TEMPO, ESPAÇO, MEMÓRIA E IDENTIDADE NAS FOTOGRAFIAS DE SÃO GONÇALO

Luís Reznik[1]

 

            A reflexão que ora se apresenta é produto das atividades que desenvolvemos no Laboratório de Pesquisa Histórica, vinculado ao Departamento de Ciências Humanas da Faculdade de Formação de Professores da UERJ. Há cerca de cinco anos iniciamos estudos sobre a História de São Gonçalo, município sede desta Unidade universitária. Desde esta época, trabalhando com alunos estagiários e professores do DCH e do Departamento de Educação, elaboramos alguns produtos que imaginamos úteis para a comunidade acadêmica – Guia de Fontes para a História de São Gonçalo -, e para a sociedade em geral – Curso de Extensão para os professores das redes públicas estadual e municipal. Em fins do ano 2000, organizamos uma Exposição que permaneceu dois meses para visitação nas dependências da Universidade: Imagens de São Gonçalo. Fotografia e História. Utilizando os recursos de plotagem, agrupamos em 23 cartazes, 88 fotografias, distribuídas em sete módulos temáticos: “festas e comemorações”, “ruas e bairros”, “educação”, “trabalhadores”, “política”, “ícones”, “panorâmica”. Nossa intenção era sensibilizar o público, em sua maioria moradores deste que é o terceiro município mais populoso do Estado do Rio de Janeiro, com quase um milhão de habitantes, através das reminiscências fotográficas dos anos 1920 aos dias atuais. Nas palavras registradas na apresentação da Exposição:

“Épocas distintas são aqui retratadas. Registram tempos idos que se modificaram pela ação de homens e mulheres, nativos e adotados. As fotografias ilustram para o público aquilo que a sociedade gonçalense quis perenizar de si mesma, edificando imagens que nos abrem veredas de um passado atualizado pelas percepções do tempo presente”.[2]

            Registramos sensibilizados, os depoimentos emocionados de “jovens” e “velhos”, diante dos painéis, acerca do que era, do que se vivia, do que não é mais, das recorrências, permanências e diferenças. Essa emoção – agora, a nossa! -, nos forneceu as pistas daquilo que já vínhamos esboçando há meses: a perspectiva de itinerarmos com aquelas imagens, tão “caras” para aquele grupo. Esse é o nosso esforço presente. Forjamos uma parceria com a Secretaria Municipal de Educação de São Gonçalo que permitirá a permanência da Exposição em oito “escolas-pólo” do Município, por cerca de duas semanas, em cada local, durante este ano.

O nosso desafio é traduzir para os alunos das mais variadas séries das escolas municipais a proposta da exposição. Sejamos um pouco mais claros. Queremos proporcionar aos professores e profissionais das escolas, instrumentos de trabalho: de um lado, que permitam a fruição dessa rica troca cultural entre grupos e tempos distintos – impactar os estudantes, a partir de suas múltiplas apreensões -; de outro lado, instrumentos teórico-metodológicos que possam capturar essas falas diversas, através de atividades sistematizadas.

            O que iremos apresentar a seguir são os eixos norteadores desse “guia” teórico-metodológico, através da análise de algumas das fotografias.

 

            TEMPO

 

            Observemos a foto de abertura do módulo Festas e comemorações: “Primeira comunhão de alunos do Grupo Escolar Luiz Palmier na Igreja Matriz”.

“As festas, como comemorações, sejam elas religiosas, cívicas ou profanas, adquirem tantos sentidos quantos possam vir a ser criados pela repetição de rituais ou pela demarcação do início do novo”.[3]

Trata-se, sem dúvida de uma festa cíclica, pertencente ao universo de grande parte dos alunos/população gonçalense. A imagem pode parecer muito comum, muito atual à parcela daquele grupo. O “ontem” se emaranha com o “hoje”, com o “atual”, através das permanências de símbolos, rituais e significados. Dessa forma, à pergunta sobre quando aquela Primeira comunhão teria sido realizada, as respostas são, a priori, insondáveis. Pelo caráter do acontecimento, levando-se em conta o vestuário, a forma do grupamento, enfim, o ritual em si, muitos podem entendê-lo como “atual”, característico do tempo presente.

Semelhante apreensão podemos verificar quanto às fotografias de Carnaval nos anos 1950, ou às das Festas da Primavera da década de 1960, ou aos desfiles cívicos. São eventos que se repetem até os dias atuais, algumas vezes com formas e padrões muito similares, outros nem tanto. Bastante distinto talvez será a percepção da fotografia que expressa o “Lançamento da pedra fundamental da Casa da Criança”, na década de 1950 – fenômeno único, inaugurador, “demarcador do início do novo”. Por isso mesmo, o efeito poderá ser o da distância, de um tempo passado, que não retorna. [4]

Trabalhando com o conjunto das fotografias do módulo, poderemos questionar qual foto é mais antiga, de forma a propor uma seqüenciação – o que vem antes, o que vem depois. Ou por outra quanto tempo dura cada um desses fenômenos – quer isoladamente (quanto tempo dura uma cerimônia de Primeira comunhão, ou “um” Carnaval), quer como fenômeno presente na sociedade contemporânea (“o” Carnaval, “os” rituais de Primeira Comunhão, “o” desfile de Sete de Setembro etc.). 

