ao progresso
tecnológico (nesse sentido, a evolução social e econômica de Sorocaba parece se
adequar aos projetos e interesses daqueles que buscam identificar a cidade como
Manchester Paulista). Essa visão histórica tradicional não
identifica e valoriza a “experiência” do “outro”. Ela ressalta a importância
dos grandes homens, dos fatos que “mudaram o rumo da história da cidade”, a
ausência dos conflitos sociais. O progresso, segundo a mesma versão, chegou à
cidade e foi irresistível, irreversível.
Mas a
concepção de progresso que certos sorocabanos pregavam era preocupante, como
afirma Thompson:
“Porque o “progresso”
é um conceito sem significado ou pior, quando imputado como atributo ao passado (e essas atribuições podem ser
denunciadas, com razão, como “historicistas”), que só pode adquirir significado
a partir de uma determinada posição no
presente, uma posição de valor em busca de sua própria genealogia.”[5]
Desvalorizando
o sujeito histórico, as “minorias” e suas produções de conhecimento, a versão
“oficial” sobre a história da cidade seguiu uma linha
liberal/evolucionista/positivista que valorizou o progresso
científico, técnico e acabou hierarquizando as relações dos saberes.
Essa versão imputou adjetivos menores para o passado e privilegiou a acepção
dominante de modernidade, desqualificando o homem e suas relações
sócio-culturais.
Com tais paradigmas metodológicos, analiso a pluralidade das produções culturais, relativas à história de Sorocaba, e com a inserção da dimensão cultural no social, compreendendo a relação entre as diversas produções, os diversos saberes, como um cenário de embates, de lutas.
Buscando reverter a tendência de concepções históricas limitadoras, proponho a
utilização de documentos da história local em sala de aula, no trabalho com alunos
dos ensinos fundamental e médio. Para produzir conhecimento histórico a partir
do trabalho em sala de aula, a história local se apresenta como um caminho
importante para análises mais amplas. Como Marcos A. da Silva[6]
e outros historiadores já nos alertaram em relação aos preconceitos que
envolvem a história local nos meios acadêmico e escolar, acredito ser possível desmitificar teorias e conceitos universalizantes
através da elaboração de trabalhos históricos locais. Assim, a história local pode
ser utilizada não apenas para situar o aluno no seu tempo e espaço, mas também
para destruir visões homogeneizadoras que se propagam
com as versões históricas gerais[7].
Para
o estudo histórico ganhar fôlego, o trabalho com as memórias locais
enriqueceria as análises com o aproveitamento das “experiências vividas”[8].
Fazendo uso do termo benjaminiano, a valorização das
experiências pessoais em relação a uma especificidade social, é fundamental
para a tessitura de uma análise histórica ampla, que ouviria vozes esquecidas,
apagadas, dissonantes das versões generalizadoras. A recuperação de memórias
locais (sejam elas individuais ou coletivas), abriria perspectivas para
singularidades históricas muitas vezes descartadas pela história tradicional.
Observando
a especificidade de Sorocaba, apresento uma proposta de ensino de história
voltada para a recuperação das “experiências vividas” neste município, tendo
como hipótese para a discussão em sala de aula a idéia de modernidade,
veiculada na cidade desde o início do século XX por setores sociais que
proclamaram seu avanço através da denominação Manchester Paulista.
Entendendo que sinais do
passado estão imbricados na “realidade” sócio-cultural até hoje, considero
importante que os alunos possam questionar o discurso da Manchester Paulista, relacionando suas idéias fundamentais com a
“realidade” vivida por eles. Esse trabalho de reflexão histórica pode trazer à
tona alguns processos que não estão claros na história da cidade, ou por falta
de estudos daquele determinado momento ou por falta de vontade política em
esclarecer tal período. Problematizando o passado, os alunos terão condições de
compreender melhor as relações políticas e sociais que foram
desencadeadas na transição do centro urbano comercial, artesanal e agrícola
para o industrial têxtil.
Questionar
os documentos em relação à modernidade sorocabana no início do século XX pode
revelar como esse discurso foi introduzido, como ele ganhou espaço, quais
grupos o defenderam, quais grupos o repudiaram, como a Manchester Paulista resistiu ao tempo, aos inimigos, às
transformações tecnológicas e econômicas, quais as permanências desse discurso,
passados quase cem anos de seu surgimento.
Colocando
à prova o conjunto de informações de origem institucional, jornalística,
publicitária, política sobre a indústria na cidade, os alunos poderiam
confrontá-las com as levantadas na pesquisa de campo. Na prática de pesquisa,
os alunos, organizados em grupos para a pesquisa de campo, procurariam levantar
documentos locais e as memórias de pessoas que vivem na cidade para cruzar as
“evidências” encontradas durante o trabalho de busca. Com base em documentos
escritos, iconográficos, arquitetônicos, orais, etc. levantados, os alunos
poderiam resignificar a história da cidade com suas percepções,
num processo mediado pelo professor que estaria acompanhando os alunos em suas
análises e construções históricas, produzindo novos saberes sobre o município
em que residem.
Procurando outros meios para motivar os integrantes da comunidade escolar, acredito que o estudo da história local, a recuperação de suas memórias coletivas e o trabalho com documentos históricos podem favorecer o processo de ensino e aprendizagem, construindo outras formas de relação social dentro e fora da escola. Professores e alunos trabalhando juntos, despertando novas sensibilidades, criando maiores vínculos políticos, sociais e culturais podem respeitar a multiplicidade de opiniões, as memórias coletivas e o “outro” sem anular as singularidades dos sujeitos históricos, tanto do presente quanto do passado.
ALMEIDA, Aluísio de. História de Sorocaba. Sorocaba: Instituto Histórico, Geográfico e Genealógico de Sorocaba, 1969.
BENJAMIN, Walter. Obras Escolhidas I. Magia e técnica, arte e política; tradução de Sérgio Paulo Rouanet. São Paulo: Brasiliense, 1985.
BURKE, Peter (org.). A Escrita da história: novas perspectivas; tradução de Magda Lopes. São Paulo: Editora da UNESP, 1992.
CAMARGO Cesar, F. Sorocaba Industrial. In: “Almanach Illustrado de Sorocaba”. Sorocaba – SP: Gráfica XV de Novembro, 1914.
FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. Michel Foucault; organização e tradução de Roberto Machado. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1979.
GALZERANI, Maria Carolina Bovério. O almanaque, a locomotiva da cidade moderna: Campinas, décadas de 1870 e 1880. Tese de Doutorado. Campinas - SP: Dep. de História, IFCH, UNICAMP, 1998.
GAY, Peter. A experiência burguesa da Rainha Vitória a Freud: a educação dos sentidos. São Paulo: Cia. Das Letras, 1988.
GOUBERT, Pierre. História local. In: Revista História & Perspectiva. Nº 6. Uberlândia: Universidade Fed. de Uberlândia, Jan./Jun. 1992, pp. 45-57.
LE GOFF, Jacques. História e memória; tradução Bernardo Leitão. Campinas, SP: Editora da UNICAMP, 1990. (Coleção Repertórios)
____________ A civilização do ocidente medieval. Lisboa: Editorial Estampa, 1983, Vol. I.
SAMUEL, Raphael. História local e história oral; tradução de Zena W. Eisenberg. In: Revista Brasileira de História. Vol. 9, nº 19. São Paulo: ANPUH/CNPq/Marco Zero, Set. 1989/Fev. 1990, pp. 219-243.
SILVA, Marcos A. da. A história e seus limites. In: Revista História & Perspectiva. Nº 6. Uberlândia: Universidade Fed. de Uberlândia, Jan./Jun. 1992, pp. 59-65.
___________(coord.). República em migalhas: história regional e local. São Paulo: CNPq/Marco Zero, 1990.
SILVA, Paulo Celso da. De novelo de linha à Manchester Paulista.
Fábrica têxtil e cotidiano no começo do século XX em Sorocaba. Sorocaba, SP: LINC, 2000.
THOMPSON E. P. A miséria da teoria ou um planetário de erros: uma crítica ao pensamento de Althusser; tradução de Waltensir Dutra. Rio de Janeiro: Zahar, 1981.
___________ Costumes em Comum; revisão técnica Antonio Negro, Cristina Meneguello, Paulo Fontes. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.
* Mestrando da Faculdade de Educação - UNICAMP
[1] Reportagem do jornal Cruzeiro do Sul, Sorocaba, 29/05/1999, p. C-2.
[2] Segundo E. P. Thompson, “o falso conhecimento histórico está, em geral, sujeito à desconfirmação.” Thompson utiliza essa idéia quando se refere ao “tribunal de recursos disciplinar”, à dialética do conhecimento histórico. Cf. THOMPSON, E. P. Intervalo: a lógica histórica In: A miséria da teoria ou um planetário de erros: uma crítica ao pensamento de Althusser. Trad. de Waltensir Dutra. Rio de Janeiro: Zahar, 1981, pp. 47-62.
[3] THOMPSON, E. P. Costumes em comum: estudos sobre a cultura popular tradicional. São Paulo: Companhia das Letras, 1998, p. 17.
[4] FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. Org. e trad. de Roberto Machado. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1979, p. 13.
[5] THOMPSON, E. P. A miséria da teoria ou um planetário de erros: uma crítica ao pensamento de Althusser. Rio de Janeiro: Zahar, 1981, p. 53.
[6] Para o aprofundamento do estudo da história local, além de Marcos Silva, consultei outros autores que estão citados na bibliografia desse trabalho.
[7]GOUBERT,
Pierre. História local In: Revista
História & Perspectiva, Nº 6, p. 51.
[8] A historiadora Maria Carolina Bovério Galzerani se inspira no filósofo Walter Benjamin para construir uma proposta de ensino de história fundada na valorização de memórias coletivas no estudo da história local. Entre seus trabalhos, destaco O Almanach, a locomotiva da cidade moderna.