Novamente, esperamos respostas variadas, pois são frutos das percepções particulares, produzidas pelas experiências vivenciadas por cada aluno, por cada grupo. Percepção fundamental que demonstra não existir um “tempo” absoluto, mas o apresenta como conceito, construção simbólica dos homens para expressar uma relação entre acontecimentos. Nas palavras de Norbert Elias:

“Em sua forma mais elementar, portanto, a operação de ‘determinação do tempo’ equivale a decidir se tal ou qual transformação, recorrente ou não, produz-se antes, depois  ou simultaneamente a uma outra. Consiste, por exemplo em avaliar o intervalo que separa uma série de transformações, graças a um padrão de medida socialmente reconhecido, como o intervalo entre duas colheitas ou entre uma lua nova e seguinte.”[5]

            Já agora,  é possível perceber  as datas que estão nas legendas e, enfim, fazer o mesmo exercício a partir  desse padrão de referência: os anos e as décadas. Dependendo da idade dos alunos, a brincadeira muda de figura...

 

ESPAÇO

 

“Reafirmando a cidade como espaço das permanências e mudanças, as imagens permitem um passeio pelas ruas e bairros de São Gonçalo em várias épocas. Focalizam uma paisagem que se urbanizou, evidenciando as vias públicas, o transporte, o comércio, os locais de lazer, espaços de aglomerados humanos e da multidão.”[6]

            São Gonçalo abrange, hoje, uma área considerável da baixada da Baía da Guanabara. Era designada, na documentação dos tempos coloniais, banda d’além; dirigentes políticos e acadêmicos a consideravam, no século XX, “cidade-dormitório”. Nos dois atributos, a referência é a cidade do Rio de Janeiro – o Município de São Gonçalo é caracterizado a partir de um outro espaço, na contraposição/complementaridade com o município vizinho –, centro político, comercial, administrativo.

            Nas fotografias das séries “Ruas e Bairros” e “Panorâmica” sugerimos um deslocamento da questão anterior. Pretendemos olhar para dentro do município, quer pelas paisagens macro, que são enquadradas pela memória, produzindo identidades, quer pelos recortes das ambiências micro, da cada rua, com seus pedestres, transportes, suas particularidades.

            O mesmo local transforma-se através do tempo. A justaposição das fotos da Praça Estephânia de Carvalho (início do século, 1961 e 1975) remete-nos ao exercício arqueológico, como se estivéssemos desvendando a estratigrafia daquele espaço. Vamos perseguindo as pistas do lugar, comparando o hoje com o ontem. Notamos a construção de novos significados para o mesmo espaço – como, por exemplo, passa a ser uma “praça”. Cabe aos alunos desvendarem os significados possíveis, através da leitura das fotografias, acerca dos signos aparentes em cada imagem: como homens, mulheres e crianças retratadas viviam. Aqui também, um exercício já proposto no item anterior: uma seqüência – o antes e o depois; permanências; diferenças essenciais – a área verde, as marcas das linhas de bonde, entre outras possibilidades.

            Nas inúmeras fotografias, as marcas de um outro tempo, no mesmo lugar: o comércio, outros automóveis, cinemas! (São Gonçalo chegou a ter 14 salas de cinema na década de 1950; na década de 1990, não restava nenhum).

            MEMÓRIA E IDENTIDADE -      (TEXTO INACABADO)


Primeira comunhão de alunos do Grupo Escolar Luiz Palmier na Igreja Matriz.

08/12/1958. Ribamar. Acervo MEMOR

 

Gare inicial da Estrada de Ferro Maricá e armazém, em Neves.

Década de 1920. Autor desconhecido. Acervo MEMOR.


Praça Estephânia de Carvalho. Inauguração de fonte sonora e luminosa.

1961. Autor desconhecido. Acervo MEMOR.

 

Grupo de motoristas de praça.

S/d. Sinésio Pires Cavalcanti. Acervo MEMOR.



[1] Professor Adjunto do Departamento de Ciências Humanas da UERJ.

   Professor do Departamento de História da PUC/RJ.

[2] Imagens de São Gonçalo. Rio de Janeiro: Decult/SR-3/UERJ, 2000, p. 1. Catálogo da Exposição. Curadoria: Haydée da Graça Figueiredo, Márcia de Almeida Gonçalves e Luís Reznik. Quero registrar que, assim como toda a organização da exposição (textos, legendas, imagens, mapa conceitual), as questões que irei perseguir neste texto foram gerados na discussão coletiva com as duas professoras acima mencionadas, pesquisadoras, junto comigo, da Linha de Pesquisa História de São Gonçalo.

[3] Idem, p. 3.

[4] Não é possível reproduzir as fotos aí mencionadas neste pequeno artigo. Todas elas estão expostas no Catálogo Imagens de São Gonçalo.

[5] Norbert Elias. Sobre o tempo. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998, p. 41.

[6] Imagens de São Gonçalo, p. 5.